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Uma floresta flutuante?

Em frascos de laboratório crescem colônias de cianobactérias, microrganismos cuja riqueza química pode dar origem a moléculas com potencial farmacológico. Durante seu treinamento na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), Andrei Godinho andava com frascos no bolso para coletar água de poças esverdeadas, depois da chuva, e cuidava dos organismos até poder extrair suas substâncias e testar sua potencial ação anticancerígena em células tumorais. “No Brasil, ainda não pusemos no mercado um fármaco oriundo de moléculas da nossa biodiversidade de cianobactérias”, afirma.

Imagem enviada por Andrei Celestino Godinho, estudante de graduação em biotecnologia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP.

Sua pesquisa rende fotos bonitas? Mande para imagempesquisa@fapesp.br. Seu trabalho poderá ser publicado na revista.

Comentários 364

Pantanal seco
Uma pesquisa importante (“Um Pantanal mais seco e quente”, edição 360), com dados muito relevantes – inclusive já verificados no estudo que estou desenvolvendo atualmente. Infelizmente, ela revela uma realidade preocupante, especialmente para biomas como a Amazônia e o Pantanal. Neste último, a situação é ainda mais alarmante, com uma progressão acelerada de danos, como a perda de água.
Marcelo Mazin
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Câncer de intestino
Esse tipo de estudo é extremamente importante (“Os custos de uma doença”, edição 362). Ciência é isso, tem que ser pragmática, em busca de melhores condições para a sociedade. A máquina pública não se preocupa com a família ou os filhos que a pessoa vai deixar se morrer; se preocupa se deixamos de trabalhar e pagar impostos. É necessário mostrar que cuidar da saúde das pessoas é benéfico para todos.
Marcos Paulo Amorim
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Vídeos
Ótimo conteúdo (“Aquecimento global empurra corais para ponto de não retorno”). Triste, mas fundamental. Fiquei pensando no próximo El Niño, esperado para o segundo semestre deste ano, e na dificuldade de os países assumirem compromissos juntos. É imprescindível que cada país comece fazendo a sua parte.
Glaucia Aragão
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Parabéns pela informação tão didática e importante sobre corais. Agradeço o esforço de conscientização.
Charles Jacquard
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Que vídeo completo, superdidático. Muito bom. Vou encaminhar!
Ana Elisa de Nadal
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Ótima análise da obra e das ideias de Milton Santos (“Milton Santos: 100 anos do pensador que redefiniu o espaço geográfico”).
Márcio José Catelan
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Parabéns ao professor Fernando Landgraf pela capacidade didática de nos colocar a par de um tema tão contemporâneo quanto importante (“O que são as terras-raras?”). Infelizmente, continuamos na lanterna da pesquisa aplicada.
Georgina Alves Vieira da Silva

Muito esclarecedor e urgente que a população crie o hábito de conhecer mais profundamente o tema terras-raras.
Eremita Castanheira Novaes
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Sua opinião é bem-vinda. As mensagens poderão ser resumidas por motivo de espaço e clareza. cartas@fapesp.br.

Algoritmos que fazem política

Ada é uma jovem agitadamente bonita. Ela está um pouco nervosa porque vai sair com um novo candidato a namorado que conheceu no Tinder. Eles vão jantar pela primeira vez, então ela quer que tudo dê certo. Para garantir, pergunta ao ChatGPT que tipo de restaurante seria mais apropriado para esse primeiro encontro e a resposta foi “italiano moderno. É quase impossível errar com massa”. Ela gostou da sugestão, então abre o Maps, procura por “italiano moderno”, escolhe aquele com melhor avaliação e manda o link para o “candidato”, que responde rapidamente com um ícone de joinha e um emoji de coração.

O Maps mostra que a caminhada até lá levaria 23 minutos e Ada considera ir a pé.  Mas, ao traçar a rota recomendada, percebe que teria que passar por ruas escuras que, mesmo cheias de câmeras de segurança com reconhecimento facial, não inspiram muita confiança; então, ela decide chamar um Uber. Ada fica preocupada, pois a bateria do seu celular está acabando e o Uber está estranhamente caro, mas tudo dá certo. Ao chegar ao restaurante, repara em um rapaz sentado à mesa, fissurado em seu celular, tentando baixar um aplicativo para escolher a música ambiente. Aproxima-se e pergunta: “Alan, é você?”. Ele ergue os olhos, sorri e responde: “Você é mais bonita pessoalmente”.

