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Como a anatomia de abelhas pode salvar a lavoura – e os biomas – das mudanças climáticas

Se uma área natural perde parte de sua vegetação e fauna originais, a simples contagem de espécies sobreviventes não revela a história completa da devastação. Junto com o que se perdeu, se esvai também a diversidade de formas e características físicas que compõem e garantem o equilíbrio dos ecossistemas.

Foi buscando resgatar esse tipo de pistas morfológicas que uma equipe de biólogos se engajou para investigar o passado e o futuro de insetos popularmente reconhecidos como guardiões da biodiversidade no planeta: as abelhas

Para entender como as mudanças climáticas e a destruição de hábitats ameaçam a sobrevivência desses polinizadores, a ciência precisa olhar para trás e investigar a jornada evolutiva esculpida em seus esqueletos. Essa é uma das premissas da fenômica, campo que estuda o fenótipo (a totalidade das características visíveis) com a mesma sistemática com que a genômica mapeia o DNA.

Imagem extraída de Lepeco & Almeida. Bulletin of the American Museum of Natural History (2026). doi: 10.1206/0003-0090.478.1.1Preservada em âmbar, a fêmea da abelha Succinapis micheneri é um dos registros da tribo extinta Melikertini. O painel detalha a anatomia de partes específicas do fóssil (A, B e C) e a visão lateral completa do inseto (D). O estudo milimétrico do esqueleto dessas abelhas restritas ao Hemisfério Norte revela características ancestrais que o DNA não alcança, indicando seu parentesco evolutivo com as abelhas-sem-ferrão atuaisImagem extraída de Lepeco & Almeida. Bulletin of the American Museum of Natural History (2026). doi: 10.1206/0003-0090.478.1.1

Esse resgate da morfologia ancorou dois amplos estudos conduzidos no Programa de Pós-Graduação em Entomologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCLRP-USP), em Ribeirão Preto (SP). Com apoio da FAPESP, os pesquisadores mergulharam na intrincada árvore evolutiva desses insetos. As análises são resultado de cerca de 15 anos de pesquisas e expedições por mais de 30 países em diversos continentes, aliado a visitas e ao intercâmbio de material biológico com acervos de referência, como o do Museu de História Natural de Berlim, na Alemanha, e o do Museu Americano de História Natural, em Nova York.

Imagem extraída de Lepeco & Almeida. Bulletin of the American Museum of Natural History (2026). doi: 10.1206/0003-0090.478.1.1Detalhes anatômicos da abelha-sem-ferrão dominicana (Proplebeia dominicana), incrustada em resina fóssil há cerca de 18 milhões de anos. Mapear detalhes do aparelho bucal com as mandíbulas (esq.) e da vista anterior do pronoto, parte do tórax (dir.), forneceu evidências importantes sobre o lugar da espécie na árvore evolutiva das abelhas-sem-ferrão neotropicaisImagem extraída de Lepeco & Almeida. Bulletin of the American Museum of Natural History (2026). doi: 10.1206/0003-0090.478.1.1

O mapeamento avançou em duas frentes complementares. O biólogo Anderson Lepeco, atualmente doutorando na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), detalhou a morfologia de uma linhagem específica durante seu mestrado em Entomologia na FFCLRP-USP, dissecando 68 espécies viventes da tribo das abelhas-sem-ferrão (Meliponini), além de incluir na análise anatômica amostras extintas preservadas em âmbar. Os resultados foram publicados em fevereiro de 2026 no Bulletin of the American Museum of Natural History.

Em paralelo, o também biólogo Diego Sasso Porto, que hoje atua como pesquisador associado ao Museu de História Natural da Finlândia, em Helsinque, conduzia seu doutorado sobre a história evolutiva das abelhas catalogando 394 caracteres anatômicos de 116 espécies escolhidas para representar de forma equilibrada as ramificações das grandes famílias espalhadas pelo globo. O trabalho de Porto foi publicado em 19 de agosto, também no Bulletin.

Imagem extraída de Porto & Almeida. Bulletin of the American Museum of Natural History (2026). URI: https://hdl.handle.net/2246/7558A árvore genealógica dos polinizadores: o diagrama circular (cladograma) organiza o grau de parentesco entre as grandes famílias de abelhas do globo. Para interpretá-lo, a leitura é feita do centro para as bordas. O miolo representa o passado profundo e os ancestrais comuns; conforme as linhas se ramificam para fora, ilustram a separação das linhagens ao longo de milhões de anos até chegarem às espécies atuais, indicadas nas fotos das extremidadesImagem extraída de Porto & Almeida. Bulletin of the American Museum of Natural History (2026). URI: https://hdl.handle.net/2246/7558

Eduardo Almeida, coordenador do Laboratório de Biologia Comparada e Abelhas (LBCA) da FFCLRP-USP e orientador das duas pesquisas, comenta que “a genética e a morfologia caminham juntas, uma complementando as lacunas que a outra deixa. Quando olhamos apenas para o genoma, não enxergamos a beleza das formas e dos comportamentos. É a morfologia que nos abre a janela para entender o processo de formação da diversidade biológica.”

