Apesar do empenho do governo federal para aprovar antes da eleição a PEC da Segurança Pública, a votação da matéria no Senado deve ocorrer entre o 1º e 2º turno eleitoral. Em entrevista à Agência Pública, o relator do texto na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), senador Rogério Carvalho (PT-SE), afirmou que aposta no período para que o presidente da Casa Alta, Davi Alcolumbre, paute a proposta.
A avaliação de Carvalho é de que, apesar do governo ter “acumulado” matérias de interesse no Senado devido a um desgaste na relação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), recentemente superado, o combinado foi cumprido.
O acordo feito na semana passada, segundo Carvalho, era de colocar a PEC da Segurança Pública para “andar”. Sobre a proposta não ter ido para o Plenário ainda nesta semana. O senador destacou que “isso já estava precificado” e “que não tem nada fora do acordo que foi feito”, já que o presidente do Senado havia prometido à “Lula que ia liberar [a proposta] para tramitar”.
A PEC da Segurança Pública estava parada no Senado desde a sua aprovação na Câmara dos Deputados, no dia 4 de março deste ano. Ela foi liberada para discussão na CCJ após acordo selado no dia 26 de agosto entre Lula, Alcolumbre e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Bets escapam de financiar Fundos para a segurança pública
O texto-base da PEC foi aprovado na CCJ em votação simbólica, sem a contagem nominal de votos. Falta, no entanto, a análise de três destaques. Já o dispositivo que designava 30% da arrecadação de Bets para financiar o Fundo Nacional de Segurança Pública e o Fundo Penitenciário Nacional foi retirado do relatório pelo senador. O termo havia sido apresentado anteriormente no plenário da Câmara e aprovado pelos deputados.
À Pública, Rogério Carvalho argumentou que manter o dispositivo “constitucionalizaria” o setor de apostas, já que haveria a inserção na Constituição Federal de normas sobre este mercado.
“É inoportuno constitucionalizar a distribuição de receitas de um jogo. Vários segmentos pediram para deixar a matéria sobre regulamentação em lei ordinária. Só para o esporte, representaria uma perda significativa. Vamos discutir esse ponto posteriormente”, afirmou Carvalho durante a discussão na CCJ.
O senador não é considerado da bancada das Bets, mas como revelou a Pública, está entre os parlamentares que são frequentemente “citados como aliados dos integrantes e cuja influência os tornam essenciais na costura de acordos sobre o assunto no Congresso”.
A briga que travou o Congresso
A relação entre Alcolumbre e Lula estava rompida desde abril, quando ocorreu a rejeição no Senado de Jorge Messias, Advogado-Geral da União, ao cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). O embate travou as principais pautas do governo no Congresso, entre elas a PEC da Segurança Pública e a que propõe o fim da escala 6×1, consideradas como trunfos de Lula no período eleitoral.
“[A gente] teve uma votação de um candidato a ministro do STF que não deu certo, tiveram vários desencontros, vários problemas e apostas cegas”, disse o senador Rogério Carvalho. “O desenrolar da política trouxe para esse cenário e acho que a gente acumulou [pautas]. Mas, no cenário que a gente tem, foi bom [a aprovação do texto-base por unanimidade na CCJ]”, completou o parlamentar.
A PEC da segurança pública é uma das principais apostas do governo federal para se consolidar no tema, que tem sido tradicionalmente dominado pela direita no país e, não à toa, é uma das principais pautas em disputa nesta eleição. Lula já manifestou que aguarda a aprovação da proposta para criar o Ministério da Segurança Pública, uma de suas promessas de campanha em 2022.
A matéria em tramitação descentraliza a coordenação da União nas políticas de segurança pública. Na versão original, enviada ao Congresso pela gestão do ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, estava estabelecido o oposto: maior integração entre a União e os Estados na construção dessa política. O texto, porém, enfrentou forte resistência dos governadores e foi modificado pelo deputado federal Mendonça Filho (União-PE), relator da proposta na Câmara.
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Ainda sob o impacto da devastadora avalanche e enchente de lama no Nepal, me pergunto o que poderia ter sido feito para evitar a perda de tantas vidas. Passados 12 dias do desastre, já são mais de mil mortes confirmadas e cerca de 3 mil pessoas ainda desaparecidas. Será que poderia ter havido alguma sirene ou uma mensagem por celular que avisasse a população sobre o perigo iminente?
