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- Irmã do presidente da CBF usa imagem de Neymar e Vini em anúncio de gelo sem autorização
Irmã do presidente da CBF usa imagem de Neymar e Vini em anúncio de gelo sem autorização
Sem autorização, a irmã de Samir Xaud usou a imagem dos dois principais jogadores da seleção brasileira em seu negócio privado.
Em duas postagens no instagram da “Ponto com Gelo”, Neymar e Vinícius Jr aparecem fazendo propaganda da fábrica. A empresa, cujo nome de registro é “Única Indústria de Gelo ltda”, com sede em Boa Vista, Roraima, tem como proprietária, de acordo com os documentos da Receita Federal e da Junta Comercial daquele estado, Samara de Araujo Xaud, irmã do presidente da CBF. As peças foram feitas com uso de inteligência artificial.
A reportagem do Lance entrou em contato com os dois jogadores para saber se teriam feito publicidade ou consentido as publicações. Através da assessoria de imprensa, Neymar negou qualquer relação. “A NR Sports não mantém nenhuma relação comercial com a indicada empresa, tampouco foi autorizado o uso da imagem do Neymar Jr”. A assessoria de Vinícius Jr também desmentiu a parceria ou cessão de imagem e informou que o corpo jurídico
que trabalha com o atleta iria interpelar a empresa em questão para a retirada da postagem.
Enviamos pedido de resposta para Samara Xaud via o contato da empresa, sem resposta. Pedimos ainda que a CBF, por meio do departamento de comunicação, informasse se o presidente da entidade estava ciente dos anúncios da irmã. “O presidente Samir Xaud não tinha conhecimento das postagens”, informou a assessoria.
Ainda ontem, logo após o envio do pedido de resposta para a proprietária Samara Xaud por parte desta reportagem, as postagens com as imagens de Vinícius Jr e Neymar Jr foram removidas da página do instagram da fábrica de Samara Xaud. A reportagem printou ambos os posts antes do envio do pedido de “outro lado”.
Além da fraude em si, tanto Neymar quanto Vinícius Júnior estão retratados na montagem de maneira pejorativa para atletas.
Neymar aparece em postagem como se estivesse aplicando gelo em cima de contusão, em alusão ao histórico de lesões do jogador, e com uma legenda irônica, afirmando que “nos bons momentos, a Ponto com Gelo tá junto. Nos tombos de Neymar também”, seguido por um emoji tradicional de risada e outro de gelo. O post da fábrica com Neymar estava no feed da fábrica e foi postado no dia 21 de maio, três dias após o anúncio da convocação do grupo que iria para a Copa do Mundo.

Entre as 48 equipes participantes do Mundial, a seleção brasileira foi a única a realizar um evento grandioso para o anúncio. Na ocasião, no Museu do Amanhã, centro do Rio de Janeiro, empresas com laços de negócios anteriores com o vice-presidente da CBF Gustavo Dias Henrique foram as responsáveis pela realização da dispendiosa superprodução. O auge da cerimônia foi o anúncio da convocação de Neymar, que, ao ter seu nome proferido na lista pelo técnico Carlo Ancelotti foi recebido com urros da plateia, formada por uma mistura de jornalistas, influencers e os denominados “parças”, como são conhecidos os amigos do jogador.
Já a postagem da empresa de Samara Xaud sobre Vinícius Júnior tem características do que, no jargão do mercado publicitário, é chamado de “kitsch”, ou seja, uma peça de gosto duvidoso ou mesmo de mau gosto. No caso em questão, deselegante.
No dia 15 de maio, a Ponto com Gelo publicou uma imagem falsa, feita com utilização de inteligência artificial, na qual o atacante do Real Madrid aparece em uma mesa de bar com expressão consternada e de choro, cabisbaixo, cotovelo sobre a mesa amparando a cabeça e diante de um copo de uísque com gelo. Ao lado, um saco plástico com o logotipo da empresa e uma mensagem: “Nos bons ou maus momentos, a Ponto com Gelo está sempre com você, menino Vini Jr”.
Horas antes da postagem da Ponto com Gelo, logo pela manhã, a influencer Virgínia Fonseca tinha anunciado pelas próprias redes o término do namoro de seis meses com Vinícius Júnior. Ao fundo, como trilha sonora, a empresa de Samara Xaud usou a música “Pra você”, do conjunto “O filé do brega”, onde aparecem os versos “Tu sabes que eu preciso do seu amor/Amor igual ao teu jamais vou encontrar/Não conseguirei ficar longe de você”.
A falsa associação da marca feita via inteligência artificial e sem autorização para uso da imagem e remuneração, além de constituir violação aos direitos autorais e à personalidade, é também um pesado drible financeiro nos atletas.
De acordo com levantamento feito pela reportagem do Lance em publicações nacionais e estrangeiras, o valor no mercado de Neymar e Vinícius Júnior para esse tipo de publicidade chega a milhões.
Divulgada três dias após a convocação, confirmada a inclusão do craque santista na lista, a peça sem consentimento da Ponto com Gelo é paralela no tempo a três postagens oficiais do jogador logo após a confirmação da presença.
Em cada uma, Neymar faturou aproximadamente R$ 10 milhões, ou seja, total de R$ R$ 30 milhões.
Já uma postagem de Vinícius Júnior no feed do instagram, como é chamada a grade principal da rede onde ficam armazenadas fotos e vídeos, é avaliada em cerca de US$ 600 mil, o equivalente a R$ 3.089.100,00.
FÁBRICA DE GELO TEM COMO ATIVIDADE SECUNDÁRIA A EXTRAÇÃO DE MADEIRA
Localizada em uma área de 385,92 metros quadrados no bairro Centenário, na capital roraimense, a empresa teve seu capital social aumentado em 22 de dezembro de 2022, passando de R$ 300 mil para R$ 450 mil. Além do objeto principal, a “fabricação de gelo comum”, a fábrica de Samara Xaud tem, entre outras atividades secundárias registradas a “extração de madeira em florestas plantadas”.
Irmã mais velha do presidente da CBF, com 50 anos, Samara Xaud tem um histórico de envolvimento em casos com denúncias de corrupção. A roraimense ingressou como assessora parlamentar comissionada no gabinete do senador Chico Rodrigues (PSB-RR) em maio de 2019, com salário de R$ 10.447,29 e se desligou em dezembro de 2020. Menos de dois meses depois foi nomeada assessora especial da presidência da Assembleia Legislativa de Roraima.