Vivemos em um mundo regido por algoritmos. Eles ditam boa parte dos nossos movimentos, os caminhos que fazemos, a música que ouvimos, os filmes a que assistimos, as notícias que lemos, a comida que comemos, os remédios que tomamos, os impostos que pagamos e as pessoas com quem nos relacionamos. Eles também influenciam políticas públicas e resultados de eleições.

No livro Política dos algoritmos – Instituições e as transformações da vida social, os cientistas políticos Ricardo Mendonça e Fernando Filgueiras e o cientista da computação Virgílio Almeida não só discutem como os algoritmos estão transformando a vida social (o que já sabíamos), mas também argumentam que os algoritmos são novas instituições. Analisando a digitalização das sociedades sob a ótica do institucionalismo, os autores mostram como o arcabouço conceitual das instituições é adequado para compreender melhor o papel dos algoritmos no contexto atual.

O termo algoritmo designa uma sequência sistemática de operações lógico-matemáticas destinada a resolver um problema ou a alcançar um objetivo específico. Existem algoritmos para colocar nomes em ordem alfabética, resolver sistemas de equações, converter imagens coloridas em branco e preto, localizar registros em um grande banco de dados e muito mais.

Na última década, o aumento do poder do hard­ware dos computadores e a grande quantidade de dados disponíveis para análise impulsionaram o avanço dos algoritmos de aprendizado de máquina, que passaram a obter resultados expressivos em uma nova gama de aplicações. Entre elas estão, por exemplo, a recomendação de filmes em plataformas de streaming, a detecção de fraudes no imposto de renda ou em licitações ou a decisão de quem deve receber um auxílio emergencial em caso de calamidade pública.

Na abertura do livro, é apresentada a ideia de institucionalismo, estabelecendo os conceitos básicos da área. Ao propor que os algoritmos sejam compreendidos como instituições, os autores fogem de abordagens superficiais, tanto daquelas que os tratam, em um extremo, como agentes autônomos animados quanto das que os reduzem a ferramentas neutras. Para os autores, os algoritmos são, simultaneamente, estruturas e formas de agência, com impactos individuais e coletivos.  Em seguida, eles apresentam uma série de exemplos concretos em áreas como segurança pública e saúde, auxiliando o leitor a refletir sobre essa nova forma de enxergar a sociedade.

Por fim, o livro enfatiza a necessidade de a sociedade impor limites ao modo como os algoritmos são inseridos em nossas vidas, ressaltando que valores da ética, da responsabilidade e da democracia devem prevalecer. Trata-se, portanto, de uma leitura fundamental para quem deseja refletir sobre o papel dos algoritmos nas sociedades contemporâneas, seus perigos e oportunidades, e sobre o que podemos fazer para não perdermos o controle. O institucionalismo algorítmico proposto pelos autores oferece um arcabouço analítico consistente para compreender um mundo em transformação.

Fabio Kon é professor titular do Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação da Universidade de São Paulo (IME-USP).

Historiadora encontrou refúgio na profissão após a morte da filha

Nasci na cidade de São Paulo e cresci no bairro Vila Monumento, próximo ao Museu do Ipiranga. Aquele prédio, com suas escadarias, jardins e fontes imponentes, era minha paisagem cotidiana. Talvez isso, aliado à paixão pela leitura, me fez ter um gosto especial pelas aulas de história. Lá pelos 13 anos já tinha decidido que seria historiadora. Egressa da escola pública, fui aprovada no vestibular e entrei no curso de história na USP [Universidade de São Paulo] em 1977, aos 17 anos.

