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Racismo e exclusão no mercado do amor

Na literatura e na poesia, são vários os aforismos que descrevem o amor como um sentimento puro e desinteressado. Mas a ideia de que o amor é cego não se sustenta na vida real. Pesquisas da socióloga Maria Chaves Jardim, professora do Departamento de Ciências Sociais da Unesp de Araraquara e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da mesma universidade, mostram que relações afetivas também são atravessadas por desigualdades sociais e que mulheres negras ocupam a posição mais vulnerável no chamado mercado do afeto.

Desde 2017, no Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Emoções, Sociedade, Poder, Organização e Mercado (Nespom), Jardim investiga como aplicativos de relacionamento reproduzem — em vez de reduzir — desigualdades presentes na sociedade. Em um estudo de etnografia digital, financiado pela FAPESP, a pesquisadora interagiu com mais de uma centena de homens nos aplicativos Tinder e Badoo, realizou 15 entrevistas presenciais e conversou com integrantes de um grupo virtual fechado em que mulheres compartilham experiências relacionadas à vida afetiva e suas estratégias para fazer sucesso nos aplicativos.

Os resultados mostram que as ferramentas estão longe de democratizar o acesso ao amor e reproduzem constrangimentos sociais presentes fora do ambiente digital, favorecendo determinados perfis e excluindo outros. Padrões estéticos e preconceitos influenciam diretamente quem é visto como desejável e quem permanece invisível.

A interpretação parte da sociologia econômica, que entende o mercado como um espaço moldado por valores e relações sociais, e não como um ambiente neutro. “Não há aqui uma mágica, um cupido. Há elementos sociais e, entre eles, a exclusão de mulheres fora do padrão estético — que estão acima do peso ou têm o tom de pele diferente daquele considerado legítimo, que é o branco”, afirma Jardim.

A popularização dos aplicativos de namoro trouxe a promessa de ampliar as possibilidades de encontro. Com opções para diferentes perfis e interesses — como idosos, veganos e tantos outros —, criou-se a ideia de um mercado afetivo mais acessível. “Esse discurso é uma falácia, especialmente para mulheres pretas, dado o contexto de vulnerabilidade social, econômica e política no qual grande parte delas se encontra”, afirma Paulo Carvalho Moura, doutorando em Ciências Sociais na Unesp e integrante do Nespom.

Segundo Moura, os aplicativos não eliminam desigualdades, apenas reorganizam e reforçam preconceitos já existentes. “O ambiente digital não é livre de constrangimentos sociais. Trata-se de um mercado com hierarquias e padrões, considerando fatores como raça, gênero, escolaridade e gosto cultural”, destaca.

Quem fica de fora

Se o primeiro estudo mostrou como os aplicativos reproduzem desigualdades, uma pesquisa posterior, publicada na revista Tomo em parceria com Renata Paoliello, também da Unesp, buscou compreender de que maneira essas dinâmicas afetam especificamente a experiência de mulheres negras.

O grupo analisou dados de 64 mulheres negras com diferentes perfis socioeconômicos para avaliar o impacto da cor da pele nas experiências afetivas. O primeiro grupo reunia 45 delas, das quais 40 tinham diploma superior. O segundo era formado por 19 mulheres pretas, sem diploma superior, moradoras de um bairro popular de Araraquara. A conclusão foi direta: mulheres negras enfrentam barreiras estruturais também no mercado do afeto. “O amor, como todas as relações sociais, tem relação com poder. Alguns terão mais acesso a ele do que outros, pois o sentimento está sustentado por valores que carregamos no inconsciente, e o racismo é um deles”, explica Jardim.

Entre as entrevistadas, surgem padrões recorrentes de sofrimento relacionados ao racismo, sofrido desde a infância e adolescência, à invisibilidade afetiva e a relacionamentos abusivos. Embora frustrações amorosas façam parte da experiência de muitas, Jardim observa que elas costumam ser retratadas de formas distintas. Com frequência, o debate público associa as dificuldades enfrentadas por mulheres brancas ao dilema entre casamento e carreira. Já entre as mulheres pretas ouvidas pela pesquisa, o obstáculo aparece antes mesmo desse ponto: muitas descrevem dificuldades para estabelecer relações afetivas estáveis. “O dilema da mulher branca pressupõe uma possibilidade de escolha. A da mulher preta não contempla isso”, comenta a pesquisadora.

Segundo Thaís Caetano de Souza, doutoranda em Ciências Sociais pela Unesp e integrante do Nespom, essa diferença ajuda a compreender por que muitas afirmam não conseguir sequer acessar o modelo de relacionamento romântico tradicional. “A desigualdade aparece de forma mais profunda para mulheres pretas. Elas não estão reorganizando a vida afetiva em prol de projetos profissionais; elas simplesmente não possuem uma vida afetiva no modelo romântico de construção de uma família”, afirma.

Quando o amor não se concretiza

O desejo por relações estáveis aparece na fala das entrevistadas, seja na expectativa do casamento, seja experiências cotidianas simples, como andar de mãos dadas com o parceiro. Jardim coloca seus dados da pesquisa de campo em diálogo com as teorias existentes na sociologia sobre o amor, como o amor romântico, o amor confluente, o poliamor e o chamado “amor líquido”, caracterizado por relações frágeis e instáveis. Entre parte das mulheres pretas ouvidas na pesquisa, porém, esta última acaba sendo percebida como a única possibilidade concreta.

Como consequência, muitas relatam início tardio da vida afetiva e sexual e, em alguns casos, o estabelecimento de relações marcadas pela falta de compromisso ou pela posição de amante, não por escolha, mas pela escassez de alternativas percebidas.

Outro padrão recorrente é o tipo de abordagem recebida nos aplicativos: convites de cunho sexual, que reforçam a objetificação e reduzem as possibilidades de construção de vínculos duradouros. Diante dessas barreiras, algumas relatam optar pelo celibato definitivo, enquanto outras acabam construindo famílias como mães solo. Esse quadro contrasta com o estereótipo historicamente atribuído às negras como pessoas naturalmente hipersexualizadas. Entre as mulheres pretas com diploma universitário, a pesquisadora observou que muitas optam pela solidão afetiva em vez de aceitar relacionamentos “líquidos”.

As experiências narradas pelas participantes da pesquisa não aparecem isoladamente. Indicadores nacionais mostram que as desigualdades observadas nas entrevistas também se refletem na formação de casais e famílias no Brasil. Dados do Censo de 2022 do IBGE revelam maior probabilidade de casamento para mulheres brancas (51%) do que para pretas (44%). Já entre as mães solo, negras (pretas e pardas) representam cerca de 90% do total entre 2022 e 2023, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV).

As consequências desse processo, no entanto, não se limitam às trajetórias afetivas. Elas também repercutem na saúde mental das entrevistadas. Segundo Jardim, os impactos emocionais da exclusão afetiva vão além do sentimento de rejeição e da baixa autoestima. A equipe agora pretende investigar de forma mais aprofundada suas consequências para a saúde mental das mulheres pretas. “Esse quadro pode contribuir para o adoecimento psíquico, incluindo depressão e processos de medicalização, e será objeto da próxima etapa da pesquisa”, afirma.

Para a pesquisadora, um dos principais efeitos do estudo é deslocar a responsabilidade do plano individual para o coletivo. Ao reconhecer que essas experiências refletem desigualdades estruturais, muitas deixam de atribuir exclusivamente a si mesmas a culpa pelo chamado “fracasso afetivo”.

“Isso não resolve os problemas pessoais, mas produz uma tomada de consciência de que se trata de uma questão social. É uma forma de compreender que o problema não está nelas, mas na maneira como a sociedade organiza seus preconceitos, colocando em uma hierarquia quais são as mulheres dignas de serem amadas e as que não merecem o amor”, conclui.

Garimpando o solo atrás de avanços tecnológicos

Em 2004, Andre Geim e Konstantin Novoselov, ambos físicos da Universidade de Manchester, no Reino Unido, utilizaram uma fita adesiva comum para isolar, pela primeira vez, uma folha atômica de grafite, inaugurando uma nova classe de materiais. Conhecido como grafeno, o material conduzia eletricidade tão bem quanto o cobre, era um excelente condutor de calor e, embora sua estrutura muito compacta de carbono o fizesse muito denso, sua espessura ultrafina conferia extrema flexibilidade. A própria obtenção do grafeno foi considerada um feito surpreendente na época, dado que era impensável que materiais cristalinos formados por apenas uma camada atômica fossem estáveis. Tamanho foi o impacto da descoberta que, seis anos após a obtenção do grafeno, a dupla foi agraciada com o Nobel de Física. 

Embora mais de duas décadas tenham se passado desde a descoberta de Geim e Novoselov, cientistas continuam explorando essa nova classe de materiais, conhecida como materiais bidimensionais (2D) ou lamelares. Esses materiais consistem em uma ou poucas camadas atômicas e exibem comportamentos físicos que muitas vezes desaparecem em suas formas tridimensionais, ampliando o leque de potenciais aplicações tecnológicas. 

A física Ingrid Barcelos, pesquisadora do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), parte do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (Cnpem), integra um dos grupos brasileiros dedicados ao estudo desses materiais. A pesquisa de Barcelos é centrada no estudo de materiais 2D derivados de filossilicatos, minerais encontrados na natureza, e conta com financiamento da FAPESP. Segundo Barcelos, embora os filossilicatos sejam muito abundantes na natureza, eles ainda são pouco estudados. A pesquisadora ressalta que, devido ao seu baixo custo quando comparados a materiais 2D sintéticos, esses minerais se apresentam como opções acessíveis para aplicações tecnológicas. Além de serem potencialmente mais sustentáveis, já que têm origem natural e não são processados, causando menor impacto ambiental ao serem descartados.      

Do grafeno aos minerais naturais

Os filossilicatos são formados pela combinação de átomos de silício e oxigênio, que se organizam estruturalmente em camadas empilhadas, formando o mineral. Assim como Geim e Novoselov, Barcelos utiliza fitas adesivas para esfoliar, ou seja, separar mecanicamente as camadas desses minerais, produzindo flocos de espessuras nanométricas. Segundo a pesquisadora, a separação desses materiais em camadas ultrafinas só é possível pois as interações entre as diferentes camadas sobrepostas são fracas o suficiente para permitir a separação, enquanto as ligações entre os átomos de cada camada são fortes o suficiente para manter a integridade da camada. “É como se você tivesse um pacote de folhas A4 em que você consegue tirar folha por folha desse pacote. E cada folha é uma camada atômica”, explica.

Barcelos conta que os filossilicatos possuem características físicas que conferem propriedades de isolantes elétricos a esses materiais. Segundo ela, no universo de materiais 2D, poucos apresentam esse comportamento, e um dos mais utilizados, o nitreto de boro hexagonal, apresenta custo elevado para obtenção do material com alta qualidade cristalina e produção concentrada em poucos locais no mundo, o que limita o seu acesso.

Revista Pesquisa FAPESP recebe o Prêmio José Reis de Divulgação Científica

A revista Pesquisa FAPESP recebeu nesta terça-feira (28/07) o 46º Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica, na categoria “Instituição e Veículo de Comunicação”. A cerimônia de entrega ocorreu durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que acontece até o próximo sábado (01/08) no campus Gragoatá da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ).

O jornalista Bernardo Esteves, repórter da revista piauí e autor do livro Admirável novo mundo, foi o vencedor na categoria “Jornalista em Ciência e Tecnologia”.

“Os dois premiados nesta edição ajudam a dar legitimidade política e social para o Prêmio José Reis. A revista Pesquisa FAPESP criou um patamar de qualidade para a comunicação científica no Brasil”, avaliou Olival Freire Junior, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em seu discurso.

Açucena Sande/divulgaçãoOlival Freire Junior, presidente do CNPq; Herton Escobar, gerente de Comunicação da FAPESP; e Luciana Santos, ministra da Ciência, Tecnologia e InovaçãoAçucena Sande/divulgação

O dirigente destacou que a divulgação científica é crucial em um mundo em que o financiamento da ciência depende da sociedade – lembrando que a maior parte do conhecimento científico é produzida em instituições públicas, com recursos públicos, não só no Brasil como no mundo. “A popularização da ciência é parte do empreendimento da promoção da ciência. É preciso que a ciência faça parte da cultura brasileira”, afirmou Freire Junior.

Promovido pelo CNPq desde 1978, o Prêmio José Reis é o mais importante reconhecimento do jornalismo científico brasileiro. A distinção consiste em diploma, medalha e, para o jornalista, R$ 20 mil.

Em 2000, a FAPESP foi premiada na categoria “Instituição”; e, em 2020, o então editor especial da revista Pesquisa FAPESP Carlos Henrique Fioravanti ganhou na categoria “Jornalista”.

“O Prêmio José Reis, que historicamente já era importante, ganha maior relevância no contexto de recrudescimento do ambiente obscurantista no Brasil e no mundo. E o obscurantismo é primo-irmão do autoritarismo. Em momentos como o que estamos vivendo é preciso combatê-lo. E nada é mais desafiador do que afirmar o óbvio, as evidências científicas, para explicar fenômenos naturais, além dos econômicos e sociais que nos cercam”, disse a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, na abertura da cerimônia.

Também foram anunciadas no evento duas menções honrosas do Prêmio José Reis, à jornalista Giovana Girardi, na categoria “Jornalista”, e ao Instituto Serrapilheira, na categoria “Instituição e Veículo de Comunicação”.

Açucena Sande/divulgaçãoO evento reuniu ex-ganhadores do prêmio, como Sabine Righetti e Ildeu de Castro Moreira (quarto da esquerda para a direita). Também esteve presente Bernardo Esteves (segundo da esquerda para a direita), atual vencedor na categoria “Jornalista em Ciência e Tecnologia”; Herton Escobar (ao centro), gerente de Comunicação da FAPESP; e Gabriel Alves, diretor de redação de Pesquisa FAPESPAçucena Sande/divulgação

Continuidade do legado

A revista Pesquisa FAPESP é publicada e financiada integralmente pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) desde 1999, como parte de seu compromisso com a difusão e popularização da ciência.

A história da publicação começa em agosto de 1995, com o lançamento do boletim mensal Notícias FAPESP, que quatro anos mais tarde daria origem à revista. Desde a sua primeira edição, em outubro de 1999, a Pesquisa FAPESP consolidou-se como um veículo nacional especializado em dar visibilidade ao impacto social, intelectual e econômico da ciência feita no Brasil, em todas as áreas do conhecimento (leia mais aqui).

“Estou muito honrado em receber esse prêmio, representando institucionalmente a FAPESP, e, muito humildemente, também todos os colegas jornalistas que trabalharam ao longo desses últimos 27 anos para construir essa revista que é um patrimônio da divulgação científica no Brasil”, disse Herton Escobar, gerente de Comunicação da FAPESP, em seu discurso de agradecimento.

O gestor explicou que a Pesquisa FAPESP está passando por um processo de transição que se insere em um esforço maior de modernização e integração de todas as plataformas de comunicação da FAPESP, incluindo a Agência FAPESP e o boletim Pesquisa para Inovação. Ele reafirmou o compromisso da instituição em honrar o legado da revista e dar-lhe continuidade. As edições impressas deverão ser retomadas em setembro, após um breve hiato para redesenho gráfico e editorial.

O diretor de redação, Gabriel Alves, sublinhou que a revista continuará sendo guiada pelos mesmos princípios e pelo mesmo compromisso assumido pela Fundação desde o lançamento da publicação, quase três décadas atrás: de fazer com que a ciência chegue à sociedade que a financia e seja apropriada por ela.

“A revista está se transformando, assim como o jornalismo, a ciência e a maneira como as pessoas consomem informação. Vamos investir em novos formatos e buscar novos públicos, mas sem abrir mão do que trouxe a publicação até aqui: apuração rigorosa, explicação honesta e respeito pela inteligência e capacidade cognitiva do leitor”, disse.

O novo projeto editorial da revista está sendo desenvolvido e implementado em colaboração com o Laboratório de Estudos Avançados de Jornalismo (LabJor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Todo o conteúdo da revista pode ser acessado gratuitamente pelo site e pelas redes sociais da Pesquisa FAPESP.

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Movimentos sociais impulsionaram cannabis medicinal, mas perdem espaço para grandes corporações

Pouco mais de uma década se passou desde que um grupo de mães abriu caminho para a legalização da cannabis medicinal no Brasil. A trajetória delas foi retratada no documentário Ilegal: a vida não espera, disponível no YouTube. Desde então, a cannabis medicinal deixou de ser um tema restrito ao ativismo e passou a movimentar um mercado bilionário que reúne desde associações de pacientes até grandes empresas farmacêuticas. Em 2023, o mercado mundial (legal) estava estimado em US $175 bilhões, segundo a BDSA, empresa de inteligência de mercado de cannabis.

Há anos, o professor Paulo José dos Reis Pereira, coordenador do Núcleo de Estudos sobre Drogas e Relações Internacionais (Nedri) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), acompanha os processos de regulação da cannabis em diferentes países, especialmente o papel desempenhado por associações de pacientes e grupos historicamente ligados à luta pela regulamentação da planta. Agora, afirma, uma nova preocupação ganha centralidade: “A grande questão hoje é que o mercado está sendo cada vez mais dominado pelas corporações farmacêuticas e empresas internacionais de cannabis”.

Pereira investiga como empresas, sobretudo dos Estados Unidos e Canadá, influenciam regulações e avançam sobre os mercados de cannabis na América Latina. A pesquisa que coordena, financiada pela FAPESP, também analisa os impactos sociais desse processo sobre comunidades pobres, rurais e marginalizadas que tradicionalmente participavam do mercado clandestino da planta.

A produção brasileira de fármacos à base da planta cresceu rapidamente na última década. Hoje, há 52 produtos autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pertencentes a 25 empresas. Entre elas estão laboratórios nacionais, como Eurofarma, Teuto e Biolab, além de companhias estrangeiras, como a israelense Cann10 e a canadense Verdemed. Nenhuma associação de pacientes possui autorização da Anvisa para fabricar medicamentos, já que esse tipo de registro é restrito à indústria farmacêutica.

