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Espionado por Mendonça em 2020, professor vê “natureza golpista” em atuação de ministro

“Escândalo de natureza golpista” é como o antropólogo, cientista político, escritor e ex-secretário Nacional de Segurança Pública Luiz Eduardo Soares traduz o momento de crise institucional no Supremo Tribunal Federal (STF). A Corte monopoliza as atenções da opinião pública desde que o ministro André Mendonça retirou, no dia 1° de setembro, o sigilo do relatório da Polícia Federal (PF) com mensagens trocadas entre o ex-banqueiro do Master, Daniel Vorcaro, e o ministro Alexandre de Moraes. Na avaliação de Soares, que ocupou o cargo no Ministério da Justiça  no primeiro mandato de Lula como presidente, Mendonça está usando suas prerrogativas para interferir no pleito eleitoral. 

“O timing de cada vazamento selecionado, de cada suspensão de sigilo, promovendo a disseminação de indícios que se convertem imediatamente em condenações, afetam e inclinam a opinião pública. O problema não é cada decisão em si mesma, mas o timing preciso de sua divulgação, produzindo uma narrativa com potencial explosivo, politicamente. Trata-se da instrumentalização institucional com propósito criminoso de incidir na dinâmica política numa conjuntura que se aproxima do momento do voto, momento que não é fugaz, que gera efeitos irreversíveis”, explica Soares.

Professor aposentado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Soares foi alvo da gestão de André Mendonça no Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje preso por tentativa de golpe de Estado. Em 2020, ele foi um dos três professores universitários alvos de dossiês produzidos pela antiga Secretaria de Operações Integradas (Seopi) do MJSP, à época chefiada por Mendonça, como revelado pelo jornalista Rubens Valente no portal UOL.

Além de três docentes, o documento listou mais de 570 servidores federais e estaduais que foram monitorados pela pasta. Todos os nomes eram críticos ao governo de Jair Bolsonaro e foram identificados como integrantes do movimento político antifascista. 

“As semanas que se seguiram [após a divulgação do dossiê na imprensa] foram angustiantes, porque começaram a pipocar nas redes sociais agressões e ameaças com linguagem fascista. Era impossível saber se as fontes das hostilidades estavam situadas no governo federal ou eram robôs, simulando participação espontânea de militantes bolsonaristas”, relembra Soares. 

A Agência Pública teve acesso a um dos relatórios produzidos pelo Ministério da Justiça, na época, contra o movimento Policiais Antifascismo. O grupo divulgou em 2016 um manifesto de repúdio ao impeachment contra a ex-presidenta Dilma Rousseff e em 2020 manifestaram apoio aos movimentos antifascistas contra o  então presidente da República, Jair Bolsonaro. 

Por que isso importa?

  • Os dossiês criados na gestão de André Mendonça no Ministério da Justiça e Segurança Pública durante o governo de Jair Bolsonaro foram considerados inconstitucionais pelo STF em 2022.
  • A relatora do processo, ministra Cármen Lúcia chegou a equipar a produção do dossiê às atividades realizadas durante a ditadura militar brasileira.

O relatório, que contém fotos e a identificação de nomes de líderes do grupo, afirma que “o ANTIFA representa grupos que internacionalmente lutam contra o fascismo e o autoritarismo. A ação Antifascista Brasil, ou Antifas, é um movimento descentralizado, de ideologia esquerda, abarcando ideais do comunismo, anarquismo e sindicalismo, que tem como reivindicações autodeclaradas o combate ao racismo, fascismo, autoritarismo, machismo, homofobia e violência policial. Se declaram defensores das liberdades democráticas e direitos das minorias”. 

Em seguida, são apresentadas diversas manifestações com participação do grupo. “Diante dos acontecimentos expostos cronologicamente, podendo, nesta breve análise, não ter sido referenciado algum outro evento, frisa-se que esta pasta vem acompanhando, desde o dia 24ABR2020, o movimento denominado Policiais Antifascistas que envolve ao menos 17 (dezessete) estados, em que policiais ou agentes públicos ligados à segurança pública posicionam-se em favor desta causa através de redes sociais como Facebook, Instagram, Twitter e YouTube”, afirma o relatório. 

Identificado e monitorado no dossiê, Abdael Ambruster, policial e diretor do Sindicato dos Policiais Penais de São Paulo (Sinppenal), e integrantes do movimento Policiais Antifascistas protocolaram uma notícia-crime contra André Mendonça por perseguição, segregação e discriminação. O diretor do Sinppenal e cerca de 100 policiais abriram, também, um processo civil contra a União. 

“Fomos perseguidos de uma maneira inimaginável. Todos que foram espionados nesse processo tiveram promoções [de cargo] que não saíram, transferência por ofício, depressão”, afirmou Ambustrer à Pública.

Luiz Eduardo Soares relata que só teve acesso ao dossiê no ano passado e o descreve como “uma farsa”. “Somente no ano passado tivemos finalmente acesso ao tal dossiê, que é uma farsa, uma verdadeira vergonha, a desmoralização do serviço de arapongagem do bolsonarismo: não disse nada que não fosse público”, declara. O professor relata que assim que soube do relatório tentou acesso via Lei de Acesso à Informação (LAI) e junto ao STF. 

O cientista político e antropólogo Luiz Eduardo Soares
O cientista político e antropólogo Luiz Eduardo Soares

Dossié é declarado ilegal pelo STF 

Após a divulgação pela imprensa, uma investigação sobre o dossiê foi parar no STF. Na ocasião, a Corte determinou uma medida cautelar para suspender qualquer ato do Ministério da Justiça que tivesse por objetivo produzir ou compartilhar informações sobre a vida pessoal e as escolhas políticas de servidores identificados como membros do movimento político antifascista. A decisão também incluiu nessa suspensão os professores universitários e quaisquer pessoas que exerçam seus direitos políticos de se expressar, se reunir e se associar. 

Já em 2022, o Supremo declarou inconstitucional o ato do Ministério, com o ministro André Mendonça declarando-se suspeito para julgar o caso. Seguindo o voto da relatora, ministra Cármen Lúcia, o plenário do STF decidiu que a fabricação de dossiês com dados pessoais de servidores públicos por seu posicionamento político-ideológico era “ilegal”, equiparando a prática a violações de direitos humanos e a métodos da ditadura militar. A decisão teve divergência apenas do ministro Nunes Marques que, assim como Mendonça, foi indicado pelo ex-presidente Bolsonaro. 

“Ficou evidente a preparação de um golpe, e que a erosão das instituições democráticas já estava em marcha, corrompendo por dentro os limites e as normas, manipulando mecanismos. Uma ocupação lenta e gradual, visando o domínio paralegal do Estado e a construção de uma hegemonia fascista ou neointegralista. E era óbvio que as polícias, assim como as Forças Armadas, constituíam campos privilegiados para o grupo no poder”, afirma Soares, ao analisar o contexto em que os dossiês sobre movimentos antifascistas foram criados. 

O papel de Mendonça na crise do STF

Seis anos após a revelação do dossiê, o ministro André Mendonça volta a ser personagem de uma trama que envolve a Corte, a PF e o próprio governo federal. A crise começa quando Mendonça retira o sigilo do relatório que envolvia  o ministro Alexandre de Moraes. Depois disso, os brasileiros assistiram, perplexos, uma sequência de decisões monocráticas que chegou ao extremo na última quinta-feira, 9 de setembro, com três decisões proferidas em 32 horas

Ministro André Mendonça durante sessão no STF, ao fundo o ministro Alexandre de Moraes
Decisões recentes de Mendonça sobre o caso Master geraram críticas sobre possível interferência no processo eleitoral

Após a divulgação do relatório da PF, Alexandre de Moraes pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, a inclusão de Mendonça no inquérito das Fake News. A decisão foi baseada em relatórios de inteligência fornecidos pela PF, que apresentavam a percepção dos agentes.  Nestes documentos, a corporação aponta que houve desequilíbrio na condução de André Mendonça no caso Master contra políticos, com indícios de “enviesamento”.

Entre as possíveis situações em que Mendonça teria direcionado o avanço das investigações estão os inquéritos envolvendo, por exemplo, o senador Jaques Wagner (PT-BA), então líder do governo Lula no Senado. Mendonça levou apenas nove dias para avaliá-lo. Já na determinação de busca e apreensão envolvendo o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) e o senador Ciro Nogueira (PP), políticos alinhados ao bolsonarismo, o tempo foi mais longo, de 75 e de 29 dias, respectivamente. 

Em resposta à decisão de Moraes, Mendonça determinou na terça-feira, dia 8 de setembro, o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. O ministro alegou que ele poderia interferir nas investigações em andamento, caso permanecesse no cargo. Argumentou, ainda, que foi monitorado ilegalmente pela corporação. Porém, na quarta-feira, 9, o presidente do STF. Edson Fachin, derrubou a decisão de Mendonça, restituindo Rodrigues ao cargo de diretor-geral até que o plenário delibere sobre a validade – ou não – da liminar de André Mendonça. 

Vale lembrar que Mendonça só alçou ao antigo posto de ministro da Justiça após uma crise que envolveu também a direção da PF. À época, o magistrado substituiu o então ministro Sérgio Moro, que deixou o cargo acusando o governo de Jair Bolsonaro de interferir na própria condução da corporação. 

Para o professor Luiz Eduardo Soares, no entanto, os ataques e visões diferentes dos ministros do STF são menos importantes do que a tentativa de interferir politicamente nas eleições de outubro. 

“As questões realmente graves não são minudências da hermenêutica jurídica ou conflitos entre ministros. Essa é a dramaturgia que devora nossa atenção cotidiana: personagens e suas disputas. O que verdadeiramente importa é que um ministro do STF resolveu agir para impactar o processo eleitoral por meio da sensibilização da opinião pública, trabalhada intensamente pela mídia corporativa, e a imensa constelação de redes sociais que as bigtechs manobram”, avalia Soares. 

Leia o relato de Luiz Eduardo Soares sobre o monitoramento ocorrido em 2020

Na sexta-feira, dia 24 de julho de 2020, o jornalista Rubens Valente publicou em sua coluna no UOL uma reportagem corajosa: “Ação sigilosa do governo mira professores e policiais antifascistas”. Recebi inúmeras mensagens de amigos informando que meu nome estava na lista. 

Mais ou menos na mesma hora, minha enteada recebeu uma mensagem por WhatsApp: “Oi filha, tudo bem? Tá ocupada?” O tom era estranho, o nome ao lado da foto da sua mãe tinha um erro de digitação e o número do telefone era diferente. Minha enteada fotografou a tela e tentou ligar, mas o contato desapareceu da lista de conversas. Quase ao mesmo tempo, em outro estado, o celular de um dos outros três “formadores de opinião” citados no tal relatório do Ministério da Justiça foi clonado. 

Na segunda-feira seguinte, 27 de julho, antes das oito da manhã, minha esposa recebeu um telefonema alarmante. Todos os seus dados pessoais, logins e senhas, bem como os meus, haviam saltado na tela de abertura do laptop de uma colega, que ficou tão perplexa e assustada quanto nós. Não me pergunte como isso foi possível. Não sei, mas aconteceu. 

Toda a minha família trocou suas contas e senhas, imediatamente. Na sequência, entrei em contato com outras pessoas cujos nomes também estavam na lista e discutimos o que fazer. A decisão foi denunciar pela mídia e buscar amparo legal. Além de denunciar, colegas do Movimento Policiais Antifascismo acharam melhor reagir em conjunto, constituindo defesa própria. 

Eu e dois amigos não-policiais obtivemos o generoso suporte pro-bono do grupo de advogadas da Rede Liberdade, Dalisa Aniceto e suas parceiras. As semanas que se seguiram foram angustiantes, porque começaram a pipocar nas redes sociais agressões e ameaças com linguagem fascista. Era impossível saber se as fontes das hostilidades estavam situadas no governo federal ou eram robôs, simulando participação espontânea de militantes bolsonaristas. 

Recebemos também muitas manifestações de solidariedade, do Brasil e do exterior. Felizmente, em 20 de agosto, o STF considerou ilegal o dossiê e suspendeu a produção de relatórios do governo contra opositores. 

Como Mário Frias chegou ao centro da máquina de propaganda da família Bolsonaro

Duas armas de cano longo e cinco pistolas de fabricantes variados, inclusive internacionais, como Glock, Sig Sauer e FXR. Esse pequeno arsenal foi apreendido pela Polícia Federal (PF) nesta quinta-feira, 10 de setembro, em nome do deputado Mário Frias (PL). Segundo a corporação, as armas não estavam no endereço registrado, o que configuraria crime de porte ilegal de armas de fogo.

Embora o arsenal irregular não tenha sido o que motivou a ida da polícia atrás de Frias — o mandado de busca e apreensão mira o que seria uma organização criminosa que usaria dinheiro de emendas parlamentares para alimentar a produtora do filme de Jair Bolsonaro, o Dark Horse —, são as armas que explicam como o deputado se aliou ao bolsonarismo e ganhou poder político.

Ex-galã da Malhação, Frias tem um currículo “artístico” antes de chegar à política: passou pela Globo, Record e RedeTV antes de ingressar no Governo Federal. A estreia na política formal aconteceu em maio de 2020, quando a também colega atriz Regina Duarte foi demitida do cargo de Secretária Especial de Cultura após uma passagem rápida e problemática, que incluiu uma entrevista que minimizou a ditadura militar brasileira.

A saída de Duarte levou Frias a assumir a Secretaria, onde pôde unir dois mundos que interessam a ele e ao bolsonarismo: armas e cultura.

Armas de cano longo e cinco pistolas apreendidas hoje durante operação da Polícia Federal
Armas de cano longo e cinco pistolas apreendidas hoje durante operação da Polícia Federal

O plano para a cultura de 2020 a 2022: dinheiro para grupos armamentistas

Em 2022, a Agência Pública revelou como Frias, ao lado do então secretário nacional de Incentivo e Fomento à Cultura, André Porciuncula, prometeram R$ 1 bilhão da Lei Rouanet para conteúdo pró-armas.

“Pela primeira vez, vamos colocar dinheiro da Rouanet em eventos de armas de fogo, vai ser super bacana isso”, disse Porciuncula. A estratégia era convocar grupos armamentistas a submeterem projetos que usassem a isenção de impostos da Rouanet para conseguirem aprovar projetos elogiosos à cultura do uso de armas no Brasil. Uma pauta, no mínimo, contraditória, visto que a Rouanet é historicamente criticada por bolsonaristas e já foi chamada de “desgraça” por Jair Bolsonaro.

“Estou à disposição, qualquer dúvida, enquanto estiver na secretaria — que eu devo sair agora esta semana para concorrer —, mas nós vamos deixar uma equipe totalmente alinhada ao secretário especial de cultura. Qualquer dúvida estamos de portas abertas, o Mario é CAC, nós adoramos atirar. Essa pauta é importantíssima, uma pauta de liberdade e eu peço senhores, usem (a Lei Rouanet) e não deixem de usar”, frisou Frias.

A promessa foi feita durante a Convenção Nacional Pró-armas, realizada pelo grupo presidido pelo hoje deputado Marcos Pollon (PL-MS) — que hoje aparece novamente ao lado de Frias, justamente no escândalo do Dark Horse. Pollon é um dos deputados suspeitos de enviar emendas para o filme de Jair. Segundo a PF, Pollon enviou R$ 1 milhão à Academia Nacional de Cultura (ANC), entidade presidida por Karina Ferreira da Gama, produtora do longa-metragem. Foi também durante a gestão de Frias na Secretaria que ele teria conhecido Karina Gama, segundo apurou a Folha de S. Paulo.

A promessa de Frias gerou ao menos um resultado. A Pública mostrou com exclusividade que, em novembro de 2025, foi lançado um livro sobre a história das armas no Brasil com recursos captados via Lei Rouanet. Todo o dinheiro para bancar o livro veio da Taurus, a maior fábrica de armas do Brasil e a maior fabricante de revólveres do mundo, que patrocinou R$ 336 mil e doou outros R$ 85 mil para o livro. A fabricante pode abater impostos a partir dessa produção.

Após a Secretaria de Cultura de Bolsonaro, Frias foi para o Congresso. Catapultado pela visibilidade que alcançou no governo de Bolsonaro e por mais de R$ 1,4 milhão da direção nacional do PL, ele se elegeu em 2022 deputado federal por São Paulo.

Mário Frias durante a Convenção Nacional Pró-Armas, realizada em 28 de março de 2022, quando ainda era secretário da Cultura do governo Jair Bolsonaro.
Mário Frias durante a Convenção Nacional Pró-Armas, realizada em 28 de março de 2022, quando ainda era secretário da Cultura do governo Jair Bolsonaro

A atuação como deputado de 2023 a 2026: produção e dinheiro para filme de Bolsonaro

É durante o mandato de deputado federal que Frias se envolve no escândalo atual: os pedidos de dinheiro para o filme autobiográfico de Jair Bolsonaro e o envio de emendas parlamentares — isto é, dinheiro público — para o Instituto Conhecer Brasil, o ICB, da mesma Karina Gama, produtora do filme. Segundo a PF, foram duas emendas de Frias no valor de R$ 2 milhões. Além de Frias e Pollon, os negócios de Karina teriam recebido também emendas de Bia Kicis, no valor de R$ 150 mil.

A investigação também aponta um círculo de favores: o dinheiro das emendas sai dos cofres públicos, por meio de Frias, para o ICB de Karina; do outro lado, pessoas ligadas a outras empresas de Karina doam para a campanha de Frias em 2022.

A Pública mostrou como Karina tem acesso a gabinetes de ministérios e prefeituras e comanda empreendimentos que prometem uma revolução no empreendedorismo cristão. Dentre os principais apoiadores, está o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), que abriu portas para Karina em ao menos três ocasiões, para os muitos negócios da empresária — o ICB, a ANC e o grupo lobista GT Cristão. O ICB tem um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de Nunes para a instalação de wi-fi na periferia de São Paulo.

Frias também é próximo do marido de Karine, Wemerson Marinho dos Santos. Os dois participaram de reuniões com Frias enquanto ele era secretário da Cultura de Bolsonaro. 

Além do envolvimento financeiro, Frias é o principal idealizador do filme sobre Jair. O embrião já estava na sua gestão na Secretaria de Cultura quando apoiou a criação de heróis nacionais alinhados à pauta bolsonarista para disputar os corações dos jovens — uma ideia que dialoga com o ex-mentor dos Bolsonaro, o falecido Olavo de Carvalho. “Se a gente acredita em armas, a gente precisa criar os heróis. A gente precisa entender que as narrativas, principalmente pra população mais jovem, não são a partir de estatística, coronel, não são a partir de números que a gente vai convencer essa garotada de que nós queremos um Brasil melhor, e sim a partir da cultura”, disse à época.

Como a Pública mostrou com exclusividade, o argumento inicial do filme — e um dos principais — era atacar a imprensa e associá-la a uma suposta conspiração para matar Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018. O texto criava a figura de uma jornalista com passado comunista, Iara, que representaria o antagonismo da imprensa contra Jair, e que se envolvia numa teoria da conspiração com Adélio Bispo, autor das facadas contra o ex-presidente em 2018.

A Pública também mostrou que Frias se ausentou da Câmara dos Deputados, dizendo que faria uma viagem em missão oficial para “participar de debates sobre implantação de escolas cívico-militares”. No mesmo período, foram realizadas gravações do filme.

Mario Frias (ao centro) no set de Dark Horse
Mario Frias (ao centro) no set de Dark Horse

Os escândalos de 2026: o envolvimento não explicado dos filhos de Jair

Todo o escândalo envolvendo o Dark Horse envolve não apenas Frias, mas também ambos os filhos de Jair Bolsonaro.

Flávio, candidato à presidência, apareceu em áudio, revelado pelo Intercept, pedindo R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para bancar a produção do filme. “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”, disse em mensagem. Inicialmente, ele negou o envolvimento, dizendo “É mentira”. Depois, admitiu, negando qualquer ilegalidade. A apuração mostrou que Vorcaro teria pago R$ 61 milhões entre fevereiro e maio de 2025. Depois, a revista piauí mostrou que os pagamentos foram ainda maiores, com mais R$ 8,2 milhões, e aconteceram após o período que Flávio havia admitido.

Áudio obtido pelo Intercept mostrou Frias agradecendo a Vorcaro pelo apoio ao filme Dark Horse.

Já a ligação com Eduardo aparece em um rascunho de contrato com uma empresa com braços na Hungria e na Holanda, a Freeway Cam B.V., que moveria fundos para o filme, como revelou a Pública. Ele e Karina procuraram a empresa, e Eduardo assumiu o compromisso de financiar a produção mesmo com o risco do filme não sair.

Ele também aparece no escândalo através do fundo Havengate, sediado nos EUA, onde o ex-deputado vive com muitas mordomias. O advogado de imigração Paulo Calixto, próximo de Eduardo, é quem administra o fundo. Ele teria recebido cerca de R$ 69 milhões através do doleiro Antonio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”, também para o filme de Jair.

Mário Frias no ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista, convocado e liderado por Flávio Bolsonaro.
Mário Frias no ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista, convocado e liderado por Flávio Bolsonaro

A operação de hoje: as acusações contra Frias

A operação desta quinta, 10 de setembro, leva o nome de Make Up, expressão do inglês que remete a algo fabricado e também faz alusão à Go Up, empresa que produz o filme de Jair. Autorizada pelo ministro Flávio Dino — que é relator das investigações envolvendo o desvio de emendas para a produção do filme no STF (Pet 16669) —, a operação acontece em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal.

Assim como Frias, Karina também é um dos alvos. São investigados os crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios.

A polícia, utilizando informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), aponta envios de Frias no valor de R$ 645,4 mil à Go Up em um período de menos de 60 dias, que seriam incompatíveis com o rendimento do deputado, de cerca de R$ 44 mil mensais. O deputado está impossibilitado de deixar o país por ordem de Dino, mas ainda não há ordens de prisão.

Ao todo, o relatório aponta que a produtora movimentou R$ 19 milhões entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025. O período de gravação do filme Dark Horse seria praticamente o mesmo, de 20 de outubro a 7 de dezembro de 2025.

As investigações são um desdobramento da ação Compliance Zero, que investiga os desvios no Banco Master e levou à prisão de Vorcaro em 2025. No STF, o ministro André Mendonça é o relator das investigações sobre as fraudes envolvendo o banco. É esse o inquérito que gerou o relatório envolvendo o também ministro Alexandre de Moraes, divulgado na semana passada, e que deu início à crise atual envolvendo o STF. Dino, que é relator do inquérito sobre irregularidades no orçamento de emendas do Congresso, conduz investigações envolvendo a produção do filme Dark Horse por envolverem emendas parlamentares.

Com despesas pagas pelos EUA, ida de procurador a evento sobre Irã é cancelada pela PGR

A Procuradoria-Geral da República (PGR) revogou a portaria que autorizava o procurador Lucas de Morais Gualtieri, especialista em combate ao terrorismo, a participar da oficina “Combate ao Irã e seus Representantes nas Américas”, marcada para os dias 16 e 17 de setembro, em Assunção, no Paraguai. O evento é organizado e financiado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, que arcaria integralmente com as despesas do procurador.

