Normal view

Lançamento do 9º Concurso de Ensaísmo serrote

Para apresentar a nova edição do prêmio da serrote voltado a autores iniciantes, os editores da revista, Paulo Roberto Pires e Guilherme Freitas, conversaram com as três ganhadoras de 2025, Ava Cruz, Carolina Marcondes e Tom Nóbrega Silva, que tiveram seus textos publicados no número #51.  O evento online foi realizado no dia 23 de junho de 2026.

O post Lançamento do 9º Concurso de Ensaísmo <em>serrote</em> apareceu primeiro em revista serrote.

A machosfera contra as balzacas

Impressionada pelas fardas, armas e adereços dos soldados que marcham por Paris em direção à guerra, a jovem Julie quer porque quer se casar com um coronel de Napoleão. Contra os conselhos do pai, se envolve com um deles, torna-se marquesa, tem uma filha e se descobre amargurada pela vida de obrigações domésticas ao lado de um marido negligente, bobalhão e rústico. Arrependida dos rumos que tomou, se aproxima de um médico inglês até que seu “pudor” impeça a traição e o rapaz morra de frio ao esconder-se, no relento do inverno, para escapar de um flagrante. A morte repentina deixa a heroína ainda mais deprimida; ela se refugia em um castelo no interior da França e promete se resignar ao triste destino da devoção marital – pelo menos até fazer 30 anos e conhecer um diplomata. Consumado, o adultério rende um filho que é incorporado à família oficial, mas o menino acaba morrendo afogado pela irmã mais velha, ciente da traição. Reencenando os suplícios da mãe, a garota foge com um pirata que surge de repente, volta doente alguns anos depois e morre nos braços de Julie, que já passava dos 40. Aos 50, viúva, triste e sem mais esperanças de felicidade, marcada por outras tragédias familiares e tratada com frieza na casa da filha caçula onde mora, a protagonista sofre um ataque cardíaco fatal.

Este é, em resumo, o enredo de A mulher de trinta anos, “sem contestação, o livro mais famoso de Balzac”, como afirma Paulo Rónai na introdução à edição brasileira do romance publicada em 1948,1 que integra a coleção de A comédia humana coordenada por ele para a editora Globo. Também é consenso que o livro de 1842 está entre os menos bem-acabados dos mais de 90 títulos do escritor – publicada de forma dispersa, em capítulos soltos, a trama sofreria de incongruências em sua versão final. Ainda assim, suas “imperfeições tão evidentes”2 foram eclipsadas pela invenção, espécie de estudo e exaltação de uma figura até então negligenciada pela literatura: a mulher experiente, a mulher de 30 anos. O tipo definido em tom laudatório e quase sempre limitado ao universo das relações amorosas é descrito como aquele em que se agitam “indecisões, terrores, temores, perturbações e tempestades que jamais se encontram no amor de uma mocinha”.3 Ainda pela comparação entre faixas etárias, é numa das passagens mais famosas que Balzac celebra o reconhecimento de qualidades que, ausentes nas jovens, seriam características das mulheres mais experimentadas: “A moça tem apenas uma coqueteria e acredita ter dito tudo quando tirou o vestido; mas a mulher tem inúmeras e esconde-se sob mil véus; por fim, afaga todas as vaidades, e a noviça só lisonjeia uma”.4 Como observam Gabriel Hanotaux e Georges Vicaire numa famosa definição, Julie, a protagonista, “duplicou” para as mulheres a “idade do amor”, uma vez que, antes de Balzac, “todas as namoradas de romance tinham 20 anos”.5

Só o terceiro dos seis capítulos é dedicado aos célebres 30 anos do título, fase em que a protagonista alcança a idade em que há “atrativos irresistíveis para um homem jovem”.6 Nem tão extensa, a passagem ocuparia o imaginário cultural a partir do século 19 e eternizaria o romance em vários níveis. No Brasil, foi apropriado em original união das culturas erudita e popular. Somente por aqui o adjetivo “balzaquiana” designa um tema relativo não tanto ao escritor e mais às mulheres maduras,7 tendo se consolidado no vocabulário brasileiro como uma marchinha de carnaval.8 Composta por Nássara e Wilson Batista, “Balzaquiana” foi sucesso na folia de 1950 pela voz de Jorge Goulart, arrastando multidões que cantavam, enfáticas, seus primeiros versos: “Não quero broto/ Não quero, não quero não!”. “Não sou garoto/ pra viver mais ilusão”, prossegue, “sete dias da semana/ eu preciso ver minha balzaquiana”. E a dupla justificava literariamente a preferência, a princípio pouco usual: “Papai Balzac já dizia/ Paris inteiro repetia/ Balzac tirou na pinta/ Mulher só depois dos 30”. De tão popular, a marchinha ganhou no mesmo ano uma versão de Michel Simon, jornalista francês que foi correspondente no Brasil e levou a balzaquiana tropical à terra de “Papai Balzac” em plena celebração do centenário de sua morte, naquele mesmo 1950.9

Décadas depois daquele Carnaval, a cultura masculinista da internet brasileira voltaria a usar o termo “balzaquiana” em sua corruptela sempre pejorativa: “balzaca”. O nome está entre as dezenas de generalizações, gírias e xingamentos difundidos em ambientes online para promover estereótipos femininos, combater comportamentos considerados nocivos a uma ideia violenta de masculinidade e denunciar um mundo supostamente “ginocêntrico” – ponto de vista a partir do qual as mulheres seriam sempre beneficiadas, sobretudo porque deteriam, como se alega, o “monopólio do sexo”, ou seja, a decisão final sobre quem terá ou não acesso a relações sexuais. Na definição desses grupos, balzaca é a mulher heterossexual que, passada dos 30 e encontrando os primeiros sinais do amadurecimento, percebe um suposto declínio em seu poder de atração e, em presumido desespero, lança-se à procura de qualquer homem medíocre para se associar financeira e emocionalmente, buscando tipos pelos quais jamais se interessaria no auge da juventude e beleza, quando alegadamente só daria chances para indivíduos “de alto valor”.

O termo faz parte de um extenso glossário da “machosfera” nacional, conglomerado de fóruns, blogs, canais, podcasts e coaches que pregam, com diferentes conteúdos e níveis de nitidez, a supremacia masculina, o conservadorismo misógino e o antifeminismo como formas de liberação intelectual numa cultura que consideram dominada pelo progressismo feminino. Como grande parte dos conceitos da chamada alt-right, ou nova direita, as ideias espalhadas nesses cantos da internet são copiadas à risca de fontes americanas e têm como mote um suposto despertar intelectual. Em referência ao filme Matrix (1999), acordar para a realidade significa tomar a pílula vermelha, a red pill que, oferecida ao protagonista, é capaz de fazê-lo enxergar as ilusões do mundo onírico à sua volta. O termo red pill tornou-se então sinônimo tanto da filosofia propagada na machosfera quanto dos seus adeptos, de modo que ser “redpillado” significa “ver a realidade como ela é” – um mundo em que, supostamente, homens estão sendo diminuídos e perseguidos de forma sistemática por mulheres, instituições e leis definidas como “misândricas”.10

A atual rede red pill nasceu nos anos 1970, antes da internet e de sua capacidade de aglutinar ódios, quando surgiram nos EUA os primeiros grupos identificados com o Movimento dos Direitos do Homem. Como uma espécie de reação masculina aos coletivos feministas que se formavam na época, esses indivíduos não enxergavam mulheres como inimigas da masculinidade, mas viam o machismo e o patriarcado como estrutura prejudicial a ambos os lados, problema que deveria ser combatido em conjunto.11 Não demorou até que essas iniciativas masculinas sofressem uma divisão ideológica grave e parte importante de tais movimentos começasse a ver no feminismo a razão para uma pretensa crise da masculinidade branca e cisgênero, contra a qual, e cada vez mais, leis e instituições se posicionariam – daí o “direitos” do nome.

Os atuais defensores dos direitos do homem, que congregam os redpillados e tornam o tema uma de suas bandeiras, afirmam que leis beneficiam mulheres em assuntos como guarda dos filhos, pensões, alistamento militar obrigatório e, sobretudo, acusações de violência. Em outras palavras, feminicídio seria um conceito inexistente, e falsas acusações de estupro e assédio superariam em milhares os casos reais. Essas denúncias serviriam, portanto, como uma arma desleal para mulheres interessadas em prejudicar homens específicos, já que seus relatos seriam considerados genuínos de saída, tanto pela lei quanto pela atual sociedade doutrinada por um progressismo ávido de condenação prévia ao sexo masculino. Sem surpresas, a diferença salarial entre homens e mulheres, a sub-representação feminina em várias áreas ou os dados reais e alarmantes sobre violência de gênero, entre outros, são assuntos que não costumam fazer parte do repertório nesses ambientes.

Ao menos desde 2012,12 quando começou a despontar com nome e características mais definidas, a comunidade red pill nos EUA envolve uma série de conteúdos conservadores mais amplos, da musculação aos memes, da perseguição online à invasão concreta do Capitólio. Nesse contexto, costuma-se seguir uma lógica definida: “Frustração sexual vira frustração política”.13 No Brasil, no entanto, a red pill se consolidou numa dimensão mais específica: a forma como homens hétero devem lidar com mulheres, principalmente em contextos de conquista sexual e relacionamento. Em outras palavras, conteúdos que prometem “reconectar homens com sua masculinidade”, ensinar “técnicas infalíveis” de sedução e “hackear a mente de uma mulher” são oferecidos no país por autodenominados “mestres da pegação” – os chamados pick-up artists (PUAs). Foram os PUAs que tiveram seu auge nos EUA dos anos 2000 com reality shows e a publicação de “guias de pegação”, como The Game, de Neil Strauss, o mais famoso deles. Nascidas na misoginia e na violência, as chamadas “táticas” difundidas nesses canais ganharam traços de ódio ainda mais nítidos com a posterior conceituação red pill.

Se o livro de Strauss já propagava o negging, ou o ato de diminuir uma mulher para que ela se interesse por você, a comunidade red pill faz o mesmo baseada numa rede sistematizada de conceitos misóginos. É nesse formato específico – uma junção de técnicas PUA, discurso e divulgação típicos dos coaches, além de forte conceituação misógina – que o termo red pill se apresenta no Brasil. É nesse formato, ainda, que homens hétero e receosos de perder seus privilégios formam um tipo de confraria que incentiva o game – ou a “pegação” – como maneira autorreferente de poder, como deixa claro o testemunho de um redpillado: “Antes de participar dessa comunidade, eu tinha medo de falhar diante de mulheres. Agora meu medo é falhar diante de homens.”14

A balzaca é uma das noções mais importantes na versão brasileira da doutrina red pill, concentrando algumas das diretrizes fundamentais desse sistema que tem por base uma junção de psicologia evolutiva e neoliberalismo.15 Dirigindo-se sempre aos chamados machos alfa, os redpillados afirmam que todas as mulheres heterossexuais seguem padrões de comportamento geneticamente imutáveis desde a aurora da humanidade, condutas que podem ser quantificadas e explicadas por variáveis e gráficos, o sexo como uma espécie de ativo econômico, e o chamado “valor sexual de mercado”, índice que definiria a posição de cada um no jogo da sedução. Chegada à fase balzaca depois de ter vivido sem esforço o auge da curtição e beleza, dos 16 aos 28, mulheres se deparariam com a chegada do “inverno” ou “parede”, momento em que esse mesmo “valor sexual” começaria a decair. É justo nesse ponto, em torno dos 30 anos, que o índice masculino entraria numa ascendente – ao cabo de um longo período de musculação, promoções no trabalho, enriquecimento e status crescente – depois de ter amargado, em posição inferiorizada, o momento privilegiado do indicador feminino. As linhas então se inverteriam pela primeira vez, seguindo nessa mesma configuração – mulheres em queda e homens em ascensão –, nos anos que se sucedem às três primeiras décadas de vida.

Esse contexto justificaria a caracterização da balzaca como uma espécie de tia desesperada, confrontada pela primeira vez com o fato de não conseguir mais atrair os mesmos machos alfa de antes. Restariam a elas, então, os “beta”, homens que sempre foram ignorados por mulheres durante a juventude por conta de timidez, eventual excentricidade, forma física fora dos padrões e falta de lábia, bobões desavisados que estariam dispostos a assumir e suprir uma balzaca sem se dar conta de seu decadente arco narrativo. Considerando essa presumida desigualdade, qualquer relacionamento com mulheres acima dos 30 costuma ser execrado pela comunidade red pill, o que na fórmula em inglês recebeu a sigla NMAWOT – never marry a woman over thirty ou “nunca se case com uma mulher acima dos 30”.

Não é difícil encontrar machismo e generalizações problemáticas no romance de Balzac quando o assunto é uma pretensa natureza feminina, seu modo de agir, pensar e, sobretudo, se relacionar com homens. Num trecho dos mais explícitos nesse sentido, o narrador afirma, ao comentar o adultério, que “a santidade das mulheres é inconciliável com os deveres e as liberdades da sociedade” e adverte: “Emancipar as mulheres é corrompê-las”. Sem chegar a defender a “reclusão ordenada outrora à mulher”, também pondera que, dada a inevitabilidade da traição mútua diante de um casamento que “pesa, entedia e cansa”, o confinamento seria a única e extrema maneira de garantir completamente a “salvaguarda da moral doméstica”. A lista de atributos femininos prossegue afirmando que “a devoção é uma virtude de mulher” e defende que as mulheres de 30 anos, “feias”, ficam “lisonjeadas por um amor que as torna belas”.16

Também não é difícil encontrar no romance críticas à condição feminina da época. Como mito fundador da balzaca, A mulher de trinta anos talvez diga mais contra do que a favor da ideologia red pill, sobretudo no que diz respeito ao antifeminismo definidor da machosfera. Apesar de ser um “poço de contradições”, como afirma Eliane Robert Moraes,17 Julie também dá mostras do “mais lúcido feminismo avant la lettre18 ao depor abertamente contra a sujeição feminina e ao fazer monólogos inteiros criticando a instituição do casamento nos moldes em que vivia. O assunto não era novidade na obra de Balzac. Em Fisiologia do casamento, ensaio de 1829, ele já criticava as imposições direcionadas às esposas e analisava as formas de adultério feminino a partir de um ambiente sufocante de autoridade masculina.

