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Portugal: em liberdade, em democracia. Em paz?

Voltamos a Lisboa para uma visita de médico, de dois dias, quase 20 anos após pegarmos o caminho de volta para o Brasil pelo aeroporto da Portela e 10 anos após o aeroporto da Portela ser rebatizado com o nome de um oficial general da Força Aérea de Portugal e notório opositor do regime de Salazar — Humberto Delgado, o “General Sem Medo”.

Em 2007, pegamos um avião de volta para o Brasil após uma temporada de pós-graduação no Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas (Cenjor), em Lisboa.

Neste domingo, 8, ao voltarmos ao nosso antigo endereço em Arroios, para matar saudades, notamos tudo igual, à exceção de um monumento inaugurado em 2017, 10 anos após nossa partida, pertinho do nosso velho e úmido sótão lisboeta; um monumento ao 25 de Abril com um grande e belo cravo, uma placa de homenagem ao capitão Salgueiro Maia e os dizeres:

“A 25 de Abril de 1974 terminava o regime autoritário iniciado com o golpe militar de 28 de maio de 1926. Portugal viveu durante esses anos a Ditadura Nacional (1928-1933) e o Estado Novo (1933-1974). A Revolução dos Cravos, como ficou conhecida, foi liderada pelo Movimento das Forças Armadas e permitiu a Portugal viver em Liberdade, em Democracia e em Paz. Símbolo do 25 de Abril, este cravo é uma homenagem à memória desses acontecimentos e dos seus protagonistas, recordando o valor da Liberdade e reconhecendo a coragem e a determinação de todos os que lutaram para que esse dia fosse possível”.

Neste domingo, em Portugal, para além, muito além das lembranças prosaicas de antigos habitantes do sótão do número 28 da rua da Bempostinha, na freguesia de Arroios, estiveram em jogo os valores de Abril na disputa do segundo turno da eleição para o Palácio de Belém; no segundo turno para a presidência da República portuguesa entre o candidato da internacional fascista e o do campo democrático, ainda que António José Seguro, do Partido Socialista, não represente exatamente de forma contagiante os valores de Abril.

Neste domingo, em Portugal, o fascismo foi derrotado de lavada. Nesta segunda-feira, 9, “o país acorda mais Seguro”, conforme o trocadilho do Público, principal jornal português.

Que os festejos pela traulitada antifascista sejam bonitos, pá, mas não a ponto de fazer esquecer que o fascismo forçou um segundo turno na eleição para Belém pela primeira vez em mais de 40 anos; que Portugal segue livre, democrático, mas não em paz.

'Paramos, pensamos': uma crônica de Paris

Quem sai da estação de Saint-Michel para visitar a catedral de Notre-Dame de Paris, quem sabe para dar uma esticada até o prédio no Quarter Latin da personagem Emily, da série Emily em Paris, da Netflix, depara à beira do Sena com um monumento aos mortos em um episódio que nunca virou episódio de nenhuma série de streaming, nem da Netflix, nem da Disney: as manifestações de 1961 em Paris que foram um marco da revolução argelina.

“Em memória dos muitos argelinos mortos durante a repressão sangrenta da manifestação pacífica de 17 de outubro de 1961”, diz o monumento.

Nos dicionários, o verbo deparar é definido como “apresentar-se aos olhos de alguém”. A maioria dos visitantes de Paris que saem da estação de Saint-Michel rumo à Notre Dame, contudo, passa batida pelo monumento aos mortos da manifestação pacífica, posto que terminada em sangue, de 1961; a manifestação e a repressão que completam 65 anos neste Anno Domini de 2026.

A maioria segue em frente, com viseira daquele burro da Disney, o Bisonho, rumo à catedral, crentes que o corcunda Quasímodo é um personagem de Walter Elias Disney e para pagar dois euros no cartão Wise para acender uma vela para Nossa Senhora de Paris, nunca para render homenagem às centenas de mortos, feridos e desaparecidos nas ações revolucionárias das gerações passadas.

Quem passa pelas remanescentes bancas de jornais de Paris neste início de fevereiro de 2026 depara — ou nem por isso, como vimos — com a capa da mais recente edição do Le Monde Diplomatique, que diz: L’Amérique sans fard, l’Europe sans vie ( “A América sem filtro, a Europa sem rumo”).

E não estamos falando aqui da única barraquinha de comida (food truck?) ao lado da Sacre Coeur, onde pode-se comprar hot wine e american hot dog, mas sim do bisonho Emmanuel Macron ligando para Donald Trump nos dias de Assembleia das Nações Unidas — e de Trump ameaçando anexar a Groenlândia, território europeu — para brincar, submisso, indigno do Eliseu, que tinha sido bloqueado em Nova York por causa da passagem da comitiva do imperador do Queens.

“Fica a dica” do inestimável e muito francês slogan do Le Monde Diplomatique: on s’arrête, on réfléchit (“Paramos, pensamos”).

