Congresso Latinoamericano de Satélites 2026 reúne lideranças do setor no Rio de Janeiro
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A cada R$ 10 gastos com prisões no ano passado, em 26 unidades federativas do país, R$ 6 foram dirigidos ao encarceramento de pessoas negras. Essa é uma das conclusões do estudo realizado pelo Centro de Pesquisa Justa sobre investimentos em segurança pública nos estados brasileiros. Segundo o levantamento, divulgado nesta quinta-feira, 17 de setembro, o investimento no sistema prisional dos estados chegou a R$ 22,3 bilhões, valor que não abrange apenas o Acre, que não forneceu os dados ao Justa. Desse total, R$ 13,7 bilhões foram gastos tendo como alvo pessoas pretas ou pardas.
“Cria-se uma falácia de que pessoas negras cometem mais crimes, por isso que estão presas. Mas isso é uma falácia. Na verdade, essas pessoas estão sendo selecionadas pela polícia e, depois, na frente do juiz, que poderia parar esse processo de seletividade penal, [e também frente ao] Ministério Público. [Essa] engrenagem vem sendo construída dessa forma, essas pessoas estão sendo o alvo dessa política de segurança”, explica a advogada do Justa, Sofia Fromer, doutora em saúde coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa (FCMSC) de São Paulo. Para ela, o encarceramento da população negra confirma, mais uma vez, a existência de lógica punitivista e uma seletividade penal.
Para a advogada, a medida mais eficiente para transformar a lógica do sistema carcerário seria investir em políticas públicas de reinserção para egressos do sistema prisional. Essa medida, entretanto, está longe de ser priorizada pelos estados brasileiros. Segundo o Justa, para cada R$ 5.423 gastos em 2025 com as polícias estaduais (militar, civil e técnico-científica), apenas R$ 1 é dirigido às políticas para egressos.
Na comparação com o ano anterior, o investimento permaneceu praticamente o mesmo, passando de R$ 18 milhões, para políticas exclusivas aos egressos em 2024, para R$ 19 milhões no ano passado. O valor corresponde, em média, a 0,001% de seus gastos totais levantados pelo estudo.
Entre as 26 unidades federativas avaliadas, 19 delas (72%) não investiram em políticas exclusivas para egressos. Tocantins teve dotação aprovada na Lei Orçamentária Anual, mas não utilizou os recursos. Rio Grande do Sul e Santa Catarina registraram investimentos pela primeira vez em 2025, com R$ 414 mil e R$ 177 mil, respectivamente. Alagoas e Tocantins deixaram de investir. São Paulo foi o estado que utilizou o maior recurso, R$ 13,3 milhões, seguido pelo Ceará, com R$ 3,8 milhões. Mato Grosso investiu R$ 781 mil, enquanto a Bahia despendeu R$ 482 mil.
Para Fromer, políticas para egressos são multissetoriais, envolvem saúde, educação, assistência social, além do campo do direito, “para que essas pessoas possam criar novas rotas e que não seja uma possibilidade que elas precisem voltar para as prisões”, salienta.
A advogada lembra que não existe pena perpétua no Brasil, portanto, o Estado precisa pensar como as pessoas egressas “vão conseguir um trabalho, renda, ter uma casa, ter os seus documentos. Ter o contato, por exemplo, [no caso] de mulheres presas, com os filhos que deixaram sob o cuidado de uma outra pessoa”, explica.

O estudo também demonstra que se os recursos com a política para manter as pessoas fora das prisões são baixos, os gastos com a repressão são os mais altos. O total de investimentos envolvendo os 26 territórios foi de R$ 103,5 bilhões no ano passado, e a maior parte desses recursos foi para as Polícias Militares, R$ 60,7 bilhões, 58,6% do total, responsáveis pelo policiamento ostensivo da população. Já as Polícias Civis, que devem investigar os crimes, receberam R$ 22,2 bilhões (21,5%), e as Polícias Técnico-Científicas ficaram com a menor parcela, R$ 2,8 bilhões (2,7%), mesmo sendo responsáveis por atividades como perícia e produção de provas.
“Quando o investimento em policiamento ostensivo cresce sem que a investigação e produção de provas avancem na mesma proporção, o sistema amplia sua capacidade de prender sem necessariamente fortalecer sua eficiência para esclarecer os crimes. É uma lógica que ajuda a sustentar um modelo de encarceramento em massa, marcado por fragilidades na apuração da autoria e na produção de evidências”, avalia Luciana Zaffalon, diretora-executiva do Justa.
Para Sofia Fromer, as prioridades político-orçamentárias dos estados em segurança pública não se dão ao acaso. “Realmente existe uma preferência dos estados em ter um orçamento para as polícias, em detrimento do sistema prisional e das políticas para egressos.” Segundo a advogada, o investimento maior nas polícias, em específico, nas polícias militares, cujo caráter é mais ostensivo nas prisões, aumenta o encarceramento, mas não muda a realidade.
Ela explica que a pesquisa do Justa mostra que há um funil, onde a porta de entrada são os gastos com as polícias passando pelo investimento no sistema carcerário, até chegar aos gastos com as políticas para egressos. “[Temos] a ‘boca’ muito alargada do funil, ou seja, o orçamento ali é muito grande, e quando você vai afunilando, depois [estão] os gastos com o sistema prisional ainda menores, e com as políticas pregressas, quase inexistentes”.
Por outro lado, Fromer pensa em uma outra alternativa para mudar a dinâmica brasileira. Invertendo o funil, ou seja, investindo mais em políticas para egressos. Segundo ela, essa decisão criaria oportunidades para essas pessoas, diminuindo as chances de elas retornarem aos presídios.
