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A machosfera contra as balzacas

Impressionada pelas fardas, armas e adereços dos soldados que marcham por Paris em direção à guerra, a jovem Julie quer porque quer se casar com um coronel de Napoleão. Contra os conselhos do pai, se envolve com um deles, torna-se marquesa, tem uma filha e se descobre amargurada pela vida de obrigações domésticas ao lado de um marido negligente, bobalhão e rústico. Arrependida dos rumos que tomou, se aproxima de um médico inglês até que seu “pudor” impeça a traição e o rapaz morra de frio ao esconder-se, no relento do inverno, para escapar de um flagrante. A morte repentina deixa a heroína ainda mais deprimida; ela se refugia em um castelo no interior da França e promete se resignar ao triste destino da devoção marital – pelo menos até fazer 30 anos e conhecer um diplomata. Consumado, o adultério rende um filho que é incorporado à família oficial, mas o menino acaba morrendo afogado pela irmã mais velha, ciente da traição. Reencenando os suplícios da mãe, a garota foge com um pirata que surge de repente, volta doente alguns anos depois e morre nos braços de Julie, que já passava dos 40. Aos 50, viúva, triste e sem mais esperanças de felicidade, marcada por outras tragédias familiares e tratada com frieza na casa da filha caçula onde mora, a protagonista sofre um ataque cardíaco fatal.

Este é, em resumo, o enredo de A mulher de trinta anos, “sem contestação, o livro mais famoso de Balzac”, como afirma Paulo Rónai na introdução à edição brasileira do romance publicada em 1948,1 que integra a coleção de A comédia humana coordenada por ele para a editora Globo. Também é consenso que o livro de 1842 está entre os menos bem-acabados dos mais de 90 títulos do escritor – publicada de forma dispersa, em capítulos soltos, a trama sofreria de incongruências em sua versão final. Ainda assim, suas “imperfeições tão evidentes”2 foram eclipsadas pela invenção, espécie de estudo e exaltação de uma figura até então negligenciada pela literatura: a mulher experiente, a mulher de 30 anos. O tipo definido em tom laudatório e quase sempre limitado ao universo das relações amorosas é descrito como aquele em que se agitam “indecisões, terrores, temores, perturbações e tempestades que jamais se encontram no amor de uma mocinha”.3 Ainda pela comparação entre faixas etárias, é numa das passagens mais famosas que Balzac celebra o reconhecimento de qualidades que, ausentes nas jovens, seriam características das mulheres mais experimentadas: “A moça tem apenas uma coqueteria e acredita ter dito tudo quando tirou o vestido; mas a mulher tem inúmeras e esconde-se sob mil véus; por fim, afaga todas as vaidades, e a noviça só lisonjeia uma”.4 Como observam Gabriel Hanotaux e Georges Vicaire numa famosa definição, Julie, a protagonista, “duplicou” para as mulheres a “idade do amor”, uma vez que, antes de Balzac, “todas as namoradas de romance tinham 20 anos”.5

Só o terceiro dos seis capítulos é dedicado aos célebres 30 anos do título, fase em que a protagonista alcança a idade em que há “atrativos irresistíveis para um homem jovem”.6 Nem tão extensa, a passagem ocuparia o imaginário cultural a partir do século 19 e eternizaria o romance em vários níveis. No Brasil, foi apropriado em original união das culturas erudita e popular. Somente por aqui o adjetivo “balzaquiana” designa um tema relativo não tanto ao escritor e mais às mulheres maduras,7 tendo se consolidado no vocabulário brasileiro como uma marchinha de carnaval.8 Composta por Nássara e Wilson Batista, “Balzaquiana” foi sucesso na folia de 1950 pela voz de Jorge Goulart, arrastando multidões que cantavam, enfáticas, seus primeiros versos: “Não quero broto/ Não quero, não quero não!”. “Não sou garoto/ pra viver mais ilusão”, prossegue, “sete dias da semana/ eu preciso ver minha balzaquiana”. E a dupla justificava literariamente a preferência, a princípio pouco usual: “Papai Balzac já dizia/ Paris inteiro repetia/ Balzac tirou na pinta/ Mulher só depois dos 30”. De tão popular, a marchinha ganhou no mesmo ano uma versão de Michel Simon, jornalista francês que foi correspondente no Brasil e levou a balzaquiana tropical à terra de “Papai Balzac” em plena celebração do centenário de sua morte, naquele mesmo 1950.9