Alguns especialistas disseram que a velocidade do desprendimento do bloco de gelo e seu impacto no rio Trishuli, na fronteira com o Tibet, foi tão rápida que não haveria tempo para emitir um aviso de emergência. Mas, de acordo com reportagens publicadas até agora, ficamos sabendo que não existia um sistema de alerta preventivo na região atingida. Nesta semana, a Reuters revelou que avanços em um monitoramento do estado das geleiras foram interrompidos pela resistência do governo da China em compartilhar dados com o Nepal.
O repórter Alec Luhn, que trabalha na revista britânica New Scientist, é um especialista em cobertura da criosfera (o nome dos ecossistemas congelados do nosso planeta). Em um post, ele lembrou que um evento semelhante – o colapso de um glaciar – ocorreu na Suíça no ano passado, atingindo a vila de Blatten. Na ocasião, apenas uma pessoa morreu. Isso só foi possível porque um alerta emergencial foi emitido e as pessoas deixaram a cidade em tempo.
Com o aquecimento global, os glaciares em todo o mundo se tornaram muito mais instáveis. O gelo em ambientes montanhosos, como aquele onde ocorreu a avalanche, vai se afinando a cada ano. Na região afetada no Nepal, os verões dos dois anos anteriores tinham registrado as temperaturas mais altas na série histórica. Algumas destas geleiras demoraram milênios para serem formadas, aponta Luhn, mas poderão desaparecer apenas no período de uma vida humana.
No Brasil não temos geleiras, mas temos nossos próprios eventos extremos climáticos. A tragédia mais viva em nossa memória é a mega enchente no Rio Grande do Sul em 2024. No estado, 440 mil pessoas ficaram desalojadas e 184 perderam a vida. Naquela ocasião, houve sim uma mobilização importante dos órgãos responsáveis. Alertas meteorológicos foram emitidos, a defesa civil entrou em ação. Mas a imprevisibilidade jogou um papel importante: a transformação de uma tempestade em um evento de alta intensidade ocorreu em pouco tempo e sem que pudesse ser detectado pelos sistemas de monitoramento.
Com isso, a lacuna que se tornou evidente no Rio Grande do Sul foi a falta de manutenção da infraestrutura existente e de investimentos para se adaptar aos novos tempos. Com a temperatura média global subindo mais do que 1,5ºC, eventos devastadores como esse são esperados. A adaptação, então, se torna a palavra do momento. Precisamos adaptar nossas casas ao calor e frio extremos. Precisamos pensar no suprimento de água e alimentos frente às secas e enchentes constantes. Precisamos de alertas de emergência climática, seja para nos salvar de uma tempestade ou de uma queimada destruidora.
A injustiça climática
Se com alertas a capacidade de resposta já é um desafio, sem eles os impactos se tornam ainda piores. É também uma questão de justiça social. Pois, como temos visto nas situações de emergência, os mais pobres se tornam ainda mais vulneráveis. São eles que perdem todas as suas economias em uma enchente ou deslizamento de terra. São eles quem têm menor chance de resistir aos impactos por estarem em zonas de risco.
Uma das maiores tempestades já registradas em um dia no Brasil ocorreu em fevereiro de 2023 em São Sebastião, no litoral de São Paulo. Ela deixou evidente esta desigualdade dos impactos climáticos. Ali, após a queda de quase 800 mm de chuva em apenas algumas horas, 65 pessoas morreram em deslizamentos de terra. A maioria vivia em ocupações irregulares nas encostas da Serra do Mar. Como no Nepal, não houve sirenes ou alertas.
Mas é preciso reconhecer que tivemos avanços importantes nos últimos anos na implementação de sistemas de alertas preventivos. Em 2011, após a tragédia que afetou as cidades serranas do Rio de Janeiro, o governo da então presidente Dilma Rousseff deu um passo fundamental com a criação do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden. Este órgão público reúne alguns dos mais qualificados cientistas e técnicos do país e se tornou parte do nosso dia-a-dia com seus avisos sobre as chuvas e secas extremas. Ao mesmo tempo, vimos uma integração grande da infraestrutura de comunicação, permitindo que a defesa civil possa enviar alertas diretamente nos celulares de cada cidadão.
Ainda assim, vamos precisar de mais.
