Vinte e dois dias depois da posse de Samir Xaud (25/5), a CBF se tornou parte de articulação milionária que poderá beneficiar o próprio pai do presidente com dinheiro da entidade.
José Gama Xaud, o Zeca Xaud, pai do dirigente, comanda a Federação Roraimense de Futebol (FRF) há 49 anos.
No dia 16 de junho, Zeca Xaud enviou ofício, obtido pela reportagem, para Mikael Wallas, titular da secretaria de estado de educação e desporto (SEED) de Roraima, com a proposta de obter a concessão, por 20 anos, do principal estádio local, o Flamarion Vasconcelos (“Canarinho”).
A contrapartida da FRF para a SEED pela concessão é uma promessa de R$ 3 milhões em investimentos. Pagos indiretamente através de uma melhoria das instalações. Uma operação triangular, onde uma terceira parte dá o dinheiro para FRF. A terceira parte, de acordo com o ofício da FRF: a CBF. Uma “parceria” entre FRF e CBF. Em 30 de junho, duas semanas depois de formalizar o interesse no arrendamento do “Canarinho”, a FRF enviou novo ofício e incluiu outro estádio da capital Boa Vista no requerimento: o Raimundo Ribeiro (Ribeirão).
Sem apresentar uma planilha com os custos do projeto especificados, Zeca Xaud prometeu que a FRF usaria o dinheiro a ser liberado pelo filho para “modernizar o estádio”.
PAI DE SAMIR XAUD USA NOME DA CBF PARA OBTER CONCESSÃO DE ESTÁDIO MAS CBF AFIRMA DESCONHECER O PROJETO
Questionada pela reportagem sobre financiar um projeto de concessão que tem como beneficiária final a federação comandada pelo pai do presidente, a confederação informou que “o projeto ainda não foi apresentado à CBF mas que se enquadra nos objetivos e no orçamento do Palcos do Futebol”.
Ou seja, de acordo com a CBF, até o momento, o pai de Samir Xaud negocia um contrato com o governo de Roraima em que a federação que preside passará a ser concessionária de bem público usando o nome da CBF como financiador sem ter consultado a própria CBF.
O “Palcos do Futebol” citado na resposta é o item do projeto “CBF Transforma”, em que a entidade investe em melhorias nos estádios.
Na sequência de longa resposta para a reportagem, a CBF diz poder participar do projeto em que está tendo o nome usado, segundo ela sem ser consultada. E que poderá ter participação futura através de projetos de investimentos já existentes na entidade para financiar melhoria de estádios e federações.
“Assim, a proposta de eventual cessão do estádio Canarinho pelo Governo à Federação Roraimense, mediante contrapartida de R$ 3 milhões em investimentos que seriam custeados pela CBF por meio do Programa Palcos do Futebol, é totalmente razoável e perfeitamente admissível. No entanto, uma vez que a Federação ainda não apresentou o referido projeto à CBF, só podemos concluir que o ofício referido pelo jornalista dispunha apenas das tratativas iniciais com o governo, visando uma parceria em benefício do futebol de Roraima”, respondeu a CBF em nota. Samir Xaud está desde terça-feira em Roraima, onde recebe uma série de homenagens, e estava marcado de comparecer ontem na federação.
FINANCIAR A CONCESSÃO PODE TORNAR CBF PASSÍVEL DE FISCALIZAÇÃO DE PF E MPF
A concessão de estádios para federações é incomum. Recentemente, a federação de Mato Grosso do Sul também manifestou proposta de gestão do Estádio Pedro Pedrossian, o Morenão, em audiência pública realizada na assembleia legislativa local em 17 de junho, onde se discutiu o processo de transferência do estádio da UFMS para o governo do estado.
De acordo com especialistas ouvidos pela reportagem, ser financiador de recursos para exploração de um bem público pode tornar a CBF passível de eventual ação por parte do Ministério Público Federal (MPF) e Polícia Federal, mesmo CBF e federação sendo instituições privadas. Isso ocorreria porque utilização de recursos para explorar um bem público (como um estádio concedido) pode caracterizar atuação no âmbito de interesse público, sujeitando-as ao controle de órgãos de investigação desde a necessária licitação.
CONFIRMAÇÃO DE AJUDA DA CBF REPRESENTARIA AUMENTO DE 113% NA VERBA PARA FEDERAÇÃO DO PAI DE SAMIR XAUD
Um dos itens da proposta da FRF é a “implantação de placar eletrônico”. Sem discriminar modelo e preço, apenas informando ser dentro dos padrões do regulamento esportivo mundial e chancelado pela FIFA e pela própria CBF.
A “substituição do gramado e plantação de grama na área lateral” é outro artigo assinalado, também sem orçamento. E sem garantia de data para ser realizada. O documento afirma apenas que será uma troca “gradativa”.
O projeto de R$ 3 milhões prevê ainda “substituição das traves fixas por traves removíveis e ampliação do banco de reservas”.
A conclusão dos objetos de responsabilidade do concessionário deixa o escopo das obrigações ainda mais frouxo, sem estabelecer por contrato, e ao afirmar que “demais mudanças serão alinhadas com concedente”.
Se vier a ser assinado o acordo de R$ 3 milhões, somente em uma única operação a CBF já iria superar o montante dado em 2024 para a FRF em 113,22%, já que, de acordo com o balanço financeiro da federação, no ano passado a CBF repassou para a entidade R$ 1.407.000,00. Ou seja: em apenas 22 dias de mandato de Samir Xaud, a FRF já tinha a perspectiva de dobrar a verba recebida via CBF.
DE NOVO? ÚLTIMA REFORMA DO ESTÁDIO ACABOU EM 2020 E RECEBEU R$ 33,6 MILHÕES DO GOVERNO FEDERAL
A necessidade de modernização chama atenção, já que a última reforma do “Canarinho” é recente. Em 2020, depois de ficar 8 anos fechado para o público, com eventuais jogos de portão fechado, o estádio foi reaberto. Com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, o estado gastou R$ 33.689.217,48. (trinta e três milhões, seiscentos e oitenta e nove mil, duzentos e dezessete reais e quarenta e oito centavos).
Incluído no pacote de concessão posteriormente, a proposta da federação para ficar também com o estádio Ribeirão inclui apenas a aplicação da grama que sair do Canarinho, ou seja, sem qualquer gasto. E assim como no estádio maior, o ofício fala que “outras modificações e melhorias poderão ser ajustadas em comum acordo com o ente concedente”. O Ribeirão também passou por reforma entregue há 2 anos, em 2023, ao custo de R$ 365.697,63 para os cofres do estado.
O uso do estádio Canarinho no estado vai muito além do futebol, assim como as possibilidades de arrecadação.
Utilização para partidas amistosas de particulares, shows e diversos eventos das secretarias são realizados no local ao longo do ano.
No dia 19 de abril, a SEED concedeu o estacionamento do estádio Canarinho para realização de show do cantor Gustavo Lima. No contrato, examinado pela reportagem, está dito que a cessão para a GSA Produções e Eventos, empresa do artista, foi gratuita. Com venda de 18.500 ingressos, exploração de camarotes e bar.
O Estádio Canarinho tem capacidade para 4.500 mil espectadores e o Ribeirão, 3 mil.
Antonio Denarium, o governador de Roraima, tem no prontuário diversas acusações de corrupção e conflitos de interesses. Como a compra de carne do Frigo10, frigorífico do qual o mandatário é sócio, em 2023, em acordo de R$ 3,1 milhões. O Frigo10 também fechou acordo como governo federal na gestão Bolsonaro para fornecer 8 toneladas de contra-filé para o exército.
Denarium é parte de um processo de cassação que está há dez meses parado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), já tendo sido cassado quatro vezes pelo Tribunal Regional Eleitoral de Roraima (TRE-RR) por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. O julgamento segue suspenso depois de ter sido retirado de pauta pelo TSE.
Ao longo dos anos, o político bolsonarista foi algo de denúncias de grilagem de terras, favorecimento do garimpo ilegal e extermínio da população indígena de Roraima.
A reportagem enviou questões também para a Federação Roraimense de Futebol e para a secretaria de estado de educação e desporto (SEED), ambas sem resposta. Além da resposta inicial, com trechos já citados, a CBF enviou a resposta abaixo:
“O Regulamento do programa CBF Transforma, que tem como objetivo fomentar o futebol em todo o território brasileiro, é claro ao estipular “cooperação com Federações e clubes filiados, com base na realidade e nas necessidades específicas de cada região do País”. O estádio Canarinho é a casa do futebol roraimense, portanto é lógico que seja alvo de investimento do subprograma Palcos do Futebol. Fica evidente que é muito mais apropriado reformar um estádio que já existe do que buscar alternativas. Outras federações já sinalizaram o desejo de convênios com Estados ou Municípios para cessão de equipamentos públicos. Nesse cenário, a CBF, como investidora, precisa de garantia de uso desses estádios por períodos determinados em contrato. Por fim, convém acrescentar que o assunto em questão ainda é um projeto da FRF. A comunicação levantada pela reportagem foi apenas uma consulta à Secretaria de Estado de Educação e Desporto (SEED) do Estado que não foi nem sequer formalizada junto à CBF”.
Alejandro Guillermo Dominguez Wilson Smith tinha 13 anos quando a Polícia Federal (PF) brasileira escreveu seu nome no confidencial “Informe 576”. Na ficha, além da foto do menino, está dito que ele foi um dos paraguaios a obter vistos permanentes para o Brasil com dados falsos. A solicitação do pai, Osvaldo Dominguez Dibb, o “ODD”, continha endereços forjados de residência em Foz do Iguaçu. Daquele 21 de maio de 1985 em diante, o prontuário nunca mais parou de engordar. O dele e o da família, juntos também por relações societárias.
