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Elogio da esterilidade

Por ter me dedicado a biografar algumas figuras da cultura brasileira, às vezes sou chamado a opinar sobre questões do gênero biografia. Algumas: o que fazer quando duas fontes dão informações discrepantes sobre o mesmo assunto? Como saber que uma fonte está dizendo a verdade? Como induzir uma fonte a se abrir sobre um assunto de que ela não quer falar? Pode não parecer, mas não são problemas tão difíceis de resolver. Dei dicas sobre isso num livro publicado em 2022, "A Vida por Escrito ? Ciência e Arte da Biografia" (Companhia das Letras). Mais complicada é a pergunta: quem é o biografado ideal? Leia mais (08/26/2026 - 08h00)

Novo vaso, nova vida

De repente, a surpresa. Em meio ao noticiário envolvendo as trumpices do presidente Donald Trump, a primeira página do site do jornal The New York Times do dia 3 último oferecia uma reportagem intitulada "Mude a tampa de sua privada e mude seu estilo de vida". E, para atenuar o estupor do leitor, completava: "É sério". Secular leitor do jornal americano, nunca tinha visto título mais ousado desde o famoso "HOMENS CAMINHAM NA LUA", de 21 de julho de 1969, enorme e em maiúsculas. Leia mais (08/23/2026 - 08h00)

Legados ao vento

Todo dia morre um artista ou intelectual ?jovem ou velho, famoso ou quase, de qualquer ramo. Consternado, vou à internet, às TVs e às reportagens e ouço ou leio a infalível declaração: "Perdemos Fulano, mas seu legado jamais será esquecido". Será? Antes cêsse, mas não ésse, penso eu. Será esquecido, sim, e esse esquecimento começará assim que encerrarem o velório, e o jornal com seu obituário for forrar a gaiola do papagaio. No Brasil, é um erro morrer. Leia mais (08/20/2026 - 08h00)

O crime nos trinques

De vez em quando estouram um reduto do PCC ou do CV, apreendem um caminhão de drogas, armas e dinheiro, e o que vemos de material humano? Um brasileiro normal, de seus 30 anos, baixinho, quilos a mais, barba por fazer, camiseta regata, bermuda e de chinelo, num fundo de garagem de bairro pobre ou de comunidade. Se sua aparência reflete seu estilo de vida, parece incompatível com as toneladas de pó que ele movimenta ou os milhares de narizes sob seu controle em bairros chiques do Rio ou São Paulo. Eu me pergunto para onde vai o dinheiro que esse sujeito ganha. Leia mais (08/16/2026 - 08h00)

Lixão de cacarecos em órbita

Começou em outubro de 1957, quando a URSS botou no espaço o Sputnik, o primeiro satélite artificial. Dava 15 voltas por dia ao redor da Terra e, quando passava sobre os EUA, seu "bip-bip" -o único som que emitia- era captado pelos radioamadores e aterrorizava os ingênuos americanos. Um mês depois, em novembro, antes que os EUA pudessem respirar, a URSS mandou outro, o Sputnik 2, tendo a bordo uma infeliz cachorrinha vira-lata, Laika, que não sobreviveu para contar. Os EUA, já com 2 a 0 contra, lançaram o deles em janeiro de 1958, o Explorer, e logo depois equilibraram o jogo. Começava a guerra nas estrelas, com um infernal disparo de satélites. Leia mais (08/15/2026 - 08h00)

A pirâmide virou pião

O Brasil, quem diria, ficou de cabeça para baixo. "A pirâmide virou um pião", afirmou na semana passada, em conferência na Academia Brasileira de Letras, a pneumologista Margareth Dalcolmo. Referia-se à diferença entre 1970, quando éramos uma sociedade com alta taxa de nascimento, com expectativa de vida de 54 anos, e hoje, "em que deixamos de ser uma sociedade jovem para uma envelhecida, com expectativa de vida de 78 anos".

"Esse aumento", disse dra. Margareth, "se deveu a intervenções sanitárias, como vacinação em massa, sobretudo na primeira infância, saneamento básico, ainda que desigual, expansão do SUS (Sistema Único de Saúde) e avanços na medicina, mesmo em regiões remotas. Nas próximas duas décadas, seremos mais idosos acima de 60 anos do que jovens menores de 15".

A dúvida é se estaremos equipados para essa nova situação. Segundo o gerontólogo Alexandre Kalache, citado por ela, países desenvolvidos como o Japão e os europeus primeiro enriqueceram para depois envelhecer, e o Brasil envelhece marcado pela pobreza. "Ser velho e pobre no Brasil é o mais triste destino", disse dra. Margareth. "Numa sociedade tão excludente como a nossa, o velho e pobre se torna um fardo para a família, ainda que, com frequência, se veja o triste paradoxo de uma modesta pensão ou aposentadoria desse idoso ser a fonte de renda primordial para aquele núcleo familiar."

Dra. Margareth continuou: "Num país 90% urbanizado como o Brasil, o cenário urbano é hostil para as pessoas mais velhas. Precisamos de reformas públicas, de exercer grande pressão sobre os transportes, as cidades e as moradias, para adaptá-los a elas. Envelhecer em boas condições permite o acesso a cuidados de toda ordem, e até prazeres, que seguramente adoçam a perda de autonomia". Leia mais (08/13/2026 - 08h00)
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