A Organização Meteorológica Mundial, parte das Nações Unidas, tem promovido com força um programa chamado “Alertas Preventivos para Todos” (Early Warning for All, em inglês). Com a tecnologia existente – satélites de monitoramento em tempo real, redes de comunicação globais – é possível evitar a perda de vidas e antecipar o pior. Além disso, há cada vez mais um acúmulo de conhecimentos tradicionais ou boas soluções que podem ser compartilhadas entre países. Nem sempre é a tecnologia que faz a diferença. Existem casos, como visto entre populações indígenas na Indonésia, em que os anciãos com conhecimento profundo sobre as marés foram capazes de alertar suas comunidades sobre a chegada de um tsunami.
Por fim, há um outro importante desafio no meio de tudo isso: o combate à desinformação. Essa foi uma lição aprendida nos incêndios em Los Angeles no ano passado. Muitas pessoas perderam suas casas por não acreditarem nos alertas emitidos pela imprensa. Por terem deixado de acompanhar os canais tradicionais de notícias, pessoas foram literalmente vítimas das informações falsas.
Neste momento em que a mudança climática se intensifica e a adaptação se torna urgente, abraçar o negacionismo (alô, Flávio Bolsonaro!) é mais do que um risco. É uma ameaça!
Para saber mais: Prevention Web – site de notícias e recursos da agência da ONU para redução de riscos de desastres.
“Última hora: chances de Flávio vencer a eleição disparam”. A chamada, publicada em 31.ago.2026 no página do Polymarket no Instagram voltada ao público brasileiro, foi feita num carrossel com oito imagens, com uso de conteúdos da imprensa para dar contexto, memes sobre a situação e, no meio, o gráfico de previsões da empresa sobre quem deve ganhar as eleições presidenciais no Brasil.
No final, há um aviso de que as negociações de contratos envolvem riscos, não estão disponíveis em todas as jurisdições e são proibidas para menores de 18 anos. O post foi publicado em collab com a página @opoeteiro, que soma mais de 2,3 milhões de seguidores, e não há indicação se é uma publicidade.
Polymarket é um mercado de previsão baseado em criptomoedas. Na plataforma, os usuários podem apostar sobre o resultado de eventos futuros do mundo real, como eleições, esportes e até guerras e outros eventos geopolíticos. Está proibida de ofertar e divulgar seviços no Brasil desde 24.abr.
Post no Instagram da @polymarketbrasil (agora @polymarketportugues) do dia 31.ago.2026
Esse é um dos posts mais explícitos realizado pelo Polymarket, apesar de a empresa estar proibida de ofertar e divulgar o serviço no Brasil desde 24.abr.
Mas não é o único. Até 24.ago, o Núcleo levantou 103 publicações com referência às eleições brasileiras que seguiram o mesmo roteiro, sendo parte delas feitas em colaboração (ou marcação via arroba) com páginas de fofoca, de memes ou comentaristas de esportes e de influenciadores.
Há até referências a site vinculado a aliado de blogueiro bolsonarista e site que recebeu dinheiro de agência ligada ao Banco Master para ampliar alcance (leia mais abaixo).
Por que isso importa?
O parágrafo 7 do artigo 6º da Resolução nº 23.735/2024 do Tribunal Superior Eleitoral veda o uso de plataformas digitais que ofereçam ou prometam, gratuita ou mediante pagamento de qualquer valor, “bens, produtos ou propagandas vinculados a candidatas ou a candidatos ou a resultado do pleito eleitoral”. O descumprimento pode configurar crime eleitoral, como abuso de poder econômico e captação ilícita de votos.
A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), vinculada ao Ministério da Fazenda, determinou o bloqueio do Polymarket e de outros 26 sites de mercados de previsão, por entender que elas não são intermediadoras de investimentos no mercado financeiro e operam com lógica de bets sem autorização.
A SPA solicitou à Anatel a notificação dos bloqueios aos domínios (www.polymarket.com, por exemplo). A pasta também pediu que as páginas nas redes sociais ficassem indisponíveis no Brasil, o que foi feito por meio do acordo de cooperação com o Conselho Digital do Brasil, organização que tem ao menos 10 big techs associadas, como Meta, Google, TikTok e Discord. A página @polymarket está inacessível para brasileiros no Instagram, mas a @polymarketbrasil segue ativa e acessível na mesma plataforma. Por outro lado, o X não integra a entidade e a página principal do Polymarket também está disponível.