Um tarifaço no Louvre

Quem não é cidadão europeu e foi visitar o Museu do Louvre, em Paris, nesta segunda-feira, 2, pagou 32 euros para entrar, o equivalente a cerca de 200 reais. A nova tarifa está em vigor desde 14 de janeiro. Trata-se de um aumento de 45% em relação ao preço do ano passado e são 10 euros a mais do que pagam os residentes do Espaço Econômico Europeu. Da sala Mollien, a Liberdade de Delacroix guia o povo e está vendo a discriminação.

Nesta segunda, quem pagou 32 euros no antecipado e chegou cedo para visitar o Louvre encontrou primeiro um aviso de que o museu não iria abrir no horário previsto e, pior, não tinha hora para abrir. Não demorou e apareceram membros do sindicato SUD-Culture Solidaires explicando aos desavisados o porquê.

É que desde o dia 15 de dezembro os trabalhadores do Louvre estão empenhados em uma das mais longas greves da história do museu, em resposta ao corte de pessoal e de recursos que vem resultando em condições de trabalho cada vez mais precárias e nisto aqui, nas palavras do sindicato e como se não bastassem as milhares de selfies por dia com a pobre Monalisa: “visitar o Louvre tornou-se uma verdadeira provação”.

“A retirada do apoio estatal às instituições públicas e as políticas neoliberais dos sucessivos governos impuseram um sistema de suposta rentabilidade que promove a massificação e a comercialização da cultura. O aumento generalizado dos preços dos museus e a introdução de uma taxa adicional para pequenos grupos guiados são um duro golpe para os guias profissionais e prejudicam a igualdade de acesso aos serviços de visita guiada”, diz o comunicado do SUD-Culture Solidaires distribuído aos turistas nesta segunda nas entradas do Louvre.

Nesta segunda, o Louvre abriu à tarde, só à tarde, em operação-padrão. Entre as reivindicações dos grevistas está o fim do tarifaço para não-europeus, política que, de novo nas palavras de quem faz a greve — e faz muito bem —, “atropela nossa história republicana e o universalismo fundador do museu”.

Recentemente, a A Liberdade guiando o povo passou por uma restauração que durou seis meses e removeu camadas de verniz oxidado que sufocavam o azul, o branco e o vermelho da bandeira da República francesa.

Os deserdados da terra e os 140 santos de travertino romano

Detalhe da escultura Angels Unawares, no Vaticano.

Na praça de São Pedro, Cidade do Vaticano, 140 santos católicos espreitam do alto a multidão de devotos e a fila imensa para entrar na basílica homônima. Eles, os santos feitos de travertino romano, estão lá desde o fim do século XVII, início do século XVIII. Bem mais recente é a escultura Angels Unawares, inaugurada por Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, em 2019.

A escultura fica no lado oposto à entrada do enclave papal, à direita da basílica de São Pedro e, portanto, bem no caminho dos que enfrentaram a fila, finalmente conheceram, emocionaram-se e acabaram de sair do maior e mais importante edifício do catolicismo.

Poucos, porém, pouquíssimos devotos prestam atenção à impressionante escultura de bronze de migrantes flagelados e apinhados numa jangada, representando o sofrimento das pessoas que deixam seus países de origem não para fazer turismo religioso, mas por motivo de guerra, miséria, perseguição, tudo, enfim, o que lhes foi legado pelas potências da “civilização cristã ocidental”.

Angels Unawares é uma obra do escultor canadense Timothy Schmalz. No ano passado, após o assassinato de Charlie Kirk nos EUA, Schmalz homenageou o extremista morto com uma escultura em tamanho real de Kirk nos braços do próprio Cristo. A quem interessar possa, a escultura pode ser vista em uma universidade católica da Flórida, a oito mil quilômetros do Vaticano.

A quem interessar possa, entre as coisas que Charlie Kirk dizia antes de ser assassinado estava, por exemplo, que não conseguia sentir “compaixão como a de Cristo” por imigrantes que, segundo ele, “estão nos EUA há mais de 30 anos e não sabem falar inglês”.

Do lado de fora das muralhas do Vaticano, doentes, descalços e toda sorte de desgraçados pela miséria imploram por misericórdia. A quem vai, a quem vem. Alguns, de tão corcundas e de tanta eczema, parecem Salvatores saídos diretamente de O Nome da Rosa. Às vezes, quem vai, quem vem dá a eles uns trocados. A eles, 140 santos de travertino romano dão as costas.

Manchinha, Orelha, esses nomes tão peculiares

Orelha (Foto: reprodução).

No dia 28 de novembro de 2018, uma cadela de rua chamada por todos de Manchinha foi envenenada, espancada e morta no Carrefour de Osasco. Em dezembro daquele ano, a Polícia Civil de São Paulo indiciou um segurança terceirizado do supermercado pelo crime de abuso e maus-tratos a animais.

