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Published — 8 June 2026 Sportlight · Jornalismo Investigativo

COMO TRUMP E INFANTINO TRANSFORMARAM A COPA EM AÇÃO MILIONÁRIA ENTRE AMIGOS

725 5th Ave, Nova Iorque.

O escritório da FIFA no Trump Tower é apenas a parte mais visível de uma conexão muito mais profunda.

De um lado está a responsável pela organização da Copa do Mundo. Do outro, o presidente do principal anfitrião.

Entre as duas partes, existe um jogo de milhões de dólares.

Por onde navegam os grandes beneficiários dos negócios ligados ao Mundial: empresários MAGA (Make America Great Again), doadores de campanha, financiadores da tentativa de golpe do 6 de janeiro de 2021, frequentadores de Mar-a-Lago e velhos conhecidos, cúmplices de histórias vividas juntos desde os tempos das festas de Jeffrey Epstein.

Em resumo: os amigos do rei. Desde já, os grandes vencedores da Copa do Mundo de 2026. Sem precisar entrar em campo, lucrando ou em negócios com o estado americano ou diretamente com a FIFA.

Gente como Timothy Unes e Justin Caporale, da Event Strategies, uma empresa de produção de eventos da Virgínia, que no último 2 de janeiro assinou contrato de US$ 4,4 milhões, o equivalente a cerca de R$ 22.156.200,00 (vinte e dois milhões, cento e cinquenta e seis mil e duzentos reais) com o Transportation Security Administration (TSA), subordinado ao Department of Homeland Security (Departamento de Segurança Interna – DHS), órgão do governo federal, tendo como objeto “criar e operar toda a comunicação digital nos aeroportos americanos durante a Copa FIFA 2026 e os eventos do America 250.”

O contrato relacionado à Copa do Mundo é apenas mais um entre os tantos milhões de dólares que Unes e Caporales já faturaram no atual governo Trump.

Tim Unes é o presidente da Event Strategies. Justin Caporales é o CEO.

A dupla e a empresa, que já haviam trabalhado na campanha presidencial de Trump em 2016, são apontados em investigações parlamentares como peças fundamentais na estrutura da tentativa de golpe de estado no ataque ao Capitólio, em Washington, no 6 de janeiro de 2021.

O coração do evento era o comício “Stop the Steal” (“Pare o Roubo”) de Donald Trump. Justin Caporale era o “Project Manager” (Gerente de Projeto) do comício e Tim Unes atuou como “Stage Manager” (Gerente de Palco).

Ambos foram interrogados no “Comitê Seleto da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos” (“House Select Committee to Investigate the January 6th Attack on the United States Capitol”), que apurou os atos golpistas. De acordo com o relatório do comitê, a empresa foi a responsável por planejar, produzir e executar a logística do comício no Ellipse, o gramado ao sul da Casa Branca.

Documentos do comitê do congresso mostram que o CEO da Event Strategies recebeu previamente mensagens que informavam as intenções de Donald Trump em incitar o ataque violento, ordenando uma marcha ao Capitólio. “As expectativas do Potus (Trump) são de ter algo íntimo e depois mandar todos para o Capitólio”, dizia a mensagem recebida por Justin Caporale.

Intimado a entregar os documentos relativos ao evento do 6/1/2021, Caporale removeu esta mensagem, que só foi revelada posteriormente, entregue por outras testemunhas.

Após a atuação na logística do evento do Capitólio, a empresa dos dois passou a conquistar significativos contratos no governo significativos contratos depois da eleição de Trump. Somente em 2025 foram US$ 11 milhões. Um aumento de 1.700 % em relação ao ano anterior, antes de Trump.

A gratidão presidencial pela empresa vai além dos milhões em contratos. Em 29 de abril de 2025, em um comício no Michigan para marcar os 100 dias de mandato, Trump citou Justin Caporales em seu discurso: “Justin Caporale, Justin, muito obrigado, onde quer que você esteja. Ele provavelmente está aí nos bastidores”. O CEO da Event Strategies também foi nomeado como “Produtor Executivo dos Grandes Eventos” da Casa Branca. Unes e Caporales não foram indiciados.

FIGURA CENTRAL DO GOVERNO TRUMP NA RELAÇÃO COM A FIFA FOI PROTAGONISTA DA LISTA DE EPSTEIN

Em março de 2025, Donald Trump nomeou oficialmente seu escolhido para ser o rosto do seu governo junto a FIFA e ao Comitê Olímpico Internacional (COI).

Com o cargo de “Enviado Especial Para Parcerias Globais”, Paolo Zampolli percorre o mundo na condição de embaixador do presidente para os dois megaeventos que serão sediados nos Estados Unidos: a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos de 2028, com sede em Los Angeles, realizando o que ambos classificam como “a diplomacia do esporte”.

É nessa condição que aproveita o cartão de visitas dos eventos para realizar grandes negócios e difundir o discurso MAGA. Em janeiro, no Fórum de Davos, Suíça, foi o representante do governo Trump e comandou a “Casa dos Estados Unidos em Davos”, um centro de reuniões da extrema-direita mundial. Em abril, levou o tema da “Sports Economy” para o “Spring Meetings” do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Nas redes sociais de Zampolli, a figura mais presente e repetida é Gianni Infantino. O embaixador que representa Trump não usa meias palavras para falar sobre o presidente da FIFA: “o rei do esporte”, grudado ao nome sempre que se refere a Infantino.

Nem mesmo o escândalo em ter como embaixador do país junto a FIFA e COI um protagonista da chamada “Lista de Epstein” fez com que Donald Trump afastasse o ítalo-americano, de 55 anos, das funções.

Jeffrey Epstein era um financista americano que morreu em 2019 em uma cadeia nova-iorquina, depois de ter se suicidado, conforme autópsia divulgada pelo Departamento de Estado americano. Preso pelos crimes sexuais cometidos desde os anos 90, inclusive contra meninas menores de idade e por comandar um esquema de tráfico sexual, que funcionava como uma rede de poder, influência e troca de favores com algumas das pessoas mais poderosas do mundo inteiro e de diferentes áreas.

Paolo Zampolli, Jeffrey Epstein e Donald Trump estiveram juntos nos anos 90 no mesmo ramo de negócios, ambientes e festas.

Enquanto Zampolli era dono da ID Model Management, Trump tinha a Trump Model Management.

Já Epstein, apesar de ter financiado a MC2 Model Management, de Jean-Luc Brunel, (também preso por crimes sexuais e que também consta ter se enforcado na cadeia), não tinha uma agência própria, apenas circulava por elas.

Sob diferentes grafias: “Zampolli”, “Zampoli”, “Zempoli”, o nome de Paolo Zampolli aparece pelo menos 51 vezes na “Lista de Epstein” e ainda através da antiga agência de modelos da propriedade dele, a “ID Models”.

DOCUMENTO DO FBI MOSTRA INTERMEDIAÇÃO DE ZAMPOLLI EM CONTATO DE EPSTEIN COM MODELO

As ligações de Zampolli e Epstein são detalhadas em um documento do Federal Bureau of Investigation (FBI) de 26 de novembro de 2019.

Os manuscritos com o depoimento que subsidiaram a peça do FBI também estão nos arquivos do Departamento de Estado Americano que compõem a Lista de Epstein. Os nomes das vítimas não aparecem nos registros.

Epstein é descrito como alguém que frequentava a agência de Zampolli, participava dos castings (os recrutamentos) e avaliava os portfólios das modelos.

Em frases curtas, a vítima conta sobre a ida a uma boate com Zampolli e Epstein. E uma ida à casa na Rua 71 (Epstein morava em East 71st street, rua no Upper East Side, um dos bairros mais tradicionais e elegantes de Manhattan, Nova Iorque).

“Ele (JE) folheou fotos de portfólios.” (JE: Jeffrey Epstein).

“JE olhou para a minha quando [eu estava] usando apenas partes de baixo (biquíni).

Posteriormente, após Epstein analisar e escolher a modelo no portfólio da agência de Zampolli, ocorreu um encontro entre ela e Epstein na casa do financista onde, segundo o depoimento da vítima ao FBI, ocorreu o abuso sexual.

O relato é semelhante ao de várias outras vítimas, seguindo o padrão de conduta descrito por várias vítimas nos arquivos da investigação, que apontam que Epstein costumava tocar piano para as meninas antes do jantar. Ao fim do encontro, levou para a “sala de massagem e esfregou uma espécie de vibrador”, para então mandar que um motorista levasse embora.

De acordo com o relato, Zampolli e Epstein tentaram comprar a Elite Models juntos: “ele tentou comprar a Elite Models com JE”.

A modelo lembra ainda no depoimento que Zampolli serviu de cupido e apresentou Melanie a Trump.

“ZAMPOLLI ERA DESPREZÍVEL”

Em outro documento do FBI, com data de 23 de abril de 2020, uma modelo vítima de Epstein e que assinou com a agência de Zampolli aos 18 anos, descreve assim o agora todo-poderoso homem dos esportes nos Estados Unidos junto à FIFA e COI:

“Zampolli era desprezível”. A palavra usada no depoimento é “sleazy”, que pode ter distintas traduções, entre elas, além de desprezível, sórdido, canalha.

A vítima conta que o empresário se relacionava com as modelos. Em determinado momento, obrigou-a a cortar o cabelo bem curto e depois a dispensou.

Outros registros na lista corroboram um mesmo modus operandi da relação, relatando Epstein como alguém que frequentava a agência de Zampolli constantemente e tinha acessos aos portfólios das modelos.

ZAMPOLLI É ACUSADO POR CRIMES SEXUAIS PELA EX-MULHER, A BRASILEIRA AMANDA UNGARO

Paolo Zampolli foi denunciado em carta que consta ser assinada por Amanda Ungaro, a brasileira com quem Zampolli viveu por 19 anos e com quem tem um filho.

No texto, a ex-modelo afirma que foi testemunha, de acordo com o texto, de vários crimes cometidos pelo ex-marido. “Eu testemunhei muitas coisas desde que eu era uma adolescente que se envolveu neste pesadelo. Tenho fotos para provar o

abuso físico que experimentei nas mãos de Paolo. Eu tenho provas de que Paolo começou a tentar namorar comigo quando eu tinha 15 anos de idade, e é verdade que eu estava no avião de Jeffrey Epstein quando adolescente. Tinha apenas 16 anos na primeira vez que fui colocada no avião dele”, afirma Amanda Ungaro, que, entre outras acusações, publicou a cópia de uma lista em vôo que afirma ser do avião de Epstein onde consta o nome dela.

A recente entrevista do embaixador de Trump para a RAI, rede italiana, também não resultou em seu afastamento, apesar do teor ofensivo em relação às mulheres brasileiras.

“As mulheres brasileiras causam confusão com todo mundo, certo? Não é que essa foi a primeira, asmulheres brasileiras são programadas”. E foi além ao falar sobre a mãe do seu filho: “É uma dessas putas brasileiras, essa raça maldita de brasileiras, são todas iguais. Aquela vaca, estávamos juntos, trepava com ela, depois ela também ficou louca”, afirmou o embaixador.

Contra Paolo Zampolli não há nada na justiça. O empresário não foi indiciado em momento algum como parte das acusações dos crimes cometidos por Epstein.

O UFC NO QUINTAL DE TRUMP E O PRESENTE PARA O PRÓPRIO AGENTE

O grande evento que simboliza as relações entre os empresários próximos a Donald Trump tem data: no próximo dia 14 de junho, o UFC será realizado no gramado da Casa Branca, como parte das comemorações pelos 250 anos da independência dos Estados Unidos.

Desde o início da preparação, Trump tem se movimentado para tomar a data nacional como um festejo MAGA, tendo articulado inclusive a criação de uma agência, a Freedom 250, integrada a Força-Tarefa 250, da Casa Branca, para a promoção das comemorações. Tomando espaço da America 250, criada em 2016 pelo congresso e de caráter bipartidário, sob a coordenação da Comissão do Semiquincentenário dos Estados Unidos.

Muito além dos festejos de independência, a data do UFC na Casa Branca tem algo particular: aniversário de Donald Trump. Assim, com dinheiro do contribuinte americano e instalações do estado, Donald Trump prepara um evento 100% MAGA para se autocelebrar na data de aniversário.

O presente não é apenas para Trump. Milhões em dólares esperam Ari Emanuel, empresário muito próximo ao presidente tendo, inclusive, sido agente do presidente quando ele era estrela da série de TV “O Aprendiz”.

O UFC é propriedade do TKO Group, que, por sua vez, é parte do Endeavor Group, ambos tendo Ari Emanuel como sócio majoritário.

Milhões arrecadados com patrocinadores são estimados para o evento. Pacotes para marcas incluindo assentos ao lado do ringue são especulados a preços estratosféricos.

De acordo com reportagem do Wall Street Journal, recentemente o presidente Donald Trump chegou a ligar para juízes federais em socorro a Ari Emanuel, em um caso que a justiça combatia o monopólio na venda de ingressos por parte de empresa ligada ao amigo.

Ari Emanuel também é um dos grandes personagens da Copa do Mundo.

Sua empresa On Location, também do grupo Endeavor, ganhou, em julho de 2024, a concorrência para comercialização dos pacotes de hospitalidade da Copa do Mundo que se aproxima, derrubando décadas de supremacia da Match Hospitality, que por anos deteve esse direito junto à FIFA.

Pacotes de hospitalidade são um dos mais valiosos ativos de comercialização de um Mundial, juntamente com direitos de transmissão.

