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Casas Bahia... Braskem...

Num espaço de duas semanas, a grande rede varejista Casas Bahia e a gigante petroquímica Braskem anunciaram que entrarão em recuperação judicial ou extrajudicial. Querem repactuar suas dívidas com bancos e fornecedores. Uma deve R$ 17,3 bilhões, a outra renegociará um espeto em dólares equivalente a R$ 56,5 bilhões. A economia brasileira está doente. Leia mais (08/25/2026 - 23h00)

É biscoito ou bolacha?

O lanche onipresente na despensa brasileira tem uma história cheia de reviravoltas, do monopólio estatal do trigo às fusões e aquisições que concentraram um mercado multibilionário em poucas mãos. Neste episódio, investigamos o que sobra quando o pacote acaba e onde foi parar aquele “gostinho de antigamente”. Entrevistas: Fontes de informação citadas no episódio…

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Guia para jornalistas coloca alimentação como prioridade para cobertura eleitoral 

A pauta da alimentação conecta algumas das principais questões em disputa nas eleições. Está no preço da comida e na renda das famílias, na saúde pública, no desmatamento, na crise climática, no uso da terra e na definição de quais setores recebem incentivos e recursos públicos. Ainda assim, os sistemas alimentares raramente aparecem como um tema articulado na cobertura eleitoral.

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O Berro do Boi #5 - A desossa

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Consuelo Dieguez percorre frigoríficos, confinamentos, incubatórios e granjas da JBS para acompanhar a trajetória do boi desde o nascimento até sua transformação em dezenas de produtos diferentes. O resultado é um mergulho na engrenagem industrial que transformou a JBS na maior produtora de proteína animal do mundo.
Mas a eficiência que impressiona investidores e consumidores também tem um custo. Ao longo da cadeia produtiva, surgem debates fundamentais sobre sustentabilidade, condições de trabalho e influência política.

Como Itaituba, polo de garimpos de ouro, virou peça-chave na eleição do Pará

NA ORLA de Itaituba, no oeste do Pará, um garimpeiro de concreto de três metros de altura com uma bateia nas mãos encara o rio Tapajós. A prefeitura instalou o monumento em 2019, durante a gestão de Valmir Clímaco (MDB), para homenagear a atividade que move a economia e organiza a política local. Sete anos depois, o ouro voltou a orientar as alianças da cidade — desta vez, na disputa pelo governo estadual. 

De um lado está o grupo do ex-governador Helder Barbalho (MDB), candidato ao Senado e principal articulador da campanha da atual governadora, Hana Ghassan (MDB), que o sucedeu em abril. Em Itaituba, os dois têm o apoio de Clímaco e do deputado estadual Wescley Tomaz (Avante), adversários na eleição municipal de 2024, mas aliados na defesa do garimpo.

Também integra esse grupo o ex-deputado Hilton Aguiar (Republicanos), apresentado em campanhas anteriores como “a voz dos garimpeiros” e candidato a uma vaga na Assembleia. 

Do outro está o ex-prefeito de Ananindeua Daniel Santos (Podemos), o Dr. Daniel. Ele escolheu como vice a itaitubense Ellayne D’Almeida (PL), ex-integrante da diretoria de uma cooperativa garimpeira e filha de um dos nomes históricos do setor na região. 

Uma pesquisa Genial/Quaest divulgada no fim de julho mostrou Hana com 24% das intenções de voto no primeiro turno e Dr. Daniel com 20%. No segundo turno, apareciam empatados, com 36% e 35%. Outro levantamento, da Real Time Big Data, divulgado no início de agosto, manteve o cenário: Hana marcou 31% e Dr. Daniel, 29% no primeiro turno; numa disputa direta, ele apareceu com 38% e ela com 36%, também dentro da margem de erro. 

A disputa apertada ajuda a explicar por que os dois principais grupos foram garimpar apoio na cidade pepita, como Itaituba é conhecida. Com 62 mil quilômetros quadrados — área superior à da Croácia — e população estimada em 135 mil pessoas, o município é o epicentro da cadeia do ouro no Tapajós. 

Placas de “compra-se ouro” dividem as ruas com revendas de escavadeiras, bombas, motores e mangueiras. Hangares, oficinas, postos de combustível, pilotos e transportadoras também vivem do movimento dos garimpos. Em junho, a Assembleia Legislativa aprovou um projeto de Wescley que reconhece Itaituba como “Capital Paraense do Ouro”.