No tempo entre o crime e a conclusão do inquérito em São Paulo, no Rio a 7ª Vara Cível da Barra da Tijuca precisou determinar que o Carrefour da Barra não praticasse atos que pudessem “ocasionar o extermínio de gatos eventualmente existentes no interior do supermercado”.

O grupo transnacional francês, maior varejista alimentar que opera no Brasil, não foi responsabilizado pela terceirização da atividade-meio, por assim dizer, que deu cabo de Manchinha. Agora, dois empresários de Florianópolis, pais dos frequentadores da Disney que deram cabo de um cão idoso na Praia Brava, em Florianópolis, acabam de ser indiciados pela Polícia Civil de Santa Catarina por coação de um segurança que teria provas do assassinato, o assassinato do Orelha.

Em dezembro de 2018, 20 dias após o assassinato de Manchinha no Carrefour de Osasco, o Carrefour de Osasco pegou fogo. Em uma coincidência impressionante, começa assim o conto “Velório”, do escritor australiano Shaun Tan, que se notabilizou por explicar para as crianças, com sensibilidade ímpar, o quão duro, cão, é o mundo lá fora: “aconteceu um incêndio na casa de um homem que, poucos dias antes, havia matado seu cachorro a pauladas”.

E segue:

“Ele era um homem forte e por isso conseguiu salvar todos seus pertences sozinho, carregando-os da casa para o jardim. Assim que terminou, uma centena de cachorros de todos os tamanhos e formas correu diante das luzes oscilantes, vindos das trevas ao redor, e prontamente sentaram em cima de cada eletrodoméstico e de cada móvel restantes, como se fossem os donos. Além de não deixarem o homem chegar perto e rosnar ferozes quando ele tentava bater neles, ficavam estáticos, olhando impassivelmente para as chamas”.

“O fogo era de uma intensidade surpreendente e a casa veio abaixo em questão de minutos. O homem, enfurecido, saiu procurando uma arma. Como se tivessem entendido, os cachorros pularam para o chão e começaram a circular calmamente pelas trevas enfumaçadas, revezando-se para urinar sobre cada objeto salvo pelo homem. Eles uivaram apenas uma vez, nem muito alto nem muito demorado, mas o uivo continha tanta melancolia que até quem não podia ouvi-lo revirou-se na cama”.

“E então eles se foram, espalhando-se pelas ruas e pelos becos, atentos ao som de suas próprias patas arranhando as calçadas de concreto, o chão que já fora de terra escura e selvagem. Eles não se voltaram para os últimos focos de incêndio na grama, nem mesmo para o homem que retornara segurando um pé de cabra inútil e estava parado sobre as cinzas, sozinho e chorando. Os cachorros só pensavam em seus lares: no cheiro das casinhas quentinhas, nos cobertores macios e nas camas em que os humanos dormiam, aqueles que lhe haviam dado nomes tão peculiares”.

Tipo Manchinha, como Orelha.

O conto “Velório” está no livro infanto-juvenil “Contos de Lugares Distantes”, de Shaun Tan, editado no Brasil pela Cosac Naify. As trevas enfumaçadas estão sempre logo ali, numa “área nobre” de Santa Catarina.

Quarta-feira no Paseo de la Castellana

A luz é como a água, um dos 12 contos peregrinos de Gabriel García Márquez, foi editado no Brasil pela Record em separado, em capa dura e com lindas ilustrações de Carme Solé Vendrell para a aventura fabulosa vivida por Totó e Joel toda quarta-feira no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana, em Madri, quando seus pais, emigrados colombianos, saíam para ir ao cinema: a aventura fabulosa de navegar na luz com barco a remos, bússola e sextante.

Reproduzimos abaixo A luz é como a água, porque hoje bem cedo estivemos no Paseo de la Castellana e em homenagem a todos os pais que já foram fulminados por olhares de reprovação por contarem para seus filhos pequenos, na hora de dormir, a história de como numa quarta-feira como esta, aqui, em Madri, talvez com menos chuva, o quarto ano elementar inteiro da escola São João Hospitalário quebrou tantas lâmpadas acesas ao mesmo tempo que acabou afogando-se na luz, enquanto os pais de Totó e Joel assistiam no cinema A batalha de Argel.

A luz é como a água

Gabriel García Márquez

No Natal os meninos tornaram a pedir um barco a remos.

— De acordo — disse o pai —, vamos comprá-lo quando voltarmos a Cartagena.

Totó, de nove anos, e Joel, de sete, estavam mais decididos do que seus pais achavam.

— Não — disseram em coro. — Precisamos dele agora e aqui.

— Para começar — disse a mãe —, aqui não há outras águas navegáveis além da que sai do chuveiro.

