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O mergulho nos arquivos de Rosa Gauditano

Rosa Gauditano – Piquete na fábrica da Ford durante a greve de 1978.


Um ano atrás, em agosto de 2025, mais precisamente no dia 7, a fotógrafa Rosa Gauditano nos deixou. Ela tinha 70 anos.

Eu conheci a Rosa há exatos 10 anos, em 2016. Eu e o Eduardo Costa fomos até a casa em que ela morava, na zona oeste de São Paulo, para fazer uma entrevista. Naquela época nós estávamos começando um projeto que, uma década depois, me traria para uma bolsa de sete meses em Munique, de onde escrevo esse texto. Eu e o Eduardo chegamos na casa dela naquele dia, nos sentamos na mesa da sala, e a ouvimos por mais de três horas. Isso se repetiria nas outras inúmeras conversas que eu e ela teríamos ao longo do tempo: Rosa sempre foi uma interlocutora generosa, sempre falou com franqueza, dizendo tudo o que tinha pra dizer, e sempre compartilhou créditos e buscou agregar pessoas, com um verdadeiro senso de comunidade em torno da fotografia documental brasileira. Eduardo e eu saímos daquela primeira entrevista com muitas ideias de como dar continuidade ao nosso projeto, que girava em torno da participação brasileira nos Colóquios Latino-Americanos de Fotografia dos anos 70 e 80. Ela nos deu muito material histórico para trabalhar, e vários outros nomes para novas entrevistas.

Rosa e eu continuamos em contato, construindo uma colaboração profissional baseada no entusiasmo pelo poder da fotografia de apoiar as lutas democráticas de ontem e de hoje. De forma espontânea, por vezes nossos caminhos foram se cruzando. Rosa também me incluiu em projetos e eventos que participou, como o lançamento do livro Máquinas Paradas, Fotógrafos em Ação, em 2017. O livro traz uma documentação importante sobre as greves do ABC, que estavam a ponto de comemorar 40 anos, com imagens de dez fotojornalistas do período, incluindo Rosa, e organização de Ennio Brauns e Adilson Ruiz. Essa proximidade me deixou cada vez mais interessada no trabalho dela enquanto fotógrafa mulher, parte de uma geração de mulheres que foi pioneira no fotojornalismo contemporâneo brasileiro. A profissão como um todo estava se transformando naquela época, e essa geração foi fundamental para o estabelecimento do fotojornalismo de autor que se formou a partir da tímida e gradual distensão da ditadura, e do aparecimento da imprensa alternativa, crítica da ditadura, em meados da década de 1970. O meu interesse sobre o aspecto militante contra a ditadura da obra da Rosa, visto por meio da cobertura das greves do ABC, resultou em um artigo para a ZUM em 2018.

Não eram apenas as greves que estavam de aniversário por aquele período. No ano em que nos conhecemos, Rosa estava completando 40 anos de carreira. Eu imagino, mas nunca falamos diretamente sobre isso, que por este motivo ela estava também revisando o seu próprio arquivo. Ela sempre teve plena consciência da importância de manter um arquivo, e como eu pude vir a testemunhar mais tarde – nove anos depois eu conheceria em detalhes esse arquivo – ela teve o cuidado de guardar e manter tudo o que produziu. Já na primeira visita, para a entrevista de 2016, ela tinha mostrado o quarto em que mantinha dezenas de gavetas com as fotos que realizou durante toda a carreira e com as publicações onde elas aparecem. Naquele momento conversamos sobre como era complicado, e custoso, manter esse espaço climatizado 24 horas por dia. Esta preocupação pessoal levaria a Rosa a participar, já em 2024, da organização do seminário ‘Fototeca Brasileira: políticas para preservação da memória fotográfica’ no CPF-SESC que trouxe fotógrafos e pesquisadores para debaterem juntos a possibilidade de construção de uma política nacional para a fotografia, incluindo a sua preservação. Manter os próprios arquivos, e o que fazer com eles para assegurar a preservação física e disponibilizar em alguma medida acesso público, é uma questão antiga, mas ainda muito relevante para muitos fotógrafos brasileiros, como era para Rosa.

Não muito tempo depois do meu primeiro encontro com a Rosa, ela foi morar em Londres. E em seguida eu fui também. Por coincidência, nós duas atravessamos o Atlântico por questões do coração. Neste período, a nossa colaboração de trabalho levou à descoberta de afinidades pessoais, e a proximidade em Londres possibilitou que continuássemos amigas para além da fotografia. Num dia muito frio em um janeiro já distante, ela me convidou pra ir ouvir o companheiro dela, o Ife Tolentino, tocar chorinho no norte de Londres, e eu resolvi inventar uma desculpa pra não ir porque estava com preguiça. Ela me repreendeu, citando uma frase do pai dela: só fica em casa quem está doente.