Apenas mais um negócio MAGA na ação entre amigos em que se transformou a Copa do Mundo marcada desde já pelas relações íntimas e pouco transparentes entre Gianni Infantino e Donald Trump.

OUTRO LADO:

GOVERNO DOS ESTADOS UNIDOS:

“Graças à liderança do Presidente Trump, a Copa do Mundo da FIFA de 2026 será, sem dúvida, um dos maiores e mais espetaculares eventos da história da humanidade, atraindo milhões de fãs de todo o mundo para onze cidades-sede nos Estados Unidos. Este será um evento monumental que exige estreita coordenação entre o governo Trump, a FIFA e todos os nossos importantes parceiros federais, estaduais e locais. O Presidente Trump está empenhado em garantir que esta seja não apenas uma experiência incrível para todos os fãs e visitantes, mas também a mais segura da história.”

Davis Ingle, porta-voz da Casa Branca

FIFA:

A reportagem enviou pedido de “outro lado” através da diretoria de comunicação da entidade, sem obter resposta.

PAOLO ZAMPOLLI:

 “Muito obrigado pela sua solicitação. Antes de mais nada, Amanda é a mãe biológica do meu filho; nunca fomos casados. Desejo-lhe tudo de bom em seus projetos e atividades futuras. Não estamos juntos desde 2017. De qualquer forma, em relação ao arquivo de Jeffrey Epstein, meu nome consta lá, assim como o de muitos outros- não há nada mais a acrescentar”.

ON LOCATION:

A reportagem enviou pedido de “outro lado” para a empresa, sem obter resposta.

Published — 18 May 2026 Sportlight · Jornalismo Investigativo

CONVOCAÇÃO TEM PRODUÇÃO DE EMPRESA QUE FOI INVESTIGADA POR SUPERFATURAMENTO EM VERBAS DO BRB E DA TERRACAP, NA QUAL O VICE DA CBF FOI DIRETOR

Tapete azul, plantas tropicais, convidados e imprensa à esquerda, vips à direita, painéis cenográficos “instagramáveis”. No fim do corredor em forma de um “L invertido”, com a Baía de Guanabara ao fundo e rodeado por palmeiras imperiais, está o local para onde todos os olhares irão convergir na tarde de hoje: o palco em que Carlo Ancelotti fará a revelação dos seus 26 escolhidos para representar o Brasil na Copa do Mundo. A parte não visível desse cenário é a teia de conexões por trás do evento que a CBF promove no Museu do Amanhã, centro do Rio, para a convocação da seleção.

No coração desta teia está a empresa contratada pela CBF como responsável pela produção da cerimônia: a R2B Produções de Eventos, domiciliada em Brasília.

De acordo com uma investigação da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) que culminou com a “Operação Praia de Goia” em 18 de setembro de 2018, a R2B foi beneficiária de milhões ao longo dos anos em patrocínios e incentivos fiscais do governo do Distrito Federal e do Banco Regional de Brasília (BRB). Já a Terracap (Agência de Desenvolvimento do Distrito Federal) teria outra função no esquema, segundo a PCDF: a cessão subfaturada de espaços públicos para eventos.

Gustavo Dias Henrique, vice-presidente da CBF e considerado nos bastidores como o nome mais poderoso da instituição na atual gestão, ocupou diversos cargos de comando na Terracap entre 2015 e 2019. Em 2019, assumiu o comando da Biotic, uma subsidiária da Terracap. O brasiliense nega qualquer relação com a R2B na ocasião.

Apenas entre 2023 e 2025, durante a gestão de Paulo Henrique Costa, que está preso por transações financeiras ilícita, o BRB aportou R$ 3.600.000,00 (três milhões e seiscentos mil reais) para a R2B em 4 pagamentos (ver quadro ao fim da reportagem).

Além da R2B na produção, a CBF escolheu para cuidar da decoração do Museu do Amanhã o Studio Traços de Arquitetura. A R2B e o Studio Traços tem laços entre eles: uma das sócias do estúdio, Ana Falconi, é casada com Lucas Sarmento Mendes, que se apresenta nas redes sociais como sócio da R2B e tem participação societária na Colabr2 Participações junto com outros acionistas da R2B.

Não é só a convocação que terá produção da R2B e do Studio Traços. As duas firmas brasilienses monopolizaram os grandes eventos mais recentes da CBF, como o Summit CBF Academy e o camarote da entidade na Marques de Sapucaí no carnaval deste ano.

A operação de 2018 realizada pela Cecor (Coordenação de Combate ao Crime Organizado) da PCDF, apontou indícios de crimes financeiros, lavagem de dinheiro crimes contra a administração pública e organização criminosa. A suspeita era de que a empresa teria utilizado de forma irregular a Lei de Incentivo à Cultura e os milhões em patrocínios. A operação gerou um processo, que em 2023 foi arquivado na justiça do DF.

POLÍCIA CIVIL DO DF APONTOU PAPÉIS COMPLEMENTARES ENTRE TERRACAP, BRB E GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL NA ORGANIZAÇÃO

De acordo com o que foi apurado então pela Polícia Civil, os braços da estrutura tinham funções bem definidas: o governo do DF era o epicentro da engrenagem. O BRB era o principal ator financeiro, entrando com os maiores valores destinados para a R2B. A função da Terracap era primordial: embora tenha chegado a conceder patrocínio em dinheiro, tinha como papel principal ser a responsável por viabilizar os eventos ao ceder os terrenos públicos com aluguéis subfaturados. O que a PCDF chamou de “patrocinador indireto”.

Em uma das escutas policiais que resultaram na operação, a relação próxima entre a R2B e a Terracap é destacada.

A quebra de sigilo telefônico indicou, segundo a investigação, entre outras coisas, até movimentações dos sócios da R2B junto ao governo do DF, relacionadas à tentativa de evitar que a Terracap cedesse a Torre Digital para evento de empresa concorrente, sob o argumento de que o espaço vinha sendo utilizado pela R2B no evento denominado ‘Surreal”.

De acordo com as gravações, os sócios da R2B se preocuparam em suas ações em não causar constrangimento para a Terracap. “Sartório diz para o Rafa ver a melhor forma de falar para não exporem a Terracap. Rafa diz que falará direto com ele, que pretendem fazer a Federal Music na Torre Digital”… e isso é péssimo”.

Sartório e Rafa em questão são Rafael Damas e Bruno Sartório, sócios da R2B.

Gustavo Dias Henrique, que entrou na CBF ainda com Ednaldo Rodrigues na presidência, foi uma das indicações do ministro do STF Gilmar Mendes na atual diretoria da CBF. O brasiliense é doutorando em administração pública pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), comandado pelo filho do magistrado, Francisco Schertel Mendes, que tem contrato para ministrar os cursos da CBF Academy/IDP.

Questionado pela reportagem sobre a relação com a R2B, Gustavo Dias Henrique afirmou através da assessoria de imprensa da CBF que “no âmbito da Terracap, atuou como Diretor de Habitação e Regularização Fundiária de Interesse Social e nesta condição não atuou na contratação ou parceria com a R2B, na medida em que contratos desta natureza não eram atribuição de sua competência”.

 De acordo com um currículo disponibilizado por ele mesmo e publicado ao ser homenageado pela Assembleia Legislativa de Alagoas em 2024, o vice-presidente da CBF passou por diferentes diretorias na Terracap entre 2015 e 2019:

“Diretor de Habitação e Regularização Fundiária Social e Rural, Diretor Extraordinário de Habitação e Regularização Fundiária Interesse Social, Diretor Extraordinário de Regularização de Imóveis Rurais, Diretor de Comercialização e Novos Negócios (em substituição), Diretor de Administração e Finanças (em substituição) e Presidente (em substituição)”. Em seguida, assumiu como diretor presidente da Biotic, onde ficou até 2024. (veja íntegra da resposta da CBF ao fim, em “outro lado”).

A Terracap, origem de Gustavo Dias Henrique antes da CBF e que tem como missão assegurar a gestão das terras públicas do DF, é a concedente do Estádio Mané Garrincha, que, até o mês passado, levava o nome de Arena BRB. Após o escândalo do Banco Master o contrato de naming rights foi encerrado, voltando ao nome original. O escritório da R2B fica no Estádio Mané Garrincha. Também estão sob gestão da Terracap espaços candangos como o conjunto Aquático Cláudio Coutinho e Quadras Poliesportivas, além da Área da Concha Acústica, Orla do Lago Paranoá, Parque Tecnológico BIOTIC, Torre de TV e entorno do Eixo Monumental, palcos de eventos da empresa.

Um relatório de inteligência financeira (RIF)sobre a atuação da R2B emitido pelo COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), órgão ligado ao Banco Central e responsável por prevenir e combater a lavagem de dinheiro, constatou a “existência de saques de vultosas quantias em dinheiro, o que, segundo a autoridade policial, apontaria a existência de indícios da prática do crime de lavagem de dinheiro, em razão de causar estranheza o volume de dinheiro em espécie movimentado, mesmo porque quase tudo no evento é feito por meio de transações com cartão de crédito”.

O inquérito de 2018 cita que grande parte dos gastos custeados com os recursos da lei de incentivo teria tido foi apresentando na prestação de contas como compra de equipamentos, e que teria havido sobrepreço, como, segundo a peça, a aquisição de um gerador com valor superfaturado em 59%.

Os relatórios da Coordenação Especial de Combate à Corrupção (CECOR), da Polícia Civil do DF, e o RIF do COAF detalham o favorecimento do governo do DF via incentivos fiscais e Terracap, BRB e Banco do Brasil para a R2B, de acordo com o inquérito:

“… a existência de indícios de que o grupo de empresas R2 Produções, do qual era diretor financeiro Gilberto Soares da Silva Júnior, entre elas, a R2B Produções e Eventos Ltda- da qual são sócios Bruno Sartório Silva, Ricardo Abreu Emediato, Rafael de Araújo Damas e Eduardo José de Azambuja Alves, teria sido favorecido irregularmente pelo Governo do Distrito Federal, mediante benefícios e incentivos fiscais disponibilizados pela Secretaria de Estado de Cultura do DF, e por patrocínios da Terracap, BRB e Banco do Brasil, para realizar os eventos denominados “Na Praia”, “Na Praia Social” e “Na Praia Cultural”, ocorridos entre os anos de 2015 e 2017. Os relatórios ns. 13 e 25 do CECOR detalham a participação de cada sócio no grupo empresarial e nos eventos produzidos pelo grupo entre os anos de 2015 e 2017. E apontaram a contratação de parceiros comerciais por valores exorbitantes, bem como a existência de indícios de favorecimento do grupo R2 pelo Governo do DF, pelo Banco do Brasil, pelo BRB e pela Terracap. E o relatório de inteligência financeira, elaborado pelo COAF, registra grande movimentação financeira dos envolvidos, em curto período, a evidenciar a existência de indícios de irregularidades que podem caracterizar, em tese, crimes”.

A investigação cita ainda suspeitas de que a R2B, responsável pelos eventos Na Praia, Na Praia Social e Na Praia Cultural, “estaria recebendo tratamento diferenciado do governo, uma vez que teria recebido nos anos de 2015, 2016 e 2017, não só benefícios e incentivos fiscais concedidos pela Secretaria de Cultura, como também patrocínios da Terracap, do BRB e do Banco do Brasil, todos concedidos sem a realização de licitação, por meio de contratação direta”.

A operação da Polícia Civil também mirou o ex-administrador do Plano Piloto, Igor Tokarski. Em uma das escutas, Rafael Damas, sócio da R2B, citou que o gestor “teria me ajudado muito” e que, por isso, teria feito doação para a campanha parlamentar de Tokarski em 2018 no valor de R$ 30 mil. A doação consta na página do TSE.

EMPRESA TEM ESTRUTURA SOCIETÁRIA COMPLEXA

Em 2015, a Terracap destinou R$ 100 mil (corrigidos para valores atuais pelo IGPM, seriam R$ 207.984,98) para a R2B para a realização do “Na Praia Social”.

A PCDF também apontou outros episódios que, segundo os investigadores, poderiam indicar tratamento privilegiado. De acordo com a investigação da PCDF, a R2B estava sendo favorecida pelo Governo do Distrito Federal também em relação a outros eventos culturais:

“…a exemplo do carnaval, tudo conforme anteriormente exposto, em que, pelo menos no ano de 2018, tradicionais blocos carnavalescos do DF não lograram obter apoio junto à Secretaria de Cultura, chegando, inclusive, a não sair às ruas, enquanto evento de natureza privada, o denominado Carnaval no Parque, produzido pelos representados R2B Produções e Eventos Ltda… teria sido privilegiado pela Secretaria de Cultura, inclusive, mediante cessão de espaços públicos para utilização de coletiva de imprensa do referido projeto cultural. Além disso, diante dos prefalados indícios de ocorrência de crimes de lavagem de dinheiro e de corrupção ativa e passiva, foi solicitado ao COAF relatório das pessoas físicas e jurídicas envolvidas nas investigações, o qual trouxe a lume diversas transações financeiras com indícios de irregularidade, merecendo destaque, a título de exemplo, a movimentação, pela empresa R2B Produções de Eventos, entre os meses de julho e agosto de 2015, meses em que ocorreu o evento Na Praia, do importe de R$ 902.030,00 em espécie, isto é, em transações de saque e depósito, o que é típico de atividades relacionadas aos crimes de lavagem de dinheiro”.

Em novembro de 2014, a secretaria de cultura do DF autorizou a R2B a captar R$ 1.029.867,11 (um milhão, vinte e nove mil, oitocentos e sessenta e sete reais e onze centavos) para o “Festival Vila Brasil”.

