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'Paramos, pensamos': uma crônica de Paris

Quem sai da estação de Saint-Michel para visitar a catedral de Notre-Dame de Paris, quem sabe para dar uma esticada até o prédio no Quarter Latin da personagem Emily, da série Emily em Paris, da Netflix, depara à beira do Sena com um monumento aos mortos em um episódio que nunca virou episódio de nenhuma série de streaming, nem da Netflix, nem da Disney: as manifestações de 1961 em Paris que foram um marco da revolução argelina.

“Em memória dos muitos argelinos mortos durante a repressão sangrenta da manifestação pacífica de 17 de outubro de 1961”, diz o monumento.

Nos dicionários, o verbo deparar é definido como “apresentar-se aos olhos de alguém”. A maioria dos visitantes de Paris que saem da estação de Saint-Michel rumo à Notre Dame, contudo, passa batida pelo monumento aos mortos da manifestação pacífica, posto que terminada em sangue, de 1961; a manifestação e a repressão que completam 65 anos neste Anno Domini de 2026.

A maioria segue em frente, com viseira daquele burro da Disney, o Bisonho, rumo à catedral, crentes que o corcunda Quasímodo é um personagem de Walter Elias Disney e para pagar dois euros no cartão Wise para acender uma vela para Nossa Senhora de Paris, nunca para render homenagem às centenas de mortos, feridos e desaparecidos nas ações revolucionárias das gerações passadas.

Quem passa pelas remanescentes bancas de jornais de Paris neste início de fevereiro de 2026 depara — ou nem por isso, como vimos — com a capa da mais recente edição do Le Monde Diplomatique, que diz: L’Amérique sans fard, l’Europe sans vie ( “A América sem filtro, a Europa sem rumo”).

E não estamos falando aqui da única barraquinha de comida (food truck?) ao lado da Sacre Coeur, onde pode-se comprar hot wine e american hot dog, mas sim do bisonho Emmanuel Macron ligando para Donald Trump nos dias de Assembleia das Nações Unidas — e de Trump ameaçando anexar a Groenlândia, território europeu — para brincar, submisso, indigno do Eliseu, que tinha sido bloqueado em Nova York por causa da passagem da comitiva do imperador do Queens.

“Fica a dica” do inestimável e muito francês slogan do Le Monde Diplomatique: on s’arrête, on réfléchit (“Paramos, pensamos”).

Um tarifaço no Louvre

Quem não é cidadão europeu e foi visitar o Museu do Louvre, em Paris, nesta segunda-feira, 2, pagou 32 euros para entrar, o equivalente a cerca de 200 reais. A nova tarifa está em vigor desde 14 de janeiro. Trata-se de um aumento de 45% em relação ao preço do ano passado e são 10 euros a mais do que pagam os residentes do Espaço Econômico Europeu. Da sala Mollien, a Liberdade de Delacroix guia o povo e está vendo a discriminação.

Nesta segunda, quem pagou 32 euros no antecipado e chegou cedo para visitar o Louvre encontrou primeiro um aviso de que o museu não iria abrir no horário previsto e, pior, não tinha hora para abrir. Não demorou e apareceram membros do sindicato SUD-Culture Solidaires explicando aos desavisados o porquê.

É que desde o dia 15 de dezembro os trabalhadores do Louvre estão empenhados em uma das mais longas greves da história do museu, em resposta ao corte de pessoal e de recursos que vem resultando em condições de trabalho cada vez mais precárias e nisto aqui, nas palavras do sindicato e como se não bastassem as milhares de selfies por dia com a pobre Monalisa: “visitar o Louvre tornou-se uma verdadeira provação”.

“A retirada do apoio estatal às instituições públicas e as políticas neoliberais dos sucessivos governos impuseram um sistema de suposta rentabilidade que promove a massificação e a comercialização da cultura. O aumento generalizado dos preços dos museus e a introdução de uma taxa adicional para pequenos grupos guiados são um duro golpe para os guias profissionais e prejudicam a igualdade de acesso aos serviços de visita guiada”, diz o comunicado do SUD-Culture Solidaires distribuído aos turistas nesta segunda nas entradas do Louvre.

Nesta segunda, o Louvre abriu à tarde, só à tarde, em operação-padrão. Entre as reivindicações dos grevistas está o fim do tarifaço para não-europeus, política que, de novo nas palavras de quem faz a greve — e faz muito bem —, “atropela nossa história republicana e o universalismo fundador do museu”.

Recentemente, a A Liberdade guiando o povo passou por uma restauração que durou seis meses e removeu camadas de verniz oxidado que sufocavam o azul, o branco e o vermelho da bandeira da República francesa.

Os deserdados da terra e os 140 santos de travertino romano

Detalhe da escultura Angels Unawares, no Vaticano.

Na praça de São Pedro, Cidade do Vaticano, 140 santos católicos espreitam do alto a multidão de devotos e a fila imensa para entrar na basílica homônima. Eles, os santos feitos de travertino romano, estão lá desde o fim do século XVII, início do século XVIII. Bem mais recente é a escultura Angels Unawares, inaugurada por Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, em 2019.

A escultura fica no lado oposto à entrada do enclave papal, à direita da basílica de São Pedro e, portanto, bem no caminho dos que enfrentaram a fila, finalmente conheceram, emocionaram-se e acabaram de sair do maior e mais importante edifício do catolicismo.

Poucos, porém, pouquíssimos devotos prestam atenção à impressionante escultura de bronze de migrantes flagelados e apinhados numa jangada, representando o sofrimento das pessoas que deixam seus países de origem não para fazer turismo religioso, mas por motivo de guerra, miséria, perseguição, tudo, enfim, o que lhes foi legado pelas potências da “civilização cristã ocidental”.

Angels Unawares é uma obra do escultor canadense Timothy Schmalz. No ano passado, após o assassinato de Charlie Kirk nos EUA, Schmalz homenageou o extremista morto com uma escultura em tamanho real de Kirk nos braços do próprio Cristo. A quem interessar possa, a escultura pode ser vista em uma universidade católica da Flórida, a oito mil quilômetros do Vaticano.

A quem interessar possa, entre as coisas que Charlie Kirk dizia antes de ser assassinado estava, por exemplo, que não conseguia sentir “compaixão como a de Cristo” por imigrantes que, segundo ele, “estão nos EUA há mais de 30 anos e não sabem falar inglês”.

Do lado de fora das muralhas do Vaticano, doentes, descalços e toda sorte de desgraçados pela miséria imploram por misericórdia. A quem vai, a quem vem. Alguns, de tão corcundas e de tanta eczema, parecem Salvatores saídos diretamente de O Nome da Rosa. Às vezes, quem vai, quem vem dá a eles uns trocados. A eles, 140 santos de travertino romano dão as costas.

Manchinha, Orelha, esses nomes tão peculiares

Orelha (Foto: reprodução).

No dia 28 de novembro de 2018, uma cadela de rua chamada por todos de Manchinha foi envenenada, espancada e morta no Carrefour de Osasco. Em dezembro daquele ano, a Polícia Civil de São Paulo indiciou um segurança terceirizado do supermercado pelo crime de abuso e maus-tratos a animais.

No tempo entre o crime e a conclusão do inquérito em São Paulo, no Rio a 7ª Vara Cível da Barra da Tijuca precisou determinar que o Carrefour da Barra não praticasse atos que pudessem “ocasionar o extermínio de gatos eventualmente existentes no interior do supermercado”.

O grupo transnacional francês, maior varejista alimentar que opera no Brasil, não foi responsabilizado pela terceirização da atividade-meio, por assim dizer, que deu cabo de Manchinha. Agora, dois empresários de Florianópolis, pais dos frequentadores da Disney que deram cabo de um cão idoso na Praia Brava, em Florianópolis, acabam de ser indiciados pela Polícia Civil de Santa Catarina por coação de um segurança que teria provas do assassinato, o assassinato do Orelha.

Em dezembro de 2018, 20 dias após o assassinato de Manchinha no Carrefour de Osasco, o Carrefour de Osasco pegou fogo. Em uma coincidência impressionante, começa assim o conto “Velório”, do escritor australiano Shaun Tan, que se notabilizou por explicar para as crianças, com sensibilidade ímpar, o quão duro, cão, é o mundo lá fora: “aconteceu um incêndio na casa de um homem que, poucos dias antes, havia matado seu cachorro a pauladas”.

E segue:

“Ele era um homem forte e por isso conseguiu salvar todos seus pertences sozinho, carregando-os da casa para o jardim. Assim que terminou, uma centena de cachorros de todos os tamanhos e formas correu diante das luzes oscilantes, vindos das trevas ao redor, e prontamente sentaram em cima de cada eletrodoméstico e de cada móvel restantes, como se fossem os donos. Além de não deixarem o homem chegar perto e rosnar ferozes quando ele tentava bater neles, ficavam estáticos, olhando impassivelmente para as chamas”.

“O fogo era de uma intensidade surpreendente e a casa veio abaixo em questão de minutos. O homem, enfurecido, saiu procurando uma arma. Como se tivessem entendido, os cachorros pularam para o chão e começaram a circular calmamente pelas trevas enfumaçadas, revezando-se para urinar sobre cada objeto salvo pelo homem. Eles uivaram apenas uma vez, nem muito alto nem muito demorado, mas o uivo continha tanta melancolia que até quem não podia ouvi-lo revirou-se na cama”.

“E então eles se foram, espalhando-se pelas ruas e pelos becos, atentos ao som de suas próprias patas arranhando as calçadas de concreto, o chão que já fora de terra escura e selvagem. Eles não se voltaram para os últimos focos de incêndio na grama, nem mesmo para o homem que retornara segurando um pé de cabra inútil e estava parado sobre as cinzas, sozinho e chorando. Os cachorros só pensavam em seus lares: no cheiro das casinhas quentinhas, nos cobertores macios e nas camas em que os humanos dormiam, aqueles que lhe haviam dado nomes tão peculiares”.

Tipo Manchinha, como Orelha.

