Ramones há 50 anos foi o Davi contra os Golias do rock
“Ramones (Sire), pode ser, ou não, o melhor disco do ano até agora, mas seja qual for seu destino – bom ou ruim – terá repercussões que interessarão a qualquer um que ame o rock and roll”. Início da resenha de Paul Nelson, na revista Circus, do disco de estreia do Ramones, em julho de 1976. Aquele LP que o resenhista considera que passa a falsa impressão de simples, com 14 faixas curtas, pouco polidas tratava-se do mais subversivo disco desde que Elvis Presley lançou, pela Sum Records, sua versão de That’s All Right, de Arthur Big Boy Cruddup, 22 anos antes.
Na segunda metade dos anos 70, o rock estava rico, autoindulgente, as bandas e estrelas mais badaladas não diferiam muito dos adolescentes de dentaduras de comerciais de dentifrícios, que invadiram a cena depois que Elvis foi servir o exército em 1958, Vendiam muito, enchiam os cofres das gravadoras, que permitiam-lhes extravagâncias, rios de dinheiro para fazer um disco como lhes aprouvessem.
“Nos últimos cinco anos o custo médio para produzir um álbum subiu de 25 mil para 50 mil dólares. Estimativas modestas, ambas. Até o disco do Ramones, o disco mais barato em que posso pensar foi o disco No More No Less, do Blue Bush (Mercury), que custou 12 mil dólares, e isto porque o estúdio onde foi gravado pertence, em parte, à gravadora, que cobrou um preço bem baixo por hora de uso.
Por outro lado, eu sei de fontes seguras que um disco, de uma banda americana bem famosa custou mais de 600 mil dólares. A 100 dólares por hora, custo médio dos estúdio, isto dá 6 mil horas de gravação. Ou 250 vezes 14 horas. Oito meses a 16 centavos por minutos… Meu ponto é que ninguém precisa gastar 600 mil dólares para gravar um disco de rock. É obsceno, mesmo que o artista possa bancar.
Ramones custou 6.400 dólares, e foi feito em menos de uma semana. E é tão bom quanto, Chega tão perto do verdadeiro espirito do rock na roll do que o de 600 mil dólares. Se a Sire vender 15 mil discos o grupo vai ganhar dinheiro. E já que são tão baratos, continuarão a fazer discos a custos razoáveis, sem sofrer pressões para se tornarem superstars ou debandar.
Acreditem ou não, é preciso coragem para uma banda gravar um disco por 6.400 dólares. Alguns podem achar uma piada. Mas o Ramones não é nenhuma piada… Vamos torcer para que Joey, Johnny, Tommy e Dee Dee acordem alguém antes que um LP médio custe cem mil dólares. E algum babaca torre 1 milhão em dez músicas que soem feito pílulas de dormir de aço inoxidável”.
Paul Nelson (faleceu em 2006) era um dos principais jornalistas de música americanos desde o início dos 60. Tinha um texto admirável. Focou no custo da gravação do disco Ramones, porque o rock, há 50 anos, tornara-se flatulento, limado, sem arestas. É provável que o disco que diz ter custado 600 mil dólares seja o Tusk, do Fleetwood Mac. Depois de ter vendido toneladas do álbum Rumours, recebeu sinal verde da gravadora pros gastos. Gravou um disco duplo, que não emplacou, e foi o começo da descida da rampa pra banda. Eis que o Ramones chegou apontando o caminho, que não passava pela autoestrada, mas por uma picada segura, e que encurtou o caminho para o rock voltar a incomodar.