As evidências esqueléticas ajudaram a solucionar antigos impasses taxonômicos sobre linhagens extintas, tarefa que a análise de DNA não alcança. Almeida explica que, por muito tempo, houve forte suspeita de que a abelha dominicana (Proplebeia dominicana), incrustada em resina há cerca de 18 milhões de anos, fosse aparentada de abelhas-sem-ferrão viventes que habitam os Neotrópicos. Só faltava uma avaliação morfológica definitiva validando a hipótese – o que ocorreu graças aos estudos.

Outra dúvida pairava sobre a tribo extinta Melikertini, restrita ao Hemisfério Norte. O recorte de Lepeco interligou essas peças: comprovou a relação de proximidade entre a tribo Melikertini e as abelhas-sem-ferrão atuais e confirmou o lugar da abelha dominicana na árvore evolutiva neotropical. Juntos, esses fósseis revelam experimentos evolutivos de linhagens que pararam no tempo e não deixaram descendentes diretos, mas cujas formas físicas ajudam a interpretar o desenvolvimento das espécies viventes hoje. Esses exemplos demonstram morfologia e genética caminhando em paralelo.

Imagem extraída de Lepeco & Almeida. Bulletin of the American Museum of Natural History (2026). doi: 10.1206/0003-0090.478.1.1Detalhe da ponta do aparelho bucal da abelha Paratrigona lineata, espécie que integra o grupo das abelhas de língua longa da família Apidae. O alongamento de partes do aparelho bucal (estrutura equivalente à língua) com formação de flabelo na ponta foram inovações que permitiram a esses polinizadores alcançar o néctar em certos tipos de floresImagem extraída de Lepeco & Almeida. Bulletin of the American Museum of Natural History (2026). doi: 10.1206/0003-0090.478.1.1

A segunda pesquisa, focada na amplitude global das famílias, inovou metodologicamente ao utilizar técnicas estatísticas e computacionais criadas nos últimos anos para calcular a taxa da mudança anatômica. Os testes indicaram que diferentes partes do esqueleto de um inseto não evoluem na mesma marcha. O aparelho bucal das abelhas de língua longa, por exemplo, apresentou um ritmo acelerado de alterações durante o período Cretáceo (há mais de 100 milhões de anos), consolidando uma estabilização estrutural profunda logo em seguida.

Esse pico de adaptações se alinha ao surgimento de novidades evolutivas essenciais, como o alongamento de partes do aparelho bucal (uma estrutura complexa e equivalente à nossa língua) e a formação do flabelo na sua ponta, garantindo a capacidade mecânica desses insetos de sugar o néctar no fundo das flores tubulares. “A evolução produziu soluções diferentes, mas que foram altamente eficientes. A presença de ambos os grupos [de língua curta e de língua longa] há mais de 100 milhões de anos no planeta comprova esse sucesso”, ressalta Almeida.

Imagem extraída de Porto & Almeida. Bulletin of the American Museum of Natural History (2026). URI: https://hdl.handle.net/2246/7558Mapeamento da história evolutiva da anatomia das abelhas indicando, em roxo, o ramo das abelhas de língua longa (famílias Apidae e Megachilidae). O alongamento de estrutura do aparelho bucal desses insetos possivelmente se associa à capacidade de extrair néctar em flores de corola profunda.Imagem extraída de Porto & Almeida. Bulletin of the American Museum of Natural History (2026). URI: https://hdl.handle.net/2246/7558

O futuro da investigação entomológica inclui a digitalização dessas grandes bases de dados anatômicos. Aliado a tecnologias avançadas, como a tomografia microcomputadorizada, esses dados permitirão reconstruções tridimensionais que revelam os insetos de dentro para fora. A partir daí, integrar informações fenotípicas de maneira contínua aos genótipos refinará a compreensão de como cada linhagem reage a estresses ambientais e distúrbios antropogênicos.

Desse modo, haverá mais ferramentas para investigar, por exemplo, as razões pelas quais algumas abelhas desenvolveram ferrões proeminentes e outras aprimoraram estratégias comportamentais distintas de defesa. Outra utilidade prática potencial das abordagens fenômicas é selecionar os polinizadores ideais para lavouras agrícolas e florestas em recuperação, fortalecendo a defesa e a conservação de ecossistemas, especialmente no contexto das mudanças climáticas.