“Quando o Estado destina bilhões à entrada e à permanência no sistema prisional, mas reserva valores residuais para a saída, limita as possibilidades de reinserção social e mantém condições que podem favorecer a reincidência”, complementa Luciana Zaffalon.
Entre os atuais candidatos à presidência da República que concorrem este ano, pelo menos três deles, Renan Santos (Missão), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) já citaram concordar com o modelo de segurança pública propagandeado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, baseado, principalmente, na construção de mega-presídios. Questionada se essa inspiração poderia ser eficiente no Brasil, Sofia Fromer vê restrições.
“Existe, sim, uma falta de vagas nas unidades prisionais. Se você olhar uma foto de uma prisão, você vai ver que numa cela onde caberiam 12 pessoas, tem 24, às vezes até mais. [Vai ver] pessoas em uma condição de total insalubridade. […] Criar novas vagas não resolve o problema. Se resolvesse, não teríamos mais [o problema] porque as respostas para a segurança pública, para o sistema prisional, elas têm sido pautadas, muitas vezes, na construção de novas vagas”, explica a advogada.
“E aí a gente vê de novo isso aparecendo com os candidatos, muitos inspirados no Bukele, [citando] a construção de megas prisões. Isso não funciona aqui no Brasil, e, de outro ponto de vista, a gente não tem nem orçamento para fazer essas mega prisões”, acrescenta.
Em 2025, baseado na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 347 (ADPF 347), determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em outubro de 2023, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) junto com o Ministério da Justiça e da Segurança Pública (MJSP), elaborou o Plano Pena Justa, que consiste em enfrentar o estado de calamidade dos sistemas penitenciários brasileiros. O objetivo é melhorar a qualidade das prisões e dos serviços, além de controlar as superlotações nas penitenciárias, além de fortalecer a ressocialização dos indivíduos. O Plano Pena Justa propõe mais de 300 metas para serem cumpridas até 2027, e muitas são focadas em políticas para egressos.
O estudo do Justa mostra, entretanto, que a iniciativa, mesmo já tendo sido iniciada, ainda não apresentou resultados relevantes. Fromer entende que o Brasil começará a bater tais metas caso se debruce sobre a questão orçamentária. “Sem o orçamento, não é possível que todas essas metas do Plano se efetivem, os estados precisam ter o orçamento determinado para que, de fato, elas possam ser cumpridas”, pondera.

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TIN PRODUCER White Solder acquired cassiterite from areas of the Brazilian Amazon where there is no evidence of mining activity. Between 2020 and 2025, the company reported in official documents the purchase of 2,300 metric tons of cassiterita from two locations in Campo Novo de Rondônia, in northern Rondônia state, where no signs of mining were found.
White Solder holds a central position in the global tin market: the group presents itself as one of the world’s largest tin manufacturers and ranks second in royalty payments from cassiterite extraction in the Brazilian Legal Amazon, according to data from the Brazil’s National Mining Agency.
Repórter Brasil visited the two areas identified by the company as the source of the cassiterite but found only cattle pasture and dozens of animals. The verification was conducted through an aerial survey carried out jointly with Greenpeace Brasil and through unpaved roads.
“The available evidence does not show spatial and temporal signs consistent with mineral production,” Greenpeace said. In addition to the field verification, the organization analyzed high-resolution satellite imagery, which was reviewed by Repórter Brasil. According to Greenpeace, the evidence suggests that the areas are “ghost mines.”
“Ghost mines” is the term used to describe mining sites that are authorized to operate and sell minerals but that, in practice, have no recorded production. Such sites can be used to conceal the true origin of minerals illegally extracted from areas without mining authorization, such as Indigenous territories.

Cassiterite is the raw material used to produce tin, a metal considered strategic for the defense and technology industries because it acts as a kind of “glue” in the soldering of electronic components. White Solder purchases raw cassiterite and processes it at an industrial facility in Rondônia before exporting it.
A total of 2,900 tons of cassiterite were reported between January 2020 and June 2026 as having been extracted from the two Artisanal Mining Permits or PLG, in the abbreviation in Portuguese. A PLG is a simplified authorization issued by Brazil’s National Mining Agency, intended for small-scale mining. Of this amount, 2,300 tons were declared by White Solder to CFEM, Brazil’s Financial Compensation for Mineral Exploration. The estimated total value of this production is R$228.54 million (approximately USD 44,3 million).
Contacted by email and phone by Repórter Brasil, White Solder had not responded by the time this report was published.

At the end of August, the mining company became a defendant in Federal Court accused of operating an illegal cassiterite mining scheme in the Yanomami Indigenous Territory, in Roraima state. According to the Federal Public Prosecutor’s Office (MPF), which filed the charges, the arrangement allegedly moved R$166 million (USD 32 million).
“The main source of tin is cassiterite. The Amazon as a whole is rich in cassiterite, but much of this ore is located in environmentally sensitive areas,” warns André Luiz Porreca, the MPF prosecutor responsible for the investigation into White Solder.
Although they do not overlap with any protected areas, the PLGs with no evidence of mining activity are located six kilometers from the Uru Eu Wau Wau Indigenous Territory. Home to nine Indigenous peoples, including five isolated groups, the territory is under pressure from illegal cassiterite mining.
“More and more PLGs are expanding, and mining is reaching the Indigenous territory. People think that because it is outside the territory it does not have an impact, but it does,” says Ivaneide Bandeira, known as Neidinha Suruí, one of the founders of the Kanindé Ethnoenvironmental Defense Association.
A candidate for the Brazilian Senate, Neidinha cites river contamination and increased violence around the Indigenous territory as some of the impacts of mining.
“The Yanomami were nearly driven to extinction by illegal mining. Imagine the effects on a territory like Uru Eu Wau Wau, which has a much smaller population. It will be a genocide,” she says. The Yanomami Indigenous Territory is home to around 31,000 Indigenous people and Uru Eu Wau Wau to 518, according to the Brazilian Institute of Geography and Statistics.