O conto “Velório” está no livro infanto-juvenil “Contos de Lugares Distantes”, de Shaun Tan, editado no Brasil pela Cosac Naify. As trevas enfumaçadas estão sempre logo ali, numa “área nobre” de Santa Catarina.

Quarta-feira no Paseo de la Castellana

A luz é como a água, um dos 12 contos peregrinos de Gabriel García Márquez, foi editado no Brasil pela Record em separado, em capa dura e com lindas ilustrações de Carme Solé Vendrell para a aventura fabulosa vivida por Totó e Joel toda quarta-feira no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana, em Madri, quando seus pais, emigrados colombianos, saíam para ir ao cinema: a aventura fabulosa de navegar na luz com barco a remos, bússola e sextante.

Reproduzimos abaixo A luz é como a água, porque hoje bem cedo estivemos no Paseo de la Castellana e em homenagem a todos os pais que já foram fulminados por olhares de reprovação por contarem para seus filhos pequenos, na hora de dormir, a história de como numa quarta-feira como esta, aqui, em Madri, talvez com menos chuva, o quarto ano elementar inteiro da escola São João Hospitalário quebrou tantas lâmpadas acesas ao mesmo tempo que acabou afogando-se na luz, enquanto os pais de Totó e Joel assistiam no cinema A batalha de Argel.

A luz é como a água

Gabriel García Márquez

No Natal os meninos tornaram a pedir um barco a remos.

— De acordo — disse o pai —, vamos comprá-lo quando voltarmos a Cartagena.

Totó, de nove anos, e Joel, de sete, estavam mais decididos do que seus pais achavam.

— Não — disseram em coro. — Precisamos dele agora e aqui.

— Para começar — disse a mãe —, aqui não há outras águas navegáveis além da que sai do chuveiro.

Tanto ela como o marido tinham razão. Na casa de Cartagena de Indias havia um pátio com um atracadouro sobre a baía e um refúgio para dois iates grandes. Em Madri, porém, viviam apertados no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Mas no final nem ele nem ela puderam dizer não, porque haviam prometido aos dois um barco a remos com sextante e bússola se ganhassem os louros do terceiro ano primário, e tinham ganhado. Assim sendo, o pai comprou tudo sem dizer nada à esposa, que era a mais renitente em pagar dívidas de jogo. Era um belo barco de alumínio com um fio dourado na linha de flutuação.

— O barco está na garagem — revelou o pai na hora do almoço. — O problema é que não tem jeito de trazê-lo pelo elevador ou pela escada, e na garagem não tem mais lugar.

No entanto, na tarde do sábado seguinte, os meninos convidaram seus colegas para carregar o barco pelas escadas, e conseguiram levá-lo até o quarto de empregada.

— Parabéns — disse o pai. — E agora?

— Agora, nada — disseram os meninos. — A única coisa que a gente queria era ter o barco no quarto, e pronto.

Na noite de quarta-feira, como em todas as quartas-feiras, os pais foram ao cinema. Os meninos, donos e senhores da casa, fecharam portas e janelas, e quebraram a lâmpada acesa de um lustre da sala. Um jorro de luz dourada e fresca feito água começou a sair da lâmpada quebrada, e deixaram correr até que o nível chegou a quatro palmos. Então desligaram a corrente, tiraram o barco, e navegaram com prazer entre as ilhas da casa.

Esta aventura fabulosa foi o resultado de uma leviandade minha quando participava de um seminário sobre a poesia dos utensílios domésticos. Totó me perguntou como era que a luz acendia só com a gente apertando um botão, e não tive coragem para pensar no assunto duas vezes.

— A luz é como a água — respondi. — A gente abre a torneira e sai.

E assim continuaram navegando nas noites de quarta-feira, aprendendo a mexer com o sextante e a bússola, até que os pais voltavam do cinema e os encontravam dormindo como anjos em terra firme.

Meses depois, ansiosos por ir mais longe, pediram um equipamento de pesca submarina. Com tudo: máscaras, pés-de-pato, tanques e carabinas de ar comprimido.

— Já é ruim ter no quarto de empregada um barco a remos que não serve para nada — disse o pai. — Mas pior ainda é querer ter além disso equipamento de mergulho.

— E se ganharmos a gardênia de ouro do primeiro semestre? — perguntou Joel.

— Não — disse a mãe, assustada. — Chega.

O pai reprovou sua intransigência.

— É que estes meninos não ganham nem um prego por cumprir seu dever — disse ela —, mas por um capricho são capazes de ganhar até a cadeira do professor.

No fim, os pais não disseram que sim ou que não. Mas Totó e Joel, que tinham sido os últimos nos dois anos anteriores, ganharam em julho as duas gardênias de ouro e o reconhecimento público do diretor.

Naquela mesma tarde, sem que tivessem tornado a pedir, encontraram no quarto os equipamentos em seu invólucro original. De maneira que, na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam O Último Tango em Paris, encheram o apartamento até a altura de duas braças, mergulharam como tubarões mansos por baixo dos móveis e das camas, e resgataram do fundo da luz as coisas que durante anos tinham-se perdido na escuridão.

Na premiação final os irmãos foram aclamados como exemplo para a escola e ganharam diplomas de excelência. Desta vez não tiveram que pedir nada, porque os pais perguntaram o que queriam. E eles foram tão razoáveis que só quiseram uma festa em casa para os companheiros de classe.

O pai, a sós com a mulher, estava radiante.

— É uma prova de maturidade — disse.

— Deus te ouça — respondeu a mãe.

Na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam A Batalha de Argel, as pessoas que passaram pela Castellana viram uma cascata de luz que caía de um velho edifício escondido entre as árvores. Saía pelas varandas, derramava-se em torrentes pela fachada, e formou um leito pela grande avenida numa correnteza dourada que iluminou a cidade até o Guadarrama.

Chamados com urgência, os bombeiros forçaram a porta do quinto andar, e encontraram a casa coberta de luz até o teto. O sofá e as poltronas forradas de pele de leopardo flutuavam na sala a diferentes alturas, entre as garrafas do bar e o piano de cauda com seu xale de Manilha que agitava-se com movimentos de asa a meia água como uma arraia de ouro. Os utensílios domésticos, na plenitude de sua poesia, voavam com suas próprias asas pelo céu da cozinha. Os instrumentos da banda de guerra, que os meninos usavam para dançar, flutuavam a esmo entre os peixes coloridos liberados do aquário da mãe, que eram os únicos que flutuavam vivos e felizes no vasto lago iluminado. No banheiro flutuavam as escovas de dentes de todos, os preservativos do pai, os potes de cremes e a dentadura de reserva da mãe, e o televisor da alcova principal flutuava de lado, ainda ligado no último episódio do filme da meia-noite proibido para menores.

No final do corredor, flutuando entre duas águas, Totó estava sentado na popa do bote, agarrado aos remos e com a máscara no rosto, buscando o farol do porto até o momento em que houve ar nos tanques de oxigênio, e Joel flutuava na proa buscando ainda a estrela polar com o sextante, e flutuavam pela casa inteira seus 37 companheiros de classe, eternizados no instante de fazer xixi no vaso de gerânios, de cantar o hino da escola com a letra mudada por versos de deboche contra o diretor, de beber às escondidas um copo de brandy da garrafa do pai. Pois haviam aberto tantas luzes ao mesmo tempo que a casa tinha transbordado, e o quarto ano elementar inteiro da escola de São João Hospitalário tinha se afogado no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Em Madri de Espanha, uma cidade remota de verões ardentes e ventos gelados, sem mar nem rio, e cujos aborígenes de terra firme nunca foram mestres na ciência de navegar na luz.

'Aperte o play e saiba mais': já viu os novos repórteres do Globo?

A logomarca dos 100 anos do jornal O Globo, com o símbolo do infinito e traços de movimento, “sintetiza alguns dos valores fundamentais que orientaram a criação do jornal” e representa um jornal que “está sempre em atualização, 24 horas por dia, todos os dias da semana, em diferentes formatos”.

“Diferentes formatos”, tipo os reels — vídeos curtos, “dinâmicos”, para Facebook e Instagram.

Na tarde desta sexta-feira, 23, O Globo publicou em suas redes sociais um reel com imagens da “caminhada pela liberdade” de Nikolas Ferreira. Os repórteres neófitos que gravaram as imagens publicadas pelo Globo — com direito à call to action “aperte o play e saiba mais” — são Fernando Holiday, Bruno Zambelli, André Fernandes e o próprio Nikolas.

Na compilação de postagens de bolsonaristas publicada pelo Globo, Fernando Holiday, por exemplo, aparece dando entrada em uma UPA, enrolado na bandeira pátria e gemendo de dor nas cartilagens. Já que decidiu agora repostar material de propaganda da extrema direita, O Globo poderia, pelo menos, ter lembrado que em 2020 o mais novo usuário do SUS apoiou um decreto de Jair Bolsonaro (logo revogado, de tão disparatado) que abria as portas para a privatização das Unidades Básicas de Saúde.

Em vez disso, O Globo corrobora a “Paixão de Nikolas” legendando assim, candidamente, seu pot-pourri de aflições produzidas pela extrema direita para as redes sociais: “políticos bolsonaristas enfrentam dores e cansaço em caminhada de 200 km liderada por Nikolas Ferreira, de Minas Gerais a Brasília, em apoio à anistia de Bolsonaro”.

Na parte do reel do Globo em que Nikolas Ferreira é amparado por Bruno Zambelli na “caminhada pela liberdade”, e num sinal dos tempos, a marca d’água do jornal chega a aparecer nas imagens junto com a marca d’água do irmão de Carla e, entre as duas, a manifestação de solidariedade em letras garrafais: “Força, Nikolas!”.

E no fim do reel, quando o deputado André Fernandes aparece tratando os calos do pé, começa a se desenhar, em animação, a logomarca dos 100 anos do Globo, até ficar completa e com o slogan “100 anos de história”, uma história no meio da qual houve, como se sabe, apoio do jornal à ditadura.

Tem jornal que não tratou como devia, como se vê, os calos da sua caminhada.