Logo no início da graduação, fui “capturada” pela demografia histórica por influência da professora Maria Luiza Marcílio, uma das responsáveis pela introdução e desenvolvimento dessa área no Brasil e na América Latina. No segundo ano, com uma bolsa de iniciação científica da FAPESP, passei a trabalhar no projeto “População, terra e herança na capitania de São Paulo”, cujo objetivo era entender como a elite paulista gerenciava seu patrimônio, casamentos e sucessões hereditárias entre o final do século XVIII e início do XIX.

Até hoje me emociono ao lembrar da primeira lista nominativa que li no Arquivo Público do Estado de São Paulo. As primeiras contagens populacionais realizadas pela Coroa portuguesa aconteceram no século XVI. No entanto, para aprimorar o controle sobre seus territórios, Portugal passou a elaborar, em meados do século XVIII, listas e mapas das populações de suas colônias na África e na América.

Produzidas até 1836, as listas da capitania de São Paulo trazem o número dos habitantes em cada vila, com nome, idade, cor e naturalidade, identificando ainda os chefes dos domicílios, agregados, dependentes e escravizados. Esses documentos constituem a mais importante coleção de levantamentos populacionais realizados na América portuguesa.

O assunto acabou inspirando minha pesquisa de mestrado, “Dinâmica familiar da elite paulista (1765-1836): Estudo diferencial de demografia histórica das famílias dos proprietários de grandes escravarias do Vale do Paraíba e região da capital de São Paulo”. Defendi a dissertação na USP, em 1987, sob orientação da professora Maria Luiza. Dois anos antes eu havia participado da criação do Centro de Estudos de Demografia Histórica da América Latina [Cedhal], idealizado por ela na USP.

Foi por meio do centro que tive oportunidade de concorrer a uma das bolsas do programa de doutorado do Instituto Universitário Europeu [EUI]. Minha proposta era comparar os padrões de casamentos luso-brasileiros. Em 1989, na companhia do meu marido, Dario, embarquei para Florença, onde fica a sede do instituto. Os três anos que passei na Itália foram permeados por frequentes estadas em Portugal, nas cidades do Porto, Braga e Guimarães. Por conta da riqueza das fontes que encontrei na Europa, desisti da proposta inicial de fazer uma análise comparada e privilegiei na tese o lado português da pesquisa.

Terminado o período da bolsa do EUI, fiquei por alguns meses na Universidade do Minho, em Portugal, com uma bolsa do Instituto Camões. Até que, em 1992, engravidei de Thaís e decidimos voltar ao Brasil, sem eu ter defendido o doutorado.

Anos depois, em 1996, recebi um convite para participar de um projeto no então recém-criado Núcleo de Estudos de População e Sociedade [Neps], na Universidade do Minho, em Portugal. Minha nova estada na Europa culminou com a defesa da minha tese de doutorado “Famílias, formas de união e reprodução social no noroeste português, séculos XVIII e XIX”, junto ao Departamento de História e Civilização do EUI, em 1998.

Arquivo pessoalCom o marido, Dario, e a filha, Thaís, em 2006; e com os gêmeos Anna Beatriz e Tomás Aramis, em 2014Arquivo pessoal

De volta ao Brasil, atuei como professora visitante no Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá [UEM], no Paraná, entre 2000 e 2002. E, a partir de 2003, comecei a participar como pesquisadora do Núcleo de Estudos de População da Universidade Estadual de Campinas [Nepo-Unicamp].

Em 2005, fomos para São Leopoldo [RS] depois que fui aprovada em concurso para ser professora no Programa de Pós-graduação em História da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, a Unisinos. Os primeiros anos foram muito felizes: criei um grupo de estudo, exatamente como havia aprendido com a professora Maria Luiza, na USP, e começamos a alimentar um banco de dados [Nacaob] sobre as famílias gaúchas no período colonial.

Eu contava com a colaboração de Dario, que acabou se tornando também um parceiro acadêmico. Por minha “culpa”, ele, que vinha da área de informática, se envolveu na década de 1980 com os desafios de organizar bancos de dados da demografia histórica, passando a colaborar como pesquisador no Cedhal. Em 2020, defendeu seu doutorado em demografia, na Unicamp, com um trabalho sobre a mortalidade da população livre e escravizada em Porto Alegre.