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Barbalho aproxima antigos rivais no palanque de Hana

Na eleição municipal de 2024, Clímaco e Wescley estavam em lados opostos. O então prefeito lançou como sucessor seu vice, Nicodemos Aguiar (MDB), que venceu a disputa. Wescley teve o apoio de Jair Bolsonaro (PL), que gravou um vídeo para sua campanha.

A derrota não afastou o candidato derrotado do grupo vencedor. Seis meses depois, o governo de Barbalho nomeou para a coordenação regional da Secretaria de Meio Ambiente um advogado de cooperativas garimpeiras indicado por Wescley. 

Fernando Brandão havia participado de mobilizações contra a destruição de máquinas usadas em garimpos por agentes ambientais e trabalhado na campanha de Wescley à prefeitura. Caçador autorizado de javalis, também publicava nas redes sociais fotografias em que aparecia armado ao lado de animais abatidos, como mostrou a Repórter Brasil

Caçador de javalis e advogado de garimpeiros, Fernando Brandão foi nomeado Coordenador do Núcleo Regional de Gestão e Regularidade Ambiental da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Foto: Reprodução/Redes Sociais)
Advogado de cooperativas garimpeiras e caçador autorizado de javalis, Fernando Brandão foi indicado por Wescley e nomeado para a coordenação regional da Secretaria de Meio Ambiente (Foto: Reprodução/Redes sociais)

Wescley confirmou a indicação à Repórter Brasil e afirmou que defendia apenas a legalização da atividade. A mulher do deputado também foi nomeada pelo governo estadual para o cargo de secretária adjunta do Centro Regional de Governo do Sudoeste do Pará. Nas redes sociais, Wescley escreveu recentemente que a parceria com Barbalho e Hana “só fortaleceu” seu trabalho.

Wescley cresceu no Crepurizinho, vilarejo garimpeiro no fim da Transgarimpeira, estrada que parte do distrito de Moraes Almeida, cruza o rio Jamanxim e avança cerca de 150 quilômetros por uma região marcada por garimpos e exploração de madeira. A família do deputado mantém negócios no local: em 2025, o pai assinou contratos com a prefeitura para fornecer energia a uma escola e a um posto de saúde, enquanto um irmão mantém empresa de peças e manutenção de veículos, tratores e embarcações. 

A própria biografia de Wescley na Assembleia o apresenta como defensor da “classe garimpeira”. Quando ainda era vereador, ele participou de pelo menos 11 reuniões com órgãos federais e fez 13 viagens custeadas pela Câmara Municipal entre 2019 e 2022, segundo levantamento da Agência Pública. As agendas tratavam de licenciamento, estrutura da ANM (Agência Nacional de Mineração) e interrupção da destruição de equipamentos apreendidos em operações.

Procurado, Wescley questionou a abordagem da Repórter Brasil e não respondeu às perguntas. “O material será sempre com cunho esquerdista que mais desinforma do que informa? Ou será uma matéria imparcial?”, perguntou.

Se Wescley chegou ao grupo de Barbalho depois de perder a eleição, Clímaco é correligionário do ex-governador e voltou à política a convite do principal nome do MDB paraense. No vídeo em que anunciou sua candidatura à Assembleia, Barbalho disse que o ex-prefeito representaria “os produtores rurais, a comunidade garimpeira e todos aqueles que trabalham com a logística portuária”.

Helder Barbalho segura as mãos de Valmir Clímaco no vídeo em que convidou o ex-prefeito de Itaituba a disputar uma vaga na Assembleia Legislativa (Foto: Reprodução/Instagram)
Helder Barbalho segura as mãos de Valmir Clímaco no vídeo em que convidou o ex-prefeito de Itaituba a disputar uma vaga na Assembleia Legislativa (Foto: Reprodução/Instagram)

Clímaco administrou Itaituba por três mandatos e, ao longo da vida pública, apresentou-se como garimpeiro, madeireiro e pecuarista. Em entrevista ao jornal O Globo, em 2022, afirmou que a prefeitura havia concedido mais de 500 licenças para garimpo e admitiu que sua gestão nunca fiscalizara os empreendimentos autorizados. Disse ainda que era dono de áreas de garimpo e que já havia usado mercúrio para beneficiar mais de 3 mil quilos de ouro.