As empresas disputam um mercado que movimentou R$ 971 milhões somente no Brasil em 2025, segundo o Anuário da Cannabis Medicinal 2025, produzido pela consultoria Kaya Mind com base em dados oficiais e levantamentos próprios. O número de pacientes chegou a 873 mil no país, crescimento de 30% em relação ao ano anterior. 

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Captura do mercado

Segundo Pereira, a captura corporativa acontece de diferentes formas. Uma delas é o alto custo regulatório: exigências sanitárias, certificações internacionais e necessidade de grandes quantidades de capital tendem a favorecer grandes empresas. Além disso, companhias de países que legalizaram antes passaram a dominar cadeias internacionais de produção, financiamento e tecnologia. 

Isso cria uma vantagem estrutural para corporações estrangeiras, enquanto países do Sul Global muitas vezes entram apenas como mercados consumidores ou fornecedores de matéria-prima – no caso, a planta de cannabis. Outro ponto central, segundo o pesquisador, é o controle sobre importação, distribuição, pesquisa clínica, propriedade intelectual e registro de medicamentos – etapas das quais as associações de pacientes normalmente ficam excluídas.

Um caso que ilustra essas disputas envolveu a farmacêutica brasileira Prati-Donaduzzi. Em 2020, a empresa obteve do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) a aprovação de patente para um fitoterápico à base de canabidiol (CBD) — composto químico não psicoativo extraído da planta Cannabis sativa — com concentração entre 20 mg/ml e 250 mg/ml. Em relatório publicado em 2022 pelo Transnational Institute, organização holandesa com programa voltado à análise da política de drogas, Pereira argumenta que a patente poderia gerar um monopólio na comercialização desse tipo de produto até 2036, dificultando a entrada de concorrentes no mercado. 

Para o pesquisador, o episódio exemplifica como decisões sobre propriedade intelectual podem acabar influenciando quem participa — ou fica de fora — do mercado legal da cannabis. 

Associações e ativismo

O avanço da cannabis medicinal no Brasil foi impulsionado pela mobilização de pacientes, familiares e associações que passaram a pressionar autoridades sanitárias por acesso ao tratamento, de acordo com Pereira. Hoje, médicos e dentistas prescritores de cannabis já somam mais de 57 mil no Brasil, segundo o anuário da Kaya. Não há uma habilitação específica para isso: a prescrição segue as mesmas regras aplicáveis aos demais medicamentos de controle especial. Ainda é um número pequeno diante dos cerca de 635 mil médicos e 440 mil dentistas registrados no país, mas muito diante da realidade de dez anos atrás, quando praticamente nenhum profissional se arriscava a prescrever canabidiol.

A advogada carioca Margarete Santos de Brito lembra das dificuldades enfrentadas nos anos 2010 para tratar a filha Sofia, hoje com 17 anos, afetada pela síndrome de CDKL5, doença genética rara que provoca crises epilépticas graves e atraso no desenvolvimento neuropsicomotor.

Depois de pesquisar alternativas dentro e fora do Brasil, Margarete encontrou no CBD o único medicamento capaz de reduzir as convulsões da filha. Na época, porém, o produto era proibido no país, o que deu início a outra batalha: conseguir importá-lo legalmente.

No mesmo período, em João Pessoa, Cassiano Gomes enfrentava problema semelhante para tratar as crises convulsivas da mãe. Além da burocracia, havia a dependência do dólar. “Quando subia, a medicação encarecia”, lembra.

Gomes decidiu então fundar a Abrace Esperança, associação que mantém cultivo de cannabis e produz CBD para os associados. Segundo ele, mais de 60 mil pacientes já foram atendidos. “Assumi a responsabilidade de criar uma solução”, afirma.

Margarete Brito e o marido, Marcos Langenbach, seguiram caminho semelhante ao criar a Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal (Apepi), que hoje cultiva cannabis no interior do Rio de Janeiro para atender cerca de 1.400 associados. 

A mobilização dessas associações ajudou a pressionar as autoridades sanitárias. Em março de 2019, a Anvisa publicou a Resolução 327, que regulamentou a fabricação, importação e venda de produtos de cannabis medicinal para uso humano no Brasil.

Cultivo de Cannabis no interior do Rio de Janeiro para atender associados. Foto: Apepi / Divulgação

Apesar do avanço, a situação das associações ainda é considerada precária. Muitas operam amparadas por decisões judiciais: entidades que receberam autorização da Justiça cultivam a planta e fornecem produtos de cannabis medicinal exclusivamente para seus associados, não podendo comercializá-los no mercado como fazem as empresas farmacêuticas. Segundo a consultoria Kaya, havia 315 associações de pacientes com CNPJ ativo em 2025, um aumento de 22% em relação ao ano anterior. 

Como funcionam por autorização judicial, as associações não são fiscalizadas pela Anvisa. O acompanhamento é feito no âmbito da Justiça, que pode exigir relatórios e prestar contas sobre as atividades autorizadas.

Modelo fragmentado

Em artigo publicado em 2025 na revista Contemporary Drug Problems, Pereira analisou o papel dessas associações na transformação do cenário regulatório brasileiro. O estudo conclui que essa “governança de baixo para cima” — isto é, impulsionada por pacientes e movimentos sociais — foi decisiva para ampliar o acesso à cannabis medicinal no país.

“O Brasil não é o país mais atrasado, mas está longe de ser vanguarda na regulação da cannabis”, afirma o pesquisador. Segundo ele, o modelo brasileiro é fragmentado: permite a comercialização de cannabis medicinal, mas o cultivo da planta continua restrito. Associações de pacientes só conseguem plantar mediante ações judiciais, enquanto a Resolução 1.012 aprovada em 2026 pela Anvisa autorizou o cultivo para fins de pesquisa, mediante cadastro prévio, por universidades, instituições científicas e empresas farmacêuticas. A regulamentação entra em vigor em 4 de agosto.

Pereira comenta que o proibicionismo também prejudicou a pesquisa científica sobre a cannabis. “Havia uma série de restrições para estudar a planta. Nas últimas décadas ocorreu um boom dessa produção acadêmica mundialmente”, afirma.

O grupo liderado por Pereira integra o Centro Transnacional de Pesquisa Sobre Mercados Emergentes de Drogas (TRC-EDM), sediado na Universidade de Loughborough, no Reino Unido, que  conta com financiamento da Fundação Open Society para pesquisar os impactos sociais, econômicos e políticos da regulamentação dos mercados de drogas em diferentes países. 

Kojo Koram, pesquisador ganês que coordena o centro, conta que o objetivo é “influenciar processos de legalização da cannabis no Sul Global, para priorizar igualdade econômica, justiça racial e sustentabilidade ambiental em detrimento do lucro corporativo”. 

Representantes do setor empresarial discordam do temor de concentração de mercado. Denise Queiroz, diretora de Relações Institucionais da farmacêutica Biolab, afirma que a complexidade regulatória no Brasil dificulta investimentos externos nos produtos. “É uma barreira de entrada para competidores internacionais”, diz.

A Biolab mantém acordo com a companhia suíça Promediol para importação de extratos e CBD purificados para envase e comercialização no Brasil. A empresa também investe na capacitação de médicos e farmacêuticos para atuação na área.

“Não vejo risco de concentração [de mercado]”, afirma Caio Santos Abreu, empreendedor que representa no Brasil a empresa americana Entourage Cannabis. Segundo ele, os grandes laboratórios brasileiros ainda investem pouco em pesquisa e desenvolvimento, o que abriria espaço para startups e associações. 

A Entourage desenvolve uma plataforma de produtos emulsificantes que buscam reduzir efeitos colaterais no fígado comuns nos tratamentos à base de CBD, embora ainda não estejam disponíveis comercialmente.

Memristores: os chips que imitam o cérebro

Em 1971, o engenheiro eletricista filipino Leon Chua previu a existência de um componente eletrônico passivo, capaz de “lembrar” quanta corrente havia passado por ele mesmo após ser desligado. Ele o chamou de memristor, contração de memory resistor. Passaram-se 37 anos até que a Hewlett-Packard (HP) construísse o primeiro protótipo concreto, em 2008. Hoje, pesquisadores no Brasil transformam essa ideia em algo ainda mais ambicioso: chips que, além de processar informação, também “aprendem”, imitando mecanismos de memória do cérebro humano em silício e em óxidos metálicos.

A chamada computação neuromórfica é promissora. Enquanto o cérebro humano consome cerca de 20 watts (W) – algo parecido com uma lâmpada comum – processando informações com eficiência que nenhum supercomputador atual replica, inteligências artificiais de última geração demandam energia equivalente à de cidades inteiras e ocupam galpões com servidores refrigerados. Uma das principais diferenças é de arquitetura: enquanto computadores convencionais separam processamento de armazenamento, o cérebro faz as duas coisas no mesmo lugar, no nível das sinapses, onde os neurônios se conectam.

Os memristores prometem superar esse gargalo. “A vantagem genérica de dispositivos com memória é a capacidade de fazer operações lógicas e armazenar os resultados no mesmo espaço”, explica o físico cubano Victor Lopez-Richard, do Departamento de Física da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). “Isso reduz a necessidade de interconectores, diminui o tamanho do dispositivo e, consequentemente, o consumo de energia.”

Imitando neurônios

A cada disparo de um neurônio, a conexão com o neurônio seguinte pode se fortalecer ou enfraquecer – fenômeno conhecido como plasticidade sináptica. Em um dos tipos mais estudados desse processo, conexões neurais que disparam repetidamente em sequência tendem a se fortalecer, contribuindo para a formação de determinadas memórias e para o aprendizado. Os memristores replicam esse comportamento ao alterar sua resistência elétrica em resposta aos pulsos recebidos.

Para explicar esse funcionamento, o físico Marcio Peron Franco de Godoy, também da UFSCar, recorre ao cotidiano: “Quando fecho uma porta, dali a segundos posso esquecer se a tranquei ou não. Mas eu não esqueço o nome da minha mãe. Isso é uma memória de longa duração – algo que pode ser emulado com dispositivos memristores.”

A analogia com a biologia, porém, tem limites que Lopez-Richard faz questão de demarcar. “Nossos dispositivos não reproduzem sinapses, propriamente, porque não transportam íons, mas elétrons que se armazenam em certos lugares. Em termos metafóricos, é um processo semelhante.”

O resultado mais recente da pesquisa de Lopez-Richard, que conta com financiamento da FAPESP, vai além dos memristores convencionais: um transístor polimorfo que é capaz de assumir diferentes funções – transistor, capacitor ou memristor –, dependendo da configuração do circuito. Em artigo publicado na Nature Communications em abril, Lopez-Richard e colaboradores mostram que, na prática, o mesmo componente realiza cálculos e aprende com os padrões dos dados que processa. “A gente ensina o dispositivo a reconhecer um padrão e depois apresenta outros padrões que, em princípio, ele poderia ajudar a reconhecer”, descreve. Outra vantagem: o dispositivo opera à temperatura ambiente, sem necessidade de resfriamento extremo. “A ideia é criar dispositivos que funcionem em condições normais, sem necessidade de criogenia e com baixo consumo de energia.”

Plataforma que simula desequilíbrios quer antecipar risco de quedas em idosos

Uma plataforma criada por pesquisadores da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) pretende ajudar a prevenir quedas em idosos ao simular situações reais de desequilíbrio e analisar, em tempo real, como o cérebro, os músculos e o corpo reagem. A tecnologia, desenvolvida ao longo de mais de dez anos de pesquisa com apoio da FAPESP – dos estudos iniciais, na linha de Auxílio à Pesquisa, ao protótipo, na linha de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) –, combina sensores, realidade virtual e jogos interativos e agora se prepara para chegar ao mercado por meio da startup Kerygma Technology, incubada na própria universidade.

As quedas estão entre as principais causas de internação, perda de autonomia e morte em idosos. A prevalência de quedas na população idosa residente em áreas urbanas é de 25%, de acordo com a última edição do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), financiado pelo Ministério da Saúde. Entre pessoas com mais de 80 anos, o dado é ainda mais alarmante: quatro em cada dez pessoas sofrem esse tipo de acidente anualmente. Além das fraturas e hospitalizações, as quedas frequentemente levam à perda de independência, ao medo de caminhar e ao isolamento social.

Segundo Daniela Cristina Carvalho de Abreu, fisioterapeuta especialista em gerontologia e professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (FMRP-USP), o cenário é preocupante porque a sociedade continua tratando a queda como algo “normal” do envelhecimento. “Hoje entendemos a queda como um evento sentinela. Quando ela acontece, muito provavelmente várias alterações já vinham ocorrendo. Ela é a bandeira vermelha de que alguma coisa deixou de  funcionar adequadamente.”

Foi justamente diante desse cenário que o engenheiro da computação Alessandro Pereira da Silva, líder do Laboratório de Ambientes Virtuais e Tecnologia Assistiva (LAVITA), da UMC, começou a desenvolver a tecnologia em 2012. Ele conta que a ideia surgiu a partir de uma inquietação em relação aos métodos tradicionais usados para avaliar o equilíbrio. “Na época, o estudo do equilíbrio era feito em uma plataforma estática e o paciente era o elemento de desequilíbrio. O terapeuta precisava pedir para a pessoa inclinar um pouco para frente, um pouco para trás. No mundo real, no entanto, é o chão que muda, é o ambiente que gera o desequilíbrio”, explica.

A solução encontrada foi criar uma plataforma capaz de se movimentar em diferentes direções e inclinações, simulando situações reais de instabilidade e desequilíbrio. 

Simular o desequilíbrio para entender o corpo 

A simulação desses desequilíbrios não acontece apenas pelo movimento da plataforma. Para tornar os exercícios mais próximos de situações do cotidiano e estimular a adesão ao tratamento, os pesquisadores incorporaram recursos de realidade virtual e gameterapia.  Nos jogos desenvolvidos pela equipe, o paciente permanece sobre a plataforma enquanto controla movimentos dentro de ambientes virtuais. Em um dos cenários, por exemplo, o usuário navega por um rio e precisa deslocar o corpo lateralmente para coletar objetos. Quando surgem quedas d’água no ambiente virtual, a plataforma se inclina na mesma direção do cenário exibido nos óculos de realidade virtual. 

“O sistema responde ao jogo. Quando o cenário inclina, a plataforma inclina junto. Isso aumenta muito a imersão e nos permite avaliar como o cérebro e os músculos respondem ao desequilíbrio”, explica Silva.

Enquanto isso, sensores registram continuamente como o corpo reage aos estímulos. O equipamento, que avalia quatro músculos da perna –  que são chave para entender a chamada estratégia do tornozelo na correção dos desequilíbrios –, consegue rotacionar até 25 graus para frente, para trás e para os lados, com velocidade máxima de 7 graus por segundo, enquanto o sistema capta uma série de informações do paciente em tempo real. 

Um dos parâmetros analisados é o chamado centro de pressão (COP), indicador que mostra como o corpo distribui o peso para manter o equilíbrio. O sistema também mede a velocidade de deslocamento corporal, a distribuição da carga corporal, a ativação muscular por meio da eletromiografia (EMG) e a atividade cerebral pelo eletroencefalograma (EEG).

“Conseguimos identificar, por exemplo, se a pessoa descarrega mais peso no lado direito do corpo do que no esquerdo. Isso pode indicar fraqueza muscular, alterações vestibulares ou compensações posturais importantes”, diz Silva. Segundo ele, a EMG permite analisar a ativação elétrica dos músculos estabilizadores envolvidos no equilíbrio postural, enquanto o EEG ajuda a identificar como o cérebro responde ao desequilíbrio.

A plataforma trabalha justamente com dois mecanismos fundamentais do equilíbrio: o controle antecipatório e o compensatório. O primeiro ocorre antes da perda de estabilidade, quando o cérebro percebe que um desequilíbrio pode acontecer e prepara o corpo para reagir. Já o compensatório entra em ação depois da instabilidade, tentando evitar a queda. Um dos diferenciais da tecnologia, segundo Silva, é a sincronização de todos esses dados em uma mesma linha temporal.

“Muitas plataformas conseguem coletar esses dados de forma isolada. O grande diferencial da nossa é que tudo é registrado de forma sincronizada. Isso diminui muito o viés metodológico para pesquisa e pode gerar futuramente um sistema preditivo de risco de queda”, afirma.

Segundo Sandra Maria Sbeghen Ferreira de Freitas, professora da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid) e especialista em controle do movimento humano e biomecânica, plataformas de força já são amplamente utilizadas em pesquisa para avaliação do equilíbrio e da oscilação postural, mas a integração simultânea de diferentes tecnologias ainda é um desafio. “Plataformas de força, eletromiografia e estudos combinando esses equipamentos já existem. O diferencial desse parece estar justamente em sincronizar tudo em um mesmo sistema e transformar isso em uma ferramenta aplicável para o profissional”, afirma.

Carolina Daffara

Do diagnóstico à prevenção

Para Abreu, da FMRP-USP, a primeira etapa fundamental é estratificar o risco de queda. “E isso precisa ser simples, rápido e de baixo custo. Não adianta depender de uma ferramenta cara para fazer a triagem populacional”, pondera, ao ressaltar que, atualmente, as sociedades científicas internacionais recomendam que toda pessoa idosa passe ao menos uma vez por ano por uma triagem de risco de quedas, o que ainda não acontece de forma rotineira. 

A fisioterapeuta explica que a avaliação é simples: “Basicamente, fazemos três perguntas: se a pessoa caiu no último ano, se tem preocupação em cair e se sente instabilidade para andar ou realizar atividades. Depois aplicamos um teste rápido de mobilidade ou velocidade da marcha. Em menos de cinco minutos é possível classificar esse paciente como baixo, moderado ou alto risco de queda”, explica.

Na sua avaliação, ferramentas mais avançadas, como a plataforma, entram em uma segunda etapa para aprofundar a avaliação de pessoas idosas com histórico de quedas ou maior risco de novos episódios, que se beneficiam de uma melhor compreensão dos fatores associados a essa condição. “A plataforma permite integrar informações sobre aspectos musculares, neurais e biomecânicos e isso pode ajudar a personalizar os treinamentos e tratamentos”, diz Abreu, esclarecendo que, muitas vezes, uma intervenção funciona para um paciente e não funciona para outro porque as necessidades são diferentes. “Quanto mais preciso é o diagnóstico, mais direcionada tende a ser a intervenção.”