Um procurador da República só pode se ausentar do país a trabalho com autorização da PGR. A ida de Gualtieri havia sido autorizada por portaria publicada no Diário Oficial da União (DOU) em 31 de agosto, assinada pelo vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateaubriand Pereira Diniz Filho. Em 2 de setembro, o mesmo vice-PGR revogou o ato.

Até o momento, o MPF não divulgou o cancelamento à imprensa. A Agência Pública questionou a PGR sobre o workshop, a viagem, o financiamento do evento pelo governo americano e se a situação configuraria uma violação da soberania nacional. As perguntas não foram respondidas: a PGR informou apenas o cancelamento da portaria e da ida do procurador a Assunção, mas não explicou o motivo do cancelamento.

A Pública também tentou contato com o procurador Lucas de Morais Gualtieri e a assessoria de comunicação da Procuradoria da República em Minas Gerais, onde ele é lotado, disse que só a Secretaria de Comunicação da PGR estava tratando do caso. 

Procurador Lucas de Morais Gualtieri, especialista em combate ao terrorismo
Procurador Lucas de Morais Gualtieri, especialista em combate ao terrorismo

Seria a segunda viagem de Gualtieri ao Paraguai neste ano. Em março, o membro do MPF esteve em Assunção para ministrar uma aula no seminário “Desarticulação de Esquemas Financeiros Criminais e Terroristas”, realizado pela American Bar Association, órgão que tem papel equivalente ao da OAB nos EUA. 

O Paraguai, sob o presidente Santiago Peña, alinha-se aos EUA em relação ao Irã: anunciou proteção especial a órgãos dos governos americano e israelense e reforço da segurança na tríplice fronteira. O Brasil criticou os ataques dos EUA e de Israel ao Irã e manifestou preocupação com a escalada militar no Golfo Pérsico.

A tensão entre os EUA e o Brasil vem se acumulando desde 2025. Em maio, o Departamento de Estado designou o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas globais, uma medida que o Palácio do Planalto afirmou afetar a soberania nacional e o próprio combate ao crime organizado, além de manter tarifas sobre produtos brasileiros e indicar um embaixador em Brasília sem a anuência do governo brasileiro.  

Procurador falaria sobre a Operação Trapiche 

No workshop cuja participação de Gualtieri foi agora cancelada pela PGR, o procurador falaria sobre a Operação Trapiche, de novembro de 2023, na qual duas pessoas apontadas como ligadas ao Hezbollah foram presas sob a acusação de planejar ataques a prédios ligados à comunidade judaica no Brasil. Segundo a Polícia Federal, o recrutamento seria realizado por Mohamad Khir Abdulmajid, foragido. Um dos presos, Lucas Passos Lima, foi condenado em primeira instância a mais de 16 anos por terrorismo; o Tribunal Regional Federal da 6ª Região reduziu a pena ao entender que a motivação era financeira, e não ideológica. O caso segue tramitando no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

A oficina do Departamento de Estado no Paraguai discutirá técnicas de cooperação internacional e de enfrentamento ao financiamento do terrorismo, tema de interesse acadêmico de Gualtieri, que cursa mestrado em relações internacionais na PUC-MG, com foco em Estratégia, Inteligência e Contraterrorismo. O programa completo do evento não está disponível na internet.

O Hezbollah, criado em 1982, é classificado pelo Departamento de Estado como organização terrorista financiada pelo Irã e atua no Líbano também como partido político. Desde outubro de 2023, o grupo realizou ataques ao norte de Israel, que respondeu com ofensivas e com a ocupação de parte do sul libanês. 

O Brasil não possui uma lista oficial de organizações terroristas. A lei antiterrorismo brasileira exige comprovação de motivação ideológica para classificar crimes como atos de terrorismo. Projeto de lei de 2021 do deputado Paulo Bilynskyj (PL) prevê a adoção de uma extensa lista que inclui o Hezbollah. Em 2024, o projeto foi aprovado na Comissão de Segurança Pública, mas não houve andamentos significativos depois. 

A Pública também procurou o Itamaraty, que alegou que apenas o MPF e os organizadores do evento deveriam se manifestar.

A relação entre o MPF e agências americanas voltou ao debate público após a Lava Jato. A série “Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato”, produzida pela Pública em parceria com o Audible, mostrou que autoridades dos EUA fizeram visitas frequentes a procuradores brasileiros durante a operação, em contatos mantidos fora dos canais oficiais e sem comunicação com a PGR.

Ministério Público Eleitoral impugna 15 candidatos em SP ligados a crimes, dois ao PCC

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Ligações com o PCC, assalto, tráfico de drogas, incêndio, estelionato, uso de documento falso, sumiço de documentos públicos, sonegação de contribuição previdenciária, denunciação caluniosa, violação de medida protetiva da Lei Maria da Penha, coação no curso do processo, crime eleitoral… A lista é longa.

Estes são alguns dos crimes que fazem parte da vida pregressa de 15 dos 18 candidatos a deputados federal e estadual que tiveram as candidaturas contestadas com pedidos de inelegibilidade pelo Ministério Público Eleitoral (MPE) em São Paulo. Os outros três também foram condenados, mas em processos cíveis ou administrativos. No total, foram impugnados (contestados) 557 registros de candidaturas pelo MPE paulista, no último mês de agosto. As demais 539 candidaturas impugnadas não envolvem questões de elegibilidade. São contestações mais simples que não envolvem o direito de votar e ser votado.

Desse total, 18 ações podem resultar em inelegibilidade e atingiram partidos de direita, centro e esquerda, atingindo nove candidatos a deputado estadual e nove candidatos a deputado federal. 

Nove das candidaturas questionadas são de partidos de direita e centro-direita que apoiam o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) à reeleição. Dois são dos Republicanos, dois do MDB e com um cada, Podemos, PSD (partido de Ronaldo Caiado, candidato a presidente), PSDB, Novo (que disputa a presidência da República com Romeu Zema) e PP. 

Outras cinco candidaturas são de candidatos de partidos de esquerda que apoiam a reeleição de Lula para presidente, e a eleição de Fernando Haddad para governador de São Paulo: quatro são do PSB e um do PSOL. Além deles, três candidatos são do Mobiliza (não apoia candidatos a cargos majoritários) e um do DC (partido da candidata à presidência da República, Clariana Barão). 

Ligações com o PCC

Dois dos 18 candidatos foram impugnados por ligações com a organização criminosa Primeiro Comando da Capital, o PCC, e o MP Eleitoral está usando pela primeira vez no Tribunal Regional Eleitoral em São Paulo uma nova jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

Os candidatos supostamente vinculados ao “partido do crime” são Ney Santos (Republicanos), ex-prefeito de Embu das Artes, na Grande São Paulo, que tenta uma vaga de deputado federal, e Emerson Rocha (Podemos), que renunciou à candidatura a deputado estadual após ser preso. O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) acusa ambos de serem membros do PCC. 

Ex-vereador em Franco da Rocha (SP), Emerson Rocha
Ex-vereador em Franco da Rocha (SP), Emerson Rocha foi preso no dia 20 de agosto na operação Cátaros por suspeita de lavagem de dinheiro para o PCC

Rocha foi preso preventivamente dia 20 de agosto na Operação Cátaros do MP-SP. Ele é acusado de participar de uma rede de lavagem de dinheiro do PCC que teria o apoio de três vereadores de Cotia, na Grande São Paulo. Cinco dias depois, advogados do Podemos apresentaram a renúncia dele no dia 25 de agosto, e a desistência foi confirmada pela Justiça Eleitoral de São Paulo.

Já a presença de Ney Santos na política é tão longeva quanto seu suposto envolvimento com o PCC. Ele foi eleito e reeleito prefeito de Embu das Artes, ocupando o cargo entre 2017 e 2024, pelo então PRB (atual Republicanos), partido controlado pela Igreja Universal do Reino de Deus.

Porém, em 1999, Ney Santos foi preso sob acusação de assalto a um carro forte, portando uma metralhadora. Depois de passar pelo CDP de Itapecerica da Serra, onde esteve preso entre 2003 e 2006, Santos teria ganhado projeção muito rapidamente dentro do PCC, e passou a lavar dinheiro do crime organizado em uma rede de 15 postos de combustíveis, segundo investigações da Polícia Civil (2010). 

Ney Santos (Republicanos), ex-prefeito de Embu das Artes
Ney Santos teve sua candidatura a deputado federal impugnada pelo MP Eleitoral por uma suposta ligação com o PCC

A investigação da Polícia Civil ocorreu quando Santos tentava uma vaga de deputado federal pelo PSC. Na época, 34 kg de maconha teriam sido apreendidos pela PM com um pedreiro. Em depoimento, o homem disse que a droga seria distribuída em um evento do candidato. Dois anos depois, livre das acusações por uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, Santos candidatou-se e foi eleito vereador em Embu das Artes pelo mesmo partido. 

A lei da Ficha Limpa prevê que são inelegíveis os candidatos que possuem condenação por decisão de segundo grau emitida ao menos oito anos antes da eleição. Ou seja, para concorrer em outubro de 2026 uma pessoa que possua uma condenação em segunda instância pode concorrer desde que a condenação tenha sido cumprida até outubro de 2018. A lei impede a participação de condenados por diversos tipos de crimes e também por improbidade administrativa (um ilícito cível) e para candidatos cujas contas foram rejeitadas por tribunais de contas e depois condenados pelo poder legislativo.  

Por que isso importa?

  • A Lei da Ficha Limpa nasceu de iniciativa popular em 1993 e entrou em vigor em junho de 2010.
  • Nas últimas eleições, em 2024, a lei ajudou a barrar quase 2 mil candidatos que tinham ficha suja, segundo o portal da Câmara dos Deputados.

Teste jurídico em São Paulo

O combate às organizações criminosas nas eleições começou a mudar quando a Procuradoria Regional Eleitoral do Rio de Janeiro testou nas eleições passadas um novo argumento: a lei da Ficha Limpa não protege a sociedade o suficiente em caso de envolvimento do crime organizado. 

Os casos em que esse argumento foi usado chegaram ao TSE que não a aceitou, mas mesmo assim indeferiu todas as candidaturas usando uma arma que ninguém havia pensado antes: a Constituição, mais especificamente o parágrafo 4º do artigo 17, que veda a utilização de organização paramilitar pelos partidos políticos. 

“Segundo o TSE esse artigo tem eficácia plena, portanto, imediata, e não depende de edição de lei regulamentando”, explica o Procurador Regional Eleitoral de São Paulo, Paulo Taubemblatt, procurador regional da República que ocupa a função há seis anos. 

“O TSE construiu a tese de que candidatos ligados a organizações criminosas que fazem uso de armamento, como o PCC e o Comando Vermelho, por exemplo, fazem com que o partido indiretamente estivesse se valendo de organização paramilitar”, afirma Taubemblatt. E essa tese será testada pela primeira vez no Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) no caso de Ney Santos. 

Além da nova jurisprudência, o Procurador Geral da República, Paulo Gonet, que comanda o MP eleitoral, ao lado do Vice-Procurador Geral Eleitoral, Alexandre Espinosa, estabeleceu que o combate ao crime organizado nas eleições deveria ser uma prioridade dos procuradores eleitorais. 

O procurador regional de São Paulo sabe que a batalha jurídica será dura. “O Ney Santos já pode ser considerado um político tradicional, foi prefeito duas vezes. E sim, ele vai insistir. Vai se defender. É um direito dele. E se [o TRE-SP] permitir essa candidatura aqui, certamente eu vou recorrer”, afirma.  

Já a defesa de Santos contestou a impugnação numa petição de 24 páginas e diz que a acusação não passa de “factóides requentados”. 

Além da petição, a defesa juntou ao processo dezenas de documentos, entre eles notícias e estatísticas da Guarda Civil de Embu das Artes durante a administração de Santos na cidade. Segundo os advogados do ex-prefeito, liderados pelo advogado Joel de Matos Pereira, a guarda municipal realizou mais de 900 flagrantes de tráfico de drogas nos 8 anos em que ele esteve à frente da prefeitura. 

O julgamento da legalidade da candidatura de Santos está marcado para hoje (10), a partir das 14h, no TRE de São Paulo.  

Crimes no passado e falta de documentos

Entre as outras 16 candidaturas impugnadas, em 14 delas, os candidatos apresentaram registros criminais no passado, mas a maioria deles não juntou documentos que provassem cabalmente a absolvição ou se passaram oito anos desde a condenação.

Era o caso da única mulher da lista, a advogada Ana Paula Rocha Teixeira, do Novo, condenada por crime eleitoral pelo TRE-MG. Ela provou que a condenação era de 2015 e que, portanto, poderia concorrer desde 2023. O MP concordou com a tese e a Justiça deferiu a candidatura dela. 

Foi o que aconteceu também com Fernando Gurjão Lopes, o Fernando Red Dog (MDB). Preso no passado por estelionato, ele não havia provado o pagamento da pena de multa. Após juntar documentos provando que não devia mais à Justiça, a candidatura foi deferida pela Justiça Eleitoral de São Paulo. 

Mas este não foi o caso de Samuel Pitbull, também do MDB. Preso em 2009 por tráfico de drogas, ele teve a pena confirmada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) e já cumpriu a pena de prisão, mas a pena de multa, confirmada pelo TJ, em 2019, segue em vigor e ele, portanto, inelegível até o ano que vem, na avaliação do MP Eleitoral. A Justiça Eleitoral de São Paulo concordou com a tese do MP e indeferiu, em primeira instância, o registro do candidato.

Há casos como o do ex-prefeito de São Sebastião, Felipe Augusto, do PSDB, impugnado por ter as contas de sua gestão rejeitadas, em 2022, pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, decisão ratificada pela Câmara Municipal da cidade do litoral norte de São Paulo. Felipe Augusto também é réu sob as acusações de desvio de munição da Guarda Municipal da cidade e de recursos da pandemia de Covid-19, mas estes dois casos não podem ser usados para impugná-lo porque ele ainda não foi condenado. 

A defesa do ex-prefeito alegou ao TRE que a condenação de Augusto no TCE é fruto de irregularidades formais e, no máximo, má gestão, mas que não houve prejuízo ao erário de São Sebastião ou enriquecimento ilícito do candidato.

Agentes de Segurança Pública e veteranos também são impugnados

As ações do MP Eleitoral não perdoaram os membros das forças policiais que se aventuraram nas eleições deste ano. O ex-prefeito de Embu Guaçu, André George Neres de Farias, o sargento Neres, candidato a deputado federal pelo PP, teve a candidatura impugnada após ter sido condenado, em segunda instância, por violar medida protetiva da Lei Maria da Penha, em processo que transitou em julgado em setembro de 2024, o que já havia lhe custado o mandato de prefeito em 2025. 

Postulante também a deputado federal, o candidato delegado Adolpho Henrique (PSB), ex-prefeito de Arapeí (SP), não juntou documentos obrigatórios para provar que está apto para disputar as eleições. Ele possui ao menos uma condenação por improbidade administrativa, mas não comprovou ter cumprido com todas as obrigações referentes à pena.

Colega de partido do delegado, o ex-vereador Chamel, de Fernandópolis (SP) renunciou à candidatura para deputado federal. Ele foi enquadrado na lei da Ficha Limpa pelo MP Eleitoral, pois foi condenado em segunda instância, em 2022, pelo crime de coação no curso do processo e ainda não se passaram os oito anos exigidos pela legislação para que possa concorrer. 

Genésio Gente da Gente, que se candidatou a deputado estadual pelo PSOL, foi condenado por estelionato em processo que transitou em julgado em 2022. Em 2024, no fim do ano, Genésio recebeu o indulto de Natal e a pena foi extinta. Pela jurisprudência do TSE, o candidato do PSOL pode até votar, mas não pode se candidatar, o que poderá ocorrer somente em 2030, segundo o entendimento do MP Eleitoral. 

Na lista de candidaturas contestadas, há, inclusive, veteranos como Barros Munhoz (PSD). Aos 81 anos, o ex-prefeito de Itapira por 3 vezes, ex-ministro da Agricultura, ex-secretário estadual e ex-presidente da Alesp, tenta o oitavo mandato de deputado estadual. Acusado do delito cível de improbidade administrativa na Justiça Federal e Estadual, sua candidatura não apresentou até o momento documentos suficientes para demonstrar que ele está elegível. A favor de Munhoz está a idade dele. Por ser maior de 70 anos, o político já foi beneficiado anteriormente pela prescrição de processos em virtude da idade.  

Violência no campo e na cidade estão conectadas

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Nos últimos dois anos, a segurança pública passou a ocupar o topo entre os problemas que mais preocupam os brasileiros. Historicamente, a economia e o desemprego surgiam como os temas que mais afligiam a população. Houve momentos em que a corrupção estava em primeiro lugar e, logo após a pandemia, em 2022, foi a vez da saúde pública ser a questão número um. Mas agora várias pesquisas de opinião pública convergem para a falta de segurança. Seis entre 10 brasileiros dizem se sentirem inseguros, segundo levantamento da Quaest divulgado em novembro de 2025.

Não à toa a segurança pública é um dos temas mais presentes nas eleições deste ano, seja nas disputas estaduais ou nacionais. O candidato à presidência pelo PSD, Ronaldo Caiado, por exemplo, fez desta a principal bandeira de campanha e promete criar um Ministério de Segurança Pública. Outros, entre eles Flávio Bolsonaro, do PL, afirmam que é possível aumentar a população carcerária no Brasil com a construção de presídios de segurança máxima ao estilo de El Salvador.

Propostas como estas buscam claramente conquistar a população dos grandes centros urbanos, onde a preocupação com a falta de segurança é mais aguda. A mesma pesquisa Quaest do ano passado revelou que são nas regiões mais populosas do país, Sudeste e Nordeste, onde se concentra a parcela da população que mais cita a violência como problema principal.

Há, no entanto, a necessidade de se discutir a segurança pública em conexão com o que acontece fora dos grandes centros urbanos. Um dos fenômenos apontados por entidades especializadas, como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, é a consistente interiorização da criminalidade no país. As duas maiores facções — o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e o Comando Vermelho, do Rio de Janeiro, expandiram sua atuação para todo o país e disputam entre elas territórios e o tráfico de drogas.

O reflexo deste crescente domínio pode ser visto na Região Norte, onde em pouco tempo algumas de suas capitais se tornaram, proporcionalmente, algumas das campeãs nas taxas de homicídio. Os últimos dados do Atlas da Violência, produzido pelo IPEA, mostraram que entre as 10 primeiras capitais com mais mortes, quatro estão no Norte. A mais violenta entre elas é Macapá, a terceira no ranking nacional, com 45,6 homicídios por 100 mil habitantes, atrás de Salvador e Maceió. Na lista também estão Manaus, Porto Velho e Belém. Entre os estados, o Amapá é, segundo as cifras de 2024, considerado o mais violento do país.

Crime organizado na Amazônia

Uma das razões para a crescente violência em municípios da Amazônia é a atuação do crime organizado fora do espaço urbano. Os analistas do tema de segurança são unânimes em apontar mudanças no conflito armado na Colômbia como um dos detonadores desta expansão das facções na região Norte. Em 2016, a desmobilização das FARC, guerrilha colombiana que dominou por décadas as rotas de tráfico de cocaína, criou uma disputa entre o PCC e CV por este negócio tão lucrativo.

Uma das rotas que passou a ser valorizada é a calha do rio Solimões. Eu vi isso com meus próprios olhos em uma viagem ao Amazonas em 2017. Durante uma saída com pescadores locais para visitar suas áreas de captura em meio ao igapós e várzeas do grande rio, passou uma lancha a toda velocidade com homens portando fuzis. Eu perguntei aos meus guias se aqueles eram policiais ou se a lancha era do Exército. Nenhum dos dois, me disseram os pescadores. Eram traficantes e transitavam em plena luz do dia sem serem incomodados.

Junto a esta interiorização do crime organizado há uma sofisticação dos mecanismos de lavagem de dinheiro. Por sofisticação entenda-se também diversificação de negócios. Enquanto na famosa operação Carbono Oculto se revelaram operações do PCC em fundos de investimento da Faria Lima (avenida que concentra o mercado financeiro e empresas de tecnologia em São Paulo), nas áreas protegidas e territórios indígenas, as facções passaram a lucrar com a exploração de garimpos ilegais e com a grilagem de terra.

Cito os trabalhos de alguns colegas jornalistas que têm revelado estas conexões entre o crime ambiental e a falta de segurança. O projeto Amazon Underworld, por exemplo, revela as ramificações do crime na Amazônia. Foi fundado pelo criminologista e repórter Bram Ebus, com quem trabalhei há seis anos em uma investigação sobre o tráfico de mercúrio para os garimpos. Ele e sua equipe têm feito um mapeamento da presença do PCC e do CV nos municípios da Amazônia Legal. Os resultados, colhidos de inquéritos policiais e processos na justiça, mostram uma presença na quase totalidade da região.

O mapa abaixo ilustra o domínio do Comando Vermelho na região enquanto podemos ver que o PCC é especialmente forte nas fronteiras. Notem que já em alguns municípios fronteiriços do Peru, a presença do CV foi registrada.

Mas o que significa na prática a presença destas facções na Amazônia? Em uma investigação recente, feita em parceria com a InfoAmazonia e Amazon Underworld, o repórter Bruno Abbud visitou a Terra Indígena Sararé no Mato Grosso. Ali, a Polícia Federal comprovou a existência de um garimpo ilegal de ouro comandado pelo CV. Os relatos ouvidos por Bruno dos indígenas são aterradores. Assemelham-se muito aos de moradores de comunidades dominadas por milícias no Rio de Janeiro. Ou seja, coação com integrantes armados e conquista de partes do território.

Portanto, é justo dizer que não são apenas as populações das grandes cidades que estão amedrontadas. O Brasil sempre foi um campeão de conflitos no campo, como mostra a longa série histórica da Comissão Pastoral da Terra. Muitos destes conflitos também atingem diretamente os povos indígenas. Mas agora alguns indicadores mostram que a violência nas terras indígenas já têm origem na presença do crime organizado. Foi isso o que registrou o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) em seu último relatório em que mostrou que no ano passado houve um aumento de 22% de indígenas assassinados.

É dado que choca considerando os recentes esforços do governo Lula de retomar a demarcação de território indígenas, territórios quilombolas e reservas extrativistas. Revela que mesmo uma política que reverteu o completo abandono promovido nos quatro anos de Bolsonaro não foi suficiente para barrar o aumento da violência em terras protegidas.

Por isso, nestas poucas semanas que restam antes do primeiro turno das eleições, será essencial olhar as políticas de segurança pública não apenas com o viés policial, mas também com ações de combate ao crime ambiental e o crescimento do crime organizado na Amazônia.

Para saber mais:
Ouro, escavadeiras e fuzis: facções e milícias dominam garimpos na Terra Indígena Sararé (por Bruno Abbud)

Quem são os “coaches” de Michelle Bolsonaro

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Michelle Bolsonaro não compareceu aos atos de 7 de Setembro com a justificativa de que precisava cuidar do marido, Jair Bolsonaro.  Mas a ex-primeira dama não ficou fora do clima de “guerra santa” que cercou o palanque do enteado Flávio nas manifestações em São Paulo. No  Instagram, prestou uma homenagem ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), o ícone do 7 de setembro na Paulista, a quem chamou de “ungido” e “escolhido por Deus”. Também reproduziu uma mensagem em conjunto com o bispo Robson Rodovalho, da Igreja Sara Nossa Terra, pedindo oração para que “o Brasil experimente um verdadeiro despertamento espiritual”. 