Impossível, desarrazoável, inadequado

Alexandre de Moraes (Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil).

“As condutas pelas quais o réu foi condenado por essa Suprema Corte foram absolutamente incompatíveis com o Estado de Direito, a democracia e os princípios constitucionais que regem as Forças Armadas e tornam juridicamente impossível, desarrazoável e inadequada a participação do réu em atividades diretamente relacionadas com o aperfeiçoamento das Forças Armadas, as quais desempenham papel essencial na defesa da Constituição, da soberania nacional e da estabilidade do Estado Democrático de Direito”.

Foi nestes termos que nesta quinta-feira, 22, o ministro do STF Alexandre de Moraes pôs fim à tentativa do Exército Brasileiro de transformar um general recém-condenado por tentativa golpe de Estado em consultor doutrinário da Força mediante a realização, na prisão e para remição da pena, de “atividade laboral de cunho intelectual e institucionalmente proveitosa”.

Trata-se do general Mário Fernandes, autor do plano Punhal Verde e Amarelo. A solicitação para Fernandes trabalhar foi encaminhada a Moraes no dia 9 de janeiro pela Assessoria de Apoio para Assuntos Jurídicos do Comando Militar do Planalto (CMP), onde o general cumpre pena sob custódia do Exército. O CMP montou mesmo e enviou a Alexandre de Moraes um Plano Individual de Trabalho para o general que escreveu o plano para matar Lula, Alckmin e o próprio Moraes.

O plano Punhal Verde e Amarelo previa, para o “cumprimento da missão”, “tiro de curta, média ou longa distância ou uso de artefato explosivo” ou ainda o “envenenamento do alvo” com “elemento químico e/ou biológico preferencialmente em Evento Oficial Público”. O Plano Individual de Trabalho montado pelo Exército para Mário Fernandes previa o general fazendo a “revisão de produtos doutrinários e literários” e “produção de textos técnicos sobre história militar, estrutura da Força, doutrina militar terrestre” para a Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército e para o Centro de Doutrina do Exército.

Inicialmente, Moraes autorizou Mário Fernandes a “se classificar para realização de trabalho interno, conforme Plano Individual Trabalho encaminhado pelo Comando Militar do Planalto”. Quatro dias depois, porém, o ministro achou melhor intimar o CMP a especificar, “de forma clara e objetiva”, a natureza das atividades reservadas pelo Exército ao seu custodiado. Afinal, qual “atividade de cunho intelectual” da parte de um general condenado por tentativa de golpe de Estado poderia ser “institucionalmente proveitosa” para o Exército Brasileiro?

O indeferimento à gozação saiu nesta quinta e deve ser “jurisprudência” para barrar camaradagens semelhantes do Exército e da Marinha com outros dois oficiais generais, ex-comandantes de suas respectivas Forças, condenados e presos por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, etc. O Exército quer que o general Paulo Sergio Nogueira faça revisão doutrinária, atualização de livros e manuais da Força Terrestre. A Marinha quer o almirante Almir Garnier na avaliação de sistemas de comando e controle, processos decisórios, simulações operacionais e estudos relacionados a projetos estratégicos da Força Naval.

Não demora e alguém vai pedir ao STF que Silvinei Vasques possa trabalhar para a Polícia Rodoviária Federal, na Papudinha, revisando os procedimentos de atuação da PRF nas estradas em dia de eleição e de controle do fluxo de pessoas na fronteira do Brasil com o Paraguai.

'Pluribus' nos faz pensar sobre a literatura no mundo uniforme

Minha primeira reação a "Pluribus", série de ficção científica concebida por Vince Gilligan, criador de "Breaking Bad", foi de antipatia. Alguma coisa no aprendizado forçado da protagonista, caricatura de autora de best-sellers, temperamental e irascível, confrontada com o mundo colonizado e uniformizado por um vírus alienígena, soava demasiado calculada.

Tive de chegar ao final da primeira temporada para entender que as possibilidades desse cálculo eram bem mais complexas e contraditórias do que eu havia imaginado. Leia mais (01/23/2026 - 10h00)

Brizola: os olhos fixos na fogueira e um sorriso maroto no rosto

Leonel Brizola (Foto: reprodução).

Leonel de Moura Brizola faria 104 anos nesta quinta-feira, 22.

‘Parecia estar num voo acima de tudo’

Estamos em 1982. Três anos após voltar do exílio, Leonel Brizola é candidato a governador do Rio de Janeiro. Abrindo a biografia de Brizola escrita por Clovis Brigagão e Trajano Ribeiro, o fotógrafo Aguinaldo Ramos conta a história da foto “Brizola pula a fogueira”, feita no subúrbio carioca durante um ato daquela histórica campanha eleitoral.

Conta Aguinaldo Ramos:

Um dia [do ano de 1982], saí da redação do JB com o repórter J. Paulo para acompanhar o então candidato a governador [Brizola] num roteiro pela Zona Norte da cidade. No começo da tarde estávamos no conjunto Amarelinho, em Irajá, junto à Avenida Brasil. As lideranças locais aproveitaram a promissora visita para fazer, além da luta pela reforma do conjunto, uma manifestação pela paz na comunidade, cercada de favelas. Promoveram a queima, em grande fogueira à frente do conjunto, das armas de plástico recolhidas das crianças. Brizola ganhou a honra de atear o fogo, o que fez com prática de gaúcho churrasqueiro. De repente, vira-se para o mais destacado cabo eleitoral local e pergunta: “tens coragem de pular a fogueira, tchê?!... então vai na frente que eu vou atrás!”.

Os assessores, até mesmo o futuro prefeito Marcelo Alencar, também na campanha, tentaram preservar o chefe. Nada adiantou, Brizola estava tranquilo e ia pular.

Eu me preparei como pude... Busquei uma posição lateral, pus a 24 mm (a maior grande angular que tinha ali), me agachei, mantive o dedo no obturador. O líder local, com a maior desenvoltura, cumpriu sua parte. Acompanhei de rabo de olho, sem apertar, preocupado com Brizola, que podia nem esperar o salto do outro. Ou, refugar... Brizola tinha os olhos fixos na fogueira e um sorriso maroto no rosto. Com suas botinas de gaúcho exilado, camisa azul-clara de mangas arregaçadas, arredou um pouco a garotada, abriu uma roda, concentrou-se e, sem considerações, partiu! No meio do caminho, abriu os braços, parecia estar num voo acima de tudo. aterrissou com perfeição, sem qualquer escorregão ou derrapagem.

E quase estourou a guerra no Hotel da Paz

Outra história de Leonel Brizola contada no livro de Clóvis Brigagão e Trajano Ribeiro:

Na década de 1970, durante o turno de Ernesto Geisel à frente da ditadura civil-militar no Brasil, Brizola, no exílio, foi a Roterdã para fazer contatos com o Partido Trabalhista Holandês e encontrar outros brasileiros exilados, após participar de uma reunião da Internacional Socialista na Alemanha. O engenheiro estava acompanhado de Trajano e sua esposa, Maria Ribeiro, e Moniz Bandeira.

Ao final do seu primeiro dia na Holanda, Brizola recebeu o pernambucano Maurílio Ferreira Lima, ex-deputado cassado, e seu irmão, Bruno Ferreira Lima. À noite, Brizola, Trajano e os irmãos Ferreira Lima conversavam no átrio do Hotel da Paz sobre a situação no Brasil. Durante a conversa, Trajano notou que um homem encostado na recepção prestava atenção no que diziam e sugeriu que o grupo se retirasse para um local mais reservado.

No caminho para o elevador, Trajano alertou Brizola sobre o homem que os observava e disse que, “pela pinta”, era brasileiro. “Não é possível. Tu estás vendo guampa em cabeça de égua”, replicou Brizola.

Segue o relato do livro:

Trajano foi até o recepcionista e perguntou-lhe se o homem que estivera algum tempo encostado no balcão era brasileiro, e o holandês confirmou. Voltou ao grupo em frente ao elevador:

- É brasileiro, governador.

- Mas onde ele está?

- Entrou naquela sala.

Trajano apontou para uma sala ao lado do salão de recepção, onde o homem acabara de entrar. Brizola dirigiu-se a passos largos para lá. Trajano e os Ferreira Lima os seguiram. Era uma sala de estar, onde um grupo assistia a televisão. Trajano mostrou a Brizola o homem. Para seu espanto e dos irmãos pernambucanos, Brizola dirigiu-se ao indivíduo, sentado numa poltrona, postando-se à sua frente:

- Boa noite.

- Boa noite.

- Brasileiro?

- Sim, sou brasileiro.

- Passeando?

- Não, trabalhando. Na verdade, fazendo um curso.

- E o amigo trabalha em quê?

- Sou da Marinha do Brasil.

Refazendo-se do impacto da surpreendente resposta, Brizola disparou:

- Eu sou Leonel Brizola e lhe desejo sucesso na sua missão. Boa noite.

Secretos, escondidos: documentos do Exército sobre os acusados de matar Rubens Paiva ainda estão assim

Brasília, 1963: o então deputado Rubens Paiva participa de sessão da CPI do Instituto Brasileiro de Ação Democrática, o Ibad (Foto: reprodução).

Há cerca de um ano, no auge do sucesso de público e crítica do filme Ainda estou aqui, que aborda o caso Rubens Paiva, a ótima plataforma Fiquem Sabendo solicitou ao Exército Brasileiro acesso às fichas funcionais dos agentes da ditadura acusados de torturar e assassinar o ex-deputado em 1971. Para surpresa de zero pessoa, o Exército negou o pedido.

O caso foi parar na Controladoria-Geral da União e, em julho do ano passado, a CGU, em decisão histórica, deu 30 dias para o Exército disponibilizar a papelada. Para surpresa de zero ser vivente, o Exército pediu revisão da decisão. A CGU manteve a decisão. O Exército, então, na virada do ano, bateu na porta da Advocacia-Geral da União para manter os documentos escondidos do povo brasileiro e eles ainda estão assim, até hoje, mais de meio século após o crime contra a humanidade. E assim seguirão, secretos, escondidos, enquanto a Câmara de Mediação e Conciliação da AGU não arquivar a chicana da caserna, o que, segundo a Folha de S.Paulo, deve acontecer em breve.