No ano seguinte, o BRB entrou com uma cota de R$ 240.000,00 para a R2B pelo evento “Na Praia”.

Atualmente, a R2B oferece o trecho da orla do Lago Paranoá conhecido como “Prainha” para aluguel de eventos no trecho chamado de “Setor de Clubes Sul”. No site da empresa, a R2B promete o aluguel do espaço da orla e serviço completo: “Sim, vamos além da locação! Além de oferecer os espaços, produzimos todo o seu evento com a excelência e a experiência consolidada da R2, garantindo um evento completo e de alto padrão”. A gestão da orla é da Terracap.

A R2B é parte de uma estrutura societária complexa e sofisticada, em várias camadas, onde a controladora é a R22 Holding e a participação cruzada de pessoas físicas, holdings patrimoniais, empresas de participações, consultorias e investidores individuais.

QUADRO:

VERBA CONCEDIDA PELO BRB PARA A R2B ENTRE 2023 E 2025:

1-

172/2025:

PATROCÍNIO À EVENTO ESPORTIVO

Vigência: 11 de março de 2025 Limite da vigência 30 de março de 2025

Valor do contrato: R$ 1.200.000,00 (valor consumido)

2-

048/2024:

Objeto: PATROCÍNIO CARNAVOOU.

Vigência: 27 de fevereiro de 2024 Limite da vigência 31 de março de 2024

Valor do contrato R$ 600.000,00 (Valor consumido)

3-

024/2024

Objeto:  PATROCINIO DO PROJETO CARNAVAL DO MANE 2024

Vigência: 4 de março de 2024 Limite da vigência 31 de março de 2024

Valor do contrato R$ 1.000.000,00

4-

383/2023

Objeto: PATROCÍNIO DO EVENTO FINAL DE ANO NO MANÉ.

Vigência: 8 de janeiro de 2024 Limite da vigência 31 de janeiro de 2024

Valor do contrato: R$ 800.000,00

TOTAL:

R$ 3.600.000, 00 (três milhões e seiscentos mil reais)

OUTRO LADO:

CBF:

“Em atenção às questões encaminhadas, a CBF informa que suas contratações seguem diretrizes internas de governança e observam a legislação aplicável às entidades privadas integrantes do Sistema Esportivo Nacional.

Em todos os casos, a seleção de fornecedores é feita com base em critérios técnicos, capacidade operacional, experiência compatível e adequação às necessidades específicas de cada projeto.

A escolha dos fornecedores para o evento de convocação da Seleção Brasileira no Museu do Amanhã observou exatamente essas condições, ainda mais necessárias diante da complexidade do evento.

Por razões de confidencialidade comercial, a CBF não divulga detalhes de suas relações contratuais com fornecedores.

Em relação ao vice-presidente Gustavo Dias Henrique, o mesmo esclarece que, no âmbito da Terracap, atuou como Diretor de Habitação e Regularização Fundiária de Interesse Social e nesta condição não atuou na contratação ou parceria com a R2B, na medida em que contratos desta natureza não eram atribuição de sua competência.

Por fim, a CBF não comenta ilações sobre processos já arquivados pelas autoridades. Como o próprio questionamento admite, não há qualquer investigação ou impedimento vigente envolvendo a empresa contratada no âmbito da operação citada”.

R2B PRODUÇÕES DE EVENTOS:

A reportagem enviou pedido de resposta para a R2B, mas não obteve êxito.

STUDIO TRAÇOS

A reportagem enviou pedido de resposta para o Studio Traços Arquitetura, mas não obteve êxito.

TERRACAP

A reportagem enviou pedido de resposta para a Terracap, mas não obteve êxito.

BRB

A reportagem enviou pedido de resposta para o BRB, mas não obteve êxito.

Published — 11 July 2025 Sportlight · Jornalismo Investigativo

ARTICULAÇÃO COM MILHÕES DA CBF FAVORECE PAI DE SAMIR XAUD

Vinte e dois dias depois da posse de Samir Xaud (25/5), a CBF se tornou parte de articulação milionária que poderá beneficiar o próprio pai do presidente com dinheiro da entidade.

José Gama Xaud, o Zeca Xaud, pai do dirigente, comanda a Federação Roraimense de Futebol (FRF) há 49 anos.

No dia 16 de junho, Zeca Xaud enviou ofício, obtido pela reportagem, para Mikael Wallas, titular da secretaria de estado de educação e desporto (SEED) de Roraima, com a proposta de obter a concessão, por 20 anos, do principal estádio local, o Flamarion Vasconcelos (“Canarinho”).

A contrapartida da FRF para a SEED pela concessão é uma promessa de R$ 3 milhões em investimentos. Pagos indiretamente através de uma melhoria das instalações. Uma operação triangular, onde uma terceira parte dá o dinheiro para FRF. A terceira parte, de acordo com o ofício da FRF: a CBF. Uma “parceria” entre FRF e CBF. Em 30 de junho, duas semanas depois de formalizar o interesse no arrendamento do “Canarinho”, a FRF enviou novo ofício e incluiu outro estádio da capital Boa Vista no requerimento: o Raimundo Ribeiro (Ribeirão).

Sem apresentar uma planilha com os custos do projeto especificados, Zeca Xaud prometeu que a FRF usaria o dinheiro a ser liberado pelo filho para “modernizar o estádio”.

PAI DE SAMIR XAUD USA NOME DA CBF PARA OBTER CONCESSÃO DE ESTÁDIO MAS CBF AFIRMA DESCONHECER O PROJETO

Questionada pela reportagem sobre financiar um projeto de concessão que tem como beneficiária final a federação comandada pelo pai do presidente, a confederação informou que “o projeto ainda não foi apresentado à CBF mas que se enquadra nos objetivos e no orçamento do Palcos do Futebol”.

Ou seja, de acordo com a CBF, até o momento, o pai de Samir Xaud negocia um contrato com o governo de Roraima em que a federação que preside passará a ser concessionária de bem público usando o nome da CBF como financiador sem ter consultado a própria CBF.

O “Palcos do Futebol” citado na resposta é o item do projeto “CBF Transforma”, em que a entidade investe em melhorias nos estádios. 

Na sequência de longa resposta para a reportagem, a CBF diz poder participar do projeto em que está tendo o nome usado, segundo ela sem ser consultada. E que poderá ter participação futura através de projetos de investimentos já existentes na entidade para financiar melhoria de estádios e federações.

“Assim, a proposta de eventual cessão do estádio Canarinho pelo Governo à Federação Roraimense, mediante contrapartida de R$ 3 milhões em investimentos que seriam custeados pela CBF por meio do Programa Palcos do Futebol, é totalmente razoável e perfeitamente admissível. No entanto, uma vez que a Federação ainda não apresentou o referido projeto à CBF, só podemos concluir que o ofício referido pelo jornalista dispunha apenas das tratativas iniciais com o governo, visando uma parceria em benefício do futebol de Roraima”, respondeu a CBF em nota. Samir Xaud está desde terça-feira em Roraima, onde recebe uma série de homenagens, e estava marcado de comparecer ontem na federação.

FINANCIAR A CONCESSÃO PODE TORNAR CBF PASSÍVEL DE FISCALIZAÇÃO DE PF E MPF

                  A concessão de estádios para federações é incomum. Recentemente, a federação de Mato Grosso do Sul também manifestou proposta de gestão do Estádio Pedro Pedrossian, o Morenão, em audiência pública realizada na assembleia legislativa local em 17 de junho, onde se discutiu o processo de transferência do estádio da UFMS para o governo do estado.

De acordo com especialistas ouvidos pela reportagem, ser financiador de recursos para exploração de um bem público pode tornar a CBF passível de eventual ação por parte do Ministério Público Federal (MPF) e Polícia Federal, mesmo CBF e federação sendo instituições privadas. Isso ocorreria porque utilização de recursos para explorar um bem público (como um estádio concedido) pode caracterizar atuação no âmbito de interesse público, sujeitando-as ao controle de órgãos de investigação desde a necessária licitação.

CONFIRMAÇÃO DE AJUDA DA CBF REPRESENTARIA AUMENTO DE 113% NA VERBA PARA FEDERAÇÃO DO PAI DE SAMIR XAUD

Um dos itens da proposta da FRF é a “implantação de placar eletrônico”. Sem discriminar modelo e preço, apenas informando ser dentro dos padrões do regulamento esportivo mundial e chancelado pela FIFA e pela própria CBF.

A “substituição do gramado e plantação de grama na área lateral” é outro artigo assinalado, também sem orçamento. E sem garantia de data para ser realizada. O documento afirma apenas que será uma troca “gradativa”.

O projeto de R$ 3 milhões prevê ainda “substituição das traves fixas por traves removíveis e ampliação do banco de reservas”.

A conclusão dos objetos de responsabilidade do concessionário deixa o escopo das obrigações ainda mais frouxo, sem estabelecer por contrato, e ao afirmar que “demais mudanças serão alinhadas com concedente”.

Se vier a ser assinado o acordo de R$ 3 milhões, somente em uma única operação a CBF já iria superar o montante dado em 2024 para a FRF em 113,22%, já que, de acordo com o balanço financeiro da federação, no ano passado a CBF repassou para a entidade R$ 1.407.000,00. Ou seja: em apenas 22 dias de mandato de Samir Xaud, a FRF já tinha a perspectiva de dobrar a verba recebida via CBF.

DE NOVO? ÚLTIMA REFORMA DO ESTÁDIO ACABOU EM 2020 E RECEBEU R$ 33,6 MILHÕES DO GOVERNO FEDERAL

A necessidade de modernização chama atenção, já que a última reforma do “Canarinho” é recente. Em 2020, depois de ficar 8 anos fechado para o público, com eventuais jogos de portão fechado, o estádio foi reaberto. Com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, o estado gastou R$ 33.689.217,48. (trinta e três milhões, seiscentos e oitenta e nove mil, duzentos e dezessete reais e quarenta e oito centavos).

Incluído no pacote de concessão posteriormente, a proposta da federação para ficar também com o estádio Ribeirão inclui apenas a aplicação da grama que sair do Canarinho, ou seja, sem qualquer gasto. E assim como no estádio maior, o ofício fala que “outras modificações e melhorias poderão ser ajustadas em comum acordo com o ente concedente”. O Ribeirão também passou por reforma entregue há 2 anos, em 2023, ao custo de R$ 365.697,63 para os cofres do estado.

O uso do estádio Canarinho no estado vai muito além do futebol, assim como as possibilidades de arrecadação.

Utilização para partidas amistosas de particulares, shows e diversos eventos das secretarias são realizados no local ao longo do ano.

No dia 19 de abril, a SEED concedeu o estacionamento do estádio Canarinho para realização de show do cantor Gustavo Lima. No contrato, examinado pela reportagem, está dito que a cessão para a GSA Produções e Eventos, empresa do artista, foi gratuita. Com venda de 18.500 ingressos, exploração de camarotes e bar.

O Estádio Canarinho tem capacidade para 4.500 mil espectadores e o Ribeirão, 3 mil.

Antonio Denarium, o governador de Roraima, tem no prontuário diversas acusações de corrupção e conflitos de interesses. Como a compra de carne do Frigo10, frigorífico do qual o mandatário é sócio, em 2023, em acordo de R$ 3,1 milhões. O Frigo10 também fechou acordo como governo federal na gestão Bolsonaro para fornecer 8 toneladas de contra-filé para o exército.

Denarium é parte de um processo de cassação que está há dez meses parado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), já tendo sido cassado quatro vezes pelo Tribunal Regional Eleitoral de Roraima (TRE-RR) por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. O julgamento segue suspenso depois de ter sido retirado de pauta pelo TSE.

Ao longo dos anos, o político bolsonarista foi algo de denúncias de grilagem de terras, favorecimento do garimpo ilegal e extermínio da população indígena de Roraima.

A reportagem enviou questões também para a Federação Roraimense de Futebol e para a secretaria de estado de educação e desporto (SEED), ambas sem resposta. Além da resposta inicial, com trechos já citados, a CBF enviou a resposta abaixo:

“O Regulamento do programa CBF Transforma, que tem como objetivo fomentar o futebol em todo o território brasileiro, é claro ao estipular “cooperação com Federações e clubes filiados, com base na realidade e nas necessidades específicas de cada região do País”. O estádio Canarinho é a casa do futebol roraimense, portanto é lógico que seja alvo de investimento do subprograma Palcos do Futebol. Fica evidente que é muito mais apropriado reformar um estádio que já existe do que buscar alternativas. Outras federações já sinalizaram o desejo de convênios com Estados ou Municípios para cessão de equipamentos públicos. Nesse cenário, a CBF, como investidora, precisa de garantia de uso desses estádios por períodos determinados em contrato. Por fim, convém acrescentar que o assunto em questão ainda é um projeto da FRF. A comunicação levantada pela reportagem foi apenas uma consulta à Secretaria de Estado de Educação e Desporto (SEED) do Estado que não foi nem sequer formalizada junto à CBF”.

Published — 29 April 2025 Sportlight · Jornalismo Investigativo

PLATA, PLOMO E FUTEBOL: A HISTÓRIA NÃO CONTADA DE DON ALEJANDRO E DA CONMEBOL

O primeiro registro policial foi precoce.