O fisioterapeuta Tabajara de Oliveira Gonzalez, integrante do grupo de pesquisa da UMC, afirma que a tecnologia surge justamente para preencher essa lacuna. “A plataforma foi pensada para responder ao desafio do envelhecimento da população. Queda em idosos é um problema de saúde pública no mundo inteiro. Você tem lesões associadas, óbitos, pacientes que acabam ficando acamados, gerando custos para o sistema de saúde e sem um trabalho preventivo muito efetivo”, afirma.

Segundo ele, embora os idosos sejam um dos principais focos das pesquisas, a plataforma pode futuramente atender diferentes perfis de pacientes com alterações de equilíbrio, incluindo pessoas com doenças neurológicas, problemas vestibulares, amputações, obesidade e até mesmo atletas em reabilitação. “Você pode ter um paciente amputado que não consegue distribuir adequadamente o peso entre os lados do corpo, uma criança com déficit cognitivo ou um atleta voltando de lesão. São muitos os públicos possíveis”, diz.

Freitas ressalta, porém, que tecnologias desse tipo ainda estão concentradas principalmente em universidades, laboratórios de pesquisa e grandes centros de reabilitação. “Essas avaliações exigem processamento de dados, interpretação especializada e equipamentos de alto custo. Por isso, ainda existem muitos desafios para transformar tudo isso em algo amplamente acessível no dia a dia clínico”, pondera.

Apesar dos recursos de realidade virtual, os pesquisadores ressaltam que a tecnologia não pretende substituir o tratamento fisioterapêutico. “Quem propõe o tratamento é o profissional. O sistema permite que o fisioterapeuta controle velocidade, inclinação, dificuldade e escolha jogos específicos de acordo com a necessidade de cada paciente”, ressalta Silva. 

Abreu destaca que o treinamento físico continua sendo a principal ferramenta para prevenção de quedas. “O exercício físico é a base de tudo. E quanto mais o treino trabalha equilíbrio, força e mobilidade juntos, maior o impacto na prevenção.” Para a especialista, o grande desafio agora é transformar o conhecimento científico em política pública. “Precisamos conscientizar a população, capacitar os profissionais de saúde e criar linhas de cuidado para a pessoa idosa. Se conseguirmos identificar precocemente quem começa a perder equilíbrio, força e mobilidade, conseguimos intervir antes da queda acontecer.”

Da pesquisa ao mercado

O engenheiro eletricista André Roberto Fernandes da Silva, que também participou do desenvolvimento da tecnologia durante a realização do doutorado em Engenharia Biomédica na UMC, destaca que a equipe trabalhou desde o início para garantir segurança durante os testes. “Tivemos muita atenção para oferecer segurança também para quem usa. A plataforma possui sistemas de sustentação, barras de apoio e cintos de proteção para ampliar o uso mesmo em pessoas com comprometimento importante de equilíbrio.”

Ao final da avaliação, o sistema gera automaticamente um relatório em PDF com os dados coletados, informações clínicas do paciente e sugestões terapêuticas. A expectativa agora é avançar para uma nova etapa com apoio da inteligência artificial. “O hardware e o software básico estão prontos. O próximo passo é desenvolver uma plataforma de dados com inteligência artificial capaz de integrar todas essas informações e auxiliar na construção de modelos preditivos de risco de queda. Mas precisamos ampliar os testes humanos para validar melhor esses modelos”, afirma Fernandes da Silva.

Agora, o objetivo é transformar o protótipo acadêmico em um produto disponível. “Nós já temos um protótipo funcional pronto para comercialização. Queremos ampliar os testes fora do ambiente universitário e levar a plataforma para clínicas, hospitais e centros de reabilitação. Se conseguirmos avançar, acreditamos que em cerca de um ano e meio já será possível escalar o produto para o mercado”, conclui o engenheiro.

Aluguel social como alternativa à crise habitacional em São Paulo

A dificuldade crescente de acesso à casa própria e o aumento do custo da moradia têm levado pesquisadores e gestores públicos a olhar com mais atenção para o aluguel social como parte da solução para a crise habitacional. De acordo com o Censo do IBGE, cerca de 22% das famílias brasileiras viviam em domicílios alugados em 2022. Ao mesmo tempo, a Pesquisa de Informações Básicas Municipais (MUNIC 2024) mostrou que 67,7% dos municípios afirmam possuir alguma política de aluguel social.

Com projetos e políticas públicas em implementação, cidades como São Paulo, Campo Grande, Belo Horizonte e Recife buscam ampliar o acesso à moradia por meio de iniciativas municipais ou federais que adotam esse instrumento. No modelo, as unidades residenciais são oferecidas pelo poder público, que pode intermediar a oferta ou ser proprietário dos imóveis, enquanto o morador paga um aluguel que não compromete excessivamente sua renda.

Em São Paulo, uma pesquisa conduzida pelo LabCidade, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), em parceria com a Secretaria Municipal de Habitação da Prefeitura de São Paulo (Sehab-SP), investiga como esse modelo poderia ajudar a enfrentar a crise habitacional da capital. O estudo, que conta com financiamento da FAPESP e é coordenado pela pesquisadora Paula Freire Santoro e pela gestora pública Daniela Perre, busca soluções para ampliar e diversificar a política de locação social já existente.

O déficit habitacional envolve diferentes formas de precariedade, como moradias inadequadas e o chamado ônus excessivo do aluguel — situação em que famílias com renda de até três salários mínimos comprometem mais de 30% do orçamento com o pagamento da moradia. Em São Paulo, esse problema é especialmente expressivo: em 2022, 65% desse público ultrapassava esse limite, segundo dados da Fundação João Pinheiro, instituição de pesquisa, ensino e produção de estatísticas sobre políticas públicas vinculada ao Governo do Estado de Minas Gerais.

Segundo Santoro, mesmo no cenário mais otimista – de 30 mil unidades produzidas em uma única gestão municipal, o maior volume já registrado em São Paulo –  seriam necessárias mais de 13 administrações para atender à demanda habitacional calculada em 2016.

“Os desafios são enormes e muito diversos. A política habitacional não pode apostar em apenas um modelo centrado na produção de novas moradias pelo mercado para a casa própria”, afirma Santoro.

Até agora, a pesquisa mapeou diferentes modelos de aluguel social adotados no Brasil e no exterior, desde programas de auxílio e vouchers até parques públicos de locação e parcerias entre governos, sociedade civil e iniciativa privada. O objetivo, segundo as pesquisadoras, não é defender qualquer política baseada no aluguel, mas identificar formatos capazes de ampliar o acesso à moradia sem reproduzir a lógica especulativa do mercado imobiliário, aproveitando melhor o estoque de imóveis já existente.

Além do levantamento comparativo, o estudo já contribuiu para aprimorar normas do Programa de Locação Social de São Paulo e para discussões sobre regulação do mercado de aluguel e plataformas de locação temporária. As pesquisadoras também participaram da elaboração de propostas para uma política nacional de locação social no âmbito do PlanHab 2040.

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O aluguel social como aposta

Diferentemente dos programas voltados à compra da casa própria, o aluguel social prevê acesso a moradias oferecidas pelo poder público, que podem ser de propriedade pública ou privada, com a cobrança de um aluguel a preços acessíveis. 

O modelo atende grupos que costumam ficar à margem das políticas tradicionais de financiamento habitacional, como jovens, pessoas em situação de rua e famílias de baixa renda. “Há pessoas para quem a casa própria não é a melhor solução”, afirma Claudia Acosta, professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do FGV Cidades, Centro de Ciências para o Desenvolvimento (CCD) apoiado pela Fapesp. “Se uma pessoa com 60 anos entra no programa Minha Casa, Minha Vida, com 75 anos ainda estará no financiamento. Isso não tem sentido”, diz.

Para Acosta, a casa própria pode ainda ser uma espécie de “âncora”, limitando a mobilidade urbana quando está localizada em áreas distantes dos empregos e serviços. “O aluguel pode ser uma ferramenta de inclusão social também por manter as pessoas mais próximas das oportunidades”, diz.

A possibilidade de manter populações de baixa renda em regiões centrais aparece como um dos principais argumentos em defesa do aluguel social. Segundo Francisco Comaru, professor da Universidade Federal do ABC e coordenador do Laboratório de Justiça Territorial (LabJuta), muitos moradores de cortiços pagam um valor alto para morar no centro da cidade, ainda que em condições precárias. 

“São funcionários de lojas, de bares e de restaurantes, empregadas domésticas, trabalhadores da construção civil e ambulantes. Quando empurrados para a periferia, têm a sua qualidade de vida prejudicada, além de gerar impacto no meio ambiente, no trânsito e na própria saúde”, explica.

Para o pesquisador, políticas permanentes de aluguel social também ajudam a conter processos de expulsão da população de baixa renda das áreas valorizadas da cidade. “É uma maneira de retirar essas moradias do mercado privado e da precificação que ele impõe, mantendo as pessoas de baixa renda em áreas bem servidas por infraestrutura, emprego e serviços”, aponta Comaru.

Modelos de aluguel social são utilizados em diferentes países desde o pós-guerra, especialmente na Europa, em lugares como Reino Unido, França, Itália e Suíça. Na América Latina, Uruguai, Argentina, Chile e México também praticam o modelo de habitação pública para locação. Em vários desses países, a locação social integra permanentemente as políticas habitacionais e convive com programas de acesso à casa própria.

Uma política antiga que nunca ganhou escala

Apesar de vigente desde 2002, o Programa de Locação Social de São Paulo nunca ganhou escala, ainda que apresente bons índices de acesso e permanência, segundo a pesquisa. Entre os fatores apontados estão a descontinuidade do programa entre diferentes gestões e a preferência histórica por políticas voltadas à casa própria. Nos últimos anos, essa tendência foi reforçada por programas de financiamento habitacional, como o Minha Casa, Minha Vida, criado em 2009 no âmbito do Governo Federal, e por modelos baseados em parcerias com a iniciativa privada, como o programa Pode Entrar, criado pela Prefeitura de São Paulo em 2021.

Hoje, a cidade de São Paulo conta com apenas 937 unidades no formato de locação social. No modelo paulistano, os imóveis pertencem ao poder público e são alugados para pessoas em situação de vulnerabilidade por valores que não podem ultrapassar um percentual de sua renda – entre 10% e 15%, a depender da categoria de beneficiário e do total da renda familiar.

Débora Sanches é professora de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie e participou da conceituação e implementação da política. “O programa deu origem a habitações como o Residencial Olarias, no Canindé, e a Vila dos Idosos, no Pari. A partir do momento em que tiveram moradia digna, muitas pessoas voltaram a estudar e tiveram acesso a melhores empregos. Ter um endereço impacta na autoestima das pessoas e nas suas condições de vida”, afirma Sanches. 

Parte dessas unidades, porém, pode deixar de integrar o programa nos próximos anos. De acordo com Perre, servidora da Sehab-SP e arquiteta responsável pela parceria com o LabCidade no projeto, dois dos sete empreendimentos do modelo serão desvinculados do programa e a propriedade das unidades será transferida aos beneficiários. Juntos, eles representam cerca da metade das habitações no programa de aluguel social do município. 

“No caso do Parque do Gato, no Bom Retiro, e do Residencial Olarias, a desvinculação foi aprovada por uma resolução do Conselho Municipal de Habitação, e a propriedade será transferida sem custo para os moradores”, explica. Segundo a arquiteta, o órgão perdeu o domínio sobre as unidades, sobretudo por conta do tráfico de drogas na região, e não conseguia mais fazer a manutenção das unidades.

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Auxílio-aluguel e precarização

Em paralelo ao programa de locação social, São Paulo mantém uma política de auxílio-aluguel voltada a famílias removidas de áreas de risco ou atingidas por obras públicas. Em março deste ano, 29 mil famílias recebiam o benefício.

De acordo com a pesquisadora Isadora Guerreiro, que integra o LabCidade, o maior volume de famílias removidas e atendidas pelo auxílio em São Paulo atualmente está concentrado na zona sul da cidade, com um número expressivo de casos vindos do Programa Mananciais. O projeto da Sehab-SP teve início nos anos 90 na região da bacia hidrográfica de Guarapiranga, promovendo ações para a regularização fundiária de favelas e núcleos na região. Hoje, o programa também atua na bacia Billings, na mesma zona da cidade.

Guerreiro, no entanto, alerta sobre os problemas do modelo. “Ele não atende à necessidade de moradia das famílias: a Prefeitura não sabe onde elas vão morar, e vemos que a maioria acaba em imóveis precários alugados de maneira informal, sob ameaça de despejo”, conta. 

Segundo a pesquisadora, as famílias muitas vezes saem de casas em que investiram dinheiro e vão para lugares piores, pagando aluguel. “Isso não pode ser considerado uma política habitacional”, afirma. A crítica ilustra uma das questões centrais do debate habitacional: oferecer um benefício temporário não necessariamente garante acesso estável à moradia.

A ciência está mais inteligente ou mais artificial com a IA?

Em janeiro de 2026, a Nature publicou um estudo dos mais abrangentes e robustos sobre a influência da inteligência artificial (IA) na produção de ciência. Pesquisadores da Universidade de Tsinghua, na China, e da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, analisaram 41,3 milhões de artigos científicos publicados entre 1980 e 2025 em seis grandes áreas das ciências naturais: biologia, ciências dos materiais, física, geologia, medicina e química.

Os resultados são positivos para quem adota IA em seus estudos: pesquisadores desse grupo publicam, em média, três vezes mais artigos e recebem quase cinco vezes mais citações do que os demais. A prática também acelera a carreira dos cientistas, que assumem a liderança de projetos mais cedo. A conclusão mais simplória é a de que a IA torna os cientistas mais produtivos, mais visíveis e mais influentes. 

No entanto, o estudo também mostra que a ciência, como construção coletiva, encolheu quase 5% em amplitude temática desde a disseminação da IA e gera 22% menos engajamento cruzado entre pesquisadores. Traduzindo: há mais cientistas publicando mais sobre menos assuntos, e esses trabalhos provocam menos conversas entre os pares.

“Fiquei surpreso com a menor probabilidade da IA gerar novos engajamentos”, afirma James Evans, professor de sociologia e ciência de dados na Universidade de Chicago, diretor do Knowledge Lab e um dos autores do artigo. “Pensei que essa tendência pudesse mudar ao longo do tempo que o estudo abrange, mas ela continua valendo para modelos recentes de IA.”

Mais produção, menos diversidade

O estudo divide a história da IA em três eras: a do aprendizado de máquina clássico (machine learning), de 1980 a 2014; a do aprendizado profundo (deep learning), de 2015 a 2022; e a da IA generativa, de 2023 em diante. Em todas elas, o padrão se repete: o cientista que adota IA ganha em produtividade individual, mas a ciência como um todo perde em diversidade temática.

Para medir essa perda, os autores desenvolveram o conceito de “extensão do conhecimento”, uma medida da variedade de temas explorados por um conjunto de artigos. Quando comparados em amostras aleatórias, os artigos que usam IA cobrem um espaço temático quase 5% menor do que os que não usam. E isso vale para mais de 70% das mais de 200 subáreas do conhecimento analisadas no estudo.

Uma das explicações para esse resultado é a disponibilidade de dados. A IA funciona melhor onde há mais dados estruturados para treinar modelos e validar previsões. Isso pode atrair pesquisadores para campos já maduros, com padrões e referências consolidados, em detrimento de questões menos estabelecidas e, portanto, “arriscadas”.

“Acelerar a atividade científica sob a luz lançada por fenômenos de alta visibilidade e ricos em dados afasta a ciência de muitas questões fundamentais e a empurra em direção a questões operacionais”, pontuam os autores no artigo. “A IA parece impulsionar a solução de problemas em vez de gerá-los”, completam.

Os resultados apresentam a seguinte lógica: se publicar com IA garante mais citações e mais visibilidade, o incentivo para adotar a tecnologia cresce. E quando mais pesquisadores se voltam para os mesmos campos – os mais ricos em dados e aqueles em que o uso da IA já é mais consagrado – a atenção passa a se concentrar em poucos trabalhos de destaque. O estudo mede essa desigualdade com o índice de Gini, que vai de 0 (distribuição perfeitamente equilibrada) a 1 (concentração máxima). Entre os artigos que usam IA, as citações recebidas se acumulam mais: 22% dos papers mais citados abocanham 80% de todas as menções, o que leva o índice a 0,75. Entre os artigos que não usam IA, a atenção se distribui de forma mais espalhada, e o índice fica em 0,69. Ou seja, na ciência feita com IA, alguns poucos estudos concentram uma fatia desproporcional da atenção.

Evans chama isso de “multidão solitária”: artigos que se voltam para os mesmos tópicos populares, mas que interagem menos entre si. “A adoção de IA na ciência apresenta o que parece ser um paradoxo: uma expansão do impacto dos cientistas como indivíduos, mas uma contração no alcance da ciência coletiva”, opina.

Fabio Cozman, diretor do Centro de Inteligência Artificial da USP (C4AI), apoiado pela FAPESP, por outro lado, considera outras possibilidades. “A IA é uma ferramenta útil e poderosa. Se ela for usada para ficar repetindo soluções, ela vai, sim, aumentar o overlapping”, afirma. “Mas cabe a nós, à comunidade acadêmica e também aos órgãos de financiamento, ter uma política agressiva que valorize a originalidade. Isso vai forçar os pesquisadores a usar as ferramentas de IA como suporte para a busca de novas ideias.”

Dilemas para jovens cientistas

Há outra dimensão da adoção de IA na produção acadêmica que levanta um questionamento entre pesquisadores ouvidos pela reportagem: o que acontece com os jovens cientistas que deveriam aprender realizando tarefas que agora a IA executa?

O estudo revela que equipes de pesquisa que usam IA tendem a ter menos pesquisadores – sobretudo em início de carreira. O número médio de cientistas júniores em equipes que não trabalham com IA é de 2,89. Já em equipes que aplicam IA na pesquisa, a quantidade é de 1,99 (31% a menos). Considerando pesquisadores sênior, a discrepância é menor: média de 4,01 em times que adotam IA e de 3,58 em times que não adotam. Em outras palavras: proporcionalmente, a IA substitui mais iniciantes do que veteranos.