SAMARA XAUD FOI PEÇA IMPORTANTE NO “ESCÂNDALO DA CUECA”
A saída veio depois de um episódio com repercussão nacional que ficou conhecido como “O escândalo da cueca”, no qual a irmã de Samir Xaud teve importante participação.
Em 14 de outubro de 2020, Chico Rodrigues, à época vice-líder do governo Bolsonaro, foi flagrado com dinheiro escondido na cueca em uma operação da Polícia Federal que investigava o desvio de cerca de R$ 20 milhões em emendas parlamentares destinadas ao combate à covid-19.
Durante o cumprimento do mandado de busca e apreensão na casa do parlamentar, em Boa Vista, a PF encontrou cédulas de dinheiro escondidas na cueca e até entre as nádegas do senador, num total de R$ 33.150,00. A PF gravou o instante da apreensão, que acabou exibido para todo o Brasil. Na ocasião, Chico Rodrigues negou qualquer irregularidade e afirmou que o dinheiro seria usado para pagar funcionários. O parlamentar justificou ter escondido as notas porque teria entrado em pânico com a batida da PF.
Na ocasião, Chico Rodrigues foi denunciado por peculato, advocacia administrativa, embaraço às investigações e lavagem de dinheiro. Em 6 de dezembro de 2021, Chico Rodrigues foi amplamente citado no relatório da CPI da Saúde.
MARIDO DE SAMARA XAUD É APONTADO COMO O OPERADOR DO “ESCÂNDALO DA CUECA”
Samara e Rodrigues ainda dividem outra ligação no caso. Ela é casada desde 13 de julho de 2010 com Jean Frank Padilha Lobato, ex-deputado estadual por Roraima e apontado como o operador de Chico Rodrigues.
O relatório da Polícia Federal indica que Chico Rodrigues repassou R$ 3,2 milhões para a Quantum Empreendimentos e Saúde, empresa registrada em nome de Roger Pimentel. No entanto, por ocasião da operação, a PF apontava que o verdadeiro dono da empresa seria Jean Frank, o marido de Samara Xaud.
A PF afirma também que Jean Frank e Chico Rodrigues chegaram a trocar 3,5 mil mensagens de WhatsApp ao longo de dois anos. De acordo com a PF, Jean Frank tratava Chico Rodrigues como “chefe”.
INQUÉRITO DA PF AFIRMOU QUE IRMÃ DO PRESIDENTE DA CBF OPERAVA A CONTA BANCÁRIA UTILIZADA PARA O DESVIO
Na peça, está descrito que Jean Frank e Samara Xaud recebiam depósitos fracionados regularmente provenientes do esquema. Na época da operação, a PF ainda encontrou na residência do casal um cronograma para destinação de verba superior a R$ 19 milhões, que as autoridades concluíram serem provenientes de recursos de emenda do senador.
De acordo com o inquérito da PF, Jean Frank recebia o dinheiro em espécie e em uma conta bancária operada por Samara Xaud.
Em um dos diálogos gravados pela PF no telefone grampeado de Roger Pimentel, de acordo com o inquérito, Samara Xaud relata a função de sacar o dinheiro da conta: “o Jean pega o dinheiro, aí ele já esquece que pegou o dinheiro. No dia seguinte ele acorda e “Nunca peguei dinheiro com você”. Então… é …todo dinheiro que eu to passando pra ele eu tenho comprovante de tudo. Porque eu tenho que sacar, entendeu”?
No último dia 7, em reportagem de Vicente Seda, o Lance publicou que Samara Xaud viajou para Coreia do Sul e Japão em outubro de 2025, em datas que coincidem com amistosos da seleção naquele país, com as notas faturadas na CBF. A entidade nega.
OUTRO LADO:
SAMARA DE ARAUJO XAUD:
A reportagem enviou questões para a empresária mas não obteve resposta.
CBF:
A reportagem questionou a CBF se o presidente da entidade tinha conhecimento de que a irmã utilizava a imagem
dos atletas que estavam defendendo a seleção brasileira na Copa do Mundo para propaganda da própria fábrica pelo
instagram da empresa:
“O presidente Samir Xaud não tinha conhecimento das postagens”
VINÍCIUS JR:
O jogador Vinícius Jr, por meio da assessoria de imprensa, informou que jamais cedeu a imagem para tal uso e que
o corpo jurídico do atleta irá notificar a empresa.
NEYMAR JR:
“A NR Sports não mantém nenhuma relação comercial com a indicada empresa, tampouco foi autorizado o uso da
imagem do Neymar Jr”.
Susan Sontag debateu representação de vozes silenciadas na literatura
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- “Obra do Mauro”: PF aponta favorecimento de mineradora investigada na Operação Parcours por diretor-geral da ANM
“Obra do Mauro”: PF aponta favorecimento de mineradora investigada na Operação Parcours por diretor-geral da ANM
As investigações da Polícia Federal (PF) na Operação Parcours revelam indícios de ações de órgãos federais favoráveis à mineradora Empabra, a principal empresa do grupo de mineradoras investigadas por lavra ilegal na Serra do Curral em Belo Horizonte. Uma delas, citada no relatório mais recente da investigação, foi classificada como a “obra do Mauro”.
O termo foi usado pelo empresário Luis Fernando Franceschini, um dos principais alvos da Parcours, ao sugerir que a atuação da Advocacia-Geral da União (AGU) em defesa da mineradora teria sido articulada diretamente por Mauro Henrique Moreira Sousa, diretor-geral da Agência Nacional de Mineração (ANM), que também foi indiciado pela PF, que permanece no cargo.
Segundo o relatório, o grupo percebia o dirigente da agência reguladora como um patrocinador de seus interesses, uma vez que ele “teria influenciado atuação institucional favorável à Empabra, inclusive junto à Advocacia-Geral da União”, órgão federal onde Sousa começou a atuar a partir de 2005, passando pela consultoria jurídica do Ministério de Minas e Energia (MME), como ele destacou na sua mensagem aos senadores antes de assumir o posto na ANM.
“A IPJ destaca que Mauro é servidor de carreira da AGU. Ainda que o trecho deva ser tratado como indiciário, ele revela a percepção interna do grupo de que Mauro poderia influenciar ou articular atuação institucional favorável à Empabra em disputas administrativas ou judiciais”, diz a PF.
Esse ponto das conversas, informa o relatório, “é especialmente sensível porque a atuação estatal deveria ser guiada pelo interesse público e pela defesa da legalidade, e não pela estratégia privada de empresa regulada investigada por lavra irregular, dano ambiental, fraude documental e usurpação de bens minerais da União”.