White Solder presents itself as one of the world’s largest tin producers. The company is headquartered in São Paulo and Amazonas states and operates a metallurgical facility in Ariquemes, Rondônia.
The plant is located 100 kilometers from Campo Novo de Rondônia, where the two PLGs with suspected irregularities are located. One of them is registered under Coomibra (Brazilian Miners Cooperative). Greenpeace analyzed satellite images from several years and identified signs of mining activity only in 2018 and 2019. After that period, the organization found no evidence of mining.
Between January 2020 and April 2023, White Solder reported the purchase of 2,300 metric tons of cassiterite from this area, with an estimated value of R$228 million (USD 44 million), according to calculations by Repórter Brasil based on declared CFEM payments.
Most cassiterite sales took place when this PLG belonged to another cooperative, Coopercam (Campo Novo de Rondônia Miners Cooperative). The entity filed the mining application in 2013 and held the permit until March 2023. Two months later, it was ordered by the Court of Rondônia state to cease “all mining activities” in the municipality due to irregular cassiterite extraction in the region.
Contacted by Repórter Brasil, Coopercam and Coomibra did not respond by the time this report was published.
The second PLG showing signs of being a “ghost mine” is located in an area adjacent to the first one and is operated by Coomari (Ariquemes Mining Cooperative).
A total of 7.9 metric tons of cassiterite was reported by White Solder as originating from this location in December 2024 and April 2025.
In this area, Greenpeace said it “did not find any signs of mining activity” in the historical satellite imagery series. During an aerial survey conducted by Greenpeace and Repórter Brasil in August of this year, no mining scars were identified either.
In addition to White Solder, the company Fábrica Auricchio Indústria e Comércio de Metais, based in Mogi das Cruzes (São Paulo state), also purchased cassiterite from this area. Between June 2024 and June 2026, around 524 metric tons of ore with the alleged origin in this area were reported by the company, with an estimated total value of R$61.9 million (USD 12 million).
Besides its operations in São Paulo state, the company has facilities in Pará state and Chile and specializes in processing copper and cassiterite to produce tin ingots, solder wire, and other products.
After being contacted by Repórter Brasil, Fábrica Auricchio said it would suspend purchases of ore from the area “until the facts are properly clarified.” In a statement, the company emphasized that it “adopts due diligence and traceability procedures for responsible mineral sourcing” and that it carries out verification procedures before beginning purchases from mineral suppliers.
According to Fábrica Auricchio, an in loco inspection was carried out at Coomari’s PLG area between late 2023 and early 2024. “At the time, no elements were identified that would indicate to Fábrica Auricchio any irregularity regarding the origin of the ore or that would allow the conclusion that the situation currently reported by the investigation existed,” the company said. “Given the new information presented, the company will conduct a new specific verification of the mentioned PLG.” The full response can be read here.
Fábrica Auricchio, like White Solder, is certified by the RMI (Responsible Minerals Initiative), a global initiative that brings together companies and organizations to promote responsible mining practices.
Contacted by Repórter Brasil, RMI said it will analyze the available evidence, conduct further inquiries, and consult stakeholders to assess whether it will remove or maintain both companies on its list and whether adjustments to the program are necessary. The full response can be read here.
In June 2024, Coomari was fined more than R$1 million by Ibama (Brazil’s environmental protection agency) for maintaining “potentially polluting activities without a license.” On the same day, an 800-square-meter area in Ariquemes was embargoed.
Contacted by Repórter Brasil, Coomari did not respond by the time this report was published.
A PLG (Artisanal Mining Permit) is a special authorization granted by Brazil’s National Mining Agency for the small-scale extraction of minerals such as gold and cassiterite.
Experts consulted by Repórter Brasil say that, in practice, the model has vulnerabilities that may allow illegally sourced material to be declared as legal. There is no requirement for prior mineral exploration studies, and the applicant itself is responsible for declaring the productive potential of the area.
In addition, after approval by Brazil’s National Mining Agency, there is limited oversight by regulatory agencies regarding how much ore is actually extracted from the authorized areas.
According to Danicley Aguiar of Greenpeace Brazil, the lack of prior research into the productive potential of an area functions as a “second presumption of good faith.” He refers to the “presumption of good faith” rule that, until 2025, allowed buyers of artisanal gold to classify the mineral as legally sourced based solely on information provided by miners. This practice was declared unconstitutional by Brazil’s Supreme Federal Court last year.
“There is no geological study to estimate whether one kilogram, one hundred kilograms, or one hundred thousand kilograms of ore could come from that area, because no one knows the deposit’s potential,” says Aguiar. “It is a kind of ‘second presumption of good faith’: we continue to authorize and license production without knowing how much ore actually exists there,” he adds.

At the end of May, Greenpeace Brazil published an assessment estimating that 25.3 metric tons of gold (worth R$18.4 billion) may have originated from PLGs with irregularities.
“There is a clear distortion of the purpose of PLGs,” says André Luiz Porreca, the MPF prosecutor investigating the White Solder case. He criticizes the lack of monitoring by Brazil’s National Mining Agency, which “has a duty to inspect the location where the ore is extracted.” “This is established by law, but it is not being done,” the prosecutor says.
In June, the agency approved a resolution changing the rules governing the current artisanal mining permit system. Among the changes is a requirement to prove actual mining activity as a condition for renewing a PLG. The regulation also limited the maximum area for PLGs held by individuals and sole proprietorships to 50 hectares, and to 1,000 hectares for areas registered by cooperatives, which will be required to annually provide a list of their members.
Repórter Brasil contacted the ANM, but the agency did not respond by the time this report was published.