Ao mesmo tempo, cientistas iniciantes que trabalham com IA têm 45% de chance de se estabelecer na carreira, uma taxa 13,64% superior à dos pares que não usam a tecnologia. “Meu medo não é que os jovens dependam da IA para executar a parte técnica, mas que ela cause uma dessensibilização neles”, comenta Helder Nakaya, pesquisador sênior do Einstein Hospital Israelita e professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP. 

Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências e vice-diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP, compartilha a preocupação e vai além. Para ele, o artigo da Nature carrega um risco adicional: ser mal interpretado pelos pesquisadores em formação. “Ele é instrutivo e ao mesmo tempo perigoso. Pode induzir a uma utilização da IA a qualquer custo”, comenta. Afinal, se publicar com IA garante mais citações e uma carreira mais rápida, jovens cientistas pressionados pelo sistema de avaliação acadêmica têm todos os incentivos errados para adotar a tecnologia de forma irrefletida, independentemente da pertinência científica. 

A questão da formação tem um aspecto ainda mais concreto. Análise de dados, revisão de literatura e planejamento de experimentos são habilidades aprendidas na prática – errando, corrigindo e refazendo. É nesse processo que surgem perguntas novas, insights inesperados e uma intuição que a IA ainda não oferece.

“Uma coisa é usar a IA para aumentar a produtividade em tarefas que o pesquisador já domina. Outra é aprender a fazer ciência usando IA desde o início”, afirma Nakaya. “Há estudos que indicam que o aprendizado com IA não ativa as mesmas áreas do cérebro que são estimuladas pelo aprendizado sem esse apoio”, diz. O estudo deixa em aberto justamente o que acontece quando a tecnologia encurta – ou substitui –  essas etapas fundamentais da formação científica.

“O papel do orientador será cada vez mais estimular reflexão, em vez de focar na técnica, que será automatizada”, diz Nakaya. “O que sobra para mim, como cientista, é a parte da curiosidade, que é o que fez a gente entrar nesse caminho.”

Buckeridge vê benefícios mais concretos. Desde 2023, os manuscritos de seus alunos passaram a chegar com o inglês mais polido graças à IA generativa. O biólogo vê vantagem na mudança, especialmente para pesquisadores de países que não têm o inglês como língua nativa. “Isso pode liberar o foco do pesquisador para as ideias, para os dados, para tornar a ciência melhor.” Entretanto, ele estabelece limites: “Mas a aprendizagem pelo fazer continua sendo insubstituível.”

A ciência que a IA não alcança

Evans, que além de pesquisador na Universidade de Chicago, é também pesquisador visitante no Google, acredita em uma mudança no foco de aplicação da IA na ciência. Em vez de priorizar dados existentes, o objetivo deveria ser usar a tecnologia para coletar dados novos, em territórios ainda não mapeados.

“Usar IA para impulsionar a coleta de novos dados representaria uma mudança crucial em direção a problemas que somente ela pode ajudar a resolver”, afirma Evans. “O processamento de dados já existentes demonstra que a IA tem bom desempenho com esse tipo de informação. Contudo, é possível estimular a coleta de dados inéditos que conectem sistemas biológicos conhecidos ou que relacionem informações de escala astronômica com áreas da física que buscam pistas valiosas pelo Universo, como quem procura uma agulha no palheiro.”

Evans também trabalha em uma direção menos explorada: abrir novas dimensões nos modelos de linguagem, em vez de apenas comprimir informação existente. “Estamos desenvolvendo modelos para reconhecer dados, afirmações ou artigos surpreendentes e, em seguida, avaliar, a partir de uma surpresa identificada, que outras ideias improváveis até então podem ser mais prováveis agora?” A lógica é a da descoberta: encontrar o que era invisível em vez de otimizar o que já se conhece.

Segundo Cozman, da USP, “cabe a nós valorizar menos a repetição e o número de publicações e valorizar aquilo que é novo, mesmo quando não deu certo, porque isso é o que é difícil na análise e no suporte à pesquisa.”

O lugar humano na pesquisa

Nakaya, que aplica aprendizado de máquina em suas pesquisas há mais de duas décadas, desde seu doutorado, analisa que o impacto da IA na ciência seguirá três estágios. No primeiro, o atual, a tecnologia aumenta a produtividade individual. No segundo, já em curso, a IA passa a executar tarefas melhor do que os humanos, e ao cientista caberá fazer as perguntas certas e entender os gargalos. No terceiro, mais distante, a IA também formulará as perguntas, e o que sobrará para os pesquisadores será, ironicamente, aquilo que os levou à ciência em primeiro lugar: o gosto pela curiosidade. “No futuro, a meu ver, vai sobrar fazer pesquisa não utilitarista, por prazer”, diz Nakaya. 

Ele também traça um paralelo com o xadrez. Em 1997, Garry Kasparov perdeu para o supercomputador Deep Blue e muita gente achou que o jogo acabaria. “Hoje, mais pessoas jogam xadrez do que antes. Temos que perder um pouco desse ego de achar que vamos ser sempre melhores do que as máquinas. Em alguns aspectos seremos piores. Tudo bem. Vamos usar as máquinas para melhorar a nossa pesquisa”, afirma.

Buckeridge evoca uma analogia com outro jogo ainda mais popular: o futebol. “Em relação à IA, assim como no esporte, a gente tem que antever a jogada e se mover para onde a bola vai estar e não se aglomerar onde ela está”. O perigo, para ele, é a ciência correndo atrás “da bola” da IA e abandonando campos com menos dados, mas com questões igualmente importantes. “Vai se repetir o que aconteceu com a biologia molecular. Chegou um momento em que todo mundo foi atrás e faltou gente em bioquímica. Isso é ruim para a ciência, ruim para a produção do conhecimento, mas é assim que o jogo é jogado”, conclui.

Conhecimento não é entendimento

Há uma anedota do físico americano Richard Feynman: você pode saber o nome de um pássaro em todas as línguas do mundo e continuará sem saber nada sobre o pássaro. Em outras palavras, o conhecimento não é a mesma coisa que o entendimento. Ter acesso a toda a literatura científica via um modelo de linguagem não faz de ninguém um cientista, mas somente alguém bem informado.

O estudo de Evans e colaboradores aponta, nesse sentido, para um horizonte que vai além das métricas de produtividade. Ao final, a pergunta não é apenas quantos artigos a IA ajuda a publicar, mas o que esses artigos estão descobrindo e, mais importante, o que estão deixando de perguntar.

“Esses achados iluminam um caminho crítico e amplo para o desenvolvimento da IA na ciência”, escrevem os autores no artigo da Nature. “Para preservar a exploração coletiva numa era de uso de inteligência artificial, precisaremos reimaginar sistemas de IA que expandam não apenas a capacidade cognitiva, mas também a capacidade sensorial e experimental, permitindo e incentivando os cientistas a buscar, selecionar e coletar novos tipos de dados de domínios anteriormente inacessíveis, em vez de meramente otimizar a análise de dados existentes”, completam.

A história das grandes descobertas científicas, argumentam, está mais ligada a novas formas de ver a natureza do que à otimização das formas já existentes de olhar para ela. O desafio é ensinar à máquina, e aos jovens pesquisadores, o caminho da curiosidade.

A criptografia que promete esconder dados até da nuvem

Toda vez que você envia um prompt ao ChatGPT, suas palavras são transformadas em um código indecifrável antes de atravessar fibras ópticas e cabos submarinos rumo aos data centers da OpenAI no estado do Texas, nos Estados Unidos – ou em algum outro lugar do mundo. É assim que boa parte da informação do planeta trafega: criptografada. Mas proteger dados em trânsito não resolve tudo. Em algum momento, o servidor precisa decifrar a informação para processá-la — e é justamente aí que surgem as brechas.

Em 1995, o pioneiro da segurança digital Gene Spafford resumiu o problema dizendo que “criptografia sem um sistema íntegro equivale a investir em um carro-forte para levar dinheiro de alguém que mora em uma caixa de papelão para outra pessoa fazendo negócios em um banco de parque”. Ou seja, proteger os dados no caminho não adianta se emissor e destinatário continuam vulneráveis.

Nos últimos 15 anos, passamos a terceirizar cada vez mais funções à nuvem, do streaming ao armazenamento de arquivos e e-mails. A banda larga permite delegar nossas demandas computacionais a esses servidores remotos, mas isso exige enviar muitos dados para empresas com termos e condições de uso intermináveis. 

O número do cartão de crédito é apenas a ponta de um iceberg de informações sensíveis que não devem estar na nuvem. Imagine, por exemplo, uma IA da área médica que analisa o prontuário dos pacientes e sugere diagnósticos: uma seguradora de saúde poderia usar esses dados para investigar o histórico de quem tenta contratar o plano — e, assim, negar clientes com doenças crônicas. 

Por isso, um dos grandes objetivos da criptografia contemporânea é desenvolver um tipo de cifra que permita a um data center processar dados cifrados “às cegas” e dar o resultado correto sem precisar bisbilhotar o conteúdo. O nome dessa ideia é criptografia completamente homomórfica (fully homomorphic encryption, ou FHE, na sigla em inglês). Ela já é possível na prática — mas, no estágio atual de desenvolvimento, ainda é uma opção de milhares a milhões de vezes mais lenta do que processar a mesma informação abertamente. 

Hilder Pereira é professor do Departamento de Teoria da Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e uma referência nacional nessa área. Em 2025, a FAPESP aprovou uma bolsa Jovem Pesquisador de cinco anos, sob sua coordenação, para avançar na teoria e nas aplicações da FHE. Pereira está na vanguarda mundial dos esforços para transformar a FHE de um campo acadêmico em algo mais próximo de uma tecnologia aplicada no dia a dia. 

Fazer com que a FHE vire realidade envolve dois desafios. O primeiro é que pressionar grandes empresas por avanços em segurança digital não depende apenas de legislação ou de agências reguladoras: segundo o pesquisador, é necessário também um grau de conscientização coletivo que ainda não existe. “Quando alguém aponta uma arma para você, o perigo está na sua frente. Diferente de falar para as pessoas que empresas coletam dados da população e os usam para manipular eleições. Isso ainda soa abstrato”, diz. 

O segundo é que fazer a FHE funcionar está longe de ser trivial. Do ponto de vista do computador, lidar com uma cifra completamente homomórfica equivale a resolver um cubo mágico de olhos vendados. Para entender como é possível uma máquina processar dados sem enxergá-los (e até que ponto é possível tornar esse processo mais rápido), precisamos voltar algumas casas na história da criptografia — e começar na época em que o homomorfismo ainda era entendido como uma propriedade indesejável pelos criptógrafos. 

Glauco Lara

A brecha que virou solução

A criptografia moderna se apoia em operações matemáticas simples de executar, mas extremamente difíceis de desfazer — como fatorar números gigantescos gerados pela multiplicação de dois números primos. Esse é o princípio por trás do RSA, um dos métodos de criptografia mais influentes, criado em 1977. A sigla representa os sobrenomes dos criptógrafos que inventaram a técnica: Rivest, Shamir e Adleman.

Os números gigantescos da RSA são inquebráveis na prática. Mas a estrutura matemática dessa cifra é frágil de outra forma: ela permite manipular os criptogramas sem que percam seu significado no processo, ou seja, a equivalência matemática com o conteúdo que deu origem a eles. 

Uma metáfora ajuda a entender. Imagine duas palavras. Uma é “pão”, a outra é “manteiga”. Em RSA, cada uma é representada por um criptograma gigante e difícil de fatorar. Porém, se um servidor multiplicar “pão” e “manteiga”, ele vai obter um criptograma que significa “pão com manteiga”. O servidor não consegue ler o conteúdo, mas a operação continua fazendo sentido. Isso é o homomorfismo: o comportamento das multiplicações realizadas em texto claro (ou plaintext, em inglês) se mantém ao ser mapeado para o conjunto de dados cifrados (ciphertext).

No caso da RSA, apenas uma operação matemática é homomórfica: a multiplicação. Por isso, a RSA é classificada como uma cifra parcialmente homomórfica. Para computar às cegas, porém, era preciso ir além e construir uma cifra completamente homomórfica — que, além das multiplicações, permitisse também fazer somas sem mudar o conteúdo. 

Nas décadas seguintes à invenção da RSA, pesquisadores tentaram ampliar esse princípio para permitir múltiplas operações matemáticas sobre dados cifrados. Em 2005, o criptógrafo israelense Dan Boneh chegou perto: criou uma cifra homomórfica para as duas operações, mas que permitia apenas uma multiplicação, embora suportasse infinitas adições. O avanço decisivo veio em 2009, quando o americano Craig Gentry, então funcionário da IBM, publicou sua tese de doutorado orientada pelo próprio Boneh, apresentando a primeira cifra completamente homomórfica funcional. 

Os limites físicos e teóricos da FHE

O problema é que as cifras homomórficas acumulam “ruído” matemático a cada operação realizada. Depois de muitas contas, esse ruído cresce tanto que pode corromper o resultado. É como a poluição por mercúrio nos oceanos: cada peixe pequeno tem um pouco desse elemento tóxico no organismo. Mas quando um tubarão come todos eles, acaba concentrando uma quantidade muito maior do metal (processo chamado de bioacumulação).

O que Gentry fez foi encontrar um jeito de limpar o ruído a cada ciclo de processamento de dados, técnica que batizou de bootstrapping. O nome vem da expressão inglesa “puxar a si mesmo pelas alças das próprias botas”, usada para descrever um procedimento recursivo. 

Neste caso, o criptograma ruidoso é processado pelas próprias técnicas de FHE para produzir um criptograma equivalente, mas com ruído menor. “Isso abre portas para um número ilimitado de operações. Esse foi o grande problema que Gentry resolveu há pouco mais de 15 anos”, diz Diego Aranha, professor brasileiro que trabalha na Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e ex-orientador de Pereira. O bootstrapping é, ao mesmo tempo, o segredo da FHE e sua limitação: limpar o ruído das cifras é uma tarefa pesada, e é a razão de esse tipo de criptografia demorar tanto.

Glauco Lara

Foi apenas em meados de 2016 que as coisas começaram a parecer “razoavelmente praticáveis”, nas palavras de Pereira. O GPS é um exemplo ilustrativo do tipo de coisa que a FHE ainda não consegue fazer. O aplicativo precisa recalcular a rota em segundos quando você entra em uma rua errada, e realizar essa computação com uma cifra homomórfica poderia levar dias. 

Ao problema computacional se soma um problema econômico. O mundo vive uma crise de disponibilidade de chips de silício causada pela construção acelerada de data centers para inteligência artificial (IA). Grande parte do poder computacional previsto para ser instalado em 2026 já está comprometida com as big techs. 

“A parte infeliz é que, do ponto de vista de hardware, acelerar a FHE ou usá-la para delegação segura de computação compete pelo mesmo hardware que a IA”, diz Aranha. “Empresas de internet que operam infraestrutura de nuvem — Amazon, Google, Microsoft — têm seu ganha-pão exatamente nisso: rodar seu código nos servidores delas. Do ponto de vista do cliente, seria muito melhor ter uma garantia matemática do que assinar um papel em que a Amazon promete não bisbilhotar.”

Uma possibilidade é reaproveitar gerações antigas de GPUs (microprocessadores) descartadas pela corrida da IA. O hardware que deixa de ser competitivo para treinar modelos de fronteira pode ajudar a acelerar pesquisas em FHE. Há também startups produzindo chips dedicados à FHE. Na mesma direção, a KU Leuven — que abriga um dos grupos de hardware para criptografia mais respeitados do mundo, onde Pereira fez pós-doutorado — mantém um projeto financiado pela União Europeia.

Da teoria à indústria

Além de trabalhar com o chão de fábrica da FHE — o que significa, por exemplo, aperfeiçoar o bootstrapping para torná-lo menos dispendioso —, o trabalho de Pereira também tem uma faceta teórica. 

Toda cifra é construída sobre a premissa de que um problema matemático é difícil de resolver. A RSA, por exemplo, aposta que fatorar o produto de dois números primos enormes é computacionalmente inviável. Mas Pereira lembra que essa dificuldade não é necessariamente eterna. “Talvez alguém encontre um novo algoritmo de fatoração muito mais eficiente e rápido, que reduza o tempo de fatoração”, explica. Um de seus objetivos no projeto apoiado pela FAPESP é justamente investigar se é possível construir FHE com menos pressupostos matemáticos. Apoiar a segurança num conjunto menor de suposições reduz a vulnerabilidade da cifra caso alguma delas se revele falsa. 

Para a academia, essa é a diferença entre um prédio com fundações construídas para o grau exato de estabilidade do solo e um prédio com precauções extras, que permanece em pé mesmo que o solo se mostre menos firme do que se pensava. Os acadêmicos estão sempre se antecipando, como na criptografia pós-quântica. “Estamos nos preparando para que, se um dia existir o computador quântico, essas novas cifras pós-quânticas já sejam seguras”, explica Pereira. 

A FHE é um campo de estudo bem estabelecido no mundo acadêmico. Do lado da indústria, o movimento é mais fragmentado, mas já perceptível. A startup francesa Zama, por exemplo, trabalha em aplicações de machine learning e blockchain com FHE, tentando ocultar não apenas a identidade dos usuários, mas também os próprios fluxos financeiros. 

A Zama quer cifrar essas transações com FHE, de modo que nem mesmo quem opera a infraestrutura saiba quem mandou quanto para quem. Para Nigel Smart, professor da KU Leuven que também ocupa o cargo de diretor acadêmico da empresa, esse é um momento equivalente à passagem do protocolo HTTP para o HTTPS na internet, em 1994  — uma camada de privacidade que reconfigura o que é possível fazer online. Foi o ‘S’ de ‘seguro’ que permitiu o uso de cartões de crédito na internet.