Assim como o histórico de denúncias na justiça: contrabando de cigarros, lavagem de dinheiro, crimes contra o sistema financeiro, formação de quadrilha, grilagem de terra. E uma profunda e intima ligação com um dos maiores criminosos do século XX: o general Alfredo Stroessner, o ditador paraguaio que ficou 34 anos no poder, entre 4 de maio de 1954 e 3 de fevereiro de 1989. Unidos por laços empresariais e políticos. E familiares, desde quando Humberto, irmão de Osvaldo e tio de Alejandro, se casou com a filha do general, Graciela, e os Dominguez e os Stroessner passaram a ter um tronco Dominguez Stroessner. Uma ligação que estende suas fronteiras para o Brasil, onde Alejandro Dominguez e seus primos Stroessner possuem sociedade.
O
menino com anotação prematura na folha policial há exatos 40 anos virou
Alejandro Dominguez, o todo-poderoso do futebol no hemisfério sul, presidente
da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) desde 2016. Agora com 53
anos e um percurso marcado por coincidências, como uma empresa aberta em
paraíso fiscal exatamente 45 dias depois de assinar o controverso contrato por
direitos de transmissão da seleção paraguaia para Copa de 2018.
O
presidente da Conmebol é, junto com mais 5 irmãos, herdeiro em uma fortuna
estimada em mais de US$ 500 milhões. Inteiramente construída por “ODD”, à
sombra de benesses na era Stroessner. Os Dominguez Dibb foram protagonistas na
chamada “elite stronista”, os três principais grupos que sustentavam o poder do
ditador: famílias próximas aos Stroessner, empresários do Partido Colorado e
ainda militares e funcionários do alto escalão governamental. Os Dominguez Dibb
se enquadravam nos dois primeiros grupos aqui citados.
Beneficiário
direto dos 34 anos de horror. De uma das mais sanguinárias ditaduras da
história. Nesse período, foram 19.862 presos, 18.772 torturadas, 20.814
exilados, 236 menores privados de liberdade e 17 crianças nascidas na
prisão. Com 459 desaparecidos. Um total de 128.076 vítimas diretas e
indiretas, de acordo com os números da Comissão da Verdade e Justiça do
Paraguai.
Esses
números e relatos não dão conta de todo horror.
De
acordo com o Departamento de Memória Histórica e Reparação do Ministério da
Justiça paraguaio, Stroessner estuprava em média quatro meninas entre 10 e 15
anos por mês. Um pedófilo em série, que, ao longo dos 34 anos no poder, teria
estuprado 1.600 crianças. Meninas ainda na infância, sequestradas por militares
na área rural e enviadas ao general.
Julia
Ozorio Gamecho foi uma dessas meninas. Levada ao ditador aos 13 anos, depois de
retirada à força da casa dos pais. Perdeu a virgindade estuprada por Stroessner
e então foi “ofertada” por ele ao coronel Miers, de quem foi escrava sexual até
os 15 anos, quando então essas crianças eram consideradas velhas pelos
militares. Sobreviveu para contar. Enfrentando seus fantasmas, escreveu o
pungente relato da barbárie “Uma rosa e mil soldados”, onde descreve a
barbárie. Sobre homens que “saciavam sua luxúria sem limites com sede de
possuir aos despossuídos”, conta. “As bestas carniceiras”, resume.
Os
herdeiros e beneficiários dessas trevas ainda estão entre nós. Em todas as
áreas. Nos gabinetes, parlamentos, no mundo corporativo, nas telas. E nos
estádios.
PARTÍCIPES
DO HORROR
Farta
documentação, em diferentes fontes públicas, mostra que os Dominguez Dibb foram
muito além de beneficiários da ditadura, se locupletando como amigos e
familiares do rei. Mais do que cúmplices e entusiastas. Foram partícipes da
barbárie.
Entre os documentos, está o que se chamou de “Arquivos do Terror”, encontrados em uma delegacia de Assunção em 1992. Milhares de registros que possibilitaram a comprovação definitiva da “Operação Condor”. Incluindo o relato sádico e cruel relato do desaparecimento do médico Agustín Goiburú, opositor de Stroessner. Preso em 1970, conseguiu fugir e refugiar-se na embaixada chilena da capital paraguaia. Durante o refúgio de dez dias, Humberto Dominguez Dibb, o citado genro do ditador, tio e sócio de Alejandro Dominguez, foi para a calçada em frente a janela da embaixada, de onde insuflava populares e dirigia gritos para que o médico se entregasse, além de xingamentos. Beneficiado por um salvo-conduto do chileno Salvador Allende, Goiburú foi para o Chile. Em 1977, trabalhando na cidade argentina de Entre Rios, foi sequestrado em uma missão conjunta da Condor que juntava agentes paraguaios e argentinos, e nunca mais apareceu. A Corte Interamericana de justiça condenou o estado paraguaio a pagamento de indenização aos familiares.
ALÉM
DA BARBÁRIE, CORRUPÇÃO FOI A OUTRA GRANDE MARCA DA DITADURA STROESSNER
“A corrupção é o preço que se paga pela paz.” A famosa frase do ditador paraguaio teve como símbolo maior a Usina Hidrelétrica de Itaipu. O acordo binacional Brasil/Paraguai foi assinado em junho de 1966 entre os militares que governavam os dois países.
O
primeiro projeto da usina, o “Sete Quedas”, foi lançado ainda no governo civil
de João Goulart, derrubado pelo golpe de 1964 que iniciou a ditadura no Brasil.
Orçado em 1,3 bilhão de dólares. Projeto substituído pelo governo militar por
outro de 13 bilhões de dólares, sendo que o preço final ficou em estimados 30
bilhões de dólares.
O
superfaturamento foi esmiuçado por um militar. Em 1996, o coronel Alberto
Carlos Costa Fortunato escreveu “A direita explosiva no Brasil”, onde detalha
por onde escoou o dinheiro público dos dois países: “Conhecem a história sobre
o aumento de 23% no custo de Itaipu? Pois o negócio foi o seguinte: lá pelas
tantas, o governo paraguaio pretendeu (mais adequado seria dizer que
condicionou) um aumento de 23%. Os representantes brasileiros articularam um
conchavo e combinaram o seguinte: vocês topam aumentar em 46% (metade para cada
um)”? De acordo com o autor, assim foi feito.
Os Dominguez também são parte desta história. Desde os conchavos de lançamento até a influência em cargos estratégicos.
O
Jornal do Brasil, edição de 25 de abril de 1973, conta que, por ocasião do
lançamento de Itaipu, a comitiva de 90 integrantes do general Stroessner que
estava em Brasília para firmar a construção da usina espalhou-se pelo Hotel
Nacional. O nono andar ficou reservado para a cúpula da delegação: o general, o
filho, primeiro-tenente Gustavo Adolfo Stroessner, a filha Graciela Stroessner
e o genro do ditador, Humberto Dominguez Dibb, o tio e sócio de Alejandro
Dominguez.
Nomeações
para a empresa mostram essa influência. Como a de Gerardo Soria Dávalos, um
secretário de Osvaldo Dominguez Dibb que chegou a chefe do gabinete paraguaio
de Itaipu em 2014. Em 2022, o faz tudo dos Dominguez Dibb sofreu uma acusação
de assédio moral e sexual, quando ocupava o cargo de Diretor de
Responsabilidade Social na hidrelétrica. Episódio posteriormente arquivado.
“ODD”:
PEDIDO DE VISTO COM DADOS FALSOS AO FIM DA DITADURA STROESSNER POR MEDO DE
PUNIÇÕES
Tomado
por ditaduras militares desde a década de 60, sufocado pela “Operação Condor”,
os ventos do continente começaram a mudar de direção em meados dos anos 80.
Na
Argentina, o regime militar tinha acabado em 1983. No Brasil, o último general
se sustentava no poder, de onde sairia em 1985, assim como no Uruguai. No
Chile, o general Pinochet iria até 1990. É nesse contexto de provável mudança
no cenário político que, em 1984, o patriarca dos Dominguez pede os vistos
permanentes brasileiros para toda família. Uma precaução e salvaguarda depois
de décadas de relação umbilical, sanguínea e de negócios entre os Dominguez e
os Stroessner, como está no próprio relatório da PF:
“Referidos paraguaios são ligados direta ou indiretamente aos detentores do poder no governo do seu País. O propósito das artimanhas por eles praticadas para obterem permanência no Brasil, visa prevenirem-se contra possível mudança política no Paraguai”.
As
“artimanhas” citadas no processo: a criação de empresas fictícias no Brasil,
com intuito de provar vínculos já existentes, viabilizando a permissão. Essas
empresas se extinguiram logo após a concessão dos vistos.
Entre
as empresas criadas, está a Iguamóveis S.A. De acordo com os dados da Receita
Federal, a abertura, em Foz do Iguaçu, foi no dia 23 de fevereiro de 1984,
sendo baixada em 23 de outubro de 1985.
“Aquela
firma nunca funcionou. Foi criada com o fim de viabilizar a obtenção de
permanência definitiva no Brasil para a esposa, filhos, netos e alguns amigos
de Júlio Dominguez, tendo sido extinta definitivamente após a realização
daqueles objetivos”, diz o documento.
Na
ocasião, em depoimento a PF sobre o caso, corroborando a conhecida colaboração
entre ditaduras e seus beneficiários, o despachante e contador responsável por
abrir as empresas, Luiz Aires, “insinuou que citados elementos possuem ótimo
relacionamento nos altos escalões do governo brasileiro e que houve tráfico de
influência no processo de concessão da permanência definitiva no Brasil aos
nomeados”.