As mensagens têm um componente simbólico: representam que ela e seus aliados – como o próprio Mendonça, de quem foi fiadora em 2021 – estão no “lado do bem”, o “lado de Deus”, ao contrário de seus adversários. Pastores e especialistas em religião ouvidos pela Agência Pública dizem que a postura pode ter sido influenciada por pessoas de quem ela se cercou: lideranças evangélicas que acreditam que os cristãos devem participar – se não dominar – todas as esferas da sociedade, incluindo o governo, para subordinar o Estado aos valores bíblicos – a chamada teologia do domínio.

A imagem de Michelle migrou de uma primeira-dama tímida e apagada para uma das lideranças políticas mais influentes do país – mesmo disputando seu primeiro cargo eletivo só agora, aos 44 anos, ao Senado. E isso coincide com sua aproximação cada vez maior com esses grupos, que consideram ser dever do cristão ocupar cargos de poder para “libertar” os espaços da influência do diabo. Vale para política, educação, família, religião, mídia, entretenimento e negócios – considerados os “sete montes de influência”. Esse entendimento alcança várias das lideranças evangélicas mais conhecidas do Brasil hoje. Boa parte delas é do círculo pessoal de Michelle, consideradas por ela seus conselheiros espirituais, e que moldaram a sua maneira de ver o mundo.

Ex-primeira dama Michelle Bolsonaro olha para o marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro
De primeira-dama discreta a liderança política: Michelle Bolsonaro se cercou de líderes ligados à teologia do domínio atual

Três episódios ocorridos entre as eleições de 2018 e 2026 ajudam a ilustrar como ela passou a transitar entre esses dois polos – religião e política – e cravar o seu espaço no pólo conservador com apoio dos adeptos mais ferrenhos da teologia do domínio, e que podem ter peso para a candidatura de Flávio Bolsonaro. 

Pouco antes das eleições de 2018, o pastor José Wellington Bezerra, um dos principais líderes da Assembleia de Deus no Brasil, visitou a casa de Bolsonaro, então postulante à Presidência. “De todos os candidatos, o único que fala o idioma do evangélico é Bolsonaro”, ele disse, na época. A frase costuma ser lembrada por incutir uma certa contradição: apesar de receber apoio massivo do público evangélico, Bolsonaro se declara católico. Ainda pouco conhecida do público, Michelle não apareceu nas fotos divulgadas do dia.

Na campanha de 2022, a equipe de Bolsonaro percebeu que ela poderia ser uma peça-chave para acessar mulheres evangélicas, um dos públicos mais reticentes com o bolsonarismo. A partir de agosto daquele ano, ela se tornou quase onipresente nos eventos da campanha. Em longas falas parecidas com sermões de igreja, ela declarava que o marido era um “escolhido de Deus” e que a sua reeleição tinha um “propósito de libertação” da nação. 

Foi o ponto decisivo para a entrada de Michelle na política, galgando espaço para o seu projeto mais ambicioso: o PL Mulher, ala do partido que promove encontros entre mulheres conservadoras – onde se discute política ao mesmo tempo em que se fala de religião, família, cuidado e outros assuntos considerados femininos (não feministas). Sob a batuta de Michelle, o PL Mulher se espalhou por todos os estados como uma versão brasileira dos encontros de mulheres republicanas dos Estados Unidos.

Michelle e Jair Bolsonaro durante evento em Pelotas (RS)
Desde 2022, Michelle Bolsonaro se tornou uma das principais pontes entre o bolsonarismo e o eleitorado evangélico

Dois dias depois do primeiro turno, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já demonstrava vantagem sobre Bolsonaro, o casal Bolsonaro retribuiu a visita de José Wellington na eleição anterior no megatemplo que ele preside, em São Paulo. O pastor pediu abertamente votos para o capitão. Mas, desta vez, Michelle estava no púlpito, e discursou enquanto o marido chorava. A primeira-dama comparou a disputa eleitoral a uma batalha da “luz contra as trevas” e cobrou a igreja a ter uma posição no segundo turno. “A gente precisa se voltar ao Senhor. A igreja precisa se posicionar, a igreja precisa aprender”, disse ela.

Já em 2026, com Bolsonaro em prisão domiciliar, seu filho Flávio foi o escolhido pelo patriarca para disputar a presidência. Com dificuldades para ter o mesmo apoio recebido pelo pai entre os evangélicos, o filho 01 decidiu fazer um tour por várias denominações – e começou justamente pela igreja do pastor José Wellington, que lhe ofereceu a mesma simpatia. “Que o Senhor o leve para ser presidente da nossa nação” disse na ocasião, enquanto ungia o senador. 

Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante encontro com lideranças evangélicas na Assembleia de Deus, Ministério de Belém
Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante encontro com lideranças evangélicas na Assembleia de Deus, Ministério de Belém

Ele não contava, porém, que o estopim de uma das maiores crises de sua pré-campanha viria do núcleo familiar daquele líder religioso. Priscila Costa – deputada federal, sobrinha neta de José Wellington, vice-presidente do PL Mulher e aliada de primeira hora de Michelle – foi preterida por Flávio nas negociações do PL no Ceará.

O episódio foi a gota d’água para que Michelle gravasse um vídeo com críticas diretas ao enteado, divulgado poucas semanas depois do pedido de dinheiro de Flávio para o banqueiro Daniel Vorcaro, do banco Master ter se tornado público. Tanto o áudio da conversa como o vídeo de Michelle impactaram a imagem do candidato, que caiu 10 pontos percentuais entre o eleitorado feminino e oito pontos entre os que se denominam evangélicos, segundo pesquisa AtlasIntel/Bloomberg do final de junho.

Para remediar, Flávio gravou vídeos pedindo desculpas à Michelle e até cogitou indicar Priscila para compor sua vice-presidência – o que não foi concretizado. A ex-primeira-dama respondeu que o perdoava, sem ter abaixado a cabeça. Para muitos, foi uma queda de braço vencida por Michelle, que consolidou sua imagem de influência no campo evangélico, especialmente entre os nomes mais fortes da teologia do domínio.

Uma pesquisa recente do Instituto de Estudos da Religião (Iser) mostra que Michelle é frequentemente associada a valores positivos por mulheres evangélicas – ela é considerada “exemplar”, “cristã virtuosa”, “elegante” e “forte”. “Sua trajetória pessoal, sua forma de se apresentar como mulher, mãe, esposa e cristã e gestos como ajoelhar-se em eventos públicos aproximam sua atuação política de uma linguagem religiosa reconhecível pelas entrevistadas. O testemunho funciona, assim, como uma técnica política: transforma a experiência pessoal em exemplo e torna valores como família e nação legíveis a partir de uma gramática cristã”, diz o relatório.

Teologia do domínio: de Malafaia aos radicais

No Rio de Janeiro, Michelle frequentava a Assembleia de Deus Vitória em Cristo, de Silas Malafaia – que celebrou o casamento dela com Bolsonaro em 2015. Em 2016, após um dos vários desentendimentos entre o pastor e seu marido, ela migrou para a Igreja Batista Atitude, do pastor Josué Valandro Júnior. Ela era a intérprete de libras dos cultos de domingo e a sua casa chegou a abrigar uma célula para crianças surdas – exceto no período em que Bolsonaro se recuperava da facada. Com a mudança de volta a Brasília por causa da posse presidencial, Michelle chegou a levar o pastor a vários eventos oficiais no Palácio do Planalto.

Mas, com a distância geográfica, a proximidade entre os dois diminuiu, e Michelle passou a frequentar outras congregações, como a Comunidade das Nações, do pastor JB Carvalho, e a Sara Nossa Terra, do bispo Robson Rodovalho, que já foi deputado federal. Entre as melhores amigas de Michelle estão a senadora Damares Alves – as duas se conhecem há mais de uma década, quando ainda eram assessoras parlamentares – e a bispa Dirce Carvalho, esposa de JB. Dirce, inclusive, organiza conferências de liderança para mulheres cristãs, sob o mote de “governar todas as áreas da vida”. Os encontros, que já reuniram mais de 15 mil mulheres, também já tiveram a presença de Michelle.

Michelle Bolsonaro e Damares Alves durante evento
A amizade entre Michelle Bolsonaro e Damares Alves se fortaleceu ainda antes da política e ganhou peso no campo conservador

Michelle e Bolsonaro também são próximos de outros nomes mais radicais do movimento, como os pastores Renê Terra Nova e Valnice Milhomens. Terra Nova, do Ministério Internacional da Restauração, é o líder da filial brasileira da International Coalition of Apostolic Leaders (Ical), fundada em 1999 nos Estados Unidos por John P. Kelly sob a presidência de C. Peter Wagner, os nomes centrais que popularizaram a teologia do domínio entre igrejas neopentecostais no mundo. Milhomens, da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo, recentemente gravou um vídeo dizendo que os evangélicos devem “tomar o poder no Brasil”.

São esses os nomes dos principais representantes do dominionismo no Brasil hoje, de acordo com os especialistas ouvidos pela Pública. “A convivência da Michelle, onde ela frequenta, como a Igreja Atitude da Barra da Tijuca, são igrejas que migraram para uma radicalização do discurso que incorpora o desejo de assumir poder político. Não sei se o pastor Valandro leu o material da teologia do domínio, mas é o que ele defende”, diz Sérgio Dusilek, pastor batista e doutor em Ciência da Religião. “Quando uma pessoa frequenta esses espaços, ela acaba fazendo parte e incorporando aquele ideário, o que pra mim foi o caso da Michelle. As pessoas com quem ela anda, como a Damares, são propagadoras da teologia.”

“O principal conselheiro de Michelle costumava ser o Silas Malafaia, agora afastado da família Bolsonaro. O bispo Robson Rodovalho tem assumido esse papel e já chegou a defender Michelle como uma ‘grande líder’. Houve também encontros com a coach Obii Pax-Harry, ligada a uma corrente teológica internacional associada à teologia do domínio e à Brazil Apostolic Conference do apóstolo Renê Terra Nova, que difunde conceitos como guerra espiritual, restauração apostólica e atuação ativa de cristãos na esfera pública”, afirma a pesquisadora Pietra Cretella, mestranda da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) que pesquisa  a interface entre religião e política. 

Nós procuramos todos os citados nesta reportagem, mas, até a sua publicação, apenas Damares Alves e a pastora nigeriana Obii Pax-Harry responderam. A senadora disse que “não defende qualquer forma de domínio religioso sobre o Estado”, mas sim a “participação democrática, proativa e consciente de todos os cidadãos na vida pública, inclusive dos cristãos”. “Sua atuação no Senado parte da defesa da dignidade humana e da construção de leis e políticas públicas que protejam direitos e criem condições para que todas as pessoas possam exercê-los, independentemente de sua religião. A senadora defende o Estado laico, compreendido como garantia da liberdade religiosa e de consciência de todos, e não como exclusão das pessoas de fé da esfera pública”, disse, em nota enviada pela assessoria de imprensa.

Damares também afirmou que Michelle Bolsonaro “conquistou, por sua própria atuação, um espaço relevante no movimento conservador brasileiro, especialmente entre as mulheres” e “vê de forma positiva o surgimento e a consolidação de lideranças femininas que defendam publicamente seus valores e estimulem outras mulheres a participar da vida política.”

A pastora nigeriana Obii Pax-Harry, uma das principais vozes globais da Ical, a organização que reúne denominações dominionistas, também respondeu à Publica. Ela tem vindo ao Brasil com frequência em conferências neopentecostais e passou uma semana ao lado de Michelle, pouco antes da ex-primeira dama publicar o vídeo contra Flávio Bolsonaro. “Eu te amo tanto, minha querida irmã e amiga, melhor primeira-dama do mundo inteiro!”, a pastora postou, em inglês, em uma seleção de fotos abraçadas com Michelle e Dirce Carvalho.

Em entrevista à Pública, Obii afirma que tem contato com o Brasil há 15 anos, quando vendeu os direitos de um livro a uma editora brasileira. Desde então, passou a receber “pedidos de assistência de Escolas de Profetas brasileiras que usavam meu livro para treinar seus alunos.” A pastora fundou uma escola de “Governo e Política” em Abuja, capital da Nigéria, e faz treinamentos de líderes cristãos para atuar em igrejas, negócios e governos. No Brasil, Obii tem um “grupo informal” a quem dá mentoria, junto com a pastora Débora Guillen, líder da Action Church, uma dissidência da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte.

“Conheci Michelle Bolsonaro como uma mulher cristã em uma igreja e fui particularmente atraída pelo coração que ela tem por seus irmãos na fé, independentemente do status social deles — algo que acho raro, vindo do Reino Unido, EUA e Nigéria”, disse. 

Mas ela frisa que Michelle não é uma de suas mentoradas, como se cogitou à época da publicação do vídeo. “Não tenho nenhuma relação de trabalho formal com Michelle ou com qualquer outra pessoa no Brasil como mentora, conselheira ou instrutora. Agradeço seu interesse nisso, mas não é o que acontece. Talvez você possa me recomendar para esse trabalho (risos)”, disse.

Gramática de dominação 

Para Christina Vital, professora do Programa de Pós-graduação em Sociologia e coordenadora do laboratório de estudos em Política, Arte e Religião da Universidade Federal Fluminense (LePar), a teologia do domínio não é “um conjunto de orientações que os indivíduos seguem de maneira irrefletida e automática”, e nem “a única motivação para a atuação de evangélicos na política”. 

“A teologia do domínio não inaugura a noção de evangelização, mas oferece uma gramática e estratégias de ocupação e dominação de espaços públicos. Ela ocupa um lugar importante entre grupos religiosos e econômicos que mobilizam o repertório para fazer valer interesses institucionais – apresentados como interesses sociais e religiosos – e também interesses de conglomerados econômicos”, afirma a pesquisadora, que estuda a participação de mulheres na extrema direita brasileira.

Vital pondera, porém, que é importante considerar outros aspectos para além da teologia do domínio para analisar Michelle – como os seus interesses pessoais, econômicos, políticos e partidários. “Fazer a leitura exclusivamente pelo viés religioso é, de certa maneira, limpar essas outras dimensões, acentuando o valor espiritual das ações e encobrindo motivações que poderiam ser vistas como mundanas pelos próprios segmentos sociais reunidos em torno da fé”, afirma. 

Ela acredita que Michelle “não é simplesmente uma porta-voz de outras lideranças”, mas tem força política própria. “Ela costuma dizer que Bolsonaro é ‘um leão em público e um gatinho em casa’. Vamos acompanhar os próximos acontecimentos, mas ela vem se mostrando uma espécie de ‘leoa de direita’, tanto em casa quanto na política, para continuar nas metáforas felinas.”

Pesquisadores ouvidos concordam, porém, que o discurso de Michelle, sua arma mais importante como política, ganha densidade ao se articular com a teologia do domínio, como explica Fábio Py, doutor em Teologia que lidera o Grupo de Estudos Religião e Cidades da PUC de São Paulo. Ela articula textos bíblicos com inserção política atual, e faz isso muito bem, com tranquilidade. É natural para ela. Ela tem uma caminhada religiosa, coisa que muitos outros bolsonaristas não têm. Fez formações, estudou, compreende bem os elementos religiosos”, diz.

A pesquisadora Cretella, que estuda os discursos político-religiosos de Michelle, diz que ela costuma repetir elementos ligados à teologia do domínio, como falar em nome de Deus, da divisão entre o bem e o mal, atribuir-se um caráter divino e se vitimizar, o que também pode ser observado no vídeo contra o enteado. “Ela se colocou como vítima, citou Deus e valores cristãos para reforçar sua autoridade moral, enquanto se apresentava como ‘guardiã do bolsonarismo raiz’”, afirma a pesquisadora. 

Os elementos da teologia de domínio, ficam “escondidos” dentro das falas, explica Cretella. A narrativa de Michelle trata em uma primeira camada de lealdade, doação, cuidado, perseguição e retorno do líder. Mas, como mensagem subliminar, haveria um apelo à guerra espiritual, que funciona como um “apito de cachorro” para o núcleo mais fervoroso.

Se antes Jair Bolsonaro era a “voz dos evangélicos”, agora Michelle parece ter se tornado a favorita na política, usando a força do marido a seu favor. “Eu não diria que ela herdou o papel unificador de Bolsonaro, mas ela tem a pretensão de continuar a narrativa de que ele é o salvador, acenando ao público evangélico como um todo”, diz Cretella.

Três decisões em 32 horas no STF: o relógio eleitoral de Mendonça e a hora de Fachin atuar

Às onze da manhã desta quarta-feira, 9 de setembro, o Supremo cancelou a sessão do plenário. Um assessor com 27 anos de casa disse, em tom reservado, a Mônica Bergamo, da Folha, que nunca tinha visto aquilo. Não era feriado nem recesso, e a corte que condenou uma tentativa de golpe não via clima para que seus ministros passassem uma hora na mesma sala.

A primeira análise que escrevi na semana passada, em que trato das 24h de revelações sobre o Master e Vorcaro, terminava em 2 de setembro, com três atos e a granada sem pino no STF. A sequência de eventos, desde então, escalou e não só manteve a granada sem pino, como também fez surgir minas terrestres pelo carpete do Supremo. A metáfora cabe num momento em que o método de André Mendonça fica ainda mais claro diante do calendário eleitoral, e não necessariamente do processual. Faltam 25 dias para o primeiro turno.

Em 2 de setembro, o Partido Novo, que disputa a Presidência com Romeu Zema e, como sabemos, é próximo a Flávio Bolsonaro, pediu “providências” contra o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues. Como já sabemos, Mendonça afastou Andrei Rodrigues nesta terça-feira, 8 de setembro, um dia após Mendonça ganhar o título de mártir e salvador na avenida Paulista com direito a boneco inflável gigante, ao lado do boneco de Trump, como mostrou nossa cobertura na Agência Pública.

O ministro Flávio Dino, por sua vez, reintegrou Andrei por meio de uma terceira liminar, transformando o caso em uma “guerra de liminares”. Dino descreve o ato do colega Mendonça como a suspensão das “atividades de inteligência da Polícia Federal do Brasil” e também escolheu o seu viés: usou o inquérito das emendas do Dark Horse, que encosta em Flávio Bolsonaro.

Sobre isso, a novidade é a homologação da delação premiada de Antonio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”, dono da Entre Investimentos — decisão do próprio Mendonça, nesta quarta-feira, e mantida sob sigilo. O delator teria detalhado 12,333 milhões de dólares repassados ao fundo texano Havengate, administrado por Paulo Calixto, advogado do ex-deputado e filho 03 do ex-presidente, Eduardo Bolsonaro, entre janeiro e setembro de 2025, o que equivale a cerca de R$ 69 milhões.

Vorcaro teria pedido cerca de 24 milhões de dólares, em mais de 10 subscrições, das quais apenas sete teriam se concretizado. O que importa é a data. Flávio disse, em maio, à GloboNews, que o último pagamento de Vorcaro fora feito em maio de 2025. A delação, no entanto, poderia confirmar uma transferência posterior, de 1,666 milhão de dólares, em setembro — exatamente o que o relatório do Coaf, revelado pela revista piauí, já apontava. A PF apura se parte do dinheiro custeou a estadia de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, o que ele nega.

Ao menos publicamente, nenhum dos ministros em conflito parece confiar na capacidade do presidente Fachin de gerir a crise, e todos tentam se antecipar a ele. Os treze ministros aposentados do STF foram gentis na forma e duros no conteúdo da carta que enviaram à Corte na terça-feira, 8 de setembro. Dizem ter “plena confiança na seriedade, no discernimento e na firmeza” de Fachin e pedem que a sessão seja realizada “com toda a urgência”. O Grupo Prerrogativas também cobrou a discussão em plenário.

Nesta quarta, 157 personalidades assinaram o manifesto “Pela Lei e pelo Brasil” — entre elas Luciano Huck, Luiza Helena Trajano, Armínio Fraga, Gustavo Franco, Maílson da Nóbrega, Pedro Parente e Nelson Motta —, que pede apuração “completa, célere e independente” e afirma que “as notícias que vieram a público nos últimos dias não constituem um episódio isolado. São a consequência de um sistema doente, que deixou de aplicar a si mesmo os freios que impõe a todos os demais”, diz o texto, que lembra: “estamos a poucas semanas das eleições”.

Edson Fachin responde aos diversos chamados

Fachin tem uma agenda declarada — código de ética, fim do inquérito das fake news, modernização da Justiça — e uma semana depois de dizer que não haveria precipitação nem omissão, a precipitação foi de todos os outros, e a omissão continuava sendo dele, Fachin. Até que ele decidiu, às 17h desta quarta, quem decide. Foram três atos de uma só vez. Suspendeu as decisões de Mendonça e de Dino sobre Andrei Rodrigues e convocou sessão extraordinária e presencial do Plenário para 15 de setembro, às 10h — Andrei Rodrigues permanece no cargo e conta com o apoio de grande parte da corporação.

A Associação dos Delegados da Polícia Federal (ADPF) já havia afirmado na terça-feira, 8 de setembro, que a competência para determinar o afastamento do diretor-geral da PF deveria caber ao plenário do STF, e não a uma decisão monocrática.

Fachin também revogou a designação de Alexandre de Moraes para conduzir o inquérito aberto pela Portaria 69, de 14 de março de 2019 — o inquérito das fake news —, com efeitos apenas a partir desta data, preservando os atos já praticados. “É grave o quadro em que decisões de ministros passam a ser desafiadas horizontalmente”, escreveu. A AGU recebeu a decisão “com satisfação, respeito e esperança”.

O que amarra tudo segue sendo o calendário eleitoral. Nesses dias de turbulência, todos têm algo a perder ou a ganhar. Moraes, porque a sessão plenária, quando ocorrer, o expõe para além do que já está no relatório encomendado por Mendonça. O próprio Mendonça, porque pode lhe custar as relatorias e a confirmação da extrapolação do seu papel de justiceiro à la Sergio Moro. O governo, porque obriga o candidato e presidente Lula a se manifestar, o que fez na manhã desta quarta-feira, 9, quando declarou ser “urgente a quebra completa do sigilo das investigações de todos os envolvidos no caso Master, seja quem for, doa a quem doer”, e ao atribuir a “vazamentos seletivos” impacto sobre a eleição. E a oposição, porque a crise já é a campanha anti-Moraes, tentando colar o próprio Lula no enredo, como vimos nas inúmeras declarações da direita neste feriado de 7 de setembro.

Vale repetir o que valia na semana passada: não confundir indício, suspeita e prova. Ao menos por agora, Fachin tomou sua primeira grande atitude desde o início da crise. No dia 15 de setembro, às 10h, em plenário presencial, a 19 dias do primeiro turno, saberemos a quem o plenário dará razão no processo que reúne mensagens de Vorcaro e Moraes, cujo sigilo foi retirado por decisão de André Mendonça.