A Polícia Federal identifica uma “relação próxima, frequente e informal” entre Mauro Sousa e o controlador da mineradora, Franceschini. Durante o período monitorado pela PF, foram registradas “diversas mensagens e 61 ligações entre ambos”, tratando de temas sensíveis como o Plano de Fechamento de Mina (PFM) da Mina Corumi.
Para os investigadores, o teor das conversas revela uma dinâmica “incompatível com a impessoalidade esperada entre o dirigente máximo de agência reguladora e empresário do setor regulado”.
Além do contato direto com o proprietário, Mauro Sousa mantinha comunicações em tom de intimidade com a coordenadora jurídica da mineradora, Ana Laura Braga de Carvalho. Em mensagens interceptadas, o Diretor-Geral chamava a advogada de “queridinha” e combinava encontros e jantares em Brasília. Esse canal privilegiado permitia que o dirigente adiantasse informações sobre a tramitação de processos, informando, por exemplo, que a equipe técnica da agência se manifestaria em data específica sobre um processo.
A captura institucional da ANM, segundo a PF, incluía também a submissão informal de documentos oficiais à autoridade máxima antes mesmo de sua entrada formal no sistema. O empresário Franceschini chegou a admitir a advogados do grupo ter enviado minutas de ofícios para que o diretor-geral apresentasse eventuais “considerações” prévias. A PF sustenta que essa conduta permitia à empresa ajustar suas petições com base na avaliação da autoridade, violando a “isonomia, impessoalidade e regularidade procedimental”.
PF indiciou Mauro Henrique Sousa por advocacia administrativa e associação criminosa
O relatório final da Operação Parcours conclui que Mauro Sousa atuou de forma decisiva para a “superação de entraves administrativos relacionados a empreendimento sob investigação por lavra irregular”.
Diante das provas de que ele teria utilizado o prestígio do cargo para favorecer interesses particulares, a PF o indiciou por condutas que reúnem “elementos de advocacia administrativa e tráfico de influência”. A investigação aponta que essa proteção interna na agência reguladora era um dos pilares para assegurar a “continuidade da exploração mineral” clandestina na Serra do Curral.
As conversas do diretor-geral da ANM com o controlador da Empabra também citam outros três servidores da agência: Fábio Perlatti, Ronaldo de Azevedo Coimbra e Roger Romão Cabral. Perlatti é gerente de Sustentabilidade e Fechamento de Mina da Superintendência de Fiscalização da ANM e Romão era diretor e deixou o cargo em dezembro de 2025. Coimbra ainda faz parte da ANM.
“Em novembro e dezembro de 2024, Franceschini tratou diretamente com Mauro sobre a equipe da ANM responsável pela análise do PFM, ocasião em que o Diretor-Geral mencionou o Diretor Roger Romão Cabral, integrante da Diretoria Colegiada, e informou movimentações internas relacionadas ao tema”, afirma o relatório.

O inquérito cita ainda que em fevereiro de 2025, ao ser questionado por Franceschini sobre pareceres de servidores da ANM, como Perlatti e Ronaldo Coimbra, Mauro respondeu que encaminharia a demanda à Romão, responsável pela coordenação do assunto.
“A gravidade do contato não está apenas na existência de diálogo entre regulador e regulado, mas no conteúdo e na forma da interlocução. Mauro adiantou a Franceschini informações sobre a tramitação interna do PFM, inclusive que Roger já havia conversado com Marco Túlio Naves De Carvalho e que a equipe deveria se manifestar até determinada data. Tal conduta, em tese, ultrapassa o dever de transparência institucional e sugere tratamento privilegiado, pois Franceschini passava a acompanhar, por canal pessoal e informal, atos internos de análise técnica da ANM relativos a procedimento administrativo de interesse direto de sua empresa”, diz a PF.
Associado ao nome de Coimbra e de Leandro Cesar de Carvalho, servidor indiciado por lavagem de dinheiro, está uma anotação em um quadro no inquérito da PF sobre como o Plano de Lavra de 2016 foi considerado satisfatório, “embora utilizasse a recuperação ambiental/PRAD para justificar a extração máxima de produtos”.
O relatório informa ainda que após denúncia de extração ilegal, relatório de fiscalização de novembro de 2017 afirmou não haver lavra ou extração mineral na poligonal da mineradora. “Informação potencialmente falsa ou enganosa, pois o acervo técnico indicou extração ilegal no período da vistoria. Indício de sonegação de dados em fiscalização e facilitação da continuidade da lavra irregular”, destaca o inquérito.

ANM não comenta e AGU informou que abriu processo interno para apurar os fatos
Procurada pela reportagem, a ANM respondeu que “em relação aos nomes mencionados, a agência não comenta o conteúdo de investigações em andamento nem faz manifestações sobre citações constantes de inquéritos policiais”.
E que a posição institucional da agência sobre o caso permanece a mesma do que foi publicado em uma nota no dia 28 de junho. No texto, a ANM informa que Mauro Sousa participou dessas tratativas “exclusivamente como representante institucional da Agência perante o Poder Judiciário e os demais órgãos envolvidos, no exercício das atribuições inerentes ao cargo”.
“Esclarecemos apenas que pareceres e manifestações técnicas produzidos por servidores da ANM são elaborados no exercício regular de suas atribuições legais, com fundamento em critérios técnicos e administrativos”, diz também a ANM em resposta aos pedidos de contrapontos sobre os servidores citados.
Os outros servidores da ANM citados no relatório da Polícia Federal, Fábio Perlatti, Ronaldo de Azevedo Coimbra e Roger Romão Cabral não estão entre os indiciados pela PF. Mauro Henrique Moreira Sousa foi indiciado por advocacia administrativa e associação criminosa.
Após ser procurada pela reportagem no dia 3 de julho, a AGU informou que abriu um processo interno para apurar os fatos neste mesmo dia. “Diante da referida operação da Polícia Federal, a Corregedoria-Geral da AGU abriu, de ofício, análise prévia sobre a existência de potenciais infrações disciplinares cometidas por membros da instituição. Este procedimento é sigiloso”, diz a nota enviada pela AGU.
O relatório da Polícia Federal aponta que Marco Túlio foi o principal articulador técnico da organização investigada. O geólogo ocupava cargos de alta gestão no conglomerado minerário investigado e atuava como diretor de operações técnicas da Empabra e, simultaneamente, apresentava-se profissionalmente como diretor executivo da Fides Mining, mineradora controlada pelo empresário Luis Fernando Franceschini.