A FSB Comunicação, uma das maiores agências de assessoria de imprensa do Brasil, passou a atender o Polymarket neste ano e confirmou ao Núcleo que a página @polymarketbrasil pertence à empresa.
Coincidentemente, logo após os questionamentos da reportagem, a página mudou o nome de usuário para @polymarketportugues na quarta-feira (2.set.2026).
A assessoria não respondeu objetivamente aos questionamentos da reportagem sobre a operação da página, a relação com sites e outros perfis no Instagram nem sobre os conteúdos publicados.
Em nota, afirmou apenas que o Polymarket não tem equipe no Brasil, apenas prestadores de serviços pontuais e que a empresa “não apoia candidatos, partidos ou correntes ideológicas, não adota posicionamento editorial sobre eleições”. Disse que não vai comentar sobre “parcerias, campanhas, influenciadores e conteúdos específicos”, mas “reforça seu compromisso com práticas de comunicação transparentes e responsáveis” (leia a íntegra ao final do texto).
Pelos dados do Instagram, a página foi criada em 2021 e mudou de nome de usuário agora pela terceira vez, mas não há detalhes sobre quais foram os outros dois nomes anteriores. Em 2025, a página fez apenas quatro publicações (três em maio e uma em junho) em que uma criadora de conteúdo aparece em vídeos para falar sobre acontecimentos relacionados ao time de futebol do Corinthians. Com a virada do ano, as publicações passaram a ser sobre eventos do Polymarket e o número de conteúdos explode a partir de mar.2026, quando foram ao ar 74 posts. Nos meses seguintes o volume passa de 100 publicações por mês.
Entre os 656 posts coletados pela reportagem até 24.ago, mais da metade tratava de política (tanto nacional quanto internacional e englobando eleições brasileiras), em seguida os temas mais recorrentes são esportes (143), atualidades (131) e tecnologia (42) (Leia a metodologia ao final do texto).
Conexão com o Not Journal
A página que mais faz collab ou aparece marcada com o Polymarket no Instagram é a @notjournal.ai, com 212 mil seguidores, do site Not Journal, do qual o sócio-administrador e editor-chefe é Bruno Richards de Souza Figueiredo. Desde abr.2026, ele se apresenta no LinkedIN como funcionário da Polymarket e no evento Rio Innovation Week como “country manager” do companhia, ou seja, alguém responsável pelas operações da empresa. Ele divide a sociedade do Not Journal com o engenheiro e empresário Marlon Ceni.
O site, que ostenta um grande banner superior com o logo do Polymarket, foi apontado pela Polícia Federal como integrante do Projeto DV, que englobava contratos firmados com a agência Mithi, do publicitário Thiago Miranda, para atacar o Banco Central pela forma como lidou com a crise do Banco Master.
Segundo reportagem de mai.2026 da Folha de S.Paulo, o Not Journal recebeu R$30 mil por 12 publicações mensais, no site e no Instagram, em 2025. O perfil teria como missão adotar “tom acadêmico, sóbrio e institucional, com foco na eficiência de mercado” nos conteúdos.
Ao jornal, Richards disse que não houve definição de conteúdo e que as postagens alinhadas às especificações do Projeto DV foram feitas por um ex-funcionário. Em nota pública, o editor-chefe afirmou que o contrato se deu estritamente “à produção de conteúdo de lifestyle e negócios para divulgação de empreendimentos” e não fazia referência ao banco nem a Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Apontou ainda que a Mithi ofereceu R$5 milhões por 30% do capital do Not Journal, mas que a proposta foi recusada.
O Not Journal também apareceu, no ano passado, na coluna do jornalista Guilherme Ravache, do Valor Econômico, sobre sites, apps e plataformas de inteligência artificial que “roubam” conteúdos produzidos por veículos de imprensa sem remuneração. No site, o Not Journal diz que faz “curadoria editorial com inteligência artificial” e Richards declarou ao colunista, na época, que funciona como se fosse um buscador como o Google, porque dá créditos e indica o link das reportagens originais.
O site continua oferecendo planos de assinatura para receber notícias via Whatsapp, 24h, que variam de R$19,90 a R$49,90, ou um dashboard completo, no valor de R$299,90, mas sem repassar um real aos jornais. Parte das publicações no site creditam informações, mas não informam links.