A história de nossa família é marcada por uma tragédia. Em julho de 2007, a Unisinos sediou o simpósio da Associação Nacional de História [Anpuh], o maior encontro brasileiro da área. Por conta disso, Thaís embarcou com uma amiga, Rebeca, em Porto Alegre, para passar férias com os avós em São Paulo. Elas estão entre as 199 vítimas fatais do acidente com a aeronave da TAM no aeroporto de Congonhas, na capital paulista. Tinham 14 anos.

A maneira que encontrei para lidar com uma perda tão brutal foi transformar o trabalho em refúgio. Passava dias inteiros na universidade. Em meio ao processo de luto, veio um convite da editora Contexto para escrever um dos livros da coleção Povos e Civilizações. Em 2010, publiquei Os portugueses, obra em que revisito os grandes ciclos de expansão, crise e reinvenção atravessados por esse povo.

E foi essa palavra, reinvenção, que me guiou quando, aos 48 anos, decidi iniciar um tratamento de fertilidade. Em nome de tudo de bom que vivemos com a Thaís, sentimos que era preciso criar outras memórias. Engravidei já na primeira tentativa de inseminação e, em 2010, chegaram os gêmeos Anna Beatriz e Tomás Aramis.

Iniciei uma nova etapa profissional em 2015, quando fui aprovada em concurso do Departamento de Demografia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas [IFCH] da Unicamp. Pude retomar também meu vínculo como pesquisadora do Nepo e, desde então, parcerias com colegas do departamento e do núcleo têm possibilitado minha inserção em estudos populacionais.

Um deles é o projeto de pesquisa “Regiões: História social das desigualdades no Brasil”, vinculado ao programa Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico [INCT-CNPq], que investiga como processos históricos de longa duração, articulados ao espaço regional brasileiro, produziram e mantêm as desigualdades sociais nos dias de hoje. O outro é o temático FAPESP, “Dinâmicas de incorporação, mobilidade social e dominação no oeste paulista, 1850-1950”, que se debruça sobre diferentes estratos populacionais daquele período.

A reportagem acima foi publicada com o título “Histórias de família” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.

O médico que fortaleceu a estatística no Brasil

Em 9 de maio de 1826, como resultado dos debates da primeira legislatura do Brasil imperial, definiu-se a criação de uma Comissão de Estatística, sob o argumento irrefutável do senador Francisco de Assis Mascarenhas (1779-1843): “Sem termos a estatística, como conheceremos o Brasil?”. Nascia assim, oficialmente, a área de estatísticas oficiais, definida posteriormente como a produção e disseminação de informações por agências governamentais, com base em regulamentos administrativos, conceitos e definições apropriados, como forma de auxiliar o planejamento, a execução e o acompanhamento de políticas públicas. Por muito tempo, porém, o país continuaria praticamente desconhecido para seus gestores, após fazer censos incompletos ou inteiramente fracassados.

O Censo de 1920 seria um ponto de inflexão nesse cenário devido ao trabalho do médico e demógrafo José Luiz Sayão de Bulhões Carvalho (1866-1940) à frente da Diretoria Geral de Estatística (DGE). “Ele foi o responsável pelo primeiro censo realmente bem-sucedido, resultado de um trabalho hercúleo, após cinco anos de preparação”, destaca o historiador Leandro Malavota, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), instituição formalizada em 1938, que herdou o acervo do DGE.

Academia Nacional de Medicina / Wikimedia CommonsBulhões CarvalhoAcademia Nacional de Medicina / Wikimedia Commons

Até então, o país nunca havia planejado tão minuciosamente um recenseamento da população e da economia e nunca o fizera de forma tão ampla, ressalta o economista Nelson de Castro Senra, professor aposentado da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence-IBGE) e autor de artigos e livros sobre a história da estatística no Brasil e Bulhões Carvalho.

