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Os pterodátilos contra-atacam

Tive o prazer de saber por José Eduardo Agualusa de um bem-vindo contra-ataque do analógico a certos flancos da ditadura digital: fotógrafos que voltaram a trabalhar com o velho filme, músicos gravando discos em fita magnética e escritores que -como ele- escrevem à mão e depois passam o texto para o computador. Não é só uma volta ao tempo dos pterodátilos. Os mais jovens talvez gostem de saber que há razões inclusive estéticas para essa recuperação de mídias dadas como extintas.

É fácil disparar a câmera do celular e ver se, até sem querer, sai algo que preste. Já a foto em filme obriga o fotógrafo, pelo custo do material, a buscar a expressão, a luz e o enquadramento perfeitos antes de clicar. O mesmo quanto à gravação da música em fita. Sem os recursos que hoje permitem afinar desafinados, dar voz a quem não tem e inventar ídolos incapazes de reproduzir no palco o que sai da mesa de som, os artistas precisam mostrar a que vêm. Quanto a escrever à mão, eu próprio teimo em fazer isso -todo dia.

Fui dos primeiros da minha turma a trocar a máquina de escrever pelo computador, em 1988, e nunca mais olhei para trás. Mas também nunca abandonei a caneta. Nos 19 anos em que ocupo este espaço na Folha, desde 2007 já produzi mais de 3.000 colunas. Todas escritas primeiro à mão, em cadernetas, com a infalível Bic preta, depois transcritas para o computador e, em muitos casos, impressas, rabiscadas e só então, se as acho prontas, enviadas para o jornal.

Escrevo em qualquer lugar -no táxi, na fila do supermercado, na sala de espera do dentista. Acho ótimo. Publicada a coluna, reabro a caderneta e xizo o rascunho de alto a baixo. Não me deixo apanhar de surpresa -se uma caderneta está acabando, já trago outra no bolso, pronta para entrar em campo. E não jogo fora as usadas. Servem para me lembrar o quanto me custaram de queima de massa cinzenta.

Estou me interessando agora pelos lápis, treinando em lhes fazer a ponta com gilete e lambê-la (a ponta, não a gilete) antes de escrever. Leia mais (09/09/2026 - 08h00)

Filmando você na praia

Sempre que dou uma entrevista gravada, tenho de assinar um documento autorizando a exibição de minha "imagem". Acho isso uma asnice já que, se me ponho diante da câmera e converso com o entrevistador, é porque aceitei estar ali. Mas admito a precaução -querem evitar que, no futuro, alguém entenda naquilo um abuso e resolva processar. Só quero ver se tal precaução será tomada também diante dos "óculos inteligentes", a última invenção da Meta para tornar o mundo mais perigoso para nós e celestial para o trilionário Mark Zuckerberg. Leia mais (09/06/2026 - 08h00)

As cores do coração

Há dias, um garoto de 8 anos levantou uma placa no jogo contra o Santos na Neo Química Arena: "Neymar, amo o Corinthians, mas sou seu fã. Me dá sua camisa?". Pediu e recebeu. Por causa disso, ouviu um coro de urros, insultos e ameaças de um grupo de torcedores corintianos. O risco de linchamento levou sua mãe a retirá-lo do estádio sob proteção policial. O Corinthians condenou os brutamontes. Pergunto-me o que essa criança levará pelo resto da vida -profunda repulsa pelo ser dito humano ou a certeza de que nada é mais importante do que a tolerância? Leia mais (09/05/2026 - 08h00)

Com a ditadura no bolso

Diante da hipotética possibilidade de Flávio Bolsonaro vencer a eleição presidencial (afinal, está concorrendo), vamos a um rápido e razoável exercício de adivinhação sobre o que poderá acontecer. Na posse, como já prometeu, ele subirá a rampa do Planalto de braço com seu pai, um subitamente ágil e lépido Jair Bolsonaro, sem soluços e com os movimentos peristálticos funcionando. Ao receber a faixa das mãos de seu antecessor, não será surpresa se Flávio B. retribuir esse gesto democrático com uma cusparada no rosto do ex-presidente. Leia mais (09/02/2026 - 08h00)

'Paul quem?'

Na semana passada [21/8], falei de artistas e personalidades que, ao morrer, têm seus "legados", ditos eternos, rapidamente esquecidos. Citei o caso de Ary Barroso, o compositor que, durante 30 anos (1930-60), ditou a lei na música popular brasileira e cuja obra está hoje "fora dos palcos, das telas, das prateleiras, das páginas dos livros e da memória do Brasil". Instiguei o pessoal a lembrar outros e não me surpreendi ao ver que tantos gigantes não foram sequer citados. Leia mais (08/29/2026 - 08h00)

'Dark Horse', estrangeiro onde?