Décadas depois daquele Carnaval, a cultura masculinista da internet brasileira voltaria a usar o termo “balzaquiana” em sua corruptela sempre pejorativa: “balzaca”. O nome está entre as dezenas de generalizações, gírias e xingamentos difundidos em ambientes online para promover estereótipos femininos, combater comportamentos considerados nocivos a uma ideia violenta de masculinidade e denunciar um mundo supostamente “ginocêntrico” – ponto de vista a partir do qual as mulheres seriam sempre beneficiadas, sobretudo porque deteriam, como se alega, o “monopólio do sexo”, ou seja, a decisão final sobre quem terá ou não acesso a relações sexuais. Na definição desses grupos, balzaca é a mulher heterossexual que, passada dos 30 e encontrando os primeiros sinais do amadurecimento, percebe um suposto declínio em seu poder de atração e, em presumido desespero, lança-se à procura de qualquer homem medíocre para se associar financeira e emocionalmente, buscando tipos pelos quais jamais se interessaria no auge da juventude e beleza, quando alegadamente só daria chances para indivíduos “de alto valor”.

O termo faz parte de um extenso glossário da “machosfera” nacional, conglomerado de fóruns, blogs, canais, podcasts e coaches que pregam, com diferentes conteúdos e níveis de nitidez, a supremacia masculina, o conservadorismo misógino e o antifeminismo como formas de liberação intelectual numa cultura que consideram dominada pelo progressismo feminino. Como grande parte dos conceitos da chamada alt-right, ou nova direita, as ideias espalhadas nesses cantos da internet são copiadas à risca de fontes americanas e têm como mote um suposto despertar intelectual. Em referência ao filme Matrix (1999), acordar para a realidade significa tomar a pílula vermelha, a red pill que, oferecida ao protagonista, é capaz de fazê-lo enxergar as ilusões do mundo onírico à sua volta. O termo red pill tornou-se então sinônimo tanto da filosofia propagada na machosfera quanto dos seus adeptos, de modo que ser “redpillado” significa “ver a realidade como ela é” – um mundo em que, supostamente, homens estão sendo diminuídos e perseguidos de forma sistemática por mulheres, instituições e leis definidas como “misândricas”.10

A atual rede red pill nasceu nos anos 1970, antes da internet e de sua capacidade de aglutinar ódios, quando surgiram nos EUA os primeiros grupos identificados com o Movimento dos Direitos do Homem. Como uma espécie de reação masculina aos coletivos feministas que se formavam na época, esses indivíduos não enxergavam mulheres como inimigas da masculinidade, mas viam o machismo e o patriarcado como estrutura prejudicial a ambos os lados, problema que deveria ser combatido em conjunto.11 Não demorou até que essas iniciativas masculinas sofressem uma divisão ideológica grave e parte importante de tais movimentos começasse a ver no feminismo a razão para uma pretensa crise da masculinidade branca e cisgênero, contra a qual, e cada vez mais, leis e instituições se posicionariam – daí o “direitos” do nome.

Os atuais defensores dos direitos do homem, que congregam os redpillados e tornam o tema uma de suas bandeiras, afirmam que leis beneficiam mulheres em assuntos como guarda dos filhos, pensões, alistamento militar obrigatório e, sobretudo, acusações de violência. Em outras palavras, feminicídio seria um conceito inexistente, e falsas acusações de estupro e assédio superariam em milhares os casos reais. Essas denúncias serviriam, portanto, como uma arma desleal para mulheres interessadas em prejudicar homens específicos, já que seus relatos seriam considerados genuínos de saída, tanto pela lei quanto pela atual sociedade doutrinada por um progressismo ávido de condenação prévia ao sexo masculino. Sem surpresas, a diferença salarial entre homens e mulheres, a sub-representação feminina em várias áreas ou os dados reais e alarmantes sobre violência de gênero, entre outros, são assuntos que não costumam fazer parte do repertório nesses ambientes.

Ao menos desde 2012,12 quando começou a despontar com nome e características mais definidas, a comunidade red pill nos EUA envolve uma série de conteúdos conservadores mais amplos, da musculação aos memes, da perseguição online à invasão concreta do Capitólio. Nesse contexto, costuma-se seguir uma lógica definida: “Frustração sexual vira frustração política”.13 No Brasil, no entanto, a red pill se consolidou numa dimensão mais específica: a forma como homens hétero devem lidar com mulheres, principalmente em contextos de conquista sexual e relacionamento. Em outras palavras, conteúdos que prometem “reconectar homens com sua masculinidade”, ensinar “técnicas infalíveis” de sedução e “hackear a mente de uma mulher” são oferecidos no país por autodenominados “mestres da pegação” – os chamados pick-up artists (PUAs). Foram os PUAs que tiveram seu auge nos EUA dos anos 2000 com reality shows e a publicação de “guias de pegação”, como The Game, de Neil Strauss, o mais famoso deles. Nascidas na misoginia e na violência, as chamadas “táticas” difundidas nesses canais ganharam traços de ódio ainda mais nítidos com a posterior conceituação red pill.

