
A sessão desta terça-feira (15) do Supremo Tribunal Federal (STF) foi marcada por controvérsias jurídicas, deixou evidente a tensão nos bastidores da Corte e chegou ao fim sem respostas, segundo especialistas em direito ouvidos pelo Valor. A participação dos ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça em uma votação na qual estão implicados foi um dos pontos polêmicos.
Para o advogado criminalista Antonio Gonçalves, pós-doutor em direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), foi uma sessão recheada de "tensões e disputas jurídicas e políticas", que terminou sem a resposta que a sociedade esperava.
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"O que estava em debate era se, em nome da defesa da lisura, da transparência e da publicidade do Supremo Tribunal Federal, teríamos a abertura de investigação contra um de seus membros. Infelizmente, ainda não temos essa resposta", diz, acrescentando que a "credibilidade da Corte" está sendo posta à prova a 20 dias das eleições.
Álvaro Jorge, professor Fundador da FGV Direito Rio, destacou que o desfecho da sessão desta terça-feira não foi suficiente para reduzir a insegurança na sociedade sobre qual o rumo correto sobre o julgamento do caso Master. “Espera-se do Supremo que acabe pacificando os conflitos. E acho que o julgamento foi tudo menos o encaminhamento de uma pacificação”, afirmou.
Marcelo Crespo, coordenador do curso de direito da ESPM e doutor em direito penal pela Universidade de São Paulo (USP), diz que foi o próprio STF que acabou no centro de um julgamento que originalmente era para decidir sobre um relatório da Polícia Federal. "Entre impedimentos, suspeições, acusações de avocação e pedido de vista, o Supremo não apagou o incêndio, e mostrou que o fogo chegou às suas próprias regras de funcionamento", considera.
Crespo afirma que a discussão "virou uma disputa sobre quem pode julgar quem", passando ao largo dos fatos.
"A pergunta já não é apenas se há razões para investigar [ministros]. Antes disso, o STF terá de responder a uma questão muito mais desconfortável: quando os ministros entram no caso, quem julga os julgadores?", diz.
Marcelo Crespo, coordenador do curso de direito da ESPM e doutor em direito penal pela Universidade de São Paulo (USP)
ESPM/Divulgação
A advogada criminalista Camila Motta, do escritório Motta Luiz Advocacia, afirma que as críticas feitas por Flávio Dino e a defesa da observância do rito processual são "absolutamente pertinentes", mas jogam luz sobre os critérios de rigor procedimental adotados pelo Supremo.
"O STF, em diferentes momentos, admitiu soluções processuais excepcionais e uma atuação fortemente monocrática de seus ministros, sendo o inquérito das fake news talvez o exemplo mais evidente dessa flexibilização. Por isso, causa alguma perplexidade que agora se invoque o rito como elemento central e indispensável", diz.
Para Motta, o respeito a regras processuais não pode ser usado conforme conveniências. "A questão é compreender por que, neste caso, o rito passa a assumir tamanha relevância quando, em outras situações igualmente sensíveis, sua flexibilização foi admitida. Se o rito importa, ele deve importar sempre. Caso contrário, o que deveria constituir uma garantia institucional corre o risco de se transformar em argumento de conveniência, acionado apenas quando adequado ao caso concreto."
Parte dos especialistas afirma que Moraes e Mendonça podiam participar da votação porque ela envolvia procedimento, e não mérito. No entanto, o entendimento não é unanimidade. Para Gonçalves, como a análise era sobre uma questão de ordem — se o STF juntará os casos e fará novo sorteio de relator —, os dois ministros poderiam votar. "Ainda não se analisa o mérito, que é a abertura das investigações", diz.
"Ele [Moraes] votou num aparte, antes de lhe ser dada a palavra. Entendo que nem sequer poderia votar", diverge Crespo. A advogada criminalista Maíra Salomi, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV) Direito SP, diz que ficou "a critério" de ambos a participação. "A confusão toda é instalada pelo ineditismo da questão e falta de previsão regimental a respeito."