Alejandro Guillermo Dominguez Wilson Smith tinha 13 anos quando a Polícia Federal (PF) brasileira escreveu seu nome no confidencial “Informe 576”. Na ficha, além da foto do menino, está dito que ele foi um dos paraguaios a obter vistos permanentes para o Brasil com dados falsos. A solicitação do pai, Osvaldo Dominguez Dibb, o “ODD”, continha endereços forjados de residência em Foz do Iguaçu. Daquele 21 de maio de 1985 em diante, o prontuário nunca mais parou de engordar. O dele e o da família, juntos também por relações societárias.

Assim como o histórico de denúncias na justiça: contrabando de cigarros, lavagem de dinheiro, crimes contra o sistema financeiro, formação de quadrilha, grilagem de terra. E uma profunda e intima ligação com um dos maiores criminosos do século XX: o general Alfredo Stroessner, o ditador paraguaio que ficou 34 anos no poder, entre 4 de maio de 1954 e 3 de fevereiro de 1989. Unidos por laços empresariais e políticos. E familiares, desde quando Humberto, irmão de Osvaldo e tio de Alejandro, se casou com a filha do general, Graciela, e os Dominguez e os Stroessner passaram a ter um tronco Dominguez Stroessner. Uma ligação que estende suas fronteiras para o Brasil, onde Alejandro Dominguez e seus primos Stroessner possuem sociedade. 

O menino com anotação prematura na folha policial há exatos 40 anos virou Alejandro Dominguez, o todo-poderoso do futebol no hemisfério sul, presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) desde 2016. Agora com 53 anos e um percurso marcado por coincidências, como uma empresa aberta em paraíso fiscal exatamente 45 dias depois de assinar o controverso contrato por direitos de transmissão da seleção paraguaia para Copa de 2018.

O presidente da Conmebol é, junto com mais 5 irmãos, herdeiro em uma fortuna estimada em mais de US$ 500 milhões. Inteiramente construída por “ODD”, à sombra de benesses na era Stroessner. Os Dominguez Dibb foram protagonistas na chamada “elite stronista”, os três principais grupos que sustentavam o poder do ditador: famílias próximas aos Stroessner, empresários do Partido Colorado e ainda militares e funcionários do alto escalão governamental. Os Dominguez Dibb se enquadravam nos dois primeiros grupos aqui citados.

Beneficiário direto dos 34 anos de horror. De uma das mais sanguinárias ditaduras da história. Nesse período, foram 19.862 presos, 18.772 torturadas, 20.814 exilados, 236 menores privados de liberdade e 17 crianças nascidas na prisão.  Com 459 desaparecidos. Um total de 128.076 vítimas diretas e indiretas, de acordo com os números da Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai.

Esses números e relatos não dão conta de todo horror.

De acordo com o Departamento de Memória Histórica e Reparação do Ministério da Justiça paraguaio, Stroessner estuprava em média quatro meninas entre 10 e 15 anos por mês. Um pedófilo em série, que, ao longo dos 34 anos no poder, teria estuprado 1.600 crianças. Meninas ainda na infância, sequestradas por militares na área rural e enviadas ao general.

Julia Ozorio Gamecho foi uma dessas meninas. Levada ao ditador aos 13 anos, depois de retirada à força da casa dos pais. Perdeu a virgindade estuprada por Stroessner e então foi “ofertada” por ele ao coronel Miers, de quem foi escrava sexual até os 15 anos, quando então essas crianças eram consideradas velhas pelos militares. Sobreviveu para contar. Enfrentando seus fantasmas, escreveu o pungente relato da barbárie “Uma rosa e mil soldados”, onde descreve a barbárie. Sobre homens que “saciavam sua luxúria sem limites com sede de possuir aos despossuídos”, conta. “As bestas carniceiras”, resume.

Os herdeiros e beneficiários dessas trevas ainda estão entre nós. Em todas as áreas. Nos gabinetes, parlamentos, no mundo corporativo, nas telas. E nos estádios.

PARTÍCIPES DO HORROR

Farta documentação, em diferentes fontes públicas, mostra que os Dominguez Dibb foram muito além de beneficiários da ditadura, se locupletando como amigos e familiares do rei. Mais do que cúmplices e entusiastas. Foram partícipes da barbárie.

Entre os documentos, está o que se chamou de “Arquivos do Terror”, encontrados em uma delegacia de Assunção em 1992. Milhares de registros que possibilitaram a comprovação definitiva da “Operação Condor”. Incluindo o relato sádico e cruel relato do desaparecimento do médico Agustín Goiburú, opositor de Stroessner. Preso em 1970, conseguiu fugir e refugiar-se na embaixada chilena da capital paraguaia. Durante o refúgio de dez dias, Humberto Dominguez Dibb, o citado genro do ditador, tio e sócio de Alejandro Dominguez, foi para a calçada em frente a janela da embaixada, de onde insuflava populares e dirigia gritos para que o médico se entregasse, além de xingamentos. Beneficiado por um salvo-conduto do chileno Salvador Allende, Goiburú foi para o Chile. Em 1977, trabalhando na cidade argentina de Entre Rios, foi sequestrado em uma missão conjunta da Condor que juntava agentes paraguaios e argentinos, e nunca mais apareceu. A Corte Interamericana de justiça condenou o estado paraguaio a pagamento de indenização aos familiares.

ALÉM DA BARBÁRIE, CORRUPÇÃO FOI A OUTRA GRANDE MARCA DA DITADURA STROESSNER

“A corrupção é o preço que se paga pela paz.” A famosa frase do ditador paraguaio teve como símbolo maior a Usina Hidrelétrica de Itaipu. O acordo binacional Brasil/Paraguai foi assinado em junho de 1966 entre os militares que governavam os dois países.

O primeiro projeto da usina, o “Sete Quedas”, foi lançado ainda no governo civil de João Goulart, derrubado pelo golpe de 1964 que iniciou a ditadura no Brasil. Orçado em 1,3 bilhão de dólares. Projeto substituído pelo governo militar por outro de 13 bilhões de dólares, sendo que o preço final ficou em estimados 30 bilhões de dólares.

O superfaturamento foi esmiuçado por um militar. Em 1996, o coronel Alberto Carlos Costa Fortunato escreveu “A direita explosiva no Brasil”, onde detalha por onde escoou o dinheiro público dos dois países: “Conhecem a história sobre o aumento de 23% no custo de Itaipu? Pois o negócio foi o seguinte: lá pelas tantas, o governo paraguaio pretendeu (mais adequado seria dizer que condicionou) um aumento de 23%. Os representantes brasileiros articularam um conchavo e combinaram o seguinte: vocês topam aumentar em 46% (metade para cada um)”? De acordo com o autor, assim foi feito.

Os Dominguez também são parte desta história. Desde os conchavos de lançamento até a influência em cargos estratégicos.

O Jornal do Brasil, edição de 25 de abril de 1973, conta que, por ocasião do lançamento de Itaipu, a comitiva de 90 integrantes do general Stroessner que estava em Brasília para firmar a construção da usina espalhou-se pelo Hotel Nacional. O nono andar ficou reservado para a cúpula da delegação: o general, o filho, primeiro-tenente Gustavo Adolfo Stroessner, a filha Graciela Stroessner e o genro do ditador, Humberto Dominguez Dibb, o tio e sócio de Alejandro Dominguez.

Nomeações para a empresa mostram essa influência. Como a de Gerardo Soria Dávalos, um secretário de Osvaldo Dominguez Dibb que chegou a chefe do gabinete paraguaio de Itaipu em 2014. Em 2022, o faz tudo dos Dominguez Dibb sofreu uma acusação de assédio moral e sexual, quando ocupava o cargo de Diretor de Responsabilidade Social na hidrelétrica. Episódio posteriormente arquivado.

 “ODD”: PEDIDO DE VISTO COM DADOS FALSOS AO FIM DA DITADURA STROESSNER POR MEDO DE PUNIÇÕES

Tomado por ditaduras militares desde a década de 60, sufocado pela “Operação Condor”, os ventos do continente começaram a mudar de direção em meados dos anos 80.

Na Argentina, o regime militar tinha acabado em 1983. No Brasil, o último general se sustentava no poder, de onde sairia em 1985, assim como no Uruguai. No Chile, o general Pinochet iria até 1990. É nesse contexto de provável mudança no cenário político que, em 1984, o patriarca dos Dominguez pede os vistos permanentes brasileiros para toda família. Uma precaução e salvaguarda depois de décadas de relação umbilical, sanguínea e de negócios entre os Dominguez e os Stroessner, como está no próprio relatório da PF:

“Referidos paraguaios são ligados direta ou indiretamente aos detentores do poder no governo do seu País. O propósito das artimanhas por eles praticadas para obterem permanência no Brasil, visa prevenirem-se contra possível mudança política no Paraguai”.

As “artimanhas” citadas no processo: a criação de empresas fictícias no Brasil, com intuito de provar vínculos já existentes, viabilizando a permissão. Essas empresas se extinguiram logo após a concessão dos vistos.

Entre as empresas criadas, está a Iguamóveis S.A. De acordo com os dados da Receita Federal, a abertura, em Foz do Iguaçu, foi no dia 23 de fevereiro de 1984, sendo baixada em 23 de outubro de 1985.

“Aquela firma nunca funcionou. Foi criada com o fim de viabilizar a obtenção de permanência definitiva no Brasil para a esposa, filhos, netos e alguns amigos de Júlio Dominguez, tendo sido extinta definitivamente após a realização daqueles objetivos”, diz o documento.

Na ocasião, em depoimento a PF sobre o caso, corroborando a conhecida colaboração entre ditaduras e seus beneficiários, o despachante e contador responsável por abrir as empresas, Luiz Aires, “insinuou que citados elementos possuem ótimo relacionamento nos altos escalões do governo brasileiro e que houve tráfico de influência no processo de concessão da permanência definitiva no Brasil aos nomeados”.

MUITO MAIS DO QUE UM HERDEIRO: PRESIDENTE DA CONMEBOL É SÓCIO DOS STROESSNER E BENEFICIÁRIO DA DITADURA NOS NEGÓCIOS

A participação de Alejandro Dominguez em toda engrenagem de fortuna e poder, vai muito além do parentesco. Assumiu parte dos empreendimentos do pai ainda cedo, como o conglomerado de jornal e rádios “Grupo Nación de Comunicaciones (GNC”), onde ocupou a presidência de 1999 a 2014. O império dos Dominguez passa por hoteis, imobiliárias, gastronomia, fábrica de cigarros, cassinos, exploração de jogo, terras e empresas ligadas ao agro.

O Brasil também reúne os Dominguez e os Stroessner nos negócios. Como na imobiliária Dominguez Dibb & Cia, aberta por “ODD” em Foz do Iguaçu, 1982, e ainda ativa, onde Alejandro está através da holding “Muharde Administradora de Bens”, sócio também de Humberto Dominguez e Alfredo Gustavo Domínguez Stroessner, o “Goli”, primo de Alejandro, filho de Humberto e neto do ditador.

Uma comunicação datada de 10 de janeiro de 2010 entre a embaixada americana em Assunção e o Departamento de Estado, vazada no Wikileaks, traça um perfil do herdeiro de Osvaldo Dominguez Dibb: “seu filho, Alejandro Dominguez Wilson-Smith, que estudou nos EUA, é o diretor do Grupo La Nacion, que inclui dois jornais diários: La Nacion e Cronica, rádio 970 AM e várias estações de FM. Tanto pai quanto filho tem laços com a família Stroessner”. Cita ainda as extensas propriedades imobiliárias da família.

POLÍCIA GRAVOU GARANTIA DE “ODD” SOBRE CIGARRO CONTRABANDEADO PELOS DOMINGUEZ: “TODA A PRODUÇÃO TEM O MESMO PADRÃO DE QUALIDADE”

É do ramo da fábrica de cigarros que brotaram os maiores escândalos da família. Aqui novamente o presidente da Conmebol é muito mais do que somente um herdeiro: Alejandro Dominguez é sócio da Tabacalera Boqueron. Acionista e nome no registro da empresa, já estava como sócio quando, nos anos 90, começaram a explodir as acusações de contrabando de cigarro da empresa. Escândalos detalhados em comissões parlamentares de inquérito e processos judiciais em diferentes países, investigação policiais e do ministério público.

Uma modesta apreensão de 87 caixas de cigarro contrabandeados do Paraguai para São Paulo, em 1997, foi o ponto de partida para uma investigação do Ministério Público Federal-SP, que desembocou em denúncia oferecida e aceita em 2001 na justiça de São Paulo, tendo tramitado na 6º Vara Criminal.

O MPF-SP traçou com detalhes a ação e o papel da Tabacalera Boquerón, a sociedade de “ODD” e do filho Alejandro Dominguez no que chamaram de “organização criminosa” que comandava a engrenagem do contrabando de cigarros entre Brasil e Paraguai.

O empreendimento criminoso, segundo a peça, apresentava “uma divisão funcional de atividades e conexões locais, nacionais e internacionais”. É nesse braço de atividades e conexões internacionais que entrava a unidade dos Dominguez, de acordo com o MPF-SP. “Assim é que os cigarros, de marcas próprias ou contrafações de marcas nacionais, produzidos nas fábricas de Roberto Eleutério ou na Tabacalera Boquerón, de propriedade do cidadão paraguaio Osvaldo Dominguez Dibb, eram contrabandeados do Paraguai”.

A monitoração telefônica de “ODD” por parte da investigação também permitiu desenhar com maiores detalhes os tentáculos da Tabacalera Boquerón no esquema. “É de se observar que a marca Derby, de titularidade da empresa Souza Cruz, conforme diálogos mantidos entre integrantes da organização no Brasil e os fornecedores paraguaios, entre eles Osvaldo Dominguez Dibb, é uma das mais falsificadas e contrabandeadas, muitas vezes sendo identificada, durante a transação comercial, com o código “418”.