“A visão que ele tinha da estatística era muito moderna para a época”, afirma Senra. Segundo ele, foram promovidas iniciativas pioneiras, das quais a mais importante foi a unificação do trabalho estatístico a partir da organização da coleta de dados dos estados e municípios, sob a coordenação do DGE. “Bulhões Carvalho convenceu governadores, presidentes de província e chefes de setores estatísticos dos estados a trabalharem com ele. Até então não se produzia estatística em uníssono.” O demógrafo fez palestras de esclarecimento sobre o censo e conseguiu o apoio da imprensa e da igreja na divulgação para a população. Na tabulação dos dados coletados, utilizou o que havia de melhor em tecnologia, as máquinas Hollerith.

A tabuladora mecânica criada pelo norte-americano Herman Hollerith (1860-1929) era usada no Census Bureau, principal agência estatística federal norte-americano, desde o fim do século XIX. No Brasil, a máquina – que acabaria se tornando mais conhecida pela emissão de comprovantes de rendimentos, convertendo o nome Hollerith em sinônimo de contracheque – foi essencial para o tratamento eficiente dos dados censitários dentro do prazo previsto.

Outra inovação do Censo de 1920 foi a apresentação dos resultados, com o uso de recursos visuais como gráficos, mapas, fotografias e ilustrações didáticas (ver Pesquisa FAPESP nº 289). De acordo com Senra, o emprego desses recursos já era conhecido em outros países; no Brasil, foi introduzido por Bulhões Carvalho.

O próprio demógrafo justificou a escolha do recurso gráfico em seu livro Estatística: Método e aplicação (Tipografia Leuzinger, 1933): “A utilidade dos gráficos para esclarecer ou ilustrar as estatísticas é hoje universalmente reconhecida […]. Uma simples curva, um pontilhado, a combinação de linhas coloridas, ou de colunas de vários matizes, tornam visível a influência numérica de certos fatos sociais. Suprem, às vezes, por uma noção precisa, instantânea e quase intuitiva, o comentário dos algarismos, não raro longo e enfadonho. Particularizam detalhes, dando ao mesmo tempo a ideia do conjunto”.

Acervo do IBGEUma das inovações do Censo de 1920 foi o esmero nas ilustraçõesAcervo do IBGE

Os gráficos do Censo de 1920 foram também ampliados em grandes quadros e exibidos na Exposição universal comemorativa do centenário da Independência, no Pavilhão da Estatística, em 1922. A imprensa da época apelidou o local de “Pavilhão da Ciência da Certeza”.

Bulhões Carvalho nunca foi um estatístico graduado – o primeiro curso de formação universitária em estatística no Brasil surgiria apenas em 1953, com a criação da Ence. Ele era um médico – mais especificamente, um demógrafo sanitarista. Carioca, formou-se em 1888 pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Nessa época, a estatística já era bastante usada no estudo e combate de epidemias, como febre amarela, varíola e peste bubônica.

Em 1892, ele entrou para o serviço público como comissário da Inspetoria Geral de Higiene Pública. No ano seguinte, passou para o cargo de auxiliar na Seção de Demografia, sob a coordenação do médico Aureliano Portugal (1851-1924), pioneiro em demografia sanitária no Brasil, com quem teve um treinamento prático nessa área. Também em 1893 ele começou a publicar artigos na revista Brasil-Médico sobre as condições sanitárias da cidade do Rio de Janeiro. Em 1894, ocupou seu primeiro cargo de chefia, à frente da Seção de Demografia do recém-criado Instituto Sanitário Federal. Em um de seus relatórios, ele detalhou, com dados estatísticos, as razões da alta mortalidade pela peste bubônica, febre amarela e varíola.

Acervo do IBGEAs análises populacionais indicaram que no início do século XX a expectativa média de vida era de 34,5 anos, menos da metade que os 76,6 de hojeAcervo do IBGE

Em 1907, assumiu o comando da DGE sob grandes expectativas. A estatística brasileira tinha, então, um histórico de lacunas e insucessos que o órgão tentava superar desde que fora criado, em 1871. Em 1852, um censo instituído juntamente com a obrigatoriedade de registro civil despertara um levante popular, especialmente em Pernambuco e Alagoas, que ficaria conhecido como Revolta dos Marimbondos. Dizia-se que o governo pretendia escravizar homens pobres livres e reescravizar libertos. Segundo Senra, em seu livro Uma breve história das estatísticas brasileiras (1822-2002) (IBGE, 2009), “o povo, armado de ‘bacamartes, chuços, cacetes e facões’, gritava contra a lei e ameaçava as autoridades”. O governo imperial recuou e suspendeu a aplicação dos decretos.