Smart, porém, faz questão de desfazer uma ilusão comum sobre as possibilidades da FHE. Esse tipo de cifra não é “uma poeira mágica que se polvilha sobre sistemas existentes para torná-los privados. Elas devem ser vistas como tecnologias que habilitam novos modelos de negócio e novas oportunidades que antes simplesmente não existiam”, diz ele. Um exemplo concreto é o combate à lavagem de dinheiro: bancos precisam cruzar dados de clientes para identificar fluxos suspeitos, mas não querem — e muitas vezes não podem, legalmente — entregar esses dados a concorrentes. Com FHE, a colaboração se torna possível.

Já existem outras aplicações de cifras homomórficas saindo do papel. O Microsoft Edge emprega FHE para verificar se senhas foram comprometidas em vazamentos sem revelar as senhas ao servidor. Craig Gentry, criador da primeira FHE viável, hoje trabalha na startup Cornami, com foco no gargalo mais relevante para a IA: tornar a multiplicação de matrizes mais rápida sob cifra homomórfica, já que essa operação é importantíssima para Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs, do inglês) como o GPT.

Não existe milagre: é pouco provável que a FHE se torne uma tecnologia amplamente disseminada ainda nas próximas décadas. Mas chegar mais perto desse grau platônico de segurança não é apenas uma questão de avanço científico-tecnológico: é algo que exige uma mudança de mentalidade que também está distante. “As pessoas não estão acostumadas a se preocupar com isso”, resume Pereira. À medida que a vida contemporânea passa a depender cada vez mais de computação delegada, é urgente que o trabalho de pesquisadores como Pereira se traduza em aplicações práticas. 

Pesquisa FAPESP começa uma nova etapa

A revista Pesquisa FAPESP está começando uma nova etapa, com o desafio de alcançar ainda mais leitores, experimentar novos formatos e estreitar ainda mais a conversa entre ciência e sociedade — algo essencial num momento em que as decisões coletivas dependem cada vez mais de compreender o que a ciência diz, e o que ela ainda não sabe. Tudo isso, sem perder a profundidade nem trair a complexidade dos temas que sempre cobriu, com responsabilidade e qualidade, ao longo de 27 anos de história. 

O formato impresso tradicional, que os leitores conhecem e valorizam, será mantido, e haverá reforço no uso de meios digitais de comunicação, que são mais ágeis e difundidos atualmente.

Nas próximas semanas, a revista operará em ritmo de transição, com um breve hiato na publicação de edições impressas. É um intervalo necessário para que tudo entre em vigor com consistência e substância. Em breve, os leitores encontrarão uma Pesquisa FAPESP reformulada, editorial e graficamente. Novas reportagens já estão sendo publicadas em formato digital, disponíveis neste site e nas nossas redes sociais; e a próxima revista impressa está prevista para setembro.

A missão permanece a mesma: fazer com que a pesquisa chegue a quem a financia — a sociedade — e seja por ela apropriada, para que todos entendam por que esse esforço vale a pena. A iniciativa, uma colaboração entre a Gerência de Comunicação da FAPESP e o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas (Labjor/Unicamp), traz a essência da revista Pesquisa FAPESP para um formato moderno e dá continuidade a um compromisso firmado matéria a matéria, edição a edição — e que a sociedade brasileira ajudou a construir.

 

Espécies únicas de coral-de-fogo do Brasil enfrentam risco crescente de extinção

Os recifes de coral brasileiros enfrentam os efeitos combinados do aquecimento dos oceanos, da degradação ambiental e dos sucessivos eventos de branqueamento. O cenário é especialmente preocupante porque o país concentra os únicos sistemas recifais do Atlântico Sul, distribuídos ao longo de cerca de 3 mil quilômetros de litoral, e uma diversidade singular de corais-de-fogo, do gênero Millepora: das quatro espécies que ocorrem no Brasil, três são exclusivas da costa nacional.

O agravamento desse cenário acaba de ganhar reconhecimento oficial. Na atualização mais recente da Lista Nacional de Espécies Aquáticas Ameaçadas de Extinção, publicada pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em abril, todas as espécies brasileiras de coral-de-fogo tiveram sua classificação de risco elevada. Millepora braziliensis e Millepora laboreli passaram a ser consideradas “criticamente em perigo”, uma categoria imediatamente anterior à extinção na natureza; Millepora alcicornis, também encontrada no Caribe, foi reclassificada como “em perigo” após mortalidade superior a 90% registrada nos últimos eventos de branqueamento; e Millepora nitida passou à categoria “quase ameaçada”.

O que é o projeto Coral Vivo
Iniciativa nacional de pesquisa, conservação e educação ambiental voltada aos recifes de coral brasileiros. Criado em 2003, hoje é uma referência no monitoramento dos recifes e financiado pela Petrobras.

Millepora braziliensis é um animal com distribuição extremamente restrita, o que aumenta muito o risco. Um único evento de branqueamento em massa pode ser suficiente para extinguir a espécie”, alerta Miguel Mies, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), coordenador de pesquisas do Projeto Coral Vivo e apoiado pelo Programa Jovens Pesquisadores da FAPESP.

A velocidade das mudanças tem levado pesquisadores a discutir estratégias que até recentemente pareciam distantes da conservação de recifes: manter espécies ameaçadas fora do ambiente natural. “Já estamos debatendo como manter esses invertebrados vivos em sistemas artificiais, porque a natureza atual, modificada pelo ser humano, pode se tornar incompatível com a sua existência”, diz Mies, que também coordena o monitoramento nacional de recifes coralíneos, financiado pelo Coral Vivo e pela Petrobras.

O alerta é reforçado por estudo publicado pelo pesquisador na revista Coral Reefs em 2025. Baseado no maior esforço coordenado já realizado para monitorar o branqueamento no Atlântico Sul, o trabalho mostra que o evento global de branqueamento de 2023-2024 provocou perdas severas em recifes brasileiros, especialmente no Nordeste, e que a repetição desses episódios vem reduzindo a capacidade de recuperação dos ecossistemas.

Marcelo Kitahara/CebimarAs pontas alaranjadas são as únicas partes vivas que restam nesse recife de Millepora alcicornis, em Maragogi (AL); com colônias cobertas por algas calcárias e petrechos de pescaMarcelo Kitahara/Cebimar

Ondas de calor e branqueamento
O principal motor desse declínio é o aquecimento dos oceanos e o aumento da frequência de ondas de calor marinhas, associados às mudanças climáticas. O aumento anômalo da temperatura da água provoca o branqueamento dos corais, fenômeno em que os organismos expulsam as zooxantelas — microalgas responsáveis por grande parte de sua nutrição, que vivem dentro de seus tecidos. Sem essas algas, os corais perdem sua coloração característica e entram em estresse fisiológico severo. Embora o branqueamento possa ser reversível, episódios intensos ou prolongados frequentemente levam à morte das colônias. 

O branqueamento em massa vem sendo estudado há décadas, mas pesquisadores apontam 2016 como um ponto de virada nos recifes brasileiros, quando uma forte anomalia de temperatura atingiu diferentes trechos da costa nacional – acompanhando uma tendência que já vinha sendo observada em outras partes do mundo. Na época, pesquisadores questionaram se esse crescimento refletia apenas a ampliação do monitoramento ou se os eventos estavam, de fato, se tornando mais frequentes. Em 2019, contudo, uma nova onda de calor afetou os recifes com intensidade ainda maior. A diferença é que, dessa vez, havia mais grupos de pesquisa atuando simultaneamente em diferentes regiões do país, ampliando a capacidade de observação e tornando o monitoramento mais abrangente.  

Entre 2023 e 2025, o planeta registrou um dos maiores episódios globais de branqueamento já documentados, afetando 84% das áreas recifais em 82 países e territórios. No mesmo período, recordes de temperatura da superfície do mar foram sucessivamente quebrados.

Marcelo Kitahara/CebimarEsqueletos de colônias de Millepora alcicornis mortas devido ao branqueamento ocorrido em 2023-2024, em Maragogi (AL)Marcelo Kitahara/Cebimar

Segundo Ruy Kenji, professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o monitoramento dos recifes combina observações de campo com dados de satélite. “Utilizamos sistemas como o Coral Reef Watch [um serviço da Noaa, a agência de pesquisas oceânicas e atmosféricas dos Estados Unidos], que acompanha anomalias térmicas em tempo quase real. Os dados mostram claramente que regiões ao norte de Salvador têm experimentado eventos mais intensos de aquecimento do que a costa leste da Bahia [macrorregião que se estende ao sul da capital baiana até o Espírito Santo], por exemplo”, explica. 

Essa diferença regional, contudo, não reduz a gravidade do problema. “O aquecimento está expandindo as áreas tropicais. Regiões antes frias estão ficando mais quentes, o que poderia favorecer a expansão dos corais. Mas a velocidade de mortalidade nas áreas atuais é tão alta que não dá tempo dessa migração acontecer”, afirma.

Os efeitos já aparecem em campo. “Temos testemunhado um declínio quase completo em algumas áreas”, relata Guilherme Longo, professor do Departamento de Oceanografia e Limnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Segundo ele, há regiões em que, de colônias antes abundantes, agora restam apenas esqueletos antigos, recobertos por outros organismos.

O estresse invisível dos recifes
Além do aquecimento global, pressões locais tornam os recifes ainda mais vulneráveis. Poluição por esgoto e fertilizantes, contaminação por agrotóxicos, aumento da carga de sedimentos e sobrepesca comprometem a saúde e reduzem a capacidade de recuperação dos corais. 

Marcelo Kitahara, oceanógrafo do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (Cebimar) e também bolsista Jovem Pesquisador da FAPESP, destaca o papel dos animais herbívoros nesse equilíbrio. “Esses peixes controlam o crescimento de algas que competem diretamente com os corais. Sem eles, as algas proliferam e podem sufocar as colônias”, explica. O resultado é um efeito combinado: recifes já fragilizados pelas mudanças climáticas globais se tornam ainda mais sensíveis aos impactos locais.

“Estamos diante de uma possível extinção causada diretamente por nós” – Miguel Mies, professor do Instituto Oceanográfico da USP, coordenador de pesquisas do Projeto Coral Vivo

Pesquisas recentes também tentam entender se algumas populações possuem maior resistência ao calor. Após o evento de branqueamento de 2019, Kitahara e sua equipe compararam o DNA de colônias da espécie Millepora alcicornis coletadas antes e depois da onda de calor, em Arraial d’Ajuda e Abrolhos (BA). “Identificamos certas variantes associadas a mecanismos de reparo de DNA que parecem conferir maior resistência ao estresse térmico”, afirma. 

Os resultados sugerem algum potencial adaptativo, mas ainda insuficiente para garantir a sobrevivência das populações mais ameaçadas. “Tudo depende do número de sobreviventes. Em alguns locais, simplesmente não encontramos mais colônias vivas”, diz Kitahara, que também é pesquisador associado do Smithsonian Institution.

Marcelo Kitahara/CebimarPeixe-anjo-rainha e, ao fundo, uma colônia do coral-cérebro-da-bahia, Mussismilia braziliensis, em Abrolhos (BA)Marcelo Kitahara/Cebimar

Entre a conservação e a intervenção
A possibilidade de manter corais ameaçados em ambientes artificiais, como tanques ou aquários — estratégia conhecida como conservação ex situ — começa a ganhar espaço entre pesquisadores brasileiros. “Se quisermos garantir a continuidade de algumas espécies, talvez seja necessário remover parte das colônias da natureza e mantê-las em condições controladas”, afirma Mies. Segundo ele, essa alternativa já vem sendo discutida no país, especialmente para as espécies Millepora laboreli e Millepora braziliensis, consideradas criticamente ameaçadas, mas ainda não saiu do papel. “É preciso muita cautela”, alerta. 

Segundo ele, a estratégia ainda enfrenta desafios técnicos, financeiros e éticos. “É preciso definir quem tem capacidade para manter esses organismos, garantir financiamento de longo prazo e estabelecer prioridades claras de conservação.”

Longo ressalta que qualquer abordagem desse tipo exige cautela extrema. “Estamos falando de organismos sensíveis, que dependem de condições ambientais específicas. Qualquer intervenção exige muito cuidado e responsabilidade”, afirma. Ainda assim, diante da aceleração das mudanças climáticas, esse debate ganha espaço em diferentes países. Pesquisadores já testam estratégias de conservação ativa em laboratório, incluindo reprodução assistida, bancos genéticos e cultivo de colônias mais resistentes ao calor.

Na Austrália, cientistas ligados à Great Barrier Reef Foundation e ao Australian Institute of Marine Science vêm testando diferentes abordagens para aumentar a resistência dos corais ao aquecimento dos oceanos. Entre as iniciativas estão o cruzamento seletivo de colônias naturalmente resistentes ao calor e técnicas de “treinamento térmico”, nas quais organismos cultivados em ambientes controlados são expostos gradualmente a temperaturas mais altas para estimular mecanismos de adaptação ao estresse do aquecimento. Pesquisadores também investigam o uso de microalgas e bactérias termorresistentes para fortalecer a sobrevivência das colônias durante os eventos de branqueamento. 

Em abril de 2026, o Ministério do Meio Ambiente e o ICMBio elevaram o risco de extinção das quatro espécies brasileiras de coral-de-fogo (Millepora): duas passaram a “criticamente em perigo”, uma a “em perigo”, e a quarta foi reclassificada como “quase ameaçada”

Nos Estados Unidos, a Noaa também incorporou corais resistentes ao calor à sua estratégia nacional de resiliência de recifes, incluindo reprodução seletiva em laboratório, cultivo de colônias e transplante de fragmentos em áreas degradadas.

Apesar do avanço nas pesquisas, a comunidade científica ressalta que nenhuma dessas estratégias garante a sobrevivência dos recifes em larga escala, especialmente diante do agravamento acelerado do aquecimento global. Na Flórida, por exemplo, uma onda de calor marinha até então sem precedentes, em 2023, devastou colônias cultivadas em viveiros e transplantadas para cinco áreas de restauração conduzidas pela Noaa. 

O desafio pode se tornar ainda maior nos próximos meses. Em junho, a agência norte-americana anunciou que o fenômeno El Niño voltou a se estabelecer no Pacífico tropical e pode atingir intensidade moderada ou forte, aumentando o risco de novas ondas de calor marinhas e, consequentemente, de episódios de branqueamento em massa dos corais.

Enquanto isso, o monitoramento dos recifes brasileiros vem sendo ampliado. Após o evento de branqueamento de 2019, pesquisadores de diferentes regiões do país criaram um protocolo nacional de acompanhamento dos recifes, em uma ação do Projeto Coral Vivo, liderado por Mies. O objetivo é padronizar métodos, compartilhar dados e acompanhar de forma mais sistemática os corais brasileiros. 

Marcelo Kitahara/CebimarColônia viva de Millepora alcicornis, em Abrolhos (BA)Marcelo Kitahara/Cebimar

Segundo Kenji, da UFBA, que colabora com o Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Ambientes Coralíneos (PAN Corais), os dados de mortalidade ainda precisam ser interpretados com cautela. “Trabalhamos com amostragens. Quando falamos em 100% de mortalidade, estamos nos referindo ao que foi observado em determinadas áreas. Pode haver pequenos remanescentes que não conseguimos detectar”, explica.

A atualização da lista nacional também manteve em categorias de ameaça dois dos principais corais construtores de recifes do país: Mussismilia braziliensis, classificada como “vulnerável”, e Mussismilia harttii, considerada “em perigo”.

Embora ocupem apenas 0,1% da área marinha global, os recifes de coral concentram aproximadamente um quarto de toda a biodiversidade oceânica conhecida. Funcionam como abrigo, berçário e fonte de alimento para milhares de espécies, além de contribuir para a pesca, o turismo e a proteção costeira. “Ainda temos dificuldade de entender que tudo está conectado. O que acontece na Amazônia influencia o oceano, e o que acontece no oceano afeta o clima e as florestas”, diz Longo.

“Estamos diante de uma possível extinção causada diretamente por nós”, reflete Mies. Para os pesquisadores, o desafio agora não é apenas compreender a velocidade das mudanças nos recifes, mas decidir até onde a intervenção humana deve ir para evitar a perda definitiva de espécies que existem apenas no Brasil.

Ambiente cósmico molda estrutura das galáxias de transição, que estão parando de gerar novas estrelas

Quando entram em sua fase de transição, as galáxias começam a deixar de gerar novas estrelas e mudam progressivamente da forma espiral para a elíptica. Como um adolescente em mutação, modificam sua estrutura e aparência em decorrência do ambiente em que estão inseridas. As que se desenvolvem como integrantes de um grupo de galáxias sofrem mais alterações em sua morfologia e podem até se tornar disformes, possivelmente em razão de colisões e fusões com suas vizinhas. Seu disco externo, a região em que ocorre a formação de estrelas, tende a ser mais tênue. Seu bojo, a área central onde se aglutinam as estrelas mais velhas, torna-se mais proeminente. Já as galáxias de transição que se encontram isoladas no Universo, longe de outras companheiras, tendem a manter suas feições originais, com poucas alterações, por mais tempo.

Essas conclusões parecem óbvias e universais, no sentido de que seria esperado encontrar uma correlação entre a forma de uma galáxia e o ambiente em que ela evolui. Mas um artigo publicado em março no periódico científico The Astrophysical Journal sugere que essa correspondência é muito mais acentuada entre as galáxias de transição do que em outros tipos de galáxias, como as espirais e as elípticas, que se encontram em outra etapa de sua existência. “As galáxias de transição apresentam uma forte assinatura do ambiente de que fazem parte”, diz a astrofísica colombiana Gissel Montaguth, autora principal do estudo, que faz pós-doutorado no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) com bolsa da FAPESP.

A partir de dados obtidos pelo Southern Photometric Local Universe Survey (S-Plus), um mapeamento de metade do céu do hemisfério Sul conduzido por um pequeno telescópio robótico brasileiro instalado nos Andes chilenos, Montaguth e seus colaboradores analisaram a influência da localização e dos arredores celestes sobre a estrutura e o formato de 4.012 galáxias. De acordo com um modelo matemático, o perfil de Sérsic, que permite inferir a forma e as estruturas de uma galáxia a partir da distribuição de seu brilho superficial, os objetos da amostra foram classificados em quatro tipos: galáxias do tipo tardio (38% do total), inicial (36%), de transição (12,5%) e outras de formato variado (13,5%).