Em Julie, no entanto, essas ideias aparecem na voz marcada de uma personagem que, após o casamento e o início das obrigações domésticas como esposa e mãe, “acorda de repente à beira ou no fundo de um abismo”. A princípio demonstra cansaço e se percebe “feia, sofredora e velha”, alguém cujo “rosto, sempre delicado, estava privado das cores róseas que antigamente lhe davam um brilho tão intenso”, mulher que sentia a própria beleza como algo “insuportável” e “inútil”. O reconhecimento da insatisfação evolui o suficiente para que ela perceba o próprio casamento como algo que “amaldiçoava”, e que ela mesma se “desprezava”, chegando a cogitar que “gostaria de estar morta”. Tudo isso enquanto o marido, já experimentado nas escapadas, “dormia sereno a seu lado, sem ser acordado pelas lágrimas quentes que sua mulher deixava cair sobre ele”.19 Antes de completar 30 anos, Julie expressa sua indignação num diálogo com o padre da cidade, no que talvez seja o trecho mais forte do livro:

Somos nós, mulheres, mais maltratadas pela civilização do que seríamos pela natureza. A natureza nos impõe penas físicas que os senhores não abrandaram, e a civilização desenvolveu sentimentos que os senhores enganam incessantemente. A natureza sufoca os seres fracos, os senhores os condenam a viver para entregá-los a uma infelicidade constante. O casamento, instituição sobre a qual se apoia hoje a sociedade, faz-nos sentir, só a nós, todo o seu peso: para o homem a liberdade, para a mulher os deveres. Devemos aos senhores toda a nossa vida, os senhores só nos devem a sua em raros instantes. Por fim, o homem faz uma escolha ali onde nós nos submetemos cegamente. Oh, ao senhor posso dizer tudo! Pois bem, o casamento, tal como se pratica hoje, parece-me ser uma prostituição legal. Daí nasceram meus sofrimentos. Mas só eu, entre as criaturas infelizes tão fatalmente casadas, devo manter o silêncio! Só eu sou autora do mal, pois quis meu casamento.20

Ao classificar o matrimônio como “prostituição legal”21 e, mais à frente, afirmar que “gostaria de fazer a guerra contra esse mundo para renovar suas leis”,22 a balzaquiana original passa longe daquilo que define a balzaca na cabeça redpillada. A diferença não está apenas na consciência e na raiva da protagonista, como também no fato de que, em vez do desespero para se associar a um homem, o desespero de Julie é para se livrar dele e das obrigações surgidas com a união – o que continua a assombrá-la até o fim da vida. Se, ao atingir os 30 anos, ela já se encontra madura o suficiente para que seu “pudor” não mais a impeça de cultivar um caso extraconjungal, como ocorrera aos 20, é porque só nessa idade “uma mulher pode conhecer os recursos dessa situação”23 – ou seja, é quando a amargura se funde ao escárnio e à descrença total, ainda que estes não sejam suficientes para uma eventual separação definitiva. Ter um amante não salva ou culpabiliza Julie, mas, ao contrário, parece deixar ainda mais evidente a situação inescapável em que ela se encontra como esposa e mãe, o que só se agrava com o correr dos anos.

Não se tem notícia de usos red pill para A mulher de trinta anos como inspiração direta. O livro não aparece como repositório de suas teorias sobre mulheres em geral, ou da balzaca em específico, mas é fácil imaginar essa apropriação, e não seria a primeira vez que algo parecido acontece. Redpillados não raramente reivindicam Ars amatoria, o clássico de Ovídio, como o primeiro “manual de pegação” do mundo – a referência serve como lastro a suas pílulas de conhecimento.24 O mesmo acontece no grande malabarismo feito com a filosofia estoica, usada nesses contextos para afirmar uma suposta superioridade emocional masculina, fria porque sempre equilibrada.25 No caso do famoso romance de Balzac, não é preciso muita imaginação – e tampouco honestidade intelectual – para insinuar que Julie reafirma o difundido estereótipo da mulher interesseira que trai, mas não se separa, porque tem no marido a segurança financeira e social.

O horror redpillado às balzacas se estende ainda a diversos outros estereótipos femininos identificados por termos igualmente pejorativos, como as mulheres com vários ex-parceiros, as mães solo e, é claro, as progressistas em geral. Era previsível que tanto ódio direcionado pela frustração sexual fosse redirecionado, por parte desses homens que se dizem desiludidos, aos próprios coaches red pill que promovem táticas de sedução, gerando um movimento de perseguição interna e mais subdivisões no campo masculinista. A lógica, nesse argumento, é que, ao elegê-las como objetivo final, essa retórica ainda confere importância às mulheres, mesmo que o faça ao diminuí-las, num jogo que condenaria homens a uma eterna e humilhante perseguição amorosa. Não é de estranhar, no limite, que do interesse inicial em táticas de sedução e misoginias variadas, a lógica passe então para uma outra espécie de ódio, que cultiva o horror absoluto e a violência contra mulheres em geral, o que se define pela frase “se não posso tê-las, vou destruí-las”.26 O tal “despertar para a realidade” da pílula vermelha mostra-se então em seus contornos mais brutais.

Ao fim de A mulher de trinta anos e em tom de denúncia, é inegável que os vencedores não são os redpillados, é claro, mas as estruturas que defendem. Não só Julie acaba sendo “a desilusão em pessoa”27 – tanto quanto convém à definição de balzaca –, como também se culpa por seu destino. O afeto pelos filhos, já morno, esfria ainda mais na relação com os netos. É frequente lembrar do pai, contrário ao casamento, e demonstrar “sofrimentos permanentemente recalcados” que, segundo o narrador, imprimiam a ela “um não sei quê de mórbido”. Não há resquícios da alegria e felicidade presentes na moça que, na primeira cena do livro, corre para o desfile militar, supondo felicidade ilimitada no matrimônio e na maternidade. Sem ser nem “mãe nem esposa”, resta-lhe a vergonha de si e o desgosto de ver repetidas suas angústias juvenis na vida da filha que lhe sobrou. Como diz o autor, Julie “devia sempre sofrer por não ser o que poderia ter sido”,28 condenada a um eterno “e se?” apontando para uma vida em que juventude, beleza e ilusões amorosas seriam aspectos pouco importantes diante da própria liberdade. Mas já é tarde demais, e não há mais tempo para nada além de morrer de desgosto. Não há mais tempo para uma eventual satisfação trazida pela maturidade – experiência, coqueterias ou outras nuances “que jamais se encontram no amor de uma mocinha”.29 Sem mais tempo para ser balzaquiana, balzaca ou qualquer outro estereótipo feminino, mas apenas uma mulher em pedaços.

O post A machosfera contra as balzacas apareceu primeiro em revista serrote.

O que querem os haters?

Dizem que sou a mulher mais odiada da internet no Brasil. Não acredito muito, porque isso seria me dar importância demais. Em março deste ano, quando fui ministrar uma palestra na Universidade de Brasília e destacaram 30 seguranças para me proteger (comboio de três carros para me levar de um campus ao outro, rota de fuga, policiais à paisana), um deles me disse que haviam dispensado o mesmo esquema ao Lula e ao dalai-lama quando eles visitaram a UnB. Respondi que nesses casos eu entendia o motivo de tal aparato, mas para mim, que sou apenas uma blogueira e professora universitária? Não faz nenhum sentido. Mas tampouco o ódio faz sentido.

Recentemente uma repórter de uma emissora de TV veio em casa me entrevistar sem saber nada a meu respeito, e sua primeira pergunta foi: “O que você fez para ser tão odiada?”. Eu disse que não gostei muito da pergunta, porque me põe como responsável pelos insultos, ataques e ameaças que recebo quase diariamente. Não tenho haters na “vida real”. Na internet, porém, eles abundam, ainda que eu não seja nenhuma celebridade.

Assim que comecei o Escreva Lola Escreva, em janeiro de 2008 – em pouco tempo ele se tornou o maior blog feminista do Brasil –, os trolls apareceram. Não creio que no início fossem haters. Qual a diferença? Um hater é alguém que odeia você, desvaloriza você, nega suas conquistas e torce pelo seu fracasso. Elise Moreau diz que a própria palavra é um acrônimo, que significa “having anger toward everyone reaching success”, ou “sentir raiva de todo mundo que tem sucesso”.1 Já o troll quer a destruição total e geral, ver o circo pegar fogo, gerar lulz (risadas), “causar”. O troll é aquele que deixa um comentário asqueroso e fica espiando o estrago. Ele não necessariamente odeia você. E um hater nem sempre quer escândalo. Mas, muitas vezes, os termos para essas pragas on-line são usados sem tanta distinção. Confesso que não penso se quem está me atacando é troll ou hater. Às vezes os descrevo como “meus inimiguinhos”. Mas até isso eles me negam. Dizem: “Inimigos? Quem você pensa que é? Uma super-heroína?”. Não, mas não posso chamar de inimigo alguém que me desafia a mostrar ao meu marido um comentário tentando convencê-lo a me matar?

Meus trolls e haters sempre tiveram o mesmo perfil: são homens brancos e heterossexuais (embora eu tenha alguns haters gays também) de extrema direita que não são apenas misóginos, mas também racistas, lgbtfóbicos, gordofóbicos, enfim, um combo de preconceito. Imagino que não sejam diferentes dos trolls que infestam os canais de outras ativistas. No início do meu blog eles não eram muitos. Tanto que minha caixa de comentários conseguiu aguentar mais de quatro anos sem moderação. Mas com o tempo eles foram se tornando cada vez mais numerosos e insuportáveis.

O que fiz – se é que fiz alguma coisa, como quis saber a repórter – foi descobrir ainda em 2008 um nível de misoginia que eu desconhecia fora da internet. Sem querer, descobri que nos Estados Unidos existem grupos de homens autointitulados Men’s Rights Activists [Ativistas pelos direitos dos homens], ou MRAS, que acreditam que vivemos em um matriarcado e que a verdadeira vítima do mundo moderno é o homem branco e hétero. Não é preciso gastar mais do que cinco minutos em qualquer fórum deles para constatar que não lutam por direito algum, a não ser o direito de atacar, oprimir e tentar silenciar mulheres em geral e feministas em particular. No Brasil – só descobri dois anos depois – eles se chamavam masculinistas.

Meu primeiro contato indireto com masculinistas foi em outubro de 2008, quando uma comunidade no Orkut intitulada Suprema Ordem dos Homens de Bem chamou atenção ao comemorar o assassinato de Eloá, uma menina de 15 anos morta pelo ex-namorado depois de 100 horas de cárcere privado transmitido ao vivo de São Paulo para todo o país. Eu não podia acreditar que havia rapazes saudando o assassino como herói por ele ter eliminado uma “vadia mirim”.

Apenas no início de 2011 escrevi o primeiro post sobre masculinistas, descrevendo sua ideologia: acreditar que todas as mulheres lhes devem vagas de emprego, lugar nas universidades e sexo. Esse post gerou tantos comentários absurdos que selecionei as pérolas para fazer um segundo post. Foi a primeira vez que usei o termo “mascu”, que, a meu ver, é somente uma abreviação de masculinista. Mas o termo pegou e praticamente acabou com o masculinismo no Brasil (pelo menos no nome), já que nenhum deles queria ser tachado de mascu.

Meu bom humor durou pouco. Em 7 de abril de 2011, um rapaz problemático de 23 anos, Wellington Menezes, entrou na escola estadual no Rio onde havia estudado anos antes e matou dez meninas e dois meninos, todos alunos, no que ficou conhecido como o massacre de Realengo. Pelo vocabulário que usava e pelo fato de ter atirado nas meninas para matar e nos meninos para ferir, Wellington era um mascu. No dia seguinte ao da chacina, vários blogs e fóruns mascus foram tirados do ar, por medo da polícia. O mais popular era o de Silvio Koerich (um pseudônimo). Um semestre depois, esse blog foi reaberto com conteúdo ainda mais extremista, pregando a legalização do estupro e da pedofilia, o estupro corretivo para lésbicas e o assassinato de negros e mulheres. Ele também prometia um massacre na UnB e oferecia recompensas a quem liquidasse seus alvos preferidos: o então deputado federal Jean Wyllys e eu.

Finalmente, depois de oito meses e 70 mil denúncias na SaferNet (ONG que lida com ódio cibernético), os dois principais autores do blog, Marcelo Valle Silveira Mello e Emerson Eduardo Rodrigues, foram presos pela Operação Intolerância e condenados a mais de seis anos de cadeia. Mas eles saíram um ano e três meses depois, em maio de 2013, e voltaram a fazer exatamente o que faziam antes, especialmente Marcelo. Ele estava tão revoltado que conseguiu a façanha de ser expulso de chans (fóruns anônimos tão misóginos que tratam mulheres por “depósitos de porra”) e fundou um fórum próprio, o Dogolachan. Como eu, que não sou frequentadora de chans, fiquei sabendo? Porque Marcelo fez questão de me enviar o link. Assim eu poderia acompanhar as ameaças de morte e estupro que me eram dirigidas diariamente. Registrei 11 boletins de ocorrência.

O que queria Marcelo, meu hater número um? Queria vingança, pois me via como a principal responsável pela sua prisão. Queria incomodar, por isso me processou duas vezes (depois abandonou as ações) e mandava sua gangue ligar para a minha casa. Queria me calar, queria que eu tivesse medo. Queria que eu desenvolvesse alguma doença e morresse. Queria matar meu marido para que eu me sentisse culpada. Queria que meu marido me deixasse. Quando, em outubro de 2015, Marcelo criou um site falso em meu nome, defendendo castração, infanticídio e aborto de meninos, seu objetivo confesso era de que eu fosse linchada na rua. Queria me matar. Negociou com um ex-policial em Curitiba a minha morte (fazendo parecer um latrocínio) por 80 mil reais. Queria que eu perdesse meu emprego de professora, por isso mandou que um dos membros da quadrilha enviasse ao reitor da UFC uma ameaça no final de 2016 – ou ele me exonerava, ou passaria uma semana recolhendo pedaços de 300 cadáveres resultantes de um atentado com bomba.

Depois de cinco anos de ódio ininterrupto, Marcelo foi preso novamente, em maio de 2018, pela Operação Bravata. Em dezembro, foi condenado a 41 anos de prisão. No entanto, o Dogolachan segue funcionando, agora na deep web (o massacre de Suzano, em 13 de março de 2019, foi anunciado e muito comemorado lá), e as ameaças nunca pararam de chegar. Esta é de 30 de julho de 2019, deixada no meu blog: “Só um recadinho: sua cabeça já foi leiloada. E o hitman que vai ter a oportunidade de arrancar sua cabeça já está pago. Não é promessa, é aviso.”