MUITO
MAIS DO QUE UM HERDEIRO: PRESIDENTE DA CONMEBOL É SÓCIO DOS STROESSNER E
BENEFICIÁRIO DA DITADURA NOS NEGÓCIOS
A participação de Alejandro Dominguez em toda engrenagem de fortuna e poder, vai muito além do parentesco. Assumiu parte dos empreendimentos do pai ainda cedo, como o conglomerado de jornal e rádios “Grupo Nación de Comunicaciones (GNC”), onde ocupou a presidência de 1999 a 2014. O império dos Dominguez passa por hoteis, imobiliárias, gastronomia, fábrica de cigarros, cassinos, exploração de jogo, terras e empresas ligadas ao agro.
O Brasil também reúne os Dominguez e os Stroessner nos negócios. Como na imobiliária Dominguez Dibb & Cia, aberta por “ODD” em Foz do Iguaçu, 1982, e ainda ativa, onde Alejandro está através da holding “Muharde Administradora de Bens”, sócio também de Humberto Dominguez e Alfredo Gustavo Domínguez Stroessner, o “Goli”, primo de Alejandro, filho de Humberto e neto do ditador.
Uma
comunicação datada de 10 de janeiro de 2010 entre a embaixada americana em
Assunção e o Departamento de Estado, vazada no Wikileaks, traça um perfil do herdeiro
de Osvaldo Dominguez Dibb: “seu filho, Alejandro Dominguez Wilson-Smith, que
estudou nos EUA, é o diretor do Grupo La Nacion, que inclui dois jornais
diários: La Nacion e Cronica, rádio 970 AM e várias estações de FM. Tanto pai
quanto filho tem laços com a família Stroessner”. Cita ainda as extensas
propriedades imobiliárias da família.
POLÍCIA
GRAVOU GARANTIA DE “ODD” SOBRE CIGARRO CONTRABANDEADO PELOS DOMINGUEZ: “TODA A
PRODUÇÃO TEM O MESMO PADRÃO DE QUALIDADE”
É
do ramo da fábrica de cigarros que brotaram os maiores escândalos da família.
Aqui novamente o presidente da Conmebol é muito mais do que somente um
herdeiro: Alejandro Dominguez é sócio da Tabacalera Boqueron. Acionista e nome
no registro da empresa, já estava como sócio quando, nos anos 90, começaram a
explodir as acusações de contrabando de cigarro da empresa. Escândalos
detalhados em comissões parlamentares de inquérito e processos judiciais em
diferentes países, investigação policiais e do ministério público.
Uma
modesta apreensão de 87 caixas de cigarro contrabandeados do Paraguai para São
Paulo, em 1997, foi o ponto de partida para uma investigação do Ministério
Público Federal-SP, que desembocou em denúncia oferecida e aceita em 2001 na
justiça de São Paulo, tendo tramitado na 6º Vara Criminal.
O
MPF-SP traçou com detalhes a ação e o papel da Tabacalera Boquerón, a sociedade
de “ODD” e do filho Alejandro Dominguez no que chamaram de “organização
criminosa” que comandava a engrenagem do contrabando de cigarros entre Brasil e
Paraguai.
O
empreendimento criminoso, segundo a peça, apresentava “uma divisão funcional de
atividades e conexões locais, nacionais e internacionais”. É nesse braço de
atividades e conexões internacionais que entrava a unidade dos Dominguez, de
acordo com o MPF-SP. “Assim é que os cigarros, de marcas próprias ou
contrafações de marcas nacionais, produzidos nas fábricas de Roberto Eleutério
ou na Tabacalera Boquerón, de propriedade do cidadão paraguaio Osvaldo
Dominguez Dibb, eram contrabandeados do Paraguai”.
A
monitoração telefônica de “ODD” por parte da investigação também permitiu
desenhar com maiores detalhes os tentáculos da Tabacalera Boquerón no esquema.
“É de se observar que a marca Derby, de titularidade da empresa Souza Cruz,
conforme diálogos mantidos entre integrantes da organização no Brasil e os
fornecedores paraguaios, entre eles Osvaldo Dominguez Dibb, é uma das mais
falsificadas e contrabandeadas, muitas vezes sendo identificada, durante a
transação comercial, com o código “418”.
As
apreensões geraram provas: “os cigarros apreendidos apresentam em muitas de
suas caixas, conforme se pode observar em vista realizada pelo MPF ao depósito
da Receita Federal, rótulos indicando que foram produzidos pela Tabacalera
Boquerón, sediada no Paraguai e de propriedade de Osvaldo Dominguez Dibb”.
Denunciado por associação criminosa, contrabando, falsificação de estampilhas
(selos) e crime contra a saúde pública, o processo por fim foi arquivado.
Em
2003, a câmara dos deputados instaurou em Brasília uma Comissão Parlamentar de
Inquérito, a “CPI da Pirataria”. “ODD” e a Tabacalera Boquerón ocupam um
capítulo inteiro do relatório final, apontado como “um dos principais
falsificadores de cigarros do Paraguai”.
O
modus operandi dos donos da Tabacalera Boquerón no esquema também está
esmiuçado no relatório da CPI:
“Utiliza
um avião do tipo Bell/90, série LA 46, registro ZP-TZE, em nome de sua filha,
para a prática do contrabando ou descaminho. As pistas utilizadas são as do
Aeroporto Guarani, de Ciudaddel Este, e uma em La Fortuna…Suas fábricas
produzem pelo menos 13 marcas de cigarros de peso no mercado brasileiro:
Belmont, Campeão, Derby, Indy, LS, Minister, Mistura Fina, Mustang, Oscar,
Plaza, Ritz, US e Vanguard. Todas falsificadas.”
As
escutas em cima de “ODD” captaram ainda a garantia de qualidade dos produtos da
Tabacalera Boquerón dada aos parceiros por “ODD”: “Podem ficar tranquilos
porque toda a produção tem o mesmo padrão de qualidade”.
A transformação de um país em negócio privado da família Stroessner e de seus parceiros alimentou os Dominguez em diferentes fronts. E gerou a fortuna do conglomerado Dominguez Dibb. Em fevereiro de 1969, Humberto Dominguez inaugurou, ao lado do sogro, sua fábrica de arames, a ICIERSA. Stroessner já tinha deixado o caminho livre para eliminar qualquer chance de insucesso dois meses antes, quando, no 31 de dezembro, publicou decreto proibindo a importação de alguns itens, entre eles o arame. Em 1975, o genro inaugurou ao lado do general a fábrica de pilhas “Paraguayas”. Noventa dias depois, decretou a proibição de importação de pilhas. De decreto em decreto do general, de monopólio em monopólio, os Dibb foram amealhando a fortuna da família.
PLATA
Y PLOMO: “MATADOR COM UMA ESCOPETA AMEAÇANDO CRIANÇAS E MULHERES”
O
roubo de terras por parte do que a Comissão de Verdade e Justiça do Paraguai
chamou de “famílias próximas a ditadura Stroessner” foi uma das maiores marcas
do período. De acordo com a comissão, 3.336 famílias ou grupos empresariais com
alguma relação ao ditador, se apropriaram de 8 milhões de hectares de “terras
mal habidas”.
O relatório “Los dueños de la tierra en Paraguay”, publicado pela organização internacional Oxford Committe for Famine Relief (OXFAM) em 2016, estima que o “Grupo Domínguez Dibb” acumulou 52 mil hectares no período, concentrados principalmente na Estancia La Gringa, de 35 mil hectares, em San Pedro, e na Estancia Loma Verde, em Presidente Hayes, com 17 mil hectares.
O
caso mais conhecido de terras do “Grupo Dominguez Dibb” apontadas como
apropriadas ilegalmente é o da Estância Loma Verde, onde está a “Agroganadera
Loma Verde”, da família.
Ali estão as terras da comunidade indígena Yakye Axa, que tiveram seu território gradualmente sendo tomado por fazendeiros ao longo do século XX, processo acelerado no período Stroessner.
Em 13 de julho de 2005, a CIDH sentenciou que o estado paraguaio deveria identificar o território tradicional e ancestral dos membros da Comunidade Indígena Yakye Axa, em posse dos Dominguez Dibb e entregá-los de maneira gratuita. Isso nunca ocorreu.
Expulsa de sua terra, a comunidade indígena vive até hoje à margem da estrada, onde é frequente o falecimento de crianças Yakye Axa por causa de acidentes na rodovia. No documento da CDIH de 2012, publicado pelo ministério da justiça do Brasil, o relato de uma testemunha cita a presença de um “matador” na propriedade dos Dominguez Dibb:
“Na
Estancia Loma Verde foi colocada uma pessoa como o matador do lugar, que
costuma percorrer o alambrado com uma escopeta ameaçando as crianças e as
mulheres, porque tem a ordem de não deixar as pessoas entrarem para retirar
lenha nem água. A testemunha é a única que pode se aproximar do senhor quando é
necessário que se esclareça algo, de modo que também recebeu ameaças.” Por fim,
contam que “as crianças não possuem alimentação, às vezes não possuem nada para
comer durante o dia. Há muitas dificuldades para a prática de caça, já que
estão proibidos de entrar na estância”.
FUTEBOL:
EM BUSCA DA POPULARIDADE E SEMPRE NA ROTA DOS ESCÂNDALOS
Poderosos,
impunes, milionários e amigos do rei. Os donos do Paraguai.
Faltava
apenas um ingrediente aos Dominguez Dibb: o respaldo popular.
Percorreram
o caminho mais fácil, indo ao encontro de onde muitas vezes se busca esse
ingrediente: o futebol.
Em
1976, ainda na ditadura Stroessner, “ODD” assumiu a presidência do Olímpia. Em
1979, o clube conquistou a Libertadores e o Mundial Interclubes.