Flávio Bolsonaro está se jactando de que as especulações sobre "Dark Horse" , filme sobre seu pai, são "página virada". A Ancine (Agência Nacional do Cinema) deu ao filme o registro de "obra estrangeira", o que o põe a salvo de investigações sobre a origem, a trajetória e o destino do dinheiro usado na produção. Com isso, por ser uma produção "americana", ninguém tem nada a ver com o fato de que esse dinheiro, gerado no Brasil, foi dar um passeio pelos EUA e voltou para pagar as contas aqui. Mas será ele, tecnicamente, uma "obra estrangeira"? Leia mais (08/27/2026 - 08h00)

Elogio da esterilidade

Por ter me dedicado a biografar algumas figuras da cultura brasileira, às vezes sou chamado a opinar sobre questões do gênero biografia. Algumas: o que fazer quando duas fontes dão informações discrepantes sobre o mesmo assunto? Como saber que uma fonte está dizendo a verdade? Como induzir uma fonte a se abrir sobre um assunto de que ela não quer falar? Pode não parecer, mas não são problemas tão difíceis de resolver. Dei dicas sobre isso num livro publicado em 2022, "A Vida por Escrito ? Ciência e Arte da Biografia" (Companhia das Letras). Mais complicada é a pergunta: quem é o biografado ideal? Leia mais (08/26/2026 - 08h00)

Novo vaso, nova vida

De repente, a surpresa. Em meio ao noticiário envolvendo as trumpices do presidente Donald Trump, a primeira página do site do jornal The New York Times do dia 3 último oferecia uma reportagem intitulada "Mude a tampa de sua privada e mude seu estilo de vida". E, para atenuar o estupor do leitor, completava: "É sério". Secular leitor do jornal americano, nunca tinha visto título mais ousado desde o famoso "HOMENS CAMINHAM NA LUA", de 21 de julho de 1969, enorme e em maiúsculas. Leia mais (08/23/2026 - 08h00)

Legados ao vento

Todo dia morre um artista ou intelectual ?jovem ou velho, famoso ou quase, de qualquer ramo. Consternado, vou à internet, às TVs e às reportagens e ouço ou leio a infalível declaração: "Perdemos Fulano, mas seu legado jamais será esquecido". Será? Antes cêsse, mas não ésse, penso eu. Será esquecido, sim, e esse esquecimento começará assim que encerrarem o velório, e o jornal com seu obituário for forrar a gaiola do papagaio. No Brasil, é um erro morrer. Leia mais (08/20/2026 - 08h00)

O crime nos trinques

De vez em quando estouram um reduto do PCC ou do CV, apreendem um caminhão de drogas, armas e dinheiro, e o que vemos de material humano? Um brasileiro normal, de seus 30 anos, baixinho, quilos a mais, barba por fazer, camiseta regata, bermuda e de chinelo, num fundo de garagem de bairro pobre ou de comunidade. Se sua aparência reflete seu estilo de vida, parece incompatível com as toneladas de pó que ele movimenta ou os milhares de narizes sob seu controle em bairros chiques do Rio ou São Paulo. Eu me pergunto para onde vai o dinheiro que esse sujeito ganha. Leia mais (08/16/2026 - 08h00)

Lixão de cacarecos em órbita

Começou em outubro de 1957, quando a URSS botou no espaço o Sputnik, o primeiro satélite artificial. Dava 15 voltas por dia ao redor da Terra e, quando passava sobre os EUA, seu "bip-bip" -o único som que emitia- era captado pelos radioamadores e aterrorizava os ingênuos americanos. Um mês depois, em novembro, antes que os EUA pudessem respirar, a URSS mandou outro, o Sputnik 2, tendo a bordo uma infeliz cachorrinha vira-lata, Laika, que não sobreviveu para contar. Os EUA, já com 2 a 0 contra, lançaram o deles em janeiro de 1958, o Explorer, e logo depois equilibraram o jogo. Começava a guerra nas estrelas, com um infernal disparo de satélites. Leia mais (08/15/2026 - 08h00)

A pirâmide virou pião

O Brasil, quem diria, ficou de cabeça para baixo. "A pirâmide virou um pião", afirmou na semana passada, em conferência na Academia Brasileira de Letras, a pneumologista Margareth Dalcolmo. Referia-se à diferença entre 1970, quando éramos uma sociedade com alta taxa de nascimento, com expectativa de vida de 54 anos, e hoje, "em que deixamos de ser uma sociedade jovem para uma envelhecida, com expectativa de vida de 78 anos".

"Esse aumento", disse dra. Margareth, "se deveu a intervenções sanitárias, como vacinação em massa, sobretudo na primeira infância, saneamento básico, ainda que desigual, expansão do SUS (Sistema Único de Saúde) e avanços na medicina, mesmo em regiões remotas. Nas próximas duas décadas, seremos mais idosos acima de 60 anos do que jovens menores de 15".

A dúvida é se estaremos equipados para essa nova situação. Segundo o gerontólogo Alexandre Kalache, citado por ela, países desenvolvidos como o Japão e os europeus primeiro enriqueceram para depois envelhecer, e o Brasil envelhece marcado pela pobreza. "Ser velho e pobre no Brasil é o mais triste destino", disse dra. Margareth. "Numa sociedade tão excludente como a nossa, o velho e pobre se torna um fardo para a família, ainda que, com frequência, se veja o triste paradoxo de uma modesta pensão ou aposentadoria desse idoso ser a fonte de renda primordial para aquele núcleo familiar."

Dra. Margareth continuou: "Num país 90% urbanizado como o Brasil, o cenário urbano é hostil para as pessoas mais velhas. Precisamos de reformas públicas, de exercer grande pressão sobre os transportes, as cidades e as moradias, para adaptá-los a elas. Envelhecer em boas condições permite o acesso a cuidados de toda ordem, e até prazeres, que seguramente adoçam a perda de autonomia". Leia mais (08/13/2026 - 08h00)
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