O primeiro e único censo do Império ocorreu em 1872, já sob a gestão da DGE, criada para esse fim. O Brasil acabava de sair da Guerra do Paraguai (1864-1870), que havia revelado, de forma contundente, a carência de informações: faltavam dados sobre recursos humanos, estoques de alimentos e cartografia confiável, essenciais aos esforços de guerra. Segundo Malavota, os resultados desse censo foram considerados razoáveis, dada a inexperiência e a falta de recursos técnicos.

Acervo do IBGEJipe de campanha de divulgação do Censo de 1950Acervo do IBGE

Em 1890, foi feito o Recenseamento Geral da República. Em meio à instalação de um novo regime, as instabilidades políticas, com levantes em várias partes do país, desorganização administrativa e falta de recursos comprometeram a qualidade do trabalho. E o Censo de 1900 seria ainda pior, como resultado da falta de recursos humanos e financeiros. “No Distrito Federal, teve de ser anulado, pela falta de confiabilidade”, relata o historiador. Foi necessário refazer o trabalho no Distrito Federal [Rio de Janeiro] em 1906; Bulhões participou da comissão organizadora desse novo recenseamento, antes mesmo de assumir a direção da DGE, no ano seguinte. “Ele entrou com a missão de fazer uma ampla reforma na DGE e estabelecer um sistema estatístico efetivo”, diz Malavota. Ao se aproximar o centenário da Independência, havia também uma pressão social, expressa sobretudo pela imprensa, por dados confiáveis que refletissem a realidade do país – o que explica o prestígio conquistado pelo organizador do Censo bem-sucedido de 1920.

Em 1925, Bulhões Carvalho participou, em Roma, da 16ª reunião do International Statistical Institute (ISI), na qual relatou o trabalho feito no Censo de 1920. Dois anos depois, em outra reunião do ISI, no Cairo, Egito, fez uma exposição sobre acidentes no trabalho e registro civil de óbitos e nascimentos no Brasil. Ele ainda planejou um recenseamento em 1930, que não se concretizou devido à revolução que encerrou a Primeira República. A DGE foi extinta pelo governo Vargas, em 1931, e o demógrafo sanitarista resolveu se aposentar do serviço público. Mas continuou como nome de referência para o setor.

Acervo do IBGE | Tânia Rêgo / Agência BrasilO intenso trabalho manual, como no Censo de 1940, diminuiu com o atual uso do celular na coleta de dadosAcervo do IBGE | Tânia Rêgo / Agência Brasil

O demógrafo morreu em 1940 e nunca se casou ou teve filhos. O advogado e estatístico Mário Augusto Teixeira de Freitas (1890-1956), idealizador e primeiro secretário-geral do IBGE, e o advogado e diplomata José Carlos de Macedo Soares (1883-1968), então presidente do IBGE, pediram a Getúlio Vargas (1882-
-1954) para que os sobrinhos dos quais ele cuidava desde a morte do irmão fossem nomeados seus herdeiros. “Esse fato reflete o prestígio que Bulhões conservou com esse grupo”, relata Malavota.

Segundo Senra, o primeiro censo realizado pelo IBGE, em 1940, dois anos após a criação da instituição, “seguia muito de perto os passos de Bulhões adotados no Censo de 1920”. Seu legado não foi apenas a metodologia sistematizada em um manual de 603 páginas: “Ficou também a crença na importância das informações estatísticas como subsídio fundamental para o exercício do poder do Estado e para a tomada de decisões da sociedade”, ressalta Malavota.