A reportagem não conseguiu retorno das tentativas de contato com Marco Túlio Naves de Carvalho por meio dos canais de comunicação da empresa em que atua com Francischini, a Fides Mining. A defesa de Luis Fernando Franceschini disse que não dará declarações nesta fase do processo.
A reportagem não conseguiu contato com Ana Laura Braga de Carvalho ou seus advogados no processo. Ela foi indiciada por associação criminosa, falsidade ideológica ambiental e participação em estratégias para manter a lavra sob aparência de recuperação ambiental.
O espaço para Ana Laura e os demais citados que não conseguiram contrapontos até o fechamento desta edição continua aberto para suas manifestações e alegações.
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- Sigma Lithium tenta censurar matéria e envia mais uma notificação extrajudicial ao Observatório da Mineração
Sigma Lithium tenta censurar matéria e envia mais uma notificação extrajudicial ao Observatório da Mineração
Em 6 de julho de 2026, a Sigma Mineração S.A. (Sigma Lithium), por seus advogados, enviou ao Observatório da Mineração notificação extrajudicial a respeito da reportagem “Polícia Federal indicia empresários, diretor-geral e alto escalão da ANM por organização criminosa e outras acusações em novos relatórios”, publicada em 27 de junho.
A empresa pede a retirada de “toda e qualquer menção” ao seu nome no trecho “Do ferro ao lítio” e que o Observatório se abstenha de novas publicações que a associem a ilícitos ou a investigações das quais não faça parte. A Sigma sustenta, ainda, que “não tem, e nunca teve, qualquer relação com a Associação Ambiental e Cultural Zeladoria do Planeta”, nem participou do estudo técnico que embasou a redução da APA Chapada do Lagoão.
O Observatório da Mineração reitera o conteúdo da reportagem e faz três esclarecimentos.
Primeiro: o texto não afirma — nem sugere — que a Sigma seja investigada, indiciada ou integrante da organização criminosa apurada nas operações Rejeito e Parcours. A reportagem descreve a empresa como uma das mineradoras de lítio interessadas na região do Jequitinhonha que seriam eventualmente favorecidas pela redução da área de proteção ambiental, informação de interesse público e apoiada em documentos, a partir de outra matéria publicada em setembro de 2025, “ONG citada na Operação Rejeito pagou estudo que reduziu mais de 50% de APA no Jequitinhonha, favorecendo mineradoras de lítio”.

Segundo: a afirmação da empresa de que “nunca teve qualquer relação” com a Zeladoria do Planeta é contrariada por registro público da própria empresa. Em novembro de 2023 a Sigma Lithium recebeu da entidade um prêmio de “Gestão Ambiental”. A publicação, nas redes sociais da Sigma Lithium, afirma que a mineradora recebeu “com muito orgulho” o reconhecimento concedido “pela respeitada ONG”. A publicação traz na foto Fernando Benício de Oliveira Paula, dirigente da Zeladoria do Planeta, conselheiro do Copam (Conselho Estadual de Política Ambiental) e indiciado pela PF na Operação Rejeito por organização criminosa, corrupção passiva, tráfico de influência, lavagem de dinheiro e crime ambiental (documento falso). O Observatório não afirmou que a Sigma tenha contratado ou custeado o estudo que reduziu a APA; a menção diz respeito ao interesse da empresa na região.
Terceiro: esta é a segunda vez que a Sigma recorre à via da notificação extrajudicial contra o Observatório. A primeira, de maio de 2025, motivou repúdio de entidades como a Abraji e a ABA e apurações por MPF, MPMG, DPU e pela Federação Internacional pelos Direitos Humanos (FIDH) sobre a intimidação ao veículo. Nesse intervalo, o Observatório publicou diversas reportagens sobre a empresa sem que ela se manifestasse pelos canais ordinários de assessoria de imprensa.
O Observatório da Mineração, que já registrou na reportagem original a tentativa de ouvir a empresa, reitera que o espaço permanece aberto: manifestação objetiva da Sigma sobre os fatos será integralmente publicada, na forma da prática jornalística.
Também reiteramos nosso compromisso com o jornalismo e reforçamos a importância de que a Sigma, em respeito à transparência e ao debate público, utilize os canais institucionais de relacionamento com a imprensa para prestar esclarecimentos, abstendo-se de recorrer a expedientes que possam consubstanciar assédio judicial ou tentativa inconstitucional de censura e intimidação.
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Brasil é potência na matemática, mas fracasso no ensino básico
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- “NAQUELE TEMPO, NÃO CONFUNDÍAMOS A CORAGEM COM PATADAS E JOGO SUJO”
“NAQUELE TEMPO, NÃO CONFUNDÍAMOS A CORAGEM COM PATADAS E JOGO SUJO”

Eduardo Galeano faz falta.
Tanta falta.
Já escrevi e falei isso tantas vezes. E certamente irei falar outras tantas.
Todos os meus pensamentos correram para isso quando França x Paraguai acabou e um debate feroz se iniciou.
Era uma ode ao Paraguai, alçado a utopia e símbolo da Pátria Grande possível. O sonho de Bolívar redivivo, os defensores del chaco dizendo presente para nos restituir a glória.
O canto dos espoliados, Taiguara, Mercedes Sosa e Silvio Rodrigues numa zaga inexpugnável, a resistência ao ataque do colonizador.
Tinha muito mais.
De repente, textos em profusão com uma sentença: quem não entendeu isso ou teve a mesma leitura, não entende nada sobre esse jogo. Muito mais: não entende nada sobre a vida.
Era Guimarães Rosa torcido até virar o que vira uma história quando se repete: uma farsa.
Parece que entenderam errado o sentido da vida querer coragem da gente.
Talvez tenha faltado Caetano irromper o debate para gritar: “vocês não estão entendendo nada”.
Faltou Caetano falar que sempre que ganhamos desse colonizador nas quatro linhas foi pelos hermetismos pascoais da bola com seus tons e seus dons geniais e não por tapas, simulações e cotovelaços.
Nunca ganhamos do lado de cima do Equador dando tapa, tiro, porrada e bomba.
É assim desde que Pastinha e Bimba ensinaram como drible para ganhar do colonizador. Aquele que trouxe a bola debaixo do braço e perdeu a receita por aqui.
Nunca.
Voltemos a Galeano.
É dele não só a mais poética explicação do que são nossas veias abertas mas também a didática milimétrica para contar como o Uruguai de 50, o time considerado como maior exemplo de coragem e virtude de todos os tempos, deu a maior aula de coragem da história do futebol.
Foi ele que sintetizou os fatos daquele Brasil x Uruguai da Copa de 50.