Tanto ela como o marido tinham razão. Na casa de Cartagena de Indias havia um pátio com um atracadouro sobre a baía e um refúgio para dois iates grandes. Em Madri, porém, viviam apertados no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Mas no final nem ele nem ela puderam dizer não, porque haviam prometido aos dois um barco a remos com sextante e bússola se ganhassem os louros do terceiro ano primário, e tinham ganhado. Assim sendo, o pai comprou tudo sem dizer nada à esposa, que era a mais renitente em pagar dívidas de jogo. Era um belo barco de alumínio com um fio dourado na linha de flutuação.

— O barco está na garagem — revelou o pai na hora do almoço. — O problema é que não tem jeito de trazê-lo pelo elevador ou pela escada, e na garagem não tem mais lugar.

No entanto, na tarde do sábado seguinte, os meninos convidaram seus colegas para carregar o barco pelas escadas, e conseguiram levá-lo até o quarto de empregada.

— Parabéns — disse o pai. — E agora?

— Agora, nada — disseram os meninos. — A única coisa que a gente queria era ter o barco no quarto, e pronto.

Na noite de quarta-feira, como em todas as quartas-feiras, os pais foram ao cinema. Os meninos, donos e senhores da casa, fecharam portas e janelas, e quebraram a lâmpada acesa de um lustre da sala. Um jorro de luz dourada e fresca feito água começou a sair da lâmpada quebrada, e deixaram correr até que o nível chegou a quatro palmos. Então desligaram a corrente, tiraram o barco, e navegaram com prazer entre as ilhas da casa.

Esta aventura fabulosa foi o resultado de uma leviandade minha quando participava de um seminário sobre a poesia dos utensílios domésticos. Totó me perguntou como era que a luz acendia só com a gente apertando um botão, e não tive coragem para pensar no assunto duas vezes.

— A luz é como a água — respondi. — A gente abre a torneira e sai.

E assim continuaram navegando nas noites de quarta-feira, aprendendo a mexer com o sextante e a bússola, até que os pais voltavam do cinema e os encontravam dormindo como anjos em terra firme.

Meses depois, ansiosos por ir mais longe, pediram um equipamento de pesca submarina. Com tudo: máscaras, pés-de-pato, tanques e carabinas de ar comprimido.

— Já é ruim ter no quarto de empregada um barco a remos que não serve para nada — disse o pai. — Mas pior ainda é querer ter além disso equipamento de mergulho.

— E se ganharmos a gardênia de ouro do primeiro semestre? — perguntou Joel.

— Não — disse a mãe, assustada. — Chega.

O pai reprovou sua intransigência.

— É que estes meninos não ganham nem um prego por cumprir seu dever — disse ela —, mas por um capricho são capazes de ganhar até a cadeira do professor.

No fim, os pais não disseram que sim ou que não. Mas Totó e Joel, que tinham sido os últimos nos dois anos anteriores, ganharam em julho as duas gardênias de ouro e o reconhecimento público do diretor.

Naquela mesma tarde, sem que tivessem tornado a pedir, encontraram no quarto os equipamentos em seu invólucro original. De maneira que, na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam O Último Tango em Paris, encheram o apartamento até a altura de duas braças, mergulharam como tubarões mansos por baixo dos móveis e das camas, e resgataram do fundo da luz as coisas que durante anos tinham-se perdido na escuridão.

Na premiação final os irmãos foram aclamados como exemplo para a escola e ganharam diplomas de excelência. Desta vez não tiveram que pedir nada, porque os pais perguntaram o que queriam. E eles foram tão razoáveis que só quiseram uma festa em casa para os companheiros de classe.

O pai, a sós com a mulher, estava radiante.

— É uma prova de maturidade — disse.

— Deus te ouça — respondeu a mãe.

Na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam A Batalha de Argel, as pessoas que passaram pela Castellana viram uma cascata de luz que caía de um velho edifício escondido entre as árvores. Saía pelas varandas, derramava-se em torrentes pela fachada, e formou um leito pela grande avenida numa correnteza dourada que iluminou a cidade até o Guadarrama.

Chamados com urgência, os bombeiros forçaram a porta do quinto andar, e encontraram a casa coberta de luz até o teto. O sofá e as poltronas forradas de pele de leopardo flutuavam na sala a diferentes alturas, entre as garrafas do bar e o piano de cauda com seu xale de Manilha que agitava-se com movimentos de asa a meia água como uma arraia de ouro. Os utensílios domésticos, na plenitude de sua poesia, voavam com suas próprias asas pelo céu da cozinha. Os instrumentos da banda de guerra, que os meninos usavam para dançar, flutuavam a esmo entre os peixes coloridos liberados do aquário da mãe, que eram os únicos que flutuavam vivos e felizes no vasto lago iluminado. No banheiro flutuavam as escovas de dentes de todos, os preservativos do pai, os potes de cremes e a dentadura de reserva da mãe, e o televisor da alcova principal flutuava de lado, ainda ligado no último episódio do filme da meia-noite proibido para menores.