Pensando nisso hoje, para mim essa frase – e o nosso diálogo ali – representa tão bem a Rosa, tanto a pessoa, a amiga, quanto a fotógrafa. Porque como pessoa ela estava em constante movimento, sempre expansiva e gregária. Características que também é justo considerar que são um bom ponto de partida para a profissão de fotógrafa. Ir até o outro, estabelecer diálogo, contato, troca, são atributos fundamentais para o fotografo documental, e aparecem claramente no trabalho da Rosa. Feito sempre de perto, quase nunca usando teleobjetiva, os retratos das prostitutas de São Paulo, das mais de 50 etnias indígenas que ela visitou, das frequentadoras de boates lésbicas, ou dos participantes das mais diversas festas populares pelo país, mostram uma cumplicidade com a câmera que só pode ser fruto de troca, não de tomada. Da mesma forma, a citação do pai de Rosa também me lembrou uma frase que ouvi de outra gigante da profissão, Nair Benedicto, quando eu a entrevistei também há 10 anos, poucas semanas depois da Rosa (e que também virou artigo pra ZUM). Em um certo momento da nossa conversa, a Nair falou que, pra ela, a particularidade do fotógrafo, ou a diferença entre o fotógrafo e outra profissão, é que o fotógrafo ‘vai até lá’. Ela ou ele vai nos lugares e vê. Testemunha. Compartilha. Toma conhecimento. E a partir daí pode também, se quiser, agir. Não fica em casa, porque só fica em casa quem está doente.

Rosa Gauditano – Mulheres yanomami coletam de banana, mamão, mandioca, urucum e outras frutas, Roraima, 1991.

O processo de revisitar o próprio arquivo também não é algo tão raro entre fotógrafos. Os anos de maior produção – geralmente os anos iniciais da carreira – são mais dinâmicos e propiciam um acúmulo de projetos por vezes em detrimento de um olhar mais demorado e reflexivo. Décadas depois, com o ritmo de trabalho mais calmo, e com a vantagem do olhar retrospectivo, é mais fácil rever, reorganizar, e ressignificar o próprio trabalho. As fotografias e séries guardadas por tanto tempo podem então contar novas histórias. Um dos maiores exemplos que vêm à mente é o de Claudia Andujar, que fez o processo de ressignificar em arte uma produção anterior, que tinha na origem objetivos jornalísticos ou de documentação para fins puramente práticos. No caso de Rosa, esse processo, iniciado em fins da década de 2010, ajudou a redescobrir séries mais antigas, que permaneceram inéditas ou pouco divulgadas, e que têm enorme importância histórica pois contam de diversos ângulos o longo caminho de redemocratização do pais. Ele também desembocou em dois livros que ela mesma editou.

O primeiro, Elas por Elas, foi um protótipo que combinou dois ensaios do final da década de 1970. Em 1976 Rosa realizou junto com o amigo, também fotógrafo, Ayrton de Magalhães, uma série em um prostíbulo do centro de São Paulo. Foi a primeira de sua carreira, quando ainda era estudante, indo escondida do pai e revelando e ampliando as fotos em casa. Na época, as fotos foram publicadas na revista Photoptica e no jornal Versus, mas não circularam de forma muito mais ampla no Brasil. No exterior é outro assunto: Rosa mandou essa série para o Primeiro Colóquio Latino-Americano de Fotografia, realizado na Cidade do México em 1978, e ela foi selecionada para a exposição coletiva Hecho en Latinoamerica, que acompanhou o evento, e para o catálogo. Além disso, a exposição viajou por dezenas de países na Europa e América Latina. Foi pesquisando esse evento, e portanto por meio desse ensaio, que eu cheguei até a Rosa. Minha pesquisa revelou que as fotos dela receberam destaque particular em diversas revistas europeias. O segundo ensaio que ela retirou das gavetas para publicar em Elas por Elas veio dos arquivos da Veja. Em 1979 a revista a chamou para fazer uma reportagem sobre a vida e a sociabilidade das lésbicas em São Paulo. Segundo ela, outros fotógrafos – todos homens – tinham sido chamados mas não conseguiram fazer a pauta. Rosa conseguiu, mas a Veja nunca publicou, por considerarem o tema controverso ainda sob a ditadura, e o ensaio permaneceu por décadas inédito. O livro Elas por Elas também permaneceu apenas como protótipo, mas o ensaio das lésbicas finalmente ganhou destaque na Bienal de 2023.