Enquanto as redes sociais de outrora exaltavam o tapa de Obdulio em Bigode, o tapa que nunca houve e foi criação abjeta da mente de racistas para criminalizar outro preto além de Barbosa, o maestro uruguaio nos contou com breves palavras o que aconteceu em campo. Muito mais do que isso: explicou como uma mentira sobre uma falsa valentia virou ato fundador de um fracasso de décadas.
Foi a partir do mito do “Uruguai valente que por isso ganhou a Copa de 50” que o país vizinho caiu num buraco de anos. Porque achava que futebol era tapa na cara.
“O Uruguai ganhou quando estava perdendo graças à coragem. E cometeu a metade das faltas do Brasil. Naquele tempo, não confundíamos a coragem com as patadas e jogo sujo”. Zizinho corroborava a tese. O Uruguai ganhou porque tinha mais time e jogou mais bola. Ponto.
De sua mesa fixa no Café Brasilero de Montevideu, que, tal como a mesa de Hemingway na Bodeguita não podia ser tocada sem seu convite, adorava falar sobre o tema.
Tinha profundo asco da herança maldita daquela crença de que o Uruguai teria conquistado uma Copa por sua virilidade, rasteiras e tapas que tanto mal fez ao seu país e por tanto tempo mutilou o DNA futebolístico de um país.
Foi nessa mesa que esse mui humilde reportero ouviu isso dele pela primeira vez.
Foi dali que soltou a frase que dava conta de sua tristeza pelas lições de macheza em campo dos conterrâneos que destruíram um jogo tão bonito quanto vencedor. Uma poética sentença:
“Ali ficamos. Ancorados. Ás vezes, a memória atua como âncora, não como catapulta”.
Galeano teve profunda esperança em ver seu amor pelo futebol do país recuperado quando Juan Ramon Carrasco assumiu a seleção em 2003. Exaltava que no primeiro jogo o time fez apenas 10 faltas. E adorou o discurso de Carrasco em defesa da verdadeira tradição uruguaia e não daquela falsificação de coragem. “Parem de sofrer”.
Seguiu feliz quando o Maestro Tabarez assumiu fiel a essa ideia. Tinha razão.
Não foi só o Uruguai que historicamente sofreu com a distorção que agora ressurge na macheza sudaca tuiteira.
A história do futebol continental é também a história da eficiência do jogo jogado sobre a farsa da velha e surrada canção de que futebol raiz é jogo sujo, Libertadores raiz é eficiente…
Observe atento que ninguém aqui está caindo na falsa e infantil defesa de um “jogo bonito”. É sobre jogo jogado sempre ter sido mais eficiente do que jogo sujo ou que “futebol também se ganha no vale-tudo”.
E sim, aqui futebol e política, como em qualquer lugar, andam e sempre estarão juntos.
O auge da convicção de que o jogo sujo é do jogo e ganha jogo veio junto com a “Operação Condor”.
Ao mesmo tempo em que se rasgavam as leis e constituições de países, rasgavam-se as regras do jogo.
Chile, Paraguai, Uruguai. E por aqui também. Foi muito alto o preço do que agora virou exaltação.
E virou papo sobre quem entende o sentido da vida e quem não entende.
Não existe paralelo na história do futebol de alguém que tenha pago mais caro pela convicção de que “futebol também se joga assim/futebol se ganha assim” do que o Chile nos anos Pinochet.
Ninguém pagou um preço mais alto do que o Chile, agora esquecido no ostracismo dos fora de Copa. Por acreditar nesse pretenso e falso “futebol raiz”. Que de raiz nada tem.
Foi o mesmo país que serviu como o primeiro laboratório da história para a implementação do neoliberalismo com seus Chicago Boys tomando as pastas da economia e cortando direitos da população que viveu o extremo maior dessa convicção do vale-tudo no futebol.
Pinochet sabia exatamente sobre a força do futebol como propaganda.
Ganhar a qualquer custo era seu entendimento sobre a bola.
Com seu títere Gordon Cañas, general carabinero na presidência da Asociación Central de Fútbol (ACF), era hora de botar em prática.
Foi o tempo da “Plata Dulce”, do “Caso Paysandu” e da fogueteira Rosemary. Todos com a mesma convicção: valia tudo para ganhar. E com o mesmo final: perderam tudo.
O dinheiro da ditadura jorrando. Valia tudo.
Falsificar passaportes de jogadores da base para a disputa de um sulamericano e ser fragorosamente derrotado.
Os Chicago Boys enchendo o futebol de dinheiro através do Banco Hipotecario de Chile (BHC) para provar que o modelo neoliberal através do futebol-empresa era a revolução e o caminho da vitória. Esperam até hoje os avós das atuais SAFs.
Na era da “Plata Dulce”, valia manipular resultado e até fazer gol sem adversário em campo num estádio transformado em campo de concentração.
O fim foi isso que está aí: a quase morte de um país futeboleiro.
A Argentina não difere.
A junta assassina de Videla queria a vitória a qualquer custo. E teve.
A parte disso que não te contam e também deturpam é que muito mais do que Videla, foi a vitória de um treinador que era a antítese disso tudo.
Que resgatou o DNA de um modo de jogar bola, “la nuestra” e do “toco e me voy”.
Troca constante de posições, triangulações, desmarques imediatos após o passe e circulação permanente. Tudo isso fala muito mais sobre o campo e bola de 1978 do que qualquer crença em ganhar a qualquer custo dos generais. A monumental biografia “Menotti”, de Ezequiel Fernandez Moores te conta melhor sobre isso.
O Brasil de Saldanha e depois de Zagallo também nada tinha de ganhar a qualquer custo. Muito mais do que deles, de Pelé, Tostão e companhia. Definitivamente, a história desse país no futebol é de pernas tortas e não da vitória com tapa na cara e antijogo.
Seria curiosa, não fosse uma distorção quase grotesca a exaltação que anda rolando do discurso pré-jogo de Alfaro no vestiário antes de encarar a França.
Fique claro que se entende o contexto motivacional de um vestiário. Fora dele, tomar como verdade é quase caricatural.
Nas palavras do treinador, de um lado estavam jovens lutando por um prato de comida. Do outro, almofadinhas fúteis em busca de brilhos individuais para se admirarem diante do espelho.
Curioso é que do mesmo Paraguai, antes do jogo, o fascista Chilavert, fã de Pinochet, dizia que “jogar contra a França era jogar contra uma seleção africana”.
Decidam-se.
Paupérrimo quase tocando no patético é falar sobre isso. Sobre uma França de meninos periféricos que lutaram também por mudar de vida como seus pares do outro lado e que sofreram com a hidrofobia dos Le Pen da vida.