O que quer um hater desses? Me amedrontar. Ele já devia ter entendido, depois de oito anos de ameaças, que isso não funciona comigo. Talvez este gigantesco comentário anônimo deixado no meu blog no fim de junho ilustre o que se passa na mente de um hater:

Lola, você destruiu minha vida. E obrigado por isso. Conheci seu blog em meados de 2011. Eu tinha um emprego que me dava uma boa grana, uma linda namorada e estava começando o curso de direito. Foi um pouco depois do meu aniversário que me foi apresentado seu blog, me lembro que foi no Orkut. A minha primeira reação pro primeiro post seu que li: QUE MERDA ESSA GORDA PUTA ESTÁ DIZENDO? Não me lembro qual foi o post, mas dizia algumas asneiras das quais tenho nojo de lembrar. Eu fechei o navegador na hora. Fiquei um ano ou menos sem ter notícias suas. Então no início de 2012 eu me deparo com um tópico onde usuários de um fórum anônimo te xingavam de “porca” e “jabba”. Procuro pelo nome do blog que estava no tópico e, pra minha infelicidade, era a mesma bosta que eu tinha me deparado alguns meses antes. Decidi ler mais textos seus, e o meu ódio e nojo foi florescendo. Não dava mais pra parar, Lola: nesse ponto da minha vida, você já era a pessoa que eu mais odiava. E lá se foram três anos entrando todos os dias em seu maldito blog e me espantando todas as vezes. Eu já odiava feministas e esquerdistas antes de conhecer seu blog, mas a coisa aumentou em mais de 2000 FUCKING VEZES depois de ter te conhecido. Foram muitas ofensas à sua pessoa, eu debatia em fóruns (e também em comunidades do finado Orkut) e via o quanto de gente te odiava também. Mas comigo era diferente, pois eu AMAVA te odiar. Eu sentia prazer em te odiar, te xingar e imaginar a sua reação ao ler minha mensagem. Desenvolvi uma tara por isso. Cá estamos, Lola. Em 2019. Eu já conheço seu Twitter e agora seu canal [no YouTube]. Agora também gosto de imaginar o Silvinho [meu marido] sofrendo, e sua mãe também. E suas seguidoras. Você destruiu minha vida, Lola, me transformou em alguém que eu jamais imaginaria ser oito anos atrás. Meu emprego? Fui demitido, e agora estou recebendo 5x menos do que antes. Tranquei a faculdade por não aguentar conviver mais com lacradoras e feministas. Eu sempre via suas seguidoras nos colegas de classe. Minha namorada? A vadia se mostrou petralha, e mais tarde feminazi. Suspeito que ela tinha contato com tanto lixo através de seu blog. Terminei na hora, claro, afinal não achei meu pau no lixo. Lola, você é responsável por isso. Mas quer saber? Eu realmente me sinto melhor agora, eu me sinto mais disposto do que nunca. Descobri um novo hobbie [sic]: te fazer sofrer. Seu sofrimento me motiva e eu sinceramente não gostaria de ser “curado” desses meus sentimentos. Eu não sou exatamente quem eu era, eu me redescobri, graças a você, Lola, graças ao ódio que eu sinto por você. Seu ódio me libertou, Lola, e eu te agradeço por isso. Eu te odeio, Lola, e eu amo te odiar.

Nenhum fã meu será tão fiel quanto esse hater. Ele vive para mim. Num mundo em que reina a modernidade líquida,2 em que as relações passam a ser tão pouco duradouras, um hater é quase garantia de um longo relacionamento. O comentário desse hater fala muito pouco sobre mim – em momento algum ele descreve o que escrevi que o deixou tão indignado –, mas fala tudo sobre ele. Ele ama me ver sofrer. No entanto, para isso ele precisa acreditar com todas as forças que eu sofro, que suas palavras me causam algum tipo de sofrimento. Essa é uma fantasia constante dos haters. Acham que, depois de ler suas ofensas e ameaças, irei me retirar para “chorar em posição fetal”. Um hater, não sei se o mesmo do comentário gigante, já que são quase todos anônimos, reclamou que, em entrevistas, sempre digo que o ódio não me afeta. Durmo bem à noite, obrigada, e só chorei uma vez com algo relacionado à internet nesses quase 12 anos de blog: quando o site de ódio que Marcelo fez em meu nome viralizou. Minha tristeza foi pelo fato de que, apesar de dedicar tanto tempo ao meu blog, em uma semana um blog horrível conseguiu ter mais tráfego que o meu. Claro que, para viralizar, o site falso precisou da ajudinha de reaças mais importantes, como Olavo de Carvalho e Roger, da banda Ultraje a Rigor. Eles divulgaram o site falso em meu nome sabendo que não era meu.

Para o hater eu estou mentindo, e é óbvio que um ser abjeto que eu nunca vi, com quem nunca falei nem quero falar destruiu a minha vida. Esse é um dos motivos pelos quais nunca processei ninguém. Eu poderia ter processado Roger, por exemplo. Ele é um dos meus haters e já me atacou diversas vezes. Porém, para pedir indenização por danos morais você precisa provar que aquele ódio o afetou. Algo como você ter desenvolvido depressão ou insônia, com um laudo médico para comprovar. No meu caso, o que eu alegaria? Que Roger ter divulgado um site de ódio em meu nome me fez chorar por alguns minutos? A repercussão desse episódio rendeu um Profissão Repórter sobre mim, inúmeras entrevistas, uma indicação ao prêmio Coragem, dos Repórteres sem Fronteiras, e, mais importante, a criação e eventual aprovação da lei n. 13.642/18, a Lei Lola, que atribui à Polícia Federal a responsabilidade de investigar crimes contra as mulheres na internet. Pela primeira vez, a legislação brasileira tem uma lei que conta com o termo “misoginia”.

O ódio não me afeta porque, por um lado, não é tão pessoal. Os haters não me odeiam por eu ser a Lola. Eles mal me conhecem. Eles me odeiam por eu ser feminista. Alguns por eu ser mulher. Outros por eu ser gorda. Muitos por eu ser de esquerda. Para alguns haters, a coisa fica mais pessoal. Eles já me odiavam por eu ser feminista, e eles já têm tudo decifrado na cabeça sobre o que é ser feminista. São mulheres que querem ser homens. Que têm inveja dos homens. Que odeiam todos os homens (ninguém disse que não seria contraditório). Que matam seus filhos, se divorciam dos maridos e viram lésbicas. Que são bruxas. Que sempre foram lésbicas. Que são mal-amadas. Que são ogras peludas. Não espere grande originalidade daqueles que odeiam mulheres que lutam – seus antepassados falavam exatamente a mesma coisa sobre as sufragistas.

Ou seja, os haters querem um viés de confirmação – buscam informação, mesmo falsa, que valide aquilo em que eles já acreditam. E comigo eles não encontram, já que não odeio nem tenho inveja dos homens. Sou casada com um há 29 anos e tenho muitos amigos e leitores homens. Esse é outro problema para os haters. Para eles, uma mulher gorda não merece ser amada ou desejada (nem sequer estuprada). Então é seguro dizer que eles têm uma enorme obsessão pelo meu marido. Durante anos, juravam que ele não existia (as fotos com ele que eu colocava no meu blog seriam montagem, ou ele seria um ator contratado). Quando se convenceram de que ele é real, passaram a ameaçá-lo de morte. Preferia quando achavam que ele não existia.

Sigo com minha vida. No fundo, sei que muitos haters fantasiam algum tipo de relacionamento comigo, e se eu lhes desse alguma migalha de atenção talvez eles virassem meus fãs. Mas não quero falar com eles. Nem vou me rebaixar ao nível deles e passar a odiá-los. Porque, ao contrário do que muita gente pensa, o oposto de ódio não é amor – é indiferença. E isso eu tenho de sobra para lhes dar.

O post O que querem os haters? apareceu primeiro em revista serrote.

Com amor, Isilda

PRÓLOGO

 

É Natal de 1985. […]

Este ano talvez tenha sido o mais difícil e ao mesmo tempo o mais importante de todos os 30 outros que vivi. […]

Eu me dei de presente a minha vida. Eu me dei de presente a minha importância. […]

Talvez eu não me sinta assim no próximo Natal, talvez eu nem esteja viva no próximo Natal, mas estes 365 dias que estão terminando foram muito bons. […] 

Sinto-me leve, segura e eu sei que nem todos que me rodeiam gostam desta nova pessoa, que não é tão nova assim, estava apenas adormecida.

Valeu a pena viver em 1985. Valeu a pena tudo o que me aconteceu em 1985.

 Obrigada, Senhor, pela minha vida, pelos altos e baixos, pelo amor, pela saúde, pelo alimento, pela vida.

Esse foi o último texto escrito no diário de Isilda Sueli Dias Silvério. Em 12 de abril de 1986, 108 dias depois, a foto dela estava publicada na última página do Caderno B do Diário do Grande ABC. Do lado esquerdo, uma foto do seu marido, Valdir Aparecido Silvério; do direito, o revólver usado para assassiná-la enquanto dormia, e para cometer suicídio em seguida.

“O advogado deixou uma carta explicando as razões de seu ato. O irmão de Valdir disse na polícia que ele havia lhe telefonado horas antes, dizendo que surpreendera a mulher com outro homem”, diz a reportagem já no primeiro parágrafo.

Ninguém da família dela foi ouvido, e essa foi a versão que ficou: a do algoz. O que a reportagem não mostrou é que Valdir era ciumento e controlador, e questionava o amor e a fidelidade dela antes mesmo do casamento.

No final do texto, há a informação de que a polícia apreendeu os diários de Valdir, escritos desde o início da década de 1980. Mas Isilda também manteve diários, até hoje guardados pelo filho mais novo do casal.

Esta não é uma história imparcial: é a história de uma mulher morta aos 31 anos por alguém que ela amava, alguém em quem ela confiava. Vítima de feminicídio quando o termo nem sequer existia.

Esta história é baseada exclusivamente no que ela escrevia em seus diários. Os dois filhos dela, que em abril de 1986 se tornaram meus irmãos, me emprestaram os cadernos, e assim pude conhecê-la melhor, entender como ela era e como via o casamento que a matou.

Em abril de 2026, a morte dela completa 40 anos. Nessas décadas, seus filhos cresceram e se tornaram pais. Minha avó faleceu em 2013, e minha outra tia partiu em abril de 2025, também cedo, mas ela pôde, ao menos, ver as filhas crescerem.

Esta é a história da tia Isilda. Para que ela nunca seja esquecida.

 

1

29 de junho de 1973: Uma garota (eu), sem objetivos para viver, estava trabalhando, quando em seu local de trabalho entrou um rapaz […], não gostei da pasta que carregava, não gostei da roupa que vestia, não gostei do modo de pentear o cabelo, não gostei de vê-lo com os fios da barba aparecendo; mas gostei de seus olhos, seu jeito de falar e reparei até numa pintinha que ele traz na face esquerda. […]

E, naquele aperto de mão, que foi correspondido, naquele olhar, senti que, provavelmente, algo mudaria em minha vida.

Isilda foi a primeira de três filhos de Benedita de Andrade Dias e Martin Dias. Era irmã de Marco Antonio (meu pai) e Deise. A minha avó Beni sempre trabalhou fora, o que não era muito comum na década de 1950. Conheceu meu avô em um trem entre Santo André e São Paulo. Eles sempre foram apaixonados, mas as brigas eram constantes.

O namoro entre Isilda e Valdir começou rápido e foi uma revolução na vida da minha tia. Sempre estudiosa e concentrada no trabalho, ela aprendeu a abrir espaço para o namorado. Para ela, o relacionamento com Valdir era bom porque percebia que “alguém sentia necessidade dela”: “Eu precisava superar uma série de coisas e, [por] ele se interessar por mim, eu sentia que muito em breve eu superaria”.

Isilda depositou sua fé no amor e no futuro nas mãos de Valdir. E a certeza de que estava no caminho certo em novembro de 1973, com a perda do pai.

Novembro de 1973 foi muito marcante em minha vida. Perdi meu pai, um homem maravilhoso. […]

A impressão que ele teve a respeito do Valdir foi das melhores possíveis. Um domingo, quando fomos visitá-lo no hospital, ele praticamente entregou a minha vida nas mãos dele (Val). Disse-lhe que eu merecia ser feliz e que o Val seria responsável por ela. Uma das grandes provas do que Val sentia por mim foi dada quando do falecimento de papai. Quando eu telefonei para ele, avisando-o, ele simplesmente largou tudo o que estava fazendo e veio ao meu encontro. […]

Sempre que eu entrava em depressão, ele me lembrava de que papai confiava muito em mim e eu não podia e não devia desapontá-lo.

Sem o pai, Isilda direcionou todo o seu afeto e suas tentativas de aceitação para Valdir. Ela se mostrava insegura em relação ao amor dele – o irmão de Isilda, Marco, lembra que a irmã sempre se achou feia e tinha baixa autoestima. Ela não acreditava que alguém poderia se apaixonar, querer casar e formar uma família com ela.

No Carnaval de 1974, Isilda e Valdir, acompanhados pela mãe dela, foram a Mongaguá, no litoral de São Paulo. Em uma noite de calor, o casal foi passear na praia.

Nosso relacionamento já estava bastante íntimo. Ele dizia que eu era egoísta. Ainda não tínhamos chegado ao relacionamento total […], mas algo dentro de mim falou mais alto, e eu não cedi.

Em março de 1974, Isilda e a família se mudaram para uma nova casa – onde o que era inevitável aconteceu.

Eu me entreguei a ele. Embora não acreditasse muito no amor dele por mim, […] acreditava no meu por ele e sempre fui da opinião de que, quando a gente ama, tem que deixar a razão um pouco de lado e agir mais com o coração. […] Não me importava saber se ele se casaria ou não comigo, me importava […] que ele era a coisa mais maravilhosa que já acontecera em minha vida.

O próprio Valdir confidenciou que já havia tido relações com uma ex-namorada; Isilda ficou incomodada e com ciúmes, mas jamais questionou o caráter do parceiro por isso.

Ela sabia do risco de engravidar, mas estava tão apaixonada e envolvida que aceitou o perigo: “Eu sabia do risco que corria: alguém nos flagrar, uma gravidez inesperada, mas não me importava”.

Assim, Isilda entregou aos braços da minha avó Beni o seu primeiro neto, Daniel, em setembro de 1975. Ainda em 1974, ao completar 20 anos, ela havia começado a falar sobre um possível casamento com Valdir.

Já disse que eu não exigia nada dele. Creio que nunca o forcei a tomar nenhuma decisão. Mas, intimamente, eu sempre desejei o casamento com ele. Não precisava ser de papel passado, juiz de paz, testemunha etc. Precisava ser ele. Eu precisava que ele estivesse comigo para o resto da vida.

Além disso, a convivência familiar só piorava, o que tornou inevitável a saída de Isilda da casa da mãe e dos irmãos. O casal iniciou os planos de casamento, marcado para março de 1975. Nesse clima familiar desgastante, o matrimônio foi organizado, e Daniel, concebido.

Não tínhamos certeza, ainda, mas eu estava grávida. […] A mim, não importava o que dissessem […] e agora eu tinha um motivo a mais para amá-lo: estava espe-rando um filho dele.

O casamento aconteceu na casa de Isilda, que não se vestiu de noiva. No mesmo dia, ela e Valdir haviam ido juntos ao centro de São Paulo para comprar as alianças e as passagens de ônibus para a lua de mel. No Rio, “é claro!”. Além de todo o carinho e amor com que se refere ao bebê antes do nascimento, que aconteceria em setembro, minha tia também tem certeza sobre sua importância: “Vai nos ajudar muito”.