Com o segundo livro eu estive mais envolvida. A Mesma Luta foi publicado em 2021, a partir de uma seleção da ampla documentação que Rosa fez dos movimentos sociais entre 1976 e 1985, focando mais uma vez nas atuação das mulheres. Esse mergulho no arquivo, desenvolvido principalmente no tempo em que ela trabalhou para o jornal Versus, trouxe das gavetas fotos do Movimento do Custo de Vida, encabeçado por mulheres da periferia de São Paulo, dos Encontros da Mulher Paulista, do Movimento Negro, das greves do ABC, entre muitas outras. É um trabalho de fotojornalismo, desenvolvido na maior parte como freelance, que mostra uma clara autoria: uma liberdade tanto estética (como fotografar) quanto temática (o que fotografar). Rosa compartilhou comigo conjuntos de fotos em estágios prévios do processo de seleção, e depois me convidou para escrever um dos textos do livro. A Mesma Luta ganhou prêmios nacionais e internacionais, inclusive o destaque da Convocatória de Fotolivros da Revista ZUM em 2021.

Livro Elas por Elas, de Rosa Gauditano, 2017
Livro A Mesma Luta, de Rosa Gauditano, 2021

Mais ou menos nessa época a Rosa tinha voltado pro Brasil. Ela tinha se cansado do frio da Inglaterra e da distancia da família – principalmente dos netos. Nós continuamos a amizade por meio de longas conversas no WhatsApp. A gente conversava sobre tudo, como sempre, mas alguns assuntos eram pauta toda vez: a situação política do Brasil, a preservação do arquivo dela e, mais recentemente, o legado do trabalho dela, que estava também sendo reconhecido por instituições nos EUA. Durante uma dessas conversas, ela me contou que faria uma exposição comemorando os 50 anos de carreira no Museu da Cidade de São Paulo. Ela pediu meu currículo. E de repente eu era parte integrante de uma nova etapa da revisão do arquivo da Rosa. Eu me lembro de ter pensado, que sortuda que eu sou, poder trabalhar com o que eu gosto e com quem eu gosto.

Um ano atrás, em julho de 2025, eu passei um mês no Brasil trabalhando na exposição junto com a Rosa. Dentro desse mês, por uma semana eu fiquei na casa dela, convivendo e olhando de perto o seu arquivo. Ela ia abrindo gavetas, portfólios e HDs e tirando cromos, negativos, tiragens novas e vintage, e fotos escaneadas e já feitas em digital. Nós passamos os dias fazendo isso, mas também tomando café, caminhando no mato, fazendo crochê e vendo filme de noite, cozinhando e comendo juntas. Mas, acima de tudo, eu passei esse tempo ouvindo. Eu me tornei um grande ouvido – eu ouvi, gravei, anotei tantas histórias quanto ela tinha pra contar. E ela queria falar, e não faltavam assuntos. Cada foto, cada livro, cada sentada na mesa de jantar pra tomar um café quentinho, abria uma nova gaveta de lembranças da juventude, memórias profissionais, planos e possibilidades de futuros projetos.

Revistas Ícaro com capas de Rosa Gauditano, no arquivo da fotógrafa. Foto Erika Zerwes, 2025.

Muitas das histórias que ela contou são recortes de acontecimentos-chave da história recente do Brasil. O encontro de Altamira, a marcha com os indígenas durante as celebrações dos 500 anos, a praça da Sé tomada por tantos e diferentes protestos, a visita à família de Chico Mendes. Por vezes, essas histórias se misturavam também com as histórias pessoais da vida dela. Em especial histórias sobre a violência da ditadura – tão visível nas fotos da polícia reprimindo manifestação na praça da Sé ou usando o ‘brucutu’ para ir pra cima dos participantes de uma marcha de Primeiro de Maio – se misturavam na mesa do café com histórias sobre a violência na maioria das vezes simbólica que Rosa vivenciava na mesma época em casa. Vinham então as histórias da juventude, quando o pai tradicionalista não aceitava que ela saísse de casa quando ela queria, e que tivesse namorados. Contrastando com a mãe independente, que trabalhava fora e comprou para ela a primeira câmera, o pai também não aceitava que ela se tornasse fotógrafa. Brigava com ela porque ela voltava tarde para casa depois de passar o dia estudando e trabalhando na Enfoco – importante escola de fotografia do período. Então a luta pelas liberdades civis que os movimentos sociais estavam travando naquele momento ressonava com a busca de liberdade pessoal que ela viveu na própria pele. A busca de liberdade e reconhecimento das minorias que ela fotografou, em especial a das mulheres naquele momento, era a busca pessoal dela também.