As apreensões geraram provas: “os cigarros apreendidos apresentam em muitas de suas caixas, conforme se pode observar em vista realizada pelo MPF ao depósito da Receita Federal, rótulos indicando que foram produzidos pela Tabacalera Boquerón, sediada no Paraguai e de propriedade de Osvaldo Dominguez Dibb”. Denunciado por associação criminosa, contrabando, falsificação de estampilhas (selos) e crime contra a saúde pública, o processo por fim foi arquivado.

Em 2003, a câmara dos deputados instaurou em Brasília uma Comissão Parlamentar de Inquérito, a “CPI da Pirataria”. “ODD” e a Tabacalera Boquerón ocupam um capítulo inteiro do relatório final, apontado como “um dos principais falsificadores de cigarros do Paraguai”.

O modus operandi dos donos da Tabacalera Boquerón no esquema também está esmiuçado no relatório da CPI:

“Utiliza um avião do tipo Bell/90, série LA 46, registro ZP-TZE, em nome de sua filha, para a prática do contrabando ou descaminho. As pistas utilizadas são as do Aeroporto Guarani, de Ciudaddel Este, e uma em La Fortuna…Suas fábricas produzem pelo menos 13 marcas de cigarros de peso no mercado brasileiro: Belmont, Campeão, Derby, Indy, LS, Minister, Mistura Fina, Mustang, Oscar, Plaza, Ritz, US e Vanguard. Todas falsificadas.”

As escutas em cima de “ODD” captaram ainda a garantia de qualidade dos produtos da Tabacalera Boquerón dada aos parceiros por “ODD”: “Podem ficar tranquilos porque toda a produção tem o mesmo padrão de qualidade”.

A transformação de um país em negócio privado da família Stroessner e de seus parceiros alimentou os Dominguez em diferentes fronts. E gerou a fortuna do conglomerado Dominguez Dibb. Em fevereiro de 1969, Humberto Dominguez inaugurou, ao lado do sogro, sua fábrica de arames, a ICIERSA. Stroessner já tinha deixado o caminho livre para eliminar qualquer chance de insucesso dois meses antes, quando, no 31 de dezembro, publicou decreto proibindo a importação de alguns itens, entre eles o arame. Em 1975, o genro inaugurou ao lado do general a fábrica de pilhas “Paraguayas”. Noventa dias depois, decretou a proibição de importação de pilhas. De decreto em decreto do general, de monopólio em monopólio, os Dibb foram amealhando a fortuna da família.

PLATA Y PLOMO: “MATADOR COM UMA ESCOPETA AMEAÇANDO CRIANÇAS E MULHERES”

O roubo de terras por parte do que a Comissão de Verdade e Justiça do Paraguai chamou de “famílias próximas a ditadura Stroessner” foi uma das maiores marcas do período. De acordo com a comissão, 3.336 famílias ou grupos empresariais com alguma relação ao ditador, se apropriaram de 8 milhões de hectares de “terras mal habidas”.

O relatório “Los dueños de la tierra en Paraguay”, publicado pela organização internacional Oxford Committe for Famine Relief (OXFAM) em 2016, estima que o “Grupo Domínguez Dibb” acumulou 52 mil hectares no período, concentrados principalmente na Estancia La Gringa, de 35 mil hectares, em San Pedro, e na Estancia Loma Verde, em Presidente Hayes, com 17 mil hectares.

O caso mais conhecido de terras do “Grupo Dominguez Dibb” apontadas como apropriadas ilegalmente é o da Estância Loma Verde, onde está a “Agroganadera Loma Verde”, da família.

Ali estão as terras da comunidade indígena Yakye Axa, que tiveram seu território gradualmente sendo tomado por fazendeiros ao longo do século XX, processo acelerado no período Stroessner.

Em 13 de julho de 2005, a CIDH sentenciou que o estado paraguaio deveria identificar o território tradicional e ancestral dos membros da Comunidade Indígena Yakye Axa, em posse dos Dominguez Dibb e entregá-los de maneira gratuita. Isso nunca ocorreu.

Expulsa de sua terra, a comunidade indígena vive até hoje à margem da estrada, onde é frequente o falecimento de crianças Yakye Axa por causa de acidentes na rodovia. No documento da CDIH de 2012, publicado pelo ministério da justiça do Brasil, o relato de uma testemunha cita a presença de um “matador” na propriedade dos Dominguez Dibb:

 “Na Estancia Loma Verde foi colocada uma pessoa como o matador do lugar, que costuma percorrer o alambrado com uma escopeta ameaçando as crianças e as mulheres, porque tem a ordem de não deixar as pessoas entrarem para retirar lenha nem água. A testemunha é a única que pode se aproximar do senhor quando é necessário que se esclareça algo, de modo que também recebeu ameaças.” Por fim, contam que “as crianças não possuem alimentação, às vezes não possuem nada para comer durante o dia. Há muitas dificuldades para a prática de caça, já que estão proibidos de entrar na estância”.

FUTEBOL: EM BUSCA DA POPULARIDADE E SEMPRE NA ROTA DOS ESCÂNDALOS

Poderosos, impunes, milionários e amigos do rei. Os donos do Paraguai.

Faltava apenas um ingrediente aos Dominguez Dibb: o respaldo popular.

Percorreram o caminho mais fácil, indo ao encontro de onde muitas vezes se busca esse ingrediente: o futebol.

Em 1976, ainda na ditadura Stroessner, “ODD” assumiu a presidência do Olímpia. Em 1979, o clube conquistou a Libertadores e o Mundial Interclubes.

 Estabeleceram uma dinastia e um feudo no Olímpia, com Humberto nos bastidores e Alejandro no conselho de administração entre 1995 e 1996, e a vice-presidência entre 2004 e 2006. Neste ano, Alejandro Dominguez passou a vice-presidência da Associação Paraguaia de Futebol (APF), com o “ODD” mantendo-se influente até a morte, em 2024. Em 2014, Juan Angel Napout, então o presidente da APF, assumiu a titularidade da Conmebol e Alejandro chegou número 1 da APF.

Em dezembro de 2015, quando explodiu o Fifagate, maior caso de corrupção da história do esporte, Napout foi preso na Suíça. De acordo com a acusação apresentada por Loretta Lynch, então Procuradora-Geral dos Estados Unidos, Napout, em 2013, ainda na presidência da APF, teria recebido US$ 7,5 milhões da Datisa, empresa que comercializava os direitos de televisão pela exclusividade da Copa América. Alejandro Dominguez era seu vice no período, mas não foi acusado. Com a queda de Napout da Conmebol, em janeiro de 2016, Alejandro Dominguez foi aclamado novo presidente da Conmebol, onde está até hoje.

OPÇÃO POR CONTRATO COM “PARCEIROS” ASSINADO POR ALEJANDRO DOMINGUEZ GEROU PERDA DE US$ 7,6 MILHÕES

Em 2021, com Alejandro Dominguez já na presidência da Conmebol, veio à tona o episódio do contrato assinado por ele quando ainda estava na Associação Paraguaia de Futebol.

De acordo com as denúncias, Alejandro, então mandatário da APF, teria assinado, em 5 de maio de 2015, um contrato com a empresa Ciffart Sport, no valor de US$ 9.380 milhões, cedendo os direitos de transmissão dos jogos do Paraguai nas eliminatórias da Copa da Rússia 2018. A Ciffart seria intermediária da Full Play para pagamento de subornos.

Ocorre que, exatos 11 dias antes, em 24 de abril, Alejandro Dominguez teria tido uma oferta e um contrato na mão, que acabou vindo a público, no valor de US$ 17 milhões com a Tenfield pelos mesmos direitos. Ou seja: teria optado por uma perda de US$ US$ 7,62 milhões (sete milhões, seiscentos e vinte mil dólares). Em novembro de 2021, numa corte de Assunção, Alejandro Dominguez se recusou a responder sobre o caso. Em 2023, o episódio foi alvo de investigação do Comitê de Ética da Fifa, onde Alejandro Dominguez ocupa uma vice-presidência desde 2018. A investigação não foi adiante. O escândalo não o impediu de ser também, desde 2017, o presidente da Comissão de Finanças da Fifa.

ALEJANDRO DOMINGUEZ ABRIU EMPRESAS EM PARAÍSO FISCAL LOGO DEPOIS DE ASSINAR O CONTRATO DA APF POR ELIMINATÓRIAS DE 2018

Refazendo o caminho e as pegadas desse episódio e desse contrato, a reportagem descobriu uma nova coincidência de datas muito próximas:

No dia 19 de junho de 2015, exatos 45 dias depois de assinar com a Ciffart o contrato com valor muito menor do que a oferta que recebera da Tenfield, o registro público de empresas do Panamá tem a abertura da “Spark Bay S.A.”, cujo objeto é de investimentos e gestão de ativos diversos.

Alejandro Guillermo Dominguez Wilson Smith assina como presidente da empresa.

Maria Mercedez Perez Dominguez, casada com Alejandro Dominguez, está como secretária. Ambos constando no mesmo endereço em Assunção.

Montserrat Jimenez Granada aparece como tesoureira.

Montserrat Jimenez Granada não é apenas sócia de Alejandro Dominguez em uma empresa privada em paraíso fiscal. A advogada é a Diretora Jurídica e Secretária Geral Adjunta da Conmebol desde a chegada de seu sócio na Spark Bay à presidência da entidade máxima do futebol sul-americano. E já acompanhava o dirigente na Associação Paraguaia de Futebol desde a entrada dele como presidente, em 2014, só saindo para acompanhá-lo na Conmebol.

Na empresa panamenha, a diretora da Conmebol forneceu como endereço o escritório de advocacia Jiménez Balbiani & Asociados, do qual é parte, com seu irmão, Julio Jimenez, vice-presidente do Olímpia e intimamente ligado a Alejandro Dominguez: calle Jejuy 290 esquina Oleary.

 Alejandro Dominguez e Montserrat Jimenez seguem juntos na Conmebol e na empresa privada. O Panamá está na lista de paraísos fiscais de entidades como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e União Europeia, e é conhecido por práticas de sigilo financeiro e baixa tributação, que facilitam a evasão fiscal e a lavagem de dinheiro. A abertura da “Spark Bay”, em 2015 no país é, portanto, anterior ao Panamá Papers, escândalo de 2016, a partir do qual outros países se tornaram mais procurados para tais transações

CRONOLOGIA

– 24 DE ABRIL DE 2015: ALEJANDRO DOMINGUEZ RECEBE OFERTA DE US$ 17 MILHÕES DA TENFIELD POR DIREITOS DE ELIMINATÓRIA DE COPA DE 2018

– 5 DE MAIO DE 2015: ALEJANDRO DOMINGUEZ ASSINA CONTRATO COM O A CIFFART POR US$ 9,38 MILHÕES

– 19 DE JUNHO DE 2015: ALEJANDRO DOMINGUEZ ABRE A EMPRESA “SPARK BAY” NO PARAÍSO FISCAL DO PANAMÁ JUNTO COM A SECRETÁRIA DA CONMEBOL

NOVOS NEGÓCIOS, VELHAS SOMBRAS: UM CONTRATO MILIONÁRIO DE PETRÓLEO E MUITAS DÚVIDAS

O negócio da vez dos Dominguez cruza as fronteiras e envolve milhões.

No dia 30 de setembro de 2024, a Petroleos Paraguayos (Petropar) e Doha Holding Group assinaram um contrato no valor de US$ 61 milhões.

Com previsão de entrega de 100.000 toneladas métricas de combustível por um preço significativamente menor do que o que a Petropar normalmente paga. Com preço do diesel fixado em US$ 610 por tonelada, o que é bem abaixo do praticado no cenário mundial, em que o preço médio internacional do diesel em 2023/2024 variou entre US$ 700 e US$ 900 por tonelada. A entrega do combustível deveria ter sido entre outubro e novembro do ano passado, mas em março último as empresas assinaram a quinta prorrogação de prazos.

PANAMÁ, DOHA, ASSUNÇÃO E A MESMA ESQUINA: TODOS OS CAMINHOS LEVAM A ALEJANDRO DOMINGUEZ

Sem qualquer tradição ou registro público de transação no mercado de combustível e histórico comprovado, a Doha Holding contou com um trunfo para obter o contrato com a Petropar: quem assina como um dos representantes da empresa é Alejandro Facundo Dominguez Pérez. O filho do dirigente máximo do futebol continental. É a terceira geração dos Dominguez envolvida em negócios controversos.

O herdeiro de Alejandro Dominguez como representante de uma empresa estrangeira em uma transação milionária no ramo do petróleo chama atenção também, já que cerca de um ano antes, mais exatamente no dia 13 de maio de 2023, estava se formando em jornalismo na William Allen White School of Journalism and Mass Communications, da Universidade do Kansas, Estados Unidos. Pouco tempo depois, estava assinando contrato milionário em área totalmente distinta da formação no ano anterior.

Além do filho, todos os caminhos da Doha Holding tangenciam o presidente da Conmebol. Como o endereço em Assunção fornecido pela empresa catari no contrato com a Petropar: calle Jejuy 290 esquina Oleary.