Consulta da Repórter Brasil à base de autos de infração do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) localizou 28 registros lavrados contra Clímaco e a Madeireira Clímaco, uma das empresas do político, entre 1996 e 2014. Vinte e sete são multas que somam R$ 4,28 milhões em valores originais; o outro registro é uma advertência. 

O histórico de conflitos vai além dos autos ambientais. Em junho de 2019, o Ministério Público Federal abriu investigação depois que servidores da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) relataram que Clímaco teria recomendado que moradores da cidade recebessem “à bala” uma equipe encarregada dos estudos de demarcação das terras Munduruku. O então prefeito negou ter ameaçado atirar nos servidores, mas confirmou que impediria a entrada da Funai em sua propriedade. 

Menos de um mês depois, a Polícia Federal apreendeu 583 quilos de cocaína, dois fuzis, uma pistola e munições na Fazenda Borboré, reconhecida por Clímaco como sua. As investigações, no entanto, não estabeleceram ligação entre a droga e o político, que negou qualquer envolvimento. O MPF denunciou oito pessoas no caso e não incluiu Clímaco entre os acusados. 

Em fevereiro de 2022, quando a Polícia Federal realizava a Operação Caribe Amazônico contra garimpos ilegais que poluíam o rio Tapajós e operavam perto da Terra Indígena Munduruku, Clímaco foi a Brasília pedir a interrupção da ação. Viajou com o deputado federal José Priante (MDB) e foi recebido pelo então ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP).

No mês seguinte, ganhou repercussão nacional por outro motivo. Durante uma festa, subiu ao palco, apontou para mulheres na plateia e disse que iria “comer mais de 20”. A Justiça determinou que se retratasse e destinasse R$ 40 mil ao Conselho Municipal de Direito das Mulheres de Itaituba. Clímaco posteriormente publicou um pedido de desculpas.

Procurado pela Repórter Brasil sobre os vínculos com o garimpo, as multas e sua atuação durante as operações ambientais, Clímaco não respondeu às perguntas. As campanhas de Hana e Barbalho também foram procuradas, mas tampouco se manifestaram.

Também integra o grupo de Hana e Helder o ex-deputado estadual Hilton Aguiar (Republicanos), irmão do atual prefeito de Itaituba. Ex-vereador da Cidade Pepita, foi secretário regional do governo de Barbalho e, em abril de 2025, assumiu a presidência da Companhia de Portos e Hidrovias.

Na Assembleia, Hilton apresentou em 2022 um projeto para impedir que órgãos ambientais estaduais destruíssem ou inutilizassem bens apreendidos em infrações. A proposta alcançava escavadeiras e outros equipamentos empregados em garimpos ilegais. Na campanha daquele ano, ele foi apresentado como “a voz dos garimpeiros”.

Em uma publicação recente, afirmou que as operações federais atingiam trabalhadores sem resistência e concluiu: “Isso precisa acabar”.

Procurado, Hilton não retornou às tentativas de contato feitas pela reportagem.

Dr. Daniel leva o garimpo para dentro de sua chapa

O principal adversário da candidata apoiada pelo ex-governador Helder Barbalho fez um movimento diferente. Em vez de concentrar os vínculos com o setor em candidatos proporcionais, Dr. Daniel escolheu uma representante do garimpo para a vaga de vice.

Engenheira civil e empresária, Ellayne D’Almeida nasceu em Itaituba e é filha de Ivan D’Almeida, que se apresenta como dono de garimpo e primeiro presidente da Associação dos Mineradores de Ouro do Tapajós. Em agosto de 2024, o Ibama autuou Ellayne por lavra garimpeira de ouro em 13,61 hectares sem autorização. Segundo o auto, o processo minerário da área ainda estava em fase de requerimento na ANM (Agência Nacional de Mineração). 

No mês seguinte, ela passou a integrar a diretoria da Cooperativa dos Garimpeiros do Igarapé Missão, registrada em Itaituba para a extração de metais preciosos. Antes de ser escolhida como vice, Ellayne fazia campanha para deputada estadual e coordenava a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) na região da Transamazônica.