O amigo do Flávio Bolsonaro em Angra dos Reis

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Era uma presença discreta no palco montado na Avenida Paulista, em São Paulo, no feriado de 7 de Setembro. Posou para fotos com o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). Abraçou os candidatos ao Congresso Lucas Pavanato (PL-SP) e Guilherme Derrite (PP-SP), gravou vídeos para suas redes com o aspirante a vice-presidente Alfredo Gaspar (PL-AL) e estava sempre perto da vedete mais disputada da tarde, o senador, presidenciável e seu “amigo-irmão”, Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Para as 28 mil pessoas presentes no ato da direita, era um completo desconhecido. 

Renato Araújo, empresário de 40 anos nascido em Angra dos Reis, tem provocado ciúmes no entorno de Flávio pela proximidade entre eles. “Agora ele só quer saber desse Renato. Com os amigos das antigas, ele nem responde mensagem, deve achar que já está eleito e não precisa mais da gente”, disse à Agência Pública um amigo da família. Nesta eleição, aproximaram-se ainda mais. Tanto que, há pouco mais de uma semana, no dia 29 de agosto, Araújo organizou em Angra uma motociata e uma carreata de barcos em apoio a campanha de Flávio – e para alavancar sua própria candidatura a deputado federal, embora a bênção dos Bolsonaro tenha sido em vão há dois anos, quando foi derrotado ao tentar ser prefeito de sua terra natal. 

Publicação de Renato Araújo durante o ato de Flávio Bolsonaro na Av. Paulista, em SP, no dia 7 de setembro
Publicação de Renato Araújo durante o ato de Flávio Bolsonaro na Av. Paulista, em SP, no dia 7 de setembro

Coordenador regional do Partido Liberal na região da Costa Verde desde maio de 2025, escolhido por Jair Bolsonaro e pelo presidente da sigla, Valdemar da Costa Neto, Renato Araújo passou a figurar nas páginas policiais do noticiário fluminense nas últimas semanas. Em agosto, a Operação Sarasvati, da Polícia Civil, cumpriu 20 mandados de busca e apreensão em sete cidades do estado do Rio, entre elas Angra dos Reis. Os agentes da Delegacia Fazendária bateram na porta da Bravo Construções, empreiteira fundada por Araújo em 2011 e atualmente no nome de sua esposa, Tainá Nóbrega de Souza. Até o ano passado, ele seguia assinando como diretor-geral da construtora.

A investigação revelou um esquema de fraudes na execução de obras em escolas públicas montado na Secretaria Estadual de Educação, que direcionava reformas milionárias na rede de ensino para um grupo de empresas selecionadas – a maioria com pouco tempo de experiência, donos em comum e 13 delas com a mesma contadora. Depoimentos de diretores das unidades escolares indicam que a secretaria os obrigava a contratar essas empreiteiras sob pena de não realização das obras caso houvesse questionamento. Além disso, as intervenções aprovadas não costumavam ter nenhuma relação com o que era solicitado.

Um escândalo de R$ 16 milhões em telhados de escolas

Segundo o deputado estadual Flávio Serafini (PSOL-RJ), presidente da comissão de servidores da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e responsável pela denúncia que embasou as duas investigações ainda em andamento – da Polícia Civil e uma outra da Polícia Federal –, “há fortes indícios de que a finalidade das obras era lavagem de dinheiro”, disse o deputado à Agência Pública

A Bravo Construções recebeu R$16 milhões do erário estadual para realizar reparos em quinze escolas. O gabinete de Serafini visitou três delas entre outubro de 2025 e janeiro de 2026. Em um relatório produzido pelo gabinete e entregue em janeiro de 2026 às autoridades, entre elas o Tribunal de Contas do Estado, constam todas irregularidades encontradas.

Deputado Flávio Serafini, autor da denúncia sobre obras em escolas do RJ, aponta indícios de superfaturamento e lavagem de dinheiro
Deputado Flávio Serafini, autor da denúncia sobre obras em escolas do RJ, aponta indícios de superfaturamento e lavagem de dinheiro

A Pública teve acesso ao documento e conversou com o assessor parlamentar que fez as visitas. No Colégio Estadual Antonio da Silva, em Nova Iguaçu, havia necessidade de reforma hidráulica estrutural para evitar os alagamentos constantes decorrentes da proximidade com o Rio Botas, que fica ao lado da unidade e costuma encher em dias de chuva. No início de 2024, a instituição precisou adiar o início do ano letivo por causa desse problema. Apesar disso, a vistoria promovida pela secretaria desviou-se da demanda apontada pela direção e determinou como prioridade a “substituição de telhas e madeiramento” do telhado. 

As telhas foram retiradas, lavadas e devolvidas, sem sequer serem trocadas, ao custo de R$ 800 mil. O valor causa ainda mais estranheza por se tratar de uma construção pequena, com apenas 12 salas de aula. Outras intervenções na unidade – que não resolveram o problema inicial apresentado pela direção – elevaram o custo para R$ 2,2 milhões. De acordo com o assessor parlamentar que realizou a visita, “não precisava nem ser engenheiro para ver que fizeram uma maquiagem. O negócio foi tão mal feito que a comunidade ficou indignada”.

O segundo colégio visitado – entre os 15 reformados pela Bravo – foi o Embaixador Raul Fernandes, em Niterói. A diretora havia pedido o conserto de uma parede no banheiro, uma solicitação que já havia sido feita anteriormente. O então diretor da regional Baixadas Litorâneas, da Secretaria Estadual de Educação, chamado Jorge Paes, mandou para a diretora a cotação da Bravo por WhatsApp. Contratada pela escola, a Bravo terceirizou a reforma, o que não é permitido pela legislação estadual nos casos em que não há edital de licitação. Mas a vistoria feita pela própria secretaria apontou que a obra a ser feita deveria ser a mesma da unidade de Nova Iguaçu: reforma do telhado, com substituição de telhas, limpeza das calhas e substituição dos rufos. O custo total foi de R$ 1,6 milhão, sendo que esta unidade é ainda menor do que a primeira, com nove salas de aula e 155 alunos.

A terceira unidade visitada pelo assessor legislativo foi um dos maiores colégios do estado, o Albert Sabin, no bairro de Campo Grande, Rio de Janeiro, onde estudam dois mil alunos. Havia uma determinação do Ministério Público Estadual para que o governo ampliasse o refeitório. Apesar disso, a obra indicada, novamente após vistoria da secretaria, foi a reforma da cozinha e dos banheiros – trocaram quatro portas e pintaram duas paredes, segundo o assessor que esteve duas vezes na unidade. O valor da intervenção, feita em apenas um mês – entre setembro e outubro de 2025 –, foi fixado pela secretaria em R$ 377,8 mil. 

O esquema se aproveitava da descentralização de recursos da secretaria via Associações de Apoio à Escola (AAEs), um mecanismo criado para permitir que pequenos reparos emergenciais e de manutenção predial sejam resolvidos com menos burocracia, sem licitação. Entre 2018 e 2020, os valores anuais ficaram entre R$ 58,6 milhões e R$ 102,8 milhões, segundo informações do Sistema Integrado de Gestão Orçamentária, Financeira e Contábil (SiafeRio) levantadas pelo gabinete de Serafini. Nos últimos dois anos contabilizados, 2024 e 2025, já no governo do bolsonarista Cláudio Castro (PL-RJ), os valores subiram para R$ 630,2 milhões e R$ 513,3 milhões, respectivamente. 

“O que encontramos foi muito grave: havia indícios de burla à legislação de licitações, com empresas previamente escolhidas e colégios coagidos a contratá-las. As obras tinham valores superdimensionados e os serviços sequer correspondiam ao que estava previsto nos contratos. Uma obra que poderia custar R$ 80 mil era contratada por quase dez vezes mais. Essa diferença, segundo as apurações que motivaram as denúncias, alimentava um esquema criminoso articulado por interesses políticos e empresariais ligados à direita do Rio de Janeiro”, afirma Serafini. 

“As denúncias que fizemos sobre a máfia das obras permitiram estancar um esquema que movimentou mais de R$ 1 bilhão nos últimos dois anos. Em um estado que paga um dos piores salários do país aos seus educadores e que ocupa posições preocupantes no Ideb, é um verdadeiro descalabro imaginar que recursos públicos destinados às escolas tenham sido drenados dessa maneira.”

Serafini cita Renato Araújo ao lembrar que ele chegou a contratar influenciadores para debochar das acusações nas redes sociais e dizer que se tratavam de fake news. “Hoje esse mesmo empresário é apresentado pela família Bolsonaro como aposta do PL para a Câmara dos Deputados. Isso mostra a dimensão política do problema e um saldo estarrecedor desse modelo de gestão bolsonarista no Rio.”

Uma indicação a dedo por Cláudio Castro

O valor dos repasses via AAEs explodiu quando a secretária estadual de educação era Roberta Barreto. Segundo as investigações, ela foi indicada ao cargo pelo então presidente da Alerj, o ex-deputado estadual Rodrigo Bacellar, do União Brasil-RJ, aliado de Cláudio Castro. Bacellar está preso desde março de 2026, acusado de vazar informações de operações para o Comando Vermelho, mas já havia sido preso em dezembro do ano anterior pelo vazamento de informações sigilosas de operação da Polícia Federal para o então deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva (MDB-RJ), o TH Joias, ourives de facções criminosas no Rio – e que também está preso sob suspeita de negociar armas para o Comando Vermelho. 

É um caso paralelo, mas dentro do guarda-chuva da operação Unha e Carne, da Polícia Federal, que prendeu este ano mais um deputado estadual: Thiago Rangel (Avante-RJ), envolvido diretamente no esquema das escolas públicas. Nessa mesma fase da operação da PF, foi expedido novo mandado de prisão contra Rodrigo Bacellar (que já estava no cárcere) e também contra Rui Bulhões, seu ex-chefe de gabinete. As duas prisões, de Bacellar e Rangel, foram expedidas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. 

As irregularidades na Secretaria Estadual de Educação levaram o Tribunal de Contas do Estado a determinar em abril o fim dos pagamentos às empresas envolvidas. A secretaria prometeu à época uma revisão administrativa dos procedimentos relacionados às obras e citou a Lei de Licitações 14.133 como novo parâmetro, transferindo intervenções mais vultosas para a Empresa de Obras Públicas do Estado (EMOP). À Pública, o governo estadual disse que o contrato referente à execução de obras em colégios já foi encerrado. “A pasta esclarece ainda que, ao longo de 2026, não realizou qualquer repasse de recursos para obras escolares” às empreiteiras investigadas. Existe um processo em curso no Ministério Público Estadual, também motivado pelas denúncias do gabinete do deputado estadual Flávio Serafini, e a Operação Sarasvati foi consequência dele. As investigações da Polícia Civil e da Polícia Federal continuam.

O candidato da família Bolsonaro

Não tivesse sido preso, Bacellar seria o candidato apoiado pela família Bolsonaro ao governo do Rio de Janeiro. Ele foi levado à casa de Bolsonaro em Angra dos Reis pelo próprio Renato Araújo, que passava muito tempo com o ex-presidente – Bolsonaro chegou a ir ao aniversário de seis anos do filho caçula de Araújo, e também passaram juntos uma véspera de Natal, além dos passeios de lancha ou jet ski no mar esmeralda da Costa Verde. Só após a prisão de Bacellar foi lançado o nome de Douglas Ruas, do PL-RJ, que também estava no ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista. O amigo da família Bolsonaro ouvido pela Pública confirmou o que já é sabido por muitas pessoas no Rio: já estava definido pelo ex-presidente que Renato Araújo seria candidato a vice-governador na chapa de Bacellar. 

“Em pouco tempo ele virou amigo do Bolsonaro, mas eles só se aproximaram depois da reforma na casa de Angra, que ele fez questão de fazer”, diz essa pessoa próxima da família, informação que foi confirmada pela Pública com outras fontes. A casa em questão fica à beira-mar na Vila Histórica de Mambucaba e foi construída por Bolsonaro nos anos 1990. Nas eleições de 2024, antes de endossar Araújo na corrida para a prefeitura de Angra, o ex-presidente prometeu apoio ao ex-vice-prefeito da cidade, Christiano Alvernaz (PP), mas algo o fez mudar de posição e ele decidiu lançar Araújo nas urnas pela primeira vez. 

O próprio Renato Araújo admitiu, em entrevista ao Metrópoles, que emprestou funcionários da Bravo para a obra, embora tenha afirmado que apenas supervisionou o trabalho e atuou como amigo.. Não se sabe exatamente quanto a obra custou, mas a PF encontrou na sede do PL um contrato não assinado da reforma, no valor de R$ 900 mil, que mencionava trocas de piso e esquadrias, abertura de paredes, reconstrução de um muro, pintura do imóvel por dentro e por fora e conserto do telhado. Em suas redes, o ex-presidente garantiu ter pago tudo no Pix com seu dinheiro. 

Renato Araújo também é sócio-administrador da Bellavista Portogalo Empreendimentos, projeto de condomínio de luxo com 31 mansões planejado para Angra dos Reis em um terreno de 320 mil metros quadrados, o equivalente a 20% do tamanho do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Dessa área total, 8 mil metros quadrados ficam em terreno de marinha, a menos de 33 metros do mar medidos em linha horizontal — exatamente a categoria de imóvel que a PEC das Praias, sob relatoria de Flávio Bolsonaro no Senado Federal, propõe transferir a estados, municípios e particulares, eliminando cobrança de foro, taxa de ocupação e laudêmio (tributo pago à União quando o imóvel é vendido). 

Em agosto de 2024, a revista piauí revelou que o empreendimento acumula problemas como denúncias de degradação ambiental, embargo da prefeitura, laudo da Defesa Civil que aponta risco de deslizamento e uma mudança não autorizada no regime de ocupação de parte do terreno, sem comunicação à Secretaria de Patrimônio da União. Um inquérito criminal sobre o caso foi arquivado em 2023 sem indício de crime; outro, cível e ambiental, seguia em aberto no Ministério Público. Questionado pela revista, Araújo negou qualquer ligação de Flávio – um dos principais defensores da Proposta de Emenda à Constituição em questão – com o empreendimento. Aprovada na Câmara em 2022, a PEC das Praias segue parada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado desde dezembro de 2024, quando um pedido de vista suspendeu a votação.

Renato Araújo: da infância pobre aos jet-skis em Angra

Mergulhador experiente, Araújo costuma dizer que teve uma infância pobre e que sua família passava necessidade. Hoje o cenário é bem diferente. Ele declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) possuir R$ 3,5 milhões em bens, entre eles dois apartamentos de R$ 400 mil cada, dois automóveis no valor de R$ 250 mil e R$ 330 mil, e dois jet-skis de R$ 40 mil e R$ 100 mil – um deles ele costumava emprestar para Bolsonaro, que lhe deu uma medalha em janeiro de 2024 com os dizeres “imorrível, imbrochável e incomível”. Araújo costuma se locomover de helicóptero em pequenas viagens, como quando participou de um pequeno trecho da “Caminhada pela Liberdade”, em janeiro deste ano, liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira. No seu instagram, há inúmeras fotos com a família Bolsonaro. No último aniversário de Flávio, no dia 30 de abril, ele postou um vídeo em seu Instagram com inúmeras imagens dos dois juntos e um agradecimento: “Aqui você tem um amigo querido, um irmão. Obrigado pela oportunidade que você me deu de entrar na sua vida”. É uma relação tão próxima que, em uma de suas lives, Jair Bolsonaro chegou a dizer que adotaria Araújo.

Na véspera das carreatas de moto e de barco em Angra dos Reis, que se tornaram um grande evento do PL na cidade, Renato Araújo divulgou uma mensagem na qual disse aos seus seguidores: “Não se surpreendam se, na véspera de recebermos nosso próximo presidente, apareça (sic) novamente a covardia dessa política que acha que vai calar aqueles que escolheram o lado do bem”. Ele temia uma nova operação da Polícia Civil, que acabou não acontecendo. Procurado pela Pública, Araújo não respondeu ao pedido de entrevista, assim como Flávio Bolsonaro – o espaço segue aberto para manifestações. Embora não tenha discursado no Dia da Independência para os presentes na Avenida Paulista, Araújo gravou um vídeo em cima do palco para suas redes. Disse que “vivemos um momento de guerra” no país, que “está muito fácil escolher um lado” e que seu lado é “o lado do bem, que defende a família, a liberdade e quem é a favor do crescimento do Brasil”.

Na Alemanha, o fascismo perdeu a vergonha

Não esqueço quando ouvi pela primeira vez, em uma conferência a portas fechadas em Berlim, a declaração: “Os alemães precisam voltar a ter orgulho de sua nação e de sua nacionalidade. Não vamos mais olhar para o passado”, dada por uma estrategista política norte-americana próxima ao MAGA (o movimento Tornar a América Grande Novamente, presidente dos EUA).

A reação também me marcou. O que começou com aplausos tímidos da audiência de direita, se tornou uma ovação emocionada. 

O ano era 2024 e ali eu senti que os ventos estavam mudando no país. Porque até então, o Alternativa para a Alemanha (AfD), partido que já chegou a ser classificado várias vezes pela inteligência alemã como perigoso e extremista de direita, era isolado não apenas dentro dos parlamentos por um cordão sanitário imposto pelos outros partidos, mas pela própria extrema direita europeia. Essa ideia do “orgulho nacional alemão” não era ouvida frequentemente mesmo nos círculos mais radicais.

Passei então a acompanhar a AfD mais de perto e tentar decifrar o que tinha dado errado no trabalho de memória da Alemanha pós nazismo, que é mundialmente reconhecido como um bom trabalho. A cada canto há um monumento às vítimas do Holocausto, um museu que conta as atrocidades cometidas pelos nazistas, ou as Stolpersteine – pequenas placas de metal dispostas no chão das ruas, com informações pessoais de judeus que foram raptados, perseguidos ou mortos na região. Nas escolas, as crianças também aprendem sobre os horrores do Holocausto e desde pequenas são ensinadas a dizer “Nie Wieder”, nunca mais. 

Cheguei a escrever sobre isso em um texto para o ICL no ano passado, dizendo que enquanto a memória é essencial para que atrocidades não se repitam, a culpa é um sentimento complexo, já mostrava Freud, porque tem a ver com desejo, conflito, recalque, remorso, mas também neurose. E a culpa pelo Holocausto se desenvolveu de várias maneiras na subjetividade da sociedade alemã, gerando inclusive ressentimento, que parece ser o sentimento que impulsiona o extremismo de direita em nossa época.

Nesses dois anos, a AfD foi ganhando cada vez mais espaço e popularidade. Trump, Elon Musk, Steve Bannon e outras figuras da direita norte-americana e europeia começaram a divulgar o partido e suas ideias sem constrangimento. Nesse tempo, o fascismo também foi se “desavergonhando” cada vez mais em todo o mundo. A pauta anti imigração passou a ser a resposta rápida da direita populista para todas as crises trazidas pelo capitalismo neoliberal: da falta de emprego às desigualdades sociais, do aumento da criminalidade a suposta perda de um “purismo cultural”. 

Também em 2025 entrevistei membros da AfD e fui a dois eventos do partido na Turíngia, no centro-leste da Alemanha, e entendi que esse orgulho alemão, e ao mesmo tempo o ódio aos imigrantes, vêm vindo com força em uma sociedade que está há alguns anos passando por uma crise econômica. A principal pauta é a da deportação em massa, não há meias palavras. A abertura da Alemanha aos refugiados em 2015 é apontada pelo partido como o maior erro da história recente e os jovens dizem que querem voltar a ouvir o idioma alemão nas ruas.

Um dos jovens inclusive me disse, quando perguntei o que o fazia defender a pauta anti imigração, que não era nada exatamente relacionado a fatos, era mais “um sentimento”.

Há também, é claro, diversos outros fatores para essa popularidade, desde os mais específicos e nacionais, como uma divisão entre leste e oeste — que nunca acabou de fato —, até os mais globais, como o voto de protesto e a imagem sedutora do outsider que diz o que pensa sem medo das consequências.

Por tudo isso, a vitória da AfD nas eleições na Saxônia-Anhalt, neste fim de semana, não é surpreendente. É triste, alarmante, sintomática, mas não surpreendente. Com 43,8% dos votos depositados (39 dos 83 assentos parlamentares), a AfD já anunciou que vai se mover a partir desta semana para tentar obter uma coalizão majoritária.

Na Alemanha, a formação de governos estaduais é parlamentarista. Um partido que obtém mais da metade dos assentos na Assembleia Legislativa conquista o posto de governador do estado. Como nenhum dos partidos obteve a maioria necessária na eleição de domingo, eles terão que fazer alianças. As legendas podem se unir em coalizões para governar juntas em maioria ou angariar apoio de outras para liderar um governo minoritário. Para governar, na prática, a AfD precisaria ultrapassar o “cordão sanitário”, compromisso de outros partidos de não cooperar com a ultradireita e, assim, mantê-la longe do poder.

Durante a campanha, todos os partidos descartaram parceria com a AfD, exceto pelo partido nanico Aliança por Justiça Social e Racionalidade Econômica (BSW), uma legenda populista “antiwoke”, comandada pela ex-comunista Sahra Wagenknecht, que levou pouco mais de 5% e que compartilha com a AfD discursos anti-imigração e em favor da Rússia.

O sistema eleitoral alemão é super complexo e pode se abrir em diversos cenários possíveis de negociações, coalizões, novas eleições, por isso ainda não está claro o que vai acontecer. 

Mas o quanto é efetivo, em uma democracia, fazer todas as manobras possíveis para impedir um partido mais votado de governar? Será essa a melhor maneira de enfrentamento da extrema direita? Ou o melhor seria entender o que está na raíz dessa popularidade da AfD para que o nazismo e o fascismo, em suas variadas formas, não se repitam? 

Os alemães têm uma palavra para o espírito do tempo: Zeitgeist. A eleição do último domingo representa uma sombria e inquietante adequação da Alemanha ao Zeitgeist, num país que há menos de 100 anos levou Hitler ao poder.

Congresso travou regulação de câmeras corporais enquanto letalidade policial batia recorde

Apesar do debate sobre a obrigatoriedade do uso de câmeras corporais pelas forças de segurança ser recorrente, o Brasil permanece sem dispor de uma regulamentação federal. O vazio regulatório mantém o recurso submetido a regras diferentes de estados, corporações e tribunais, mas não por falta de tentativas.

No Congresso Nacional, a Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado (CSPCCO) da Câmara dos Deputados apreciou, entre 2023 e 2026, mais de 2 mil proposições sobre segurança, incluindo requerimentos, projetos etc.

Um levantamento da Agência Pública identificou que apenas cinco projetos de lei ou decretos que tratam sobre “câmeras corporais” chegaram a ser votados em quatro anos de legislatura.

Entre os cinco projetos que abordam o tema e passaram pela CSPCCO, três tiveram tramitação mais ágil: dois que restringem o acesso às imagens das câmeras corporais utilizadas por forças policiais e um terceiro que prevê a utilização do recurso não por policiais, mas por reeducandos em progressões de pena que os permitam deixar os presídios. Na outra ponta de prioridades, dois projetos que propõem regulamentação do uso de câmeras visando facilitar investigações já acabaram rejeitados.