O Exército garante que não quer manter nada debaixo do Tapete Guararapes, peça (esta bem à vista) de seis por doze metros do acervo do Quartel-General da Força, em Brasília. O Exército afirma, afirmou à Folha, que quer apenas estabelecer as condições, os detalhes de um “eventual” fornecimento de dados sensíveis, de “informações pessoais de militares” e com “potencial impacto sobre a hierarquia e a disciplina”…

Treze anos atrás, em fevereiro de 2013, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) confirmou, com novos documentos (entregues nunca, jamais pelo Exército, mas pela família de um coronel reformado assassinado em 2012), o que já se suspeitava fortemente: Rubens Paiva foi torturado e morto nas dependências do DOI-CODI do I Exército, no Rio de Janeiro.

Meses depois, em setembro daquele ano, senadores da Subcomissão Permanente da Memória, Verdade e Justiça e membros da CNV estiveram na Rua Barão de Mesquita 425, na Tijuca, instalação militar onde funcionou o DOI do I Exército, para realizarem uma inspeção após o Comando Militar do Leste impedir membros da Comissão da Verdade do Rio de acessarem o local.

Para surpresa de zero criatura que caminha sobre a Terra, o então deputado Jair Bolsonaro apareceu no local no dia e na hora da inspeção, para tumultuar a visita, chegando a agredir o senador Randolfe Rodrigues, então membro da subcomissão da Verdade, Memória e Justiça e autor do requerimento para a diligência. Depois, Bolsonaro disse que não queria tumultuar nada, que não agrediu ninguém.

E disse também que um soco dele, Bolsonaro, teria potencial impacto para fazer, bem ali onde um ex-deputado foi torturado e assassinado pelo Exército, um senador da República “desmontar”, para botá-lo “para dormir três dias no chão”.

História recente da peçonha

O presidente Lula (Marcelo Camargo/Agência Brasil).

Por estes dias, apenas os primeiros dias do ano eleitoral, Flavio Bolsonaro e criaturas que tais andaram espalhando via Meta e via X que Lula teria afirmado que “pobre não precisar estudar”. Como assim? Foi assim: na semana passada, em uma cerimônia em Brasília pelos 90 anos da criação do salário mínimo, Lula usou a primeira pessoa para criticar, digamos, a “expectativa” das elites brasileiras sobre as classes populares: “pobre não nasceu pra estudar, porra! Você nasceu pra trabalhar!”.

Não é novidade, a artimanha. Em setembro do ano passado, circulou feroz nas redes sociais um vídeo mostrando Lula supostamente atacando negros e pobres com uma coleção de declarações preconceituosas. Em uma delas, Lula aparecia dizendo que “negro não tem que aprender, negro tem que trabalhar”. O que não aparecia no vídeo era que Lula, na verdade, tinha usado a frase para ilustrar a “mentalidade escravagista” delas, as ferozes elites nacionais.

Antes, em 2023, e na mesma linha, espalhou-se como um rastilho de pólvora entre paióis, ou melhor, entre grupos de WhatsApp, um vídeo de Lula dizendo que o “papel do trabalhador é trabalhar e o papel do pobre é esperar as políticas de ajuda do governo”. O vídeo puxava ali do baú dos preconceitos que grassam nas classes médias do país a aversão ao Bolsa Família. Lula, na verdade, tinha criticado a histórica ausência de políticas de inclusão social nos países da América Latina. Mas isso a Globo, ou melhor, a Meta não mostra.

Há quatro anos, em 2022, a poucos dias do segundo turno das eleições daquele ano, o que viralizou foi um vídeo de apenas oito segundos falseando, desvirtuando, adulterando uma fala de Lula contra os políticos que só lembram dos pobres em período eleitoral. Como? Para quê? para fazer crer que ele, Lula, o presidente que mais tinha feito contra a miséria na história do Brasil, largaria os pobres à própria sorte tão logo acabassem as eleições.

Ainda mais lá atrás: em janeiro de 2022, começaram a circular na internet vídeos manipulados que mostravam recortes de um encontro de Lula, meses antes, com lideranças do movimento negro em Salvador; vídeos que mostravam frases de Lula picotadas e rearranjadas de modo a fazer crer que o então pré-candidato à presidência da República estava “falando com o demônio” depois de receber uma imagem de Xangô e tomar um banho de pipoca de Obaluaê.

A fala completa de Lula na Bahia tinha sido a seguinte:

“Ontem, quando eu cheguei, as mulheres no palco jogaram pipoca em mim e me entregaram um santo, me entregaram um Xangô. E nas redes sociais do bolsonarismo, eles estão dizendo que eu tenho relação com o demônio, que eu estou falando com o demônio e o demônio está tomando conta de mim. Mas é uma campanha massiva, é uma campanha violenta como eles sabem fazer, do mal, massiva, é uma campanha violenta como eles sabem fazer, do mal. Eles só sabem fazer isso.”

O que fez, então, por exemplo, ele, Flavio Bolsonaro? Compartilhou um vídeo editado no qual Lula aparecia dizendo apenas que “eu estou falando com o demônio e o demônio está tomando conta de mim”. E fez, o 01, a seguinte convocatória a seus milhões de seguidores nas redes sociais: “marque seu pastor, padre, rabino nos comentários. Envie este vídeo a sua liderança religiosa e pergunte o que ela pensa disso. A guerra é também espiritual”.

O TSE foi acionado e em maio de 2023 — só em maio de 2023, quase um ano e meio depois — Flavio foi punido, mas apenas com uma multa de R$ 5 mil…

O responsável pela publicação do vídeo desfigurado, da peçonha compartilhada por Flavio Bolsonaro, um vereador bolsonarista chamado Rômulo Quintino, também foi multado e hoje ele é superintendente da Administração de Cemitérios e Serviços Funerários de… Cascavel. Flávio Nantes Bolsonaro é senador e pré-candidato à Presidência da República e agora as “deep fakes”, como as eleições de 2026, estão aí. As mentiras ultrarrealistas feitas com IA estão aí, à mão que fazia a rachadinha, e até agora sem soro antiofídico eficaz.

Dinheiro e sexo são protagonistas de romance vencedor do Booker

Andei pensando em "Zama", o magnífico romance do argentino Antonio di Benedetto (1922-1986), durante a recente cruzada do bolsonarismo contra o chamado crime organizado, desde a intervenção do governo do Rio nos complexos da Penha e do Alemão, com saldo de 122 mortos, até os esforços canhestros (e providencialmente frustrados) do deputado e capitão aposentado da PM Guilherme Derrite para submeter e constranger a ação da PF à autoridade dos governos estaduais. Leia mais (11/28/2025 - 10h00)

Força política da literatura está onde menos se espera

"Eis o livro mais violento da literatura contemporânea [?]. Heliogábalo não é apenas o imperador depravado da Roma putrefata do século 3, entregue aos vícios e à loucura, mas também o primeiro herói infernal [?], encarnação do mito hermafrodita [que] viveu até o extremo o drama do confronto entre o mundo greco-latino e a Barbárie [?]. Trata-se de um texto verdadeiramente iniciático [?]. Quem não leu 'Heliogábalo' não chegou ao fundo da nossa literatura selvagem", sentenciou em 1979 J.M.G. Le Clézio, prêmio Nobel de Literatura, sobre "Heliogábalo ou o Anarquista Coroado", ensaio literário de Antonin Artaud, publicado em 1934, oito anos antes de Jean Genet escrever sua própria versão do herói infernal, na prisão, onde cumpria pena por roubo de livros. Leia mais (09/05/2025 - 10h00)

Para Bolsonaro, salvar a pele equivale a desmontar instituições

Outro dia ouvi que o único erro de Eduardo Bolsonaro foi não ter pedido a Trump para deixar de fora o nome de sua família na punição ao Brasil. Tudo bem que taxista não conta, mas é mau sinal que a esta altura chamar os Bolsonaro de câncer, neoplasia social, soe pueril e inócuo, como me dei conta ao responder. Segundo pesquisa do Datafolha, 46% dos brasileiros são contra a condenação do ex-presidente. Leia mais (08/08/2025 - 13h00)

ARTICULAÇÃO COM MILHÕES DA CBF FAVORECE PAI DE SAMIR XAUD

Vinte e dois dias depois da posse de Samir Xaud (25/5), a CBF se tornou parte de articulação milionária que poderá beneficiar o próprio pai do presidente com dinheiro da entidade.

José Gama Xaud, o Zeca Xaud, pai do dirigente, comanda a Federação Roraimense de Futebol (FRF) há 49 anos.

No dia 16 de junho, Zeca Xaud enviou ofício, obtido pela reportagem, para Mikael Wallas, titular da secretaria de estado de educação e desporto (SEED) de Roraima, com a proposta de obter a concessão, por 20 anos, do principal estádio local, o Flamarion Vasconcelos (“Canarinho”).

A contrapartida da FRF para a SEED pela concessão é uma promessa de R$ 3 milhões em investimentos. Pagos indiretamente através de uma melhoria das instalações. Uma operação triangular, onde uma terceira parte dá o dinheiro para FRF. A terceira parte, de acordo com o ofício da FRF: a CBF. Uma “parceria” entre FRF e CBF. Em 30 de junho, duas semanas depois de formalizar o interesse no arrendamento do “Canarinho”, a FRF enviou novo ofício e incluiu outro estádio da capital Boa Vista no requerimento: o Raimundo Ribeiro (Ribeirão).

Sem apresentar uma planilha com os custos do projeto especificados, Zeca Xaud prometeu que a FRF usaria o dinheiro a ser liberado pelo filho para “modernizar o estádio”.