The State Wants to Label Me a Terrorist

On 6 August 2024, six Palestine Action activists used a repurposed prison van to crash through the fence of a research facility owned by Elbit Systems, Israel’s biggest weapons firm.I watched the footage of them destroying weaponry while coming under attack from Elbit’s security guards. I remember the striking moment when 19-year-old Fatema Zainab Rajwani, having just been handcuffed by police officers, says ‘You’ve been Pal Actioned!’The court was later told they had destroyed forty units of Israeli military equipment. Among these were quadcopter drones, which have been used extensively by the Israeli army during the Gaza genocide — playing sound recordings of crying infants to lure Palestinians onto the streets before shooting and killing them.A day before the Filton action, I joined other activists in a direct action against a Barclays outlet in Burnley, protesting the bank’s investment in Elbit. At around 2am, we smashed the windows, sprayed red paint on the facade and left behind a message that read ‘Nada Salem, 4. Slaughtered by an Elbit drone as she tried to hide in her sister’s arms’. The action lasted 50 seconds. We caused £212,000 pounds in damage. Our action followed dozens of similar ones against Barclays. The aim was to cost it more than it would gain from its partnership with Elbit. Two months later, it was reported that Barclays had pulled all of its shares, worth more than 3.4 million, out of the company.All this came after months of terror in Gaza. A study published in The Lancet estimated that the real death toll by the end of June 2024 was approximately 64,260, a figure roughly 40 percent higher than official reports on account of the bodies trapped under the rubble of decimated buildings. Now it is climbing towards 80,000.Even when the ICJ ruled that Israel was plausibly committing genocide, the massacres continued unabated. Five-year-old Hind Rajab was shot 335 times by the IDF, with six members of her family and two emergency rescue paramedics killed alongside her. Seven-year-old Sidra Hassouna’s mutilated body was photographed dangling from a destroyed building in Rafah. Mass graves were uncovered full of naked bodies with their hands tied. When our case went to trial and my co-defendant took the stand, his barrister asked him why he had felt compelled to take action. His answer was simple: ‘Murder on a scale I haven’t seen in my lifetime’.We traced the flow of blood back to our own country, to the factories that manufacture the parts embedded in the bodies of Palestinian children, and to the banks that finance them. For us, direct action was a way of obstructing the supply chain of genocide, damaging the machinery of death. We wanted, said my co-defendant, to ‘isolate and strip Elbit of its resources’.Elbit’s role in Palestine was not disputed during our trial. The prosecution lawyers admitted that it was a ‘primary supplier’ of military equipment to the Israeli army, including ‘drones, bombs and munitions’. They agreed that equipment manufactured by Elbit had been used by the Israeli military during operations in Gaza, and they acknowledged that ‘Barclays PLC provided investments, loans and other corporate financial services’ to Elbit.The fact that we took action in opposition to Israel’s campaign of terror could not have been clearer. But now the state is trying to sentence us as terrorists.Both the Filton action and ours took place more than a year before Palestine Action was proscribed. Over the following months, we saw the state take extraordinary measures to punish people whose only intention was to save lives. But through it all I remained optimistic about our case. The reality of the situation was plain to see.Then the news broke about the Filton 4. For the first time in British legal history, activists who had been convicted of property damage were sentenced as terrorists, with the jury kept in the dark about the possibility this sentence might be applied. Two weeks later, after a jury of ten had returned a guilty verdict for us, we were told we faced the same prospect. Judge Philip Parry was considering applying a ‘terrorist connection’ to our offence, using the Filton 4 ruling as a basis.When the CPS fell in line, it felt like the impossible had happened. We had just come out of a short trial for criminal damage before being told that we had actually been on trial for terrorism — unbeknown to the defendants, the lawyers and the jury.In 2023, climate activists from Extinction Rebellion staged a similar protest against Barclays, breaking windows at the bank’s Canary Wharf headquarters and causing £500k worth of damage. They were not treated as terrorists and they were even spared jail. In 2024, 62-year-old Alan Murphy was convicted of possessing explosives that he intended to use to blow up HSBC bank in Blackpool. He did not face a terror link at sentencing. Why is our case being handled so differently? It seems that in today’s Britain, terrorism is invoked the moment someone decides to turn their outrage at senseless killing into concrete action.Ellie Kamio is one of the Filton 4 and a former nursery teacher. In her closing speech before sentencing, she said every child she looked after was ‘the centre of someone’s world — their mum, their dad, their grandparents — and to imagine what it would be like for any of them with what was happening in Palestine it literally broke me.’ Kamio has now been branded a terrorist. Soon there will be hundreds more of us: teachers, students, support workers, artists, retirees, people from every sector of society carrying this label for life, all because of the state’s war on empathy with Palestinians.A day before we were convicted, I heard Fatema Zainab’s mother say that ‘If terrorism is saving lives, then so be it!’ Her words continue to resonate, and they reveal a truth the state cannot seem to grasp: that as long as there are people who believe Palestinian lives are worth saving, direct action against the Israeli weapons trade will continue.
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