Sempre que houver alguma coisa ameaçando o nosso casamento, lembrar-nos-emos de que ele existe porque nós, quando o fizemos, tínhamos muito amor no coração. […] Sei que a gente não deve dizer que algo será para sempre; mas, eu digo. eu sei que vou amar esse cara, meu marido, sempre.

Em certo momento, minha tia desabafa:

Ele [Daniel] se parece muito com o pai, essa é a principal prova que consegui dar a ele de que a criança é filha dele. De que eu sou, fui e serei só dele. Ele não acredita, mas eu não imagino qual seja o tipo de prova que ele quer que eu dê. Acho que eu já lhe dei todas as provas que uma mulher pode dar.

No final de 1975, Valdir já sentia ciúmes de Isilda, que fazia promessas de amor, carinho e apoio eternos a Daniel.

Não tema, filhinho, nada nem ninguém vai tirar você de nós.

 

2

Em 1977, o divórcio passou a ser autorizado no Brasil, mas isso não era uma questão para Isilda, que constantemente se compadecia da situação do mundo, das guerras e da miséria. Ela conta que Daniel está crescendo, enquanto aumentam as exaltações ao seu casamento.

Nosso relacionamento é quase perfeito. Existem algumas falhas de ambas as partes, mas aos poucos vamos sabendo superar. […]

Acredito sinceramente, que emocionalmente, estou atravessando uma de minhas melhores fases. Sinto-me muito bem. Sinto-me realizada.

Isilda volta a trabalhar pouco tempo depois do nascimento de Daniel – a duração da licença-maternidade era de apenas três meses. Quando ele completa um ano, sua mãe pede-lhe desculpas pelo tempo que ela passa fora de casa, trabalhando, “mas é muito importante que assim seja”.

A partir do momento em que relembra os cinco anos do dia em que ela e Valdir se conheceram, o diário de Isilda se torna um relato da montanha-russa em que se transforma seu casamento. A mudança para a nova casa, própria, realizada em novembro de 1978, é motivo de alegria. Ela imagina a propriedade como uma fortaleza.

Em breve estaremos cercados por uma muralha […] e conseguiremos finalmente ser nós mesmos.

Em 1978, meus pais já eram casados. Metalúrgico, ele foi transferido de São Bernardo do Campo para Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, onde vivia minha mãe, então recepcionista e depois auxiliar de enfermagem. Após o casamento, eles foram para Santo André, onde moraram até o início de 1981, quando eu estava prestes a nascer. No final de 1979, meus pais adotaram o meu irmão Samuel, recém-nascido.

Nos momentos de paz com o marido, Isilda constantemente mostrava preocupação com o mundo em que Daniel crescia, pensando, inclusive, se valeria a pena ter mais um filho em um mundo tão cruel.

Não sei se terei coragem de ter outro filho. Porque, embora fruto do mesmo amor, tenho muito medo do mundo […] que está reservado para o nosso Danny. E isto é terrível. […]

Hoje ele [Daniel] me pediu uma irmãzinha, eu disse que ia pensar. […] Agora, cá entre nós, eu continuo tendo medo de pôr outro filho neste mundo, que está a cada dia mais feio e cruel.

Após essa fase, em que tudo parece estar bem, Isilda começa a se sentir culpada. Ela mesmo se define como “várias”: esposa, mãe, profissional, filha, dona de casa; e parece estar sendo cobrada a executar tudo com perfeição.

No início de 1979, ao completar quatro anos de casamento, minha tia repete algumas coisas ao homem que ela ama.

Você continua sendo o acontecimento mais importante em minha vida. Apesar das queixas que você sabe que tenho de você, do seu jeito de ser, não consigo deixar de amar você, nem por um instante sequer. […]

Creio que nós estamos precisando conversar. Não pense que estou me queixando. Mas acontece que ultimamente nós não temos conversado tanto quanto antes. E isso me faz muita falta.

Quando me falava sobre a tia Isilda, minha avó Beni costumava mencionar que ela gostava de organização, beirava o perfeccionismo. Nessa época, ela celebra que, em seu trabalho, tudo parece estar em ordem, mas o mesmo não acontece em casa. “Na minha casa está sendo um pouco difícil, porque não tenho contado com a sua colaboração. E você sabe ao que me refiro”, ela diz, citando problemas relacionados a roupas jogadas pela casa. Tristemente, reconhece que se trata de uma batalha perdida e cita o argumento do marido de que é cansativo demais trabalhar e estudar ao mesmo tempo.

Mas e você, reconhece que eu me canso? Veja bem, eu não estudo, mas, além de trabalhar fora, o que eu trabalho na nossa casa, principalmente nos finais de semana, não é normal. Bem, deixa isso pra lá, senão você vai dizer que eu quero uma empregada. Não, agora não.

No final da década de 1970, Isilda já sabia que sua dupla jornada de trabalho era injusta, mas não motivo de discussão: a responsabilidade pela ordem da casa e pelos filhos é da mãe. E isso nem faz tanto tempo assim.

Na primeira infância de Daniel, fica claro que Isilda não está mais segura de que o casamento com Valdir é perfeito e de que será eterno. Os primeiros anos de convivência já se foram, mas o que Isilda ama é aquela máscara de Valdir. Ela não entende que o homem encantador, que a fez se sentir tão amada, desejada e apoiada, não exista mais. Porque ele volta, sempre, mas quando lhe convém.

Além do cansaço pelas múltiplas funções, ela também demonstrava muita culpa por não ficar com o filho pelo tempo que gostaria – Valdir entendia cada vez mais isso e usava esse sentimento a seu favor. Constantemente, ele saía de casa para jogar com os amigos ou irmãos. Mas Isilda desconfiava.

Ela sempre acreditou que o amor lhe daria felicidade. Mas aos poucos palavras como “tristeza” e agora “sofrido” mostram o que ela já havia entendido: o amor pode machucar, inclusive o que sentia por Daniel.

Sabe, é muito complicado ser mãe. […] A gente sempre acha que está fazendo o melhor possível, mas de repente parece que está tudo errado. Tenho a impressão de que pedir desculpas não adianta. A minha vida não é fácil. Sei que você não tem culpa disso. Aliás, você não tem qualquer culpa.

Em um texto de novembro de 1979, Isilda escreve uma espécie de carta para Daniel, em que afirma que o ama mais do que a si mesma: “Quero lhe pedir desculpas. Pelas minhas broncas, pelos meus gritos, pela minha ausência […], se há uma coisa neste mundo de que não me arrependo é de ter trazido você para junto de nós. Só lamento não poder tirar esse problema de saúde de você.” Em setembro de 1981, quando Daniel completa seis anos, Isilda lhe escreve uma nova carta em seu diário. A amarga diferença dessa vez é que a minha tia decide escrever uma segunda carta, mas como se o autor fosse o pai dele, Valdir. Foi uma dolorosa tentativa de explicar a si mesma que a atitude agressiva do marido era uma prova de amor àquela criança. Mas sei que ela entendia que isso era errado, e que o mundo perfeito que ela esperava na nova casa não tinha nada de incrível assim. E ela sabia o porquê.

Hoje, quando você já está com seis anos, eu criei coragem para lhe pedir perdão. Eu não costumo pedir perdão. Mas a você eu peço.

Pelos meus momentos de nervosismo com você. Por descarregar os meus problemas em você. Por não dar a você, ou não demonstrar, todo o amor que tenho por você. Quero que você saiba que eu sofro muito depois de cada tapa que dou em você.

Sabe, eu sofro porque é como se eu tivesse batido em um pedaço de mim mesmo. […]

Vou fazer o possível para demonstrar que eu amo você.

Entre o Natal de 1979 e o Réveillon, Isilda viaja com Daniel e a mãe para o Rio de Janeiro, e Valdir fica em casa. Ela pede que o marido entenda o motivo da viagem: ela precisa descansar: “Não de você, da vida que tenho levado, que não é fácil, nada fácil”.

Era evidente que minha tia estava cansada de Valdir, apesar de afirmar que queria voltar para casa antes do previsto. E foi esse cansaço que a fez escrever um triste desabafo, que poderia ter sido escrito por ancestrais, por amigas. Por mim.

Nesse dia, consigo ouvir um pedido de socorro da minha tia.

São quase 23 horas, e […] não sei onde está meu marido. Ele saiu antes do almoço e ainda não voltou. Isso me deixa triste, chateada e com medo. Triste porque estou só. Chateada porque brigamos e com medo […] de que possa ter acontecido algo com ele […] e de que nosso casamento esteja por um fio. […]

Talvez eu esteja vendo coisas ou imaginando-as ou dando uma importância muito grande a fatos bobos. […]

Pode ser que eu queira do Val mais do que ele pode me dar. […] Estou com medo porque parece que ele não me suporta mais. Será que eu que provoco isso? Não sei. Francamente não sei exatamente o que está errado comigo. Não sei nem se realmente há alguma coisa errada.

Eu sempre procurei ser tudo o que ele queria e dizia que precisava. Mas agora tudo é uma grande incógnita. Onde errei, por que errei, será que errei? […]

Eu ainda amo o meu marido. Amo muito. Tenho me esforçado, tenho feito muito, tenho suportado outro tanto, por ele. Para vê-lo bem, para vê-lo progredir, para ajudá-lo a construir algo de bom. […]

Eu não sei, não quero, não posso me imaginar sem ele. Ele tem, como todos nós, seus defeitos, mas tem suas qualidades. Um de seus defeitos é ser machão. Para não dar o braço a torcer ou para não dialogar, pegou suas coisas e saiu. E eu fiquei aqui, com meu filho, […] sem saber para onde foi, o que foi fazer e, principalmente, se está bem.

Nós precisamos conversar, conversar bastante, mas eu sei que vai ser difícil. Gostaria que ele lesse isto aqui […], se bem que ele já me disse que acha tudo isto uma mentira. […]

Quero o Val que eu tinha nos primeiros tempos de casamento: atencioso, colaborador, compreensivo. Acabou esse Val, o que existe agora está deixando algo a desejar, e ele nem se importa com isso. […] O Val que existe agora é muito egoísta, principalmente. Eu queria tanto ter de volta o Val por quem me apaixonei, com quem me casei.

O que será que tenho que fazer para que isso volte a acontecer? […] Eu quero que ele me diga, para eu poder voltar a fazer as coisas como eram antes. Apesar de tudo isso, eu o amo com todo o meu coração.

Isilda vivia uma relação abusiva. Era vítima constante de violência psicológica. Minha tia era infeliz por causa de um marido egoísta, e por isso doeu ler um novo relato algumas páginas depois: “Nosso casamento vai bem, muito bem. Temos nossos desentendimentos, nossas brigas, mas nos amamos, e como!”

3

Carlos Eduardo, o segundo filho de Isilda, chegou em um dia próximo do Natal de 1981. Minha mãe diz que ele nasceu exatamente nove meses depois de mim, porque minha tia, ao me ver, disse que queria outro bebê. Antes da descoberta da nova gravidez, entretanto, a vida em Santo André andava em círculos. De férias, em janeiro de 1980, Isilda leva o filho e a mãe para o Rio de Janeiro. Quando ela volta, com saudade, a realidade é, de acordo com ela, “triste”.

O Val não me recebeu como eu esperava. […] Não sei o que está havendo. Gostaria de saber, mas ele não me diz. Acho que ele está cansado de mim. […]

Ele disse que não precisa de mim. Será que não mesmo? Ele disse que queria que eu voltasse pra lá. […] Ele está diferente. Comigo e com o Daniel. Como é duro você amar uma pessoa, dedicar cada minuto de sua vida a ela e, no final, sentir que de nada vale, que essa pessoa não precisa e não quer você. Por quê? O que será que fiz de errado, onde será que errei? Em me esforçar, em me dedicar, em me anular, em me dar, em viver em função dele e para ele?

O que Isilda não entendia é que estava sendo manipulada por quem também era dependente emocional dela – e uma ameaça de término a fazia tentar agradá-lo ainda mais. Em julho de 1981, Isilda relata sua nova gravidez e já demostra um amor imenso pelo bebê, a alegria pela nova gestação e a ansiedade de todos, principalmente de Daniel, promovido a irmão mais velho. “Eu prometo, como prometi ao seu irmão, que enquanto seu mundo for, nós tudo faremos para que ele seja perfeito.”

O Valdir mudou muito desde que engravidei. Está mais carinhoso (comigo e com o Danny), mais atencioso, mais amável, mais tudo […], aliás, nós dois mudamos. Estamos mais maduros, mais crescidos, com uma situação mais sólida. Estamos bem.

O Natal de 1981 foi o primeiro, tanto para mim quanto para o Carlos Eduardo. Ela se alegrava com a felicidade de Daniel pela chegada do seu irmãozinho. “Ele é perfeito. É lindo.” No dia 31 de dezembro, Isilda expressa seus desejos de ano-novo. Para o caçula, o seu pedido já é de desculpas: “De antemão eu lhe peço que perdoe a minha ausência, quando eu voltar a trabalhar”.

*

Carlos Eduardo, o Cacá, era um bebê doce e que não dava trabalho. Começou a andar com menos de um ano e chamava a atenção com a sua curiosidade por tudo a seu redor. Com a volta ao trabalho e à rotina desgastante, minha tia diminuiu a frequência das palavras em seus diários. Mas os relatos ainda mostravam uma mulher exausta e desesperada por entender que aquilo jamais iria mudar. As cobranças de Valdir sobre qualquer coisa eram insuportáveis, como a briga pela decisão de tomar um lanche em vez de jantar numa noite de sábado.

Eu também me canso, eu também preciso que alguém, um dia, faça um favor, que aliás não é feito, para mim. Pois é, assim fica difícil, muito difícil. Ser cobrada e não ter o direito de cobrar. […] Dar e não receber. […]

Este sentimento de inutilidade me mata. […]

Val, por favor, me ajude.

Mas a única coisa que muda é uma nova rotina que se estabelece entre o casal: depois de cada briga, Valdir sai com o carro, sem dizer para onde, e demora horas para voltar. Violência psicológica em estado puro. No Natal de 1982, Isilda fala abertamente sobre os ciúmes do marido e o quanto isso a incomoda.

O que mais me machuca é a desconfiança que ele tem quanto ao meu comportamento, principalmente com os homens. E este assunto sempre vem à baila em nossas discussões, mesmo que elas se refiram a algo que não tenham nada a ver.

Não sei como ele quer que eu me comporte. […] O único homem que me interessa ter por perto é o meu Val. Será que dá para ele entender?

Folheando as páginas do diário pela primeira vez, em 2018, lembro do choque ao dar de cara com uma letra bem diferente: finalmente Valdir escreveu.