Em abril, durante uma sessão na Câmara dos Deputados, o deputado Delegado Caveira (PL) apresentou-a como uma possível liderança para “proteger o Estado do Pará, proteger o garimpeiro, o madeireiro e o produtor rural”.

A Repórter Brasil procurou a assessoria de imprensa da chapa formada por Dr. Daniel e Ellayne. A resposta foi enviada pelo advogado Vinícius Borba, conhecido por defender pecuaristas retirados da Terra Indígena Apyterewa e por tentar organizar a “COP do Agro”, encontro de produtores rurais e políticos criado como contraponto à COP30, no ano passado.

Segundo o advogado, Ellayne negou ter realizado, autorizado ou financiado a extração de ouro. Afirmou que as imagens de satélite usadas pelo Ibama mostram que houve garimpo na área, mas não identificam quem o realizou. 

O Ibama, por sua vez, sustenta que uma operação com aquela dimensão não poderia ter ocorrido sem o consentimento do responsável pelo pedido de autorização de exploração do terreno. 

Ellayne apresentou defesa em abril de 2025 e pediu a anulação da multa de R$ 29,8 mil, do embargo e da suspensão das atividades. A defesa argumentou que as imagens analisadas mostram alterações iniciadas em 2019, quase quatro anos antes de Ellayne apresentar o pedido de lavra. Os pedidos ainda não foram julgados. 

A chapa disse defender a regularização da mineração, o rastreamento da origem do ouro, a redução do uso de mercúrio, a recuperação das áreas degradadas e o combate à lavagem de minério. Também afirmou que a destruição de máquinas deve ser excepcional e que qualquer atividade em terras indígenas e unidades de conservação precisa respeitar a legislação.

Os dois candidatos ao Senado aliados de Dr. Daniel também têm atuação favorável ao setor. Deputado federal desde 2015, Delegado Éder Mauro (PL) apresentou em 2019 projetos para facilitar o licenciamento de pequenos garimpos e permitir a exploração mineral de pequeno porte em reservas extrativistas.

O PL 5.246/2019, que previa licenciamento municipal para lavras garimpeiras de pequeno porte, foi arquivado. Já o PL 5.822/2019 propõe permitir a atividade em reservas extrativistas quando houver previsão no plano de manejo e aprovação do conselho deliberativo da unidade.

Em nota, a campanha de Éder Mauro afirma que mantém a defesa da mineração de pequeno porte em reservas extrativistas quando autorizada pela legislação e pelo plano de manejo, com licenciamento e fiscalização. 

O posicionamento diz ainda que quer garimpos formalizados, com CNPJ, trabalhadores com carteira assinada e plano de recuperação ambiental, e que a pauta será uma das bandeiras de sua campanha ao Senado. Para o deputado, é preciso “descriminalizar o garimpeiro que trabalha”. 

Já o senador Zequinha Marinho (Podemos), candidato à reeleição, é autor do PL 2.973/2023, que permite a lavra garimpeira em áreas já destinadas à pesquisa de outro mineral, desde que haja viabilidade técnica e econômica para as duas atividades. Em 2025, ele também apoiou na Comissão de Direitos Humanos do Senado um projeto para regulamentar a exploração mineral em terras indígenas.

Em 2019, o senador acompanhou integrantes da Cooperativa de Garimpeiros e Mineradores de Ourilândia à ANM e pediu agilidade na análise de pedidos de lavra. A Cooperouri foi posteriormente investigada pela Polícia Federal por suspeita de legalizar ouro retirado da Terra Indígena Kayapó. Zequinha não foi alvo da operação e afirmou à Repórter Brasil que havia apenas solicitado a análise regular dos processos protocolados.

A assessoria de Zequinha foi procurada, mas não respondeu às perguntas enviadas pela reportagem.

Candidatas indígenas confrontam o consenso pró-garimpo

Alessandra Korap Munduruku é uma das principais vozes contra o projeto de construução da Ferrogrão: "É o desenvolvimento da morte", ela diz (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
Alessandra Korap Munduruku, candidata a deputada federal pelo PT, critica o garimpo como modelo de desenvolvimento e alerta para a contaminação por mercúrio (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Em um cenário político amplamente ligado aos interesses de garimpos e mineradoras,  duas candidaturas indígenas seguem caminho oposto no oeste do Pará. 