FolhapressJipes utilizados no Censo de 1950 para chegar aos bairros periféricos da cidade de São PauloFolhapress

Segundo o historiador, Bulhões Carvalho e Teixeira de Freitas consolidaram o conceito que perdura até hoje como diretriz do IBGE: a natureza pública das informações. “Eles reconheciam as informações como bens públicos, que devem resultar em benefício para a população, justificando o investimento do Estado”, afirma. Decorre desse conceito o compromisso de divulgação dos dados coletados, expresso no regulamento da DGE, criado por Bulhões. O artigo 7º desse regulamento já trazia a proposta de criação regular de anuários e boletins. “Ele foi pioneiro não apenas na produção, mas na disseminação das informações”, diz o historiador.

Atualmente funcionam no Brasil 35 cursos de graduação em estatística e estima-se em cerca de 15 mil profissionais especializados nessa área em atuação no país. Hoje, com o auxílio da tecnologia, a estatística vislumbra um passo além da divulgação: a interpretação das informações obtidas, visando à elaboração de políticas públicas. Esse é um dos objetivos do projeto liderado pelo matemático Paulo de Martino Jannuzzi, professor da Ence-IBGE e diretor do Centro de Colaboração Interinstitucional de Inteligência Artificial Aplicada às Políticas Públicas (Ciap). “Temos muita informação hoje; vivemos o paradoxo da escassez de conhecimentos na abundância de dados. Os gestores precisam de um facilitador da interpretação desses dados e a IA pode ser uma grande aliada nesse sentido”, afirma.

Com a parceria da Universidade Federal de Goiás (UFG) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), além do apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), Januzzi tem empregado recursos de IA na formação de um acervo de políticas públicas e na criação de uma ferramenta de consulta destinada a gestores. Segundo ele, uma das vertentes do projeto é oferecer um serviço de respostas técnicas, a partir do emprego da IA generativa, capaz de gerar conteúdos, como textos, imagens, vídeos e áudios. Denominada ChatPP, Assistente de Inteligência Artificial para Políticas Públicas, essa ferramenta vem sendo alimentada com um acervo de boas práticas em gestão pública construído a partir de artigos, publicações de eventos e projetos de extensão de universidades.

A reportagem acima foi publicada com o título “As bases da estatística no Brasil” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.

Artigo científico
SENRA, N. de C. Da DGE até hoje, com o IBGE, uma sucessão em linha reta. Estadística y Sociedad. n. 5, p. 56-81. nov. 2018.

Livros
SENRA, N. de C. (org.) Bulhões Carvalho, um médico cuidando da estatística brasileira. Rio de Janeiro: IBGE, 2007.
SENRA, N. de C. Uma breve história das estatísticas brasileiras (1822-2002). Rio de Janeiro: IBGE, 2009.

Novas edições recuperam textos originais de Graciliano Ramos

Em S. Bernardo, romance publicado originalmente em 1934, Graciliano Ramos (1892-1953) narra os conflitos existenciais que acompanham a ascensão de um trabalhador pobre do sertão a proprietário de terra. Em 2026, o título ganhou nova edição pela Todavia, organizada por Thiago Mio Salla, professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Estudioso da obra do escritor alagoano há duas décadas, ele é autor de livros como Graciliano Ramos e a cultura política (Edusp, 2016), fruto de sua tese de doutorado defendida em 2010 na USP. Ambos tiveram apoio da FAPESP.

S. Bernardo não é o único a receber novos olhares editoriais. A entrada em domínio público da obra de Graciliano em janeiro de 2024 vem impulsionando uma série de reedições de seu legado literário, que inclui quatro romances, dois livros memorialísticos, um relato de viagem, três volumes infantojuvenis, três coletâneas de contos, além de textos avulsos em prosa e verso publicados na imprensa entre os anos 1900 e 1950. As pesquisas em torno do tema têm contribuído para essa iniciativa. É o caso de Salla que, organizou, além de S. Bernardo, outras três novas edições de Graciliano pela Todavia: os romances Vidas secas (1938) e Angústia (1936) e o infantojuvenil inédito Os filhos da coruja, baseado em poema escrito na década de 1920 e publicado em 2024.