PAI DE SAMIR XAUD USA NOME DA CBF PARA OBTER CONCESSÃO DE ESTÁDIO MAS CBF AFIRMA DESCONHECER O PROJETO

Questionada pela reportagem sobre financiar um projeto de concessão que tem como beneficiária final a federação comandada pelo pai do presidente, a confederação informou que “o projeto ainda não foi apresentado à CBF mas que se enquadra nos objetivos e no orçamento do Palcos do Futebol”.

Ou seja, de acordo com a CBF, até o momento, o pai de Samir Xaud negocia um contrato com o governo de Roraima em que a federação que preside passará a ser concessionária de bem público usando o nome da CBF como financiador sem ter consultado a própria CBF.

O “Palcos do Futebol” citado na resposta é o item do projeto “CBF Transforma”, em que a entidade investe em melhorias nos estádios. 

Na sequência de longa resposta para a reportagem, a CBF diz poder participar do projeto em que está tendo o nome usado, segundo ela sem ser consultada. E que poderá ter participação futura através de projetos de investimentos já existentes na entidade para financiar melhoria de estádios e federações.

“Assim, a proposta de eventual cessão do estádio Canarinho pelo Governo à Federação Roraimense, mediante contrapartida de R$ 3 milhões em investimentos que seriam custeados pela CBF por meio do Programa Palcos do Futebol, é totalmente razoável e perfeitamente admissível. No entanto, uma vez que a Federação ainda não apresentou o referido projeto à CBF, só podemos concluir que o ofício referido pelo jornalista dispunha apenas das tratativas iniciais com o governo, visando uma parceria em benefício do futebol de Roraima”, respondeu a CBF em nota. Samir Xaud está desde terça-feira em Roraima, onde recebe uma série de homenagens, e estava marcado de comparecer ontem na federação.

FINANCIAR A CONCESSÃO PODE TORNAR CBF PASSÍVEL DE FISCALIZAÇÃO DE PF E MPF

                  A concessão de estádios para federações é incomum. Recentemente, a federação de Mato Grosso do Sul também manifestou proposta de gestão do Estádio Pedro Pedrossian, o Morenão, em audiência pública realizada na assembleia legislativa local em 17 de junho, onde se discutiu o processo de transferência do estádio da UFMS para o governo do estado.

De acordo com especialistas ouvidos pela reportagem, ser financiador de recursos para exploração de um bem público pode tornar a CBF passível de eventual ação por parte do Ministério Público Federal (MPF) e Polícia Federal, mesmo CBF e federação sendo instituições privadas. Isso ocorreria porque utilização de recursos para explorar um bem público (como um estádio concedido) pode caracterizar atuação no âmbito de interesse público, sujeitando-as ao controle de órgãos de investigação desde a necessária licitação.

CONFIRMAÇÃO DE AJUDA DA CBF REPRESENTARIA AUMENTO DE 113% NA VERBA PARA FEDERAÇÃO DO PAI DE SAMIR XAUD

Um dos itens da proposta da FRF é a “implantação de placar eletrônico”. Sem discriminar modelo e preço, apenas informando ser dentro dos padrões do regulamento esportivo mundial e chancelado pela FIFA e pela própria CBF.

A “substituição do gramado e plantação de grama na área lateral” é outro artigo assinalado, também sem orçamento. E sem garantia de data para ser realizada. O documento afirma apenas que será uma troca “gradativa”.

O projeto de R$ 3 milhões prevê ainda “substituição das traves fixas por traves removíveis e ampliação do banco de reservas”.

A conclusão dos objetos de responsabilidade do concessionário deixa o escopo das obrigações ainda mais frouxo, sem estabelecer por contrato, e ao afirmar que “demais mudanças serão alinhadas com concedente”.

Se vier a ser assinado o acordo de R$ 3 milhões, somente em uma única operação a CBF já iria superar o montante dado em 2024 para a FRF em 113,22%, já que, de acordo com o balanço financeiro da federação, no ano passado a CBF repassou para a entidade R$ 1.407.000,00. Ou seja: em apenas 22 dias de mandato de Samir Xaud, a FRF já tinha a perspectiva de dobrar a verba recebida via CBF.

DE NOVO? ÚLTIMA REFORMA DO ESTÁDIO ACABOU EM 2020 E RECEBEU R$ 33,6 MILHÕES DO GOVERNO FEDERAL

A necessidade de modernização chama atenção, já que a última reforma do “Canarinho” é recente. Em 2020, depois de ficar 8 anos fechado para o público, com eventuais jogos de portão fechado, o estádio foi reaberto. Com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, o estado gastou R$ 33.689.217,48. (trinta e três milhões, seiscentos e oitenta e nove mil, duzentos e dezessete reais e quarenta e oito centavos).

Incluído no pacote de concessão posteriormente, a proposta da federação para ficar também com o estádio Ribeirão inclui apenas a aplicação da grama que sair do Canarinho, ou seja, sem qualquer gasto. E assim como no estádio maior, o ofício fala que “outras modificações e melhorias poderão ser ajustadas em comum acordo com o ente concedente”. O Ribeirão também passou por reforma entregue há 2 anos, em 2023, ao custo de R$ 365.697,63 para os cofres do estado.

O uso do estádio Canarinho no estado vai muito além do futebol, assim como as possibilidades de arrecadação.

Utilização para partidas amistosas de particulares, shows e diversos eventos das secretarias são realizados no local ao longo do ano.

No dia 19 de abril, a SEED concedeu o estacionamento do estádio Canarinho para realização de show do cantor Gustavo Lima. No contrato, examinado pela reportagem, está dito que a cessão para a GSA Produções e Eventos, empresa do artista, foi gratuita. Com venda de 18.500 ingressos, exploração de camarotes e bar.

O Estádio Canarinho tem capacidade para 4.500 mil espectadores e o Ribeirão, 3 mil.

Antonio Denarium, o governador de Roraima, tem no prontuário diversas acusações de corrupção e conflitos de interesses. Como a compra de carne do Frigo10, frigorífico do qual o mandatário é sócio, em 2023, em acordo de R$ 3,1 milhões. O Frigo10 também fechou acordo como governo federal na gestão Bolsonaro para fornecer 8 toneladas de contra-filé para o exército.

Denarium é parte de um processo de cassação que está há dez meses parado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), já tendo sido cassado quatro vezes pelo Tribunal Regional Eleitoral de Roraima (TRE-RR) por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. O julgamento segue suspenso depois de ter sido retirado de pauta pelo TSE.

Ao longo dos anos, o político bolsonarista foi algo de denúncias de grilagem de terras, favorecimento do garimpo ilegal e extermínio da população indígena de Roraima.

A reportagem enviou questões também para a Federação Roraimense de Futebol e para a secretaria de estado de educação e desporto (SEED), ambas sem resposta. Além da resposta inicial, com trechos já citados, a CBF enviou a resposta abaixo:

“O Regulamento do programa CBF Transforma, que tem como objetivo fomentar o futebol em todo o território brasileiro, é claro ao estipular “cooperação com Federações e clubes filiados, com base na realidade e nas necessidades específicas de cada região do País”. O estádio Canarinho é a casa do futebol roraimense, portanto é lógico que seja alvo de investimento do subprograma Palcos do Futebol. Fica evidente que é muito mais apropriado reformar um estádio que já existe do que buscar alternativas. Outras federações já sinalizaram o desejo de convênios com Estados ou Municípios para cessão de equipamentos públicos. Nesse cenário, a CBF, como investidora, precisa de garantia de uso desses estádios por períodos determinados em contrato. Por fim, convém acrescentar que o assunto em questão ainda é um projeto da FRF. A comunicação levantada pela reportagem foi apenas uma consulta à Secretaria de Estado de Educação e Desporto (SEED) do Estado que não foi nem sequer formalizada junto à CBF”.

PLATA, PLOMO E FUTEBOL: A HISTÓRIA NÃO CONTADA DE DON ALEJANDRO E DA CONMEBOL

O primeiro registro policial foi precoce.

Alejandro Guillermo Dominguez Wilson Smith tinha 13 anos quando a Polícia Federal (PF) brasileira escreveu seu nome no confidencial “Informe 576”. Na ficha, além da foto do menino, está dito que ele foi um dos paraguaios a obter vistos permanentes para o Brasil com dados falsos. A solicitação do pai, Osvaldo Dominguez Dibb, o “ODD”, continha endereços forjados de residência em Foz do Iguaçu. Daquele 21 de maio de 1985 em diante, o prontuário nunca mais parou de engordar. O dele e o da família, juntos também por relações societárias.

Assim como o histórico de denúncias na justiça: contrabando de cigarros, lavagem de dinheiro, crimes contra o sistema financeiro, formação de quadrilha, grilagem de terra. E uma profunda e intima ligação com um dos maiores criminosos do século XX: o general Alfredo Stroessner, o ditador paraguaio que ficou 34 anos no poder, entre 4 de maio de 1954 e 3 de fevereiro de 1989. Unidos por laços empresariais e políticos. E familiares, desde quando Humberto, irmão de Osvaldo e tio de Alejandro, se casou com a filha do general, Graciela, e os Dominguez e os Stroessner passaram a ter um tronco Dominguez Stroessner. Uma ligação que estende suas fronteiras para o Brasil, onde Alejandro Dominguez e seus primos Stroessner possuem sociedade. 

O menino com anotação prematura na folha policial há exatos 40 anos virou Alejandro Dominguez, o todo-poderoso do futebol no hemisfério sul, presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) desde 2016. Agora com 53 anos e um percurso marcado por coincidências, como uma empresa aberta em paraíso fiscal exatamente 45 dias depois de assinar o controverso contrato por direitos de transmissão da seleção paraguaia para Copa de 2018.

O presidente da Conmebol é, junto com mais 5 irmãos, herdeiro em uma fortuna estimada em mais de US$ 500 milhões. Inteiramente construída por “ODD”, à sombra de benesses na era Stroessner. Os Dominguez Dibb foram protagonistas na chamada “elite stronista”, os três principais grupos que sustentavam o poder do ditador: famílias próximas aos Stroessner, empresários do Partido Colorado e ainda militares e funcionários do alto escalão governamental. Os Dominguez Dibb se enquadravam nos dois primeiros grupos aqui citados.