Alessandra Korap Munduruku (PT) disputa uma vaga na Câmara dos Deputados; Auricélia Arapiun (PSOL), uma cadeira na Assembleia Legislativa. As duas construíram suas trajetórias políticas justamente no enfrentamento ao garimpo, à mineração e a grandes projetos que avançam sobre o Tapajós.

Nascida em Itaituba, na aldeia Praia do Índio, Alessandra se tornou uma das lideranças Munduruku mais conhecidas fora do Brasil. Foi a primeira mulher a coordenar a Associação Indígena Pariri e ganhou, em 2023, o Goldman Environmental Prize, uma das principais premiações internacionais dedicadas a ativistas ambientais. Parte do reconhecimento veio de sua atuação contra projetos de mineração que incidiam sobre o território Munduruku.

A candidatura cria uma contradição dentro do próprio campo político em que Alessandra está inserida. O PT participa da aliança de Hana e ocupa a vaga de vice com o deputado estadual Dirceu Ten Caten, enquanto Clímaco e Wescley pedem votos para a mesma governadora. Alessandra, porém, rejeita justamente a atividade defendida pelos dois aliados locais.

“O garimpo precisa ser combatido, não tratado como desenvolvimento. E, numa eleição, o voto também é uma arma para dizer que esse modelo não pode continuar”, afirmou à Repórter Brasil.

Para a Assembleia, Alessandra apoia Auricélia, liderança indígena do Baixo Tapajós que disputa a eleição pelo PSOL. Ao contrário de Alessandra, ela está fora da aliança governista e integra o campo da candidata ao governo Araceli Lemos (PSOL). Sua relação com Barbalho tem sido marcada pelo confronto.

Em 2023, Auricélia viralizou nas redes ao dizer, diante de outras lideranças indígenas, que o então governador estava “com as mãos sujas de sangue”. Na ocasião, relacionou políticas ambientais e omissões do Estado às mortes de defensores dos territórios, à contaminação por mercúrio e à falta de atendimento de saúde. 

Neste ano, Auricélia foi uma das principais articuladoras, ao lado de Alessandra, da ocupação do terminal da Cargill em Santarém. Cerca de 60 indígenas de 14 povos entraram inicialmente na área sem estrutura, água ou alimentação. 

A mobilização cresceu até reunir centenas de pessoas e durou 33 dias, com assembleias, cozinhas coletivas, bloqueios e até a interceptação de uma embarcação carregada de grãos no Tapajós. O protesto terminou depois que o governo Lula revogou o Decreto 12.600/2025, que abria caminho para conceder à iniciativa privada as hidrovias dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins.

A partir dessa trajetória Auricélia trata o garimpo não como uma atividade econômica isolada, mas como parte de um modelo de ocupação da Amazônia. “Temos que defender nossos rios, nossos peixes, que estão contaminados e envenenando nosso povo”, afirma.

O mercúrio utilizado para separar o ouro da lama alcança os rios, entra nos peixes e chega ao organismo de quem depende deles para viver. Uma pesquisa da Fiocruz e do WWF-Brasil realizada em três aldeias do Médio Tapajós encontrou o metal em todos os 200 participantes examinados; em 57,9%, a concentração estava acima do limite de segurança adotado no estudo.

Dados parciais apresentados pela Fiocruz em 2025 mostraram que gestantes Munduruku estavam expostas, em média, a concentrações cinco vezes superiores ao limite de segurança estabelecido pela OMS (Organização Mundial da Saúde), segundo o Ministério Público Federal. 

A Repórter Brasil já mostrou aldeias Munduruku, no interior de Itaituba, onde médicos, agentes de saúde e famílias tentavam entender por que crianças nasciam com malformações ou apresentavam atraso no desenvolvimento, enquanto adultos relatavam tremores, fraqueza e cegueira. A principal linha de investigação era a exposição ao mercúrio, como mostrou a reportagem “A floresta doente”.

Nota da redação: a reportagem foi atualizada às 13h27 de 26/08/2026 para corrigir a informação de que o ex-deputado Hilton Aguiar apoiava a candidatura de Dr. Daniel ao governo do Pará. Aguiar declarou apoio à governadora Hana Ghassan e ao ex-governador Helder Barbalho, candidato ao Senado.