The aerial survey of the region also revealed a mining operation along the Massangana River, in the rural area of Ariquemes. It is a PLG operated by Coopertin (Brazilian Tin Producers Cooperative). The site contains piles of mining waste, dams, and machinery used to extract cassiterite across an area of 5,600 hectares.
However, according to satellite images analyzed by Greenpeace, the mining operation has expanded beyond the limits of the PLG. In June 2024, mining activity extended beyond the northern boundary of the area, following the course of the river, according to the organization’s analysis.
“Comparative visual inspection of the images makes it possible to identify the expansion of the mining front over time and verify its position in relation to the authorized limits of the PLG, allowing us to conclude that extraction has expanded beyond the PLG boundaries,” Greenpeace’s analysis states.

Coopertin is a defendant alongside White Solder in the investigation into an alleged criminal scheme in the Yanomami Indigenous Territory.
Between January 2020 and May 2026, White Solder reported purchases of 20,000 metric tons of cassiterite attributed to the cooperative’s area, with an estimated value of R$1.6 billion.
Coopertin did not respond to Repórter Brasil by the time this report was published.
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No último sábado, em São Paulo, vi uma peça de teatro que me tocou profundamente. Se chama Mi Madre y El Diñero, do dramaturgo, ator e diretor mexicano Anacarsis Ramos e sua companhia Pornotráfico. A peça faz parte do Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas Mirada e mostra de maneira contundente as dificuldades de uma mulher que, após 60 anos trabalhando, ainda sofre com a falta de dinheiro.
Esta “personagem” é Josefina Orlaneta e é a mãe do autor. Ela começou a trabalhar com apenas cinco anos de idade vendendo lanches na rua e, em seis décadas de vida, exerceu mais de 40 ofícios. O espetáculo é uma tragicomédia no qual, em hora e meia de duração, faz sentir que conhecemos como ninguém a protagonista. E de fato a encontramos em carne e osso pois é ela mesma, a senhora Josefina, que atua ao lado de seu filho. Seu último emprego, portanto, ela nos conta com muita graça, é ser atriz!
Esta peça vem na onda da autoficção, um gênero que na literatura tem conquistado espaço e corações. No palco, essa forma de narrar se mostrou extremamente eficiente para explicitar o contexto econômico em que a vida de uma trabalhadora pobre se desenrola na virada dos séculos XX e XXI. O texto torna palpável a desigualdade que marcou a trajetória de Josefina.
Quando ela, por exemplo no início dos anos 2000, consegue finalmente alguma estabilidade ao abrir um pequeno mercado, não demora muito para que as lojas do Oxxo acabem com seu sonho. Oxxo é a cadeia mexicana que agora domina muitos pontos de comércio em São Paulo, sufocando pequenos negócios.
O próprio autor e diretor, ao contracenar com a mãe, faz um comovente discurso em que diz (mais ou menos com estas palavras): se chegou aos 66 anos ainda sem dinheiro, a mãe não deveria considerar-se uma fracassada, mas sim uma vítima do sistema econômico. Anacarsis conta que decidiu fazer a peça (e assim conseguiu convencer Josefina a participar) para levar sua mãe a viajar pelo circuito internacional dos festivais de teatro. Quem sabe, ele diz, ganharão algum dinheiro. A considerar o sucesso entre o público, espero mesmo que estejam recebendo um bom dinheiro; terminamos todos aplaudindo de pé.
Mas por que afinal estou falando de uma peça de teatro em uma coluna que deveria falar de meio ambiente? Bem… a resposta está no final da peça, quando o diretor confessa que apesar de ter convencido a mãe pela promessa que poderiam embolsar algum din-din, sua maior intenção era mesmo denunciar o modelo econômico que exclui uma parcela da população. Um modelo que mantém países, estados e bairros sempre na periferia das oportunidades.
Ligando os pontos, a questão que logo me deixou inquieto foi a geografia em que a peça ou a vida de sua personagem principal se passa. Josefina e sua família quase sempre viveram em Campeche, um dos estados mais pobres e violentos do México. Suas cidades na costa do Golfo do México não têm o glamour de destinos turísticos próximos como Playa del Carmen e Cancun, que são parte da mundialmente conhecida Riviera Maia e promovem seus luxuosos resorts nas águas azuis do Caribe.
Em Campeche, nos anos 1970, foi encontrado o maior campo de petróleo em alto mar do México. Esta descoberta transformou a economia do país de maneira radical, tornando-o menos rural e um dos principais exportadores de petróleo. Naquele momento, o campo descoberto foi considerado a segunda maior reserva de hidrocarbonetos do mundo, apenas atrás de reservas na Arábia Saudita. Isso ajudou a consolidar a empresa nacional de petróleo, a Pemex, e atraiu as grandes do setor ao país: Chevron e ExxonMobil.
E vejam a ironia, o primeiro poço a ser explorado levou o nome de Cantarell, em homenagem do pescador que avistou uma mancha negra de petróleo saindo do mar, no local onde a Pemex tinha uma sonda de pesquisa. Esta homenagem a ele parou por aí, pois, como tantos outros pescadores, ele morreu na pobreza depois que a atividade petrolífera em alto mar acabou com a pesca em Campeche.
O Brasil também descobriu sua “mina de ouro” há cerca de duas décadas, quando a Petrobras iniciou a exploração do Pré-Sal. Os royalties fluíram para cidades e estados. O principal estado a se beneficiar foi o Rio de Janeiro. Pergunto: quantas Josefinas ainda existem no Rio que não viram a cor do dinheiro da exploração do petróleo? Mulheres que lutam em empregos mal pagos para manter as suas famílias.