Rosa Gauditano – Uso do ‘brucutu’ na repressão à manifestação de Primeiro de Maio em São Bernardo do Campo, 1980.

Durante uma conversa sobre a série que Rosa fez no início da década de 1980 sobre São Paulo vista a partir da dicotomia entre ‘gigante e intimista’, começamos a ver fotos, hoje bastante conhecidas, de crianças de rua brincando na fonte da praça da Sé. Eu comentei, meio sem pensar, que elas pareciam muito mais alegres e livres do que as crianças de classe média que ela fotografou para o mesmo projeto, moradoras de apartamentos com grades nas janelas e brincando em espaços apertados, como garagens de concreto. Ela ficou séria, me olhou nos olhos, e disse: é, mas os meninos da Sé iam depois dormir juntinhos em cima da ventilação do metrô, pra não passarem frio… E ela completou baixinho, pra ela mesma: uma tragédia. Essa conversa ficou na minha cabeça. Uns dias depois, quando chegamos nas fotos dos indígenas Guarani-Kaiová – uma das etnias que mais sofrem violência atualmente e cujo extermínio ela acompanhou de perto, porque só fica em casa quem está doente – ela me disse que estava com medo da exposição ficar muito pesada, triste. Olhando as fotos, para mim nada parecia mais longe disso.

Eu demorei um momento pra ligar as duas coisas. Mas daí entendi que eu estava ali diante de dois arquivos, que eram parecidos mas não o mesmo. Eu estava mergulhando no arquivo de imagens, cheio de importância histórica, de registros precisos. Testemunha da confiança, interação e do diálogo entre fotógrafa e fotografado. Que invariavelmente mostra a dignidade do fotografado. Mas eu estava também mergulhando em um segundo arquivo, o das histórias daquilo que circundava o instante da foto. O que veio antes e o que veio depois. A vida, a realidade, a luta de cada pessoa por trás de cada retrato. Esse arquivo estava localizado na memória da Rosa e ela estava generosamente compartilhando comigo naquele momento. E a interação entre os dois arquivos era o que causava a discrepância entre a visão dela sobre a exposição e a minha. Eu via os meninos de rua sorridentes, reclamando as ruas da cidade pra brincadeira alegre e posando como super-heróis pra câmera dela. Ela os via passando frio sem ter onde dormir à noite. Eu via os Guarani-Kaiová olhando direto pra câmera, assumindo o entorno de pobreza com a cabeça erguida e mantendo as tradições com o que estava disponível para eles. Ela via o ‘genocídio silencioso’ (nas palavras dela) e a violência dos donos de terras mato-grossenses. Eu então entendi que parte do meu trabalho ali era também conectar esses dois arquivos.


Rosa Gauditano – Crianças brincando nos corredores do edifício Copan, em São Paulo, 1984

Rosa Gauditano – Meninos de rua no chafariz da Praça da Sé, em São Paulo, 1984

Rosa Gauditano – Criança Guarani-Kaiová ‘tira uma foto’ da fotógrafa. Mato Grosso do Sul, 2012

Depois dessa semana juntas nós ainda tivemos uma reunião. No dia seguinte, eu peguei o avião de volta pra Londres. Um pouco mais tarde, nesse mesmo dia, Rosa faleceu repentinamente.

No meio da dor da perda, é também doloroso pensar que um desses arquivos se foi. Me dá um grande senso de responsabilidade com o que me foi compartilhado ali na mesa do café. Felizmente, o arquivo de fotos, tão bem organizado por ela em vida, junto com as publicações, clippings, tiragens e efemérides, permanece e agora está sendo cuidado, no sentido físico e também emocional, pela filha dela, a Camila. É comum dizer que uma pessoa cheia de vida não desaparece completamente. Os arquivos da Rosa, embora não mais completos, com certeza vão poder manter o olhar dela vivo por muito mais tempo – e, se depender de nós, contando mais histórias. ///

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Agradecimento especial à Camila Gauditano pela autorização de uso das fotografias

Estética sapatão – por Rosa Gauditano & Milly Lacombe
Rosa Gauditano e as lésbicas do Ferro’s bar e da boate Dinossauros – por Luana Navarro & Rosa Gauditano



Erika Zerwes é doutora em História pela UNICAMP. Especializada em história da fotografia, é autora do livro Tempo de Guerra. Cultura visual e cultura política nas fotografias dos fundadores da agência Magnum e co-autora de Mulheres Fotógrafas/Mulheres Fotografadas. Fotografia e gênero na América Latina e Cultura Visual, Imagens na Modernidade, finalista do prêmio Jabuti. Atualmente é fellow no Käte Hamburger Kolleg global dis:connect, da LMU Munique.


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