Ele afirma que “apesar dos pesares” nunca deixou de amar a Zi, classificando como “desacerto natural” as constantes brigas. Para ele, ela não devia levar os conflitos e as ofensas muito à sério, já que sempre fica tudo bem outra vez. A mãe dos seus filhos deveria colocar tudo o que ele dizia como uma coisa passageira e procurar apagar tudo, afinal, tudo se tratava de um “simples desabafo”.

Se lembramos o que o cunhado de Isilda disse ao Diário do Grande ABC, este trecho fica ainda mais revoltante: “Eu amo demais a Zi. Sou muito ciumento. Se pudesse furaria os olhos e cortaria a língua (e etc.) de todos os homens que olhassem pra ela mal-intencionados. Se essa ‘ciumeira’ toda é amor, putz, como eu a amo.”

*

Valdir perdeu o emprego, Isilda foi promovida de secretária a analista de comércio exterior. Uma mãe de dois filhos pequenos, casada com um homem que não a ajudava nas coisas mais básicas, e a cobrava sobre qualquer bobagem era, ainda assim, uma ótima profissional. E a força dessa mulher aumentou ainda mais a insegurança de Valdir.

Ele sabia que ela era muito maior que ele e não iria aguentar viver assim para sempre. Sabia que as manipulações e a violência psicológica não funcionariam indefinidamente.

Quando entra na terceira – e interrompida – década de vida, Isilda lembra tudo de bom que já conseguiu, mas conta que Valdir a ofende na frente de outras pessoas, descreve a situação como humilhante; mesmo assim, acredita que o problema está nela.

Além disso, a questão dos ciúmes volta à tona. “Por quê? Eu nunca lhe dei motivos. Agora, não sou contra ter ciúmes. Apenas eu acho que ele não deve atrapalhar dessa maneira o relacionamento de duas pessoas.”

*

No final de 1982, Isilda comemorou que, após três anos de afastamento, finalmente reencontrou seu irmão Marco, meu pai. Nesse hiato de convivência, eu e o Carlos Eduardo nascemos – minha tia só foi pra Pinda me conhecer e decidir engravidar de novo.

Para selar a paz, meus pais convidaram o casal para serem os padrinhos do bebê que estava para chegar – minha irmã, que nasceu em agosto de 1984. “Ganhamos uma afilhada: a minha doce e pequena Maria Alice”, anota minha tia em 1985, quando retoma a escrita depois de um ano.

A partir desse momento, já no final dos relatos, é possível entender o ponto de virada na relação entre Isilda e o seu marido: minha tia, minha heroína, procurou ajuda.

No final, mas sem saber que estava no final, ela decidiu reagir. Em algum momento desse ano de ausência no seu diário, ela entendeu que tanta negligência não era saudável. E aquela mulher que estava escondida sob os escombros do machismo diário, de manipulações, agressões e questionamentos sobre a sua capacidade como mãe, mulher e dona de casa, apavorou Valdir. Aquela nova mulher não ia mais aceitar o marido abusivo que ele era. Ao entender essa dinâmica, ela poderia ter decidido partir. Mas ela não fez isso.

Por que você não tenta renascer comigo, como eu estou tentando? […]

Tornei-me uma pessoa fria, muito realista, irônica, sarcástica, desconfiada, insegura, impotente. Por tudo isso fui procurar ajuda. […]

Tenho a impressão, relendo algumas passagens, de que sempre procurei esconder de mim mesma a minha realidade. […] 

O Val contribuiu muito para que eu me sinta como agora. Durante algum tempo, movido talvez por sua insegurança, por sua depressão, por sua provável sensação de fracasso, apoiou-se e passou a depender muito de mim.

Minha tia subia com determinação os degraus da autoconfiança, aquela que só existe quando a gente permite se conhecer melhor.

Tenho a minha individualidade, a minha personalidade, o meu modo de ser […], não quero voltar a me sentir como um patinho feio, que ele me humilhe ou me ofenda impunemente. Não quero viver à sombra dele, a vida dele. […]

Eu quero voltar a me sentir feliz, se é que um dia me senti. Eu quero voltar a rir com naturalidade. […]

Neste novo processo de descoberta, muita coisa virá à tona. Talvez eu tenha que enfrentar verdades que um dia eu não tive coragem. […] Talvez este trabalho de análise e autoanálise me mostre coisas que eu nunca vi. […]

O que realmente sei é que, embora o Val torça o nariz cada vez que se lembra que é dia de analista, eu vou em frente. […]

O passo mais importante está dado: assumir que há algo errado.

O que Isilda nunca entendeu é que Valdir não tinha interesse na mulher que ela realmente era: ele queria a esposa apaixonada, submissa, com cargas enormes de culpa e um espaço ainda maior para manipulá-la, como sempre fez.

Aquela nova Isilda assustava Valdir, e ele não pôde aceitar sua existência, assim como não pôde aceitar a sua vida sem a esposa que ele moldou em benefício próprio.

Finalizando o penúltimo texto de seu diário, sem data, Isilda parece dar um ultimato a Valdir: aquela Zi não existe mais.

Se você é importante para mim, eu sou mais. Não vou deixar de ajudar você, mas vou me ajudar primeiro. Porque eu amo você, mas amo mais a mim mesma […], É dessa maneira que vejo as coisas agora. […]

Primeiro eu. Primeiro o que eu quero, primeiro o que eu preciso e depois todos os que contam comigo. Isso é egoísmo? Talvez seja, mas eu quero sentir o gosto de ser egoísta pelo menos por pouco tempo. […]

Conte comigo. Amo você. Ame-me. Como eu sou, com meus altos e baixos, com minhas descobertas (que podem ser tardias), com minhas falhas, como eu amo você.

Valdir perdeu Isilda para ela mesma. E isso ele não foi capaz de suportar.

 

EPÍLOGO

Na manhã de 11 de abril de 1986, o telefone tocou na minha casa em Pindamonhangaba. Eu, que tinha acabado de completar 5 anos, atendi. Do outro lado, a minha vó, com uma voz que eu nunca tinha ouvido. Sem os gracejos de sempre. Ela só pediu que eu chamasse a minha mãe. Então ela e uma amiga foram para São Paulo encontrar meu pai, que trabalhava na capital durante a semana. Ali mesmo decidiram: os meninos iriam para Pinda com eles.

Nos últimos meses antes da tragédia em Santo André, uma nova empregada havia começado a trabalhar para Isilda e Valdir. Elza cuidava da casa e das crianças o dia todo e estudava à noite. Os meninos gostavam muito dela. De acordo com o Diário do Grande ABC – baseado em um inquérito policial que eu não consegui acessar –, e com relatos dos meus pais e da minha avó, em 10 de abril, Elza chegou da escola por volta de 22h30. Ouviu o casal brigando, ou seja, nada anormal. Foi tomar banho e dormir.

A reportagem, no entanto, não menciona que o fato de a empregada morar na edícula, nos fundos da casa, a livrou de ter sido anestesiada com éter, como Valdir fez com os filhos e a sogra.

Depois da briga, Isilda tomou banho, passou talco, vestiu um baby-doll e foi dormir. No início da madrugada, um tiro. Depois, mais outro. Quem encontrou os pais mortos na cama foi Daniel, 10 anos. Depois chegou minha avó. E Carlos Eduardo, 4 anos. Um primo de Isilda, que foi à casa levar uma encomenda para minha avó, se tornou o responsável por pensar friamente no que fazer.

Aos poucos a notícia se espalhou. Outros parentes, vizinhos, imprensa, curiosos. Amigos, colegas de trabalho. A notícia vinha embrulhada em machismo e suposta defesa da honra. O jornal disse apenas que “Valdir surpreendera a mulher com outro homem”. Sem mencionar o ciúme que ele sentia de qualquer um que se aproximasse dela por qualquer razão. Na mente doentia de Valdir, tudo poderia ter sido visto como uma prova irrefutável de que ele era traído. E então ele matou Isilda. Matou a minha tia.

*

Nesses quase 40 anos, muita coisa aconteceu. Mas minha família permanece de pé. Carlos Eduardo e Samuel moram em Pinda perto da minha mãe. Daniel vive numa cidade vizinha, e Maria Alice no litoral paulista. Desde os 18 anos estou em São Paulo, perto do meu pai.

Devo ao Daniel a paixão pelo rock e pelo nosso time de futebol – que ele herdou do pai, Valdir. No final de 2025, ele se mudará para a África do Sul por três anos, a trabalho. Carlos Eduardo é engenheiro civil, e eu nunca vi uma pessoa gostar tanto de trabalhar como ele.

Os irmãos que essa história me trouxe têm duas das minhas risadas preferidas na vida e, aos poucos, ao longo destes anos em que estamos juntos, eu entendi duas coisas. A primeira é que tenho certeza de que era desse jeito que minha tia ria quando estava feliz. A segunda é que essas gargalhadas vêm daquelas duas crianças que perderam os pais e sobreviveram. Não foi fácil, não foi leve, mas eles estão aqui, e não penso duas vezes quando me perguntam quantos irmãos eu tenho.

O post Com amor, Isilda apareceu primeiro em revista serrote.

Inscrições para o 9º Concurso de Ensaísmo serrote

A partir de 8 de junho, estão abertas as inscrições para o 9º Concurso de Ensaísmo serrote, promovido pela revista de ensaios do Instituto Moreira Salles. O prazo para as inscrições se encerra no dia 12 de julho de 2026. O resultado será divulgado em novembro de 2026.

INSCRIÇÕES ENCERRADAS

Os ensaios devem ser enviados pelo formulário no link acima, em formato PDF. Os autores devem ser inéditos em livro ou ter, no máximo, uma obra publicada, em qualquer gênero. Serão selecionados três textos inéditos.

O primeiro colocado receberá o valor de R$ 10 mil, o segundo, R$ 7 mil, e o terceiro, R$ 4 mil. Os ensaios contemplados serão publicados na edição da serrote de novembro de 2026. O regulamento completo pode ser consultado abaixo.

Ilustração: Veridiana Scarpelli

Regulamento

1. Incentivar a produção ensaística em língua portuguesa é o principal objetivo do Concurso de Ensaísmo serrote. Tendo revelado importantes nomes desde sua primeira edição, em 2011, o prêmio reafirma, como forma de enfrentar o autoritarismo, o compromisso com o debate intelectual livre e a ousadia de reflexão, elementos importantes do ensaio, gênero de não ficção a que a revista se dedica desde 2009.

2. Estão aptos a concorrer autores de expressão em língua portuguesa, residentes no Brasil ou no exterior, que sejam inéditos em livro ou que tenham, no máximo, um livro publicado em qualquer gênero (textos em antologias ou em obras coletivas não contam). Qualquer livro com registro de ISBN conta como publicação.

3. Os ensaios, de até 30 mil caracteres (contando espaços, notas e referências), devem ser inteiramente inéditos até o anúncio do resultado. A temática é livre. Não serão aceitos ensaios com mais de uma autoria. Cada pessoa pode inscrever apenas um ensaio.

4. É vedada a participação de autores que tenham ou já tenham tido qualquer ligação com atividades de pesquisa, publicações, exposições ou consultorias do Instituto Moreira Salles.

5. Os ensaios devem ser enviados pelo formulário nesta página, em formato PDF. Candidatos, candidatas e candidates se comprometem a preencher os dados do formulário com informações verdadeiras. O preenchimento de campos relacionados a raça, gênero e orientação sexual é opcional. Não é preciso incluir nenhuma identificação nem pseudônimo no PDF, basta preencher os dados do formulário.

6. Serão considerados aptos a concorrer os textos postados entre 8 de junho e 12 de julho de 2026 (inclusive).

7. A comissão responsável pela avaliação dos originais será oportunamente anunciada no site e nas redes sociais da revista e do IMS.

8. Os três primeiros colocados receberão prêmios em dinheiro de, respectivamente, R$ 10 mil, R$ 7 mil e R$ 4 mil e serão publicados na edição da revista que será lançada em novembro de 2026.

O post Inscrições para o 9º Concurso de Ensaísmo <em>serrote</em> apareceu primeiro em revista serrote.

A pólis-floresta

Retorno à maloca (2024), de Gustavo Caboco. Foto: Julia Thompson

As florestas ocupam um lugar singular no pensamento ocidental. Conta o mito de Roma, a grande metrópole da Antiguidade, que a cidade nasceu numa clareira aberta nas velhas florestas do monte Capitolino. “Aqueles que adentraram os limites cívicos refugiaram-se ali das florestas, que se tornaram uma fronteira ou margem contra a qual o espaço cívico foi definido”, escreve Robert Pogue Harrison no seu estudo de 1992, Forests: The Shadow of Civilization [Florestas: a sombra da civilização]. “Na religião romana, o deus das fronteiras sagradas era Silvano, divindade da natureza selvagem”, continua o historiador. “A cidade e a floresta eram, assim, rigorosamente separadas.”

O mito do nascimento de Roma – uma imagem das origens da própria civilização ocidental – se fundamenta numa oposição culturalmente específica entre floresta e cidade, ou seja, entre os humanos e o meio ambiente, que dá forma ao pensamento ocidental. Nessa dicotomia, as florestas são a antítese do mundo humano, o espaço contra o qual a civilização é definida. O domínio da humanidade e do social – e, por extensão, da política, da lei, da ciência, da arte, da história e da arquitetura – é a cidade, e a cidade se opõe à floresta tanto como ambiente quanto como um espaço político-cívico (a pólis).

Esse entendimento binário de cidade e floresta teve implicações diretas no modo como a arquitetura foi concebida e praticada durante o grande arco da modernidade colonial ocidental, do Renascimento ao Modernismo. Desse ponto de vista dominante, a arquitetura foi pensada como uma forma de conhecimento que opera para separar os humanos do ambiente, desenhando as fronteiras – simbólicas e materiais – de um espaço social que existe em oposição à natureza. Isso também acarretou uma concepção de arquitetura como uma série de práticas e tecnologias cujo objetivo é dominar e domesticar a natureza.

A representação canônica dessa visão é a imagem de frontispício da “cabana rústica” que ilustra Essai sur l’architecture [Ensaio sobre a arquitetura], publicado em 1755 por Marc-Antoine Laugier.1 No contexto do papel central desempenhado pelas figurações do “primitivo” na filosofia e na cultura ocidentais na Europa do século 18, Laugier se interessou pelas origens do abrigo humano. Desenhada por Charles-Dominique-Joseph Eisen, a alegoria de uma versão primordial da “casa do homem” representa uma mistura de árvores e construção, uma estrutura ainda viva, mas já dominada e ordenada pela racionalidade humana, ocupando um espaço intermediário entre mundo natural e mundo social, floresta e cidade, botânica e arquitetura.