O Núcleo tentou contato direto com o Not Journal e o Bruno Richards para pedir entrevista sobre as publicações compartilhadas com a página do Polymarket e o anúncio da empresa no site, mas não teve retorno.
Logo da Polymarket aparece em destaque no topo do Not Journal
Fofoca, futebol, memes e política
Outra página que aparecia com frequência nos posts compartilhados é o @ncpjornalismo1, que não está disponível desde 31.ago.2026, mas tinha mais de 1 milhão de seguidores. O nome de usuário faz referência ao site No Centro da Política, que pertence ao jornalista Hugo Alves dos Santos, dono do site Hora de Brasília e aliado do blogueiro bolsonarista Oswaldo Eustáquio – foragido desde 2023 e acusado de associação criminosa em atos golpistas. Nenhum post compartilhado informava se era uma publicidade do Polymarket.
A Target DF Journal Comunicação Ltda., que é a empresa de Alves por trás do Hora de Brasília, consta como responsável pela solicitação do registro de marca do site No Centro da Política no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). A empresa também apareceu como prestadora de serviços terceirizados para candidatos em eleições passadas.
Em 2024, recebeu R$30 mil do candidato Derek Bonjardim (PL), que se elegeu a vereador em Atibaia (SP), e R$25 mil de Juninho do Hot Dog, que alcançou a suplência no mesmo cargo e pelo mesmo partido. Já em 2022, cinco candidatos desembolsaram, ao todo, R$594,2 mil à empresa, sendo o deputado federal Otoni de Paula (então pelo MDB-RJ na época, hoje no PSD) responsável sozinho por quase 90% desse valor. A Target DF também recebeu R$11 mil da campanha de Sandra Terena, ex-esposa de Eustáquio, que concorreu a deputada estadual pelo União Brasil no Paraná, e foi secretária nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial durante a gestão Bolsonaro.
Há também duas publicações compartilhadas em carrossel do Polymarket com o Jornal Cinforme, veículo de Goiás com mais de 683 mil seguidores, em 22.jul.2026. Uma sobre as chances de Renan Santos vencer as eleições presidenciais, a partir de uma chamada que destaca uma declaração sobre extinguir favelas e o programa Bolsa Família. E outra sobre eventos internacionais em que no meio há um gráfico de previsões sobre as chances de uma assinatura de acordo de paz entre Rússia e Ucrânia.
Além desses sites que se apresentam como jornalísticos, as “colabs” ocorrem desde jun.2026 com páginas de fofocas, curiosidades, memes e de influenciadores, como:
Há, ainda, uma publicação de 12.ago.2026 em que a página do Polymarket marcou @olavodecarvalho, mas a página de fãs no Instagram do guru bolsonarista não republicou o conteúdo. O post era sobre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro “ter feito as pazes” com o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro.
Anúncio sem cara de anúncio
Diretor da Data Privacy Brasil, Rafael Zanatta avalia que a utilização de uma linguagem noticiosa ou de meme é uma maneira da página do Polymarket driblar a proibição.
“A conta oficial está indisponível e tem uma subsidiária na prática fazendo um anúncio escamoteado mesmo que não tenha um link direto para o site”, aponta. Para ele, isso incentiva as pessoas a buscarem acessar a plataforma de alguma maneira, pois a possibilidade de ganho em cima do resultado depende do investimento em dinheiro e do monitoramento dessas “apostas”.
O volume estimado em apostas na eleição brasileira está em US$141,7 milhões até 2.set.2026.
Do ponto de vista eleitoral, o professor Fernando Neisser, da FGV, entende que as publicações, por não terem pedido explícito para acesso à plataforma nem link direto e não se venderem como pesquisa eleitoral, a priori, não indicam ilícito eleitoral. Contudo, ele sinaliza que seria necessária uma apuração mais aprofundada para verificar se o conteúdo mascara uma suposta propaganda irregular do mercado de apostas e se visa prejudicar ou beneficiar algum candidato.
“Se eles estão realmente visando o lucro, estão fazendo de uma forma com um grau de discrição muito grande, porque não tem um link, um aviso de ‘clique aqui, venha para cá, venha na nossa página, faça um VPN’ para poder acessar”, afirma.