As galáxias do tipo tardio têm geralmente formato espiral (como a Via Láctea) ou irregular. Sua cor tende, na maioria dos casos, para o azul, um indicativo de que ocorre a gênese de novas estrelas em seu interior. As do tipo inicial compreendem as galáxias elípticas, que não têm braços estelares. Nelas não há mais formação de novas estrelas e sua cor geralmente é vermelha. São galáxias perto de seu fim, mais envelhecidas estruturalmente do que as azuladas, onde nascem muitas estrelas.

As galáxias de transição são menos abundantes do que as incluídas nas duas classes anteriores e, como seu nome sugere, são um meio-termo entre as espirais azuis e as elípticas avermelhadas. As galáxias lenticulares, que têm discos centrais grandes e alongados, mas não têm braços, são a expressão mais comum dessa classe intermediária que quase não produz mais estrelas novas em seu interior. “As galáxias de transição estão passando da fase azul para a vermelha”, comenta Montaguth.

No estudo, o contexto em que se inserem as galáxias das quatro categorias analisadas foi dividido em duas configurações principais. Quase 80% delas ocupam uma posição no espaço dentro de um grupo composto por outras galáxias, que pode variar de tamanho (pequeno, médio e grande). Cada grupo forma uma vizinhança cósmica, um ambiente, que pode reunir desde meia dúzia até uma centena de galáxias. Pouco mais de 20% dos objetos da amostra são galáxias solitárias, sem companheiras, que se localizam em áreas praticamente vazias do Universo.

Posto esse cenário, os astrofísicos fizeram a pergunta de fundo do trabalho: o ambiente em que uma galáxia está influencia sua estrutura? A resposta, depois das análises, foi sim – desde que ela seja uma de transição que habita um grupo composto por mais galáxias. Nesse caso, ela tende a ser de menor porte e a apresentar estruturas mais compactas e evoluídas, tendo perdido seu disco externo e exibindo apenas um núcleo mais denso de estrelas. Nos demais tipos de galáxias, a interferência do lugar ocupado no Universo sobre seu formato é pequena ou não muito significativa.

“Entender a curta fase de transição das galáxias é algo fundamental”, explica a astrofísica Claudia Mendes de Oliveira, do IAG-USP, coautora do artigo e supervisora do pós-doutorado de Montaguth. “Nosso trabalho traz informações importantes sobre os mecanismos físicos que moldam a evolução das galáxias no Universo.” As galáxias podem permanecer em sua etapa de transição por algumas centenas de milhões de anos ou até um bilhão de anos. É pouco, menos de 10% de seu tempo total de vida.

Uma floresta flutuante?

Em frascos de laboratório crescem colônias de cianobactérias, microrganismos cuja riqueza química pode dar origem a moléculas com potencial farmacológico. Durante seu treinamento na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), Andrei Godinho andava com frascos no bolso para coletar água de poças esverdeadas, depois da chuva, e cuidava dos organismos até poder extrair suas substâncias e testar sua potencial ação anticancerígena em células tumorais. “No Brasil, ainda não pusemos no mercado um fármaco oriundo de moléculas da nossa biodiversidade de cianobactérias”, afirma.

Imagem enviada por Andrei Celestino Godinho, estudante de graduação em biotecnologia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP.

Sua pesquisa rende fotos bonitas? Mande para imagempesquisa@fapesp.br. Seu trabalho poderá ser publicado na revista.

Comentários 364

Pantanal seco
Uma pesquisa importante (“Um Pantanal mais seco e quente”, edição 360), com dados muito relevantes – inclusive já verificados no estudo que estou desenvolvendo atualmente. Infelizmente, ela revela uma realidade preocupante, especialmente para biomas como a Amazônia e o Pantanal. Neste último, a situação é ainda mais alarmante, com uma progressão acelerada de danos, como a perda de água.
Marcelo Mazin
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Câncer de intestino
Esse tipo de estudo é extremamente importante (“Os custos de uma doença”, edição 362). Ciência é isso, tem que ser pragmática, em busca de melhores condições para a sociedade. A máquina pública não se preocupa com a família ou os filhos que a pessoa vai deixar se morrer; se preocupa se deixamos de trabalhar e pagar impostos. É necessário mostrar que cuidar da saúde das pessoas é benéfico para todos.
Marcos Paulo Amorim
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Vídeos
Ótimo conteúdo (“Aquecimento global empurra corais para ponto de não retorno”). Triste, mas fundamental. Fiquei pensando no próximo El Niño, esperado para o segundo semestre deste ano, e na dificuldade de os países assumirem compromissos juntos. É imprescindível que cada país comece fazendo a sua parte.
Glaucia Aragão
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Parabéns pela informação tão didática e importante sobre corais. Agradeço o esforço de conscientização.
Charles Jacquard
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Que vídeo completo, superdidático. Muito bom. Vou encaminhar!
Ana Elisa de Nadal
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Ótima análise da obra e das ideias de Milton Santos (“Milton Santos: 100 anos do pensador que redefiniu o espaço geográfico”).
Márcio José Catelan
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Parabéns ao professor Fernando Landgraf pela capacidade didática de nos colocar a par de um tema tão contemporâneo quanto importante (“O que são as terras-raras?”). Infelizmente, continuamos na lanterna da pesquisa aplicada.
Georgina Alves Vieira da Silva

Muito esclarecedor e urgente que a população crie o hábito de conhecer mais profundamente o tema terras-raras.
Eremita Castanheira Novaes
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Sua opinião é bem-vinda. As mensagens poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza. cartas@fapesp.br.

Algoritmos que fazem política

Ada é uma jovem agitadamente bonita. Ela está um pouco nervosa porque vai sair com um novo candidato a namorado que conheceu no Tinder. Eles vão jantar pela primeira vez, então ela quer que tudo dê certo. Para garantir, pergunta ao ChatGPT que tipo de restaurante seria mais apropriado para esse primeiro encontro e a resposta foi “italiano moderno. É quase impossível errar com massa”. Ela gostou da sugestão, então abre o Maps, procura por “italiano moderno”, escolhe aquele com melhor avaliação e manda o link para o “candidato”, que responde rapidamente com um ícone de joinha e um emoji de coração.

O Maps mostra que a caminhada até lá levaria 23 minutos e Ada considera ir a pé.  Mas, ao traçar a rota recomendada, percebe que teria que passar por ruas escuras que, mesmo cheias de câmeras de segurança com reconhecimento facial, não inspiram muita confiança; então, ela decide chamar um Uber. Ada fica preocupada, pois a bateria do seu celular está acabando e o Uber está estranhamente caro, mas tudo dá certo. Ao chegar ao restaurante, repara em um rapaz sentado à mesa, fissurado em seu celular, tentando baixar um aplicativo para escolher a música ambiente. Aproxima-se e pergunta: “Alan, é você?”. Ele ergue os olhos, sorri e responde: “Você é mais bonita pessoalmente”.

Vivemos em um mundo regido por algoritmos. Eles ditam boa parte dos nossos movimentos, os caminhos que fazemos, a música que ouvimos, os filmes a que assistimos, as notícias que lemos, a comida que comemos, os remédios que tomamos, os impostos que pagamos e as pessoas com quem nos relacionamos. Eles também influenciam políticas públicas e resultados de eleições.

No livro Política dos algoritmos – Instituições e as transformações da vida social, os cientistas políticos Ricardo Mendonça e Fernando Filgueiras e o cientista da computação Virgílio Almeida não só discutem como os algoritmos estão transformando a vida social (o que já sabíamos), mas também argumentam que os algoritmos são novas instituições. Analisando a digitalização das sociedades sob a ótica do institucionalismo, os autores mostram como o arcabouço conceitual das instituições é adequado para compreender melhor o papel dos algoritmos no contexto atual.

O termo algoritmo designa uma sequência sistemática de operações lógico-matemáticas destinada a resolver um problema ou a alcançar um objetivo específico. Existem algoritmos para colocar nomes em ordem alfabética, resolver sistemas de equações, converter imagens coloridas em branco e preto, localizar registros em um grande banco de dados e muito mais.

Na última década, o aumento do poder do hard­ware dos computadores e a grande quantidade de dados disponíveis para análise impulsionaram o avanço dos algoritmos de aprendizado de máquina, que passaram a obter resultados expressivos em uma nova gama de aplicações. Entre elas estão, por exemplo, a recomendação de filmes em plataformas de streaming, a detecção de fraudes no imposto de renda ou em licitações ou a decisão de quem deve receber um auxílio emergencial em caso de calamidade pública.

Na abertura do livro, é apresentada a ideia de institucionalismo, estabelecendo os conceitos básicos da área. Ao propor que os algoritmos sejam compreendidos como instituições, os autores fogem de abordagens superficiais, tanto daquelas que os tratam, em um extremo, como agentes autônomos animados quanto das que os reduzem a ferramentas neutras. Para os autores, os algoritmos são, simultaneamente, estruturas e formas de agência, com impactos individuais e coletivos.  Em seguida, eles apresentam uma série de exemplos concretos em áreas como segurança pública e saúde, auxiliando o leitor a refletir sobre essa nova forma de enxergar a sociedade.

Por fim, o livro enfatiza a necessidade de a sociedade impor limites ao modo como os algoritmos são inseridos em nossas vidas, ressaltando que valores da ética, da responsabilidade e da democracia devem prevalecer. Trata-se, portanto, de uma leitura fundamental para quem deseja refletir sobre o papel dos algoritmos nas sociedades contemporâneas, seus perigos e oportunidades, e sobre o que podemos fazer para não perdermos o controle. O institucionalismo algorítmico proposto pelos autores oferece um arcabouço analítico consistente para compreender um mundo em transformação.

Fabio Kon é professor titular do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação da Universidade de São Paulo (IME-USP).

Historiadora encontrou refúgio na profissão após a morte da filha

Nasci na cidade de São Paulo e cresci no bairro Vila Monumento, próximo ao Museu do Ipiranga. Aquele prédio, com suas escadarias, jardins e fontes imponentes, era minha paisagem cotidiana. Talvez isso, aliado à paixão pela leitura, me fez ter um gosto especial pelas aulas de história. Lá pelos 13 anos já tinha decidido que seria historiadora. Egressa da escola pública, fui aprovada no vestibular e entrei no curso de história na USP [Universidade de São Paulo] em 1977, aos 17 anos.

Logo no início da graduação, fui “capturada” pela demografia histórica por influência da professora Maria Luiza Marcílio, uma das responsáveis pela introdução e desenvolvimento dessa área no Brasil e na América Latina. No segundo ano, com uma bolsa de iniciação científica da FAPESP, passei a trabalhar no projeto “População, terra e herança na capitania de São Paulo”, cujo objetivo era entender como a elite paulista gerenciava seu patrimônio, casamentos e sucessões hereditárias entre o final do século XVIII e início do XIX.

Até hoje me emociono ao lembrar da primeira lista nominativa que li no Arquivo Público do Estado de São Paulo. As primeiras contagens populacionais realizadas pela Coroa portuguesa aconteceram no século XVI. No entanto, para aprimorar o controle sobre seus territórios, Portugal passou a elaborar, em meados do século XVIII, listas e mapas das populações de suas colônias na África e na América.

Produzidas até 1836, as listas da capitania de São Paulo trazem o número dos habitantes em cada vila, com nome, idade, cor e naturalidade, identificando ainda os chefes dos domicílios, agregados, dependentes e escravizados. Esses documentos constituem a mais importante coleção de levantamentos populacionais realizados na América portuguesa.

O assunto acabou inspirando minha pesquisa de mestrado, “Dinâmica familiar da elite paulista (1765-1836): Estudo diferencial de demografia histórica das famílias dos proprietários de grandes escravarias do Vale do Paraíba e região da capital de São Paulo”. Defendi a dissertação na USP, em 1987, sob orientação da professora Maria Luiza. Dois anos antes eu havia participado da criação do Centro de Estudos de Demografia Histórica da América Latina [Cedhal], idealizado por ela na USP.

Foi por meio do centro que tive oportunidade de concorrer a uma das bolsas do programa de doutorado do Instituto Universitário Europeu [EUI]. Minha proposta era comparar os padrões de casamentos luso-brasileiros. Em 1989, na companhia do meu marido, Dario, embarquei para Florença, onde fica a sede do instituto. Os três anos que passei na Itália foram permeados por frequentes estadas em Portugal, nas cidades do Porto, Braga e Guimarães. Por conta da riqueza das fontes que encontrei na Europa, desisti da proposta inicial de fazer uma análise comparada e privilegiei na tese o lado português da pesquisa.

Terminado o período da bolsa do EUI, fiquei por alguns meses na Universidade do Minho, em Portugal, com uma bolsa do Instituto Camões. Até que, em 1992, engravidei de Thaís e decidimos voltar ao Brasil, sem eu ter defendido o doutorado.

Anos depois, em 1996, recebi um convite para participar de um projeto no então recém-criado Núcleo de Estudos de População e Sociedade [Neps], na Universidade do Minho, em Portugal. Minha nova estada na Europa culminou com a defesa da minha tese de doutorado “Famílias, formas de união e reprodução social no noroeste português, séculos XVIII e XIX”, junto ao Departamento de História e Civilização do EUI, em 1998.

Arquivo pessoalCom o marido, Dario, e a filha, Thaís, em 2006; e com os gêmeos Anna Beatriz e Tomás Aramis, em 2014Arquivo pessoal

De volta ao Brasil, atuei como professora visitante no Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá [UEM], no Paraná, entre 2000 e 2002. E, a partir de 2003, comecei a participar como pesquisadora do Núcleo de Estudos de População da Universidade Estadual de Campinas [Nepo-Unicamp].

Em 2005, fomos para São Leopoldo [RS] depois que fui aprovada em concurso para ser professora no Programa de Pós-graduação em História da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, a Unisinos. Os primeiros anos foram muito felizes: criei um grupo de estudo, exatamente como havia aprendido com a professora Maria Luiza, na USP, e começamos a alimentar um banco de dados [Nacaob] sobre as famílias gaúchas no período colonial.

Eu contava com a colaboração de Dario, que acabou se tornando também um parceiro acadêmico. Por minha “culpa”, ele, que vinha da área de informática, se envolveu na década de 1980 com os desafios de organizar bancos de dados da demografia histórica, passando a colaborar como pesquisador no Cedhal. Em 2020, defendeu seu doutorado em demografia, na Unicamp, com um trabalho sobre a mortalidade da população livre e escravizada em Porto Alegre.

A história de nossa família é marcada por uma tragédia. Em julho de 2007, a Unisinos sediou o simpósio da Associação Nacional de História [Anpuh], o maior encontro brasileiro da área. Por conta disso, Thaís embarcou com uma amiga, Rebeca, em Porto Alegre, para passar férias com os avós em São Paulo. Elas estão entre as 199 vítimas fatais do acidente com a aeronave da TAM no aeroporto de Congonhas, na capital paulista. Tinham 14 anos.

A maneira que encontrei para lidar com uma perda tão brutal foi transformar o trabalho em refúgio. Passava dias inteiros na universidade. Em meio ao processo de luto, veio um convite da editora Contexto para escrever um dos livros da coleção Povos e Civilizações. Em 2010, publiquei Os portugueses, obra em que revisito os grandes ciclos de expansão, crise e reinvenção atravessados por esse povo.

E foi essa palavra, reinvenção, que me guiou quando, aos 48 anos, decidi iniciar um tratamento de fertilidade. Em nome de tudo de bom que vivemos com a Thaís, sentimos que era preciso criar outras memórias. Engravidei já na primeira tentativa de inseminação e, em 2010, chegaram os gêmeos Anna Beatriz e Tomás Aramis.

Iniciei uma nova etapa profissional em 2015, quando fui aprovada em concurso do Departamento de Demografia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas [IFCH] da Unicamp. Pude retomar também meu vínculo como pesquisadora do Nepo e, desde então, parcerias com colegas do departamento e do núcleo têm possibilitado minha inserção em estudos populacionais.

Um deles é o projeto de pesquisa “Regiões: História social das desigualdades no Brasil”, vinculado ao programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico [INCT-CNPq], que investiga como processos históricos de longa duração, articulados ao espaço regional brasileiro, produziram e mantêm as desigualdades sociais nos dias de hoje. O outro é o temático FAPESP, “Dinâmicas de incorporação, mobilidade social e dominação no oeste paulista, 1850-1950”, que se debruça sobre diferentes estratos populacionais daquele período.

A reportagem acima foi publicada com o título “Histórias de família” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.

O médico que fortaleceu a estatística no Brasil

Em 9 de maio de 1826, como resultado dos debates da primeira legislatura do Brasil imperial, definiu-se a criação de uma Comissão de Estatística, sob o argumento irrefutável do senador Francisco de Assis Mascarenhas (1779-1843): “Sem termos a estatística, como conheceremos o Brasil?”. Nascia assim, oficialmente, a área de estatísticas oficiais, definida posteriormente como a produção e disseminação de informações por agências governamentais, com base em regulamentos administrativos, conceitos e definições apropriados, como forma de auxiliar o planejamento, a execução e o acompanhamento de políticas públicas. Por muito tempo, porém, o país continuaria praticamente desconhecido para seus gestores, após fazer censos incompletos ou inteiramente fracassados.

O Censo de 1920 seria um ponto de inflexão nesse cenário devido ao trabalho do médico e demógrafo José Luiz Sayão de Bulhões Carvalho (1866-1940) à frente da Diretoria Geral de Estatística (DGE). “Ele foi o responsável pelo primeiro censo realmente bem-sucedido, resultado de um trabalho hercúleo, após cinco anos de preparação”, destaca o historiador Leandro Malavota, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), instituição formalizada em 1938, que herdou o acervo do DGE.

Academia Nacional de Medicina / Wikimedia CommonsBulhões CarvalhoAcademia Nacional de Medicina / Wikimedia Commons

Até então, o país nunca havia planejado tão minuciosamente um recenseamento da população e da economia e nunca o fizera de forma tão ampla, ressalta o economista Nelson de Castro Senra, professor aposentado da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence-IBGE) e autor de artigos e livros sobre a história da estatística no Brasil e Bulhões Carvalho.