Estabeleceram
uma dinastia e um feudo no Olímpia, com Humberto nos bastidores e Alejandro no
conselho de administração entre 1995 e 1996, e a vice-presidência entre 2004 e
2006. Neste ano, Alejandro Dominguez passou a vice-presidência da Associação
Paraguaia de Futebol (APF), com o “ODD” mantendo-se influente até a morte, em
2024. Em 2014, Juan Angel Napout, então o presidente da APF, assumiu a
titularidade da Conmebol e Alejandro chegou número 1 da APF.
Em
dezembro de 2015, quando explodiu o Fifagate, maior caso de corrupção da
história do esporte, Napout foi preso na Suíça. De acordo com a acusação
apresentada por Loretta Lynch, então Procuradora-Geral dos Estados Unidos,
Napout, em 2013, ainda na presidência da APF, teria recebido US$ 7,5 milhões da
Datisa, empresa que comercializava os direitos de televisão pela exclusividade
da Copa América. Alejandro Dominguez era seu vice no período, mas não foi
acusado. Com a queda de Napout da Conmebol, em janeiro de 2016, Alejandro
Dominguez foi aclamado novo presidente da Conmebol, onde está até hoje.
OPÇÃO
POR CONTRATO COM “PARCEIROS” ASSINADO POR ALEJANDRO DOMINGUEZ GEROU PERDA DE
US$ 7,6 MILHÕES
Em
2021, com Alejandro Dominguez já na presidência da Conmebol, veio à tona o
episódio do contrato assinado por ele quando ainda estava na Associação
Paraguaia de Futebol.
De
acordo com as denúncias, Alejandro, então mandatário da APF, teria assinado, em
5 de maio de 2015, um contrato com a empresa Ciffart Sport, no valor de US$
9.380 milhões, cedendo os direitos de transmissão dos jogos do Paraguai nas
eliminatórias da Copa da Rússia 2018. A Ciffart seria intermediária da Full
Play para pagamento de subornos.
Ocorre
que, exatos 11 dias antes, em 24 de abril, Alejandro Dominguez teria tido uma
oferta e um contrato na mão, que acabou vindo a público, no valor de US$ 17
milhões com a Tenfield pelos mesmos direitos. Ou seja: teria optado por uma
perda de US$ US$ 7,62 milhões (sete milhões, seiscentos e vinte mil dólares).
Em novembro de 2021, numa corte de Assunção, Alejandro Dominguez se recusou a
responder sobre o caso. Em 2023, o episódio foi alvo de investigação do Comitê
de Ética da Fifa, onde Alejandro Dominguez ocupa uma vice-presidência desde
2018. A investigação não foi adiante. O escândalo não o impediu de ser também,
desde 2017, o presidente da Comissão de Finanças da Fifa.
ALEJANDRO
DOMINGUEZ ABRIU EMPRESAS EM PARAÍSO FISCAL LOGO DEPOIS DE ASSINAR O CONTRATO DA
APF POR ELIMINATÓRIAS DE 2018
Refazendo o caminho e as pegadas desse episódio e desse contrato, a reportagem descobriu uma nova coincidência de datas muito próximas:
No dia 19 de junho de 2015, exatos 45 dias depois de assinar com a Ciffart o contrato com valor muito menor do que a oferta que recebera da Tenfield, o registro público de empresas do Panamá tem a abertura da “Spark Bay S.A.”, cujo objeto é de investimentos e gestão de ativos diversos.
Alejandro
Guillermo Dominguez Wilson Smith assina como presidente da empresa.
Maria
Mercedez Perez Dominguez, casada com Alejandro Dominguez, está como secretária.
Ambos constando no mesmo endereço em Assunção.
Montserrat Jimenez Granada aparece como tesoureira.
Montserrat
Jimenez Granada não é apenas sócia de Alejandro Dominguez em uma empresa
privada em paraíso fiscal. A advogada é a Diretora Jurídica e Secretária Geral
Adjunta da Conmebol desde a chegada de seu sócio na Spark Bay à presidência da
entidade máxima do futebol sul-americano. E já acompanhava o dirigente na
Associação Paraguaia de Futebol desde a entrada dele como presidente, em 2014,
só saindo para acompanhá-lo na Conmebol.
Na empresa panamenha, a diretora da Conmebol forneceu como endereço o escritório de advocacia Jiménez Balbiani & Asociados, do qual é parte, com seu irmão, Julio Jimenez, vice-presidente do Olímpia e intimamente ligado a Alejandro Dominguez: calle Jejuy 290 esquina Oleary.
Alejandro
Dominguez e Montserrat Jimenez seguem juntos na Conmebol e na empresa privada.
O Panamá está na lista de paraísos fiscais de entidades como a Organização para
a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e União Europeia, e é conhecido
por práticas de sigilo financeiro e baixa tributação, que facilitam a evasão
fiscal e a lavagem de dinheiro. A abertura da “Spark Bay”, em 2015 no país é,
portanto, anterior ao Panamá Papers, escândalo de 2016, a partir do qual outros
países se tornaram mais procurados para tais transações
CRONOLOGIA
–
24 DE ABRIL DE 2015: ALEJANDRO DOMINGUEZ RECEBE OFERTA DE US$ 17 MILHÕES DA
TENFIELD POR DIREITOS DE ELIMINATÓRIA DE COPA DE 2018
–
5 DE MAIO DE 2015: ALEJANDRO DOMINGUEZ ASSINA CONTRATO COM O A CIFFART POR US$
9,38 MILHÕES
–
19 DE JUNHO DE 2015: ALEJANDRO DOMINGUEZ ABRE A EMPRESA “SPARK BAY” NO PARAÍSO
FISCAL DO PANAMÁ JUNTO COM A SECRETÁRIA DA CONMEBOL
NOVOS
NEGÓCIOS, VELHAS SOMBRAS: UM CONTRATO MILIONÁRIO DE PETRÓLEO E MUITAS DÚVIDAS
O
negócio da vez dos Dominguez cruza as fronteiras e envolve milhões.
No dia 30 de setembro de 2024, a Petroleos Paraguayos (Petropar) e Doha Holding Group assinaram um contrato no valor de US$ 61 milhões.
Com
previsão de entrega de 100.000 toneladas métricas de combustível por um preço
significativamente menor do que o que a Petropar normalmente paga. Com preço do
diesel fixado em US$ 610 por tonelada, o que é bem abaixo do praticado no
cenário mundial, em que o preço médio internacional do diesel em 2023/2024
variou entre US$ 700 e US$ 900 por tonelada. A entrega do combustível deveria
ter sido entre outubro e novembro do ano passado, mas em março último as
empresas assinaram a quinta prorrogação de prazos.
PANAMÁ,
DOHA, ASSUNÇÃO E A MESMA ESQUINA: TODOS OS CAMINHOS LEVAM A ALEJANDRO DOMINGUEZ
Sem
qualquer tradição ou registro público de transação no mercado de combustível e
histórico comprovado, a Doha Holding contou com um trunfo para obter o contrato
com a Petropar: quem assina como um dos representantes da empresa é Alejandro
Facundo Dominguez Pérez. O filho do dirigente máximo do futebol continental. É
a terceira geração dos Dominguez envolvida em negócios controversos.
O herdeiro de Alejandro Dominguez como representante de uma empresa estrangeira em uma transação milionária no ramo do petróleo chama atenção também, já que cerca de um ano antes, mais exatamente no dia 13 de maio de 2023, estava se formando em jornalismo na William Allen White School of Journalism and Mass Communications, da Universidade do Kansas, Estados Unidos. Pouco tempo depois, estava assinando contrato milionário em área totalmente distinta da formação no ano anterior.
Além do filho, todos os caminhos da Doha Holding tangenciam o presidente da Conmebol. Como o endereço em Assunção fornecido pela empresa catari no contrato com a Petropar: calle Jejuy 290 esquina Oleary.
Este endereço já apareceu nesta reportagem. Sede do escritório de advocacia Jiménez Balbiani & Asociados, de Julio Jimenez, vice-presidente do Olímpia e intimamente ligado a Alejandro Dominguez, e de Montserrat Jimenez Granada, a sócia de Alejandro Dominguez na empresa que os dois tem no paraíso fiscal do Panamá. A advogada já citada que o acompanha não só em offshores, mas que está com ele também na Conmebol e antes esteve na Associação Paraguaia de Futebol.
Os documentos da Doha Holding Group obtidos pela reportagem mostram que ela foi aberta em 14 de dezembro de 2023, apenas nove meses antes do contrato com a Petropar, e está registrada no Qatar Financial Centre, que funciona como uma zona econômica especial e centro financeiro no Catar, operando com um sistema jurídico e regulatório independente, em inglês, para empresas de serviços financeiros e não financeiros. De acordo com o Tax Justice Network, ONG inglesa que investiga paraísos fiscais e países com alto grau de sigilo bancário, o Catar, embora não seja um paraíso fiscal, está classificado como um dos países de sigilo financeiro relevante, em 20º no mundo.
Com
capital de dez milhões de riais catarianos, equivalentes a US$ 2,75 milhões, a
Doha Holding tem como acionista principal o Sheik Khalifa Hamad Al-Thani, que
foi emir do Catar até 2013, sendo sucedido pelo filho, atualmente no poder. O
secretário Saad Doukali aparece em diversos empreendimentos financeiros.
O
DONO DO PARAGUAI
No
dia 11 de abril de 2024, uma quinta-feira, às 12h17, as câmeras de uma obra em
construção flagraram um homem de camisa social azul e calça num tom mais escuro
adentrando um pequeno campo de futebol com gramado sintético, situado na
Avenida Molas Lopez, entre San Martin e Dr Cirilo Cáceres, no bairro de Las
Lomas.
Aos berros, gritava para os operários do prédio em construção no terreno ao lado do campinho: “Si llego a ver a alguien que invada mi propiedad privada, levoy a meter plomo”. Em bom português: “Se eu pegar alguém invadindo minha propriedade, vou meter chumbo”. Pouco tempo depois, obteve o embargo da obra.