Agora, estamos vendo o mesmo enredo a se descortinar na foz do rio Amazonas. Bem na frente dos nossos olhos uma corrida pelas riquezas que supostamente sairão da exploração em alto mar. Essa expectativa já alterou a vida do Oiapoque, cidade mais ao norte do país e que abrigará as bases para a extração do ouro negro. Reportagens da BBC e da Folha de São Paulo nos contam sobre um fluxo migratório que gera sobrecarga nos serviços públicos, além de invasões de terra e desmatamento para criação de novos bairros.
Eu poderia fazer uma peça de teatro listando todos os projetos de “desenvolvimento” do Brasil que não deixaram nada além de um legado de destruição e miséria. Mas acho que seria uma peça entediante, para não dizer deprimente. Vou deixar o teatro ao Anacarsis enquanto, inspirado por sua obra, levanto esta questão: o que acontecerá com a economia da costa amazônica se aqui, como no México, a exploração do petróleo causar vazamentos em alto mar? Basta lembrar que é na foz do rio Amazonas que está uma das maiores atividades pesqueiras de todo o Brasil.
Na minha coluna de estreia, eu falei da maldição dos recursos naturais e como ela está presente em muitos países que têm petróleo e minérios. Há muita riqueza, mas o povo vive na pobreza. Países em que, como Josefina, crianças começam a trabalhar muito cedo. Na peça, eu fiquei arrepiado ao ouvir a protagonista contar que sua primeira lembrança quando criança era aquela em que ela já trabalhava nas ruas.
Será que, daqui a 60 anos, vamos ter que contar as histórias de muitas Josefinas? As Josefinas brasileiras que neste momento não estão vendo a cor do dinheiro deste modelo de desenvolvimento feito apenas para os verdadeiros donos do dinheiro?

Balbina era um sonho para Antônio Jorge Martins, mais conhecido como Carroça, que acompanhava de perto, sem energia nem saneamento básico, a construção da hidrelétrica. A promessa de moradia digna, trabalho e qualidade de vida, bem como a abertura de estradas para servir à execução da obra, significava avanço principalmente para seu pai, que já morava ao derredor e trabalhava nas obras no início…
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A candidata a deputada federal Rebeca Ramagem (PL-RJ) usou verba de campanha para contratar associados de seu marido, o ex-deputado Alexandre Ramagem, condenado e foragido por participação na trama golpista de 8 de janeiro de 2023. Rebeca é candidata a deputada federal pelo Rio de Janeiro e está auto-exilada nos EUA desde 2025 junto ao marido, o ex-diretor da Abin Alexandre Ramagem, condenado a 16 anos de prisão pela tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023.
Segundo levantamento feito pela Agência Pública junto à plataforma DivulgaCand Contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a campanha repassou mais de R$ 150 mil a ex-assessores e colegas de trabalho do marido.
Os recursos são provenientes de verba pública, a partir do fundo partidário do PL, que repassou R$1,5 milhão à campanha de Rebeca.
Desses, R$ 10 mil foram para Aline Laudelina Lopes dos Santos Pires, contratada como coordenadora de equipe. A empresária é irmã do blogueiro Allan dos Santos, condenado por calúnia e indiciado no âmbito dos inquéritos das Fake News e dos atos antidemocráticos no STF, sob acusação de lavagem de dinheiro, organização criminosa e incitação ao crime. Diferente do irmão, Aline não é investigada em nenhum procedimento judicial.

Allan dos Santos, que também vive nos Estados Unidos e também é foragido da Justiça brasileira, é parceiro de Alexandre Ramagem. Os dois apresentam juntos o canal Revista TimeLine, onde comentam sobre política brasileira sob a ótica bolsonarista. O canal funciona no YouTube e tem mais de 440 mil inscritos. Em 2025, o canal foi bloqueado no Brasil por ordem judicial e, desde então, só pode ser acessado por VPN. Allan dos Santos e Ramagem compartilham também o endereço de suas empresas nos Estados Unidos. Timeline US Corporation e ARBN Villa Corporation são registradas no mesmo escritório na Flórida.
Aline, que mora no Brasil, também presta serviços para o canal. Em agosto, ela realizou a cobertura da TimeLine do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência em Copacabana, enquanto seu irmão e Ramagem acompanhavam do estúdio na Flórida. Na ocasião, a campanha de Rebeca enviou bonecos de papelão dela e do marido para representá-los no ato.

Outros R$ 80 mil da campanha de Rebeca Ramagem foram repassados para a empresa Farol Comunicação Integrada Ltda, para “serviços de marketing”. A empresa pertence a Elisa Brom de Freitas, influenciadora com mais de 580 mil seguidores no X, e também presta serviços para a campanha de Carlos Bolsonaro (PL) ao Senado em Santa Catarina.
Em 2022, Brom foi alvo de ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por publicar desinformação contra Luís Inácio Lula da Silva (PT). Na ocasião, seu perfil foi um dos responsáveis por disseminar o boato de que o petista teria desviado presentes dados por chefes de Estado à Presidência durante seus primeiros mandatos.

Na época, ela era secretária parlamentar de Alexandre Ramagem, cargo que ocupou até dezembro do ano passado, quando foi exonerada após a cassação do então deputado federal. Além de Brom, outros seis ex-funcionários do gabinete foram contratados pela campanha de Rebeca Ramagem, com repasses entre R$ 10 e R$ 15 mil cada, totalizando R$ 150 mil.
Os contratados operam a campanha de Rebeca do Brasil enquanto ela e o marido estão nos Estados Unidos. A família saiu do país clandestinamente no final de 2025 e se estabeleceu na Flórida, onde aguardam pedido de asilo político. Lá, mesmo com as contas bloqueadas no Brasil, moram em uma casa de alto padrão e abriram empresa para venda de cursos.