Pescados em projetos sociais e, acima de tudo, políticas públicas exitosas que mudaram suas histórias. E a do futebol francês.
São esses os almofadinhas, os que iriam se assombrar como janotinhas bobinhos com a malandragem? Às vezes a gente torce para ser poupado de ver certas coisas…
Franceses vindos no caminho da volta dos pais subjugados em colônias.
Tão vítimas do general francês, o facínora genocida Paul Aussaresses, quanto nós. O Carrasco de Argel, e também do Brasil, do Paraguai, do Chile, da Argentina, do Uruguai…Carrasco dos avós de todos ali de azul.
Curiosa ainda é a exaltação a uma Libertadores mítica onde, para ganhar, era preciso saber jogar sujo.
É que a memória anda falha para alguns. Em alguns casos. Em outros, é só canalhice mesmo.
Nunca ganhamos uma Libertadores com essas armas por aqui. Pelo contrário.
FOI A GENIALIDADE DE ZICO E DE UM TIME DE SONHOS QUE DERROTOU AS PEDRAS NA MÃO DE MÁRIO SOTTO
Foi a genialidade de Zico e de um time de sonhos que derrotou as pedras na mão de Mário Sotto.
E aqui voltamos a Pinochet, a “Plata Dulce” e a velha convicção de que vale tudo para ganhar.
Pouco se fala do heroísmo daquela conquista.
Não, não era um time do outro lado vestindo laranja.
Era a mais pura criação, representação e obra de Pinochet.
Que havia entendido que aqueles protestos contra a ditadura teriam na distração do futebol sua melhor forma de combate.
Um time para cada recanto do Chile e muita plata dulce. Sim, te lembra “onde a Arena vai mal, um time no nacional”. As ditaduras são monotonamente iguais em suas ideias.
Aquele Cobreloa, fruto direto da plata dulce, criado poucos anos antes para que mineiros do grotão do país se distraíssem e não prestassem atenção em “comunistas”, tinha que ganhar.
O zagueiro entrou com pedra na mão. Os jogos foram uma carnificina.
Foi Zico quem avisou: “para ganhar, só tem um jeito: jogar bola”.
Um mês depois dali, teve 3 x 0 no Liverpool, botando os ingleses na roda.
Foi esse mesmo Flamengo que protagonizou o último grande recital do futebol brasileiro em uma Libertadores. O Flamengo de Jesus. Jogando muita bola.
Teve o Fluminense de Diniz também. Sim, tinha Felipe Melo. Mas o que te faz lembrar desse time é o toco e me voy também.
O coitadismo de um Paraguai onde jorra o dinheiro pelas torneiras de Alejandro Dominguez, cada dia mais forte na FIFA, e suas contas secretas no Catar também não faz bem a história do coirmão.
E ninguém aqui está falando, note-se bem, sobre sistemas de jogo, jogar atrás. O próprio Paraguai fez isso contra a Alemanha e bem. Sem tirar a fantasia de malandro. É sobre atitudes. E sobre a velha convicção que deixou o cemitério cheio de malandro: a de que era mais malandro do que a malandragem toda.
O futebol é tão encantador que, de repente se vê um monte de gente, para fechar com Galeano de novo, “teve como coisa mais emocionante da vida atravessar a rua com o sinal aberto” falando que “futebol é sobre isso também, é sobre malandragem, sobre ser mais esperto…”.
Tem também aquele tipo que se acha mais à esquerda do que o Che porque acredita que isso é contra o sistema. Isso. Alejandro Dominguez, Samir Xaud. Todos contra o sistema… Vão ter que entrar na fila e cantar a Internacional todo dia por mil anos. Aí conversamos.
Vai ser um dia agitado em muito playground. Entre uma pipa e outra solta diante do ventilador, vai ter muito menino de gel defendendo que para ganhar vale-tudo. Pior: que o antijogo para ganhar tem que ser assim. Mesmo que a história diga um rotundo não a tudo isso.
Por que não dizer que o escândalo do Master é de direita?
Mexeriqueira 2
Edição 398 – Um até logo (e algumas notícias)
Queridos leitores da Shūmiàn 书面: Esta é a nossa última newsletter semanal por um tempo. Estamos entrando em um hiato para pensar como seguir.
Durante este hiato, nosso Clube do Livro de Literatura Chinesa seguirá forte como sempre; se você é nosso leitor e ainda não faz parte do Clube, fica aqui o convite. Agradecemos de coração a sua atenção e leitura das nossas newsletters até aqui e aos nossos parceiros e parceiras que ajudaram a construir o que somos.
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Um acidente de avião pegou Pequim desprevenida na tarde de sexta-feira (26). A aeronave de pequeno porte atingiu o arranha-céu mais alto da cidade, a CITIC Tower, e posteriormente caiu próximo ao prédio. As vítimas foram 13 pessoas que sofreram machucados, além do piloto – que faleceu no impacto. O governo distrital de Chaoyang, o principal centro financeiro da cidade e onde fica o prédio, informou que apenas o piloto estava na aeronave. Uma série de vídeos circulou nas redes dentro e fora da China, e diversos rapidamente foram removidos, com silêncio da mídia estatal, e o espaço aéreo foi parcialmente fechado por algumas horas. Além disso, pouco se sabe sobre as causas, conforme conta a CNN. O acidente só foi confirmado pelas autoridades chinesas no dia seguinte. O espaço aéreo chinês é altamente controlado, especialmente na capital, e no começo do ano já havia restringido o uso de drones – que passaram a precisar de um registro especial para circular.
Grandes responsabilidades. O que separa um crime comum de um crime contra a segurança nacional chinesa em Hong Kong? De acordo com uma regulamentação aprovada pelo Conselho Legislativo local no dia 11 de junho (e em vigor no mesmo dia), essa resposta pode depender da opinião do líder da cidade. De acordo com o atual ocupante do cargo, John Lee, o poder de indicar quais casos aparentemente comuns ameaçam a nação visa tornar a Lei de Segurança Nacional “ainda mais clara” e “reduzir controvérsias e debates na corte”. O secretário de segurança local declarou que o mecanismo deve ser usado raramente; no entanto, a notícia causou reações negativas na opinião pública local e internacional, uma vez que casos sob a LSN estão sujeitos a penas mais longas e liberdade provisória limitada; além disso, tais julgamentos são comumente acusados de viés pró-governo – a taxa de condenação nesses casos, de acordo com dados oficiais, é de 80%. Por outro lado, em um editorial no China Daily deste domingo (28), o advogado e político pró-Pequim Christopher Wong defende que a Lei de Segurança Nacional vem provando seu valor nos seis anos desde sua aprovação, “punindo poucos e protegendo a maioria”.