No vídeo, que é parte do processo na justiça paraguaia e foi obtido pela reportagem, o homem, captado à meia distância nas imagens, fala da polícia como se fosse uma instituição a serviço dele, e segue aos berros avisando aos funcionários da obra que se houver invasão da propriedade dele, “vai fazer descerem e serem presos”, sempre enfatizando ser o dono da propriedade ao lado da obra.
A
propriedade é de Alejandro Dominguez, o presidente da Conmebol, como está no
processo. A entidade de futebol inclusive está citada porque, de acordo com a
peça, o dirigente promoveu reunião de interesse particular com a entidade de
classe dos proprietários imobiliários na própria Conmebol.
Além de tratar dos assuntos de interesse particular do mandatário, a Conmebol segue o fracasso semanal no combate ao racismo pelos campos do continente. Em 17 de março último, Alejandro Dominguez achou por bem falar sobre eventual ausência de clubes do Brasil na Copa Libertadores da América comparando brasileiros a macacos: “Seria como o Tarzan sem a Chita”. Dezoito anos antes, o pai, Osvaldo Dominguez Dibb, ganhou o prêmio de “Artigo Mais Racista do Ano de 2007”, concedido pela organização de direitos humanos Survival International.
No
editorial “Índios na Praça Uruguai”, publicado no La Nacion no dia 13
de setembro de 2007, “ODD” atacou os indígenas, que expulsos por aqueles que
tinham tomado suas terras, acamparam entre janeiro e setembro no local. Uma
praça, por acaso, vizinha do Crowne Plaza Hotel, de propriedade dos Dominguez.
“Um câncer” e “hábitos imundos”, foram alguns dos termos usados
por “ODD”. Que prosseguiu em seu texto:
“Um
acampamento indígena neolítico bem no centro da cidade é impensável, mas lá
está ele, como um câncer perigoso, espalhando maus cheiros, destruição e
contaminação. A cidade está sendo punida sem motivo e não deveria ter que pagar
por isso. Os indígenas precisam aprender a viver como pessoas ou voltar para a
selva.”
O
poder dos Stroessner ficou para trás, deixando um rastro genocida, violento e
corrupto. Os Dominguez, cúmplices e produtos desse tempo, seguem cada vez mais
firmes e se renovando. Inaugurando a terceira geração envolvida em negócios
rumorosos. E cada vez mais poderosos. Terras, imóveis, fortuna, justiça,
transações milionárias, meios de comunicação. Como donos de um país. Ou mais do
que isso. Do futebol no continente. Numa história tão América Latina. Como
tantas outras já vistas por aqui, de plata y plomo.
OUTRO
LADO:
A reportagem enviou para Alejandro Dominguez, através do departamento de comunicação da Conmebol e também para seu e-mail pessoal, questões sobre os pontos abordados. A Conmebol confirmou o contato mas não respondeu as perguntas e pedidos de comentário, assim como o presidente da entidade, Alejandro Dominguez, e a secretária Montserrat Jimenez.
Milhares de frequentadores
estiveram com a vida em risco na praia de Copacabana no verão do ano passado.
No auge da estação, durante os meses de janeiro e fevereiro de 2024, turistas e cariocas mergulharam em um ponto cego num dos mais concorridos lugares da orla. Um pedaço de mar com a visão e a proteção dos salva-vidas obstruídas, como mostram imagens e documentos obtidos pela reportagem. Banhistas e salva-vidas separados por paineis de propaganda gigantescos.
Por iniciativa da prefeitura
do Rio, uma das maiores intervenções publicitárias de todos os tempos foi feita
na paisagem do Rio de Janeiro, em uma clara demonstração da força da indústria
das bets, as casas de aposta.
No total, foram dois meses de
ocupação. Entre 26 de dezembro de 2023 e 18 de fevereiro de 2024, o Rio foi
tomado por gigantescas estruturas estampando a marca da casa de apostas Pixbet:
Seis cubos gigantes espalhados pela cidade, um “beach club” e duas imensas
torres unindo uma tirolesa, ambos na praia de Copacabana.
O “Beach Club Pixbet” teve o funcionamento entre os dias 25 de janeiro 18 de fevereiro de 2024, de 8h às 18h autorizado em 2 de janeiro.
Peças imensas foram montadas no trecho de areia que fica entre o Lido e a rua Prado Júnior. Além de todas as instalações do “Beach Club Pixbet”, mais duas torres para abrigar uma “tirolesa”. Em plena areia, a torre de partida tinha quase 10 metros de altura. Exatos 9,50. E a torre de chegada 3,60.
No dia 29 de janeiro, já com quatro dias de funcionamento do “Beach Club Pixbet”, o comandante do 3º Grupamento Marítimo (3º GMar), coronel Márcio André Mathias de Oliveira, responsável pela área do evento, enviou comunicação ao comandante do Comando de Atividades de Salvamentos Marítimos (CBA X), obtida pela reportagem, onde apontou para os graves riscos da montagem. Uma negligência que poderia ter causado uma tragédia para a história da cidade e botou a vida de milhares de pessoas em risco. A solução veio em forma de gambiarra. A reportagem questionou o CBMERJ por meio da assessoria de imprensa sobre o fato. A instituição informou que “no período mencionado, os militares foram reposicionados estrategicamente para mais perto da areia, garantindo a continuidade do serviço de salvamento marítimo sem qualquer prejuízo à segurança da população” Já a prefeitura respondeu, via assessoria, que “ante todas as liberações oficiais, o município autorizou a realização do evento entre os dias 25 de janeiro de 2024 e 18 de fevereiro de 2024, de 8h às 18h”. (ver íntegra das respostas ao fim).
Com o improviso o “clube” foi
mantido, mesmo causando o reconhecido transtorno.
MERGULHO EM PONTO CEGO NA PRAIA DE COPACABANA
O relatório do comandante do 3º
Grupamento Marítimo (3º GMar), em 29 de janeiro, não deixa qualquer margem de
dúvida sobre o risco. Textualmente, palavra por palavra:
“Considerando o Beach Club
PixBet, evento esportivo que está sendo realizado na Avenida Atlântica, s/n –
Copacabana, a direita do Posto de Salvamento 2, com data de início as
11/01/2024 e término previsto para 18/02/2024, cujo tem estimativa de 200
pessoas por dia”;
“Considerando a estrutura montada para a realização do evento que, além de ser próxima à torre de salvamento, ocupa boa parte da faixa de areia, fazendo com que o guarda-vidas de serviço tenha a visão do lado esquerdo do posto prejudicada, perdendo visibilidade do mar”.
“Venho por meio desta
informar que a estrutura supracitada prejudica sobremaneira o serviço dos
guarda-vidas do Posto 2”.
O relato informava ainda que a estrutura do evento prejudicava o serviço de salvamento diretamente “diminuindo o tempo de resposta do guarda-vidas”.
E mais: que a representante do evento não considerou a gravidade dos fatos. Estava tudo legalizado. “A mesma informou que cumpriu com o projeto que foi apresentado para a legalização do evento”.
A organização do evento foi
indiferente ao relato sobre o risco que milhares estavam correndo: “…na
tentativa de mitigar o prejuízo, após conversar com uma das organizadoras, o
retorno não foi positivo por parte desta”, escreveu.
A reportagem teve acesso às fotos anexadas no relatório. São imagens contundentes quanto ao nível de interferência. Definitivas para se entender a dimensão do perigo que frequentadores da praia correram durante mais de um mês sob o patrocínio da casa de apostas Pixbet.
AS INTERVENÇÕES DA PIXBET NA PAISAGEM DO RIO NO VERÃO
DE 2024
– Um Beach Club ao lado do posto
2, Copacabana ocupando um quarteirão inteiro de um dos mais nobres ponto da
praia.
– Ao lado do “beach club” do
posto 2, em Copacabana, duas torres foram montadas para abrigar uma tirolesa.
Em plena areia, a torre de partida tinha quase 10 metros de altura. Exatos
9,50. E a torre de chegada 3,60.
– 6 cubos
publicitários, com 3 metros de altura e 5,15 metros de comprimento.
INVASÃO DA CASA
DE APOSTAS OCORREU NOS PONTOS MAIS VALORIZADOS DA CIDADE
Os pontos onde os 6 cubos
Pixbet foram instalados:
1- Avenida
das Américas, 900 (Barra da Tijuca)
2- Parque do
Flamengo (altura da rua Jardel Jercólis)
3- Parque do
Flamengo (altura do Hotel Glória)
4- Orla de Copacabana
(Avenida Atlântica na altura da rua Rainha Elisabeth)
5- Lagoa (na
saída do metro estação General Osorio)
6- Lagoa (canteiro central na subida do Túnel Rebouças)
CUBO PIXBET NA LAGOA
DOCUMENTOS DO IPHAN E INEPAC FALAM EM IRREGULARIDADES
O Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional (IPHAN) e o INEPAC enviaram ofícios para prefeitura e
produtores contestando as instalações. Por diversas irregularidades. Sem
efeito.
Em 29 de dezembro de 2023,
três dias depois da montagem das torres para abrigar a tirolesa no posto 2 da
praia de Copacabana, a superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (IPHAN) no Rio de Janeiro pediu a retirada dos paineis de
propaganda do local, por ser um “Sítio Patrimônio Mundial: paisagem carioca
entre a montanha e o mar”.
“Considerando o posicionamento histórico deste Iphan
de que o patrimônio cultural não seja utilizado como suporte de propaganda
comercial, recomenda-se a retirada dos grandes painéis da empresa promotora.