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Como condenação de R$ 1 bi contra a dona do Mounjaro por contaminação em fábrica caiu 99,8%

UMA CONDENAÇÃO judicial de R$ 1 bilhão contra a farmacêutica norte-americana Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, por contaminação química de trabalhadores em Cosmópolis (SP), foi reduzida para R$ 2 milhões pelo TST (Tribunal Superior do Trabalho) — um corte de 99,8% do valor original. 

A decisão tomada em novembro do ano passado pela última instância da Justiça trabalhista, e que também envolve a empresa ABL (Antibióticos do Brasil), determina ainda que pessoas  expostas por mais de duas décadas a cerca de 150 substâncias tóxicas na fábrica no interior de São Paulo terão de provar, individualmente, que suas doenças estariam relacionadas ao ambiente de trabalho.

Segundo o MPT (Ministério Público do Trabalho), autor da ação contra as duas empresas, a contaminação pode ter atingido cerca de cinco mil pessoas, entre trabalhadores, terceirizados e familiares. 

De acordo com a investigação do órgão federal, a Eli Lilly enterrou resíduos da produção de medicamentos em tambores de ferro, recipientes de plástico e até diretamente no solo. Os compostos químicos tóxicos teriam contaminado a terra e a água. 

Ainda segundo a ação, foram detectadas substâncias cancerígenas nas pessoas expostas, além de registros de malformações congênitas em filhos de ex-funcionários da fábrica.

O MPT ainda está recorrendo da decisão do TST. “É absolutamente insuficiente. Do novo valor, metade corresponde ao dano coletivo. Esse valor de R$ 1 milhão se torna irrisório e absolutamente contrário ao que a legislação determina no sentido de reparação desses danos. A Eli Lilly é uma das empresas mais valiosas do mundo”, afirma Sebastião Caixeta, subprocurador-geral do MPT.

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No segundo trimestre de 2026, a farmacêutica registrou 23 bilhões de dólares em receita, alta de 48% em relação ao mesmo período do ano anterior. Para o ano todo, a empresa passou a projetar receita entre 85 e 87 bilhões de dólares.

A Eli Lilly se instalou em Cosmópolis no fim da década de 1970. Em 2002, a empresa criou a ABL e depois separou as companhias. Na sequência, a ABL assumiu a fábrica na cidade. Por isso, a ação trabalhista envolve as duas empresas.

Durante as tentativas de negociação entre empresas e trabalhadores, as companhias admitiram que pelo menos 22 tipos de doenças ou problemas de saúde teriam alta probabilidade de relação com a exposição aos contaminantes da fábrica, de acordo com a ação.

Em outra ação, um ex-funcionário da fábrica relatou que desenvolveu distúrbios neurológicos e comportamentais (pânico, ansiedade, perda de memória e concentração), hipertensão arterial, mialgias, dores articulares e hepatite química. A a 7ª Turma do TST manteve a condenação da Eli Lilly ao pagamento de indenizações a filha dele em novembro de 2025, que nasceu com mielomeningocele (defeito no fechamento da coluna vertebral do feto) e hidrocefalia (acúmulo de líquido no cérebro), de acordo com tribunal.

“Os fatos são incontroversos. Não existe dúvida sobre a ocorrência da contaminação e sobre a participação das empresas. Por isso, eu considero que a decisão acabou sendo muito complacente com o agente poluidor, especialmente diante da gravidade e da extensão do caso”, afirma o advogado e professor da PUC-PR José Dallegrave Neto.

A Repórter Brasil procurou a Eli Lilly, a ABL e o TST sobre a decisão e as medidas de assistência e prevenção às pessoas expostas. 

Em nota, a Eli Lilly afirmou que “continua acompanhando os desdobramentos, mas no momento não irá se posicionar”. O TST afirmou que todos os esclarecimentos estão na decisão do processo.

A ABL afirma que assumiu as operações farmacêuticas da unidade de Cosmópolis em 2003, após o encerramento das atividades relacionadas a agroquímicos pela Eli Lilly, e que a remediação da contaminação histórica permanece sob responsabilidade da fabricante do mounjaro, sendo acompanhada pela Cetesb. “No processo, os elementos técnicos e periciais produzidos não estabeleceram nexo causal entre as doenças alegadas pelos trabalhadores da ABL e a exposição aos agentes químicos relacionados à contaminação histórica objeto da remediação.” O pronunciamento completo pode ser lido aqui.