Se o livro de Strauss já propagava o negging, ou o ato de diminuir uma mulher para que ela se interesse por você, a comunidade red pill faz o mesmo baseada numa rede sistematizada de conceitos misóginos. É nesse formato específico – uma junção de técnicas PUA, discurso e divulgação típicos dos coaches, além de forte conceituação misógina – que o termo red pill se apresenta no Brasil. É nesse formato, ainda, que homens hétero e receosos de perder seus privilégios formam um tipo de confraria que incentiva o game – ou a “pegação” – como maneira autorreferente de poder, como deixa claro o testemunho de um redpillado: “Antes de participar dessa comunidade, eu tinha medo de falhar diante de mulheres. Agora meu medo é falhar diante de homens.”14

A balzaca é uma das noções mais importantes na versão brasileira da doutrina red pill, concentrando algumas das diretrizes fundamentais desse sistema que tem por base uma junção de psicologia evolutiva e neoliberalismo.15 Dirigindo-se sempre aos chamados machos alfa, os redpillados afirmam que todas as mulheres heterossexuais seguem padrões de comportamento geneticamente imutáveis desde a aurora da humanidade, condutas que podem ser quantificadas e explicadas por variáveis e gráficos, o sexo como uma espécie de ativo econômico, e o chamado “valor sexual de mercado”, índice que definiria a posição de cada um no jogo da sedução. Chegada à fase balzaca depois de ter vivido sem esforço o auge da curtição e beleza, dos 16 aos 28, mulheres se deparariam com a chegada do “inverno” ou “parede”, momento em que esse mesmo “valor sexual” começaria a decair. É justo nesse ponto, em torno dos 30 anos, que o índice masculino entraria numa ascendente – ao cabo de um longo período de musculação, promoções no trabalho, enriquecimento e status crescente – depois de ter amargado, em posição inferiorizada, o momento privilegiado do indicador feminino. As linhas então se inverteriam pela primeira vez, seguindo nessa mesma configuração – mulheres em queda e homens em ascensão –, nos anos que se sucedem às três primeiras décadas de vida.

Esse contexto justificaria a caracterização da balzaca como uma espécie de tia desesperada, confrontada pela primeira vez com o fato de não conseguir mais atrair os mesmos machos alfa de antes. Restariam a elas, então, os “beta”, homens que sempre foram ignorados por mulheres durante a juventude por conta de timidez, eventual excentricidade, forma física fora dos padrões e falta de lábia, bobões desavisados que estariam dispostos a assumir e suprir uma balzaca sem se dar conta de seu decadente arco narrativo. Considerando essa presumida desigualdade, qualquer relacionamento com mulheres acima dos 30 costuma ser execrado pela comunidade red pill, o que na fórmula em inglês recebeu a sigla NMAWOT – never marry a woman over thirty ou “nunca se case com uma mulher acima dos 30”.

Não é difícil encontrar machismo e generalizações problemáticas no romance de Balzac quando o assunto é uma pretensa natureza feminina, seu modo de agir, pensar e, sobretudo, se relacionar com homens. Num trecho dos mais explícitos nesse sentido, o narrador afirma, ao comentar o adultério, que “a santidade das mulheres é inconciliável com os deveres e as liberdades da sociedade” e adverte: “Emancipar as mulheres é corrompê-las”. Sem chegar a defender a “reclusão ordenada outrora à mulher”, também pondera que, dada a inevitabilidade da traição mútua diante de um casamento que “pesa, entedia e cansa”, o confinamento seria a única e extrema maneira de garantir completamente a “salvaguarda da moral doméstica”. A lista de atributos femininos prossegue afirmando que “a devoção é uma virtude de mulher” e defende que as mulheres de 30 anos, “feias”, ficam “lisonjeadas por um amor que as torna belas”.16

Também não é difícil encontrar no romance críticas à condição feminina da época. Como mito fundador da balzaca, A mulher de trinta anos talvez diga mais contra do que a favor da ideologia red pill, sobretudo no que diz respeito ao antifeminismo definidor da machosfera. Apesar de ser um “poço de contradições”, como afirma Eliane Robert Moraes,17 Julie também dá mostras do “mais lúcido feminismo avant la lettre18 ao depor abertamente contra a sujeição feminina e ao fazer monólogos inteiros criticando a instituição do casamento nos moldes em que vivia. O assunto não era novidade na obra de Balzac. Em Fisiologia do casamento, ensaio de 1829, ele já criticava as imposições direcionadas às esposas e analisava as formas de adultério feminino a partir de um ambiente sufocante de autoridade masculina.