Além disso, relativamente à limitação de uma extensa faixa de areia,
recomenda-se que o acesso seja franqueado a todos, com o objetivo de garantir a
fruição do patrimônio por todo o coletivo da sociedade”.
Além do “Beach Club” e da tirolesa que contrariavam as
normas do IPHAN, os 2 cubos da Pixbet no Parque do Flamengo também apresentaram
irregularidades.
Em outro ofício de 29 de janeiro, a instituição pediu
a retirada dos cubos ali instalados, “cada vez maiores e mais numerosos”:
“Relativamente aos 2 cubos previstos para o Parque do
Flamengo, solicitamos a retirada dos elementos do local à luz do posicionamento
institucional adotado para a área de que os paineis publicitários em si já
causam poluição visual na paisagem e, recentemente, sendo projetados com
dimensões cada vez maiores e se tornando mais numerosos, ofuscam a
singularidade da paisagem natural urbana carioca. Dessa forma, requeiro o envio
de relatório fotográfico que demonstre a integridade dos canteiros ajardinados
após a desmontagem dos elementos, e/ou a recuperação dos gramados eventualmente
danificados em virtude da montagem do cubo de publicidade. Ressaltamos que
eventuais danos identificados no local, causados pela instalação dos cubos,
serão imputados à responsabilidade do requerente”.
MAIS
IRREGULARIDADES EM OUTRO CUBO NA ORLA
O segundo ponto da orla de Copacabana, instalado na
avenida Atlântica com a rua Rainha Elizabeth, a poucos quilômetros da
instalação do Posto 2, também apresentou problemas na liberação.
O Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC)
recebeu ofício para solicitação de autorização para a instalação patrocinada
pela Pixbet em 30 de janeiro de 2024, seis dias depois de já montada. Em 2 de
fevereiro, o arquiteto da instituição, Eduardo Valdetaro enviou ofício para a
prefeitura e para os representantes dos patrocinadores com duas considerações
principais apontando irregularidades:
“O cubo publicitário instalado em cima do piso tombado
de pedras portuguesas de autoria Roberto Burle Marx em um trecho do mosaico em
área integrante do tombamento estadual denominado Conjunto urbano-paisagístico
nas praias do Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon; o cubo publicitário de led “em
funcionamento 24 horas por dia, o que impactará diretamente na paisagem da Orla
de Copacabana, já que o local faz parte do Sítio Rio de Janeiro – ‘Paisagens
Cariocas entre a Montanha e o Mar’, patrimônio mundial declarado pela UNESCO
desde 2012, na categoria paisagem cultural”.
O parecer do INEPAC: “Diante das considerações acima e
após análise do material recebido, e sob o ponto de vista estrito do tombamento
Estadual, este Instituto se opõe a instalação de cubo publicitário Pixbet em
cima do piso de mosaico em pedras portuguesas de autoria de Roberto Burle Marx”.
O INEPAC também lamentou o envio com pedido de autorização fora do prazo:
“Solicitamos que, para as próximas realizações, seja
observado o prazo para envio da documentação de requisição ao INEPAC, de 20
dias antes da data inicial da montagem das peças artísticas”.
MUNICÍPIO NÃO RECEBEU UM CENTAVO PELA UTILIZAÇÃO DA
CIDADE COMO CENÁRIO DA PIXBET
A transformação da cidade em
um cenário da Pixbet não valeu um real diretamente para os cofres da
prefeitura. Assim mesmo: não houve qualquer pagamento direto da Pixbet ao
município para que a cidade se transformasse em um canteiro de exposição da
casa de apostas.
A transação da casa de
apostas para expor sua marca nos principais pontos da cidade foi feita através
de um intermediário, que recebeu o pagamento. No caso, um personagem de longa
relação com eventos realizados no Rio de Janeiro nas gestões Eduardo Paes: a SR
Promoções Culturais (SR COM) empresa de organização de eventos com R$
94.690.022,12 (noventa e quatro milhões, seiscentos e noventa mil, vinte e dois
reais e doze centavos) em 22 contratos com a prefeitura do Rio ao longo dos
anos, sendo que 18 deles em gestões de Eduardo Paes, além de outros eventos com
múltiplos financiadores além do município, como a festa de abertura dos Jogos
Olímpicos em 2016 e Jogos Mundiais Militares, em 2011.
O início da invasão da Pixbet
se deu próximo ao réveillon de 2023. Um edital da Riotur, a empresa de turismo
do município do Rio, selecionou a empresa responsável pela produção da festa de
fim de ano na cidade. A SR Promoções Culturais foi a vencedora da concorrência.
O edital autorizava a empresa
vencedora a captar patrocinadores no mercado privado, com a contrapartida de
ações de marketing nas áreas da festa. Assim, em breve resumo, a Pixbet assinou
e realizou o pagamento para ser patrocinadora da produtora do evento, a SR
Promoções Culturais. Não entrando nenhum centavo para a prefeitura diretamente
pela exposição da casa de apostas, como confirma a própria prefeitura, através
da assessoria de imprensa da Riotur, em resposta para a reportagem.
“Não houve qualquer
transferência de recursos entre a “Pixbet” e a Prefeitura do Rio de
Janeiro. Houve, na verdade, um aporte de recursos privados, a título de
patrocínio, para a sociedade organizadora privada, a “SR COM”,
selecionada mediante Edital de Caderno de Encargo realizado pela Riotur.”
(veja a íntegra da resposta ao fim da reportagem).
PREFEITURA NÃO RECEBEU PELO PATROCÍNIO DO RÉVEILLON MAS PAGOU R$ 22,1 MILHÕES PARA INTERMEDIÁRIA EM GASTOS NA FESTA
A SR Promoções Culturais
ganhou dos dois lados.
Se não houve pagamento de
patrocinadores para o cofre da cidade diretamente, indo para a empresa, o mesmo
não pode ser dito em relação ao fluxo “prefeitura – SR Promoções Culturais”.
Mesmo captando recursos na iniciativa privada, a empresa ainda assinou um total
de R$ 22.150.000,00 (vinte e dois milhões, cento e cinquenta mil reais) a serem
pagos pela gestão de Eduardo Paes, em ações diretas para o réveillon, divididas
em dois contratos: um junto a própria Riotur, (R$ 11.900.000,00) e outro com a
Casa Civil (R$ 10.250.000,00).
Assinado em 13 de dezembro, o
contrato de R$ 11,9 milhões da Riotur com a SR Promoções Culturais teve como
objeto “contratação de empresa especializada para prestação de serviço de
evento, planejamento operacional, execução, acompanhamento, fornecimento de
bens e insumos, infraestrutura e apoio logístico para viabilizar o evento do
réveillon 2023/2024 – Palcos da Cidade do Rio de Janeiro”.
Já o contrato da Casa Civil
do município com a Sr Promoções Culturais, assinado no apagar do ano que
partia, em 28 de dezembro, no valor de R$ 10,2 milhões, tinha como objeto a
“divulgação da marca G-20 durante o réveillon de 2023/2024, em vários pontos da
cidade, tendo como seu ponto alto a praia de Copacabana”.
A INVASÃO DA CASA DE APOSTAS SEGUIU DEPOIS DO RÉVEILLON
Passado o réveillon, a
invasão da Pixbet seguiu. E aumentou.
Em 15 de janeiro, a Liga
Independente das Escolas de Samba (LIESA), através de seu presidente Gabriel
David, oficiou a prefeitura e enviou documento formal de “consulta prévia de
evento”. O evento já estava montado.
A consulta tratou sobre a
ocupação da cidade com a tirolesa, um beach club e 6 cubos gigantes espalhados
em pontos turísticos como uma “contribuição para a cidade” por parte da Pixbet,
que também é patrocinadora da Liesa.
Mais do que isso: como algo que irá
“enriquecer a experiência dos participantes. Assim, solicitou formalmente “a
permissão da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro para a instalação de
ativações promocionais em locais estratégicos da cidade durante o período
mencionado”.
Em 19 de janeiro, foi a vez
da Dream Factory, empresa organizadora do carnaval de rua do Rio, “informar o
interesse da empresa Pixbet em realizar ativações espalhadas pela cidade do Rio
de Janeiro durante o período que compreende janeiro e fevereiro, até o final do
carnaval”.
Em 30 de janeiro, seis dias
depois de já iniciada a ação, a SR Promoções Culturais escreveu para o Instituto
Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC), onde o projeto tinha entrado em
exigência, e também citou a invasão da casa de apostas na paisagem como um
“oferecimento” para a cidade, assim como a extensão do réveillon para
permanência até depois do carnaval. Os termos: “Já que a empresa Pixbet
patrocinou o réveillon do Rio e ofereceu para a prefeitura os cubos para
divulgar agendas de eventos do carnaval do Rio”, solicitava a autorização da
instalação para “em parceria com a prefeitura do Rio, divulgar agendas de
eventos de eventos do carnaval do Rio”.
Nenhum dos ofícios trata
sobre valores e sim apenas sobre a instalação dos objetos da Pixbet na cidade
como um “oferecimento” da empresa.
Os pedidos formais nos
documentos obtidos pela reportagem, na verdade eram mesmo formalidades, já que
os objetos já estavam instalados.
EMPRESA RESPONSÁVEL PELO EVENTO RESPONDEU POR
IRREGULARIDADES ANTERIORMENTE
Vencedora do edital para o
réveillon de 2024, assim como em outros anos anteriores, e responsável pelo
projeto que espalhou a marca da casa de apostas pelo Rio, a SR Promoções
Culturais esteve citada por irregularidades em eventos anteriores na cidade.
Na edição dos Jogos Mundiais
Militares (JMM), realizados no Rio em 2011, a empresa foi citada em 2012 em
processo do Tribunal de Contas da União (TCU), por irregularidades. Entre elas,
a ligação entre Abel Silveira Gomes, contratado para elaboração do projeto das
cerimônias de abertura e de encerramento da competição, além do gerenciamento
do contrato de produção e execução do referidos cerimoniais, por R$ 765.000,00.