Redução de valor e efeito pedagógico da decisão

Em 2014, a primeira instância havia fixado a condenação em R$ 1 bilhão, entre danos morais coletivos e custos dos tratamentos de saúde das famílias.

Quatro anos depois, o  TRT-15 (Tribunal Regional do Trabalho da 15ª região) diminuiu o valor total para R$ 500 milhões.

Em novembro de 2025, nova redução: o TST fixou o valor total em R$ 2 milhões, uma queda de 99,8%. Desse montante, metade representaria dano moral coletivo. 

A decisão de 2025 também anulou a ordem das instâncias inferiores sobre a criação de uma fundação para o atendimento das vítimas. No total, cerca de R$ 250 milhões estavam previstos para custear o funcionamento da entidade.   

Além disso, a decisão do TST deixou de atribuir às duas empresas responsabilidade conjunta pelos danos individuais, e passou a dividi-la conforme o período em que cada trabalhador esteve na unidade, considerando que a ABL assumiu a planta apenas em 2003.

A decisão da 4ª Turma do TST, porém, não foi unânime. O ministro Ives Gandra da Silva Martins Filho divergiu dos outros dois ministros e considerou que a indenização por dano moral coletivo deveria ser de R$ 25 milhões — valor que, segundo ele, deveria ser corrigido a partir da proposta feita pelas próprias empresas durante uma audiência de conciliação no TST.

Para o ministro, a redução para R$ 1 milhão não era compatível com a gravidade e a extensão da contaminação. “Nesse sentido, não há como fixar valor inferior à proposta empresarial, mormente em face da gravidade da macro lesão ambiental provocada, afetando elevado número de trabalhadores e suas famílias”, afirmou o ministro em seu voto.

O MPT, autor da ação civil pública, ainda contesta no TST os principais efeitos da decisão. Para o órgão, é inadmissível a redução da indenização e, principalmente, a exigência de que cada trabalhador prove individualmente que as doenças desenvolvidas pelos ex-funcionários têm relação com a exposição aos contaminantes.

O subprocurador-geral do trabalho Sebastião Vieira Caixeta, responsável pelo recurso apresentado ao TST, afirmou à Repórter Brasil que a decisão “enfraquece” a obrigação de oferecer ampla cobertura à saúde.

Para Caixeta, o problema começa no momento em que o trabalhador poderá acionar a cobertura. Pela decisão da 4ª Turma, será preciso comprovar a existência de uma doença e sua relação causal ou concausal — quando a contaminação contribui, junto com outros fatores, para o surgimento da doença. 

Na avaliação do MPT, isso significa esperar o adoecimento para então discutir judicialmente o tratamento. “Saúde não é só não ter a doença. Quando ela se instala, às vezes já pode ser tarde demais para prevenir”, afirma o subprocurador.

Para o advogado e professor da PUC-PR José Dallegrave Neto, a decisão também compromete a função pedagógica do dano moral coletivo.

Segundo ele, a condenação deveria funcionar como um incentivo para que uma empresa não repetisse a conduta. No caso da Eli Lilly, porém, o valor fixado pelo TST pode produzir o efeito contrário.

“Eles fizeram uma fundamentação não muito profunda, dada a envergadura do caso. Então, primeiro, eu acho que esse valor é muito pífio. Isso é perigoso porque o Brasil é recordista em acidentes de trabalho no mundo e está entre os países com mais acidentes de trabalho”, afirma Dallegrave. 

Para MPT, mais pessoas podem ter sido afetadas

Apesar da estimativa apontada no processo de que cerca de cinco mil pessoas podem ter sido afetadas pela contaminação, o número pode ser maior, segundo o MPT.

“Nas nossas tratativas, as empresas alegavam que uma das dificuldades era justamente chegar ao número de terceirizados e familiares que também podem ter sido expostos, porque seria difícil identificá-los, o que o MPT sempre rebateu”, afirma o subprocurador-geral do trabalho. Segundo ele, antigos contratos, registros em portarias e até um edital público permitiriam localizar outros possíveis atingidos. 

A Justiça do Trabalho reconheceu que os efeitos da exposição podem não aparecer imediatamente. Ao analisar o caso, o TRT-15 declarou que as consequências da contaminação “podem não resultar em repercussão patológica imediata, mas emergem progressivamente no tempo”, transformando uma pessoa inicialmente saudável em alguém doente.