Da realidade das ruas às apresentações na Justiça

No dia 30 de julho deste ano, o Tribunal do Júri da Barra Funda, em São Paulo, absolveu dois policiais militares acusados de matar Igor Oliveira Santos, 24, durante uma operação em Paraisópolis em 2025. Uma semana após o julgamento, trechos inéditos das imagens das câmeras corporais dos agentes foram divulgados e contradisseram parte dos depoimentos prestados pelos PMs.

Reprodução de imagem registrada por câmera corporal durante ação policial
Reprodução de imagem registrada por câmera corporal durante ação policial

As imagens mostram Igor e mais três homens se rendendo e obedecendo às ordens dos policiais para se deitarem no chão. Igor foi questionado se estava armado, respondeu que não e, quando começou a obedecer a ordem para se levantar, foi atingido por um primeiro tiro disparado por um dos PMs, seguido de outro, de um segundo policial.

Na versão dos agentes de segurança, Igor estaria armado e oferecia risco. As imagens das câmeras corporais, divulgadas pela TV Globo, porém, não evidenciam resistência. A emissora também informou que os policiais não tinham conhecimento de que as câmeras corporais estavam ligadas, já que elas foram acionadas automaticamente via Bluetooth. Nenhuma arma foi apreendida durante a ação.

Mesmo que fosse reaberto, o processo sobre a ação em Paraisópolis não poderia contar com essas novas imagens, caso o projeto de lei (PL) 2.339/24 já estivesse em vigor. De autoria do Capitão Augusto (PL-SP) o PL proíbe o uso de imagens das câmeras corporais como prova criminal contra policiais. A proposta tramitou pela Casa por apenas um ano e foi aprovada pela comissão de segurança em junho de 2025. O autor citou a “garantia constitucional da não autoincriminação, segundo a qual ninguém é obrigado a produzir prova contra si mesmo” ao justificar a proposição.

Se aprovado pelo Congresso, o projeto impedirá que registros feitos pelas bodycams sejam admitidos pela Justiça em casos criminais, mesmo que exibam flagrantes de abuso de autoridade: “Fica vedada a utilização por parte de autoridades judiciárias e policiais de qualquer imagem gerada por câmeras corporais dos policiais militares para fins de instrução de processos criminais contra os policiais que portavam o equipamento, independentemente do contexto ou do conteúdo das gravações”, diz o projeto. A proposta aguarda designação de relator na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ).

De acordo com a pesquisadora sênior do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP) Ariadne Natal, considerar as câmeras corporais “instrumentos de acusação” contra policiais é uma “premissa equivocada”. Segundo ela, “a imagem produzida não é uma prova contra ninguém”, mas uma “evidência do que aconteceu”.

“A utilização da câmera é uma proteção tanto para a população quanto para os próprios policiais”, afirma Natal em entrevista à Agência Pública, ressaltando que, além de esclarecer divergências sobre abordagens e uso da força, o recurso pode ajudar a coibir abusos. “Seja pelo policial ou pelo próprio cidadão. O fato de a ação estar sendo filmada faz com que atores que estão na dinâmica se comportem de maneira diferente. Isso diminui o uso da violência física, da violência verbal e hostilidade.”

Essas câmeras não podem ser transformadas em um instrumento corporativo de proteção, porque ela é um instrumento que está ali para documentar os fatos e os eventos. Se ela vai ser usada na acusação ou na defesa, depende daquilo que a imagem capturou.”
Ariadne Natal
Pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP

O caso de Paraisópolis não é isolado. Em 13 de junho, também em São Paulo, Jeferson de Souza, 24, foi morto por policiais militares com três tiros de fuzil durante abordagem. Câmeras corporais dos agentes envolvidos registraram o momento em que o jovem em situação de rua chora e é rendido antes de ser assassinado.

Em depoimento, policiais afirmaram inicialmente que Jeferson teria reagido à abordagem e tentado tomar a arma de um PM. A análise das imagens pela própria Corregedoria da PM concluiu que ele estava desarmado, rendido e não representava ameaça quando foi atingido. Na ocasião, um dos policiais usou a mão para cobrir a lente da câmera corporal segundos antes dos disparos.

Em maio de 2024, o Ministério da Justiça publicou diretrizes para o uso de câmeras corporais pelos órgãos de segurança pública no país. As orientações dizem respeito à utilização do equipamento e às circunstâncias em que devem permanecer obrigatoriamente ligados. No dia seguinte, quatro projetos para suspender os efeitos da portaria foram protocolados no Congresso Nacional.

Dois deles são de autoria de Alberto Fraga (PL-DF), coronel da reserva da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) e que, à época, presidia a Cspcco. Para o parlamentar, “regras não devem ser definidas por meio de decreto, mas sim por lei federal”. A proposta foi aprovada. O texto ainda aguarda análise em outras comissões antes de ir a plenário.

Sessão da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado na Câmara dos Deputados

PL para compartilhamento rápido de imagens para investigadores é rejeitado

De autoria do deputado Pastor Henrique Vieira (PSol-RJ), o PL 4.844/25 foi protocolado em 30 de setembro de 2025 com o objetivo de agilizar o envio de registros audiovisuais, logs e metadados das câmeras corporais à polícia judiciária e ao Ministério Público. O projeto prevê que, mediante solicitação, as imagens sejam disponibilizadas num prazo de 72 horas após qualquer ocorrência. Em apenas seis meses, a proposta acabou rejeitada pela comissão de segurança.

Na justificativa do projeto, o deputado citou o caso de Victoria Manoelly dos Santos, de 16 anos, morta por um policial militar na zona leste de São Paulo. “A Justiça teve de aguardar quatro meses até ter acesso às filmagens da câmera corporal, embora o governo Tarcísio afirme que o prazo legal é de 20 dias após requisição. A própria Polícia Civil tem se mostrado incomodada com as sucessivas negativas de acesso imediato aos registros”, informou o parlamentar.

O argumento para a rejeição da proposta foi de que o “ordenamento jurídico já dispõe de instrumentos suficientes para a requisição de provas e para o acesso a registros necessários à investigação criminal”.

À Pública, Vieira afirmou que a proposta era de celeridade para que as imagens fossem preservadas “corretamente e de maneira eficiente para utilização em investigações”. “A questão é que a Comissão de Segurança Pública, em sua maioria, é contra até mesmo a utilização de câmeras corporais nos uniformes dos policiais. […] Bons policiais certamente não veem problema algum. Muitos, inclusive, defendem”, disse.

Grande parte da Comissão de Segurança Pública defende um tipo de polícia fora da lei, praticamente matadora e miliciana, em que o policial é colocado para matar e morrer. O que nós queremos é uma polícia que preserve os policiais, preserve a prática policial e tenha controle democrático, o que é bom inclusive para os bons agentes.”
Pastor Henrique Vieira
Deputado federal

Uma terceira tentativa de regulamentação das câmeras corporais no Congresso é o PL 3295/24. Apresentada pela deputada Erika Kokay (PT-DF) e Tadeu Veneri (PT-PR) em agosto de 2024, a proposta é abrangente, determina diretrizes, bem como uso obrigatório de câmeras corporais pelos integrantes das forças de segurança federais, estaduais, distritais e municipais.

Na Comissão de Segurança, o relator do projeto, deputado Paulo Bilynskyj (PL/SP), apresentou parecer contrário à aprovação do texto sob o argumento de que “o uso das câmeras corporais já foi determinado pelo Poder Executivo por meio da Portaria 648/2024/MJSP, bem como pelo próprio Supremo Tribunal Federal”.

“De modo que, diante do alto custo de sua implementação, tal prática tem sido realizada pelos entes federados, aos poucos”, disse o parlamentar no parecer. Bilynskyj foi um dos deputados que votou favoravelmente ao PDL 294/24, que tenta derrubar a portaria do Ministério da Justiça que orienta o uso das câmeras corporais por policiais – a mesma portaria que ele usa para se opor à uma lei que regulamente o assunto. A Pública acionou a assessoria de imprensa de Bilynskyj, mas não obteve resposta. Em caso de manifestação, este espaço será atualizado.

Apesar do texto do PL 3295/24 ter sido rejeitado em setembro de 2025, o projeto foi encaminhado, há quase um ano, para a Comissão de Finanças e Tributação (CFT), onde aguarda designação de relatoria. “Vamos tentar reverter nas próximas comissões”, afirmou o parlamentar Tadeu Veneri. Após apreciação em todas as comissões designadas pela presidência da Câmara é que um projeto normalmente vai para análise pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados (CCJ), etapa fundamental antes de poder ser votado.

Para a professora de ciências políticas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ludmila Ribeiro, parte da resistência à aprovação dos projetos está relacionada ao peso do corporativismo entre parlamentares ligados às forças de segurança. “Congressistas que também são policiais se situam dentro dessa lógica de corporativismo propriamente dito: ‘vamos evitar que esse projeto seja aprovado porque, dessa forma, a gente se protege’”, diz.

“O fato é que nessa proteção [contrária às bodycams], a gente está deixando inclusive de mostrar para a sociedade o que faz um bom policial e como os desvios tendem a ser mais mínimos do que boa parte da opinião pública quer acreditar”, concluiu a professora.

Câmera corporal em policial militar do Estado de São Paulo
Para Ludmila Ribeiro, o corporativismo de parlamentares ligados à segurança ajuda a barrar bodycams

Resistência política e falta de transparência

Um levantamento feito pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP) mapeou a implementação de câmeras corporais em 26 estados e no Distrito Federal, com base em pedidos via Lei de Acesso à Informação (LAI), diários oficiais e informações publicadas pela imprensa. Segundo os dados, até 2025, 20 estados brasileiros haviam adotado os equipamentos ou mantinham estudos e testes de viabilidade em andamento.

Apesar da expansão, a pesquisa aponta que o uso das câmeras corporais pelas forças de segurança ainda enfrenta obstáculos como falta de padronização nacional, resistência política e baixo nível de transparência pública.

Um dos casos citados é o de Santa Catarina, primeiro estado do país a implantar uma política de câmeras corporais, em 2019. O programa foi encerrado completamente em setembro de 2024, durante o governo de Jorginho Mello (PL), sob a justificativa de obsolescência dos equipamentos. 

Também há resistência à implementação das câmeras em outros dois estados comandados pela direita: Goiás, cujo governador é Daniel Vilela (MDB), e Mato Grosso, liderado por Otaviano Pivetta (Republicanos). Os dois estados estão entre os 10 de maior letalidade policial segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 5º e 9º lugar, respectivamente.

Para a pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP e doutoranda em sociologia Bianca Lombarde, as câmeras se tornaram objeto de disputa política, “especialmente entre setores conservadores que defendem uma atuação policial menos sujeita a mecanismos de monitoramento e responsabilização”.

Segundo Lombarde, pesquisas realizadas em São Paulo não confirmam o argumento comum de quem critica o uso de câmeras alegando uma possível inibição da atuação policial por receio de sanções administrativas por parte de agentes, bem como a exposição de condutas inadequadas. 

“A implementação das câmeras [em São Paulo] esteve associada ao aumento de determinados registros, incluindo ocorrências relacionadas à violência doméstica e apreensões de armas. […] Isso é importante porque sugere que as câmeras não necessariamente reduzem a atuação policial. Em determinadas condições, elas podem fazer com que essa atuação se torne mais formalizada, documentada e aderente aos protocolos”, avalia.

Na avaliação de especialistas ouvidos pela Pública, a atividade policial precisa estar submetida a mecanismos de controle e transparência, já que envolve poderes concedidos pelo Estado e pode afetar diretamente a vida dos cidadãos. Apesar do entendimento de que esse recurso é um mecanismo importante para a democracia, durante o período eleitoral, candidatos às eleições de outubro têm manifestado oposição ao equipamento.

Candidato à Presidência, Ronaldo Caiado
Candidato à Presidência, Ronaldo Caiado diz que não pretende adotar câmeras corporais para policiais: “Nós estamos em guerra”

Em 26 de agosto, o candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD), que tem a segurança pública como uma das principais bandeiras de campanha, afirmou que não pretende adotar câmeras corporais para policiais caso seja eleito. “Nós estamos em guerra. Me mostra o lugar no mundo que, em guerra, tem câmera no policial. Onde?”, indagou o ex-governador de Goiás. Caiado fez a mesma pergunta à imprensa no início de setembro.

Um dos países que enfrenta luta armada e utiliza as câmeras corporais é a Ucrânia. Em guerra desde fevereiro de 2022, o governo e as forças militares ucranianas adotaram como estratégia oficial a divulgação frequente de imagens de câmeras corporais. Mesmo nos Estados Unidos, após inúmeras denúncias de atuação violenta, o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) resolveu aderir a utilização das câmeras corporais, desde o dia 8 de agosto deste ano. O diretor interino da agência, David Venturella, informou que todos os agentes e oficiais do ICE em campo estaria equipados com câmeras corporais.

Reprodução de trecho de abordagem policial divulgada no canal oficial da Polícia Militar de SP
Reprodução de trecho de abordagem policial divulgada no canal oficial da Polícia Militar de SP

Show de câmeras corporais atrai público na web

Enquanto o Congresso Nacional discute quem pode acessar imagens das câmeras corporais, vídeos com imagens de ocorrências feitas com o equipamento já alimentam o YouTube, a exemplo do canal da Polícia Militar de São Paulo (PMESP), que soma mais de 1 milhão de inscritos.

Registros de perseguições, operações, negociações com reféns e até troca de tiros são publicados pela corporação. Em uma das postagens, um militar entra em luta corporal com um suspeito e acaba gravemente ferido com um tiro no pescoço. A cena é marcada por desespero do PM ferido, bem como de testemunhas. A gravação já acumulava mais de 800 mil visualizações até agosto deste ano. A Pública buscou PMESP por email e telefone, mas até o momento, a corporação não quis comentar a questão.

De acordo com a pesquisadora de violências Ariadne Natal, o “problema não é a câmera corporal”, mas o controle, seleção, acesso e divulgação das imagens. “As câmeras corporais existem para registrar eventos que precisam ser esclarecidos no futuro. Então, [as imagens] podem ser usadas como uma prova técnica em um processo, para efeitos educativos, mas não deveriam gerar entretenimento”, disse.

“É contraditório que esteja em discussão a questão de negar acesso a essas imagens como prova técnica, mas facultar o acesso de maneira pública quando é para efeito de publicidade”, avalia a especialista.

Intervenções policiais provocaram 60,5 mil mortes em 10 anos

Dias antes da absolvição dos PMs no caso de Paraisópolis, o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelou que 18 pessoas foram mortas pela polícia a cada dia de 2025. Foram 6.602 mortes decorrentes de intervenção policial no país, o maior número desde 2016. O índice representa um aumento de 5,8% em relação a 2024. Em 10 anos, foram 60.558 mortes.

Segundo o levantamento, embora o policial possa utilizar força letal em legítima defesa e no estrito cumprimento do dever legal, “estudos demonstram que entre os casos assim tipificados, também estão ocorrências com indícios de execução, nas quais a força letal foi usada sem necessidade comprovada”.

Diante disso, o anuário destacou a “importância de mecanismos independentes de supervisão e produção de provas como as câmeras corporais”, que “simultaneamente protegem os policiais que atuam dentro dos parâmetros de legalidade e, ao mesmo tempo, permitem responsabilizar os que extrapolam os limites legais de uso da força”.

Prevenção a violências contra crianças passa batida em propostas de presidenciáveis

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Pouco antes da oficialização da corrida eleitoral, uma série de indignações coletivas tomou conta da imprensa e das redes sociais. Em São Paulo, um ator da Rede Globo foi preso por estupro de um menino de 5 anos durante uma festa de aniversário em Pindamonhangaba. Em Franca, uma influenciadora esfaqueou o padrinho de sua filha, também de 5 anos, por suspeita de abusos. Já em Pernambuco, cinco adolescentes foram apreendidos pelo estupro coletivo de uma colega dentro de um escola no Cabo de Santo Agostinho. No Rio de Janeiro, um alerta da polícia nos Estados Unidos levou à prisão de um homem que mantinha materiais de exploração sexual infantil, incluindo três cenas de estupros.

As notícias, todas de agosto de 2026, atormentaram pais em todas as regiões, ganharam projeção nacional e, de quebra, inflamaram discursos políticos extremados e eleitoreiros quase de imediato, às vésperas do início da campanha eleitoral. A indignação, no entanto, pouco se traduz em compromissos de um potencial governo.

Violência pública é o assunto mais recorrente nas propostas dos 13 candidatos à presidência em 2026. Mas quando o assunto é a vitimização de crianças e adolescentes ou, ainda mais urgente, a prevenção para que esses crimes não venham a ocorrer, os programas dos presidenciáveis passam longe de contemplar esses cidadãos, que, vale lembrar, não representam “votos” até ao menos os 16 anos.

Nas duas pontas da questão, há um vácuo de propostas, seja no combate ou na construção de um ambiente mais seguro e favorável ao crescimento. Tanto o enfrentamento à exploração sexual quanto o termo “primeira infância” são invisibilizados nos compromissos de campanha de mais da metade dos candidatos, incluindo os mais progressistas.

O levantamento feito pela Agência Pública identificou que, com exceção do candidato Rui Costa Pimentel (PCO), todos os programas de presidenciáveis fizeram menções a crianças e/ou adolescentes em seu corpo de propostas, o que não encontra necessariamente correspondência a propostas efetivas para essa parcela da população.

O foco coletivo dos presidenciáveis se deu até três vezes mais na discussão sobre a questão da redução da maioridade penal, de 18 para 16 anos, do que na prevenção à morte infantil por crimes violentos ou durante intervenções policiais. Esse foi, aliás, o único compromisso de governo assumido pelos candidatos que contempla, exclusivamente, adolescentes na área de segurança pública. Caiado, Zema e Bolsonaro defendem a proposta, enquanto Edmilson Costa (PCB), Hertz Dias (PSTU) e Samara Martins (UP) fazem oposição. O tópico não foi contemplado no programa do atual presidente Lula.

No caso das mortes de crianças indígenas, apenas Martins faz uma menção à questão, ignorada pelos candidatos posicionados mais à frente nas pesquisas de intenção de votos. Ou seja, há uma preocupação mais evidente com a punição de crianças e adolescentes enquanto indutores de violações penais do que propriamente na proteção desse mesmo público enquanto vítimas de crimes de qualquer natureza.

Por que isso importa?

  • Registros de maus tratos contra crianças e adolescentes cresceram 14,6% em 2025 na comparação com o ano anterior segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
  • Entre as vítimas de estupro de vulnerável, 60,3% têm até 13 anos e 27,1% entre 0 e 9 anos. Os dados são de 2025 divulgados pelo FBSP.

Uma análise realizada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) nas propostas de cinco candidatos, que a 45 dias das eleições apresentavam maior intenção de votos nas pesquisas eleitorais, evidencia a busca clara por respostas quanto à segurança de crianças e adolescentes ao mesmo tempo em que há negligência quanto à prevenção do problema.

Os programas de Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) mencionam crianças e adolescentes 178 vezes. No entanto, Zema, Bolsonaro e Santos se concentraram em tratar desse público mais pela ótica da educação. A maior parte das menções feitas por Lula e Caiado tratam do enfrentamento da violência que afeta a infância, tema que sequer foi citado explicitamente por Santos.

Infográfico mostra as preocupações dos candidatos à presidência quanto às infâncias

“Não se trata de escolher entre prevenção ou repressão. É preciso, sim, investigar e responsabilizar os autores da violência. Mas, para proteger crianças e adolescentes, é fundamental também agir antes que a violência aconteça, por meio de políticas de Educação e oportunidades para jovens, da Assistência Social, da Saúde, do fortalecimento das famílias e de sistemas que identifiquem e referenciem situações de violência”, avalia o representante da Unicef no Brasil, Joaquin Gonzalez-Aleman.

Além das propostas, um segundo levantamento da Unicef e da Autoridades Brasil, identificou que nas duas primeiras semanas de campanha, entre 16 e 30 de agosto, 1.652 conteúdos foram publicados por Bolsonaro, Caiado, Cury, Lula, Santos e Zema, mas apenas 26 (2%) abordavam crianças e adolescentes. Sendo a maior parte (8 postagens) sobre violência ou segurança pública. Nesse cenário, Cury foi o candidato que teve maior proporção de publicações sobre a infância (4%) e Santos a menor (0,5%).

Crianças e adolescentes representam quase um quarto da população brasileira, mas continuam ocupando um espaço muito pequeno no debate eleitoral. A eleição presidencial é uma oportunidade única para discutir soluções para os desafios que afetam milhões de meninas e meninos, em especial a proteção contra as violências”
Joaquin Gonzalez-Aleman
Representante da Unicef no Brasil

Uma carta do órgão endereçada aos presidenciáveis foi publicada em junho deste ano, dois meses antes da publicação dos planos de governo, tentando sensibilizá-los por meio de um manifesto quanto à necessidade de um compromisso público para combater as violências que ocorrem dentro e fora de casa, incluindo tanto a formação de agentes públicos quanto a orientação de pais e educadores, bem como o combate aos fatores de risco associados à violência, a exemplo do abandono escolar, a pobreza, o racismo e da falta de oportunidades.

A recorrente saída pela punição

O punitivismo é o recurso mais explorado nas propostas de governo dos presidenciáveis, mas vão além da redução da maioridade penal em três dos cinco programas de candidatos melhor posicionados nas pesquisas de intenção de voto. Há, normalmente atrelada à essa ideia, o reforço de uma suposta necessidade de intensificação das medidas socioeducativas, bem como a elevação de penas – nesse ponto, não restrito apenas a adolescentes, mas a transgressões em gerais.

O que não é mencionado, muito menos refletido, nas propostas dos presidenciáveis quanto à questão é a queda significativa registrada justamente quando o assunto são adolescentes em conflito com a lei. Numa análise de uma década, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que o número de adolescentes em medidas de internação, a exemplo das Fundações Casa, caiu em quase 54% em 2025, quando compara-se à realidade de 2016.

Infográfico mostra o número de internações de adolescentes em conflitos com a lei e 20 anos

Além disso, a taxa de reincidência dos egressos de medidas socioeducativas chega a 20% frente aos 40% registrados no sistema carcerário tradicional para adultos no país. Vale a pena destacar ainda que, segundo o Unicef, o Brasil é o país sulamericano com a menor idade de responsabilização penal (12 anos) entre os vizinhos mais desenvolvidos do continente Argentina, Chile, Colômbia e Uruguai, ou seja, a idade em que adolescentes já respondem por seus atos na Justiça, mas em um sistema separado.

Para a coordenadora de projetos do Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis), Sofia Rebehy, a questão da maioridade penal acaba sendo recorrente num embalo de discurso punitivista que encontra eco em parte das famílias. “São pautas eleitoreiras, de uma parcela importante da sociedade, que é bastante conservadora. Mas a redução não é uma estratégia que traz bons resultados no futuro, como as evidências de outros países vêm mostrando”, opina.