“A visão que ele tinha da estatística era muito moderna para a época”, afirma Senra. Segundo ele, foram promovidas iniciativas pioneiras, das quais a mais importante foi a unificação do trabalho estatístico a partir da organização da coleta de dados dos estados e municípios, sob a coordenação do DGE. “Bulhões Carvalho convenceu governadores, presidentes de província e chefes de setores estatísticos dos estados a trabalharem com ele. Até então não se produzia estatística em uníssono.” O demógrafo fez palestras de esclarecimento sobre o censo e conseguiu o apoio da imprensa e da igreja na divulgação para a população. Na tabulação dos dados coletados, utilizou o que havia de melhor em tecnologia, as máquinas Hollerith.

A tabuladora mecânica criada pelo norte-americano Herman Hollerith (1860-1929) era usada no Census Bureau, principal agência estatística federal norte-americano, desde o fim do século XIX. No Brasil, a máquina – que acabaria se tornando mais conhecida pela emissão de comprovantes de rendimentos, convertendo o nome Hollerith em sinônimo de contracheque – foi essencial para o tratamento eficiente dos dados censitários dentro do prazo previsto.

Outra inovação do Censo de 1920 foi a apresentação dos resultados, com o uso de recursos visuais como gráficos, mapas, fotografias e ilustrações didáticas (ver Pesquisa FAPESP nº 289). De acordo com Senra, o emprego desses recursos já era conhecido em outros países; no Brasil, foi introduzido por Bulhões Carvalho.

O próprio demógrafo justificou a escolha do recurso gráfico em seu livro Estatística: Método e aplicação (Tipografia Leuzinger, 1933): “A utilidade dos gráficos para esclarecer ou ilustrar as estatísticas é hoje universalmente reconhecida […]. Uma simples curva, um pontilhado, a combinação de linhas coloridas, ou de colunas de vários matizes, tornam visível a influência numérica de certos fatos sociais. Suprem, às vezes, por uma noção precisa, instantânea e quase intuitiva, o comentário dos algarismos, não raro longo e enfadonho. Particularizam detalhes, dando ao mesmo tempo a ideia do conjunto”.

Acervo do IBGEUma das inovações do Censo de 1920 foi o esmero nas ilustraçõesAcervo do IBGE

Os gráficos do Censo de 1920 foram também ampliados em grandes quadros e exibidos na Exposição universal comemorativa do centenário da Independência, no Pavilhão da Estatística, em 1922. A imprensa da época apelidou o local de “Pavilhão da Ciência da Certeza”.

Bulhões Carvalho nunca foi um estatístico graduado – o primeiro curso de formação universitária em estatística no Brasil surgiria apenas em 1953, com a criação da Ence. Ele era um médico – mais especificamente, um demógrafo sanitarista. Carioca, formou-se em 1888 pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Nessa época, a estatística já era bastante usada no estudo e combate de epidemias, como febre amarela, varíola e peste bubônica.

Em 1892, ele entrou para o serviço público como comissário da Inspetoria Geral de Higiene Pública. No ano seguinte, passou para o cargo de auxiliar na Seção de Demografia, sob a coordenação do médico Aureliano Portugal (1851-1924), pioneiro em demografia sanitária no Brasil, com quem teve um treinamento prático nessa área. Também em 1893 ele começou a publicar artigos na revista Brasil-Médico sobre as condições sanitárias da cidade do Rio de Janeiro. Em 1894, ocupou seu primeiro cargo de chefia, à frente da Seção de Demografia do recém-criado Instituto Sanitário Federal. Em um de seus relatórios, ele detalhou, com dados estatísticos, as razões da alta mortalidade pela peste bubônica, febre amarela e varíola.

Acervo do IBGEAs análises populacionais indicaram que no início do século XX a expectativa média de vida era de 34,5 anos, menos da metade que os 76,6 de hojeAcervo do IBGE

Em 1907, assumiu o comando da DGE sob grandes expectativas. A estatística brasileira tinha, então, um histórico de lacunas e insucessos que o órgão tentava superar desde que fora criado, em 1871. Em 1852, um censo instituído juntamente com a obrigatoriedade de registro civil despertara um levante popular, especialmente em Pernambuco e Alagoas, que ficaria conhecido como Revolta dos Marimbondos. Dizia-se que o governo pretendia escravizar homens pobres livres e reescravizar libertos. Segundo Senra, em seu livro Uma breve história das estatísticas brasileiras (1822-2002) (IBGE, 2009), “o povo, armado de ‘bacamartes, chuços, cacetes e facões’, gritava contra a lei e ameaçava as autoridades”. O governo imperial recuou e suspendeu a aplicação dos decretos.

O primeiro e único censo do Império ocorreu em 1872, já sob a gestão da DGE, criada para esse fim. O Brasil acabava de sair da Guerra do Paraguai (1864-1870), que havia revelado, de forma contundente, a carência de informações: faltavam dados sobre recursos humanos, estoques de alimentos e cartografia confiável, essenciais aos esforços de guerra. Segundo Malavota, os resultados desse censo foram considerados razoáveis, dada a inexperiência e a falta de recursos técnicos.

Acervo do IBGEJipe de campanha de divulgação do Censo de 1950Acervo do IBGE

Em 1890, foi feito o Recenseamento Geral da República. Em meio à instalação de um novo regime, as instabilidades políticas, com levantes em várias partes do país, desorganização administrativa e falta de recursos comprometeram a qualidade do trabalho. E o Censo de 1900 seria ainda pior, como resultado da falta de recursos humanos e financeiros. “No Distrito Federal, teve de ser anulado, pela falta de confiabilidade”, relata o historiador. Foi necessário refazer o trabalho no Distrito Federal [Rio de Janeiro] em 1906; Bulhões participou da comissão organizadora desse novo recenseamento, antes mesmo de assumir a direção da DGE, no ano seguinte. “Ele entrou com a missão de fazer uma ampla reforma na DGE e estabelecer um sistema estatístico efetivo”, diz Malavota. Ao se aproximar o centenário da Independência, havia também uma pressão social, expressa sobretudo pela imprensa, por dados confiáveis que refletissem a realidade do país – o que explica o prestígio conquistado pelo organizador do Censo bem-sucedido de 1920.

Em 1925, Bulhões Carvalho participou, em Roma, da 16ª reunião do International Statistical Institute (ISI), na qual relatou o trabalho feito no Censo de 1920. Dois anos depois, em outra reunião do ISI, no Cairo, Egito, fez uma exposição sobre acidentes no trabalho e registro civil de óbitos e nascimentos no Brasil. Ele ainda planejou um recenseamento em 1930, que não se concretizou devido à revolução que encerrou a Primeira República. A DGE foi extinta pelo governo Vargas, em 1931, e o demógrafo sanitarista resolveu se aposentar do serviço público. Mas continuou como nome de referência para o setor.

Acervo do IBGE | Tânia Rêgo / Agência BrasilO intenso trabalho manual, como no Censo de 1940, diminuiu com o atual uso do celular na coleta de dadosAcervo do IBGE | Tânia Rêgo / Agência Brasil

O demógrafo morreu em 1940 e nunca se casou ou teve filhos. O advogado e estatístico Mário Augusto Teixeira de Freitas (1890-1956), idealizador e primeiro secretário-geral do IBGE, e o advogado e diplomata José Carlos de Macedo Soares (1883-1968), então presidente do IBGE, pediram a Getúlio Vargas (1882-
-1954) para que os sobrinhos dos quais ele cuidava desde a morte do irmão fossem nomeados seus herdeiros. “Esse fato reflete o prestígio que Bulhões conservou com esse grupo”, relata Malavota.

Segundo Senra, o primeiro censo realizado pelo IBGE, em 1940, dois anos após a criação da instituição, “seguia muito de perto os passos de Bulhões adotados no Censo de 1920”. Seu legado não foi apenas a metodologia sistematizada em um manual de 603 páginas: “Ficou também a crença na importância das informações estatísticas como subsídio fundamental para o exercício do poder do Estado e para a tomada de decisões da sociedade”, ressalta Malavota.

FolhapressJipes utilizados no Censo de 1950 para chegar aos bairros periféricos da cidade de São PauloFolhapress

Segundo o historiador, Bulhões Carvalho e Teixeira de Freitas consolidaram o conceito que perdura até hoje como diretriz do IBGE: a natureza pública das informações. “Eles reconheciam as informações como bens públicos, que devem resultar em benefício para a população, justificando o investimento do Estado”, afirma. Decorre desse conceito o compromisso de divulgação dos dados coletados, expresso no regulamento da DGE, criado por Bulhões. O artigo 7º desse regulamento já trazia a proposta de criação regular de anuários e boletins. “Ele foi pioneiro não apenas na produção, mas na disseminação das informações”, diz o historiador.

Atualmente funcionam no Brasil 35 cursos de graduação em estatística e estima-se em cerca de 15 mil profissionais especializados nessa área em atuação no país. Hoje, com o auxílio da tecnologia, a estatística vislumbra um passo além da divulgação: a interpretação das informações obtidas, visando à elaboração de políticas públicas. Esse é um dos objetivos do projeto liderado pelo matemático Paulo de Martino Jannuzzi, professor da Ence-IBGE e diretor do Centro de Colaboração Interinstitucional de Inteligência Artificial Aplicada às Políticas Públicas (Ciap). “Temos muita informação hoje; vivemos o paradoxo da escassez de conhecimentos na abundância de dados. Os gestores precisam de um facilitador da interpretação desses dados e a IA pode ser uma grande aliada nesse sentido”, afirma.

Com a parceria da Universidade Federal de Goiás (UFG) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), além do apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), Januzzi tem empregado recursos de IA na formação de um acervo de políticas públicas e na criação de uma ferramenta de consulta destinada a gestores. Segundo ele, uma das vertentes do projeto é oferecer um serviço de respostas técnicas, a partir do emprego da IA generativa, capaz de gerar conteúdos, como textos, imagens, vídeos e áudios. Denominada ChatPP, Assistente de Inteligência Artificial para Políticas Públicas, essa ferramenta vem sendo alimentada com um acervo de boas práticas em gestão pública construído a partir de artigos, publicações de eventos e projetos de extensão de universidades.

A reportagem acima foi publicada com o título “As bases da estatística no Brasil” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.

Artigo científico
SENRA, N. de C. Da DGE até hoje, com o IBGE, uma sucessão em linha reta. Estadística y Sociedad. n. 5, p. 56-81. nov. 2018.

Livros
SENRA, N. de C. (org.) Bulhões Carvalho, um médico cuidando da estatística brasileira. Rio de Janeiro: IBGE, 2007.
SENRA, N. de C. Uma breve história das estatísticas brasileiras (1822-2002). Rio de Janeiro: IBGE, 2009.

Novas edições recuperam textos originais de Graciliano Ramos

Em S. Bernardo, romance publicado originalmente em 1934, Graciliano Ramos (1892-1953) narra os conflitos existenciais que acompanham a ascensão de um trabalhador pobre do sertão a proprietário de terra. Em 2026, o título ganhou nova edição pela Todavia, organizada por Thiago Mio Salla, professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Estudioso da obra do escritor alagoano há duas décadas, ele é autor de livros como Graciliano Ramos e a cultura política (Edusp, 2016), fruto de sua tese de doutorado defendida em 2010 na USP. Ambos tiveram apoio da FAPESP.

S. Bernardo não é o único a receber novos olhares editoriais. A entrada em domínio público da obra de Graciliano em janeiro de 2024 vem impulsionando uma série de reedições de seu legado literário, que inclui quatro romances, dois livros memorialísticos, um relato de viagem, três volumes infantojuvenis, três coletâneas de contos, além de textos avulsos em prosa e verso publicados na imprensa entre os anos 1900 e 1950. As pesquisas em torno do tema têm contribuído para essa iniciativa. É o caso de Salla que, organizou, além de S. Bernardo, outras três novas edições de Graciliano pela Todavia: os romances Vidas secas (1938) e Angústia (1936) e o infantojuvenil inédito Os filhos da coruja, baseado em poema escrito na década de 1920 e publicado em 2024.

“Em relação a Vidas secas, assim como acontece com Angústia e S. Bernardo, procuramos corrigir os erros acumulados ao longo das sucessivas edições, o que demandou um trabalho de cotejo do original e de outras 12 versões do texto. As alterações foram detalhadas em notas de rodapé e nas notas finais para quem quiser se aprofundar”, explica Salla. As imprecisões corrigidas vão desde a distribuição dos parágrafos e erros gramaticais até a troca de palavras, como é o caso da substituição, no primeiro parágrafo do livro, do verbo “aparecer” no original por “parecer” nas edições à venda até a entrada da obra de Graciliano em domínio público. “Esse tipo de alteração pode levar a equívocos de interpretação”, argumenta o pesquisador.

Vidas secas, romance que narra a saga de uma família atravessando as misérias do sertão, tornou-se um clássico da literatura nacional e um sucesso de vendas. “Graciliano é um autor que entra em domínio público com alto potencial comercial, o que naturalmente atrai as editoras. Esse processo amplia a circulação da obra e multiplica as edições; minha preocupação foi preservar a versão mais fiel do texto”, prossegue Salla.

Mario Santin Frugiuele, gerente editorial da Todavia e responsável por conduzir o projeto de reedição das obras de Graciliano realizado por Salla, concluiu o doutorado em filologia e língua portuguesa na USP com uma tese dedicada ao autor alagoano. “Quando iniciei a pesquisa, em 2018, já tinha em vista a entrada da obra em domínio público, em 2024, e a preocupação de que, quando isso ocorresse, houvesse uma edição mais fidedigna à vontade do autor”, conta.

A tese do pesquisador, “Os manuscritos de Vidas secas: A gênese”, analisa o clássico de Graciliano pelo viés da crítica genética. Campo teórico-metodológico, a crítica genética nasceu na França entre as décadas de 1970 e 1980. Seu propósito original é reconstituir o processo de criação de uma obra literária a partir dos vestígios deixados pelo autor, embora hoje essa abordagem seja empregada também em outras formas de expressão artística, como pintura, peça de teatro e roteiro cinematográfico.

No caso de Graciliano, conhecido por revisar obsessivamente os próprios textos, riscando palavras até quase torná-las ilegíveis, o trabalho de pesquisa exigiu uma verdadeira “autópsia” da escrita. “Examinei os manuscritos em mesa de luz e recorri à lupa, à luz infravermelha e outros recursos disponíveis para identificar os traços da grafia. Isso me permitiu compreender em profundidade as rasuras de Graciliano e o modo como desenhava cada letra”, conta Frugiuele. “Inicialmente, ele faz um texto mais derramado, com uso frequente de palavras como ‘coitada’ ou ‘coitadinha’ para descrever a família de retirantes. Os cortes que realizou e que caracterizaram seu estilo conciso e direto fizeram do texto uma obra-prima.”

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin – PRCEU / USPFrontispício da prova tipográfica da primeira edição de Vidas secas (1938); durante a revisão do documento, Graciliano riscou a opção anterior de título, O mundo coberto de penasBiblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin – PRCEU / USP

Entre as emendas feitas por Graciliano em Vidas secas, identificadas pela análise genética do manuscrito, destaca-se uma que evidencia a consciência do autor sobre o peso do sistema escravista na construção das imagens evocadas pelo personagem Fabiano. Na frase “Vivia trabalhando como um condenado”, presente no capítulo “Cadeia”, o autor substituiu “condenado” por “escravo”. Segundo Edilson Dias de Moura, doutor em literatura pela USP e autor de Graciliano: Romancista, homem público, antirracista (Edições Sesc, 2023), esse não é um caso isolado. “A presença de imagens do homem negro e escravizado no romance é recorrente e intencional, mas, até muito recentemente, foi pouco observada”, constata.

De acordo com Moura, parte da crítica contemporânea tende a enfatizar os aspectos racistas no léxico empregado por Graciliano em seus romances. O pesquisador argumenta, contudo, que essa leitura não deve ser dissociada de uma análise da trajetória do escritor alagoano como funcionário público. “O uso de certas expressões racistas integra o léxico corrente da época e dialoga com as teorias eugenistas que marcaram a formação de Graciliano, mas que ele progressivamente abandona e passa a refutar ao longo dos anos. Em sua trajetória pública, ao contrário, ele atua pela inclusão da população negra.”

Em 1933, quando esteve à frente do Departamento de Instrução Pública de Alagoas, Graciliano promoveu Irene Braga de Miguel Garrido, professora negra que trabalhava no interior do estado, ao cargo de diretora escolar na capital, Maceió. “A gestão de Graciliano na educação alagoana proporcionou gradualmente uma maior inclusão nas escolas. Durante sua gestão, instituiu-se um programa de merenda escolar, medida que, como ele próprio registrou em relatórios, impulsionou o número de matrículas de crianças negras”, afirma Moura.

O percurso de Graciliano no funcionalismo público não foi apenas uma função paralela à vida de escritor, mas o terreno em que despontaram suas primeiras incursões literárias. Em um relatório publicado em 1928, quando era prefeito de Palmeira dos Índios (AL), escreveu: “Constava a existência de um código municipal, coisa inatingível e obscura. Procurei, rebusquei, esquadrinhei, estive quase a recorrer ao espiritismo, convenci-me de que o código era uma espécie de lobisomem”.

O tom sarcástico, incomum à linguagem burocrática dos relatórios, era uma marca de Graciliano e contribuiu para projetá-lo como escritor, segundo Moura. Pelo uso singular de uma prosa marcada por humor e ironia, esses textos escritos para a prefeitura de Palmeira dos Índios passaram a circular na imprensa carioca e nos meios intelectuais, impulsionando a publicação de seu primeiro romance, Caetés, em 1933, pela Schmidt Editora.

A relação entre a obra literária de Graciliano e sua atuação como funcionário público – primeiro como prefeito (1928-1929) e depois como diretor da Imprensa Oficial de Alagoas (1930-1931) – é analisada por Salla no artigo “Entre a escrita e a escrituração: A prosa de guarda-livros de Graciliano Ramos”. O texto integra um dossiê dedicado ao escritor, organizado pelo pesquisador e publicado na Revista USP em 2025. “É possível encontrar o embrião de romances que ele escreveria mais tarde nesses relatórios, pois, enquanto ainda não tinha livros publicados, era ali que o seu estilo encontrava espaço para se manifestar”, observa Salla.