Em Julie, no entanto, essas ideias aparecem na voz marcada de uma personagem que, após o casamento e o início das obrigações domésticas como esposa e mãe, “acorda de repente à beira ou no fundo de um abismo”. A princípio demonstra cansaço e se percebe “feia, sofredora e velha”, alguém cujo “rosto, sempre delicado, estava privado das cores róseas que antigamente lhe davam um brilho tão intenso”, mulher que sentia a própria beleza como algo “insuportável” e “inútil”. O reconhecimento da insatisfação evolui o suficiente para que ela perceba o próprio casamento como algo que “amaldiçoava”, e que ela mesma se “desprezava”, chegando a cogitar que “gostaria de estar morta”. Tudo isso enquanto o marido, já experimentado nas escapadas, “dormia sereno a seu lado, sem ser acordado pelas lágrimas quentes que sua mulher deixava cair sobre ele”.19 Antes de completar 30 anos, Julie expressa sua indignação num diálogo com o padre da cidade, no que talvez seja o trecho mais forte do livro:

Somos nós, mulheres, mais maltratadas pela civilização do que seríamos pela natureza. A natureza nos impõe penas físicas que os senhores não abrandaram, e a civilização desenvolveu sentimentos que os senhores enganam incessantemente. A natureza sufoca os seres fracos, os senhores os condenam a viver para entregá-los a uma infelicidade constante. O casamento, instituição sobre a qual se apoia hoje a sociedade, faz-nos sentir, só a nós, todo o seu peso: para o homem a liberdade, para a mulher os deveres. Devemos aos senhores toda a nossa vida, os senhores só nos devem a sua em raros instantes. Por fim, o homem faz uma escolha ali onde nós nos submetemos cegamente. Oh, ao senhor posso dizer tudo! Pois bem, o casamento, tal como se pratica hoje, parece-me ser uma prostituição legal. Daí nasceram meus sofrimentos. Mas só eu, entre as criaturas infelizes tão fatalmente casadas, devo manter o silêncio! Só eu sou autora do mal, pois quis meu casamento.20

Ao classificar o matrimônio como “prostituição legal”21 e, mais à frente, afirmar que “gostaria de fazer a guerra contra esse mundo para renovar suas leis”,22 a balzaquiana original passa longe daquilo que define a balzaca na cabeça redpillada. A diferença não está apenas na consciência e na raiva da protagonista, como também no fato de que, em vez do desespero para se associar a um homem, o desespero de Julie é para se livrar dele e das obrigações surgidas com a união – o que continua a assombrá-la até o fim da vida. Se, ao atingir os 30 anos, ela já se encontra madura o suficiente para que seu “pudor” não mais a impeça de cultivar um caso extraconjungal, como ocorrera aos 20, é porque só nessa idade “uma mulher pode conhecer os recursos dessa situação”23 – ou seja, é quando a amargura se funde ao escárnio e à descrença total, ainda que estes não sejam suficientes para uma eventual separação definitiva. Ter um amante não salva ou culpabiliza Julie, mas, ao contrário, parece deixar ainda mais evidente a situação inescapável em que ela se encontra como esposa e mãe, o que só se agrava com o correr dos anos.

Não se tem notícia de usos red pill para A mulher de trinta anos como inspiração direta. O livro não aparece como repositório de suas teorias sobre mulheres em geral, ou da balzaca em específico, mas é fácil imaginar essa apropriação, e não seria a primeira vez que algo parecido acontece. Redpillados não raramente reivindicam Ars amatoria, o clássico de Ovídio, como o primeiro “manual de pegação” do mundo – a referência serve como lastro a suas pílulas de conhecimento.24 O mesmo acontece no grande malabarismo feito com a filosofia estoica, usada nesses contextos para afirmar uma suposta superioridade emocional masculina, fria porque sempre equilibrada.25 No caso do famoso romance de Balzac, não é preciso muita imaginação – e tampouco honestidade intelectual – para insinuar que Julie reafirma o difundido estereótipo da mulher interesseira que trai, mas não se separa, porque tem no marido a segurança financeira e social.