Infográfico mostra a diferença entre as idades para responsabilidade penal e maioridade penal entre o Brasil e países da América do Sul

Rebehy explica que a proteção contra violências deve se dar numa perspectiva de saúde quando o assunto são crianças e adolescentes, com foco em prevenção: “O Brasil já tem uma enorme capilaridade com o Sistema Único de Saúde (SUS), os esforços de atenção primária à saúde e vacinação, há todo um acompanhamento que faz desse tipo de equipamento nos territórios um espaço privilegiado para a prevenção e identificação precoce de casos. Todo governo deveria considerar esse trabalho intersetorial, que não dá para dividir entre pastas, mas que, no caso da infância, normalmente não é sublinhado nos planos.”

Primeira Infância apagada das prioridades

Evidências da neurociência já são mais do que aceitas ao identificar que a maior parte da base do desenvolvimento dos seres humanos se dá nos seis primeiros anos de vida, a chamada primeira infância. Nessa fase, os estímulos, as vivências e até o desenvolvimento cerebral providenciam um alicerce para nossa trajetória na vida adulta. A lógica encontra respaldo na economia, em que a relação entre acesso a um complexo de direitos básicos – que vão além de segurança, educação e saúde e passam até mesmo pelo direito de brincar e ser acolhido – significam menos gastos para o Estado em aprendizagem, tratamento de doenças evitáveis ou ressocialização, para citar alguns.

Pareceria evidente, portanto, que políticas visando o estímulo e a proteção das violências que atingem essa faixa etária pudessem ser prioridade daqueles que buscam ocupar o mais alto posto executivo do país – o que não poderia estar mais distante da realidade. Apenas os candidatos à presidência Clariana Barão (DC), Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD), Pablo Marçal (PRTB) mencionam, em vários contextos, o termo “Primeira infância” em suas propostas de governo. Ainda assim, os programas não aprofundam diretrizes ou colocam a criança no centro da política pública, o que defendem organizações da sociedade civil que trabalham com o tema ouvidas pela Pública.

Talvez haja um motivo claro para isso: além de não representarem seres votantes, muitos pais não têm a dimensão dessa fase da vida de seus filhos. Essa realidade foi mensurada há um ano por uma pesquisa da Datafolha, em agosto de 2025, que revelou que 4 entre cada 5 brasileiros não compreendem que o período até os seis anos concentra o maior desenvolvimento físico, emocional e de aprendizagem humana e 42% sequer sabe o significado de “primeira infância”.

Porto Alegre, RS - 15/08/2018  SMS. Monitores do programa "Pim Piá Prisional" realiza visita domiciliar Local: Lomba do Pinheiro
Foto: Cristine Rochol/PMPA
Segundo Datafolha, maioria dos brasileiros não compreende importância dos primeiros anos de vida para o desenvolvimento infantil

De acordo com a diretora de políticas públicas da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV), que se dedica à promoção de políticas públicas de estímulo à primeira infância, Marina Fragata, os planos de governo carregam uma lógica “adultocêntrica” por considerarem, assim como a visão comum entre as famílias, que as infâncias seriam uma “preparação para ser adulto”, o que dificulta o reconhecimento desse sujeito de direitos a ser protegido.

Fragata critica a abordagem de políticas que “fatiam” a criança entre pastas – saúde, educação, etc – o que representa um desafio maior para protegê-las. “As violências contra as infâncias são complexas, invisibilizadas e silenciadas até pela subnotificação e exigem estratégias específicas. A violência doméstica é diferente da violência de rua, armada. Esse é um problema gigantesco do Estado, que precisa de uma forma realista de enfrentá-lo.”

Especialmente porque as políticas que envolvem infâncias estão todas fragmentadas, incluindo a própria visão quanto à criança. Quando a gente não põe a criança no centro, e no centro está o arranjo da política administrativa setorial, ninguém sai de uma grande zona cinzenta”
Marina Fragata
Diretora de políticas públicas da FMCSV

Com 2,5 milhões de nascidos anualmente no Brasil, Fragata reforça o quanto, para a sociedade civil, é importante deixar de ver a criança como uma esperança de futuro, para preservar seu desenvolvimento no agora:

“Das 18 milhões de crianças brasileiras, 11 milhões, ou seja, 63%, estão inscritas no CADÚnico, vulneráveis a uma pobreza monetária, que está sempre acompanhada de outros tipos de pobreza. Quando colocamos as crianças como prioridade, deixamos de ‘cortá-la’ em vários pedaços, de várias ‘pastas’ – da saúde, da educação, do bolsa [família], etc –. Com ela no centro, é possível reconhecer as primeiras infâncias, e prover uma jornada de direitos, uma atenção integral não só a ela, mas a sua família, seus cuidadores e seus contextos de vida.”

O desafio de uma dura realidade cotidiana

Aproximadamente a cada quatro horas, uma criança ou adolescente morre vítima de crimes violentos no país – são quase seis assassinatos de brasileiros não adultos por dia, 2.029 apenas em 2025, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Mais de dois terços deles eram negros e 240 vítimas tinham, no máximo, 11 anos de idade.

A cada 9 minutos, uma criança ou adolescente foi vítima de violência sexual no Brasil em 2025. Foram 61.076 vítimas. No ano anterior, 65.395. Por mais incômodo que essa marca possa soar, a realidade pode ser muito pior. Desde 2023, as autoridades brasileiras trabalham com a estimativa de que apenas 8,5% dos casos cheguem, de fato, aos registros policiais, um cálculo feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Os motivos variam e contemplam até mesmo a dificuldade ou vergonha em denunciar. Em outras palavras, a violência pode ter uma incidência quase 12 vezes maior.

Infográfico mostra a violência contra crianças e adolescentes no Brasil fora de casa
Infográfico mostra a violência contra crianças e adolescentes no Brasil dentro de casa
Infográfico mostra o número de casos de estupro de vulnerável no Brasil

Mudar essa realidade exige um compromisso que não é apenas do Estado. É necessário que todos os atores dessa equação estejam em acordo com objetivo de proteção à infância. Mas a nomeação de crianças e adolescentes em planos dos candidatos à presidência faz diferença na medida em que considerá-los incluídos em políticas maiores dificulta a execução e cobrança do representante eleito.

“Crianças e adolescentes não votam, mas deveriam ser sujeitos explícitos desses planos e eles vêm sendo olhados de modo transversal e superficial. Não nomear deixa tudo de uma forma muito fragmentada e impacta o que vai ser executado pelo governo eleito. O trabalho necessário é de quase sensibilização para esse olhar conjunto”, destaca Sofia Rebehy.

O olhar conjunto citado passa por um trabalho que envolve também as famílias e que não se inicia ou encerra no pleito eleitoral. “A violência contra crianças e adolescentes não pode se tornar normal, nem parte da cultura. O ‘eu também apanhei na minha infância’, que relativiza, também precisa mudar, bem como a lógica dos adultos de uma parentalidade punitiva para uma positiva, que apoie o desenvolvimento, o que ainda é um grande gargalo”, resume Rebehy.

É urgente que façamos valer o artigo 227 da Constituição Federal, colocando crianças e adolescentes como prioridade absoluta. E é preciso fazer com que planos de governo façam jus a esse artigo. Se as cidades, a política e os serviços são bons para a criança, eles serão bons para a sociedade como um todo. Colocá-la no centro gera uma sociedade melhor”
Sofia Rebehy
Coordenadora de projetos da Infinis

Esquerda, direita e centro concordam mais sobre a economia do que a eleição faz parecer

Em todo o período eleitoral, a economia invade a conversa do dia a dia de boa parte das pessoas. Seja no almoço de domingo, no ponto de ônibus, na fila da padaria ou no grupo de WhatsApp da família. E é aí, longe do palanque, que uma pesquisa revela algo que o discurso da polarização insiste em esconder: brasileiros e brasileiras de todos os espectros concordam bem mais sobre economia do que a lógica do “nós contra eles” sugere.

O estudo Percepções da Economia Brasileira, encomendado pelo Fundo Global para uma Nova Economia (GFNE) e conduzido pela Ipsos, em parceria com os think tanks Transforma e Cipó, ouviu, de forma online, brasileiros maiores de 18 anos das classes A, B e C, entre junho e julho de 2026. E o resultado é revelador para este momento pré-eleitoral: o que eles defendem em termos de projeto econômico tem pouco a ver com a sua identificação política e ideológica.

A pesquisa fez um experimento simples e eficaz: apresentou plataformas de governo hipotéticas a dois grupos distintos de eleitores, sempre contrastando uma proposta identificada com a “direita genérica” – redução generalizada de impostos, privatizações, combate à corrupção, penas mais duras para crimes graves – a uma alternativa de esquerda.

No primeiro cenário, a alternativa foi a “centro-esquerda tradicional”: elevação do salário-mínimo, combate à pobreza por auxílios sociais, Estado mais presente na economia. Resultado: 46% dos eleitores preferem essa plataforma, contra 39% pela direita. Esse resultado, em si, já diz bastante. Mesmo uma parte de quem desaprova (23%) o governo atual ou não soube avaliá-lo (41%) se identifica mais com uma alternativa ao neoliberalismo.

Mas, no segundo cenário, a proposta de esquerda mudou de figura e o resultado disparou. A plataforma chamada de “nova economia” mantém a defesa do papel do Estado, mas troca o enfoque: combate a preços abusivos, reconhecimento do trabalho de cuidado, ampliação de direitos trabalhistas e taxação de grandes fortunas. Neste caso, a adesão à direita cai para 27%, enquanto a “nova economia” é escolhida pela maioria, por 59% dos entrevistados. Aqui, vale esclarecer: essa nova economia é definida pelo próprio GFNE como uma plataforma econômica que seja inclusiva, equânime e sustentável. Bastante do que venho defendendo nessa coluna, e do que também é promovido pela NoVE, Novas Vozes Econômicas, a rede de economistas progressistas da qual faço parte. 

A diferença entre os dois cenários não é sutil: são 20 pontos percentuais de distância entre duas versões de esquerda: uma tradicional, outra com propostas mais atreladas ao cotidiano dos entrevistados.

Isso diz algo que interessa a qualquer estrategista de campanha: não basta ser de esquerda, é preciso falar da economia que pesa no bolso das pessoas todos os dias.

E quem está migrando de opinião? Sobretudo dois grupos que a política costuma dar como perdidos para qualquer agenda progressista: os “inconsistentes”. Trata-se de eleitores sem padrão fixo de voto nas duas últimas eleições, categoria que reúne desde quem alternou o voto entre PT e Bolsonarismo até quem não votou ou nem se lembra em quem votou. Isso inclui uma fatia relevante de quem hoje desaprova o governo Lula.

Entre os inconsistentes (os eleitores sem padrão fixo), a adesão à esquerda salta de 49% para 63% quando a proposta é a “nova economia”. Entre os opositores ao PT, o salto é de 17 pontos percentuais, chegando a 40%, ou seja, quase a metade de quem hoje reprova Lula prefere uma agenda que taxa fortunas e amplia direitos trabalhistas a uma agenda neoliberal.

Se há um consenso por trás desses números, é que quem sente na pele o custo de vida quer soluções concretas, independente de quem as ofereça. A prova disso é o apoio a medidas específicas, que atravessa o espectro político inteiro.

Diante de um cenário internacional instável, 59% defendem maior controle estatal sobre empresas estratégicas; 66% apoiam a atuação do governo sobre o preço dos combustíveis. Metade do país defende relações diplomáticas pragmáticas, independentemente de alinhamento político, desde que haja vantagem comercial para o Brasil.

Mas o ponto de maior acordo da pesquisa – o maior de todos – não é sobre impostos, nem sobre o papel do Estado. É sobre tempo. Quase três em cada quatro brasileiros (73%) querem o fim da escala 6×1. E mesmo entre quem desaprova o governo Lula, esse apoio continua alto: 60%. Raramente uma pauta econômica reúne tanta gente ao redor da mesma mesa.

A isso soma-se a percepção de que o jogo está desequilibrado: 58% dos entrevistados acham que o sistema econômico atual beneficia principalmente ricos e poderosos, e mais da metade (53%) apoia taxar grandes fortunas para corrigir a rota.

Em síntese, o que a pesquisa da GFNE mostra é que grande parte do eleitorado concorda com novas políticas econômicas, voltadas ao desenvolvimento do país e à redução das desigualdades.

O eleitorado brasileiro, de direita, esquerda e centro, já sabe o que quer. Até outubro, falta saber qual candidato vai ser capaz de nomear essa economia com a clareza que ela merece.

Lula e Flávio, mais cautelosos que o usual, deixam público dar recados no 7 de setembro

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Tomado já há algum tempo pela política nacional, o feriado da Independência do Brasil este ano foi mais uma oportunidade para os candidatos a presidente reunirem seus apoiadores para passarem seus recados. Mesmo que isso tenha ocorrido de forma mais cautelosa, diante dos riscos de serem enquadrados nas regras mais rígidas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nas eleições deste ano.

Chefes dos três Poderes se reúnem no desfile de 7 de setembro, o que não ocorreu no ano passado

O ato do senador Flávio Bolsonaro, candidato à presidência pelo Partido Liberal (PL), e de seus aliados neste 7 de setembro na Avenida Paulista, em São Paulo, buscou colar Alexandre de Moraes, e o escândalo do Banco Master à Lula. Os discursos foram claros no sentido de que sem Moraes, não existiriam as condenações da tentativa de golpe do 8 de janeiro e uma extrema direita, segundo eles, tão atacada nos últimos 4 anos por Lula e pela Justiça.

Já o financiamento de Daniel Vorcaro ao filme Dark Horse, os áudios de Flávio Bolsonaro para o ex-banqueiro, e os diálogos de Nikolas Ferreira (PL), um dos astros do evento, com o empresário, atualmente preso em Brasília, não foram citados.

A maior parte dos políticos e líderes que se manifestaram no ato/comício tiveram, diferentemente dos anos anteriores, o cuidado de separar o Supremo Tribunal Federal (STF) de Moraes e mediram palavras em relação à corte. “Uma laranja podre não pode contaminar toda a corte. O STF não é Alexandre de Moraes”, afirmou Flávio Bolsonaro.

“Nós não viemos aqui pregar a desmoralização do Supremo Tribunal Federal. Nós não vamos cair nesse jogo. Nós precisamos de instituições fortes. Desgraçar o Supremo é arrebentar com a democracia e com a República”, disse o pastor Silas Malafaia, líder da igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo.

O pastor Silas Malafaia discursa ao lado de Flávio Bolsonaro em evento na avenida Paulista

O pastor, aliás, fez um apelo aos demais ministros da corte para que Alexandre de Moraes seja afastado. No mesmo tom, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que tenta a reeleição, disse que “está na hora de a corte se unir para se defender”.

Tudo isso presenciado por um inflável onipresente do ministro André Mendonça, em estilo anime, olhos arredondados e simpáticos, visível de ambos os lados da Paulista e colocado bem atrás do palco.

Tão envolvido com o tom de protesto, o governador esqueceu, no palanque, de pedir votos para a sua reeleição. Entretanto, ele engrossou o coro daqueles que pediram para eleger os candidatos da aliança da direita ao Senado em São Paulo, tema presente em todos os discursos no palanque. Pesquisas mostram Marina Silva e Simone Tebet, ex-ministras do governo Lula, ligeiramente à frente dos candidatos do PL e PP ao Senado em São Paulo.

Entre as falas mais explícitas contra Moraes, Lula e as condenações do 8 de janeiro estavam as dos deputados federais Alfredo Gaspar (PL), vice na chapa de Flávio Bolsonaro, e Gustavo Gayer (PL).

“Lula e Moraes são duas faces da mesma moeda. Não existe Moraes sem Lula, não existe Lula sem Moraes”, afirmou Gaspar. Gayer pediu a revogação das prisões de Bolsonaro e demais réus do 8 de janeiro, segundo ele porque “Alexandre de Moraes estava recebendo dinheiro de Vorcaro enquanto condenava Bolsonaro”.

Por que isso importa?

  • O primeiro turno das eleições de 2026 ocorrem em menos de 30 dias e o 7 de setembro é uma das principais datas para realização de eventos de campanha para os presidenciáveis.
  • Há cinco anos, em 2021, o feriado da independência foi utilizado para diversas manifestações diante da crise institucional que havia se instituído entre o STF e o governo do então presidente, Jair Bolsonaro.

Público em Brasília cobra fim da escala 6×1

Já em Brasília, na manhã deste feriado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que concorre à reeleição, ainda nem havia aparecido para o desfile cívico-militar no tradicional Rolls-Royce conversível, e parte da plateia, reunida em arquibancadas na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, já cantava o famoso “olê, olê, olá, Lula, Lula”, que embalou a campanha eleitoral de 2022. Outra palavra de ordem entoava “acaba 6×1”, uma das principais pautas do governo, e ponto de campanha constante do presidente que busca seu quarto mandato.

No palanque, a postura foi outra. Lula não se manifestou — ele já havia feito um pronunciamento institucional no domingo, dia 6, com o aval do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e liberação do ministro do STF Nunes Marques, que preside o TSE. Diferente do ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje preso por tentativa de golpe de Estado, que costumava discursar em tom eleitoreiro a apoiadores após o desfile oficial, Lula interagiu com o público fazendo apenas coração com as mãos, em resposta aos coros da plateia de “Lula, guerreiro do povo brasileiro”. Para não infringir as regras eleitorais do (TSE), o governo não entregou aos participantes itens com o tema do ato, “Soberania: A força que une o Brasil”.

Depois do desfile, o presidente voltou a se manifestar apenas nas redes sociais elencando ações do governo em nome da “soberania nacional” e criticou aqueles que trabalham “pelos interesses estrangeiros”. “Há os que jogam contra. Se travestem de patriotas mas militam por interesses estrangeiros. Somos um país soberano, e nossas decisões pertencem a nós e a mais ninguém”, afirmou no X, antigo Twitter.

Diferente do 7 de Setembro de 2025, o chefe do Poder Legislativo, senador Davi Alcolumbre (União-AP) compareceu ao evento neste ano, embora tenha passado a maior parte dele de cabeça baixa, mexendo em seu celular. Sentou-se, inclusive, ao lado de Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). A Fachin caberá decidir os rumos da maior crise institucional já vista na Corte: as denúncias mútuas feitas entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes. No ano passado, o presidente do Supremo, que ainda era o ministro Luís Roberto Barroso, não participou do desfile.

Senador Davi Alcolumbre mexe no celular ao lado do presidente do STF, Edson Fachin

Fachin foi o único integrante do STF a participar do desfile este ano. Outro personagem central na crise, o delegado-geral da Polícia Federal (PF), esteve próximo à Lula em poucos momentos do desfile. Andrei Rodrigues foi citado em conversas de Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Master, divulgadas com a permissão de Mendonça.

Após o embate entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, Fachin vai definir se o caso vai a julgamento aberto no plenário ou se haverá uma reunião a portas fechadas no Supremo, à semelhança do que ocorreu com o ministro Dias Toffoli, também envolvido com o banco Master. Moraes e Mendonça têm até a próxima sexta-feira, dia 11 de setembro, para enviar explicações sobre a disputa ao presidente da Corte.

O evento na Esplanada seguiu o tom institucional, sem cartazes criticando ou aprovando as atuações de Moraes, Mendonça e Lula em relação aos últimos acontecimentos no Supremo. Na tentativa de se descolar do caso, Lula falou a respeito apenas uma vez, em vídeo divulgado na quinta-feira nas redes sociais.

“O escândalo do Banco Master é o maior roubo da história do Brasil. Roubaram milhões de pessoas de muitos estados e municípios. O banqueiro, líder do esquema, tem relações com muita gente poderosa. E foi no meu governo que ele foi preso e seu banco fechado. Há suspeita de políticos e agentes públicos envolvidos. Nossa democracia não pode ficar refém de vazamentos seletivos”, disse o presidente.

Em Brasília, dois eventos foram marcados para protestar contra Moraes. Um foi organizado pelo partido Novo, com a presença do candidato a vice-presidente na chapa de Romeu Zema, Eduardo Girão. O outro, encabeçado pelo PL da capital, contou com a presença da candidata ao Senado e atual deputada federal Bia Kicis (PL-DF). As manifestações acabaram concorrendo entre si e reuniram um número mediano de participantes.

No desfile cívico-militar em Brasília, uma das bandeiras da campanha de Lula e do seu principal oponente, Flávio Bolsonaro, foi protagonista no desfile – o enfrentamento à violência contra mulheres e meninas. Homens e mulheres seguraram cartazes com os dizeres “ligue 180” e “essa luta também é dos homens”. Desde o ano passado, após a onda de feminicídios que estampou o noticiário em novembro e dezembro, o presidente tem mencionado em seus discursos a importância da figura masculina no combate à violência contra as mulheres.

Assim como no ano passado, o governo do Distrito Federal não participou do desfile oficial. A governadora e candidata à reeleição Celina Leão (PP) esteve no evento antes do seu início, onde gravou um vídeo ao lado de membros das forças de segurança. O conteúdo foi publicado nas redes sociais.

Manifestantes em São Paulo seguem com discurso radical e inconstitucional

Apesar de as bandeiras de candidatos terem se destacado entre o público, havia muitos protestos contra Moraes e o Judiciário na manifestação na Paulista, em tom bem mais elevado que as falas no palanque. A começar pelo partido Novo, aliado de Tarcísio em São Paulo, mas que tem Zema como candidato a presidente. O Novo levou à Paulista um inflável pedindo o impeachment de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Tóffoli.

  • Manifestantes em São Paulo carregam mensagens contra o STF e solicitando voto impresso
  • Manifestantes em São Paulo carregam mensagens contra o STF e solicitando voto impresso
  • Manifestantes em São Paulo carregam mensagens contra o STF e solicitando voto impresso
  • Manifestantes em São Paulo carregam mensagens contra o STF e solicitando voto impresso
  • Manifestantes em São Paulo carregam mensagens contra o STF e solicitando voto impresso
  • Manifestantes em São Paulo carregam mensagens contra o STF e solicitando voto impresso
  • Manifestantes em São Paulo carregam mensagens contra o STF e solicitando voto impresso
  • Manifestantes em São Paulo carregam mensagens contra o STF e solicitando voto impresso
  • Manifestantes em São Paulo carregam mensagens contra o STF e solicitando voto impresso

Já o cartaz de um manifestante pregava “desobediência civil”, caso o “sistema Vorcaro-Moraes-STF retirasse André Mendonça da relatoria do caso Master e INSS”. Outro rogava: “Fora Cleptocracia e Coprocracia”. Camisetas queriam Moraes na cadeia ou seu impeachment.

Uma mulher vestida de Justiça com uma espada de plástico na mão. Olhos cobertos, a boca tampada, ela tinha o manto branco que usava coberto com nomes e dados relacionados à Toffoli e Moraes no caso Master, como o resort Tayaya e o contrato de advocacia firmado entre o escritório da esposa de Moraes e o banco.

Também chamavam a atenção na avenida outras associações convenientes no passado, que dessa vez não foram mencionadas no palanque, como o apoio de Trump aos Bolsonaro. Por volta das 15h, havia na Avenida Paulista, em frente ao Masp, um boneco inflável de Trump segurando um pequeno pixuleco de Lula com roupa de presidiário e os números 13-171. Às 15h45, o inflável foi esvaziado e recolhido. Procurado, o PL não se manifestou sobre o sumiço de Trump da Paulista.