Beneficiário direto dos 34 anos de horror. De uma das mais sanguinárias ditaduras da história. Nesse período, foram 19.862 presos, 18.772 torturadas, 20.814 exilados, 236 menores privados de liberdade e 17 crianças nascidas na prisão.  Com 459 desaparecidos. Um total de 128.076 vítimas diretas e indiretas, de acordo com os números da Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai.

Esses números e relatos não dão conta de todo horror.

De acordo com o Departamento de Memória Histórica e Reparação do Ministério da Justiça paraguaio, Stroessner estuprava em média quatro meninas entre 10 e 15 anos por mês. Um pedófilo em série, que, ao longo dos 34 anos no poder, teria estuprado 1.600 crianças. Meninas ainda na infância, sequestradas por militares na área rural e enviadas ao general.

Julia Ozorio Gamecho foi uma dessas meninas. Levada ao ditador aos 13 anos, depois de retirada à força da casa dos pais. Perdeu a virgindade estuprada por Stroessner e então foi “ofertada” por ele ao coronel Miers, de quem foi escrava sexual até os 15 anos, quando então essas crianças eram consideradas velhas pelos militares. Sobreviveu para contar. Enfrentando seus fantasmas, escreveu o pungente relato da barbárie “Uma rosa e mil soldados”, onde descreve a barbárie. Sobre homens que “saciavam sua luxúria sem limites com sede de possuir aos despossuídos”, conta. “As bestas carniceiras”, resume.

Os herdeiros e beneficiários dessas trevas ainda estão entre nós. Em todas as áreas. Nos gabinetes, parlamentos, no mundo corporativo, nas telas. E nos estádios.

PARTÍCIPES DO HORROR

Farta documentação, em diferentes fontes públicas, mostra que os Dominguez Dibb foram muito além de beneficiários da ditadura, se locupletando como amigos e familiares do rei. Mais do que cúmplices e entusiastas. Foram partícipes da barbárie.

Entre os documentos, está o que se chamou de “Arquivos do Terror”, encontrados em uma delegacia de Assunção em 1992. Milhares de registros que possibilitaram a comprovação definitiva da “Operação Condor”. Incluindo o relato sádico e cruel relato do desaparecimento do médico Agustín Goiburú, opositor de Stroessner. Preso em 1970, conseguiu fugir e refugiar-se na embaixada chilena da capital paraguaia. Durante o refúgio de dez dias, Humberto Dominguez Dibb, o citado genro do ditador, tio e sócio de Alejandro Dominguez, foi para a calçada em frente a janela da embaixada, de onde insuflava populares e dirigia gritos para que o médico se entregasse, além de xingamentos. Beneficiado por um salvo-conduto do chileno Salvador Allende, Goiburú foi para o Chile. Em 1977, trabalhando na cidade argentina de Entre Rios, foi sequestrado em uma missão conjunta da Condor que juntava agentes paraguaios e argentinos, e nunca mais apareceu. A Corte Interamericana de justiça condenou o estado paraguaio a pagamento de indenização aos familiares.

ALÉM DA BARBÁRIE, CORRUPÇÃO FOI A OUTRA GRANDE MARCA DA DITADURA STROESSNER

“A corrupção é o preço que se paga pela paz.” A famosa frase do ditador paraguaio teve como símbolo maior a Usina Hidrelétrica de Itaipu. O acordo binacional Brasil/Paraguai foi assinado em junho de 1966 entre os militares que governavam os dois países.

O primeiro projeto da usina, o “Sete Quedas”, foi lançado ainda no governo civil de João Goulart, derrubado pelo golpe de 1964 que iniciou a ditadura no Brasil. Orçado em 1,3 bilhão de dólares. Projeto substituído pelo governo militar por outro de 13 bilhões de dólares, sendo que o preço final ficou em estimados 30 bilhões de dólares.

O superfaturamento foi esmiuçado por um militar. Em 1996, o coronel Alberto Carlos Costa Fortunato escreveu “A direita explosiva no Brasil”, onde detalha por onde escoou o dinheiro público dos dois países: “Conhecem a história sobre o aumento de 23% no custo de Itaipu? Pois o negócio foi o seguinte: lá pelas tantas, o governo paraguaio pretendeu (mais adequado seria dizer que condicionou) um aumento de 23%. Os representantes brasileiros articularam um conchavo e combinaram o seguinte: vocês topam aumentar em 46% (metade para cada um)”? De acordo com o autor, assim foi feito.

Os Dominguez também são parte desta história. Desde os conchavos de lançamento até a influência em cargos estratégicos.

O Jornal do Brasil, edição de 25 de abril de 1973, conta que, por ocasião do lançamento de Itaipu, a comitiva de 90 integrantes do general Stroessner que estava em Brasília para firmar a construção da usina espalhou-se pelo Hotel Nacional. O nono andar ficou reservado para a cúpula da delegação: o general, o filho, primeiro-tenente Gustavo Adolfo Stroessner, a filha Graciela Stroessner e o genro do ditador, Humberto Dominguez Dibb, o tio e sócio de Alejandro Dominguez.

Nomeações para a empresa mostram essa influência. Como a de Gerardo Soria Dávalos, um secretário de Osvaldo Dominguez Dibb que chegou a chefe do gabinete paraguaio de Itaipu em 2014. Em 2022, o faz tudo dos Dominguez Dibb sofreu uma acusação de assédio moral e sexual, quando ocupava o cargo de Diretor de Responsabilidade Social na hidrelétrica. Episódio posteriormente arquivado.

 “ODD”: PEDIDO DE VISTO COM DADOS FALSOS AO FIM DA DITADURA STROESSNER POR MEDO DE PUNIÇÕES

Tomado por ditaduras militares desde a década de 60, sufocado pela “Operação Condor”, os ventos do continente começaram a mudar de direção em meados dos anos 80.

Na Argentina, o regime militar tinha acabado em 1983. No Brasil, o último general se sustentava no poder, de onde sairia em 1985, assim como no Uruguai. No Chile, o general Pinochet iria até 1990. É nesse contexto de provável mudança no cenário político que, em 1984, o patriarca dos Dominguez pede os vistos permanentes brasileiros para toda família. Uma precaução e salvaguarda depois de décadas de relação umbilical, sanguínea e de negócios entre os Dominguez e os Stroessner, como está no próprio relatório da PF:

“Referidos paraguaios são ligados direta ou indiretamente aos detentores do poder no governo do seu País. O propósito das artimanhas por eles praticadas para obterem permanência no Brasil, visa prevenirem-se contra possível mudança política no Paraguai”.

As “artimanhas” citadas no processo: a criação de empresas fictícias no Brasil, com intuito de provar vínculos já existentes, viabilizando a permissão. Essas empresas se extinguiram logo após a concessão dos vistos.

Entre as empresas criadas, está a Iguamóveis S.A. De acordo com os dados da Receita Federal, a abertura, em Foz do Iguaçu, foi no dia 23 de fevereiro de 1984, sendo baixada em 23 de outubro de 1985.

“Aquela firma nunca funcionou. Foi criada com o fim de viabilizar a obtenção de permanência definitiva no Brasil para a esposa, filhos, netos e alguns amigos de Júlio Dominguez, tendo sido extinta definitivamente após a realização daqueles objetivos”, diz o documento.

Na ocasião, em depoimento a PF sobre o caso, corroborando a conhecida colaboração entre ditaduras e seus beneficiários, o despachante e contador responsável por abrir as empresas, Luiz Aires, “insinuou que citados elementos possuem ótimo relacionamento nos altos escalões do governo brasileiro e que houve tráfico de influência no processo de concessão da permanência definitiva no Brasil aos nomeados”.

MUITO MAIS DO QUE UM HERDEIRO: PRESIDENTE DA CONMEBOL É SÓCIO DOS STROESSNER E BENEFICIÁRIO DA DITADURA NOS NEGÓCIOS

A participação de Alejandro Dominguez em toda engrenagem de fortuna e poder, vai muito além do parentesco. Assumiu parte dos empreendimentos do pai ainda cedo, como o conglomerado de jornal e rádios “Grupo Nación de Comunicaciones (GNC”), onde ocupou a presidência de 1999 a 2014. O império dos Dominguez passa por hoteis, imobiliárias, gastronomia, fábrica de cigarros, cassinos, exploração de jogo, terras e empresas ligadas ao agro.

O Brasil também reúne os Dominguez e os Stroessner nos negócios. Como na imobiliária Dominguez Dibb & Cia, aberta por “ODD” em Foz do Iguaçu, 1982, e ainda ativa, onde Alejandro está através da holding “Muharde Administradora de Bens”, sócio também de Humberto Dominguez e Alfredo Gustavo Domínguez Stroessner, o “Goli”, primo de Alejandro, filho de Humberto e neto do ditador.

Uma comunicação datada de 10 de janeiro de 2010 entre a embaixada americana em Assunção e o Departamento de Estado, vazada no Wikileaks, traça um perfil do herdeiro de Osvaldo Dominguez Dibb: “seu filho, Alejandro Dominguez Wilson-Smith, que estudou nos EUA, é o diretor do Grupo La Nacion, que inclui dois jornais diários: La Nacion e Cronica, rádio 970 AM e várias estações de FM. Tanto pai quanto filho tem laços com a família Stroessner”. Cita ainda as extensas propriedades imobiliárias da família.

POLÍCIA GRAVOU GARANTIA DE “ODD” SOBRE CIGARRO CONTRABANDEADO PELOS DOMINGUEZ: “TODA A PRODUÇÃO TEM O MESMO PADRÃO DE QUALIDADE”

É do ramo da fábrica de cigarros que brotaram os maiores escândalos da família. Aqui novamente o presidente da Conmebol é muito mais do que somente um herdeiro: Alejandro Dominguez é sócio da Tabacalera Boqueron. Acionista e nome no registro da empresa, já estava como sócio quando, nos anos 90, começaram a explodir as acusações de contrabando de cigarro da empresa. Escândalos detalhados em comissões parlamentares de inquérito e processos judiciais em diferentes países, investigação policiais e do ministério público.