O horror redpillado às balzacas se estende ainda a diversos outros estereótipos femininos identificados por termos igualmente pejorativos, como as mulheres com vários ex-parceiros, as mães solo e, é claro, as progressistas em geral. Era previsível que tanto ódio direcionado pela frustração sexual fosse redirecionado, por parte desses homens que se dizem desiludidos, aos próprios coaches red pill que promovem táticas de sedução, gerando um movimento de perseguição interna e mais subdivisões no campo masculinista. A lógica, nesse argumento, é que, ao elegê-las como objetivo final, essa retórica ainda confere importância às mulheres, mesmo que o faça ao diminuí-las, num jogo que condenaria homens a uma eterna e humilhante perseguição amorosa. Não é de estranhar, no limite, que do interesse inicial em táticas de sedução e misoginias variadas, a lógica passe então para uma outra espécie de ódio, que cultiva o horror absoluto e a violência contra mulheres em geral, o que se define pela frase “se não posso tê-las, vou destruí-las”.26 O tal “despertar para a realidade” da pílula vermelha mostra-se então em seus contornos mais brutais.

Ao fim de A mulher de trinta anos e em tom de denúncia, é inegável que os vencedores não são os redpillados, é claro, mas as estruturas que defendem. Não só Julie acaba sendo “a desilusão em pessoa”27 – tanto quanto convém à definição de balzaca –, como também se culpa por seu destino. O afeto pelos filhos, já morno, esfria ainda mais na relação com os netos. É frequente lembrar do pai, contrário ao casamento, e demonstrar “sofrimentos permanentemente recalcados” que, segundo o narrador, imprimiam a ela “um não sei quê de mórbido”. Não há resquícios da alegria e felicidade presentes na moça que, na primeira cena do livro, corre para o desfile militar, supondo felicidade ilimitada no matrimônio e na maternidade. Sem ser nem “mãe nem esposa”, resta-lhe a vergonha de si e o desgosto de ver repetidas suas angústias juvenis na vida da filha que lhe sobrou. Como diz o autor, Julie “devia sempre sofrer por não ser o que poderia ter sido”,28 condenada a um eterno “e se?” apontando para uma vida em que juventude, beleza e ilusões amorosas seriam aspectos pouco importantes diante da própria liberdade. Mas já é tarde demais, e não há mais tempo para nada além de morrer de desgosto. Não há mais tempo para uma eventual satisfação trazida pela maturidade – experiência, coqueterias ou outras nuances “que jamais se encontram no amor de uma mocinha”.29 Sem mais tempo para ser balzaquiana, balzaca ou qualquer outro estereótipo feminino, mas apenas uma mulher em pedaços.

O post A machosfera contra as balzacas apareceu primeiro em revista serrote.

O que querem os haters?

Dizem que sou a mulher mais odiada da internet no Brasil. Não acredito muito, porque isso seria me dar importância demais. Em março deste ano, quando fui ministrar uma palestra na Universidade de Brasília e destacaram 30 seguranças para me proteger (comboio de três carros para me levar de um campus ao outro, rota de fuga, policiais à paisana), um deles me disse que haviam dispensado o mesmo esquema ao Lula e ao dalai-lama quando eles visitaram a UnB. Respondi que nesses casos eu entendia o motivo de tal aparato, mas para mim, que sou apenas uma blogueira e professora universitária? Não faz nenhum sentido. Mas tampouco o ódio faz sentido.

Recentemente uma repórter de uma emissora de TV veio em casa me entrevistar sem saber nada a meu respeito, e sua primeira pergunta foi: “O que você fez para ser tão odiada?”. Eu disse que não gostei muito da pergunta, porque me põe como responsável pelos insultos, ataques e ameaças que recebo quase diariamente. Não tenho haters na “vida real”. Na internet, porém, eles abundam, ainda que eu não seja nenhuma celebridade.

Assim que comecei o Escreva Lola Escreva, em janeiro de 2008 – em pouco tempo ele se tornou o maior blog feminista do Brasil –, os trolls apareceram. Não creio que no início fossem haters. Qual a diferença? Um hater é alguém que odeia você, desvaloriza você, nega suas conquistas e torce pelo seu fracasso. Elise Moreau diz que a própria palavra é um acrônimo, que significa “having anger toward everyone reaching success”, ou “sentir raiva de todo mundo que tem sucesso”.1 Já o troll quer a destruição total e geral, ver o circo pegar fogo, gerar lulz (risadas), “causar”. O troll é aquele que deixa um comentário asqueroso e fica espiando o estrago. Ele não necessariamente odeia você. E um hater nem sempre quer escândalo. Mas, muitas vezes, os termos para essas pragas on-line são usados sem tanta distinção. Confesso que não penso se quem está me atacando é troll ou hater. Às vezes os descrevo como “meus inimiguinhos”. Mas até isso eles me negam. Dizem: “Inimigos? Quem você pensa que é? Uma super-heroína?”. Não, mas não posso chamar de inimigo alguém que me desafia a mostrar ao meu marido um comentário tentando convencê-lo a me matar?