É nesse ponto que a exigência de prova individual determinada pelo TST ganha peso. O trabalhador não precisará apenas demonstrar que esteve exposto aos contaminantes, terá de provar, em uma ação própria, que uma doença específica tem relação com aquela exposição. 

Outra decisão da Justiça do Trabalho manteve o acompanhamento dos trabalhadores expostos. Em abril de 2026, o TRT-15 determinou que Eli Lilly e ABL mantenham o monitoramento ambiental da área e façam “monitoramento biológico contínuo” dos trabalhadores que foram ou serão expostos às substâncias identificadas na perícia. 

Em maio de 2026, o TST manteve esse entendimento e rejeitou a tentativa do MPT de aumentar o valor da indenização e estabelecer uma presunção de nexo. Isso significa que o tribunal não aceitou que a exposição aos contaminantes fosse considerada um indício inicial suficiente, transferindo às empresas o dever de demonstrar que a doença não tinha relação com o trabalho na fábrica.

Para o professor da PUC-PR José Dallegrave Neto, o TST poderia ter adotado o entendimento de que o nexo entre a exposição e as doenças já estaria presumido, cabendo às empresas provar o contrário em cada caso. Segundo ele, exigir que cada vítima prove que uma doença decorreu da contaminação torna a tarefa especialmente difícil. “Se tornou uma prova diabólica para os trabalhadores, como chamamos no direito”, diz.

Mais de 20 anos de contaminação

Uma investigação ambiental encontrou resíduos em 29 pontos e apontou mais de 241 mil toneladas de material descartado, além de contaminação da água subterrânea.

Em 2004, Eli Lilly e ABL fizeram uma autodenúncia à Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) e reconheceram a contaminação do solo e do lençol freático.

Documentos apresentados à Justiça, porém, apontam que a Eli Lilly conhecia desde 1989 o potencial nocivo dos produtos utilizados na unidade. Ainda assim, trabalhadores continuaram expostos a agentes contaminantes por anos.

“O ministro relator Alexandre Luiz Ramos diz que as empresas sempre agiram de boa-fé. É verdade que houve a autodenúncia, mas era uma bomba que iria explodir. Não era mais possível esconder os problemas decorrentes da exposição e da contaminação do solo e da água”, afirma o subprocurador do trabalho. 

“A autodenúncia pode ser considerada, mas não pode representar praticamente uma isenção de responsabilidade, como me parece ser o caso de uma indenização de R$ 1 milhão”, complementa.

Apesar da autodenúncia e assinatura de um acordo e de um plano de remediação, ainda foram identificados problemas na fábrica. Em 2007, a Cetesb aplicou um auto de infração por disposição inadequada de resíduos e descumprimento de exigências técnicas, de acordo com o processo.

Para Dallegrave, a 4ª Turma retirou praticamente todas as medidas de proteção previstas nas decisões anteriores: eliminou obrigações de doações de equipamentos, reduziu drasticamente a indenização e determinou que eventuais vítimas recorram individualmente à Justiça para provar o nexo entre a doença e a exposição. 

Para Dallegrave, o argumento de que uma indenização elevada poderia comprometer a viabilidade econômica da empresa não se aplica à Eli Lilly. “Não estamos falando de uma banquinha de jornal da esquina que você vai pôr um milhão lá e vai quebrar a empresa. Nós estamos falando de uma multinacional que está lucrando.” E conclui: “É uma decisão que merece censura”.

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“Foi um começo ruim de campanha para o Flávio Bolsonaro”

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O Foro de Teresina desta semana discute o início da campanha para as eleições gerais de outubro, que começou oficialmente no último domingo (16). O ato inaugural de Flávio Bolsonaro aconteceu na orla de Copacabana, com várias bandeiras norte-americanas. No evento, o candidato disse a cerca de 9 mil pessoas que é “o único que pode sentar com os Estados Unidos”.

No segundo bloco, o trio discute o início da campanha de Lula e as novas informações sobre as investigações que envolvem Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e possíveis relações com um ex-integrante do governo.

No terceiro bloco, os apresentadores tratam do caso de violência contra a dentista Giulia Falcão, dos dados recentes sobre feminicídio no Brasil e da ampliação da Lei Maria da Penha.

Episódio já disponível nos principais tocadores de áudio.
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