Este endereço já apareceu nesta reportagem. Sede do escritório de advocacia Jiménez Balbiani & Asociados, de Julio Jimenez, vice-presidente do Olímpia e intimamente ligado a Alejandro Dominguez, e de Montserrat Jimenez Granada, a sócia de Alejandro Dominguez na empresa que os dois tem no paraíso fiscal do Panamá. A advogada já citada que o acompanha não só em offshores, mas que está com ele também na Conmebol e antes esteve na Associação Paraguaia de Futebol.

Os documentos da Doha Holding Group obtidos pela reportagem mostram que ela foi aberta em 14 de dezembro de 2023, apenas nove meses antes do contrato com a Petropar, e está registrada no Qatar Financial Centre, que funciona como uma zona econômica especial e centro financeiro no Catar, operando com um sistema jurídico e regulatório independente, em inglês, para empresas de serviços financeiros e não financeiros.  De acordo com o Tax Justice Network, ONG inglesa que investiga paraísos fiscais e países com alto grau de sigilo bancário, o Catar, embora não seja um paraíso fiscal, está classificado como um dos países de sigilo financeiro relevante, em 20º no mundo.

Com capital de dez milhões de riais catarianos, equivalentes a US$ 2,75 milhões, a Doha Holding tem como acionista principal o Sheik Khalifa Hamad Al-Thani, que foi emir do Catar até 2013, sendo sucedido pelo filho, atualmente no poder. O secretário Saad Doukali aparece em diversos empreendimentos financeiros.

O DONO DO PARAGUAI

No dia 11 de abril de 2024, uma quinta-feira, às 12h17, as câmeras de uma obra em construção flagraram um homem de camisa social azul e calça num tom mais escuro adentrando um pequeno campo de futebol com gramado sintético, situado na Avenida Molas Lopez, entre San Martin e Dr Cirilo Cáceres, no bairro de Las Lomas.

Aos berros, gritava para os operários do prédio em construção no terreno ao lado do campinho: “Si llego a ver a alguien que invada mi propiedad privada, levoy a meter plomo”. Em bom português: “Se eu pegar alguém invadindo minha propriedade, vou meter chumbo”. Pouco tempo depois, obteve o embargo da obra.

No vídeo, que é parte do processo na justiça paraguaia e foi obtido pela reportagem, o homem, captado à meia distância nas imagens, fala da polícia como se fosse uma instituição a serviço dele, e segue aos berros avisando aos funcionários da obra que se houver invasão da propriedade dele, “vai fazer descerem e serem presos”, sempre enfatizando ser o dono da propriedade ao lado da obra.

A propriedade é de Alejandro Dominguez, o presidente da Conmebol, como está no processo. A entidade de futebol inclusive está citada porque, de acordo com a peça, o dirigente promoveu reunião de interesse particular com a entidade de classe dos proprietários imobiliários na própria Conmebol.

Além de tratar dos assuntos de interesse particular do mandatário, a Conmebol segue o fracasso semanal no combate ao racismo pelos campos do continente. Em 17 de março último, Alejandro Dominguez achou por bem falar sobre eventual ausência de clubes do Brasil na Copa Libertadores da América comparando brasileiros a macacos: “Seria como o Tarzan sem a Chita”. Dezoito anos antes, o pai, Osvaldo Dominguez Dibb, ganhou o prêmio de “Artigo Mais Racista do Ano de 2007”, concedido pela organização de direitos humanos Survival International.

 No editorial “Índios na Praça Uruguai”, publicado no La Nacion no dia 13 de setembro de 2007, “ODD” atacou os indígenas, que expulsos por aqueles que tinham tomado suas terras, acamparam entre janeiro e setembro no local. Uma praça, por acaso, vizinha do Crowne Plaza Hotel, de propriedade dos Dominguez. “Um câncer” e “hábitos imundos”, foram alguns dos termos usados por “ODD”. Que prosseguiu em seu texto:

“Um acampamento indígena neolítico bem no centro da cidade é impensável, mas lá está ele, como um câncer perigoso, espalhando maus cheiros, destruição e contaminação. A cidade está sendo punida sem motivo e não deveria ter que pagar por isso. Os indígenas precisam aprender a viver como pessoas ou voltar para a selva.”

O poder dos Stroessner ficou para trás, deixando um rastro genocida, violento e corrupto. Os Dominguez, cúmplices e produtos desse tempo, seguem cada vez mais firmes e se renovando. Inaugurando a terceira geração envolvida em negócios rumorosos. E cada vez mais poderosos. Terras, imóveis, fortuna, justiça, transações milionárias, meios de comunicação. Como donos de um país. Ou mais do que isso. Do futebol no continente. Numa história tão América Latina. Como tantas outras já vistas por aqui, de plata y plomo.

OUTRO LADO:

A reportagem enviou para Alejandro Dominguez, através do departamento de comunicação da Conmebol e também para seu e-mail pessoal, questões sobre os pontos abordados. A Conmebol confirmou o contato mas não respondeu as perguntas e pedidos de comentário, assim como o presidente da entidade, Alejandro Dominguez, e a secretária Montserrat Jimenez.

Published — 27 February 2025 Sportlight · Jornalismo Investigativo

EVENTO DE BETS AUTORIZADO PELA PREFEITURA DO RIO DEIXOU MILHARES SOB RISCO DE TRAGÉDIA

Milhares de frequentadores estiveram com a vida em risco na praia de Copacabana no verão do ano passado.

No auge da estação, durante os meses de janeiro e fevereiro de 2024, turistas e cariocas mergulharam em um ponto cego num dos mais concorridos lugares da orla. Um pedaço de mar com a visão e a proteção dos salva-vidas obstruídas, como mostram imagens e documentos obtidos pela reportagem. Banhistas e salva-vidas separados por paineis de propaganda gigantescos.

Por iniciativa da prefeitura do Rio, uma das maiores intervenções publicitárias de todos os tempos foi feita na paisagem do Rio de Janeiro, em uma clara demonstração da força da indústria das bets, as casas de aposta.

No total, foram dois meses de ocupação. Entre 26 de dezembro de 2023 e 18 de fevereiro de 2024, o Rio foi tomado por gigantescas estruturas estampando a marca da casa de apostas Pixbet: Seis cubos gigantes espalhados pela cidade, um “beach club” e duas imensas torres unindo uma tirolesa, ambos na praia de Copacabana.

O “Beach Club Pixbet” teve o funcionamento entre os dias 25 de janeiro 18 de fevereiro de 2024, de 8h às 18h autorizado em 2 de janeiro.

Peças imensas foram montadas no trecho de areia que fica entre o Lido e a rua Prado Júnior. Além de todas as instalações do “Beach Club Pixbet”, mais duas torres para abrigar uma “tirolesa”. Em plena areia, a torre de partida tinha quase 10 metros de altura. Exatos 9,50. E a torre de chegada 3,60.

No dia 29 de janeiro, já com quatro dias de funcionamento do “Beach Club Pixbet”, o comandante do 3º Grupamento Marítimo (3º GMar), coronel Márcio André Mathias de Oliveira, responsável pela área do evento, enviou comunicação ao comandante do Comando de Atividades de Salvamentos Marítimos (CBA X), obtida pela reportagem, onde apontou para os graves riscos da montagem. Uma negligência que poderia ter causado uma tragédia para a história da cidade e botou a vida de milhares de pessoas em risco. A solução veio em forma de gambiarra. A reportagem questionou o CBMERJ por meio da assessoria de imprensa sobre o fato. A instituição informou que “no período mencionado, os militares foram reposicionados estrategicamente para mais perto da areia, garantindo a continuidade do serviço de salvamento marítimo sem qualquer prejuízo à segurança da população” Já a prefeitura respondeu, via assessoria, que “ante todas as liberações oficiais, o município autorizou a realização do evento entre os dias 25 de janeiro de 2024 e 18 de fevereiro de 2024, de 8h às 18h”. (ver íntegra das respostas ao fim).

Com o improviso o “clube” foi mantido, mesmo causando o reconhecido transtorno.

MERGULHO EM PONTO CEGO NA PRAIA DE COPACABANA

O relatório do comandante do 3º Grupamento Marítimo (3º GMar), em 29 de janeiro, não deixa qualquer margem de dúvida sobre o risco. Textualmente, palavra por palavra:

“Considerando o Beach Club PixBet, evento esportivo que está sendo realizado na Avenida Atlântica, s/n – Copacabana, a direita do Posto de Salvamento 2, com data de início as 11/01/2024 e término previsto para 18/02/2024, cujo tem estimativa de 200 pessoas por dia”;

“Considerando a estrutura montada para a realização do evento que, além de ser próxima à torre de salvamento, ocupa boa parte da faixa de areia, fazendo com que o guarda-vidas de serviço tenha a visão do lado esquerdo do posto prejudicada, perdendo visibilidade do mar”.

“Venho por meio desta informar que a estrutura supracitada prejudica sobremaneira o serviço dos guarda-vidas do Posto 2”.

O relato informava ainda que a estrutura do evento prejudicava o serviço de salvamento diretamente “diminuindo o tempo de resposta do guarda-vidas”.

 E mais: que a representante do evento não considerou a gravidade dos fatos. Estava tudo legalizado. “A mesma informou que cumpriu com o projeto que foi apresentado para a legalização do evento”.

A organização do evento foi indiferente ao relato sobre o risco que milhares estavam correndo: “…na tentativa de mitigar o prejuízo, após conversar com uma das organizadoras, o retorno não foi positivo por parte desta”, escreveu.

A reportagem teve acesso às fotos anexadas no relatório. São imagens contundentes quanto ao nível de interferência. Definitivas para se entender a dimensão do perigo que frequentadores da praia correram durante mais de um mês sob o patrocínio da casa de apostas Pixbet.

AS INTERVENÇÕES DA PIXBET NA PAISAGEM DO RIO NO VERÃO DE 2024

– Um Beach Club ao lado do posto 2, Copacabana ocupando um quarteirão inteiro de um dos mais nobres ponto da praia.

– Ao lado do “beach club” do posto 2, em Copacabana, duas torres foram montadas para abrigar uma tirolesa. Em plena areia, a torre de partida tinha quase 10 metros de altura. Exatos 9,50. E a torre de chegada 3,60.

6 cubos publicitários, com 3 metros de altura e 5,15 metros de comprimento.

 INVASÃO DA CASA DE APOSTAS OCORREU NOS PONTOS MAIS VALORIZADOS DA CIDADE

Os pontos onde os 6 cubos Pixbet foram instalados:

1- Avenida das Américas, 900 (Barra da Tijuca)

2- Parque do Flamengo (altura da rua Jardel Jercólis)

3- Parque do Flamengo (altura do Hotel Glória)

4- Orla de Copacabana (Avenida Atlântica na altura da rua Rainha Elisabeth)

5- Lagoa (na saída do metro estação General Osorio)

6- Lagoa (canteiro central na subida do Túnel Rebouças)

CUBO PIXBET NA LAGOA

DOCUMENTOS DO IPHAN E INEPAC FALAM EM IRREGULARIDADES

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e o INEPAC enviaram ofícios para prefeitura e produtores contestando as instalações. Por diversas irregularidades. Sem efeito.

Em 29 de dezembro de 2023, três dias depois da montagem das torres para abrigar a tirolesa no posto 2 da praia de Copacabana, a superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no Rio de Janeiro pediu a retirada dos paineis de propaganda do local, por ser um “Sítio Patrimônio Mundial: paisagem carioca entre a montanha e o mar”.

“Considerando o posicionamento histórico deste Iphan de que o patrimônio cultural não seja utilizado como suporte de propaganda comercial, recomenda-se a retirada dos grandes painéis da empresa promotora. Além disso, relativamente à limitação de uma extensa faixa de areia, recomenda-se que o acesso seja franqueado a todos, com o objetivo de garantir a fruição do patrimônio por todo o coletivo da sociedade”.

Além do “Beach Club” e da tirolesa que contrariavam as normas do IPHAN, os 2 cubos da Pixbet no Parque do Flamengo também apresentaram irregularidades.

Em outro ofício de 29 de janeiro, a instituição pediu a retirada dos cubos ali instalados, “cada vez maiores e mais numerosos”:

“Relativamente aos 2 cubos previstos para o Parque do Flamengo, solicitamos a retirada dos elementos do local à luz do posicionamento institucional adotado para a área de que os paineis publicitários em si já causam poluição visual na paisagem e, recentemente, sendo projetados com dimensões cada vez maiores e se tornando mais numerosos, ofuscam a singularidade da paisagem natural urbana carioca. Dessa forma, requeiro o envio de relatório fotográfico que demonstre a integridade dos canteiros ajardinados após a desmontagem dos elementos, e/ou a recuperação dos gramados eventualmente danificados em virtude da montagem do cubo de publicidade. Ressaltamos que eventuais danos identificados no local, causados pela instalação dos cubos, serão imputados à responsabilidade do requerente”.

MAIS IRREGULARIDADES EM OUTRO CUBO NA ORLA

O segundo ponto da orla de Copacabana, instalado na avenida Atlântica com a rua Rainha Elizabeth, a poucos quilômetros da instalação do Posto 2, também apresentou problemas na liberação.

O Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC) recebeu ofício para solicitação de autorização para a instalação patrocinada pela Pixbet em 30 de janeiro de 2024, seis dias depois de já montada. Em 2 de fevereiro, o arquiteto da instituição, Eduardo Valdetaro enviou ofício para a prefeitura e para os representantes dos patrocinadores com duas considerações principais apontando irregularidades:

“O cubo publicitário instalado em cima do piso tombado de pedras portuguesas de autoria Roberto Burle Marx em um trecho do mosaico em área integrante do tombamento estadual denominado Conjunto urbano-paisagístico nas praias do Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon; o cubo publicitário de led “em funcionamento 24 horas por dia, o que impactará diretamente na paisagem da Orla de Copacabana, já que o local faz parte do Sítio Rio de Janeiro – ‘Paisagens Cariocas entre a Montanha e o Mar’, patrimônio mundial declarado pela UNESCO desde 2012, na categoria paisagem cultural”.