Novos tempos. A crise empregatícia enfrentada pelos jovens chineses só se tornou mais preocupante em tempos de inteligência artificial. Um desafio que se mostra global, a China tem nos últimos ensaiado políticas, incluindo redesenhando grades curriculares e encerrando alguns cursos de graduação, para acompanhar o ritmo e alinhar as universidades com o projeto de desenvolvimento nacional. Esta matéria da Rest of World conta como uma nova pesquisa em 70 universidades mostra cortes (como suspensão de turmas) em cursos de alguns idiomas (japonês e alemão), em marketing, gestão de logística, e gestão pública. Contudo, a pesquisa mostra que até engenharia da computação teve matrículas suspensas. Os ajustes parecem também cobrir um certo reequilíbrio após o boom. Ao mesmo tempo, a matéria indica que novos cursos foram criados trazendo IA de forma importante em alguns currículos da área de Humanidades, como cursos de tradução – um ponto também analisado no china policy.
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Significa? Mais dias tensos para os observadores dos mares ao redor de Taiwan que tentam divinar o que significam os movimentos chineses na região. Na última terça-feira (23), o Fujian, porta-aviões mais avançado da China, atravessou o estreito, segundo o governo local. Desde meados de junho, a guarda-costeira de Pequim já vem patrulhando a região, medida tomada em reação a declarações de Japão e Filipinas sobre a revisão dos limites de seus territórios marítimos. Taipei considera que a movimentação indica que um ataque chinês ao território é iminente, e iniciou simulações de contra-ataque; Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha se declararam contrários à atitude de Pequim, que afirmou apenas exercer sua jurisdição e pediu que os países respeitem sua soberania.
Menos de um ano após a inauguração da sua fábrica na Bahia, a BYD anunciou que vai acelerar a produção de baterias no Brasil, além de ter divulgado que realizará investimentos de R$ 500 milhões no sistema de armazenamento de energia em baterias para participar do primeiro leilão de baterias a ser realizado no final do ano no país. O objetivo é ter até 50% da produção dos veículos de passeio realizada localmente até 2027, conta a matéria da CNN. Nos últimos meses, a empresa chinesa tem enfrentado uma série de críticas: em março, foi acusada nas redes sociais de trazer 10 mil trabalhadores chineses em vez de contratar funcionários localmente, o que não se confirmou. A empresa desmentiu e anunciou que os novos alojamentos que está construindo são para brasileiros – que obrigatoriamente devem ser 70% da mão de obra da fábrica. A mão de obra chinesa que chegou no começo do ano seria de funcionários temporários. Em abril, foi incluída durante três dias na “lista suja” de trabalho análogo à escravidão a partir da autuação do Ministério Público do Trabalho em 2025. Em maio, uma matéria da BBC brasileira contou mais detalhes sobre a operação.
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É um negócio complicado. A sustentabilidade da estratégia de pequenas cidades chinesas de viralizarem nas redes e atraírem turistas é questionada neste texto da jornalista Zeng Shi. Nos dias de hoje, não é incomum que governos locais tentem nutrir e surfar em vídeos de influenciadores turistas – mas os altos investimentos nesses momentos é pouco sustentável e não garante o retorno que promete, principalmente pela falta de investimento em infraestrutura e serviços no longo prazo. Governos tendem a apostar em locais “instagramáveis” e que cansam rápido, replicando e padronizando o que já viralizou (sobre o tema, vale relembrar essa excelente discussão na falecida Chaoyang Trap sobre wanghong). Em tempos de economia da atenção, todo dia algo viral acontece e o que foi viral ontem é rapidamente esquecido.
Ética. Em tempos de debate sobre divulgação de bets no Brasil, a ética da profissão de influenciador também vem sendo pauta na China. Lá em março, um influenciador de livros (booktoker, como são conhecidos) dedicou 25 minutos de vídeo a criticar as práticas de alguns colegas de profissão; um deles, não identificado, foi acusado de manipulação ao falar do mesmíssimo jeito sobre muitos dos 700 livros que recomendou ao longo de um único ano. Hoje, na China (e em muitos países), editoras usam influenciadores e principalmente booktokers para divulgar livros e criar buzz em torno de obras – mas, apesar de muitos trabalharem de forma honesta, embora precária, escândalos assim colocam em xeque a credibilidade ao mesmo tempo em que a lógica do mercado coloca pressão na comunidade, como discute este texto do site The World of Chinese.
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Origem: como que o lying flat virou a tendência que virou nos últimos anos? Tem comunicado do Ministério de Segurança Estatal (onde fica o aparato de inteligência do Partido Comunista) que diz que é influência estrangeira para desanimar a galera, mas os netizens seguem afirmando que é apenas o capitalismo tardio.
E o jovem a fiar: esta matéria da Sixth Tone mostra como manualidades envolvendo costura, crochê, tricô e afins com lã, estão crescendo em popularidade entre jovens chinesas.
Miau: através da lente do fotógrafo holandês Marcel Heijnen, a conta Chinese Whiskers registra diversos belíssimos gatos, principalmente chineses. Heijnen já lançou um livro de gatos das lojas e mercados de Hong Kong e publicou um de gatos de mais de 20 cidades na China. Agora, vai lançar quatro volumes com a mesma temática. Excelente.
Opa: sabe aquele look tradicional chinês que você viu no brechó? Talvez seja de uma cerimônia funerária.
Não é porque a China não está na Copa do Mundo de futebol masculino que as empresas chinesas não podem surfar essa onda. Um bom exemplo, como mostra o vídeo, é o sucesso da nova e nonsense campanha internacional do chá Wang Lao Ji, que tem quase dois séculos de tradição: o garoto propaganda da vez é o boleiro norueguês Erling Haaland.