A reportagem verificou que, mesmo com a proibição no Brasil, em alguns estados o acesso ao site do Polymarket continua disponível. A reportagem fez testes bem sucedidos no Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina sem utilização de VPN.
A assessoria da Secretaria de Prêmios e Apostas informou que “o bloqueio já foi implementado pela maioria dos provedores”, após notificação da Anatel, e que “por se tratar de mercado irregular, sua oferta e divulgação no país permanecem vedadas”.
Sobre a página principal do Polymarket no Instagram, a assessoria informou que “dispõe de um canal específico de comunicação com a Meta e demais plataformas digitais para o encaminhamento de ocorrências relacionadas à oferta ou à publicidade irregular de apostas em redes sociais”, com base no acordo de cooperação com o Conselho Digital do Brasil que permite o tratamento de conteúdos irregulares nas plataformas participantes.
A SPA afirma que “já comunicou às plataformas mais de 2 mil conteúdos irregulares, entre eles publicações relacionadas à oferta de apostas nos chamados ‘mercados de previsão’”.
O Núcleo enviou o link da página @polymarketbrasil (agora polymarketportugues), mas a secretaria não deu retorno se tomaria alguma medida. A Meta também preferiu não comentar.
Em nota, a Anatel ressaltou que a sua atuação “se limita ao encaminhamento às prestadoras de serviços de telecomunicações das decisões administrativas emitidas pelo órgão competente, para fins de bloqueio de sítios eletrônicos” e não contempla redes sociais ou plataformas digitais.
Procurada pela reportagem, a assessoria do TSE disse que “não se manifesta sobre casos concretos”, somente em autos processuais.
Em mai.2026, o Núcleomostrou que ao menos 20 canais do espectro da direita no YouTube estavam utilizando o Polymarket para diagnosticar uma possível intenção de voto, mesmo não sendo uma pesquisa eleitoral que dispõe de registro no TSE e metodologia científica e transparente ao público.
Nota na íntegra do Polymarket
A Polymarket respeita as autoridades e as regras aplicáveis em cada jurisdição e entende que questões regulatórias devem ser tratadas por meio de diálogo técnico e institucional. A plataforma é uma infraestrutura global de mercados preditivos e informação, que traduz expectativas coletivas em sinais de probabilidade em tempo real, funcionando como uma camada complementar para a leitura de tendências, cenários e mudanças de percepção. A empresa não apoia candidatos, partidos ou correntes ideológicas, não adota posicionamento editorial sobre eleições. A existência de um mercado ou a divulgação de seus dados não representa endosso a qualquer resultado ou posicionamento político, mas a disponibilização de um sinal produzido a partir das expectativas dos participantes. No Brasil, a nossa prioridade é uma comunicação institucional, educativa e responsável, em conformidade com as regras locais, com transparência sobre a natureza da categoria e sem promoção transacional. Em relação a parcerias, campanhas, influenciadores e conteúdos específicos, a empresa não comenta casos específicos sem fatos confirmados e reforça seu compromisso com práticas de comunicação transparentes e responsáveis.
Metodologia
Os dados da página do Instagram do @polymarketbrasil foram coletados por meio de um navegador automatizado a partir das publicações realizadas entre 2025 e 24.ago.2026, com registro de informações como código único da publicação (trecho da URL que identifica o post), data, tipo de conteúdo, legenda, métricas disponíveis (curtidas e comentários), quantidade e tipo de mídias. O projeto foi desenvolvido em Python, com objetivo de automatizar a coleta, o armazenamento e a transcrição de conteúdos. Os dados coletados foram gravados em um banco PostgreSQL e todas as publicações estavam disponíveis até 25.ago.2026.
A categorização das temáticas dos 656 posts levantados foi realizado de forma manual a partir da análise do conteúdo das legendas e classificados como: política (ao se tratar de conteúdos sobre ações de governos, eventos relacionados a políticos, tanto na esfera nacional quanto internacional); eleições brasileiras (que faziam menção direta à disputa eleitoral, às candidaturas, a hashtag como #Eleições2026); esportes (que se tratavam de jogos, times e atletas); tecnologia (que faziam menção a big techs e inovações tecnológicas); atualidades (que abarcavam assuntos de entretenimento, cinema, curiosidades); judiciário (que abordavam decisões judiciais que não se tratavam de questões relacionadas a políticos ou eleições); e propaganda (quando o Polymarket postava sobre a própria plataforma).