Meus trolls e haters sempre tiveram o mesmo perfil: são homens brancos e heterossexuais (embora eu tenha alguns haters gays também) de extrema direita que não são apenas misóginos, mas também racistas, lgbtfóbicos, gordofóbicos, enfim, um combo de preconceito. Imagino que não sejam diferentes dos trolls que infestam os canais de outras ativistas. No início do meu blog eles não eram muitos. Tanto que minha caixa de comentários conseguiu aguentar mais de quatro anos sem moderação. Mas com o tempo eles foram se tornando cada vez mais numerosos e insuportáveis.

O que fiz – se é que fiz alguma coisa, como quis saber a repórter – foi descobrir ainda em 2008 um nível de misoginia que eu desconhecia fora da internet. Sem querer, descobri que nos Estados Unidos existem grupos de homens autointitulados Men’s Rights Activists [Ativistas pelos direitos dos homens], ou MRAS, que acreditam que vivemos em um matriarcado e que a verdadeira vítima do mundo moderno é o homem branco e hétero. Não é preciso gastar mais do que cinco minutos em qualquer fórum deles para constatar que não lutam por direito algum, a não ser o direito de atacar, oprimir e tentar silenciar mulheres em geral e feministas em particular. No Brasil – só descobri dois anos depois – eles se chamavam masculinistas.

Meu primeiro contato indireto com masculinistas foi em outubro de 2008, quando uma comunidade no Orkut intitulada Suprema Ordem dos Homens de Bem chamou atenção ao comemorar o assassinato de Eloá, uma menina de 15 anos morta pelo ex-namorado depois de 100 horas de cárcere privado transmitido ao vivo de São Paulo para todo o país. Eu não podia acreditar que havia rapazes saudando o assassino como herói por ele ter eliminado uma “vadia mirim”.

Apenas no início de 2011 escrevi o primeiro post sobre masculinistas, descrevendo sua ideologia: acreditar que todas as mulheres lhes devem vagas de emprego, lugar nas universidades e sexo. Esse post gerou tantos comentários absurdos que selecionei as pérolas para fazer um segundo post. Foi a primeira vez que usei o termo “mascu”, que, a meu ver, é somente uma abreviação de masculinista. Mas o termo pegou e praticamente acabou com o masculinismo no Brasil (pelo menos no nome), já que nenhum deles queria ser tachado de mascu.

Meu bom humor durou pouco. Em 7 de abril de 2011, um rapaz problemático de 23 anos, Wellington Menezes, entrou na escola estadual no Rio onde havia estudado anos antes e matou dez meninas e dois meninos, todos alunos, no que ficou conhecido como o massacre de Realengo. Pelo vocabulário que usava e pelo fato de ter atirado nas meninas para matar e nos meninos para ferir, Wellington era um mascu. No dia seguinte ao da chacina, vários blogs e fóruns mascus foram tirados do ar, por medo da polícia. O mais popular era o de Silvio Koerich (um pseudônimo). Um semestre depois, esse blog foi reaberto com conteúdo ainda mais extremista, pregando a legalização do estupro e da pedofilia, o estupro corretivo para lésbicas e o assassinato de negros e mulheres. Ele também prometia um massacre na UnB e oferecia recompensas a quem liquidasse seus alvos preferidos: o então deputado federal Jean Wyllys e eu.

Finalmente, depois de oito meses e 70 mil denúncias na SaferNet (ONG que lida com ódio cibernético), os dois principais autores do blog, Marcelo Valle Silveira Mello e Emerson Eduardo Rodrigues, foram presos pela Operação Intolerância e condenados a mais de seis anos de cadeia. Mas eles saíram um ano e três meses depois, em maio de 2013, e voltaram a fazer exatamente o que faziam antes, especialmente Marcelo. Ele estava tão revoltado que conseguiu a façanha de ser expulso de chans (fóruns anônimos tão misóginos que tratam mulheres por “depósitos de porra”) e fundou um fórum próprio, o Dogolachan. Como eu, que não sou frequentadora de chans, fiquei sabendo? Porque Marcelo fez questão de me enviar o link. Assim eu poderia acompanhar as ameaças de morte e estupro que me eram dirigidas diariamente. Registrei 11 boletins de ocorrência.