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Soberania não se copia
Cassino
Michelle contra Flávio
O melhor de sempre desta semana
Edição 397 – Rodada de investimento para o DeepSeek
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Esse foi fundo. Segundo relatos (não confirmados pela Reuters), a startup queridinha da galera DeepSeek fez história na sua primeira rodada de captação externa – conhecida como Série A. No começo de junho, a estimativa divulgada na NeoFeed falava em expectativa de captação de 50 bilhões de yuan (em torno de 7,4 bilhões de dólares) – o que, segundo o Pandaily, foi o que de fato ocorreu na conclusão da rodada no dia 16. Ela se torna a startup de IA chinesa mais bem avaliada, no caso em 400 bilhões de yuan (51 bilhões de dólares). Os valores “normais” de uma Série A nos EUA, em média, ficam nos 20 milhões de dólares, ainda que os hypados do mundo de IA sejam outro universo. Por exemplo, a OpenAI recebeu 1 bilhão de dólares na Série A há alguns anos atrás e quebrou alguns recordes nas fases seguintes. A matéria da NeoFeed também conta como a DeepSeek ainda não anunciou planos para abrir um IPO e como a sua fama surfou na lógica de baixos custos – e agora há maior demanda por altos gastos com o desenvolvimento de IA agêntica.
Além do valor altíssimo, chamou atenção no relato a estrutura de governança desses fundos. Sob a liderança do fundador Liang Wenfeng, o dinheiro não vai diretamente para a DeepSeek, mas sim um novo ente jurídico. Ademais, boa parte dos investidores não terá poder de voto de forma a proteger a empresa (e Liang) de futuras mudanças. As matérias relatam que o fundador colocou 20 bilhões de yuan do seu próprio dinheiro. E o destaque fica que o Fundo Nacional de Indústria de IA – do estado chinês – que colocou 1 bilhão de yuan na startup. Os principais investidores são a Tencent Holding, JD.com, NetEase e surpreendentemente a CATL (de baterias).
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Sem cabo para você. Em uma história muito surreal, o ministro do transporte e das comunicações do Chile perdeu o visto para os Estados Unidos por conta de negociações com a China sobre um cabo submarino, conta esta matéria da Rest of World. O plano era conectar a América do Sul a Hong Kong de forma direta com um novo cabo submarino, algo que estava em negociação no último ano. Contudo, em fevereiro de 2026, o então ministro Juan Carlos Muñoz e mais dois funcionários de alto nível foram informados que os seus vistos diplomáticos para os EUA foram cancelados sob o argumento de atividades que ofereciam perigo à infraestrutura crítica na região. Eles estavam analisando uma proposta da estatal China Mobile de um cabo de 500 milhões de dólares, que avançava nos trâmites. O ex-presidente Gabriel Boric deu um basta na proposta após tensões com o governo dos EUA. O desafio agora é do novo governo de José Antonio Kast, que assumiu a presidência em março. No discurso, Kast é bastante alinhado à Trump, ainda que queira manter boas relações com a China.
O Reino Unido condenou dois homens por espionagem para a China. Os cidadãos sino-britânicos Chung Biu “Bill” Yuen, e Chi Leung “Peter” Wai, ex-trabalhadores do serviço de fronteiras britânico, teriam monitorado as atividades de exilados honconguenses pró-democracia entre 2023 e 2024. A prisão de ambos ocorreu após uma tentativa frustrada de sequestrar Monica Kwong em sua casa em maio de 2024, operação que envolveu um terceiro cidadão britânico, Matthew Trickett, que foi encontrado morto no mesmo ano; Kwong é acusada em Hong Kong de desvio de fundos da empresa para a qual trabalhava. Yuen deve cumprir oito anos de prisão; Wai cumprirá dez anos, condenado também por usar suas credenciais profissionais para acessar dados pessoais dos alvos da espionagem. Esse é o primeiro caso de condenação de pessoas acusadas de espionagem para a China em solo britânico. Segundo a Embaixada chinesa em Londres, as acusações britânicas são caluniosas.
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Aqui e na China, a vida das mulheres não é fácil. O jornal britânico The Guardian publicou uma série de quatro reportagens sobre as dificuldades enfrentadas por meninas e mulheres chinesas, mas também sobre as formas como elas mesmas têm respondido e tomado a agência de suas vidas. Um dos tópicos presentes na série de reportagens, como tinha de ser, é a questão dos casamentos forçados e dos abusos. O texto, o terceiro da série, fala sobre como ativistas chinesas têm agido nas sombras para proteger e resgatar vítimas de casamentos forçados. O primeiro dos quatro textos adota um tom de esperança, com foco na agência das mulheres e na história de Chengdu, que tem, cada vez mais, espaços exclusivos para elas. Sem dourar a pílula, mas apontando para saídas, a última publicação da série fala sobre como o humor tem sido um bálsamo para lidar com dificuldades.
Uma agulha no palheiro. Num momento em que as condições climáticas e ambientais nos enchem de ansiedade e apreensão, sinais positivos vêm da recuperação do rio Yangtze, na China, um dos mais importantes do país e um dos mais longos do mundo. Há um ano, o TV Al-Jazeera tinha feito uma reportagem sobre esse processo. Estudos independentes e, claro, o próprio governo chinês, mostram que a situação melhorou em 2026, sobretudo graças ao banimento de pesca. Mas vale lembrar que mora no rio a usina das Três Gargantas, projeto de mega hidrelétrica que coleciona críticas ambientais. Para quem quer entender melhor a importância e os problemas do Yangtze para além do factual, o diretor chinês Jia Zhangke fez dois filmes brilhantes que contam as mudanças que a usina trouxe à região e à sua população em Still Life (2006) e Caught by the Tides (2025).
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Chá ou café: este longo texto no Elephant Room vai até a província de Yunnan – terra do café na China e do chá pu’er – para aprender sobre plantações e origens do mundo do chá e do café. Prepare um chá ou um cafezinho para ler.
Devagar: em terra de trens rápidos, quem ainda pega os trens antigos e demorados (e baratos) na China? Este pequeno documentário entrevista pessoas durante o feriadão do Ano Novo Lunar. A versão transcrita para o inglês está aqui.
IAIAIAI: Um artigo recém-publicado por pesquisadores de Hong Kong e Estocolmo indicou que o uso de inteligência artificial acelerou e melhorou a execução de lição de casa de estudantes chineses – mas chegou a derrubar as notas nas provas em até 20%.
Análise: este artigo do Made in China Journal traz uma reflexão sobre a história da cientista Joan Hinton, que nasceu nos EUA e se mudou para a China em 1948 e se tornou uma grande amiga do regime maoísta. A figura de Hinton foi usada como garota propaganda do comunista e o texto reflete sobre quão integrada de fato foi a experiência dela e sua família no país.
Vídeo da Folha de S. Paulo sobre a história em quadrinhos Meus Fantasmas, uma autobiografia de Tessa Hulls. Apesar do nome, a premiada HQ de Hulls conta a história da avó chinesa que fugiu para Hong Kong durante a Revolução Cultural, da sua mãe que emigrou para os EUA e dela própria. O livro acaba de ser lançado no Brasil.
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