No final do corredor, flutuando entre duas águas, Totó estava sentado na popa do bote, agarrado aos remos e com a máscara no rosto, buscando o farol do porto até o momento em que houve ar nos tanques de oxigênio, e Joel flutuava na proa buscando ainda a estrela polar com o sextante, e flutuavam pela casa inteira seus 37 companheiros de classe, eternizados no instante de fazer xixi no vaso de gerânios, de cantar o hino da escola com a letra mudada por versos de deboche contra o diretor, de beber às escondidas um copo de brandy da garrafa do pai. Pois haviam aberto tantas luzes ao mesmo tempo que a casa tinha transbordado, e o quarto ano elementar inteiro da escola de São João Hospitalário tinha se afogado no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Em Madri de Espanha, uma cidade remota de verões ardentes e ventos gelados, sem mar nem rio, e cujos aborígenes de terra firme nunca foram mestres na ciência de navegar na luz.

'Aperte o play e saiba mais': já viu os novos repórteres do Globo?

A logomarca dos 100 anos do jornal O Globo, com o símbolo do infinito e traços de movimento, “sintetiza alguns dos valores fundamentais que orientaram a criação do jornal” e representa um jornal que “está sempre em atualização, 24 horas por dia, todos os dias da semana, em diferentes formatos”.

“Diferentes formatos”, tipo os reels — vídeos curtos, “dinâmicos”, para Facebook e Instagram.

Na tarde desta sexta-feira, 23, O Globo publicou em suas redes sociais um reel com imagens da “caminhada pela liberdade” de Nikolas Ferreira. Os repórteres neófitos que gravaram as imagens publicadas pelo Globo — com direito à call to action “aperte o play e saiba mais” — são Fernando Holiday, Bruno Zambelli, André Fernandes e o próprio Nikolas.

Na compilação de postagens de bolsonaristas publicada pelo Globo, Fernando Holiday, por exemplo, aparece dando entrada em uma UPA, enrolado na bandeira pátria e gemendo de dor nas cartilagens. Já que decidiu agora repostar material de propaganda da extrema direita, O Globo poderia, pelo menos, ter lembrado que em 2020 o mais novo usuário do SUS apoiou um decreto de Jair Bolsonaro (logo revogado, de tão disparatado) que abria as portas para a privatização das Unidades Básicas de Saúde.

Em vez disso, O Globo corrobora a “Paixão de Nikolas” legendando assim, candidamente, seu pot-pourri de aflições produzidas pela extrema direita para as redes sociais: “políticos bolsonaristas enfrentam dores e cansaço em caminhada de 200 km liderada por Nikolas Ferreira, de Minas Gerais a Brasília, em apoio à anistia de Bolsonaro”.

Na parte do reel do Globo em que Nikolas Ferreira é amparado por Bruno Zambelli na “caminhada pela liberdade”, e num sinal dos tempos, a marca d’água do jornal chega a aparecer nas imagens junto com a marca d’água do irmão de Carla e, entre as duas, a manifestação de solidariedade em letras garrafais: “Força, Nikolas!”.

E no fim do reel, quando o deputado André Fernandes aparece tratando os calos do pé, começa a se desenhar, em animação, a logomarca dos 100 anos do Globo, até ficar completa e com o slogan “100 anos de história”, uma história no meio da qual houve, como se sabe, apoio do jornal à ditadura.

Tem jornal que não tratou como devia, como se vê, os calos da sua caminhada.

Impossível, desarrazoável, inadequado

Alexandre de Moraes (Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil).

“As condutas pelas quais o réu foi condenado por essa Suprema Corte foram absolutamente incompatíveis com o Estado de Direito, a democracia e os princípios constitucionais que regem as Forças Armadas e tornam juridicamente impossível, desarrazoável e inadequada a participação do réu em atividades diretamente relacionadas com o aperfeiçoamento das Forças Armadas, as quais desempenham papel essencial na defesa da Constituição, da soberania nacional e da estabilidade do Estado Democrático de Direito”.

Foi nestes termos que nesta quinta-feira, 22, o ministro do STF Alexandre de Moraes pôs fim à tentativa do Exército Brasileiro de transformar um general recém-condenado por tentativa golpe de Estado em consultor doutrinário da Força mediante a realização, na prisão e para remição da pena, de “atividade laboral de cunho intelectual e institucionalmente proveitosa”.

Trata-se do general Mário Fernandes, autor do plano Punhal Verde e Amarelo. A solicitação para Fernandes trabalhar foi encaminhada a Moraes no dia 9 de janeiro pela Assessoria de Apoio para Assuntos Jurídicos do Comando Militar do Planalto (CMP), onde o general cumpre pena sob custódia do Exército. O CMP montou mesmo e enviou a Alexandre de Moraes um Plano Individual de Trabalho para o general que escreveu o plano para matar Lula, Alckmin e o próprio Moraes.