Em abril, Ramagem chegou a ser detido pelo Serviço de Imigração dos EUA (ICE, na sigla em inglês) por questões migratórias, mas foi solto dias depois. Em junho, depois de 150 dias sem trabalhar, Rebeca pediu licença de seu cargo de procuradora do Estado de Roraima para se candidatar a deputada federal.
A candidatura está sob análise do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro. Para o relator do processo, Paulo César Salomão Filho, aceitar a candidatura de Rebeca seria um “tapa na cara no Poder Judiciário”, devido à ligação com o marido condenado. Outros três ministros, no entanto, já votaram pela manutenção da candidatura, formando maioria. O julgamento foi adiado na última segunda-feira (15/09) após pedido de vistas da desembargadora Tathiana de Carvalho Costa.
A Pública questionou a assessoria de Rebeca sobre as contratações de acusados por desinformação, mas não obteve resposta até a publicação. O espaço permanece aberto para manifestação.


DE ARIQUEMES (RO) — A mineradora White Solder comprou cassiterita de áreas onde não há indícios de exploração mineral. Entre 2020 e 2025, a empresa declarou em documentos oficiais a compra de 2,3 mil toneladas do minério de dois locais sem sinal de mineração em Campo Novo de Rondônia, no norte do estado.
A Repórter Brasil visitou as duas áreas indicadas pela White Solder como origem da cassiterita, mas encontrou apenas pasto para criação de gado e dezenas de animais. A verificação foi feita por meio de sobrevoo em conjunto com a organização Greenpeace e por estradas de terra.
“As evidências disponíveis não apresentam sinais espaciais e temporais compatíveis com a produção mineral”, afirma o Greenpeace. Além da verificação no local, a organização analisou imagens de satélite de alta resolução, material revisado pela Repórter Brasil. Para a organização, as evidências analisadas sugerem que as áreas constituem “garimpos fantasmas”.
“Garimpos fantasmas” é como são conhecidas áreas de garimpo autorizadas a funcionar e comercializar o minério, mas que, na prática, não registram produção efetiva. Locais como esses podem ser usados para ocultar a real origem de mineral extraído ilegalmente de áreas sem autorização minerária, como territórios indígenas.
A cassiterita é a matéria-prima do estanho, metal considerado estratégico para a indústria bélica e da tecnologia por funcionar como uma espécie de “cola” na soldagem de componentes eletrônicos. A White Solder adquire o minério bruto e faz o processamento em uma unidade industrial em Rondônia, antes da exportação.
Ao todo, 2,9 mil toneladas de cassiterita foram declaradas entre janeiro de 2020 e junho de 2026 como se tivessem sido extraídas das duas PLGs (Permissões de Lavra Garimpeira). Desse total, 2,3 mil toneladas foram declaradas pela White Solder, segundo dados públicos da CFEM (Compensação Financeira pela Exploração Mineral), disponibilizados pela ANM (Agência Nacional de Mineração). O valor total estimado por essa produção é de R$ 228,54 milhões.
Procurada por e-mail e telefone pela Repórter Brasil, a White Solder não respondeu até a publicação desta reportagem.
No final de agosto, a mineradora virou ré na Justiça Federal acusada de operar um esquema de garimpo ilegal de cassiterita na Terra Indígena Yanomami, em Roraima. O arranjo teria movimentado R$ 166 milhões, segundo o MPF (Ministério Público Federal), autor da denúncia.
“A principal fonte de estanho é a cassiterita. A Amazônia, como um todo, é rica em cassiterita, mas muito desse minério está em áreas sensíveis do ponto de vista ambiental”, alerta André Luiz Porreca, procurador do MPF responsável pelo inquérito sobre a White Solder.
Apesar de não incidirem sobre nenhuma área protegida, as PLGs sem indícios de atividade mineral estão a uma distância de seis quilômetros da Terra Indígena Uru Eu Wau Wau. Morada de nove povos indígenas, sendo cinco grupos isolados, o território é pressionado pelo garimpo ilegal de cassiterita.
“Cada vez mais as PLGs estão avançando e o garimpo está encostando na terra indígena. Pensam que, por estar do lado de fora, não impacta o território, mas impacta sim”, afirma Ivaneide Bandeira, a Neidinha Suruí, uma das fundadoras da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé
Candidata ao Senado pelo PSB-RO, Neidinha cita a contaminação dos rios e o aumento da violência no entorno da TI como alguns dos impactos do garimpo. “Os Yanomami quase foram levados à extinção pelo garimpo. Imagina os efeitos em um território como o Uru Eu Wau Wau, que tem uma população bem menor. Vai ser um genocídio”, diz. A TI Yanomami abriga cerca de 31 mil indígenas e a TI Uru Eu Wau Wau, 518, de acordo com o IBGE.
O Grupo White Solder se apresenta como um dos maiores produtores mundiais de estanho. A empresa tem sede em São Paulo e no Amazonas e opera uma unidade de metalurgia em Ariquemes. A fábrica está a 100 km de Campo Novo de Rondônia, onde ficam as duas PLGs com indícios de irregularidades.
Uma delas está em nome da Coomibra (Cooperativa dos Garimpeiros Mineradores do Brasil). O Greenpeace analisou imagens de satélite de vários anos e identificou sinais de atividade minerária apenas em 2018 e 2019. Depois disso, não encontrou indícios de mineração.
Entre janeiro de 2020 e abril de 2023, a White Solder declarou à ANM compras de 2,3 mil toneladas de cassiterita atribuídas à área, com valor estimado de R$ 228 milhões, segundo cálculos da Repórter Brasil a partir dos valores declarados de CFEM.



A maior parte das vendas da cassiterita aconteceu quando essa PLG pertencia a outra cooperativa, a Coopercam (Cooperativa de Garimpeiros de Campo Novo de Rondônia). A entidade fez o requerimento de mineração em 2013 e foi detentora do título até março de 2023. Dois meses depois, ela foi condenada pela Justiça de Rondônia a cessar “toda e qualquer atividade minerária” no município pela exploração irregular de cassiterita na região.