No século 19, esse imaginário assumiu uma nova função. No contexto da expansão colonial europeia e do advento das teorias raciais modernas de evolução social, a “cabana primitiva” tornou-se análoga à arquitetura indígena que os europeus brancos encontraram no sul global colonial. Em Die vier Elemente der Baukunst [Os quatro elementos da arquitetura], de 1851, Gottfried Semper identificou o edifício primitivo arquetípico na “cabana caribenha”, ou seja, a arquitetura dos nativos das Índias Ocidentais, à época sob domínio britânico e francês. Na exposição L’Histoire de l’habitation humaine [História da habitação humana] no Grand Palais, em Paris, em 1889, Charles Garnier incluiu maquetes das habitações dos povos da floresta como demeures primitives [residências primitivas] para representar as origens do abrigo humano. A história da arquitetura moderna é cheia de exemplos de apropriações coloniais da primitividade.2

Nascida no espaço intermediário entre floresta e cidade, botânica e arquitetura, natureza e cultura, a “cabana primitiva” foi de alegoria filosófica a fato etnográfico. Virou evidência de um suposto estágio inferior da evolução social dos povos das florestas tropicais, conferindo credibilidade ao evolucionismo racista que se cristalizou no pensamento e na ciência ocidentais modernos. Exibida em vários meios de comunicação e exposições nos centros do poder imperial, a “arquitetura primitiva” também forneceu um artefato cultural a ser consumido pelo novo público urbano das cidades industriais europeias, numa narrativa que assegurava a superioridade da raça branca e, consequentemente, a legitimidade do colonialismo.

Na condição de construção epistêmica, a caracterização da arquitetura indígena como primitiva corresponde à visão científica de que as florestas tropicais constituíam os lugares mais antigos e intocados da Terra. No século 19, quando o imaginário da “cabana primitiva” foi incorporado à teoria arquitetônica moderna, todo um novo entendimento do ambiente global estava sendo desenvolvido nas ciências naturais modernas, notadamente na obra totêmica de Alexander von Humboldt. Florestas tropicais, em especial a Amazônia, se tornaram a representação idealizada do que a ciência ocidental definiu como natureza com N maiúsculo.

Do mesmo jeito que forneceu evidências das origens da civilização e da cultura, a arquitetura – ou melhor, a falta dela – passou a fornecer evidências dessa visão da Natureza natural. O suposto fato etnográfico de que os povos da floresta viviam em habitações primitivas, sem nunca terem construído estruturas arquitetônicas e urbanas complexas, foi visto como prova de que não tinham meios tecnológicos para dominar e modificar o ambiente de maneira significativa. Logo, as florestas tropicais teriam ficado intactas em sua evolução histórica natural, como relíquias ecológicas de um passado pré-humano.

É por isso que, nos tratados clássicos da história natural do século 19, como Historia naturalis palmarum [História natural das palmeiras], de Carl von Martius, publicada entre 1823 e 1850, os povos indígenas e suas habitações foram quase completamente apagados da paisagem. Poucos dos encantadores desenhos botânicos de Von Martius incluem representações das comunidades indígenas que viviam nos territórios amazônicos onde ele estudou as palmeiras, e que certamente foram responsáveis por ensiná-lo sobre suas propriedades botânicas. Quando os nativos aparecem, são representados em pequenos bandos de tribos nômades, figurando como mais um objeto natural na paisagem, subsumidos pela pura força da natureza tropical, quase desaparecendo na frente das majestosas palmeiras. Não há arquitetura, só botânica.

Direta ou indiretamente moldado por discursos e imaginários sobre arquitetura, mesmo que por meio de sua ausência, esse conceito de natureza-sociedade não apenas se provou dominante na construção epistêmica e cultural da modernidade ocidental como também serviu de instrumento ideológico do colonialismo. Se os povos da floresta viviam nos estágios iniciais da evolução social, limitados pelo ambiente tropical em suas habitações primitivas, o imperialismo europeu poderia se revestir da missão moral de levar a civilização a povos supostamente atrasados. Na medida em que essas florestas permaneciam selvagens, elas deveriam ser domesticadas, estudadas e exploradas pela racionalidade moderna, tornando-se arquitetura e cidade.

Em outras palavras, o mito de Roma, com a sua dicotomia cidade enquanto civilização e floresta enquanto natureza, ganhou uma dimensão global imperialista. O que os exploradores e cientistas brancos viram na Amazônia foi uma paisagem que aparentemente não mostrava sinais de ocupação humana extensiva. Essa visão da natureza resultava das forças destrutivas da conquista colonial. Estima-se que, entre 1492 e 1650, a população ameríndia tenha sido drasticamente reduzida, particularmente nas áreas de floresta tropical, onde a população nativa diminuiu mais de 90% só no primeiro século de colonização.3 Assim, a paisagem construída das cidades amazônicas desapareceu lentamente à medida que a floresta tomava conta dos povoados e cidades. Já que exploradores e naturalistas não encontraram vestígios arqueológicos na floresta tropical, como tinha sido o caso em outras áreas da expansão imperial europeia, interpretaram isso como evidência da natureza intocada da floresta.

Durante o século 20, esse entendimento científico da Amazônia foi reforçado por trabalhos pioneiros na arqueologia amazônica, em especial a pesquisa de Betty Meggers nas décadas de 1950 e 1960. Ao contrário do habitat florestal idílico do bom selvagem, a arqueóloga norte-americana descreveu a Amazônia como um “paraíso falso”, dotada de riqueza natural extraordinária, inadequada para assentamentos humanos, e de uma biodiversidade magnífica, implacavelmente adversa ao desenvolvimento tecnológico. Essa foi a razão, Meggers argumentou, para a ausência de grandes estruturas arqueológicas significativas, como as encontradas em outros lugares de ocupação humana antiga.

O problema dessa interpretação, conforme formulou o arqueólogo Michael Heckenberger numa entrevista que fiz com ele há alguns anos, é tomar a ausência de evidência como evidência de ausência, conservando a estrutura enraizada no evolucionismo racial determinista, que vê as sociedades indígenas como atrasadas. Com base na crítica radical ao pensamento eurocêntrico apresentada por Pierre Clastres na década de 1960, Heckenberger contesta essa noção de falta: “Na Amazônia, os povos indígenas sempre foram definidos com base na falta de alguma coisa. Eles não têm escrita, animais domesticados nem cidades – eles não têm isso, eles não têm aquilo. Logo, são inferiores às sociedades que têm essas coisas.”4

Heckenberger argumenta que a questão não é que as sociedades amazônicas não tenham cidades, mas que os arqueólogos e exploradores coloniais europeus estavam em busca de uma ideia de cidade baseada na experiência ocidental: “Numa grande cidade-oásis, todos se concentram num único lugar, e, assim, os edifícios ficam mais altos, e as ruas, mais pavimentadas. Essa é a cidade da experiência histórica ocidental […]. As conurbações que não se enquadram nessa ideia de urbanidade são consideradas ‘não tão avançadas ou complexas’.”5 Autor do fundamental The Ecology of Power [A ecologia do poder],6 Heckenberger faz parte de uma geração de arqueólogos e botânicos que, desde os anos 1980, vem descobrindo novos caminhos para desvendar o passado das antigas civilizações florestais da Amazônia.

Nas várzeas do Baixo Amazonas, vastos sítios arqueológicos ligados a solos de terra preta indicam que a Amazônia central era ocupada por povoados complexos e populosos antes da invasão europeia. Observados em conjunto, esses sítios formam o que Eduardo Góes Neves descreve como um “sistema mundial” composto de diversos grupos sociais interconectados por redes geográficas de relações culturais e comerciais.7 Na Amazônia ocidental, Denise Schaan e sua equipe de pesquisadores mapearam centenas de terraplanagens monumentais que revelaram a existência de infraestruturas pré-colombianas construídas por meio de grandes engenharias da terra, que chamaram de “cultura dos geoglifos”.8 No seu trabalho com os Ka’apor da Amazônia oriental, William Balée mostrou que grandes áreas da Amazônia comumente interpretadas pelas ciências botânicas clássicas como florestas naturais “primárias” são na verdade artefatos culturais antropogênicos, produzidos por sistemas indígenas sofisticados de manejo da terra ao longo de centenas de anos.9

As escavações de Heckenberger no Alto Xingu, no centro-sul da Amazônia, revelaram vestígios arqueológicos impressionantes de um sistema regional de aldeias fortificadas, estradas, pontes, campos agrícolas e jardins florestais. Esse sistema seguia uma estratégia espacial planejada, que Heckenberger define como “urbanismo galáctico”. “Era simplesmente impossível se perder na paisagem pré-colombiana do Xingu. Não é bem o centro de Manhattan, mas se parece mais com o centro de Manhattan do que com uma pólis grega comum […]. Em muitos aspectos, o sistema do Xingu era mais complexo e sofisticado em termos de tráfego, planejamento e integração do que a pólis grega ou a cidade medieval.”10

Nos anos 1990 e no começo dos anos 2000, quando essas descobertas começaram a ser publicadas em artigos acadêmicos, a arqueologia na Amazônia era bastante limitada pelas técnicas de escavação tradicionais, que são muito difíceis de conduzir no ambiente denso e úmido da floresta tropical. Mais recentemente, com o desenvolvimento de tecnologias como imagens de radar e varredura a laser, o campo atingiu novos patamares, e estamos conhecendo paisagens urbanas ainda mais impressionantes e gigantescas em várias áreas da floresta amazônica.11

Essas novas descobertas arqueológicas mostram que a Amazônia pré-colombiana, ao contrário da perspectiva colonial que enquadrava os povos indígenas como construtores primitivos e a floresta como intocada, era um território tão manipulado, socialmente construído e urbanizado quanto outras regiões geográficas do mesmo período. As ruínas sempre estiveram lá, só que os exploradores europeus não conseguiam vê-las, porque eram diferentes do que conheciam. A Amazônia era urbana, mas o tipo de sistema urbano desenvolvido pelas sociedades florestais é uma forma de urbanidade fundamentalmente diferente.

A arqueologia e a arquitetura têm afinidades estruturais enquanto campos do conhecimento. Aprender com as ruínas é um recurso fundamental da arquitetura, um gesto que moldou o imaginário cultural e político da disciplina ao longo da história. Do papel central que as ruínas romanas tiveram no Renascimento aos desenhos modernistas da Acrópole feitos por Le Corbusier, a arquitetura muitas vezes adotou um “olhar arqueológico” na busca por recursos conceituais e estéticos que informassem o contemporâneo.

Uma coisa que podemos aprender com as ruínas das antigas cidades amazônicas é como as sociedades que as construíram desenvolveram formas extremamente sofisticadas de trabalhar em colaboração com a natureza. Não só no que diz respeito à integração da floresta em suas cidades, mas também, e ainda mais importante, à invenção de métodos e tecnologias de desenho da paisagem, planejamento urbano e arquitetura voltados para a produção de florestas, o aprimoramento dos ciclos naturais e a biodiversidade.

Heckenberger explica que cada elemento espacial do “urbanismo galáctico” xinguano – cidades e vilas, estradas, infra-estruturas, campos agrícolas e de lavoura itinerante, reservas florestais etc. – estava integrado a um sistema socioecológico de ciclo de materiais que “literalmente transformou a floresta num tipo diferente de floresta”.12 As florestas urbanizadas da bacia do Xingu não eram só “antropogênicas na origem, mas intencionalmente construídas e administradas”13 – constituindo, segundo ele, as “cidades-jardim” originais, a exemplo dos modelos modernos projetados por Ebenezer Howard, urbanista socialista britânico e um dos fundadores do “garden city movement” no início do século 20.14

Interpretações similares sobre a função ecológica dos sistemas de manejo da terra desenvolvidos pelas sociedades amazônicas aparecem nos estudos pioneiros de William Balée. Esses sistemas “são uma espécie de reflorestamento indígena”, argumenta Balée, “na medida em que a riqueza das espécies das florestas altas está sendo substituída por uma riqueza equivalente das florestas secundárias por meio da mediação cultural”. Eles promovem o aumento da biodiversidade, transformando a floresta “em um domínio biocultural ainda mais complexo, tanto analítica quanto empiricamente”.15 Assim, essas paisagens projetadas têm a aparência de natureza intocada, uma vez que não apresentam diferenças visíveis em relação às florestas “primárias”.

A arquitetura e o urbanismo também podem aprender com as sociedades amazônicas como essa integração tão precisa do ambiente natural às paisagens construídas parece ser o resultado de uma estratégia de planejamento que não opera de acordo com as separações binárias entre floresta e cidade, selvagem e domesticado, natureza e cultura, que fundamentam o pensamento ocidental. Em vez de se oporem à floresta, como no caso do modelo romano, as cidades amazônicas foram tecidas a partir da floresta. “Claude Lévi-Strauss descreveu as casas amazônicas mais como cestos do que como aquilo que poderíamos conceber como uma estrutura real”, diz Heckenberger. “Elas são tecidas a partir de paisagens inteiras; são tecidas a partir da natureza, em vez de serem marteladas sobre ela.”

No urbanismo das antigas cidades amazônicas, as fronteiras entre a floresta e a cidade nunca são claramente demarcadas. Mais do que isso, também parecem ser irrelevantes para definir o espaço sociopolítico da “pólis”. Como mostra Philippe Descola em seu estudo seminal Para além de natureza e cultura, apesar de suas ambições imperiais, a dicotomia natureza-cultura que caracteriza o pensamento colonial moderno ocidental não é universal, mas uma maneira particular, geograficamente situada e culturalmente circunstancial de ver e interpretar o mundo. A grande maioria dos povos da floresta, particularmente na Amazônia, estende o reino do social à natureza, integrando todos os tipos de seres não humanos num espaço cívico comunitário.16

Dessa perspectiva, os fundamentos da cidade não se opõem à natureza, mas constituem um espaço social ampliado que transcende a divisão entre natureza e cultura. Podemos conceber uma mitologia da cidade que não se oponha à floresta, mas que esteja entrelaçada a ela? Em vez de ver a floresta como um ambiente desprovido de cidade, talvez devêssemos ampliar e transformar o próprio conceito de cidade. Aprendendo com as ruínas da Amazônia, outra imagem da cidade se torna visível, uma imagem que a história, a prática e o conhecimento arquitetônicos podem ter dificuldade em reconhecer, porque a sua imaginação foi confinada dentro das paredes epistêmicas da cidade ocidental.

Esse conhecimento espacial está vivo na memória e nas práticas cotidianas dos povos indígenas da Amazônia. Vários estudos científicos apontam que as terras indígenas são as reservas ecológicas mais preservadas num planeta que caminha para o colapso climático. Elas são preservadas porque carregam o conhecimento do urbanismo ecológico desenvolvido pelas civilizações indígenas desde arqueologias imemoriais.

A reconfiguração urgente da nossa compreensão do social em prol de uma relação mais horizontal e menos destrutiva com a natureza passa por reconceituar a pólis como floresta e descolonizar a ideia de cidade. No contexto da ordem mundial pós-mudança climática, a Amazônia nos convida a imaginar um mito diferente da pólis – isto é, do espaço cívico-político da sociedade –, onde o ato fundacional não se baseia no desmatamento da floresta, como na mitologia de Roma, mas na prática contínua do seu cultivo.