O plano Punhal Verde e Amarelo previa, para o “cumprimento da missão”, “tiro de curta, média ou longa distância ou uso de artefato explosivo” ou ainda o “envenenamento do alvo” com “elemento químico e/ou biológico preferencialmente em Evento Oficial Público”. O Plano Individual de Trabalho montado pelo Exército para Mário Fernandes previa o general fazendo a “revisão de produtos doutrinários e literários” e “produção de textos técnicos sobre história militar, estrutura da Força, doutrina militar terrestre” para a Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército e para o Centro de Doutrina do Exército.

Inicialmente, Moraes autorizou Mário Fernandes a “se classificar para realização de trabalho interno, conforme Plano Individual Trabalho encaminhado pelo Comando Militar do Planalto”. Quatro dias depois, porém, o ministro achou melhor intimar o CMP a especificar, “de forma clara e objetiva”, a natureza das atividades reservadas pelo Exército ao seu custodiado. Afinal, qual “atividade de cunho intelectual” da parte de um general condenado por tentativa de golpe de Estado poderia ser “institucionalmente proveitosa” para o Exército Brasileiro?

O indeferimento à gozação saiu nesta quinta e deve ser “jurisprudência” para barrar camaradagens semelhantes do Exército e da Marinha com outros dois oficiais generais, ex-comandantes de suas respectivas Forças, condenados e presos por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, etc. O Exército quer que o general Paulo Sergio Nogueira faça revisão doutrinária, atualização de livros e manuais da Força Terrestre. A Marinha quer o almirante Almir Garnier na avaliação de sistemas de comando e controle, processos decisórios, simulações operacionais e estudos relacionados a projetos estratégicos da Força Naval.

Não demora e alguém vai pedir ao STF que Silvinei Vasques possa trabalhar para a Polícia Rodoviária Federal, na Papudinha, revisando os procedimentos de atuação da PRF nas estradas em dia de eleição e de controle do fluxo de pessoas na fronteira do Brasil com o Paraguai.

Brizola: os olhos fixos na fogueira e um sorriso maroto no rosto

Leonel Brizola (Foto: reprodução).

Leonel de Moura Brizola faria 104 anos nesta quinta-feira, 22.

‘Parecia estar num voo acima de tudo’

Estamos em 1982. Três anos após voltar do exílio, Leonel Brizola é candidato a governador do Rio de Janeiro. Abrindo a biografia de Brizola escrita por Clovis Brigagão e Trajano Ribeiro, o fotógrafo Aguinaldo Ramos conta a história da foto “Brizola pula a fogueira”, feita no subúrbio carioca durante um ato daquela histórica campanha eleitoral.

Conta Aguinaldo Ramos:

Um dia [do ano de 1982], saí da redação do JB com o repórter J. Paulo para acompanhar o então candidato a governador [Brizola] num roteiro pela Zona Norte da cidade. No começo da tarde estávamos no conjunto Amarelinho, em Irajá, junto à Avenida Brasil. As lideranças locais aproveitaram a promissora visita para fazer, além da luta pela reforma do conjunto, uma manifestação pela paz na comunidade, cercada de favelas. Promoveram a queima, em grande fogueira à frente do conjunto, das armas de plástico recolhidas das crianças. Brizola ganhou a honra de atear o fogo, o que fez com prática de gaúcho churrasqueiro. De repente, vira-se para o mais destacado cabo eleitoral local e pergunta: “tens coragem de pular a fogueira, tchê?!... então vai na frente que eu vou atrás!”.

Os assessores, até mesmo o futuro prefeito Marcelo Alencar, também na campanha, tentaram preservar o chefe. Nada adiantou, Brizola estava tranquilo e ia pular.

Eu me preparei como pude... Busquei uma posição lateral, pus a 24 mm (a maior grande angular que tinha ali), me agachei, mantive o dedo no obturador. O líder local, com a maior desenvoltura, cumpriu sua parte. Acompanhei de rabo de olho, sem apertar, preocupado com Brizola, que podia nem esperar o salto do outro. Ou, refugar... Brizola tinha os olhos fixos na fogueira e um sorriso maroto no rosto. Com suas botinas de gaúcho exilado, camisa azul-clara de mangas arregaçadas, arredou um pouco a garotada, abriu uma roda, concentrou-se e, sem considerações, partiu! No meio do caminho, abriu os braços, parecia estar num voo acima de tudo. aterrissou com perfeição, sem qualquer escorregão ou derrapagem.