Apesar do tom de protesto e do frio (as temperaturas no termômetros da avenida Paulista oscilaram entre 15º e 11º durante a tarde), Flávio Bolsonaro também falou de suas propostas, especialmente na área da Segurança Pública: guerra ao crime organizado, 8 anos de prisão para ladrões de celular, redução da maioridade penal, castração química para estupradores. Falou até de Saúde. O SUS, segundo ele, será “padrão [Hospital] Einstein”.

Os cartazes pedindo voto auditável, voto impresso, já amarelados, jaziam perto da Fiesp, longe do burburinho do evento, que ficou restrito ao entorno do palco, montado na altura da rua Peixoto Gomide, assim como as bandeiras de Israel e as bandeiras mezzo Estados Unidos, mezzo Brasil, encalhadas nas mãos dos ambulantes, como as camisas do Brasil.

O vendedor Weslei, que não quis dizer o sobrenome e pediu para não ser chamado de ambulante, termo que considera pejorativo, foi para a Paulista tentar vender o encalhe de camisetas amarelas não vendidas devido à eliminação precoce do Brasil na Copa. “Se não foi de um jeito vai de outro”, esperava ele, torcendo para que não chovesse e com medo de repressão aos vendedores pela Guarda Civil Metropolitana (GCM).

Segundo a contagem de público feita pelo Monitor do Debate Político – USP/Cebrap, o evento desta segunda-feira na Paulista reuniu, no auge do comício-manifestação, 28,5 mil pessoas na avenida, menos do que as 42 mil que foram ao protesto de 7 de setembro de 2025, antes de Bolsonaro ser preso.

O 7 de setembro de outros candidatos

Mesmo com percentuais de intenção de votos menores, os demais candidatos à cadeira presidencial também participaram de atos neste 7 de setembro. Em São Paulo, Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) também se manifestaram contra o STF.

Ex-governador de Minas, Zema esteve na avenida Paulista na manhã desta segunda-feira. Ele estendeu um painel com a frase “chega de intocáveis” e imagens de bonecos representando os ministros do STF Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, segundo matéria do G1. Alguns militantes se reuniram com o candidato em frente ao MASP de manhã, em um ato esvaziado.

Já Renan Santos reuniu seus apoiadores de manhã no Parque Ibirapuera, também na capital paulista. Segundo a Folha, o presidenciável defendeu a prisão dos ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, ambos suspeitos de terem negócios familiares envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master. Santos criticou os dois líderes das pesquisas eleitorais, Lula e Flávio Bolsonaro. Para ele, Lula imporia ao país um regime autoritário de esquerda e Bolsonaro uma oligarquia de corruptos do Centrão. Também presente à manifestação, o deputado federal candidato à reeleição, Kim Kataguiri (Missão-SP) acusou adversários políticos de omitir o escândalo do Banco Master por “canalhice” e “covardia”.

No Rio de Janeiro, o candidato do Avante, Augusto Cury, reuniu cerca de 1,4 mil pessoas, segundo o portal G1, em Copacabana. O candidato fez um aceno ao ministro André Mendonça durante o ato. Ainda afirmou que, em seu governo, ninguém será poupado, se referindo às suspeitas de conduta irregular do ministro Alexandre de Moraes, agravadas por ação do ministro Mendonça.

Quase Terça

Tá difícil de acompanhar as notícias? Quando você se dá conta, a segunda-feira já está quase no fim? Calma, ainda dá tempo de parar e ficar sabendo de tudo que você precisa para enfrentar a semana. 

No fim da segunda-feira, os diretores da Agência Pública, Natalia Viana e Thiago Domenici, se encontram na live Quase Terça, no YouTube, para comentar e resumir quais vão ser os principais acontecimentos da semana. Quais temas dos últimos dias seguem rendendo? O que vai pegar fogo nos próximos dias? 

Os apresentadores vão usar toda sua experiência jornalística para te ajudar a navegar o caos informacional do dia a dia. Juntos, Natalia e Thiago somam mais de 25 prêmios por seu trabalho na Agência Pública e já lideraram diversas coberturas investigativas de impacto: Natalia investigou por anos a parceria do FBI com a operação Lava Jato e Thiago esteve à frente das reportagens e do podcast que revelaram os abusos sexuais em série cometidos por Samuel Klein, fundador das Casas Bahia.

Na live, cada um dos apresentadores apostam em uma “Treta da Semana”. No quadro, eles debatem de forma bem-humorada qual assunto vai dominar as notícias e as conversas nos dias seguintes. O público também vai ser convidado a participar da treta, com seus palpites sobre os principais assuntos da semana.

Natalia e Thiago também recebem na conversa repórteres da Agência Pública e especialistas convidados para ajudar a contar aos espectadores o que vem por aí. 

Confira toda segunda ao vivo no YouTube às 17h30, e toda terça bem cedo no Spotify!

Estreia hoje programa de análises Quase Terça; assista no YouTube

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Xeque na Democracia, enviada toda segunda-feira, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

Você tem tempo de ler tanta notícia? Apenas na última semana, tivemos as revelações sobre o estilo de vida de Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro nos EUA, o valor dos repasses de Vorcaro para o filme Dark Horse chegando a mais de 14 milhões, a ação kamikaze do ministro do STF André Mendonça revelando o que tudo indica ser uma relação espúria de Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro, um depoimento “clandestino” sem a PF do mesmo banqueiro, novos encontros com o próprio Mendonça e recados amorosos de Nikolas Ferreira. Ufa!

Não dá pra acompanhar tudo, e aqui na Pública nós gostamos de fazer as coisas com tempo. Por isso, decidimos lançar um programa semanal no YouTube, onde você, junto com a gente, vai destilar o que vale e o que não vale prestar atenção na guerra informacional e no noticiário. Afinal, sabemos que quando há grupos em disputa, a própria imprensa vira arma de vazamentos e é muito difícil entender o que importa.

Por isso, calma lá. O Quase Terça vai ao ar todas as segundas-feiras a partir das 17:30 e, nele, eu e meu grande companheiro Thiago Domenici, também diretor da Pública e chefe da sucursal de Brasília, vamos nos aprofundar em dois temas que devem (ou deveriam) pautar a semana, além de trazer os bastidores dos furos da Agência Pública e entrevistas inéditas. Tudo para você ficar bem informado sobre o que se passou e o que pode se passar na semana que começa.

Se aprendemos alguma coisa nestes últimos 15 anos desde a fundação da Agência Pública, é que no Brasil sempre tem uma história por trás da história, e que nada está garantido. Reviravoltas na vida política nacional são a regra, assim como o fato inegável que nossa democracia está sob ataque e tem muita gente querendo enfraquecê-la.

Tanto os direitos da maioria quanto órgãos de controle, os famosos pesos e contrapesos necessários para limitar a influência de homens poderosos, estão sempre no alvo.

Quem é quem neste jogo? A quem servem jogadas ensaiadas? De onde vem informações bombásticas e a quem servem? É isso que tentaremos destrinchar no programa, com a tranquilidade de quem acompanha as notícias, mas não se deixa levar pela enxurrada – e dorme à noite sem peso na consciência.

Logo na estreia, vamos analisar como foram os comícios e protestos de 7 de Setembro em todo o Brasil, lembrando como a data foi cooptada pelo bolsonarismo na última década. Para aprofundar a conversa, traremos detalhes importantíssimos do livro “Eu disse não! Uma trincheira antigolpista”, escrito pelo ex-comandante da Aeronáutica Carlos Baptista Júnior.

Além disso, vamos olhar para o que sobra da crise interna no STF e ir além: em diálogo com o nosso colunista James Green — brasilianista, professor emérito da Brown University e co-coordenador da Rede nos Estados Unidos pela Democracia no Brasil —, analisaremos a ingerência norte-americana que já está ocorrendo nas nossas eleições e discutir como nossa sociedade pode e deve se preparar para reagir a elas. 

Clique aqui para ativar o sininho e ser avisado da nossa live!

Te espero por lá!

E se você perdeu, pode ainda ouvir no Spotify na terça cedinho!

Semana tem presidenciáveis no 7 de setembro e STF na apuração sobre denúncias de ministros

Nesta segunda-feira, 7 de setembro, candidatos à Presidência da República cumprem agendas voltadas para as comemorações pelo Dia da Independência do Brasil. Na avenida Paulista, em São Paulo, um ato foi convocado pelo candidato e senador, Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

O presidente Lula, candidato à reeleição, estará presente ao tradicional Desfile Cívico-militar na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Os temas deste ano abrangem a luta contra a violência à mulher, a soberania nacional e a Copa do Mundo Feminina, que o Brasil sediará entre os dias 24 de junho e 27 de julho de 2027.

No Rio de Janeiro, o candidato do partido Avante, Augusto Cury, participa da “Caminhada da Independência Cury Brasil”. Com o trajeto entre o Posto 6 em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, até o Posto 5, a concentração irá começar às 9 horas.

Em Brasília, o Partido Novo convoca seus aliados para participar de uma manifestação no feriado contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. O ato está marcado para às 9h, em frente ao Banco Central, local próximo de onde estará ocorrendo o desfile oficial. O candidato do Novo à presidência, Romeu Zema, não confirmou presença e é esperado no mesmo evento de Flávio Bolsonaro em São Paulo.

Atenção segue voltada para o Supremo

As denúncias trocadas entre os ministros do STF André Mendonça e Alexandre de Moraes, que devem ser tema nos eventos eleitorais desta segunda-feira, também mobilizam a Corte nesta semana. O presidente Edson Fachin deve ouvir manifestações do ministro André Mendonça e da Procuradoria-Geral da República (PGR) a respeito do pedido de investigação sobre abuso de poder e improbidade administrativa supostamente praticados por Mendonça feito pelo ministro Alexandre de Moraes na última quinta-feira, 3 de setembro.

Por sua vez, Mendonça tirou o sigilo do relatório da Polícia Federal (PF) das conversas entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master. Ele solicitou que o plenário do STF avaliasse o material para decidir se Moraes deveria ser investigado.

TSE julga pedidos de intervenção federal no Piauí e no Maranhão

Com menos de um mês para o primeiro turno das eleições, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) julga nesta semana as requisições dos Tribunais Regionais Eleitorais do Piauí e do Maranhão, de uso da Força Federal, composta por militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. O objetivo é assegurar o livre exercício do voto nas eleições de 2026. As capitais, Rio de Janeiro (RJ), Fortaleza (CE), municípios distantes e aldeias indígenas de Rio Branco, capital do Acre, fizeram a mesma solicitação e já tiveram os pedidos aceitos pelo TSE.

Estão na agenda da semana de 7 a 11 de setembro:

  • TSE
    • Prestações de Contas (09/9): Partidos e candidatos devem enviar à Justiça Eleitoral a prestação parcial das contas das movimentações financeiras e estimativa para campanha desde o início da campanha até 8 de setembro.
  • STF
    • Marco Civil da Internet (ADC 91, 09/9, 14h): Ministros voltam a debater sobre o parágrafo 1° do artigo 10 do Marco Civil da Internet, que permite o compartilhamento de registros de conexão e de acessos na internet apenas com autorização judicial prévia.
    • Investigações feitas por delegados (ADI 5073, 09/9, 14h): Ministros discutem sobre a Lei 12.830/2013, que aborda investigações criminais conduzidas por delegados policiais. A Confederação Brasileira de Trabalhadores Policiais Civis (Cobrapol), que ajuizou o caso, argumenta que a lei retoma privilégios já extintos na Constituição Federal de 1998.
    • Dados pelos delegados da polícia (ADI 5059, 09/9, 14h): Julgamento em conjunto com as ADI 5073 e a ADC 91, ministros julgam a constitucionalidade do parágrafo 2° do artigo 2 da Lei 12.830/2013, que possibilita aos delegados requisitarem dados, informações, documentos e perícia sem autorização judicial.
    • Ministério Público do Amazonas (ADI 7512, 09/9, 14h): Ministros vão julgar se a lei do Amazonas nº 3.147/2007, que estabelece que 10% dos cargos comissionados devem ser reservados para efetivos do MPAM, viola regra do concurso público, os princípios da moralidade, da impessoalidade e da eficiência.
    • Créditos do ICMS (RE 835818, 09/9, 14h): Recurso Extraordinário avalia se os créditos presumidos de Imposto de Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) podem ou não compor cálculo do PIS e da Cofins.
    • Proibição de divisão de lucros (ADI 5161, 09/9, 14h): Ação, ajuizada pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (CFOAB), questiona se o artigo 32 da Lei nº 4.357/1964, que proíbe empresas com dívidas ativas na União a distribuir lucro, com multa de 50% dos lucros distribuídos.

Como uso da violência para responder problemas de segurança virou aposta para ganhar votos

No dia 11 de agosto, Cláudio Rafael Landeiro, 37, foi linchado nas ruas de Copacabana, no Rio de Janeiro. Ele parou em um estabelecimento comercial com a bicicleta da irmã, quando seguranças particulares e alguns entregadores, que estavam por perto, o acusaram de ter roubado a bicicleta que conduzia. Cláudio foi atacado com socos, chutes e pauladas, não resistiu aos ferimentos e morreu.

O caso expõe uma prática que não é nova no Brasil, mas tem ganhado força nos discursos políticos às vésperas das eleições: o uso da violência como resposta aos problemas de segurança pública. Para discutir o tema, o Pauta Pública recebe o jornalista e pesquisador Bruno Paes Manso, autor de A República das Milícias e A Fé e o Fuzil. Na entrevista a Andrea Dip, ele comenta o caso do ciclista e reflete sobre os discursos que associam violência à produção de ordem.

“Essa ideia de que a violência tem um aspecto pedagógico, que a violência produz ordem, está muito arraigada na crença e no cotidiano do brasileiro, e gera tragédias. A violência, em vez de produzir ordem, produz covardia e desordem.”

Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.

EP 232 A violência como promessa em ano eleitoral – com Bruno Paes Manso

4 de setembro de 2026 · Jornalista e pesquisador fala sobre o avanço do discurso de violência e seus efeitos no Brasil

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O Brasil registrou 227 casos de linchamento em 2025 e nesse ano, até maio, já eram 88 casos. Como você vê o episódio com esse ciclista e como ele se conecta com o que parece ser um crescimento desse “justiçamento”? 

Eu acho que faz parte da linguagem das redes sociais hoje, o linchamento. Faz parte desse universo em que você, de repente, identifica um bode expiatório e vai todo mundo contra ele com força e junto, porque é muito covarde. Normalmente o linchamento tem esse componente de covardia. 

E, nesse caso, acaba, de alguma maneira, indo para as ruas porque, principalmente no cotidiano das cidades, essa criminalidade ligada ao roubo e furto de celulares é muito presente. Isso acumulando um ranço, um ódio e uma tentativa de controlar o problema. E você começa a ter uma articulação entre pessoas que se oferecem como dispostas a solucionar esse problema. 

Parece que foi justamente o que aconteceu neste grupo. Rapidamente eles se articularam e, de alguma maneira, tentaram usar a violência como forma de dar uma lição e a gente vê isso fazer parte da história do Brasil, de uma forma geral. 

Essa ideia de que a violência tem um aspecto pedagógico, que a violência produz ordem, está muito arraigada na crença e no cotidiano do brasileiro e gera tragédias. A violência, em vez de produzir ordem, produz covardia e desordem.

Em 2025 aconteceu o massacre da Penha-Alemão, a Operação Contenção, com imagens terríveis de corpos enfileirados nas ruas, mais de 120 mortos. Depois, uma pesquisa da Genial/Quaest saiu dizendo que mais de 67% dos brasileiros aprovavam a operação. Você acha que o Rio tem um componente especial nessa violência? E o que essa aprovação representa? 

O Rio tem um aspecto bem próprio da história do crime na cidade e do que isso acabou gerando, porque, em primeiro lugar, você tem o aspecto que a governança criminal está muito ligada ao controle territorial armado dos territórios. Desde a época do jogo do bicho. Mas quando chegou o tráfico de drogas, esse controle territorial armado significava que o mercado da droga era conquistado a partir do controle do bairro vizinho, o que acabava gerando muitos conflitos.

Então, você tem um caldeirão de medo, ressentimento e ódio muito grande. Ao mesmo tempo, nos morros, onde esses grupos controlam e tiranizam os territórios, dependendo do grupo, você tem as incursões da polícia cotidiana. Então, sete da manhã as mães estão indo trabalhar, os filhos estão indo para a escola e começam aqueles tiroteios por causa das operações policiais.

Ao mesmo tempo tem os proibidões, os bailes funk e toda essa cena de droga que de alguma maneira acaba sendo associada ao descontrole, à irracionalidade, ao prazer em excesso e as mães morrem de medo que seus filhos sejam seduzidos por isso e se tornem viciados ou trabalhando para o crime, a tensão é muito grande nesses lugares. 

E, por causa disso, uma operação como aquela, que causou 122 mortes, muitas vezes é usada como uma forma de manipular esse medo pelos governantes. Era uma coisa que o Cláudio Castro vinha fazendo quando a candidatura dele estava fragilizada, para atiçar e manipular esses medos, para continuar no poder com suas conexões com o crime e com as facções, enganando a população, porque, mais uma vez, as pessoas acreditam que violência produz ordem e produz efeitos pedagógicos. Então, ele continua apostando na desordem para que as pessoas tenham medo e ele possa manipular esse medo, ganhar dinheiro e poder com a guerra.

Agora, Bruno, existe também um componente racial nessa ideia de quem é o bandido que precisa morrer…

Com certeza. Isso faz parte da nossa história. A gente não consegue entender o que está acontecendo hoje, no fundo, sem pensar nos nossos mais de 500 anos de história. Então, você tem 450 anos de um Brasil rural, 350 anos de escravidão. As pessoas vivem nas cidades de 50 em diante. Até então, viviam num ambiente rural e nos latifúndios com coronelismo muito presente. 

Laços de vizinhança e religiosos, muito próprios do ambiente rural, migram para as cidades, começam a despertar o medo das pessoas que vivem nas cidades, que começam a usar a violência policial como forma de tentar produzir algum tipo de ordem. Isso começa a gerar ciclos viciosos, mas sempre com o negro, com o preto e com o pardo, visto como aquele que ameaça, visto como cidadão perigoso, que mora num lugar que tem uma idade específica, que tem um gênero específico.

Então, o homem jovem, morador de periferia, negro, é visto como essa ameaça e a guerra se volta contra eles. Ao mesmo tempo, o aprisionamento passa de 90 mil para 900 mil. Quem vai para as prisões são essas pessoas que vivem nesses bairros considerados perigosos, que são presos em flagrante. E aí, começa uma articulação dentro das prisões voltada para gerir o crime. Mas é uma questão muito focada na raça e focada na nossa história de injustiças, colonização e industrialização – e como é que isso é reinventado nas cidades, como as polícias passam a lidar com isso, como a justiça passa a lidar com isso? E os efeitos colaterais que isso provoca, os ressentimentos, os ódios.

Entregadores de iFood estavam falando que era bom, por exemplo, se pôr em risco ou fazer sacrifícios no seu trabalho, porque isso era ‘ser homem’, era ser ‘macho’. O transbordamento da violência, do punitivismo, do “justiçamento” se relacionam com essa exacerbação de um masculinismo?

Sem dúvida. Como escrevo sobre homicídios, eu acabo sendo um pesquisador de comportamentos relacionados ao gênero masculino, porque 95% dos homicídios são feitos por homens, isso independente da idade, independente da classe, independente do país, independente do tempo na história. Poucos comportamentos são tão vinculados a gênero como a violência. Então, é algo que se faz pensar a respeito das masculinidades. 

Eu acho que a gente vive justamente esse momento de crise, de transformações históricas muito profundas, e uma das mudanças mais importantes e mais fundamentais e estruturais tem a ver com o gênero, com o feminismo e com o papel que as mulheres passam a ter na sociedade na cidade. 

Depois de mais de 5 mil anos com o homem mandando e controlando e estabelecendo o cotidiano e a estrutura da rua e da casa, de alguma maneira essa mudança da presença das mulheres no dia a dia, no trabalho, na política e tudo mais, causa uma insegurança muito grande, e aí a violência e guerra surgem como o último artifício da masculinidade em crise.

O uso da força é a única forma de você restituir uma autoridade perdida. É uma maneira de você tentar voltar para o passado, ao que era antigamente, você impor sua autoridade e ser obedecido porque você é violento, porque você é mais forte fisicamente. É um ato meio desesperado de uma masculinidade em crise com essa transformação dos tempos.

Hoje em dia, a sensação é que os gêneros nunca estiveram tão descolados, tem uma dificuldade de diálogo e a sensação é, um pouco, que os homens estão indo para um caminho e as mulheres estão indo para outro. Então, esses interregnos são sempre muito complicados. A gente não sabe para onde vai com uma disputa permanente acontecendo.

A Mão Invisível das Big Techs

Quando o economista escocês Adam Smith, conhecido como pai do liberalismo, falou no século 18 sobre “a mão invisível do mercado”, ele previa que ao buscar seu próprio benefício os indivíduos poderiam favorecer o conjunto da sociedade. Mas Smith também advertiu que os comerciantes costumam mancomunar-se e manipular as regras a seu favor e que o Estado deve evitar monopólios e garantir bens públicos. Hoje está claro que, se não fiscalizadas, Big Techs e demais empresas atuam como Smith temia: moldam as leis, cooptam governos e manipulam a opinião pública em benefício próprio.

Diante de avanços legislativos, existe um setor que tem se destacado nas ações de lobby anti-regulação em todo o mundo: as Big Techs, um grupo seleto de companhias bilionárias como Meta (dona do Facebook, WhatsApp e Instagram), Alphabet (dona do Google), Amazon, Microsoft e Apple – conhecida como as “Big Five” – e outras, como a chinesa ByteDance (dona do TikTok), a gigante argentina Mercado Livre, e novos players da corrida pela inteligência artificial, como a OpenAI. 

Juntas, as gigantes da tecnologia têm um impacto maior em todos os aspectos da vida das pessoas do que muitos governos. No entanto, diferentemente dos governos, cujo objetivo é servir ao público e que têm de responder a ele, as Big Techs têm como objetivo maximizar lucros e prestar contas a seus acionistas.

Há poucos dados sobre como elas agem para influenciar legislações. Hoje, as Big Techs são o setor que mais gasta em lobby na União Europeia, onde são obrigadas a declarar seus investimentos. Em 2024, o setor gastou 67 milhões de euros, um aumento de 57% desde 2020. Nos Estados Unidos – onde também são forçadas a publicizar seu gasto em lobby, elas gastaram 61 milhões de dólares no mesmo ano, um aumento de 13% em comparação com 2023. Para abrir portas com a administração Trump, empresas como Amazon, Meta, Google e Microsoft doaram 1 milhão de dólares cada para o comitê da cerimônia de posse, e os CEOs se enfileiraram durante o evento.

Pela primeira vez, uma investigação colaborativa e transfronteiriça conseguiu identificar quase 3 mil ações de lobby das Big Techs realizadas em parlamentos e governos de todo o mundo, que podem ser acessadas nesta base de dados interativa. Também registramos processos judiciais e projetos de lei envolvendo as regras do jogo na indústria de tecnologia.

Conheça aqui as táticas de lobby identificadas neste projeto e a nota metodológica.