O post A pólis-floresta apareceu primeiro em revista serrote.

serrote 52

Carta do editor

Ensaio é dissidência. Em tema, forma ou ambos, toma distância de convenções literárias, opiniões confortáveis ou expectativas óbvias, como o demonstram por diferentes caminhos, épocas e abordagens as autoras e os autores desta edição. ¶ Hábil em borrar fronteiras entre ficção e real, Emmanuel Carrère narra com maestria as histórias paralelas da protagonista de “A vida de Julie” e da fotógrafa que acompanha seus passos anos a fio. ¶ Cristiane Costa rastreia em documentos e livros os fracassados planos do Exército brasileiro para reescrever Os sertões, tentativa de expurgar da história da corporação seus profundos vínculos com a barbárie. ¶ Na Itália da década de 1960, Pier Paolo Pasolini enfrenta as novas encarnações do fascismo ao responder, por quase cinco anos, as cartas de leitores da Vie Nuove, revista do Partido Comunista. ¶ A partir de um episódio de sua infância, Élvio Cotrim reflete sobre a politização da vergonha em Annie Ernaux, Didier Eribon e Édouard Louis. ¶ Literatura também é o guia de Garth Greenwell na complexa e conflituosa relação que pessoas queer estabelecem com O quarto de Giovanni, o clássico de James Baldwin. ¶ Ensaio, dizíamos, é dissidência.

Paulo Roberto Pires

O post serrote 52 apareceu primeiro em revista serrote.

Ritual para um arquivo travesti

Quando me deram sua foto, Thais, eu não esperava chorar o luto de uma desconhecida. Penso que queria ter visto teu salto riscar o chão da pista, sentir no ar a doçura inebriante dos teus perfumes europeus e viver os amores mediterrâneos na Costa Amalfitana, por onde você passou. Só que o tempo, por fim, nos atravessou de outras formas. Encontro você como quem encontra um espelho rachado, ainda que refletindo. Sinto que tua memória me chama, me impele a escrever. Não para te explicar, mas para fazer com que tua beleza, tua dor, tua força e teu axé não se percam no lixo da história.

*

Foi uma amiga, Rakyllayne, quem me presenteou com a imagem de Thais. Em sua casa, enquanto conversávamos sobre o passado e o que ainda pulsa dele, folheei pela primeira vez seu álbum de fotografias, páginas e mais páginas de memórias da sua infância, de familiares e de amigas travestis dos anos 1990: imagens condensadas de um tempo que, a partir dos seus relatos, pareciam-me voltar à vida. Sempre admirei nossa amizade porque vejo nela uma espécie de encontro de tempos distintos: eu, uma travesti de 26 anos, com pouco mais de dois anos de transição, cursando pós-graduação, e ela, uma trans que já ultrapassou seus 50 anos, avó, ex-prostituta e ex-usuária de crack, que encontrou na política pública um lugar e um sentido de vida. Eu sou do tempo do acesso aos hormônios e à PrEP pelo SUS, da depilação a laser, do direito ao uso do nome social, da retificação e, talvez mais importante do que tudo isso, da possibilidade incipiente de sonhar um futuro. Raky vem de um tempo outro: o das perseguições constantes dos alibãs, das maçãs do rosto recheadas de silicone industrial, das amigas mortas cedo demais, do HIV como sentença de morte e de um glamour travesti que já não existe mais. Uma vida nutrida da adrenalina e da urgência do agora diante de um futuro incerto. Tudo isso construído à base de óleo industrial, sangue, gilete e muito desejo.1

Enquanto folheava o álbum de fotos, uma figura belíssima me chamou a atenção. Raky me disse que era a famosa Thais Diniz, de que tanto me falaram na pista. Raky guardava em seu arquivo familiar umas dez fotos que uma cafifa, conhecida como Priscila do Peitão, havia preservado, mas que, diante do acúmulo de coisas, vinha descartando aos poucos. As imagens me encantaram profundamente, eram memórias da vida de Thais entre o Brasil, a Itália e a França. Em uma delas, Thais está nua, coberta apenas por uma peça de pele de sucuri crua, que se enrola ao seu corpo como uma segunda epiderme. A imagem era arrebatadora, quase mítica: uma travesti em nudez cerimonial, perspectivista, vestida de cobra. Raky me deu essa foto e disse: “Fica com ela, é pra memória da Thais circular”. Mais do que um gesto de delicadeza, vi ali uma missão a ser cumprida. E foi assim, enrolada em cobra e silêncio, que Thais se deslocou daquele arquivo e passou também a me habitar.

Arquivo pessoal

A primeira vez que ouvi falar de Thais Diniz foi numa terça-feira qualquer, na pista do Jockey Club de São Paulo – dia fraco no quesito bateção de ponto na pista. Ali, as travestis dividem a calçada com os restos de uma elite decadente, old money, daquelas que ainda sonham com cavalos e whisky importado on the rocks. Dos casarões, não se ouvia o menor sinal de vida – silenciosos como túmulos, guardavam o eco de tempos mais gloriosos, já em ruínas. Nesse momento, quem dava alguma vida àquela paisagem era meia dúzia de travestis, algumas fumando uma taba em silêncio, outras distraídas no celular, conversando com seus clientes, ou ainda retocando a make no reflexo dos retrovisores, na espera de algum carro reduzir a marcha.

Ali estava Rachel no seu ponto habitual, recuado em relação à avenida, quase oculto num parque inabitado da região. Sua figura sempre me pareceu um pouco deslocada, ela se destacava naquele cenário. Conhecida como “Vovó das trans”, por ser mais croca, em todas as vezes que a encontrei, ela usava uma máscara médica preta e um boné encobrindo parte do olhar. Um visual discreto, beirando o hermético, extremamente peculiar na pista.

Naquele momento, ela conversava com outra trans, um pouco mais nova, relembrando memórias da vida em Santo André, da opulência dos concursos de Carnaval e das noites europeias. Eu, muito que ninfeta, sempre busquei aquendar a indaca quando as travas barrocas falavam. Havia nesse ato um certo tipo de postura ética geracional, compartilhada entre as trans frente à memória. Nessa aproximação, Rachel me contou que havia conhecido Thais Diniz quando ambas competiram no mesmo concurso, organizado por Tânia Star, uma das travestis mais famosas e ricas de SP, diretora artística da lendária boate Pink Panther, em Santos. O ano era 1986, e o concurso, o Miss Carnaval Gay, na época um “Miss Brasil” das travestis, era disputadíssimo. Papo de produto de exportação, mon amour. Em muitos casos, a vitória significava uma viagem para a Europa, paga por parcerias com agências de viagem focadas no “público gay”. O destino? Paris, Rimini, Capri, o sonho que toda boneca brasiliana busca para se fazer. Rachel me disse que se lembrava perfeitamente da entrada de Thais, uma coisa “bem Paris”: corpete branco toda funfun, espartilho bordado com pérolas e franjas, saltos altíssimos e o picumã longo e loiro, que já era sua marca registrada. Em um momento de autoafirmação, Rachel também me contou que sua própria entrada tampouco havia passado despercebida. Ressaltou que, mesmo não sendo feita como Thais, encantou o público, que foi às alturas, gritando: “Já ganhou! Já ganhou!”

Uma pausa na história.

Um cli que estava passando de carro começou a reduzir a marcha e me perguntou se eu estava ocupada. Disse que sim e, em um gesto de recusa, me virei para Rachel, que começou a me sussurrar segredos em bajubá: “Quenda o ojun nessa cona, viu… Uma penosa doida pra dar o edi arrombado dele por quaisquer dez arô.” Rimos. Pura xoxação, mona, abafa.

Voltando ao babado: Rachel e Thais chegaram juntas à final do concurso. Tânia Star tomou o microfone e anunciou, com o suspense que o momento exigia, que a vencedora havia sido escolhida por unanimidade pelos jurados. Ao descrever essa cena toda, Rachel seguia soltando nomes de pessoas agora falecidas, como quem acendia velas para um altar invisível – eu não saberia dizer quantas vezes repetiu “todas já morreram”. Eliane King Kong já morreu. Jaqueline Blablablá já morreu. Carla Facão já morreu. Thelma Lipp, famosa concorrente da Roberta Close, já morreu.

Naquele instante, Thais tinha certeza de que seria a ganhadora. Fez caras e bocas, jogou o peitão, já ensaiando seu coroamento. Rachel também acreditava que a coroa seria de Thais e, intimidada, começou a se esgueirar para fora do palco, até que foi interrompida por um dos organizadores do evento: “Não sai, não, mulher, você ganhou!”. Confusão armada. As amigas de Thais não aceitaram a derrota e começaram um fuzuê generalizado. “Como poderia uma ninfetinha ganhar de Thais Diniz?”, diziam.

A opulência de Thais foi sua bênção e sua maldição. Na pista, era uma estrela para as travestis: sempre descia com aquele glamour, trajando seus casacos de pele à moda de Paris. Thais Diniz era um mito, Rachel me disse. Ela gostava de exibir seus batons Yves Saint Laurent, presentes de clientes europeus. “Qual seu batom, querida?”, e emendava logo: “Bicha, você tem que usar esse aqui, ó: Saint Laurrrrrrent”, forçando o “r” como quem saboreia uma taça de Chandon.

Se em alguns casos sua opulência era ferramenta de deboche, em outros era seu jeito peculiar de cultivar uma certa ética do cuidado com outras travestis. Rachel me contou que, tratando do enterro de uma amiga em comum, Thais fez questão de preparar o corpo com o que havia de melhor. Passou na defunta o seu perfume importado, um Valentino daqueles que custam o olho da cara. “Ela não vai de qualquer jeito, não, minha filha”, dizia, talvez para a própria Morte. Vai cheirosa, vai fina, vai com dignidade.

*

Comecei a buscar vestígios dessa figura em todo lugar, nos arquivos públicos da cidade e nas pistas de São Paulo e Santo André, à procura de alguém que a conhecesse. Thais Diniz foi travesti nos anos 1980, contemporânea ao grande fenômeno de Roberta Close, figura chancelada midiaticamente como “a mulher mais linda do Brasil”. Era o tempo dos silicones industriais e hormônios, mas também das batidas policiais e das automutilações para escapar da polícia. Em 1984, a Playboy dizia sobre Roberta Close: “Na época da gilete e das perucas, as pessoas sabiam com quem estavam falando. Mas, depois que a ciência se intrometeu com silicone e hormônios, tudo ficou mais complicado.” Para alguns, as tecnologias de gênero haviam chegado, na cultura brasileira, caracterizada pelas inversões rituais carnavalescas, a um estágio em que a sociedade passou a hipervalorizar o “falso”, a imitação. O feminino era agora consumido em doses cavalares de pílulas hormonais e seringas de Silicone-1000.

Arquivo pessoal

De fato, a passagem dos anos 1970 para os 1980 foi um marco na construção da travestilidade brasileira, o fruto proibido do cruzamento entre os avanços da ciência e a abertura da imprensa, da televisão, do entretenimento. Foi quando o autodenominado sujeito travesti saiu das festas privadas, da penumbra da noite e dos cinemas eróticos para se tornar uma figura pública, chancelada midiaticamente.2 Thais aparece em fotos de importantes revistas dos anos 1980, como a Manchete e a Fatos e Fotos, responsáveis por cobrir bailes de Carnaval como o Grande Gala Gay, no Rio de Janeiro. Plumas, brilhos, paetês, neca aquendadíssima, maiôs justíssimos, meia-arrastão e maquiagem expressiva invadiam as revistas. E também peitões siliconados.

A transexual Roberta Close é a escolhida para encarnar o mito da beleza brasileira, produto desse novo momento fármaco-pornográfico, tempo da confusão de gênero, tempo da suposta vitória da ilusão. Na capa da Playboy de maio de 1984, vemos a “feminilidade original” de Lídia, a mulher cis escolhida para ser a coelhinha da edição, ocupando o centro da imagem. Relegada ao canto esquerdo, a intrigante “feminilidade fake” de Roberta Close aparece mais tímida e em uma foto menor, acompanhada da seguinte chamada: “Incrível: as fotos revelam por que Roberta Close confunde tanta gente!”. A revista prometia desvendar finalmente o segredo da transexual, alimentando a curiosidade brasileira de ver se o que havia entre suas pernas era afinal neca ou raxa. O clímax da espetacularização.

A edição esgotou em três dias. O ensaio começa com uma foto em preto e branco de La Close, ainda vestida, com olhar dócil e sorriso de Monalisa. No segundo momento, em uma versão mais femme fatale, a transexual aparece com os peitos à mostra, debruçada sobre uma cadeira. A terceira e última imagem é o ápice do seu strip-tease visual: Roberta se encontra nua, de pé, braços abertos e pernas cruzadas. As imagens que prometiam revelar o mistério, na verdade, sustentam-no, ao mostrá-la trucando a neca. Como no tempo do mito, reinava a indistinção: o público se questionava se Roberta era homem, viado, travesti, transexual ou mulher.

Ao pensar o caso de Roberta Close, entendo que a transexual reencena, no espaço da mídia, da passarela e também da pornografia, um certo tipo de realidade mítica articulada em torno da origem racial e sexual do Brasil, historicamente associada à colonização e à figura da mulher negra. Embora fundada na suposição de um convívio harmônico entre as três raças, a partir de um ideal positivado de miscigenação, o desejo que a sustenta é essencialmente ambíguo: instaura a nação ao mesmo tempo que a ameaça.

Em um processo de torção mítica, Roberta surge como a personificação da mulher brasileira idealizada, já em um novo momento fármaco-pornográfico – o tempo dos hormônios, das revistas e dos silicones. Mestiça, de traços finos, curvas exuberantes, La Close servia uma beleza tropicalizada: odara o suficiente para seduzir, passável o suficiente para confundir e “polida” – lê-se “branca” – o bastante para circular na grande mídia.

Contudo, sua transgeneridade torna esse mito mutável. Há uma inversão nas categorias raciais e sexuais – negra-branca e raxa-neca. Sua beleza é também incorporada à narrativa da nação, mas sob a forma de um corpo-limite: simultaneamente cultuado e vigiado, exaltado e regulado.

Por mais que, em sucessivas reportagens, La Close buscasse se autoidentificar publicamente como uma transexual, parte da imprensa brasileira a considerava “um travesti”. Havia uma permanente tensão gênero-midiática entre ser transexual, categoria asséptica fundamentalmente clínica, e ser travesti, seu inverso abjeto, associada à criminalidade, à agressividade e também à aids. Em 1980, o jornal O Estado de S. Paulo advertia, como se fosse um furo jornalístico: “Perigo! A invasão dos travestis”. Já em 1987, no curso da famosa Operação Tarântula, a Folha de S.Paulo anunciava: “Polícia Civil ‘combate’ a aids prendendo travestis”. Os atos de automutilação eram uma defesa contra a polícia, com travestis se utilizando do próprio estigma de soro-positivas para não serem presas. Penso em Lélia Gonzalez,3 que dizia que todo mito oculta algo além do que mostra. A mulata e a travesti se entrelaçam como produtos de exportação brasileiros que, findado o ritual de coroamento carnavalesco, voltam respectivamente aos seus lugares de doméstica e de puta aidética.