E quase estourou a guerra no Hotel da Paz

Outra história de Leonel Brizola contada no livro de Clóvis Brigagão e Trajano Ribeiro:

Na década de 1970, durante o turno de Ernesto Geisel à frente da ditadura civil-militar no Brasil, Brizola, no exílio, foi a Roterdã para fazer contatos com o Partido Trabalhista Holandês e encontrar outros brasileiros exilados, após participar de uma reunião da Internacional Socialista na Alemanha. O engenheiro estava acompanhado de Trajano e sua esposa, Maria Ribeiro, e Moniz Bandeira.

Ao final do seu primeiro dia na Holanda, Brizola recebeu o pernambucano Maurílio Ferreira Lima, ex-deputado cassado, e seu irmão, Bruno Ferreira Lima. À noite, Brizola, Trajano e os irmãos Ferreira Lima conversavam no átrio do Hotel da Paz sobre a situação no Brasil. Durante a conversa, Trajano notou que um homem encostado na recepção prestava atenção no que diziam e sugeriu que o grupo se retirasse para um local mais reservado.

No caminho para o elevador, Trajano alertou Brizola sobre o homem que os observava e disse que, “pela pinta”, era brasileiro. “Não é possível. Tu estás vendo guampa em cabeça de égua”, replicou Brizola.

Segue o relato do livro:

Trajano foi até o recepcionista e perguntou-lhe se o homem que estivera algum tempo encostado no balcão era brasileiro, e o holandês confirmou. Voltou ao grupo em frente ao elevador:

- É brasileiro, governador.

- Mas onde ele está?

- Entrou naquela sala.

Trajano apontou para uma sala ao lado do salão de recepção, onde o homem acabara de entrar. Brizola dirigiu-se a passos largos para lá. Trajano e os Ferreira Lima os seguiram. Era uma sala de estar, onde um grupo assistia a televisão. Trajano mostrou a Brizola o homem. Para seu espanto e dos irmãos pernambucanos, Brizola dirigiu-se ao indivíduo, sentado numa poltrona, postando-se à sua frente:

- Boa noite.

- Boa noite.

- Brasileiro?

- Sim, sou brasileiro.

- Passeando?

- Não, trabalhando. Na verdade, fazendo um curso.

- E o amigo trabalha em quê?

- Sou da Marinha do Brasil.

Refazendo-se do impacto da surpreendente resposta, Brizola disparou:

- Eu sou Leonel Brizola e lhe desejo sucesso na sua missão. Boa noite.

Secretos, escondidos: documentos do Exército sobre os acusados de matar Rubens Paiva ainda estão assim

Brasília, 1963: o então deputado Rubens Paiva participa de sessão da CPI do Instituto Brasileiro de Ação Democrática, o Ibad (Foto: reprodução).

Há cerca de um ano, no auge do sucesso de público e crítica do filme Ainda estou aqui, que aborda o caso Rubens Paiva, a ótima plataforma Fiquem Sabendo solicitou ao Exército Brasileiro acesso às fichas funcionais dos agentes da ditadura acusados de torturar e assassinar o ex-deputado em 1971. Para surpresa de zero pessoa, o Exército negou o pedido.

O caso foi parar na Controladoria-Geral da União e, em julho do ano passado, a CGU, em decisão histórica, deu 30 dias para o Exército disponibilizar a papelada. Para surpresa de zero ser vivente, o Exército pediu revisão da decisão. A CGU manteve a decisão. O Exército, então, na virada do ano, bateu na porta da Advocacia-Geral da União para manter os documentos escondidos do povo brasileiro e eles ainda estão assim, até hoje, mais de meio século após o crime contra a humanidade. E assim seguirão, secretos, escondidos, enquanto a Câmara de Mediação e Conciliação da AGU não arquivar a chicana da caserna, o que, segundo a Folha de S.Paulo, deve acontecer em breve.

O Exército garante que não quer manter nada debaixo do Tapete Guararapes, peça (esta bem à vista) de seis por doze metros do acervo do Quartel-General da Força, em Brasília. O Exército afirma, afirmou à Folha, que quer apenas estabelecer as condições, os detalhes de um “eventual” fornecimento de dados sensíveis, de “informações pessoais de militares” e com “potencial impacto sobre a hierarquia e a disciplina”…

Treze anos atrás, em fevereiro de 2013, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) confirmou, com novos documentos (entregues nunca, jamais pelo Exército, mas pela família de um coronel reformado assassinado em 2012), o que já se suspeitava fortemente: Rubens Paiva foi torturado e morto nas dependências do DOI-CODI do I Exército, no Rio de Janeiro.

Meses depois, em setembro daquele ano, senadores da Subcomissão Permanente da Memória, Verdade e Justiça e membros da CNV estiveram na Rua Barão de Mesquita 425, na Tijuca, instalação militar onde funcionou o DOI do I Exército, para realizarem uma inspeção após o Comando Militar do Leste impedir membros da Comissão da Verdade do Rio de acessarem o local.