Uma modesta apreensão de 87 caixas de cigarro contrabandeados do Paraguai para São Paulo, em 1997, foi o ponto de partida para uma investigação do Ministério Público Federal-SP, que desembocou em denúncia oferecida e aceita em 2001 na justiça de São Paulo, tendo tramitado na 6º Vara Criminal.

O MPF-SP traçou com detalhes a ação e o papel da Tabacalera Boquerón, a sociedade de “ODD” e do filho Alejandro Dominguez no que chamaram de “organização criminosa” que comandava a engrenagem do contrabando de cigarros entre Brasil e Paraguai.

O empreendimento criminoso, segundo a peça, apresentava “uma divisão funcional de atividades e conexões locais, nacionais e internacionais”. É nesse braço de atividades e conexões internacionais que entrava a unidade dos Dominguez, de acordo com o MPF-SP. “Assim é que os cigarros, de marcas próprias ou contrafações de marcas nacionais, produzidos nas fábricas de Roberto Eleutério ou na Tabacalera Boquerón, de propriedade do cidadão paraguaio Osvaldo Dominguez Dibb, eram contrabandeados do Paraguai”.

A monitoração telefônica de “ODD” por parte da investigação também permitiu desenhar com maiores detalhes os tentáculos da Tabacalera Boquerón no esquema. “É de se observar que a marca Derby, de titularidade da empresa Souza Cruz, conforme diálogos mantidos entre integrantes da organização no Brasil e os fornecedores paraguaios, entre eles Osvaldo Dominguez Dibb, é uma das mais falsificadas e contrabandeadas, muitas vezes sendo identificada, durante a transação comercial, com o código “418”.

As apreensões geraram provas: “os cigarros apreendidos apresentam em muitas de suas caixas, conforme se pode observar em vista realizada pelo MPF ao depósito da Receita Federal, rótulos indicando que foram produzidos pela Tabacalera Boquerón, sediada no Paraguai e de propriedade de Osvaldo Dominguez Dibb”. Denunciado por associação criminosa, contrabando, falsificação de estampilhas (selos) e crime contra a saúde pública, o processo por fim foi arquivado.

Em 2003, a câmara dos deputados instaurou em Brasília uma Comissão Parlamentar de Inquérito, a “CPI da Pirataria”. “ODD” e a Tabacalera Boquerón ocupam um capítulo inteiro do relatório final, apontado como “um dos principais falsificadores de cigarros do Paraguai”.

O modus operandi dos donos da Tabacalera Boquerón no esquema também está esmiuçado no relatório da CPI:

“Utiliza um avião do tipo Bell/90, série LA 46, registro ZP-TZE, em nome de sua filha, para a prática do contrabando ou descaminho. As pistas utilizadas são as do Aeroporto Guarani, de Ciudaddel Este, e uma em La Fortuna…Suas fábricas produzem pelo menos 13 marcas de cigarros de peso no mercado brasileiro: Belmont, Campeão, Derby, Indy, LS, Minister, Mistura Fina, Mustang, Oscar, Plaza, Ritz, US e Vanguard. Todas falsificadas.”

As escutas em cima de “ODD” captaram ainda a garantia de qualidade dos produtos da Tabacalera Boquerón dada aos parceiros por “ODD”: “Podem ficar tranquilos porque toda a produção tem o mesmo padrão de qualidade”.

A transformação de um país em negócio privado da família Stroessner e de seus parceiros alimentou os Dominguez em diferentes fronts. E gerou a fortuna do conglomerado Dominguez Dibb. Em fevereiro de 1969, Humberto Dominguez inaugurou, ao lado do sogro, sua fábrica de arames, a ICIERSA. Stroessner já tinha deixado o caminho livre para eliminar qualquer chance de insucesso dois meses antes, quando, no 31 de dezembro, publicou decreto proibindo a importação de alguns itens, entre eles o arame. Em 1975, o genro inaugurou ao lado do general a fábrica de pilhas “Paraguayas”. Noventa dias depois, decretou a proibição de importação de pilhas. De decreto em decreto do general, de monopólio em monopólio, os Dibb foram amealhando a fortuna da família.

PLATA Y PLOMO: “MATADOR COM UMA ESCOPETA AMEAÇANDO CRIANÇAS E MULHERES”

O roubo de terras por parte do que a Comissão de Verdade e Justiça do Paraguai chamou de “famílias próximas a ditadura Stroessner” foi uma das maiores marcas do período. De acordo com a comissão, 3.336 famílias ou grupos empresariais com alguma relação ao ditador, se apropriaram de 8 milhões de hectares de “terras mal habidas”.

O relatório “Los dueños de la tierra en Paraguay”, publicado pela organização internacional Oxford Committe for Famine Relief (OXFAM) em 2016, estima que o “Grupo Domínguez Dibb” acumulou 52 mil hectares no período, concentrados principalmente na Estancia La Gringa, de 35 mil hectares, em San Pedro, e na Estancia Loma Verde, em Presidente Hayes, com 17 mil hectares.

O caso mais conhecido de terras do “Grupo Dominguez Dibb” apontadas como apropriadas ilegalmente é o da Estância Loma Verde, onde está a “Agroganadera Loma Verde”, da família.

Ali estão as terras da comunidade indígena Yakye Axa, que tiveram seu território gradualmente sendo tomado por fazendeiros ao longo do século XX, processo acelerado no período Stroessner.

Em 13 de julho de 2005, a CIDH sentenciou que o estado paraguaio deveria identificar o território tradicional e ancestral dos membros da Comunidade Indígena Yakye Axa, em posse dos Dominguez Dibb e entregá-los de maneira gratuita. Isso nunca ocorreu.

Expulsa de sua terra, a comunidade indígena vive até hoje à margem da estrada, onde é frequente o falecimento de crianças Yakye Axa por causa de acidentes na rodovia. No documento da CDIH de 2012, publicado pelo ministério da justiça do Brasil, o relato de uma testemunha cita a presença de um “matador” na propriedade dos Dominguez Dibb:

 “Na Estancia Loma Verde foi colocada uma pessoa como o matador do lugar, que costuma percorrer o alambrado com uma escopeta ameaçando as crianças e as mulheres, porque tem a ordem de não deixar as pessoas entrarem para retirar lenha nem água. A testemunha é a única que pode se aproximar do senhor quando é necessário que se esclareça algo, de modo que também recebeu ameaças.” Por fim, contam que “as crianças não possuem alimentação, às vezes não possuem nada para comer durante o dia. Há muitas dificuldades para a prática de caça, já que estão proibidos de entrar na estância”.

FUTEBOL: EM BUSCA DA POPULARIDADE E SEMPRE NA ROTA DOS ESCÂNDALOS

Poderosos, impunes, milionários e amigos do rei. Os donos do Paraguai.

Faltava apenas um ingrediente aos Dominguez Dibb: o respaldo popular.

Percorreram o caminho mais fácil, indo ao encontro de onde muitas vezes se busca esse ingrediente: o futebol.

Em 1976, ainda na ditadura Stroessner, “ODD” assumiu a presidência do Olímpia. Em 1979, o clube conquistou a Libertadores e o Mundial Interclubes.

 Estabeleceram uma dinastia e um feudo no Olímpia, com Humberto nos bastidores e Alejandro no conselho de administração entre 1995 e 1996, e a vice-presidência entre 2004 e 2006. Neste ano, Alejandro Dominguez passou a vice-presidência da Associação Paraguaia de Futebol (APF), com o “ODD” mantendo-se influente até a morte, em 2024. Em 2014, Juan Angel Napout, então o presidente da APF, assumiu a titularidade da Conmebol e Alejandro chegou número 1 da APF.

Em dezembro de 2015, quando explodiu o Fifagate, maior caso de corrupção da história do esporte, Napout foi preso na Suíça. De acordo com a acusação apresentada por Loretta Lynch, então Procuradora-Geral dos Estados Unidos, Napout, em 2013, ainda na presidência da APF, teria recebido US$ 7,5 milhões da Datisa, empresa que comercializava os direitos de televisão pela exclusividade da Copa América. Alejandro Dominguez era seu vice no período, mas não foi acusado. Com a queda de Napout da Conmebol, em janeiro de 2016, Alejandro Dominguez foi aclamado novo presidente da Conmebol, onde está até hoje.

OPÇÃO POR CONTRATO COM “PARCEIROS” ASSINADO POR ALEJANDRO DOMINGUEZ GEROU PERDA DE US$ 7,6 MILHÕES

Em 2021, com Alejandro Dominguez já na presidência da Conmebol, veio à tona o episódio do contrato assinado por ele quando ainda estava na Associação Paraguaia de Futebol.

De acordo com as denúncias, Alejandro, então mandatário da APF, teria assinado, em 5 de maio de 2015, um contrato com a empresa Ciffart Sport, no valor de US$ 9.380 milhões, cedendo os direitos de transmissão dos jogos do Paraguai nas eliminatórias da Copa da Rússia 2018. A Ciffart seria intermediária da Full Play para pagamento de subornos.

Ocorre que, exatos 11 dias antes, em 24 de abril, Alejandro Dominguez teria tido uma oferta e um contrato na mão, que acabou vindo a público, no valor de US$ 17 milhões com a Tenfield pelos mesmos direitos. Ou seja: teria optado por uma perda de US$ US$ 7,62 milhões (sete milhões, seiscentos e vinte mil dólares). Em novembro de 2021, numa corte de Assunção, Alejandro Dominguez se recusou a responder sobre o caso. Em 2023, o episódio foi alvo de investigação do Comitê de Ética da Fifa, onde Alejandro Dominguez ocupa uma vice-presidência desde 2018. A investigação não foi adiante. O escândalo não o impediu de ser também, desde 2017, o presidente da Comissão de Finanças da Fifa.