O que queria Marcelo, meu hater número um? Queria vingança, pois me via como a principal responsável pela sua prisão. Queria incomodar, por isso me processou duas vezes (depois abandonou as ações) e mandava sua gangue ligar para a minha casa. Queria me calar, queria que eu tivesse medo. Queria que eu desenvolvesse alguma doença e morresse. Queria matar meu marido para que eu me sentisse culpada. Queria que meu marido me deixasse. Quando, em outubro de 2015, Marcelo criou um site falso em meu nome, defendendo castração, infanticídio e aborto de meninos, seu objetivo confesso era de que eu fosse linchada na rua. Queria me matar. Negociou com um ex-policial em Curitiba a minha morte (fazendo parecer um latrocínio) por 80 mil reais. Queria que eu perdesse meu emprego de professora, por isso mandou que um dos membros da quadrilha enviasse ao reitor da UFC uma ameaça no final de 2016 – ou ele me exonerava, ou passaria uma semana recolhendo pedaços de 300 cadáveres resultantes de um atentado com bomba.

Depois de cinco anos de ódio ininterrupto, Marcelo foi preso novamente, em maio de 2018, pela Operação Bravata. Em dezembro, foi condenado a 41 anos de prisão. No entanto, o Dogolachan segue funcionando, agora na deep web (o massacre de Suzano, em 13 de março de 2019, foi anunciado e muito comemorado lá), e as ameaças nunca pararam de chegar. Esta é de 30 de julho de 2019, deixada no meu blog: “Só um recadinho: sua cabeça já foi leiloada. E o hitman que vai ter a oportunidade de arrancar sua cabeça já está pago. Não é promessa, é aviso.”

O que quer um hater desses? Me amedrontar. Ele já devia ter entendido, depois de oito anos de ameaças, que isso não funciona comigo. Talvez este gigantesco comentário anônimo deixado no meu blog no fim de junho ilustre o que se passa na mente de um hater:

Lola, você destruiu minha vida. E obrigado por isso. Conheci seu blog em meados de 2011. Eu tinha um emprego que me dava uma boa grana, uma linda namorada e estava começando o curso de direito. Foi um pouco depois do meu aniversário que me foi apresentado seu blog, me lembro que foi no Orkut. A minha primeira reação pro primeiro post seu que li: QUE MERDA ESSA GORDA PUTA ESTÁ DIZENDO? Não me lembro qual foi o post, mas dizia algumas asneiras das quais tenho nojo de lembrar. Eu fechei o navegador na hora. Fiquei um ano ou menos sem ter notícias suas. Então no início de 2012 eu me deparo com um tópico onde usuários de um fórum anônimo te xingavam de “porca” e “jabba”. Procuro pelo nome do blog que estava no tópico e, pra minha infelicidade, era a mesma bosta que eu tinha me deparado alguns meses antes. Decidi ler mais textos seus, e o meu ódio e nojo foi florescendo. Não dava mais pra parar, Lola: nesse ponto da minha vida, você já era a pessoa que eu mais odiava. E lá se foram três anos entrando todos os dias em seu maldito blog e me espantando todas as vezes. Eu já odiava feministas e esquerdistas antes de conhecer seu blog, mas a coisa aumentou em mais de 2000 FUCKING VEZES depois de ter te conhecido. Foram muitas ofensas à sua pessoa, eu debatia em fóruns (e também em comunidades do finado Orkut) e via o quanto de gente te odiava também. Mas comigo era diferente, pois eu AMAVA te odiar. Eu sentia prazer em te odiar, te xingar e imaginar a sua reação ao ler minha mensagem. Desenvolvi uma tara por isso. Cá estamos, Lola. Em 2019. Eu já conheço seu Twitter e agora seu canal [no YouTube]. Agora também gosto de imaginar o Silvinho [meu marido] sofrendo, e sua mãe também. E suas seguidoras. Você destruiu minha vida, Lola, me transformou em alguém que eu jamais imaginaria ser oito anos atrás. Meu emprego? Fui demitido, e agora estou recebendo 5x menos do que antes. Tranquei a faculdade por não aguentar conviver mais com lacradoras e feministas. Eu sempre via suas seguidoras nos colegas de classe. Minha namorada? A vadia se mostrou petralha, e mais tarde feminazi. Suspeito que ela tinha contato com tanto lixo através de seu blog. Terminei na hora, claro, afinal não achei meu pau no lixo. Lola, você é responsável por isso. Mas quer saber? Eu realmente me sinto melhor agora, eu me sinto mais disposto do que nunca. Descobri um novo hobbie [sic]: te fazer sofrer. Seu sofrimento me motiva e eu sinceramente não gostaria de ser “curado” desses meus sentimentos. Eu não sou exatamente quem eu era, eu me redescobri, graças a você, Lola, graças ao ódio que eu sinto por você. Seu ódio me libertou, Lola, e eu te agradeço por isso. Eu te odeio, Lola, e eu amo te odiar.