Em seguida ao projeto de Abel
Gomes, foi realizada a licitação para escolha da empresa especializada na execução
desse projeto das cerimônias de abertura e encerramento. Venceu a SR Promoções
Culturais, com proposta de R$ 24.994.000,00. Um valor apresentado na licitação abaixo
da estimativa inicial do Comitê de Planejamento Operacional dos JMM, de R$
27.998.266,67.
No voto sobre o processo do
TCU, o tribunal apontou irregularidade na escolha mas ao fim não
responsabilizou ninguém.
A SR Promoções Culturais, executora do projeto, está em nome de Sheila Roza, que mantinha união estável com Abel Gomes, o autor do projeto, além de relações societárias em outras empresas. De acordo com o TCU na ocasião, a empresa “possui estreito relacionamento profissional, societário e pessoal com o projetista das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos, Sr. Abel Silveira Gomes, em violação ao disposto no art. 9º da Lei 8.666/1993”. Tal artigo estabelece que não pode participar de licitações, obras, serviços e fornecimento de bens: “o autor do projeto, seja ele básico ou executivo; a empresa que elaborou o projeto, ou da qual o autor seja dirigente, gerente, acionista, controlador, responsável técnico ou subcontratado”.
No entanto, apesar de
identificar a irregularidade, o TCU, em fevereiro de 2015, não aplicou sanção a
Abel Gomes nem à empresa SR Promoções Culturais Ltda. Como justificativa,
apesar do reconhecimento de ilicitudes, o tribunal, através de votação, definiu
que como nem Abel nem a SRCOM eram gestores públicos, não cabia aplicar
penalidades a eles.
Além de outras relações
societárias apontadas pelo TCU, a reportagem encontrou ainda o registro da
empresa SR COM Limited no equivalente a junta comercial do Reino Unido, onde
Abel Gomes aparece como proprietário e Sheila Roza como sócia, além de Paulo
Cezar da Silva Ferreira.
OUTRO LADO:
Prefeitura do Rio de Janeiro:
“A Prefeitura do Rio informa
que autorizou a realização do evento “Beach Club Pixbet”, na Praia de
Copacabana, Posto 2, após todos os órgãos envolvidos na concessão da licença
emitirem o nada a opor. Inclusive, o Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro
(CBMERJ), via Autorização A-00016/24 DGDP, expedida em 2 de janeiro de 2024.
Ante todas as liberações oficiais, o município autorizou a realização do evento
entre os dias 25 de janeiro de 2024 e 18 de fevereiro de 2024, de 8h às 18h”.
RIOTUR:
A reportagem enviou também para
a prefeitura, via assessoria de imprensa, pedido de resposta sobre a relação
entre o município, a SR Promoções Culturais e a Pixbet no episódio. A
prefeitura indicou a Riotur como responsável pela resposta. A Riotur enviou a
resposta abaixo:
“A Riotur para o
Réveillon do Rio de 2023/2024 lançou o edital – Caderno de encargos e
contrapartidas para selecionar publicamente a empresa responsável pela produção
do festejo de final de ano. A empresa SR PROMOÇÕES CULTURAIS LTDA (“SR
COM”) se sagrou vencedora do processo de seleção.
Para financiar os custos do
projeto vencedor do Réveillon, a sociedade organizadora (“SR COM”)
buscou, no mercado privado, potenciais patrocinadores interessados, os quais
teriam, como contrapartida, a possibilidade de realizar ações de marketing e
ativações nas regiões que circundam as áreas onde o Réveillon é realizado.
Uma dessas sociedades
patrocinadoras, portanto, foi a PIXBET SOLUCOES TECNOLOGICAS LTDA (“Pix
bet”), firmando relação jurídica com SRCom, permitindo-lhe realizar ações
de marketing e outros.
Em conclusão, não houve
qualquer transferência de recursos entre a “Pixbet” e a Prefeitura do
Rio de Janeiro. Houve, na verdade, um aporte de recursos privados, a título de
patrocínio, para a sociedade organizadora privada, a “SR COM”,
selecionada mediante Edital de Caderno de Encargo realizado pela RIOTUR.”
CBMERJ:
“O Corpo de Bombeiros Militar
do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ) informa que a situação relatada não
impactou as atividades dos guarda-vidas. No período mencionado, os militares
foram reposicionados estrategicamente para mais perto da areia, garantindo a
continuidade do serviço de salvamento marítimo sem qualquer prejuízo à
segurança da população”.
IPHAN:
A reportagem enviou pedido de
resposta para o IPHAN sem resposta.
SRCOM:
A reportagem enviou pedido de resposta para a SRCOM, sem resposta.
PIXBET:
A reportagem tentou contato
com a bets e seus proprietários. Enviou
demanda ainda para o escritório de advocacia da Pixbet, mas não obteve retorno.
O estranho não é Landim não saber o que Zico representa para o Flamengo. O estranho não é Landim não ter respeito pelo Flamengo. Tudo isso sempre esteve aí. Esse é o sujeito cujo único objetivo é negociar o Flamengo. O estranho é a Gávea não ter sido cercada, não existir protesto, não se exigir a saída de um presidente que não respeita o maior ídolo. Algo que só a cooptação de tantos personagens desse enredo explica. Não é preciso explicar pra ninguém aqui quem é Zico, quem é Zico para o Flamengo. Nem mesmo falar sobre construção de memória, o sagrado da construção de ídolos. É preciso falar sobre Landim. Vamos lá:
O Flamengo é vítima de uma apropriação indébita. Rodolfo Landim usa o Flamengo para seus objetivos pessoais.
Não bastasse a aberração que isso representa, o preço disso está sendo muito alto para o clube.
As duas frases acima vão muito além de subjetivas. São facilmente respaldadas em um conjunto de fatos recentes. Assustadores.
Aos fatos:
No dia 17 de junho de 2020, Landim esteve na posse do então novo ministro das comunicações, Fábio Faria. Após a cerimônia, em meio a uma pandemia que matava milhares todos os dias, ocorreu um almoço reservado juntando o presidente do Flamengo, Bolsonaro e Felipe Melo. São todos fatos públicos e registrados na imprensa na ocasião.
No almoço, Landim e Bolsonaro conversaram sobre a “Lei do Mandante”. Era o que os dois precisavam. Para Bolsonaro, era a forma perfeita para fustigar a TV Globo e atacar diretamente seu alvo permanente no bolso. E para Landim, o passaporte que precisava para ganhar o mandatário e alçar seus vôos particulares. Usando o Flamengo para isso. O tempo acabou mostrando o quão danoso foi para o Flamengo, mas é isso é adiante.
No dia seguinte já, célere como jamais foi para comprar vacinas, Bolsonaro edita a MP 984/2020, redigida por seu ministro Onyx Lorenzoni. A celeridade ocorreu ainda porque a alteração era simples: bastou acrescentar a palavra “mandante” ao trecho da Lei Pelé que trata sobre os detentores dos direitos de transmissão das partidas. Uma simples palavra que atingia em cheio a TV Globo e ao mesmo tempo credenciava Landim como um homem de confiança de Bolsonaro.
Paralelo ao favor em que usava o Flamengo sem pensar no cenário de perdas futuras, Landim prestava outro favor: botava lenha no fogo de Bolsonaro que ardia um país menosprezando a ciência e causando vítimas: aderia a campanha do ex-presidente a reabrir os estádios. E usava o jogador mais forte possível da mesa: o Flamengo.
A MP chegou a caducar, voltou em forma do projeto de lei PL 2.336/2021 no ano seguinte que, com menos de um mês de transitação, foi aprovado em 24 de agosto de 2021. No mês seguinte, Bolsonaro demonstrou sua gratidão e passou a falar aos próximos e deixar vazar a ideia de ter Landim como vice na eleição de 2022.
O pagamento e mais um passo da relação veio antes. No início de março de 2022, Bolsonaro expressou que pretendia tirar o general Joaquim Silva e Luna da presidência da Petrobras. O plano tinha data: com 51% dos votos do governo, na assembleia de acionistas marcada para 13 de abril seguinte, Bolsonaro tirava o general e botava Landim.
Em razão da pressão e de Landim ainda ter mandato no Flamengo, a ideia de presidência migrou para outro posto estratégico na estatal: em 28 de março, Bolsonaro indicou o nome de Landim para diretor-geral do Conselho de Administração da Petrobras (além de Adriano Pires para a presidência).
O RELATÓRIO DA PETROBRAS SOBRE LANDIM
O que veio em seguida vale sua atenção. E é assustador, caso não lembre ou na ocasião não tenha ficado sabendo:
Todo candidato ao conselho tem que passar por crivo sobre sua folha corrida. E aí a indicação de Landim desandou.
O relatório da “Diretoria de Governança e Conformidade da Petrobras” sobre Landim, entregue ao ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, assim foi descrito, em definição vazada na ocasião: “Assustador”. Até mesmo para técnicos da Corregedoria Geral da União, acostumados com sustos de prontuários.
De acordo com reportagem publicada no Globo na ocasião, o relatório mostrou que Landim recebeu em suas contas na Suíça depósitos de “contas de passagem” usadas para mandar recursos a Renato Duque e Pedro Barusco, executivos da Petrobras envolvidos no episódio que ficou conhecido como “Petrolão”.
E constatava, de acordo com o relatório, que Landim teria então uma série de processos e acusações pendentes na Justiça que atestariam sua relação com o empresário Carlos Suarez, sócio de distribuidoras de gás, em evidente conflito de interesse caso assumisse na Petrobras.
Relatava ainda que, de sua conta, Landim enviara US$ 643 mil para uma conta de Suarez, também na Suíça, em maio de 2021.