O parecer do INEPAC: “Diante das considerações acima e após análise do material recebido, e sob o ponto de vista estrito do tombamento Estadual, este Instituto se opõe a instalação de cubo publicitário Pixbet em cima do piso de mosaico em pedras portuguesas de autoria de Roberto Burle Marx”. O INEPAC também lamentou o envio com pedido de autorização fora do prazo:

“Solicitamos que, para as próximas realizações, seja observado o prazo para envio da documentação de requisição ao INEPAC, de 20 dias antes da data inicial da montagem das peças artísticas”.

MUNICÍPIO NÃO RECEBEU UM CENTAVO PELA UTILIZAÇÃO DA CIDADE COMO CENÁRIO DA PIXBET

A transformação da cidade em um cenário da Pixbet não valeu um real diretamente para os cofres da prefeitura. Assim mesmo: não houve qualquer pagamento direto da Pixbet ao município para que a cidade se transformasse em um canteiro de exposição da casa de apostas.

A transação da casa de apostas para expor sua marca nos principais pontos da cidade foi feita através de um intermediário, que recebeu o pagamento. No caso, um personagem de longa relação com eventos realizados no Rio de Janeiro nas gestões Eduardo Paes: a SR Promoções Culturais (SR COM) empresa de organização de eventos com R$ 94.690.022,12 (noventa e quatro milhões, seiscentos e noventa mil, vinte e dois reais e doze centavos) em 22 contratos com a prefeitura do Rio ao longo dos anos, sendo que 18 deles em gestões de Eduardo Paes, além de outros eventos com múltiplos financiadores além do município, como a festa de abertura dos Jogos Olímpicos em 2016 e Jogos Mundiais Militares, em 2011.

O início da invasão da Pixbet se deu próximo ao réveillon de 2023. Um edital da Riotur, a empresa de turismo do município do Rio, selecionou a empresa responsável pela produção da festa de fim de ano na cidade. A SR Promoções Culturais foi a vencedora da concorrência.

O edital autorizava a empresa vencedora a captar patrocinadores no mercado privado, com a contrapartida de ações de marketing nas áreas da festa. Assim, em breve resumo, a Pixbet assinou e realizou o pagamento para ser patrocinadora da produtora do evento, a SR Promoções Culturais. Não entrando nenhum centavo para a prefeitura diretamente pela exposição da casa de apostas, como confirma a própria prefeitura, através da assessoria de imprensa da Riotur, em resposta para a reportagem.

“Não houve qualquer transferência de recursos entre a “Pixbet” e a Prefeitura do Rio de Janeiro. Houve, na verdade, um aporte de recursos privados, a título de patrocínio, para a sociedade organizadora privada, a “SR COM”, selecionada mediante Edital de Caderno de Encargo realizado pela Riotur.” (veja a íntegra da resposta ao fim da reportagem).

PREFEITURA NÃO RECEBEU PELO PATROCÍNIO DO RÉVEILLON MAS PAGOU R$ 22,1 MILHÕES PARA INTERMEDIÁRIA EM GASTOS NA FESTA

A SR Promoções Culturais ganhou dos dois lados.

Se não houve pagamento de patrocinadores para o cofre da cidade diretamente, indo para a empresa, o mesmo não pode ser dito em relação ao fluxo “prefeitura – SR Promoções Culturais”. Mesmo captando recursos na iniciativa privada, a empresa ainda assinou um total de R$ 22.150.000,00 (vinte e dois milhões, cento e cinquenta mil reais) a serem pagos pela gestão de Eduardo Paes, em ações diretas para o réveillon, divididas em dois contratos: um junto a própria Riotur, (R$ 11.900.000,00) e outro com a Casa Civil (R$ 10.250.000,00).

Assinado em 13 de dezembro, o contrato de R$ 11,9 milhões da Riotur com a SR Promoções Culturais teve como objeto “contratação de empresa especializada para prestação de serviço de evento, planejamento operacional, execução, acompanhamento, fornecimento de bens e insumos, infraestrutura e apoio logístico para viabilizar o evento do réveillon 2023/2024 – Palcos da Cidade do Rio de Janeiro”.

Já o contrato da Casa Civil do município com a Sr Promoções Culturais, assinado no apagar do ano que partia, em 28 de dezembro, no valor de R$ 10,2 milhões, tinha como objeto a “divulgação da marca G-20 durante o réveillon de 2023/2024, em vários pontos da cidade, tendo como seu ponto alto a praia de Copacabana”.

A INVASÃO DA CASA DE APOSTAS SEGUIU DEPOIS DO RÉVEILLON

Passado o réveillon, a invasão da Pixbet seguiu. E aumentou.

Em 15 de janeiro, a Liga Independente das Escolas de Samba (LIESA), através de seu presidente Gabriel David, oficiou a prefeitura e enviou documento formal de “consulta prévia de evento”. O evento já estava montado.

A consulta tratou sobre a ocupação da cidade com a tirolesa, um beach club e 6 cubos gigantes espalhados em pontos turísticos como uma “contribuição para a cidade” por parte da Pixbet, que também é patrocinadora da Liesa.

 Mais do que isso: como algo que irá “enriquecer a experiência dos participantes. Assim, solicitou formalmente “a permissão da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro para a instalação de ativações promocionais em locais estratégicos da cidade durante o período mencionado”.

Em 19 de janeiro, foi a vez da Dream Factory, empresa organizadora do carnaval de rua do Rio, “informar o interesse da empresa Pixbet em realizar ativações espalhadas pela cidade do Rio de Janeiro durante o período que compreende janeiro e fevereiro, até o final do carnaval”.

Em 30 de janeiro, seis dias depois de já iniciada a ação, a SR Promoções Culturais escreveu para o Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC), onde o projeto tinha entrado em exigência, e também citou a invasão da casa de apostas na paisagem como um “oferecimento” para a cidade, assim como a extensão do réveillon para permanência até depois do carnaval. Os termos: “Já que a empresa Pixbet patrocinou o réveillon do Rio e ofereceu para a prefeitura os cubos para divulgar agendas de eventos do carnaval do Rio”, solicitava a autorização da instalação para “em parceria com a prefeitura do Rio, divulgar agendas de eventos de eventos do carnaval do Rio”.

Nenhum dos ofícios trata sobre valores e sim apenas sobre a instalação dos objetos da Pixbet na cidade como um “oferecimento” da empresa.

Os pedidos formais nos documentos obtidos pela reportagem, na verdade eram mesmo formalidades, já que os objetos já estavam instalados.

EMPRESA RESPONSÁVEL PELO EVENTO RESPONDEU POR IRREGULARIDADES ANTERIORMENTE

Vencedora do edital para o réveillon de 2024, assim como em outros anos anteriores, e responsável pelo projeto que espalhou a marca da casa de apostas pelo Rio, a SR Promoções Culturais esteve citada por irregularidades em eventos anteriores na cidade.

Na edição dos Jogos Mundiais Militares (JMM), realizados no Rio em 2011, a empresa foi citada em 2012 em processo do Tribunal de Contas da União (TCU), por irregularidades. Entre elas, a ligação entre Abel Silveira Gomes, contratado para elaboração do projeto das cerimônias de abertura e de encerramento da competição, além do gerenciamento do contrato de produção e execução do referidos cerimoniais, por R$ 765.000,00.

Em seguida ao projeto de Abel Gomes, foi realizada a licitação para escolha da empresa especializada na execução desse projeto das cerimônias de abertura e encerramento. Venceu a SR Promoções Culturais, com proposta de R$ 24.994.000,00. Um valor apresentado na licitação abaixo da estimativa inicial do Comitê de Planejamento Operacional dos JMM, de R$ 27.998.266,67.

No voto sobre o processo do TCU, o tribunal apontou irregularidade na escolha mas ao fim não responsabilizou ninguém.

A SR Promoções Culturais, executora do projeto, está em nome de Sheila Roza, que mantinha união estável com Abel Gomes, o autor do projeto, além de relações societárias em outras empresas. De acordo com o TCU na ocasião, a empresa “possui estreito relacionamento profissional, societário e pessoal com o projetista das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos, Sr. Abel Silveira Gomes, em violação ao disposto no art. 9º da Lei 8.666/1993”. Tal artigo estabelece que não pode participar de licitações, obras, serviços e fornecimento de bens: “o autor do projeto, seja ele básico ou executivo; a empresa que elaborou o projeto, ou da qual o autor seja dirigente, gerente, acionista, controlador, responsável técnico ou subcontratado”.

No entanto, apesar de identificar a irregularidade, o TCU, em fevereiro de 2015, não aplicou sanção a Abel Gomes nem à empresa SR Promoções Culturais Ltda. Como justificativa, apesar do reconhecimento de ilicitudes, o tribunal, através de votação, definiu que como nem Abel nem a SRCOM eram gestores públicos, não cabia aplicar penalidades a eles.

Além de outras relações societárias apontadas pelo TCU, a reportagem encontrou ainda o registro da empresa SR COM Limited no equivalente a junta comercial do Reino Unido, onde Abel Gomes aparece como proprietário e Sheila Roza como sócia, além de Paulo Cezar da Silva Ferreira.

OUTRO LADO:

Prefeitura do Rio de Janeiro:

“A Prefeitura do Rio informa que autorizou a realização do evento “Beach Club Pixbet”, na Praia de Copacabana, Posto 2, após todos os órgãos envolvidos na concessão da licença emitirem o nada a opor. Inclusive, o Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro (CBMERJ), via Autorização A-00016/24 DGDP, expedida em 2 de janeiro de 2024. Ante todas as liberações oficiais, o município autorizou a realização do evento entre os dias 25 de janeiro de 2024 e 18 de fevereiro de 2024, de 8h às 18h”.

RIOTUR:

A reportagem enviou também para a prefeitura, via assessoria de imprensa, pedido de resposta sobre a relação entre o município, a SR Promoções Culturais e a Pixbet no episódio. A prefeitura indicou a Riotur como responsável pela resposta. A Riotur enviou a resposta abaixo:

“A Riotur para o Réveillon do Rio de 2023/2024 lançou o edital – Caderno de encargos e contrapartidas para selecionar publicamente a empresa responsável pela produção do festejo de final de ano. A empresa SR PROMOÇÕES CULTURAIS LTDA (“SR COM”) se sagrou vencedora do processo de seleção.

Para financiar os custos do projeto vencedor do Réveillon, a sociedade organizadora (“SR COM”) buscou, no mercado privado, potenciais patrocinadores interessados, os quais teriam, como contrapartida, a possibilidade de realizar ações de marketing e ativações nas regiões que circundam as áreas onde o Réveillon é realizado.

Uma dessas sociedades patrocinadoras, portanto, foi a PIXBET SOLUCOES TECNOLOGICAS LTDA (“Pix bet”), firmando relação jurídica com SRCom, permitindo-lhe realizar ações de marketing e outros.

Em conclusão, não houve qualquer transferência de recursos entre a “Pixbet” e a Prefeitura do Rio de Janeiro. Houve, na verdade, um aporte de recursos privados, a título de patrocínio, para a sociedade organizadora privada, a “SR COM”, selecionada mediante Edital de Caderno de Encargo realizado pela RIOTUR.”

CBMERJ:

“O Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ) informa que a situação relatada não impactou as atividades dos guarda-vidas. No período mencionado, os militares foram reposicionados estrategicamente para mais perto da areia, garantindo a continuidade do serviço de salvamento marítimo sem qualquer prejuízo à segurança da população”.

IPHAN:

A reportagem enviou pedido de resposta para o IPHAN sem resposta.

SRCOM:

A reportagem enviou pedido de resposta para a SRCOM, sem resposta.

PIXBET:

A reportagem tentou contato com a bets e seus proprietários.  Enviou demanda ainda para o escritório de advocacia da Pixbet, mas não obteve retorno.

Published — 29 April 2024 Sportlight · Jornalismo Investigativo

O estranho não é Landim não saber quem é Zico. O estranho é a Gávea não estar cercada depois disso.

O estranho não é Landim não saber o que Zico representa para o Flamengo. O estranho não é Landim não ter respeito pelo Flamengo. Tudo isso sempre esteve aí. Esse é o sujeito cujo único objetivo é negociar o Flamengo. O estranho é a Gávea não ter sido cercada, não existir protesto, não se exigir a saída de um presidente que não respeita o maior ídolo. Algo que só a cooptação de tantos personagens desse enredo explica. Não é preciso explicar pra ninguém aqui quem é Zico, quem é Zico para o Flamengo. Nem mesmo falar sobre construção de memória, o sagrado da construção de ídolos. É preciso falar sobre Landim. Vamos lá:

O Flamengo é vítima de uma apropriação indébita. Rodolfo Landim usa o Flamengo para seus objetivos pessoais.

Não bastasse a aberração que isso representa, o preço disso está sendo muito alto para o clube.

As duas frases acima vão muito além de subjetivas. São facilmente respaldadas em um conjunto de fatos recentes. Assustadores.

Aos fatos:

No dia 17 de junho de 2020, Landim esteve na posse do então novo ministro das comunicações, Fábio Faria. Após a cerimônia, em meio a uma pandemia que matava milhares todos os dias, ocorreu um almoço reservado juntando o presidente do Flamengo, Bolsonaro e Felipe Melo. São todos fatos públicos e registrados na imprensa na ocasião.