Para surpresa de zero criatura que caminha sobre a Terra, o então deputado Jair Bolsonaro apareceu no local no dia e na hora da inspeção, para tumultuar a visita, chegando a agredir o senador Randolfe Rodrigues, então membro da subcomissão da Verdade, Memória e Justiça e autor do requerimento para a diligência. Depois, Bolsonaro disse que não queria tumultuar nada, que não agrediu ninguém.

E disse também que um soco dele, Bolsonaro, teria potencial impacto para fazer, bem ali onde um ex-deputado foi torturado e assassinado pelo Exército, um senador da República “desmontar”, para botá-lo “para dormir três dias no chão”.

História recente da peçonha

O presidente Lula (Marcelo Camargo/Agência Brasil).

Por estes dias, apenas os primeiros dias do ano eleitoral, Flavio Bolsonaro e criaturas que tais andaram espalhando via Meta e via X que Lula teria afirmado que “pobre não precisar estudar”. Como assim? Foi assim: na semana passada, em uma cerimônia em Brasília pelos 90 anos da criação do salário mínimo, Lula usou a primeira pessoa para criticar, digamos, a “expectativa” das elites brasileiras sobre as classes populares: “pobre não nasceu pra estudar, porra! Você nasceu pra trabalhar!”.

Não é novidade, a artimanha. Em setembro do ano passado, circulou feroz nas redes sociais um vídeo mostrando Lula supostamente atacando negros e pobres com uma coleção de declarações preconceituosas. Em uma delas, Lula aparecia dizendo que “negro não tem que aprender, negro tem que trabalhar”. O que não aparecia no vídeo era que Lula, na verdade, tinha usado a frase para ilustrar a “mentalidade escravagista” delas, as ferozes elites nacionais.

Antes, em 2023, e na mesma linha, espalhou-se como um rastilho de pólvora entre paióis, ou melhor, entre grupos de WhatsApp, um vídeo de Lula dizendo que o “papel do trabalhador é trabalhar e o papel do pobre é esperar as políticas de ajuda do governo”. O vídeo puxava ali do baú dos preconceitos que grassam nas classes médias do país a aversão ao Bolsa Família. Lula, na verdade, tinha criticado a histórica ausência de políticas de inclusão social nos países da América Latina. Mas isso a Globo, ou melhor, a Meta não mostra.

Há quatro anos, em 2022, a poucos dias do segundo turno das eleições daquele ano, o que viralizou foi um vídeo de apenas oito segundos falseando, desvirtuando, adulterando uma fala de Lula contra os políticos que só lembram dos pobres em período eleitoral. Como? Para quê? para fazer crer que ele, Lula, o presidente que mais tinha feito contra a miséria na história do Brasil, largaria os pobres à própria sorte tão logo acabassem as eleições.

Ainda mais lá atrás: em janeiro de 2022, começaram a circular na internet vídeos manipulados que mostravam recortes de um encontro de Lula, meses antes, com lideranças do movimento negro em Salvador; vídeos que mostravam frases de Lula picotadas e rearranjadas de modo a fazer crer que o então pré-candidato à presidência da República estava “falando com o demônio” depois de receber uma imagem de Xangô e tomar um banho de pipoca de Obaluaê.

A fala completa de Lula na Bahia tinha sido a seguinte:

“Ontem, quando eu cheguei, as mulheres no palco jogaram pipoca em mim e me entregaram um santo, me entregaram um Xangô. E nas redes sociais do bolsonarismo, eles estão dizendo que eu tenho relação com o demônio, que eu estou falando com o demônio e o demônio está tomando conta de mim. Mas é uma campanha massiva, é uma campanha violenta como eles sabem fazer, do mal, massiva, é uma campanha violenta como eles sabem fazer, do mal. Eles só sabem fazer isso.”

O que fez, então, por exemplo, ele, Flavio Bolsonaro? Compartilhou um vídeo editado no qual Lula aparecia dizendo apenas que “eu estou falando com o demônio e o demônio está tomando conta de mim”. E fez, o 01, a seguinte convocatória a seus milhões de seguidores nas redes sociais: “marque seu pastor, padre, rabino nos comentários. Envie este vídeo a sua liderança religiosa e pergunte o que ela pensa disso. A guerra é também espiritual”.

O TSE foi acionado e em maio de 2023 — só em maio de 2023, quase um ano e meio depois — Flavio foi punido, mas apenas com uma multa de R$ 5 mil…

O responsável pela publicação do vídeo desfigurado, da peçonha compartilhada por Flavio Bolsonaro, um vereador bolsonarista chamado Rômulo Quintino, também foi multado e hoje ele é superintendente da Administração de Cemitérios e Serviços Funerários de… Cascavel. Flávio Nantes Bolsonaro é senador e pré-candidato à Presidência da República e agora as “deep fakes”, como as eleições de 2026, estão aí. As mentiras ultrarrealistas feitas com IA estão aí, à mão que fazia a rachadinha, e até agora sem soro antiofídico eficaz.

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