Nenhum fã meu será tão fiel quanto esse hater. Ele vive para mim. Num mundo em que reina a modernidade líquida,2 em que as relações passam a ser tão pouco duradouras, um hater é quase garantia de um longo relacionamento. O comentário desse hater fala muito pouco sobre mim – em momento algum ele descreve o que escrevi que o deixou tão indignado –, mas fala tudo sobre ele. Ele ama me ver sofrer. No entanto, para isso ele precisa acreditar com todas as forças que eu sofro, que suas palavras me causam algum tipo de sofrimento. Essa é uma fantasia constante dos haters. Acham que, depois de ler suas ofensas e ameaças, irei me retirar para “chorar em posição fetal”. Um hater, não sei se o mesmo do comentário gigante, já que são quase todos anônimos, reclamou que, em entrevistas, sempre digo que o ódio não me afeta. Durmo bem à noite, obrigada, e só chorei uma vez com algo relacionado à internet nesses quase 12 anos de blog: quando o site de ódio que Marcelo fez em meu nome viralizou. Minha tristeza foi pelo fato de que, apesar de dedicar tanto tempo ao meu blog, em uma semana um blog horrível conseguiu ter mais tráfego que o meu. Claro que, para viralizar, o site falso precisou da ajudinha de reaças mais importantes, como Olavo de Carvalho e Roger, da banda Ultraje a Rigor. Eles divulgaram o site falso em meu nome sabendo que não era meu.

Para o hater eu estou mentindo, e é óbvio que um ser abjeto que eu nunca vi, com quem nunca falei nem quero falar destruiu a minha vida. Esse é um dos motivos pelos quais nunca processei ninguém. Eu poderia ter processado Roger, por exemplo. Ele é um dos meus haters e já me atacou diversas vezes. Porém, para pedir indenização por danos morais você precisa provar que aquele ódio o afetou. Algo como você ter desenvolvido depressão ou insônia, com um laudo médico para comprovar. No meu caso, o que eu alegaria? Que Roger ter divulgado um site de ódio em meu nome me fez chorar por alguns minutos? A repercussão desse episódio rendeu um Profissão Repórter sobre mim, inúmeras entrevistas, uma indicação ao prêmio Coragem, dos Repórteres sem Fronteiras, e, mais importante, a criação e eventual aprovação da lei n. 13.642/18, a Lei Lola, que atribui à Polícia Federal a responsabilidade de investigar crimes contra as mulheres na internet. Pela primeira vez, a legislação brasileira tem uma lei que conta com o termo “misoginia”.

O ódio não me afeta porque, por um lado, não é tão pessoal. Os haters não me odeiam por eu ser a Lola. Eles mal me conhecem. Eles me odeiam por eu ser feminista. Alguns por eu ser mulher. Outros por eu ser gorda. Muitos por eu ser de esquerda. Para alguns haters, a coisa fica mais pessoal. Eles já me odiavam por eu ser feminista, e eles já têm tudo decifrado na cabeça sobre o que é ser feminista. São mulheres que querem ser homens. Que têm inveja dos homens. Que odeiam todos os homens (ninguém disse que não seria contraditório). Que matam seus filhos, se divorciam dos maridos e viram lésbicas. Que são bruxas. Que sempre foram lésbicas. Que são mal-amadas. Que são ogras peludas. Não espere grande originalidade daqueles que odeiam mulheres que lutam – seus antepassados falavam exatamente a mesma coisa sobre as sufragistas.

Ou seja, os haters querem um viés de confirmação – buscam informação, mesmo falsa, que valide aquilo em que eles já acreditam. E comigo eles não encontram, já que não odeio nem tenho inveja dos homens. Sou casada com um há 29 anos e tenho muitos amigos e leitores homens. Esse é outro problema para os haters. Para eles, uma mulher gorda não merece ser amada ou desejada (nem sequer estuprada). Então é seguro dizer que eles têm uma enorme obsessão pelo meu marido. Durante anos, juravam que ele não existia (as fotos com ele que eu colocava no meu blog seriam montagem, ou ele seria um ator contratado). Quando se convenceram de que ele é real, passaram a ameaçá-lo de morte. Preferia quando achavam que ele não existia.

Sigo com minha vida. No fundo, sei que muitos haters fantasiam algum tipo de relacionamento comigo, e se eu lhes desse alguma migalha de atenção talvez eles virassem meus fãs. Mas não quero falar com eles. Nem vou me rebaixar ao nível deles e passar a odiá-los. Porque, ao contrário do que muita gente pensa, o oposto de ódio não é amor – é indiferença. E isso eu tenho de sobra para lhes dar.

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