A narrativa de migração para a Europa, construída por muitas travestis, não era apenas um sonho de glamour, mas também um caminho para acessar procedimentos de transformação corporal que o Brasil da época dificultava. Esse foi o caso de Thais, que, segundo algumas me contaram, teria feito sua buceta fora do país. Uma das primeiras. Também é o caso de Roberta Close, que, em 1990, anos depois de realizar sua cirurgia de redesignação em Londres, voltou à Playboy para anunciar seu novo corpo: “Roberta Close: o final feliz”, estampava a chamada da capa. O corpo “corrigido” ganhava, enfim, sua chancela midiática. A neca havia sido removida. O mito, consumado.

*

Ainda que realizadas amplamente em diversos países, as cirurgias de redesignação só foram autorizadas no Brasil no final dos anos 1990, sob caráter experimental, em hospitais universitários. Antes disso, eram totalmente criminalizadas.

Um exemplo desse percurso, nos anos 1970, foi o processo judicial por crime de mutilação grave movido contra o cirurgião plástico Roberto Farina, considerado o primeiro a realizar cirurgia de redesignação sexual no Brasil. Em pedido de instauração de inquérito policial, o procurador Luiz de Mello Kujawski assinalava: “Não há nem pode haver, com essas operações, qualquer mudança de sexo. O que se segue é a criação de eunucos estilizados, para melhor aprazimento de suas lastimáveis perversões sexuais e, também, dos devassos que neles se satisfazem. Tais indivíduos, portanto, não são transformados em mulheres, e sim em verdadeiros monstros.”4

O pênis, transformado em neovagina, foi tomado como um bem físico tutelado pelo Estado, “inalienável e irrenunciável”. Mesmo com a defesa internacional de importantes médicos, psicólogos e sexologistas da época, que endossaram o procedimento como alinhado à medicina global, Farina foi condenado em primeira instância, em 1978, por lesão grave, em um processo levado a cabo pelo Conselho Federal de Medicina e o Ministério Público. Um ano mais tarde, o processo foi revisto, e Farina, absolvido.

Contudo, nas margens da medicina oficial, longe dos consultórios e das clínicas, as travestis executavam seus próprios caminhos para a transformação corporal – o lado oculto do mito da beleza. Para quem não sabe, o processo de bombação funciona assim: após escolher uma bombadeira de confiança ou, ao menos, famosa por lapidar bem as bonecas, a travesti marca o local para realizar o procedimento, normalmente na casa de alguém, e adquire os materiais necessários – como cola Super Bonder, anestésicos, álcool, papel higiênico e seringas com agulhas pequenas, para aplicação da anestesia, e grandes, para o silicone. Com a morte de muitas travestis, as bombadeiras passaram a desenvolver suas próprias técnicas para reduzir os riscos do procedimento, recomendando que as bonecas tomassem antibióticos e anti-inflamatórios alguns dias antes da bombação.

A aquisição do silicone fica por conta da bombadeira. Os fabricantes do produto, usado na indústria automotiva para lubrificar peças de carros e de avião, evitam vendê-lo diretamente para as travestis, porque sabem que ele será usado para modificações corporais, mesmo não sendo biocompatível com o corpo humano.5 Ainda assim, em praticamente qualquer cidade onde existam revendedores ou fábricas, as bombadeiras dão um truque para conhecer os caminhos subterrâneos e acessar o tal “líquido da beleza”. As rotas de acesso ao silicone são guardadas com extremo sigilo, são um conhecimento que circula em códigos, sussurros e alianças. Mais do que um simples produto, o silicone aqui é um segredo.

O procedimento tem início com a marcação e higienização das áreas do corpo, como coxas e glúteos. Nesse momento, é de bom tom que a travesti tenha um travesseiro ou algo que o valha para morder. Em seguida, um anestésico é aplicado para apaziguar as dores que virão. Inicia-se, assim, a bombação de fato. A seringa com a agulha maior, mais grossa, se justifica pela densidade e viscosidade translúcida do óleo. De maneira cadenciada, a bombadeira então esvazia sucessivas seringas, mantendo uma postura firme, ainda que a travesti bombada esteja aos berros, urrando de dor. A frieza é parte do ritual: quanto menos enrolação, menos tortura.

Após as aplicações e a retirada das agulhas, é comum que se forme um inchaço nos pontos marcados. Mas o processo não acaba por aí, não. Tem que meter logo uma massagem daquelas no local, com jeito e força, para espalhar bem o produto onde se quer o volume. O truque é deixar tudo lisinho, sem ondulação, com aquele acabamento de boneca. E, depois disso, mona, o fecho final: passa logo uma Super Bonder na fissura para selar o buraco.

As mais barrocas sempre buscaram me alertar sobre os riscos da bombação. Lembro-me de Luana, travesti nos seus quase 50 anos e com cerca de 12 litros de silicone industrial injetado no corpo, encostada em um poste na pista, cigarro aceso, batom intacto. “Isso aqui é uma faca de dois gumes, bicha”, ela me disse. Seu corpo ainda chamava atenção na rua. Contudo, completou: “Eu paguei um preço muito alto e ainda pago para ser chamada de gostosa por esses okó. Mal sabem eles. Eu sou um monte de óleo. O meu corpo não tem nada de carne. É um monte de óleo apodrecendo.”

*

Arquivo pessoal

Raky me contou que Thais morreu sozinha no seu apartamento em 2024, com um quadro gravíssimo de alcoolismo. Para algumas meninas da pista, a colocação era sua perdição. Sua morte aconteceu no limiar do esquecimento, e esse esquecimento se aprofundou com o destino de seu arquivo: grande parte das fotos se perdeu, já que sua família de sangue tratou suas memórias como entulho, descartando aquilo que não reconheciam como digno de preservação.6

*

Apesar de não conhecer o glamour do veraneio italiano ou dos cafés parisienses, Thais, sinto que já vivi alguma fagulha desse vislumbre fugaz nas passarelas do mundo da moda. Eu tinha um sonho agridoce de ser modelo, de encarnar o Belo, que logo revelou seu gosto metálico e amargo, feito sangue na boca. Tornar este corpo um outro corpo, mais feminino, mais desejado, era um ritual diário, quase que obsessivo, construído à base de anorexia, capital e hiperfixação imagética. O feminino é monstruoso, é visceral.

Lembro uma situação em um photo shoot do qual participei. Estávamos em uma pausa para fotos, comendo depois de horas de trocações infindáveis de roupas, seguidas de cliques fotográficos que cegavam os olhos. Um dos produtores, em tom brincalhão, falou: “Meninas, lembrem que não é pra comer muito. A câmera vê tudo.” Riram todas. Um riso automático, apertado, daqueles que saem antes do pensamento. Aos poucos, uma ou outra modelo desaparecia da sala. “Vou ao banheiro”, tentavam disfarçar, mas eu sabia o que iam fazer. Mesmo de longe, eu imaginava seus golfos. A comida mal digerida batendo contra a cerâmica do vaso, primeiro em jatos líquidos, depois em golfadas mais secas, pura bile, como se o corpo estivesse lutando para expurgar a culpa do que nunca deveria ter entrado.

Transicionar foi a coisa mais difícil e mais bonita que eu já fiz na minha vida. Carrega em si uma visceralidade antiga, dessas que habitam os grandes ritos de passagem e iniciações rituais, ou mesmo os mistérios da natureza quando a carne se curva ao tempo e as crisálidas rompem seus estados de pupa para dar à luz uma nova forma corporal. Houve dias, no começo da minha transição, em que a lâmina de barbear passava no meu rosto com tanta fúria, tantas vezes, que eu não sabia se o que fazia era me produzir ou destruir. Havia dúvida, assim como havia entrega. Penso em Jota Mombaça,7 para quem em toda transição há, mais ou menos implícita, a demanda por um fim de mundo, sem que isso signifique, senão como promessa, a garantia de um mundo a seguir. Pulsão de vida e pulsão de morte se misturavam como barro e sangue, a matéria do divino e a matéria do carnal, na construção desse corpo em nascimento.

*

Lembro-me de chorar por você a caminho de casa após receber tua foto, Thais. Chorar como quem sente que algo atávico foi reaberto em mim. Recordo-me também de pensar sobre esse limiar do esquecimento que muitas de nós, travestis, habitam desde Xica Manicongo. Sentia, portanto, que precisava fazer jus ao teu apogeu e ao teu declínio. A caminho de casa, comecei a ouvir aquele sussurro familiar no ouvido esquerdo. Não sei se era ela falando ou então meu próprio corpo respondendo ao chamado. Comecei a sentir um impulso que não era meu, ou então era meu demais. Era vontade de algo doce e forte, vontade de oferenda. A entidade tinha sede. “Compra um champanhe”, sussurrava. “Mas que seja bom, viu? Que Thais não merece miséria.”

Já era tarde, a maioria das lojas estava fechada, mas perto de casa uma distribuidora de bebidas ainda funcionava. Entrei quase sem pensar, procurando aquela garrafa que brilhasse aos meus olhos. Saí de lá com uma das boas, um espumante rosê, daqueles que cintilam em taça fina e deixam o ar com cheiro de festa. Rachel me contou que Thais amava brindar – para ela, qualquer momento era ocasião para levantar a taça. “Classe, elegância, amor e tesão”, dizia, erguendo o corpo com seu charme inconfundível.

Chegando em casa, fui direto para meu quarto, onde tenho um pequeno altar. Nada muito grandioso, apenas um alguidar, uma taça, uma cigarrilha queimada pela metade, algumas moedas, um espelho velho com algumas rachaduras e uma estátua daquela que me guia. Pombagira Rainha das Sete Encruzilhadas. Pele dundun, capa vermelha, bastão dourado na mão e coroa reluzente na cabeça. Através das suas vestes, me via pensando em Thais, que também se fez rainha. Não no altar, mas nos bailes de Carnaval, onde o aplauso também era oferenda para ela. Após colocar no altar a foto de Thais vestida em couro de cobra, acendi uma vela vermelha e preta para abrir o portal. Sua pele parecia brilhar diante do fogo em uma metamorfose animista. Laroyê. Comecei a fumar uma cigarrilha doce e a jogar sua fumaça na taça de espumante.

Uma campainha gritou no ar.

Naquele dia, havia marcado de foder com um dos meus amantes. O meu vício, como algumas travas diriam na pista: aquele homem de quem não cobram para transar, porque há algo que as desarma entre o jeito que ele ama e que ele fode. Era tarde da noite, o quarto estava mergulhado num calor úmido e denso. As janelas entreabertas deixavam passar apenas um sopro quente da rua, misturado ao ruído da cidade: buzinas abafadas, um cachorro que latia e o lamento metálico do metrô passando ao longe. A única luz vinha da vela acesa do altar, vermelha e trêmula, lançando sombras nas paredes. Eu usava apenas uma lingerie creme e um robe de cetim preto, insinuando a pele brilhante de suor leve e o contorno tenso das coxas.

Ele chegou como sempre: no silêncio. Camiseta colada ao peito, perfume amadeirado, bermuda jeans que ainda guardava a poeira do dia. O rosto barbeado às pressas deixando apenas o bigode, e os olhos, escuros como jabuticabas, sempre misteriosos. Fomos ao meu quarto e, após fechar a porta, já tirou a camisa e se deitou na beira da cama, como se tivesse sido chamado para o ritual. Sedenta, subi em cima dele como quem monta um cavalo. Um corpo ofertado ao outro, sem mediação. E, enquanto fodíamos, revirando os olhos de prazer, eu olhava para aquele altar. Via a vela tremendo, Thais nua envolta em couro de cobra, o espumante suando na taça e o espelho do altar recolhendo luz como se quisesse guardar tudo: o som, o cheiro, o suor que passava entre a gente.

De fato, na pista circula algo mais do que aqué, tadalafila e porra. O trabalho sexual é também um espaço de circulação de axé, de manejo de energias e da presença constante de entidades. “Já acendeu uma vela pra tua puta?”, perguntavam as travestis quando eu relatava alguma dificuldade. Muitas se despedem desejando axé umas para as outras. As bonecas nortistas que conheci pelas pistas da Barra Funda, em São Paulo, na sua maioria provenientes de Belém e Manaus, me contavam segredos dos encantados e seus mistérios.8 Diziam brincando que, em festa de caboclo bravo, não dava uma travesti. Elas até iam nas festas de outros encantados, mas quando era Seu Pena Verde, Seu Sete Flechas ou Seu Zé Raimundo, travesti nenhuma punha o pé. Tinham medo. Medo de quê? De encantamento.

Corriam o risco de os encantados se apaixonarem pelas travestis e, assim, amarrarem seu anjo. “A senhora está tão bonita hoje… Senta aqui do meu lado”, falavam os encantados. E pronto. Diziam que era namorada agora, que iam cuidar. A bicha, coitada, passava um mês, dois meses sem conseguir cliente na rua, porque o caboclo ficava amarrando o anjo. Aí tinha que ir no terreiro depois, pedir para desamarrar, fazer trabalho, oferenda, vela vermelha, o que fosse, tudo para trazer de volta o axé da rua, do trabalho sexual.

Uma amiga também compartilhou comigo uma situação de extrema vulnerabilidade, em que um cliente apontou uma arma para sua cabeça, exigindo uma relação sexual sem guanto. Para ela, mesmo tomada pelo medo, uma força inexplicável emergiu naquele momento. Ela me disse: “Eu tenho medo de arma, perco a voz, mas ali me veio uma força, e eu falei: ‘Então atira, seu viado!’”. Ao voltar para casa, desabou emocionalmente e reconheceu: “Não sei de onde tirei aquilo”. Em suas próprias palavras, foi a entidade quem se manifestou. “Foi ela.”

Pego o cálice e o ofereço ao meu vício. Brindamos. Classe, Elegância, Amor e Tesão. Bebemos do doce amargo do espumante em um feitiço próprio, um feitiço do nosso amor. A bebida girava entre mim, o vício e o altar. Uma travesti morta não se apaga se for cultuada com espumante, tesão e mandinga, pensei. Quando gozei, não soube dizer se o prazer era meu ou se era dela. Só sei que gargalhei. Ele olhou, surpreso. Sorri, ainda ofegante: “Te amo”. Toquei o rosto dele, puxei de leve o queixo: “Me compra um batom, amor? Mas que seja aquele: um Saint Laurrrrrent. O vermelho carmim, o que encanta.”

O post Ritual para um arquivo travesti apareceu primeiro em revista serrote.

❌