Os documentos sobre essas contas estão no processo movido pelo Ministério Público Federal contra Landim por fraude e desvio de recursos do fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, a Petros.
A quebra de sigilo das contas de Landim para apurar se as movimentações na Suíça chegou a ser pedida, mas escapou por uma liminar do desembargador Ney Bello, do Tribunal Regional Federal de Brasília, que cancelou o pedido de cooperação internacional entre Brasil e Suíça e suspendeu o processo.
Diante da certeza de que seria veementemente gongado na indicação de Bolsonaro, Landim recuou. E até para recuar usou o Flamengo, afirmando, depois de nos bastidores aceitar a indicação, que não poderia porque teria que se dedicar ao clube.
A ampla relação com Bolsonaro e a utilização do Flamengo para tal e alcançar os objetivos pessoais, por fim, como se sabe, resultou no contrato assinado pelo Flamengo com a Libra. Aprovado pelo conselho do clube recentemente. E, como também se sabe, tendo como origem a Lei do Mandante urdida à surdina, à socapa, à sorrelfa, na calada da noite, por Bolsonaro e Landim, cada qual com seu interesse, menos os de um país e de um clube. E que agora custa caro e causa prejuízos para o clube.
Ao longo de sua história, o Flamengo foi apropriado indevidamente para interesses próprios muitas vezes. Em todas o fim foi danoso. O espetacular êxito e superávits atuais não transformam menos danosos tais ultilizações.
Mas acima de tudo, apontam para um único caminho: o Landim que tem agora como pensamento único vender o Flamengo e usa um estádio como cortina de fumaça, é o mesmo da Lei do Mandante assinada à pequena com Bolsonaro, é o mesmo que fez do clube caminho para indicação na Petrobras, é o mesmo do relatório assustador. O pior: com um conselho totalmente aparelhado e aos seus pés. Tradução: ou o além Gávea e gabinetes obscuros atentam para tantos fatos, (tradução para “Além Gávea: o torcedor, o verdadeiramente apaixonado, a massa, o povão, “la gente”, como dizem os argentinos), ou esse mesmo Landim e seus parceiros venderão o clube. 30% e nada mais depois, garantem, se você quiser acreditar. Para investidores respeitáveis, se você quiser acreditar.
O Flamengo é Zico e não algo tão vil. E Zico é tronco poderoso dessa árvore sagrada. Aquele que nos faz e nos permite construir as referências para os que vão chegar. A ancestralidade rubro-negra está e sempre estará em Denir, Gerdau, Dida, Zizinho, Dr Rubis, Leandro, Júnior, Leonidas. E eternamente Zico. Landim e os seus: nunca serão.
Eram 21h30 quando uma torre de energia tombou em Cujubim, Rondônia.
O segundo ataque veio logo depois.
Brasília ainda ardia sob a fúria dos atos golpistas que atacaram Palácio do Planalto, Congresso e Supremo Tribunal Federal quando, 0h13 em ponto, exatas duas horas e quarenta e três minutos depois da primeira, desabou a segunda torre em Medianeira, Paraná. 0h40, num espaço de três horas e dez minutos entre as três, foi ao chão a terceira. Em Rolim de Moura, também Rondônia, a cerca de 380 quilômetros de Cujubim.
O documento da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) que relata os acontecimentos dos ataques as linhas de transmissão de energia do Brasil em janeiro de 2023, obtido pela reportagem através da Lei de Acesso à Informação, é definitivo:
SABOTAGEM E AÇÃO CRIMINOSA
“Sabotagem. Atuação ou tentativa criminosa”. Define como “ações criminosas”. E completa: “não foram registradas condições climáticas adversas que possam ter causado queda das torres”.
No total, entre os primeiros ataques, no dia 8 de janeiro e o dia 31, foram 24 torres avariadas em 14 diferentes locais, espalhados por seis estados: Rondônia (4 locais), Paraná (4), São Paulo (3), Mato Grosso (1), Piaui (1) e Pará (1). Quatro foram ao chão, sendo que 3 em Rondônia e uma no Paraná. As três atacadas em 8 de janeiro ao longo da noite e madrugada, (duas em Rondônia e uma no Paraná) foram ao chão. O laudo de todas define como sabotagem.
FONTE: ANEEL (Obtido via Lei de Acesso à Informação)
Em todos os casos, ocorreu a repetição sistemática de um conjunto de ações: todos os parafusos da base das torres foram retirados, “ficando a torre sem sustentação, possibilitando a queda”. Além dos parafusos, foram cortados também os cabos de sustentação.
Em resumo: existiu um modus operandi. Um método repetido que uniu todas as ações.
Mais do que isso: uma organização, planejamento e pessoas com treinamento para tal operação realizada de forma sistematizada.
ATOS GOLPISTAS DE BRASÍLIA E TORRES DE ENERGIA ATACADAS: UM SÓ PLANO
Fotos ANEEL (obtidas via Lei de Acesso à Informação)
“É preciso não perder de vista jamais que o caso das torres derrubadas começam no mesmo dia, quase simultaneamente, exatamente horas depois do início dos eventos golpistas de Brasília, ao anoitecer. O que pode ser entendido como parte de um mesmo plano. Dentro desse plano, Brasília já estaria tomada pelos golpistas no executivo, judiciário e legislativo, e problemas em série com a rede de energia trariam de vez o caos ao país. Restaria a decretação da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e o poder transferido para o exército. E o governo estaria entregue. Hoje sabemos que esse era o plano”, resume um servidor envolvido na apuração dos episódios do 8 de janeiro e que pediu para não se identificar.
O histórico anual de ocorrências em torres de energia também afasta a hipótese do acaso. De acordo com a ANEEL, o ano de 2023 representa um recorde. Mais especificamente janeiro de 2023, mês em que as ações se concentraram. Para se ter uma ideia através de termos comparativos, 2019 inteiro fechou com dois registros de vandalismo em torres. Menos do que o 8 de janeiro de 2023.
Esquecido no noticiário sobre a tentativa de golpe de 8 de janeiro, jamais citado como objeto da investigação em curso sobre , sem nenhuma prisão ou operação específica, o episódio dos ataques às torres de energia foram e requerem, no entanto, tanta complexidade ou mais, logística, verbas e expertise do que os próprios eventos de 8 de janeiro ocorridos em Brasília.
Coisa de especialista.
Em relação aos episódios de Brasília, as investigações caminham para uma direção. Em relação aos ataques contra as torres, os caminhos e os relatórios da ANEEL mostram também alto grau de profissionalismo.
OS KIDS PRETOS EM AÇÃO
Em junho de 2022, o repórter Allan de Abreu publicou a reportagem “Os Kids Pretos – O papel da elite de combate do Exército nas maquinações golpistas”, na revista Piaui, onde, pela primeira vez, era citada a participação efetiva de militares da forças especiais, os chamados “kids pretos”, na tentativa de golpe de 8 de janeiro.
Na ocasião, a reportagem mostrou que o nível de organização das ações na capital demandava profissionais capacitados.
E os profissionais no exército capacitados para tal, treinados em operações especiais, eram os kids pretos, círculo de oficiais que formavam o ciclo mais próximo a Jair Bolsonaro.
Os kids pretos são treinados emações de sabotagem e incentivo à insurgência popular, as chamadas “operações de guerra irregular”.
MODUS OPERANDI: PARAFUSOS DA BASE RETIRADOS E CABOS CORTADOS
As fotos abaixo, todas constantes do relatório da ANEEL sobre os ataques, mostram as distintas sabotagens, como retiradas de parafusos estratégicos na base, corte de cabos também da base e retirada de hastes de sustentação:
Desde o início das investigações sobre os atos golpistas, duas operações especificamente voltadas para a participação e organização dos kids pretos já foram realizadas pela Polícia Federal.
Em 29 de setembro de 2023, a PF realizou mais uma etapa, a 18ª, da “Operação Lesa Pátria”, nome da investigação que apura financiadores, participantes e organizadores dos atos golpistas. A operação foi voltada especificamente para cumprir um mandado de busca e apreensão contra o general da reserva Ridauto Lucio Fernandes, um “kids preto”, que chegou a gravar vídeo da própria participação nos atos golpistas de 8 de janeiro.
“A nova fase da Lesa Pátria faz parte de uma frente da investigação que busca identificar supostos integrantes das Forças Especiais do Exército, os chamados “kid pretos”, que teriam dado início às invasões às sedes dos Três Poderes”, comunicou então a Polícia Federal.
Já em 8 de fevereiro de 2024, foi deflagrada a “Operação Tempus Veritatis” da Polícia Federal, para apurar os crimes de golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito por membros do governo de Jair Bolsonaro, apontou que integrantes das Forças Especiais do Exército, os chamados “kids pretos”, estiveram envolvidos em um “planejamento minucioso” para impedir a posse de Lula na presidência da República.
De acordo com a PF, “houve planejamento minucioso de kids pretos do exército para a consumação do golpe de estado”. O plano envolveu uma reunião em novembro de 2022 com oficiais especializados em ações contra terrorismo, insurgência e guerrilha. Os “kids pretos” seriam os responsáveis por realizar as prisões de autoridades após a edição de um decreto de intervenção militar. Entre os alvos estaria o ministro do STF, Alexandre de Moraes, que chegou a ser monitorado pelos investigados.
Os detalhes do plano foram relatados em mensagens encontradas no celular do tenente-coronel Mauro Cid, que fechou colaboração premiada com a Polícia Federal.
Arte: ANEEL, obtida via Lei de Acesso à Informação
OUTRO
LADO:
A reportagem enviou para a Polícia Federal um pedido oficial de resposta sobre as investigações específicas sobre o ataque às torres, mas não recebeu resposta.