Embora ainda não fosse filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), o que só ocorreria em 1945, a notoriedade de seus relatórios e das ações progressistas como funcionário público despertou suspeitas entre os agentes que trabalhavam na repressão do governo Getúlio Vargas (1930-1945). Havia a suspeita quanto a um possível envolvimento do escritor na Intentona Comunista, rebelião político-militar que visava destituir o poder vigente. Ainda que tal envolvimento não se confirmasse e não houvesse nenhuma acusação formal, Graciliano permaneceu preso no Rio de Janeiro por 11 meses, entre 1936 e 1937. A experiência deu origem ao livro Memórias do cárcere, cuja escrita iniciada em 1946 foi interrompida em 1953 com a morte do autor, sendo publicado, no mesmo ano, pela editora José Olympio.

Fabio Cesar Alves, professor de literatura brasileira da USP, sustenta que essa obra mostra uma faceta menos conhecida de Graciliano. “Ele é frequentemente associado à alcunha de ‘escritor da seca’, mas há também um lado mais dostoievskiano, voltado à investigação das profundezas do ser. Essa dimensão aparece tanto em Memórias do cárcere quanto em livros como Angústia ou Infância, que costumam ser menos explorados”, afirma Alves, um dos organizadores do livro Graciliano Ramos, a paixão medida: Ensaios de interpretação da obra (Hucitec, 2025).

Guilherme Gurgel / acervo da Família Amaral Gurgel / Wikimedia CommonsO escritor, em 1949, com o radialista Amaral Gurgel, responsável pela adaptação do livro S. Bernardo para a Rádio GloboGuilherme Gurgel / acervo da Família Amaral Gurgel / Wikimedia Commons

O pesquisador avalia que o teor confessional da obra pode ser atrativo no atual protagonismo da autoficção – gênero que mistura autobiografia com ficção – no cenário literário. No entanto, ele ressalta que o autor alagoano oferece uma experiência distinta aos leitores contemporâneos. “Hoje, há uma demanda do público e uma expectativa dos escritores por uma subjetividade plena e transparente”, diz. “Porém a escrita confessional de Graciliano apresenta um eu esgarçado, marcado pela repressão, e, ao mesmo tempo, atento ao entorno, sempre filtrado pelo olhar do outro. Em Memórias do cárcere, por exemplo, ele se recusa a se chamar pelo próprio nome.”

O caráter subjetivo dos conflitos vividos na prisão, explorados por Graciliano no livro, é apontado por Alves como um dos fatores que explicam a recepção discreta da obra na imprensa comunista da época. Ao relatar o pedido de desculpas de um capitão do Exército após um desentendimento durante o período de detenção, o escritor admite rever sua visão sobre os militares: “O meu juízo a respeito dos militares desmoronava-se, um sujeito de farda aplicara-me lição bem rude”, escreve. Segundo Alves, a perspectiva apresentada na obra não é puramente ideológica nem dogmática e os personagens reais aparecem em suas nuances existenciais. “Além disso, ele não se furta a fazer críticas aos rumos que o PCB vinha tomando, o que certamente não agradou a seus dirigentes”, afirma o pesquisador.

Com a entrada da obra de Graciliano em domínio público, Memórias do cárcere também ganhou nova edição pela Penguin-Companhia das Letras, em 2025. De forma inédita, o volume reúne 11 capítulos reescritos pelo autor para publicação na imprensa e foi organizado pela crítica literária Ieda Lebensztayn, que pesquisou o autor no mestrado, no doutorado e no pós-doutorado na USP, com apoio da FAPESP. Trata-se de versões diferentes das publicadas originalmente em 1953 e que serviram de base para as edições posteriores. Para estabelecer o novo texto, Lebensztayn, além de ter localizado os 11 capítulos reescritos, cotejou os originais publicados pela José Olympio e os datiloscritos corrigidos pelo próprio escritor, preservados na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. O trabalho permitiu identificar três passagens ausentes nas versões em circulação até agora.

Atualmente, Lebensztayn trabalha em parceria com Salla na edição da correspondência inédita de Graciliano com outros escritores, como Jorge Amado (1912-2001). Os pesquisadores encontraram as cartas em diferentes arquivos pelo Brasil, entre eles o do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, que guarda mais de 15 mil documentos relacionados ao autor. O material deve ser publicado em 2026. “Ao longo desse trabalho, foi possível compreender a obsessão de Graciliano por aprimorar o texto, o que pode ser visto, em um primeiro momento, como um desejo de comunicação com o público”, analisa a crítica literária. “Mas acredito que essa obstinação em ‘consertar’ a escrita também funciona como um reflexo formal do seu desejo de corrigir as injustiças e desigualdades do mundo, marcas que atravessam toda a sua obra.”

ReproduçãoNovas edições da obra de Graciliano publicadas pela Todavia (as três primeiras, a partir da esquerda) e pela Penguin-Companhia das LetrasReprodução

A reportagem acima foi publicada com o título “Em busca do texto perdido” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.

Projeto
O estilo de Graça nas cartas: Organização e estudo da Série Correspondência Graciliano Ramos no Instituto de Estudos Brasileiros – USP (nº 10/12034-9); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisador responsável Marcos Antonio de Moraes (USP); Bolsista Ieda Lebensztayn

Dossiê
SALLA, T. M. (org.). Dossiê Graciliano Ramos. Revista USP. São Paulo, n. 146, 2025.

Livros
ALVES, F. C. Armas de papel: Graciliano Ramos, as Memórias do cárcere e o Partido Comunista. São Paulo: Editora 34, 2016.
ALVES, F. C. et al (orgs). Graciliano Ramos, a paixão medida: Ensaios de interpretação da obra. São Paulo: Hucitec, 2025.
LEBENSZTAYN, I. Graciliano Ramos e a novidade: O astrônomo do inferno e os meninos impossíveis. São Paulo: Hedra, 2010.
MOURA, E. D. de. Graciliano: Romancista, homem público, antirracista. São Paulo: Edições Sesc, 2023.
SALLA, T. M. Graciliano Ramos e a cultura política: Mediação editorial e construção do sentido. São Paulo: Edusp, 2016.

Reagentes aceleram produção de proteínas sintéticas

A biomédica Thainá Rodrigues de Almeida segura uma delicada lâmina de gel e examina as marcas deixadas pelas proteínas que acabou de purificar, deixando-as prontas para uso. Como as alturas das marcas são diferentes, ela comenta, desconfiada, que talvez a purificação não tenha sido perfeita. Mais experiente nessa área, a médica-veterinária Iris Todeschini aproxima-se e a tranquiliza: os tamanhos distintos podem ser o resultado de um fenômeno chamado oligomerização, pelo qual estruturas menores se unem para formar uma maior, como vagões de um trem.

Elas estão em um dos laboratórios da Biolinker, uma startup de biotecnologia instalada em um parque industrial de Cotia, na Região Metropolitana de São Paulo. De lá, segundo a fundadora da empresa, a bioquímica e médica-veterinária Mona Oliveira, já saíram cerca de 250 tipos de proteínas – como enzimas, anticorpos e vacinas animais – para grupos de pesquisa de empresas ou universidades de vários estados do país.

A categoria que mais dá orgulho à equipe, por causa de suas estruturas complexas, são os chamados fatores de crescimento, que induzem o desenvolvimento celular, e já são usados por produtores nacionais de carne de laboratório em substituição ao soro fetal bovino (ver Pesquisa FAPESP nº 343). Custam caro: a versão importada para pesquisa do fator de crescimento epitelial (EGF) sai de R$ 3 mil a R$ 8 mil por micrograma (mcg, um milionésimo de grama) e para uso médico, mais purificada, de R$ 10 mil a R$ 30 mil por mcg. O fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), que estimula a formação de vasos sanguíneos, pode chegar a R$ 80 mil por mcg.

Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESPO tamanho das colunas no gel indica o grau de purificação das proteínasLéo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

A Biolinker desenvolveu um sistema de inteligência artificial (IA) que facilita o planejamento e a produção de proteínas materializado em um kit de quatro tubos com 3 centímetros (cm) de altura. O rendimento da primeira versão do kit, lançada em 2020, já com ingredientes liofilizados (em pó), era de 10 microgramas por litro (mcg/L); na mais recente, distribuída a partir de setembro de 2025, saltou para 500 mcg/L. O sistema foi apoiado por cerca de R$ 8 milhões de investidores privados, como o ex-CEO do iFood Fabricio Bloisi, de empresas como o Google e de órgãos públicos, como a FAPESP, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o programa Desenvolve São Paulo.

“Reduzimos o tempo de síntese proteica de 15 dias para algumas horas”, afirma Oliveira. É um tempo próximo do executado pelos organismos vivos: as células do pâncreas produzem insulina, formada por 51 aminoácidos, e a deixam pronta para uso em duas horas.

A concorrência, porém, é grande. As poucas fabricantes nacionais de proteínas por engenharia genética – como a Biolinker, a ApexZymes, de Campinas (SP), a ByMyCell e a FastBio, ambas de Ribeirão Preto (SP), cada uma com seu próprio perfil e alvos comerciais muitas vezes sobrepostos – convivem com um mercado competitivo. Nessa área, predominam as filiais de multinacionais e as importadoras de proteínas produzidas na China, nos Estados Unidos e na Europa. Apesar disso, as perspectivas de negócio são boas: em conjunto, o mercado nacional, considerando apenas as enzimas, responde por vendas anuais próximas a US$ 300 milhões, de acordo com levantamentos de duas empresas de consultoria, a Grand View Research e a MarkNtel Advisors, realizados em 2025.

É um mercado grande, apesar de essas macromoléculas serem estruturas minúsculas. Formadas por blocos conhecidos como aminoácidos, as proteínas são de 100 a 10 mil vezes menores que uma célula humana, formada por milhares de tipos diferentes dessa categoria de moléculas complexas. Elas medem em média 5 nanômetros (nm, 1 milionésimo do milímetro), embora as maiores cheguem a 8 nm. Enzimas como a alfa-amilase, lactase e celulase, de menor peso molecular, são essenciais para a produção de alimentos como leite sem lactose e vinhos, detergentes, papel e celulose, etanol, enquanto as de maior porte, como os anticorpos e hormônios, ajudam a salvar vidas.

Tanto o sistema de IA quanto o kit da Biolinker nasceram de processos internos, remodelados para atender a usuários externos. Financiada parcialmente pela Google, a plataforma de IA da empresa, Bioinformatic Agents for Integrated Operations (bAIo), integra ferramentas de bioinformática, facilita a confecção de sequências de DNA ou RNA que conduzem a produção de proteínas, determina sua estrutura e interações com outras moléculas em bases públicas de dados. “Já estamos com 140 usuários inscritos”, informa

Esse e outros programas, como o AlphaFold, da Google, e o RoseTTAFold, da Universidade de Washington, ambos nos Estados Unidos, elucidam pelo computador as estruturas de proteínas, normalmente identificadas por meio de técnicas caras e demoradas, como a cristalografia de raios X e a ressonância magnética nuclear. Tais aparelhos revelaram a conformação espacial de cerca de 170 mil proteínas, uma parcela pequena diante dos estimados 200 milhões de tipos produzidos continuamente pelos organismos vivos.

Já o kit consiste em uma técnica de produção de proteínas chamada cell-free (livre de células), usando DNA ou RNA, enzimas e ribossomos (estruturas celulares responsáveis pela síntese proteica), dispensando as próprias células. Ainda que os ribossomos necessitem de armazenamento e transporte sob temperaturas negativas, é um método rápido e flexível, usado mundialmente desde os anos 1960.

Cada fabricante tem seus próprios ingredientes, mas o princípio é o mesmo (ver infográfico abaixo). A Biolinker produz no Brasil o kit cell-free, geralmente importado de multinacionais como Thermo Fisher Scientific, GenScript, Synthelis e Synbio Technologies por um preço médio de R$ 5 mil.

Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP

“Para pesquisa em pequena escala, de microgramas, e para ensino, o cell-free é fantástico. É simples e rápido, além de permitir a produção de proteínas que seriam tóxicas para as células, como as do coronavírus”, comenta a bióloga Danielle Pedrolli, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara, que não participou da pesquisa. “A restrição é que produz apenas uma quantidade limitada de proteínas, diferentemente da E. coli engenheirada, que poderia produzi-las continuamente e em quantidade maior.”

Pedrolli usou a técnica para identificar funções de moléculas específicas no interior das células e para construir sensores para vírus, permitindo sua detecção mesmo em baixas concentrações. Descritos em um artigo publicado em outubro de 2023 na ACS Synthetic Biology, esses sensores poderiam servir para diagnósticos médicos e detecção de contaminantes, a partir de amostras de sangue ou da água e do esgoto.

Em um estudo com o Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), o médico-veterinário Phelipe Vitale, cofundador da Biolinker, examina as interações entre os reagentes do kit em um aparelho de ressonância magnética nuclear. À medida que a pesquisa avança, ele saberá o que deve ser aprimorado para reduzir o tempo das reações. “Queremos ter o melhor cell-free do mundo”, almeja Oliveira.

Em outra pesquisa, que reforça essa meta, a equipe da empresa tenta produzir proteínas usando células vegetais de espécies brasileiras. Dotada de ribossomos maiores que os das células animais, as de plantas são a princípio capazes de oferecer um rendimento maior. “Está indo bem”, resume Oliveira. Sua previsão é oferecer essa técnica comercialmente a partir de 2028. Uma empresa alemã do grupo Europa Biosite já produz proteínas usando células de tabaco pelo método cell-free, com um rendimento 30 vezes maior que o dos métodos tradicionais.

Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESPÀ esquerda, o kit de produção rápida de proteínas. À direita, a proteína verde fluorescente (GFP), usada como marcador de outras proteínasLéo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

Ampliação
A Biolinker está ampliando a escala de produção. Em outro laboratório, a médica-veterinária Todeschini mostra um aparelho chamado sonicador. Com um formato semelhante a um mixer usado para triturar alimentos, ele gera frequências de ultrassom que rompem membranas celulares e libera as proteínas produzidas por engenharia genética em bactérias E. coli. “Com esse aparelho, fazíamos de 10 a 15 mililitros (mL) por vez”, ela conta. Em seguida, mostra com satisfação outro aparelho, fechado – o homogeneizador. “Resolveu nossa vida. Faz até 10 L por hora, embora não usemos tanto, porque as empresas compram no máximo 50 mL de proteínas por vez.”

Mais do que equipamentos, o que falta nessa área é mão de obra qualificada, na visão do engenheiro químico Luismar Marques Porto, professor aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), diretor técnico da empresa de biotecnologia 4Wood Biotech e diretor executivo da consultoria Tubanharon Innovation Systems. “A formação de pessoal para trabalhar com proteínas no Brasil é precária. O ensino é muito compartimentalizado e os institutos pouco integrados.”

Ele conta que, em 2009, conseguiu um financiamento internacional para um projeto em biologia sintética, mas teve de desistir porque não conseguiu formar um grupo de pesquisa na UFSC, do qual seria o coordenador. “Em 2021, para formar a equipe da Divisão de Carne Cultivada da JBS, tive de buscar fora. Trouxe pesquisadores brasileiros que estavam nos Estados Unidos, em Singapura, na Noruega e em outros países para compor a equipe prevista no projeto”, relata. Em março de 2024, para viabilizar outros projetos, Porto deixou a JBS, que em março inaugurou em Florianópolis o JBS Biotech Innovation Center, com o propósito de produzir suplementos proteicos a partir de células semelhantes às do tecido muscular animal, para serem usados em bebidas ricas em proteínas – os shakes – e barras de cereais.

Para Pedrolli, não faltam especialistas. Segundo ela, tem havido um crescimento contínuo de especialistas formados no Brasil desde 2020. A Rede Brasileira de Biologia Sintética reúne cerca de 30 grupos de pesquisa espalhados por 18 instituições de todo o país, como detalhado em um artigo de 2025 na ACS Omega. “O que falta”, observa, “são boas ofertas de emprego para quem termina sua formação acadêmica”.

A despeito das dificuldades, a Biolinker faz planos. Para ampliar a produção e reforçar a equipe de vendas, a empresa, com 12 funcionários, conseguiu R$ 2,5 milhões e pretende conseguir mais R$ 13 milhões de investimento privado. Oliveira busca também parceiros globais. “Já andei pela Bélgica, Alemanha, Portugal, Arábia Saudita, Estados Unidos e Hong Kong”, ela conta. “Até o fim do ano reforçaremos nossa atividade internacional, hoje limitada à Colômbia e a Portugal.”

A reportagem acima foi publicada com o título “Proteínas com rapidez” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.

Projetos
1. Estudo de estabilidade, reprodutibilidade e escalonamento dos kits de cell-free protein sintesis SynthEasy®️ (n° 23/09974-0); Modalidade Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Acordo de Cooperação Sebrae-SP; Pesquisador responsável Phelipe Augusto Mariano Vitale (Biolinker); Investimento R$ 1.097.076,71.
2. Desenvolvimento de kits liofilizados para síntese de proteínas livres de células (CFPS), Syntheasy (n° 19/16625-6); Modalidade Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Pesquisadora responsável Natalia Marchesan Bexiga (Biolinker); Investimento R$ 137.561,67.
3. BioApatIgG – diagnóstico sorológico de baixo custo e alta performance (n° 20/05023-2); Modalidade Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Acordo de Cooperação Finep – Pipe/Pappe Subvenção; Pesquisadora responsável Mona das Neves Oliveira (Biolinker); Investimento R$ 857.035,91.
4. LuciSTARC sistema de bioluminescência para ambientes químicos complexos (n° 22/13678-4); Modalidade Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Acordo de Cooperação Sebrae-SP; Pesquisadora responsável Mona das Neves Oliveira (Biolinker); Investimento R$ 449.452,75.

Artigos científicos
FRANCO, R. A. L. et al. Signal amplification for cell-free biosensors, an analog-to-digital converter. ACS Synthetic Biology. v. 12, n. 10. 4 out. 2023.
SANTOS, L. V. et al. Unveiling the frontiers of synthetic biology in Brazil: Pioneering the national synthetic biology network. ACS Omega. v. 10, n. 30. 23 jul. 2023.

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