Procuradas, a Coopercam e a Coomibra não responderam até a publicação da reportagem.
A segunda PLG com indício de ser um “garimpo fantasma” fica em uma área vizinha da primeira e está sob responsabilidade da Coomari (Cooperativa Mineradora de Ariquemes).
Um total de 7,9 toneladas de cassiterita foi declarado pela White Solder com origem neste local em dezembro de 2024 e em abril de 2025. O valor estimado da carga é de R$ 570,3 mil, segundo cálculos da reportagem a partir de dados da CFEM.
Nesta área, o Greenpeace afirma que “sequer encontrou sinais de atividade minerária” na série histórica de imagens. Em sobrevoo realizado pela organização e pela Repórter Brasil em agosto deste ano, também não foram identificadas cicatrizes de mineração.
Além da White Solder, quem também comprou cassiterita nesta área foi a empresa Fábrica Auricchio Indústria e Comércio de Metais, com sede em Mogi das Cruzes (SP). Entre junho de 2024 e junho de 2026, cerca de 524,2 toneladas do minério com suposta origem na área foram declaradas pela companhia, com valor total estimado em R$ 61,9 milhões.
Além do interior paulista, a empresa possui unidades no estado do Pará e no Chile, e é especializada em processamento de cobre e cassiterita para a produção de lingotes de estanho, fios de solda e outros produtos.
Após o contato da Repórter Brasil, a Fábrica Auricchio afirmou que vai interromper a aquisição do minério da área “até que os fatos sejam devidamente esclarecidos”. Em nota, a empresa reforçou que “adota procedimentos de diligência e rastreabilidade para aquisição responsável de minerais” e que realiza procedimentos de verificação antes de iniciar a aquisição de minérios de fornecedores.
Segundo a Fábrica Auricchio, uma verificação in loco foi realizada na área da PLG da Coomari entre o final de 2023 e início de 2024. “Na ocasião, não foram identificados elementos que indicassem à Fábrica Auricchio qualquer irregularidade relacionada à origem do minério ou que permitissem concluir pela existência da situação atualmente apontada pela reportagem”, disse a companhia. “Diante das novas informações apresentadas, a empresa promoverá nova verificação específica sobre a PLG mencionada”. A íntegra da resposta pode ser lida aqui.



A Fábrica Auricchio, assim como a White Solder, é certificada pela RMI (Responsible Minerals Initiative), iniciativa global que reúne empresas e organizações para promover práticas de mineração responsáveis.
Procurada pela Repórter Brasil, a RMI disse que irá analisar as evidências disponíveis, realizar novas apurações e consultar as partes interessadas para avaliar se retira ou mantém as duas empresas em sua lista e se são necessários ajustes no programa. A resposta completa pode ser lida aqui.
Em junho de 2024, a Coomari foi multada pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) em mais de R$ 1 milhão por manter “atividades potencialmente poluidoras sem licença”. No mesmo dia, teve uma área de 800 m² embargada em Ariquemes.
Procurada, a Coomari não respondeu até a publicação desta reportagem.
A PLG é uma autorização especial concedida pela ANM para a exploração em pequena escala de minerais como ouro e cassiterita.
Especialistas consultados pela Repórter Brasil apontam que, na prática, o modelo apresenta vulnerabilidades que podem permitir que material de origem ilegal seja declarado como regular. Isso porque não há necessidade de pesquisa mineral prévia e é o próprio interessado quem declara o potencial produtivo da área.
Além disso, após o aval da ANM, há pouco acompanhamento pelos órgãos de controle sobre o quanto de minério é realmente extraído nas áreas concedidas.
Na avaliação de Danicley Aguiar, do Greenpeace Brasil, a dispensa de uma pesquisa prévia sobre o potencial produtivo da área funciona como uma “segunda boa-fé”. Ele faz referência à “presunção de boa-fé”, regra que permitiu até 2025 que os compradores de ouro de garimpo classificassem o minério como de origem legal apenas com base nas informações declaradas pelo garimpeiro. Esta prática foi considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal no ano passado.
“Não existe um estudo geológico que permita estimar se daquela área pode sair um quilo, cem quilos ou cem mil quilos de minério, porque ninguém conhece o potencial da jazida”, afirma Aguiar. “É uma espécie de ‘segunda boa-fé’: continuamos autorizando e licenciando uma produção sem saber quanto de minério existe ali”, continua.
No final de maio, o Greenpeace Brasil publicou levantamento estimando que 25,3 toneladas de ouro (totalizando R$ 18,4 bilhões) teriam origem em PLGs com irregularidades.
“Há um claro desvirtuamento das PLGs”, afirma André Luiz Porreca, procurador do MPF que investiga o caso da White Solder. Ele critica a falta de monitoramento pela ANM, que “tem o dever de fiscalizar o local de onde o minério é extraído”. “Isso está expresso na lei, mas não é feito”, diz o procurador.
Em junho, a ANM aprovou uma resolução que altera as regras do atual regime de Lavra Garimpeira. Entre as mudanças está a exigência de comprovação de efetiva atividade de mineração como condição para a renovação da PLG. A norma também limitou a 50 hectares a área máxima para PLGs de pessoas físicas e firmas individuais, e a 1.000 hectares para áreas registradas por cooperativas, que deverão apresentar anualmente a relação de seus cooperados.
A Repórter Brasil procurou a ANM, mas a agência não respondeu até a publicação.
O sobrevoo na região também revelou uma operação de mineração ao longo do rio Massangana, na zona rural de Ariquemes. É uma PLG da Coopertin (Cooperativa de Produtores de Estanho do Brasil). Ali, há pilhas de rejeitos, barragens e máquinas que extraem a cassiterita em uma área de 5,6 mil hectares.