No almoço, Landim e Bolsonaro conversaram sobre a “Lei do Mandante”. Era o que os dois precisavam. Para Bolsonaro, era a forma perfeita para fustigar a TV Globo e atacar diretamente seu alvo permanente no bolso. E para Landim, o passaporte que precisava para ganhar o mandatário e alçar seus vôos particulares. Usando o Flamengo para isso. O tempo acabou mostrando o quão danoso foi para o Flamengo, mas é isso é adiante.

No dia seguinte já, célere como jamais foi para comprar vacinas, Bolsonaro edita a MP 984/2020, redigida por seu ministro Onyx Lorenzoni. A celeridade ocorreu ainda porque a alteração era simples: bastou acrescentar a palavra “mandante” ao trecho da Lei Pelé que trata sobre os detentores dos direitos de transmissão das partidas. Uma simples palavra que atingia em cheio a TV Globo e ao mesmo tempo credenciava Landim como um homem de confiança de Bolsonaro.

Paralelo ao favor em que usava o Flamengo sem pensar no cenário de perdas futuras, Landim prestava outro favor: botava lenha no fogo de Bolsonaro que ardia um país menosprezando a ciência e causando vítimas: aderia a campanha do ex-presidente a reabrir os estádios. E usava o jogador mais forte possível da mesa: o Flamengo.

A MP chegou a caducar, voltou em forma do projeto de lei PL 2.336/2021 no ano seguinte que, com menos de um mês de transitação, foi aprovado em 24 de agosto de 2021. No mês seguinte, Bolsonaro demonstrou sua gratidão e passou a falar aos próximos e deixar vazar a ideia de ter Landim como vice na eleição de 2022.

O pagamento e mais um passo da relação veio antes. No início de março de 2022, Bolsonaro expressou que pretendia tirar o general Joaquim Silva e Luna da presidência da Petrobras. O plano tinha data: com 51% dos votos do governo, na assembleia de acionistas marcada para 13 de abril seguinte, Bolsonaro tirava o general e botava Landim.

Em razão da pressão e de Landim ainda ter mandato no Flamengo, a ideia de presidência migrou para outro posto estratégico na estatal: em 28 de março, Bolsonaro indicou o nome de Landim para diretor-geral do Conselho de Administração da Petrobras (além de Adriano Pires para a presidência).

O RELATÓRIO DA PETROBRAS SOBRE LANDIM

O que veio em seguida vale sua atenção. E é assustador, caso não lembre ou na ocasião não tenha ficado sabendo:

Todo candidato ao conselho tem que passar por crivo sobre sua folha corrida. E aí a indicação de Landim desandou.

O relatório da “Diretoria de Governança e Conformidade da Petrobras” sobre Landim, entregue ao ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, assim foi descrito, em definição vazada na ocasião: “Assustador”. Até mesmo para técnicos da Corregedoria Geral da União, acostumados com sustos de prontuários.

De acordo com reportagem publicada no Globo na ocasião, o relatório mostrou que Landim recebeu em suas contas na Suíça depósitos de “contas de passagem” usadas para mandar recursos a Renato Duque e Pedro Barusco, executivos da Petrobras envolvidos no episódio que ficou conhecido como “Petrolão”.

E constatava, de acordo com o relatório, que Landim teria então uma série de processos e acusações pendentes na Justiça que atestariam sua relação com o empresário Carlos Suarez, sócio de distribuidoras de gás, em evidente conflito de interesse caso assumisse na Petrobras.

Relatava ainda que, de sua conta, Landim enviara US$ 643 mil para uma conta de Suarez, também na Suíça, em maio de 2021.

Os documentos sobre essas contas estão no processo movido pelo Ministério Público Federal contra Landim por fraude e desvio de recursos do fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, a Petros.

A quebra de sigilo das contas de Landim para apurar se as movimentações na Suíça chegou a ser pedida, mas escapou por uma liminar do desembargador Ney Bello, do Tribunal Regional Federal de Brasília, que cancelou o pedido de cooperação internacional entre Brasil e Suíça e suspendeu o processo.

Diante da certeza de que seria veementemente gongado na indicação de Bolsonaro, Landim recuou. E até para recuar usou o Flamengo, afirmando, depois de nos bastidores aceitar a indicação, que não poderia porque teria que se dedicar ao clube.

A ampla relação com Bolsonaro e a utilização do Flamengo para tal e alcançar os objetivos pessoais, por fim, como se sabe, resultou no contrato assinado pelo Flamengo com a Libra. Aprovado pelo conselho do clube recentemente. E, como também se sabe, tendo como origem a Lei do Mandante urdida à surdina, à socapa, à sorrelfa, na calada da noite, por Bolsonaro e Landim, cada qual com seu interesse, menos os de um país e de um clube. E que agora custa caro e causa prejuízos para o clube.

Ao longo de sua história, o Flamengo foi apropriado indevidamente para interesses próprios muitas vezes. Em todas o fim foi danoso. O espetacular êxito e superávits atuais não transformam menos danosos tais ultilizações.

Mas acima de tudo, apontam para um único caminho: o Landim que tem agora como pensamento único vender o Flamengo e usa um estádio como cortina de fumaça, é o mesmo da Lei do Mandante assinada à pequena com Bolsonaro, é o mesmo que fez do clube caminho para indicação na Petrobras, é o mesmo do relatório assustador. O pior: com um conselho totalmente aparelhado e aos seus pés. Tradução: ou o além Gávea e gabinetes obscuros atentam para tantos fatos, (tradução para “Além Gávea: o torcedor, o verdadeiramente apaixonado, a massa, o povão, “la gente”, como dizem os argentinos), ou esse mesmo Landim e seus parceiros venderão o clube. 30% e nada mais depois, garantem, se você quiser acreditar. Para investidores respeitáveis, se você quiser acreditar.

O Flamengo é Zico e não algo tão vil. E Zico é tronco poderoso dessa árvore sagrada. Aquele que nos faz e nos permite construir as referências para os que vão chegar. A ancestralidade rubro-negra está e sempre estará em Denir, Gerdau, Dida, Zizinho, Dr Rubis, Leandro, Júnior, Leonidas. E eternamente Zico. Landim e os seus: nunca serão.

Published — 24 April 2024 Sportlight · Jornalismo Investigativo

Documentos revelam métodos de sabotadores profissionais em ataques contra torres de energia

Oito de janeiro de 2023.

Eram 21h30 quando uma torre de energia tombou em Cujubim, Rondônia.

O segundo ataque veio logo depois.

Brasília ainda ardia sob a fúria dos atos golpistas que atacaram Palácio do Planalto, Congresso e Supremo Tribunal Federal quando, 0h13 em ponto, exatas duas horas e quarenta e três minutos depois da primeira, desabou a segunda torre em Medianeira, Paraná. 0h40, num espaço de três horas e dez minutos entre as três, foi ao chão a terceira. Em Rolim de Moura, também Rondônia, a cerca de 380 quilômetros de Cujubim.

O documento da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) que relata os acontecimentos dos ataques as linhas de transmissão de energia do Brasil em janeiro de 2023, obtido pela reportagem através da Lei de Acesso à Informação, é definitivo:

SABOTAGEM E AÇÃO CRIMINOSA

“Sabotagem. Atuação ou tentativa criminosa”. Define como “ações criminosas”. E completa: “não foram registradas condições climáticas adversas que possam ter causado queda das torres”.


No total, entre os primeiros ataques, no dia 8 de janeiro e o dia 31, foram 24 torres avariadas em 14 diferentes locais, espalhados por seis estados: Rondônia (4 locais), Paraná (4), São Paulo (3), Mato Grosso (1), Piaui (1) e Pará (1). Quatro foram ao chão, sendo que 3 em Rondônia e uma no Paraná. As três atacadas em 8 de janeiro ao longo da noite e madrugada, (duas em Rondônia e uma no Paraná) foram ao chão. O laudo de todas define como  sabotagem.

FONTE: ANEEL (Obtido via Lei de Acesso à Informação)

Em todos os casos, ocorreu a repetição sistemática de um conjunto de ações: todos os parafusos da base das torres foram retirados, “ficando a torre sem sustentação, possibilitando a queda”. Além dos parafusos, foram cortados também os cabos de sustentação.

Em resumo: existiu um modus operandi. Um método repetido que uniu todas as ações.

Mais do que isso: uma organização, planejamento e pessoas com treinamento para tal operação realizada de forma sistematizada.

ATOS GOLPISTAS DE BRASÍLIA E TORRES DE ENERGIA ATACADAS: UM SÓ PLANO

Fotos ANEEL (obtidas via Lei de Acesso à Informação)

“É preciso não perder de vista jamais que o caso das torres derrubadas começam no mesmo dia, quase simultaneamente, exatamente horas depois do início dos eventos golpistas de Brasília, ao anoitecer. O que pode ser entendido como parte de um mesmo plano. Dentro desse plano, Brasília já estaria tomada pelos golpistas no executivo, judiciário e legislativo, e problemas em série com a rede de energia trariam de vez o caos ao país. Restaria a decretação da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e o poder transferido para o exército. E o governo estaria entregue. Hoje sabemos que esse era o plano”, resume um servidor envolvido na apuração dos episódios do 8 de janeiro e que pediu para não se identificar.

O histórico anual de ocorrências em torres de energia também afasta a hipótese do acaso. De acordo com a ANEEL, o ano de 2023 representa um recorde. Mais especificamente janeiro de 2023, mês em que as ações se concentraram. Para se ter uma ideia através de termos comparativos, 2019 inteiro fechou com dois registros de vandalismo em torres. Menos do que o 8 de janeiro de 2023.

Esquecido no noticiário sobre a tentativa de golpe de 8 de janeiro, jamais citado como objeto da investigação em curso sobre , sem nenhuma prisão ou operação específica, o episódio dos ataques às torres de energia foram e requerem, no entanto, tanta complexidade ou mais, logística, verbas e expertise do que os próprios eventos de 8 de janeiro ocorridos em Brasília.

Coisa de especialista.

Em relação aos episódios de Brasília, as investigações caminham para uma direção. Em relação aos ataques contra as torres, os caminhos e os relatórios da ANEEL mostram também alto grau de profissionalismo.

OS KIDS PRETOS EM AÇÃO

Em junho de 2022, o repórter Allan de Abreu publicou a reportagem “Os Kids Pretos – O papel da elite de combate do Exército nas maquinações golpistas”, na revista Piaui, onde, pela primeira vez, era citada a participação efetiva de militares da forças especiais, os chamados “kids pretos”, na tentativa de golpe de 8 de janeiro.

Na ocasião, a reportagem mostrou que o nível de organização das ações na capital demandava profissionais capacitados.

E os profissionais no exército capacitados para tal, treinados em operações especiais, eram os kids pretos, círculo de oficiais que formavam o ciclo mais próximo a Jair Bolsonaro.

Os kids pretos são treinados em ações de sabotagem e incentivo à insurgência popular, as chamadas “operações de guerra irregular”.

MODUS OPERANDI: PARAFUSOS DA BASE RETIRADOS E CABOS CORTADOS

As fotos abaixo, todas constantes do relatório da ANEEL sobre os ataques, mostram as distintas sabotagens, como retiradas de parafusos estratégicos na base, corte de cabos também da base e retirada de hastes de sustentação:

Desde o início das investigações sobre os atos golpistas, duas operações especificamente voltadas para a participação e organização dos kids pretos já foram realizadas pela Polícia Federal.

Em 29 de setembro de 2023, a PF realizou mais uma etapa, a 18ª, da “Operação Lesa Pátria”, nome da investigação que apura financiadores, participantes e organizadores dos atos golpistas. A operação foi voltada especificamente para cumprir um mandado de busca e apreensão contra o general da reserva Ridauto Lucio Fernandes, um “kids preto”, que chegou a gravar vídeo da própria participação nos atos golpistas de 8 de janeiro.

 “A nova fase da Lesa Pátria faz parte de uma frente da investigação que busca identificar supostos integrantes das Forças Especiais do Exército, os chamados “kid pretos”, que teriam dado início às invasões às sedes dos Três Poderes”, comunicou então a Polícia Federal.

Já em 8 de fevereiro de 2024, foi deflagrada a “Operação Tempus Veritatis” da Polícia Federal, para apurar os crimes de golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito por membros do governo de Jair Bolsonaro, apontou que integrantes das Forças Especiais do Exército, os chamados “kids pretos”, estiveram envolvidos em um “planejamento minucioso” para impedir a posse de Lula na presidência da República.

De acordo com a PF, “houve planejamento minucioso de kids pretos do exército para a consumação do golpe de estado”. O plano envolveu uma reunião em novembro de 2022 com oficiais especializados em ações contra terrorismo, insurgência e guerrilha. Os “kids pretos” seriam os responsáveis por realizar as prisões de autoridades após a edição de um decreto de intervenção militar. Entre os alvos estaria o ministro do STF, Alexandre de Moraes, que chegou a ser monitorado pelos investigados.

Os detalhes do plano foram relatados em mensagens encontradas no celular do tenente-coronel Mauro Cid, que fechou colaboração premiada com a Polícia Federal.

Arte: ANEEL, obtida via Lei de Acesso à Informação

OUTRO LADO:

A reportagem enviou para a Polícia Federal um pedido oficial de resposta sobre as investigações específicas sobre o ataque às torres, mas não recebeu resposta.

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