Advogada criminalista Camila Motta Luiz de Souza, fundadora do escritório Motta Luiz Advocacia
Bruna Veratti/Divulgação
Motta avalia como "equivocada" a participação de Moraes e afirma não identificar neste momento, em relação a Mendonça, "causa jurídica de impedimento que justifique seu afastamento do julgamento". No entanto, para a advogada, seria prudente que Mendonça se abstivesse, "diante da possibilidade de que sua participação venha a suscitar, futuramente, questionamentos sobre a imparcialidade do julgamento ou alegações de impedimento ou suspeição".
Segundo ela, Mendonça não estava "juridicamente impedido", mas poderia ter alegado razões de foro íntimo, "como medida de cautela destinada a preservar a higidez da decisão e evitar controvérsias posteriores".
Decisões controversas
O pedido de vista apresentado por Dino causou estranhamento a Salomi, já que a advogada criminalista não vê "motivos razoáveis" para a decisão, embora exista previsão regimental para ela ser invocada, mesmo na fase de discussão procedimental.
"Esse pedido neste momento me parece despropositado, sobretudo pelas razões apresentadas. Alegar que muitas sessões serão necessárias para apreciar as várias mensagens que seguem sendo reveladas, diante da proximidade das eleições, é fechar os olhos para a gravidade dos fatos", diz Salomi.
Segundo ela, "é certo que se faz necessário observar as leis e o regimento interno, mas o julgamento não pode ser postergado sob pena de aprofundar a crise institucional que o Supremo está vivendo".
O argumento usado por Nunes Marques para se declarar impedido também foi considerado frágil. Na avaliação de Crespo, o fato de o ministro presidir o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não seria, por si só, um motivo justificável para o magistrado não participar do julgamento, embora ele alegue que "o TSE está indo muito bem [como árbitro da campanha] e que o julgamento pode impactar o cenário político-eleitoral".
"Não faz sentido sob a ótica da lei, pois ser presidente do TSE não gera impedimento automático no STF, mas faz total sentido prático, porque o verdadeiro motivo é o conflito de interesses: relatórios da Polícia Federal no 'caso Master" citam mensagens que mencionam o próprio ministro e seu filho, o que o obriga legalmente a se afastar do julgamento por envolvimento pessoal com o objeto da investigação", diz.
Já a suspeição declarada por Dias Toffoli foi considerada algo natural por Antonio Gonçalves, que diz que o ministro "manteve a coerência", porque já vinha se declarando suspeito na Segunda Turma. "Toffoli se declarou suspeito por razão de foro íntimo, razão pela qual não pode votar, porém, está legitimado a participar como ouvinte e pode pedir a palavra se for citado no transcurso da votação", explica o advogado.
Advogado criminalista Antonio Gonçalves, pós-doutor em direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
Divulgação
A sessão terminou sem encaminhar se os casos de Moraes e Mendonça serão julgados em conjunto ou separados. Para Crespo, aglutinar seria um caminho favorável à "defesa política e jurídica" de Moraes.
"Se o plenário agora decidir juntar tudo, muda-se a natureza do julgamento: deixa de ser 'há elementos mínimos para investigar Moraes?' e passa a ser uma espécie de julgamento global da crise. Isso interessa à defesa política e jurídica de Moraes, porque permite deslocar o foco da substância das mensagens para a forma como Mendonça obteve, tratou e divulgou o material. O risco é evidente: uma questão pode contaminar a outra. Eventual irregularidade de Mendonça não torna automaticamente falsas ou imprestáveis todas as informações relativas a Moraes."
Segundo Gonçalves, é possível esperar mais tensão nas próximas sessões sobre os casos de Moraes e Mendonça. "O julgamento da questão de ordem já conferiu o clima jurídico e, principalmente, político que permeia o Supremo Tribunal Federal neste momento. Quando da análise do mérito para a abertura ou não das investigações, a tensão seguirá elevada, com resultado tendente a se repetir ao de hoje, inclusive no tocante a um eventual pedido de vista."
O presidente do STF, Edson Fachin, havia marcado também a sessão para que o plenário analisasse os relatórios e questionamentos envolvendo a conduta do ministro André Mendonça para o dia 23. Porém, segundo a advogada constitucionalista Vera Chemim, com o pedido de vista de Dino, este julgamento deve ser afetado. “É uma questão de ordem, preliminar. Então a menos que eles adotem uma conduta diferente, acredito que afeta o julgamento da abertura de investigação [contra Mendonça].”