Explore o lobby das Big Techs em 2.977 ações de influência: clique e navegue no painel interativo

Tornar visíveis a “mão invisível” das Big Techs é uma tarefa que as organizações participantes deste projeto consideram urgente. Por isso, todas realizam um disclaimer coletivo sobre financiamentos recebidos de empresas tecnológicas atualmente ou no passado. Veja aqui a lista completa.  

Depois do lançamento, a RSF publicou um comunicado sobre as revelações:

“Essa investigação inédita, conduzida com ajuda da RSF, mostra a enorme influência que as grandes corporações de tecnologia exercem sobre decisões estratégicas que afetam diretamente o futuro do jornalismo, seja por meio de lobbies contra legislações democráticas ou de esforços para evitar uma remuneração justa pelo conteúdo jornalístico. O projeto confirma a necessidade de enfrentar o desequilíbrio de poder que favorece as grandes plataformas online em detrimento da saúde das sociedades democráticas. Se legisladores cederem ao lobby das big techs, o futuro do jornalismo estará ameaçado — assim como o direito dos cidadãos a acessar informação confiável.

Artur Romeu, Diretor da RSF América Latina

Mas como as Big Techs operam no resto do mundo? 

As grandes empresas de tecnologia têm mais dinheiro do que muitos países. Segundo seu relatório financeiro, a Alphabet, dona do Google, teve uma receita de 350 bilhões de dólares em 2024, quase o equivalente ao PIB do Chile, três vezes o do Equador e dez vezes o de El Salvador. A Meta teve uma receita de 164 bilhões de dólares em 2024, mais de três vezes a produção econômica do Paraguai. A receita da Amazon no ano passado foi de quase 638 bilhões de dólares, um valor equivalente ao PIB da Argentina e um terço do PIB brasileiro.

Seu poder de barganha é maior em países menos desenvolvidos, e as Big Techs sabem usá-lo. Em alguns países – como é o caso da maioria dos países da América Latina e do Sul Global, inclusive o Brasil – o lobby não é regulamentado, e, portanto, é ainda mais difícil registrar ações de lobby e mensurar em que medida elas afetam as regulações aprovadas no Congresso. 

Mas essas mãos que moldam as sociedades não devem continuar agindo nas sombras. Esse trabalho é feito por profissionais bem pagos que fazem parte de operações complexas, chamados internamente de “relações governamentais”, ou “assuntos públicos”. Estes departamentos, por sua vez, contratam terceiros para atuar em seu nome, como escritórios de advocacia ou associações empresariais. Essas operações investem em maneiras de construir e manter relacionamentos com autoridades, distribuindo benesses; promovem reuniões privadas, happy hours e jantares após o expediente; e forjam alianças com base no acesso às suas tecnologias.

Para a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), lobby e atividades de influência são “ações realizadas diretamente ou por meio de qualquer outra pessoa física ou jurídica, dirigidas a funcionários públicos no exercício do processo de tomada de decisão, às suas partes interessadas, à mídia ou a um público mais amplo, e que visam promover os interesses dos agentes de lobby e influência com referência aos processos de decisão pública e processos eleitorais”.

Estratégias de lobby frequentemente extrapolam o relacionamento com agentes públicos e podem incluir campanhas de manipulação da opinião pública, da imprensa, financiamento para institutos e até para a produção de conhecimento científico.

Sarah Wynn-Williams, ex-executiva do Facebook, descreve em seu livro, “Careless People”, como seus chefes na empresa de tecnologia, surpresos com seu próprio poder e ingênuos, começaram a negociar com os governos do mundo e, movidos apenas pelo lucro, acabaram “crescendo rápido e infringindo leis”. A autora estava parafraseando com ironia o slogan de Mark Zuckerberg, fundador e controlador da Meta: “Movam-se rápido e quebrem as coisas”.  

Para documentar como funcionam essas operações de lobby, o projeto A Mão Invisível das Big Techs vai publicar três séries de reportagens que descortinam como estas corporações têm buscado moldar leis e regulações, atuado judicialmente contra governos e realizado operações de influência para evitar regulações que buscam mitigar seus impactos negativos sobre a sociedades e sobre a política; como têm influenciado o debate sobre a informação pública; e qual é o impacto ambiental dos datacenters.

Big Tech

A Mão Invisível das Big Techs é uma investigação transnacional e colaborativa liderada pela Agência Pública e o Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP), em conjunto com Crikey (Austrália), Cuestión Pública (Colômbia), Daily Maverick (África do Sul), El Diario AR (Argentina), El Surti (Paraguai), Factum (El Salvador), ICL (Brasil), Investigative Journalism Foundation – IJF (Canadá), LaBot (Chile), LightHouse Reports (Internacional), N+Focus (México), Núcleo (Brasil), Primicias (Equador), Tech Policy Press (EUA) e Tempo (Indonésia). O projeto tem o apoio da Repórteres Sem Fronteiras e da equipe jurídica El Veinte, e identidade visual da La Fábrica Memética.

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África do Sul abre portas para data centers, mas leis ainda tratam unidades como armazéns

Essa matéria foi realizada com o apoio do Pulitzer Center e é parte do etapa africana da “Mão Invisível das Big Techs”, um projeto transnacional liderado pela Agência Pública e pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP).

Todos os dias, Ncediwe Vanqa, de 66 anos, caminha de sua casa de 18 m² em Barcelona, uma ocupação informal em Gugulethu, na Cidade do Cabo, até uma torneira comunitária. Vanqa chega a fazer esse percurso sete vezes por dia. Ela usa uma fossa comunitária e, em situações de emergência, um balde. Para economizar eletricidade, assa pão usando um aquecedor a parafina e aproveita o calor para aquecer sua casa.

No entanto, do outro lado da estrada, a menos de dois quilômetros de distância, a Cidade do Cabo abriu as portas para uma infraestrutura que pode operar em uma escala completamente diferente. Em julho, o Tribunal de Planejamento da cidade aprovou um pedido apresentado pela King Air Industria, um parque industrial e logístico avaliado em dezenas de milhões de dólares, para dois data centers que, segundo documentos, ficarão a serviço da Equinix, uma multinacional norte-americana.

No entanto, a Equinix, uma das maiores operadoras de data centers do mundo e importante fornecedora de infraestrutura para empresas como Amazon, Microsoft e Google, nega essa versão dos fatos.

A expansão da empresa na Cidade do Cabo é o tema da nova reportagem do projeto transnacional “A Mão Invisível das Big Techs”, que investiga como as maiores empresas de tecnologia do mundo fazem lobby para influenciar leis e políticas públicas a fim de evitar a regulação em vários países.

A Equinix disse ao The Continent que “não apresentou nenhum pedido de planejamento de data center na Cidade do Cabo”. 

Mas os registros oficiais do município mostram que a Equinix se reuniu com autoridades pelo menos três vezes para discutir seus planos. Dezenas de documentos também vinculam o pedido de uso do terreno ao projeto da Equinix para o local.

No centro da disputa está a quantidade de água e eletricidade que os data centers hyperscale da Equinix irão exigir. Data centers hyperscale são conhecidos pelo consumo exorbitante de água e/ou eletricidade para resfriar as máquinas.

Em construção: do outro lado da estrada, data center da King Air Industries, na Cidade do Cabo, ficará a serviço da multinacional Equinix

Em seu recurso contra a construção de um desses empreendimentos na Cidade do Cabo, o Legal Resources Centre (LRC), uma organização legal da sociedade civil, estimou que, caso fosse utilizado um sistema convencional de resfriamento por evaporação, os dois data centers poderiam consumir cerca de 4,4 bilhões de litros de água por ano. 

Isso equivale a quase 11 milhões de litros por dia, aproximadamente o consumo diário de água de 68.500 moradores da Cidade do Cabo, com base na referência de consumo médio da cidade. 

Para uma cidade que por pouco não chegou ao “Dia Zero” durante a seca de 2018, a demanda potencial é significativa. A data se referia a uma previsão de que registros de água das residências e do comércio da Cidade do Cabo poderiam ser fechados por causa do baixo nível dos reservatórios.  

A Equinix não respondeu às perguntas sobre os recursos necessários para o data center proposto. No entanto, em seus documentos, a King Air informou ao Tribunal de Planejamento da Cidade do Cabo que os números sobre os recursos seriam apresentados na etapa de planejamento da instalação. 

Nos Estados Unidos, a expansão dos data centers vem enfrentando uma resistência cada vez maior das comunidades. Segundo a Data & Society, um instituto independente de pesquisa e políticas públicas sem fins lucrativos dos EUA, o consumo global de energia dos data centers cresceu 12% em cinco anos e pode dobrar até 2030. 

O uso de água também está aumentando. A organização afirma que o consumo da Meta, Apple, Microsoft e Google cresceu 60% desde 2020. À medida que os data centers se expandem nas comunidades, a Data & Society argumenta que a escolha dos locais onde são construídos se tornou uma decisão cada vez mais política, com consequências para as economias locais, a saúde e o abastecimento de água e energia.

Segundo os documentos apresentados ao Tribunal Municipal de Planejamento, o sistema proposto poderia demandar cerca de 174 MVA. “Se operados continuamente perto desse nível” ao longo do ano, os data centers poderiam consumir aproximadamente 1,4 a 1,5 bilhão de kWh de eletricidade por ano, explicou a Dra. Chantelle van Staden, professora sênior do Departamento de Engenharia Elétrica e Eletrônica da Universidade de Stellenbosch. “Isso poderia equivaler ao consumo anual de eletricidade de 250 mil moradias da Cidade do Cabo”, afirmou Van Staden.

Essa falta de informações preocupou pelo menos um dos integrantes do tribunal quando o órgão analisou a aprovação do uso do terreno, em julho. “A maioria de nós não sabe o que é necessário em termos de demanda de água e eletricidade para uma instalação que nos pediram para aprovar, já que nenhum detalhe a esse respeito foi disponibilizado”, afirmou Wally Johnstone, integrante do painel do Tribunal Municipal de Planejamento, em reunião no dia 14 de julho de 2026. Johnstone foi o único dos cinco integrantes do painel a se opor à aprovação do uso do terreno para os data centers.

A prefeitura nega que o empreendimento tenha sido aprovado sem uma avaliação adequada e afirma que seu Departamento de Energia havia concluído que haveria fornecimento suficiente. Os documentos apresentados ao tribunal também revelaram que a Equinix já havia pago “encargos de rede compartilhada para 160 MVA” de capacidade, no valor de cerca de 2 milhões de dólares. A prefeitura afirmou que alguns detalhes técnicos seriam avaliados posteriormente.

Moradores buscam água com baldes, no assentamento de Barcelona, a dois quilômetros do futuro data center da Equinix
Moradores buscam água com baldes, no assentamento de Barcelona, a dois quilômetros do futuro data center da Equinix

Do outro lado da rede elétrica

Semanas antes do tribunal aprovar o pedido da King Air, a Protetora Pública [cargo similar ao promotor público no Brasil] Kholeka Gcaleka  divulgou conclusões sobre a prestação de serviços municipais nas comunidades de Langa e Khayelitsha, próximas aos data centers propostos pela Equinix.

Khayelitsha e Langa são duas comunidades muito povoadas e predominantemente pobres, localizadas a menos de 10 quilômetros do local proposto para a instalação dos data centers. Em junho, após quatro anos de investigação, o Protetor Público, órgão similar ao Ministério Público, concluiu que a Cidade do Cabo não havia fornecido serviços básicos adequados aos moradores, incluindo água, saneamento e eletricidade. As falhas foram consideradas suficientemente graves para configurar “má administração” e “prejuízo”.

A prefeitura informou à reportagem que restrições orçamentárias, acúmulo de déficits de infraestrutura e demandas concorrentes por prestação de serviços haviam impedido a solução de alguns desses problemas. A Protetora Pública reconheceu as pressões financeiras, mas concluiu que elas não eximiam a cidade de suas obrigações constitucionais, e que as falhas sistêmicas na prestação de serviços continuavam apesar de algumas melhorias.

Para moradores e membros do movimento social por moradia Housing Assembly, como Vanqa, citada no início da reportagem, a questão é saber quem terá acesso aos recursos escassos. O LRC afirmou ao tribunal que sua objeção tem origem “em um contexto de restrições agudas e sobrepostas de recursos na Cidade do Cabo, onde os sistemas de terra, água e energia já estão sob pressão significativa”.

Data center hyperscale não é armazém

A África do Sul não é nova na área de data centers. O diretório Data Centre Map lista 64 unidades em operação no país e outras dez planejadas. Mas as instalações hyperscale trazem demandas de infraestrutura de outra ordem, com necessidades de eletricidade que podem chegar a centenas de megawatts. A regulamentação n ão acompanhou esse ritmo. 

A África do Sul não tem uma política nacional específica para data centers, enquanto a Cidade do Cabo não possui uma categoria determinada de uso do solo para instalações hyperscale. “Os data centers geralmente são enquadrados no uso comercial/industrial”, disse a prefeitura ao The Continent. Por isso, estas unidades podem ser avaliadas segundo as regras existentes para instalações industriais ou armazéns.

Johnstone classificou a categoria como “totalmente inadequada” e acrescentou que é “simplista considerar um data center como um armazém que apenas guarda sistemas computacionais”. O LRC foi além, descrevendo a classificação como “claramente incorreta e potencialmente enganosa”.

Ao comentar a legislação que classifica data centers como armazéns, Grant Oosterwyk, professor sênior de sistemas de informação da Universidade da Cidade do Cabo, que já trabalhou em um data center de pequena escala, afirmou que a abordagem atual cria um ponto cego artificial.

“Isso permite que essas instalações evitem as avaliações básicas de impacto industrial que uma instalação dessa escala normalmente teria de enfrentar em um marco moderno de planejamento”, disse Oosterwyk.

“Tratar uma instalação de 100 MW, com sistemas de resfriamento em escala industrial, geradores pesados a diesel e circulação contínua de veículos pesados como um simples armazém é um grande descompasso regulatório. A categoria não acompanhou o ritmo da infraestrutura que está sendo construída dentro dela.”

O que a Cidade do Cabo não diz sobre seus projetos de data centers

O empreendimento proposto pela Equinix também não é o único projeto hyperscale em estudo na Cidade do Cabo. Brett Herron, membro da Assembleia Legislativa da Província do Cabo Ocidental (onde está localizada a cidade), disse ao The Continent que a Cidade do Cabo está avaliando mais projetos do tipo.

Ele citou as instalações propostas pela Equinix na King Air, a expansão planejada de 60 MW da Teraco e o projeto anunciado Cosmas Data Cities, do Cavaleros Group, com capacidade de 360 MW. Herron calcula que a demanda potencial combinada desses projetos seja de aproximadamente 580 MW. 

Com base em informações disponíveis publicamente, ele estima que, se todos os projetos fossem construídos com as capacidades anunciadas, eles seriam equivalentes a cerca de 35% da atual demanda máxima de eletricidade da Cidade do Cabo.

O vice-prefeito Eddie Andrews afirmou que a Cidade do Cabo aprovou cinco data centers e tem outros dois em análise. Mas a prefeitura não informou quais empresas estão por trás desses projetos, usando a Lei de Proteção de Informações Pessoais (POPIA) como justificativa. A prefeitura não explicou quais dispositivos da lei a impediam de divulgar informações sobre a carga de energia ou por que a demanda de cada projeto não poderia ser divulgada.

Além dessas informações, Lance Greyling, diretor de Desenvolvimento Econômico e Investimentos da cidade, confirmou que se reuniu com a Equinix três vezes entre julho de 2025 e junho de 2026, todas a pedido da empresa.

No primeiro encontro, em julho de 2025, Greyling disse que a Equinix lhe comunicou “sua intenção de investir em data centers na Cidade do Cabo”. Quatro meses depois, Greyling e outras autoridades municipais e representantes da província do Cabo Ocidental se reuniram com a empresa depois que ela havia comprado o terreno para a King Air Industria. Segundo Greyling, a Equinix discutiu “suas intenções para o empreendimento proposto”. Em uma terceira reunião, em junho, a empresa apresentou uma atualização do seu planejamento.

“Já me reuni com a Equinix a pedido da empresa, mas em nenhum momento tive discussões sobre aprovações previstas em lei”, disse Greyling. No entanto, nenhuma ata foi registrada. Ele disse que seu papel é dialogar com potenciais investidores e promover a Cidade do Cabo como um local de crescimento econômico, desde que eles cumpram os requisitos legais necessários.

Na África do Sul, reuniões entre autoridades públicas e investidores privados não são divulgadas ou regulamentadas de forma sistemática. Não há evidências de que a Equinix tenha influenciado o processo de aprovação previsto em lei, mas a empresa se reuniu repetidas vezes com o Escritório de Promoção de Investimentos da Cidade do Cabo à medida que seus planos para os data centers avançavam. Como não foram registradas atas, não há registro público do que foi discutido.

O The Continent entrevistou dois vereadores que disseram que as implicações da expansão dos data centers não haviam sido amplamente debatidas no conselho municipal. Khalid Sayed, líder do partido ANC na província do Cabo Ocidental, disse ao The Continent que os data centers, incluindo suas demandas por água e eletricidade, quase não foram discutidos nos fóruns políticos. Segundo ele, isso pode refletir tanto uma falta de compreensão sobre o tema quanto uma falha de fiscalização.

Não é só a Cidade do Cabo

A Cidade do Cabo não é a única no país a lidar com a questão. A Prefeitura da metrópole eThekwini, que abriga a cidade de Durban, reconheceu que seu plano urbanístico não possui uma definição específica para data centers hyperscale ou de inteligência artificial e afirmou que ainda está avaliando como regulamentar as demandas de infraestrutura dessas instalações.

Ainda assim, em abril, a prefeitura afirmou que seu conselho municipal havia autorizado um acordo com o Korean South Power Consortium para estudar a implantação de um data center de IA em um terreno municipal na região sul de Durban, a terceira cidade mais populosa do país. 

Documentos do conselho estimam que o empreendimento poderia custar entre US$ 3 bilhões e US$ 10 bilhões e afirmam que a prefeitura forneceria o terreno e a infraestrutura para o projeto. A prefeitura disse que as necessidades de água e eletricidade do empreendimento ainda não foram determinadas.

O diretor de Marketing e Comunicação de eThekwini, Mandla Nsele, afirmou que as questões sobre as demandas dos data centers “são objeto de discussões internas”, o que significa que a prefeitura não pode fornecer dados detalhados.

Um dos vereadores contrários ao empreendimento, Andre Beetge, disse que um relatório do conselho minicipal sobre o projeto não “aborda adequadamente a trajetória da demanda de energia associada aos data centers de IA, que deverá aumentar bastante nos próximos anos”.

Big Tech

A Mão Invisível das Big Techs é uma investigação transnacional e colaborativa liderada pela Agência Pública e o Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP), em conjunto com Crikey (Austrália), Cuestión Pública (Colômbia), Daily Maverick (África do Sul), El Diario AR (Argentina), El Surti (Paraguai), Factum (El Salvador), ICL (Brasil), Investigative Journalism Foundation – IJF (Canadá), LaBot (Chile), LightHouse Reports (Internacional), N+Focus (México), Núcleo (Brasil), Primicias (Equador), Tech Policy Press (EUA) e Tempo (Indonésia). O projeto tem o apoio da Repórteres Sem Fronteiras e da equipe jurídica El Veinte, e identidade visual da La Fábrica Memética.

Aula da cadeira

Tudo em que dá pra sentar é cadeira! — berrou Jorginho, de doze anos. Faz um tempo que dou aulas de matemática extracurricular para pré-adolescentes e gosto sempre de alterar o material, já que não preciso seguir nenhum programa de conteúdo muito rígido. Recentemente pensei que seria interessante tentar ensiná-los a importância (e a dificuldade) de boas definições e, antes de lhes apresentar as bases euclidianas do fazer matemático, propus um desafio a fim de mostrar que essa empreitada é muito mais complicada do que o pai da geometria fez parecer. Expliquei que a matemática moderna é feita a partir de definições muito precisas, que delimitam exatamente os objetos que querem — bem — definir, mas que, ao longo de sua vasta história, houve inúmeros embates sobre como deveria ser definido, por exemplo, um plano. Antes, porém, de entrar de fato nos objetos abstratos da mãe das ciências, sugeri que começássemos por delimitar algo mais concreto, mais empolgante.

— Alguém pode me dizer o que é uma cadeira?

— Tem um encosto, quatro pernas e dá pra sentar! — alguém no fundo falou.

— E se o encosto quebrasse, ainda seria uma cadeira? — perguntei, crente de que eu conduziria essa investigação magistralmente, pelo infalível método socrático.

— Aí seria uma cadeira quebrada, professor! — Começaram a rir.

— Pois bem, eu quero uma lista de características que a cadeira PRECISA ter para ser uma cadeira. Se ela não precisa de encosto, a lista também não precisa.

— Lá em casa tem uma que não tem apoio de braço, nem encosto, nem perna! É um quadradão assim, e a gente chama de cadeira.

— Quadrado, não. Cubo. — disse Jorginho.

— Certo, então é só um objeto em que dá pra sentar. Seria isso? — perguntei.

— Não! — exclamou Gabriel. — Dá pra sentar no chão, mas o chão não é uma cadeira.

— O chão não é objeto!

— Tá, mas dá pra sentar numa mesa também, e mesa não é cadeira!

Os alunos engataram na discussão e me segurei para deixá-los livres, queria ver se chegariam a algum consenso. Continuaram se lançando exemplos e contraexemplos até que a turma se dividiu em dois grupos: um deles, liderado por Jorginho (que tem uma incrível memória, sempre me lembra de fazer a chamada), defendia que tudo em que se podia se sentar poderia ser chamado de cadeira; o outro grupo, cuja voz mais ardente vinha de Gabriel, tinha como fundamento a intenção do criador do objeto: se alguém fez algo em que se poderia se sentar e o batizou de cadeira, logo aquilo assim seria chamado. As duas escolas de pensamento, então, travaram um feroz embate acerca da natureza real de um tronco cortado na floresta.

Fiquei tão absorvido pelo debate, pela truculência com que sustentavam suas alegações, que me esqueci de que esse é um problema sem solução. A impossibilidade de um consenso foi se tornando mais clara quando vi alguns alunos subindo em suas cadeiras como demonstração de um argumento que não captei por completo e vi bolas de papel voando em suas direções, certamente carregadas de eloquentes réplicas. Tive que me restabelecer como autoridade daquela ágora vulcânica assim que começaram os gritos de “DERRUBA! DERRUBA!”.

— Chega! — e dei um tapão na lousa tentando disfarçar minha satisfação em ter instigado um bélico debate filosófico entre pré-adolescentes.

Mas no silêncio borbulhante da turma ainda com os peitos ebulindo opiniões, Gabriel se levantou lenta e confiantemente e, com uma folha de papel amassada na mão, foi em direção à lata de lixo, gesto que passou despercebido pelos rivais. Eu o olhava pacientemente, esperando-o voltar a sua carteira para que eu pudesse prosseguir com a aula. Ele jogou fora o papel e, no caminho de volta ao seu assento, foi para o palanque na frente da sala, levantou os braços e disse “Tá aqui a cadeira do Jorginho!” e encheu a mão com o argumento que tinha entre as pernas.

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