A lavra, no entanto, extrapolou os limites da PLG, de acordo com imagens de satélite analisadas pelo Greenpeace. Em junho de 2024, o garimpo vazou pela porção norte da área, seguindo o curso do rio, segundo análise da organização.
“A inspeção visual comparativa das imagens permite identificar a expansão da frente de lavra ao longo do tempo e verificar sua posição em relação ao limite autorizado da PLG, podendo, desse modo, afirmar que a lavra expande para além dos limites da PLG”, diz análise do Greenpeace.
A Coopertin é ré ao lado da White Solder na investigação que apura um esquema criminoso na TI Yanomami.
Entre janeiro de 2020 e maio de 2026, a White Solder declarou compras de 20 mil toneladas de cassiterita atribuídas à área da cooperativa, com valor estimado de R$ 1,6 bilhão.
A Coopertin não respondeu à reportagem até a publicação desta reportagem.
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NVIDIA is committed to the responsible sourcing of minerals. We routinely review suppliers to ensure compliance with our responsible mineral policy and conduct due diligence to ensure our products are sourced responsibly.
Indium Corporation maintains established responsible-sourcing and supplier due-diligence requirements for its mineral supply chain. Our tin sourcing is limited to suppliers that meet our responsible-sourcing criteria, including applicable Responsible Minerals Initiative (RMI) requirements. White Solder was listed as an RMAP-conformant tin smelter during the relevant sourcing period.
Questions regarding the allegations involving White Solder and the related legal proceedings are more appropriately addressed by White Solder and the relevant Brazilian authorities.
Indium Corporation does not comment on specific customer relationships or contracts.
We have no additional comment at this time.
1. Como a Fábrica Auricchio responde aos indícios de que adquiriu cassiterita declarada como proveniente de uma PLG onde não foram identificados sinais de atividade minerária compatíveis com a produção informada?
A Fábrica Auricchio, antes de iniciar a aquisição de minério de seus fornecedores, realiza procedimentos de verificação, incluindo diligências presenciais nas áreas de mineração. No caso em questão, foi realizada verificação in loco no período compreendido entre o final de 2023 e o início de 2024.
Na ocasião, não foram identificados elementos que indicassem à Fábrica Auricchio qualquer irregularidade relacionada à origem do minério ou que permitissem concluir pela existência da situação atualmente apontada pela reportagem.
Diante das novas informações apresentadas, a empresa promoverá nova verificação específica sobre a PLG mencionada.
2. Quais procedimentos de rastreabilidade e verificação da origem do minério a empresa adota antes de comprar cassiterita de cooperativas e garimpos?
A Fábrica Auricchio adota procedimentos de diligência e rastreabilidade para aquisição responsável de minerais, em consonância com os padrões e protocolos aplicáveis no âmbito da Responsible Minerals Initiative – RMI, da qual é certificada.
Esses procedimentos abrangem, entre outras medidas, a identificação e avaliação dos fornecedores, verificação da documentação relacionada à origem e regularidade do minério, análise dos respectivos títulos e autorizações minerárias, avaliação de riscos e realização de diligências sempre que necessárias.
A empresa mantém seus procedimentos de conformidade sujeitos a acompanhamento e revisão, especialmente quando surgem informações novas capazes de indicar eventual risco relacionado à cadeia de fornecimento.
3. A Fábrica Auricchio tinha conhecimento do caso citado pela reportagem? Caso não, a empresa adotará alguma providência?
Não. A Fábrica Auricchio desconhecia os fatos específicos relatados pela reportagem.
Diante das informações agora apresentadas, a empresa comunicará formalmente a COOMARI de que interromperá, preventivamente, qualquer aquisição de minério declarado como originário da PLG nº 886330/2013, até que os fatos sejam devidamente esclarecidos.
Paralelamente, será agendada nova due diligence, incluindo verificação da área e da documentação pertinente, com o objetivo de apurar as informações relatadas e avaliar a compatibilidade entre a atividade minerária efetivamente desenvolvida e a produção declarada.
A Fábrica Auricchio pauta sua atuação pela aquisição responsável de minerais provenientes de cooperativas e fornecedores previamente avaliados, observando seus procedimentos internos de conformidade e os protocolos aplicáveis no âmbito da RMI. As informações recebidas serão tratadas com a seriedade necessária e as medidas cabíveis serão adotadas de acordo com o resultado das verificações.
Both are currently designated as conformant based on their most recent assessments, which took place on 5/27/2026 for White Solder and 7/2/2026 for Fabrica Auricchio. Please see our public list. While assessment cycles would typically be 12 months, the RMI will perform a Complaint and Integrity review to determine whether a reassessment is needed sooner or if their status needs to be otherwise adjusted (please see below).
Thank you for bringing the issue to our attention. The RMI has a process that allows external stakeholders to submit complaints related to the conduct of RMI assessed facilities that might constitute a breach of the relevant standard. We appreciate you reaching out to the RMI and we have channeled this matter via the RMI Complaint and Integrity Mechanism for a rapid admissibility review. Based on this initial review, the issue you describe in the email is in scope of the RMI Mechanism and the case will be addressed according to the established procedure.
The allegation appears to be in scope and thus we will follow our Complaints and Integrity procedure. We would welcome any evidence that independent investigators could offer, referenced in your message, to support our review. The RMI will review all available evidence, conduct further analysis and engage with stakeholders as appropriate to evaluate the impacts of the issue on the conformance determination of the facilities and their participation in the RMI assessment program, and determine appropriate actions.
Legal proceedings and credible information sources are considered in our complaints process, which has been initiated. Facility status will depend on the outcome of the review.
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