ALEJANDRO DOMINGUEZ ABRIU EMPRESAS EM PARAÍSO FISCAL LOGO DEPOIS DE ASSINAR O CONTRATO DA APF POR ELIMINATÓRIAS DE 2018

Refazendo o caminho e as pegadas desse episódio e desse contrato, a reportagem descobriu uma nova coincidência de datas muito próximas:

No dia 19 de junho de 2015, exatos 45 dias depois de assinar com a Ciffart o contrato com valor muito menor do que a oferta que recebera da Tenfield, o registro público de empresas do Panamá tem a abertura da “Spark Bay S.A.”, cujo objeto é de investimentos e gestão de ativos diversos.

Alejandro Guillermo Dominguez Wilson Smith assina como presidente da empresa.

Maria Mercedez Perez Dominguez, casada com Alejandro Dominguez, está como secretária. Ambos constando no mesmo endereço em Assunção.

Montserrat Jimenez Granada aparece como tesoureira.

Montserrat Jimenez Granada não é apenas sócia de Alejandro Dominguez em uma empresa privada em paraíso fiscal. A advogada é a Diretora Jurídica e Secretária Geral Adjunta da Conmebol desde a chegada de seu sócio na Spark Bay à presidência da entidade máxima do futebol sul-americano. E já acompanhava o dirigente na Associação Paraguaia de Futebol desde a entrada dele como presidente, em 2014, só saindo para acompanhá-lo na Conmebol.

Na empresa panamenha, a diretora da Conmebol forneceu como endereço o escritório de advocacia Jiménez Balbiani & Asociados, do qual é parte, com seu irmão, Julio Jimenez, vice-presidente do Olímpia e intimamente ligado a Alejandro Dominguez: calle Jejuy 290 esquina Oleary.

 Alejandro Dominguez e Montserrat Jimenez seguem juntos na Conmebol e na empresa privada. O Panamá está na lista de paraísos fiscais de entidades como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e União Europeia, e é conhecido por práticas de sigilo financeiro e baixa tributação, que facilitam a evasão fiscal e a lavagem de dinheiro. A abertura da “Spark Bay”, em 2015 no país é, portanto, anterior ao Panamá Papers, escândalo de 2016, a partir do qual outros países se tornaram mais procurados para tais transações

CRONOLOGIA

– 24 DE ABRIL DE 2015: ALEJANDRO DOMINGUEZ RECEBE OFERTA DE US$ 17 MILHÕES DA TENFIELD POR DIREITOS DE ELIMINATÓRIA DE COPA DE 2018

– 5 DE MAIO DE 2015: ALEJANDRO DOMINGUEZ ASSINA CONTRATO COM O A CIFFART POR US$ 9,38 MILHÕES

– 19 DE JUNHO DE 2015: ALEJANDRO DOMINGUEZ ABRE A EMPRESA “SPARK BAY” NO PARAÍSO FISCAL DO PANAMÁ JUNTO COM A SECRETÁRIA DA CONMEBOL

NOVOS NEGÓCIOS, VELHAS SOMBRAS: UM CONTRATO MILIONÁRIO DE PETRÓLEO E MUITAS DÚVIDAS

O negócio da vez dos Dominguez cruza as fronteiras e envolve milhões.

No dia 30 de setembro de 2024, a Petroleos Paraguayos (Petropar) e Doha Holding Group assinaram um contrato no valor de US$ 61 milhões.

Com previsão de entrega de 100.000 toneladas métricas de combustível por um preço significativamente menor do que o que a Petropar normalmente paga. Com preço do diesel fixado em US$ 610 por tonelada, o que é bem abaixo do praticado no cenário mundial, em que o preço médio internacional do diesel em 2023/2024 variou entre US$ 700 e US$ 900 por tonelada. A entrega do combustível deveria ter sido entre outubro e novembro do ano passado, mas em março último as empresas assinaram a quinta prorrogação de prazos.

PANAMÁ, DOHA, ASSUNÇÃO E A MESMA ESQUINA: TODOS OS CAMINHOS LEVAM A ALEJANDRO DOMINGUEZ

Sem qualquer tradição ou registro público de transação no mercado de combustível e histórico comprovado, a Doha Holding contou com um trunfo para obter o contrato com a Petropar: quem assina como um dos representantes da empresa é Alejandro Facundo Dominguez Pérez. O filho do dirigente máximo do futebol continental. É a terceira geração dos Dominguez envolvida em negócios controversos.

O herdeiro de Alejandro Dominguez como representante de uma empresa estrangeira em uma transação milionária no ramo do petróleo chama atenção também, já que cerca de um ano antes, mais exatamente no dia 13 de maio de 2023, estava se formando em jornalismo na William Allen White School of Journalism and Mass Communications, da Universidade do Kansas, Estados Unidos. Pouco tempo depois, estava assinando contrato milionário em área totalmente distinta da formação no ano anterior.

Além do filho, todos os caminhos da Doha Holding tangenciam o presidente da Conmebol. Como o endereço em Assunção fornecido pela empresa catari no contrato com a Petropar: calle Jejuy 290 esquina Oleary.

Este endereço já apareceu nesta reportagem. Sede do escritório de advocacia Jiménez Balbiani & Asociados, de Julio Jimenez, vice-presidente do Olímpia e intimamente ligado a Alejandro Dominguez, e de Montserrat Jimenez Granada, a sócia de Alejandro Dominguez na empresa que os dois tem no paraíso fiscal do Panamá. A advogada já citada que o acompanha não só em offshores, mas que está com ele também na Conmebol e antes esteve na Associação Paraguaia de Futebol.

Os documentos da Doha Holding Group obtidos pela reportagem mostram que ela foi aberta em 14 de dezembro de 2023, apenas nove meses antes do contrato com a Petropar, e está registrada no Qatar Financial Centre, que funciona como uma zona econômica especial e centro financeiro no Catar, operando com um sistema jurídico e regulatório independente, em inglês, para empresas de serviços financeiros e não financeiros.  De acordo com o Tax Justice Network, ONG inglesa que investiga paraísos fiscais e países com alto grau de sigilo bancário, o Catar, embora não seja um paraíso fiscal, está classificado como um dos países de sigilo financeiro relevante, em 20º no mundo.

Com capital de dez milhões de riais catarianos, equivalentes a US$ 2,75 milhões, a Doha Holding tem como acionista principal o Sheik Khalifa Hamad Al-Thani, que foi emir do Catar até 2013, sendo sucedido pelo filho, atualmente no poder. O secretário Saad Doukali aparece em diversos empreendimentos financeiros.

O DONO DO PARAGUAI

No dia 11 de abril de 2024, uma quinta-feira, às 12h17, as câmeras de uma obra em construção flagraram um homem de camisa social azul e calça num tom mais escuro adentrando um pequeno campo de futebol com gramado sintético, situado na Avenida Molas Lopez, entre San Martin e Dr Cirilo Cáceres, no bairro de Las Lomas.

Aos berros, gritava para os operários do prédio em construção no terreno ao lado do campinho: “Si llego a ver a alguien que invada mi propiedad privada, levoy a meter plomo”. Em bom português: “Se eu pegar alguém invadindo minha propriedade, vou meter chumbo”. Pouco tempo depois, obteve o embargo da obra.

No vídeo, que é parte do processo na justiça paraguaia e foi obtido pela reportagem, o homem, captado à meia distância nas imagens, fala da polícia como se fosse uma instituição a serviço dele, e segue aos berros avisando aos funcionários da obra que se houver invasão da propriedade dele, “vai fazer descerem e serem presos”, sempre enfatizando ser o dono da propriedade ao lado da obra.

A propriedade é de Alejandro Dominguez, o presidente da Conmebol, como está no processo. A entidade de futebol inclusive está citada porque, de acordo com a peça, o dirigente promoveu reunião de interesse particular com a entidade de classe dos proprietários imobiliários na própria Conmebol.

Além de tratar dos assuntos de interesse particular do mandatário, a Conmebol segue o fracasso semanal no combate ao racismo pelos campos do continente. Em 17 de março último, Alejandro Dominguez achou por bem falar sobre eventual ausência de clubes do Brasil na Copa Libertadores da América comparando brasileiros a macacos: “Seria como o Tarzan sem a Chita”. Dezoito anos antes, o pai, Osvaldo Dominguez Dibb, ganhou o prêmio de “Artigo Mais Racista do Ano de 2007”, concedido pela organização de direitos humanos Survival International.

 No editorial “Índios na Praça Uruguai”, publicado no La Nacion no dia 13 de setembro de 2007, “ODD” atacou os indígenas, que expulsos por aqueles que tinham tomado suas terras, acamparam entre janeiro e setembro no local. Uma praça, por acaso, vizinha do Crowne Plaza Hotel, de propriedade dos Dominguez. “Um câncer” e “hábitos imundos”, foram alguns dos termos usados por “ODD”. Que prosseguiu em seu texto:

“Um acampamento indígena neolítico bem no centro da cidade é impensável, mas lá está ele, como um câncer perigoso, espalhando maus cheiros, destruição e contaminação. A cidade está sendo punida sem motivo e não deveria ter que pagar por isso. Os indígenas precisam aprender a viver como pessoas ou voltar para a selva.”

O poder dos Stroessner ficou para trás, deixando um rastro genocida, violento e corrupto. Os Dominguez, cúmplices e produtos desse tempo, seguem cada vez mais firmes e se renovando. Inaugurando a terceira geração envolvida em negócios rumorosos. E cada vez mais poderosos. Terras, imóveis, fortuna, justiça, transações milionárias, meios de comunicação. Como donos de um país. Ou mais do que isso. Do futebol no continente. Numa história tão América Latina. Como tantas outras já vistas por aqui, de plata y plomo.

OUTRO LADO:

A reportagem enviou para Alejandro Dominguez, através do departamento de comunicação da Conmebol e também para seu e-mail pessoal, questões sobre os pontos abordados. A Conmebol confirmou o contato mas não respondeu as perguntas e pedidos de comentário, assim como o presidente da entidade, Alejandro Dominguez, e a secretária Montserrat Jimenez.

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