“Em relação a Vidas secas, assim como acontece com Angústia e S. Bernardo, procuramos corrigir os erros acumulados ao longo das sucessivas edições, o que demandou um trabalho de cotejo do original e de outras 12 versões do texto. As alterações foram detalhadas em notas de rodapé e nas notas finais para quem quiser se aprofundar”, explica Salla. As imprecisões corrigidas vão desde a distribuição dos parágrafos e erros gramaticais até a troca de palavras, como é o caso da substituição, no primeiro parágrafo do livro, do verbo “aparecer” no original por “parecer” nas edições à venda até a entrada da obra de Graciliano em domínio público. “Esse tipo de alteração pode levar a equívocos de interpretação”, argumenta o pesquisador.

Vidas secas, romance que narra a saga de uma família atravessando as misérias do sertão, tornou-se um clássico da literatura nacional e um sucesso de vendas. “Graciliano é um autor que entra em domínio público com alto potencial comercial, o que naturalmente atrai as editoras. Esse processo amplia a circulação da obra e multiplica as edições; minha preocupação foi preservar a versão mais fiel do texto”, prossegue Salla.

Mario Santin Frugiuele, gerente editorial da Todavia e responsável por conduzir o projeto de reedição das obras de Graciliano realizado por Salla, concluiu o doutorado em filologia e língua portuguesa na USP com uma tese dedicada ao autor alagoano. “Quando iniciei a pesquisa, em 2018, já tinha em vista a entrada da obra em domínio público, em 2024, e a preocupação de que, quando isso ocorresse, houvesse uma edição mais fidedigna à vontade do autor”, conta.

A tese do pesquisador, “Os manuscritos de Vidas secas: A gênese”, analisa o clássico de Graciliano pelo viés da crítica genética. Campo teórico-metodológico, a crítica genética nasceu na França entre as décadas de 1970 e 1980. Seu propósito original é reconstituir o processo de criação de uma obra literária a partir dos vestígios deixados pelo autor, embora hoje essa abordagem seja empregada também em outras formas de expressão artística, como pintura, peça de teatro e roteiro cinematográfico.

No caso de Graciliano, conhecido por revisar obsessivamente os próprios textos, riscando palavras até quase torná-las ilegíveis, o trabalho de pesquisa exigiu uma verdadeira “autópsia” da escrita. “Examinei os manuscritos em mesa de luz e recorri à lupa, à luz infravermelha e outros recursos disponíveis para identificar os traços da grafia. Isso me permitiu compreender em profundidade as rasuras de Graciliano e o modo como desenhava cada letra”, conta Frugiuele. “Inicialmente, ele faz um texto mais derramado, com uso frequente de palavras como ‘coitada’ ou ‘coitadinha’ para descrever a família de retirantes. Os cortes que realizou e que caracterizaram seu estilo conciso e direto fizeram do texto uma obra-prima.”

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin – PRCEU / USPFrontispício da prova tipográfica da primeira edição de Vidas secas (1938); durante a revisão do documento, Graciliano riscou a opção anterior de título, O mundo coberto de penasBiblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin – PRCEU / USP

Entre as emendas feitas por Graciliano em Vidas secas, identificadas pela análise genética do manuscrito, destaca-se uma que evidencia a consciência do autor sobre o peso do sistema escravista na construção das imagens evocadas pelo personagem Fabiano. Na frase “Vivia trabalhando como um condenado”, presente no capítulo “Cadeia”, o autor substituiu “condenado” por “escravo”. Segundo Edilson Dias de Moura, doutor em literatura pela USP e autor de Graciliano: Romancista, homem público, antirracista (Edições Sesc, 2023), esse não é um caso isolado. “A presença de imagens do homem negro e escravizado no romance é recorrente e intencional, mas, até muito recentemente, foi pouco observada”, constata.

De acordo com Moura, parte da crítica contemporânea tende a enfatizar os aspectos racistas no léxico empregado por Graciliano em seus romances. O pesquisador argumenta, contudo, que essa leitura não deve ser dissociada de uma análise da trajetória do escritor alagoano como funcionário público. “O uso de certas expressões racistas integra o léxico corrente da época e dialoga com as teorias eugenistas que marcaram a formação de Graciliano, mas que ele progressivamente abandona e passa a refutar ao longo dos anos. Em sua trajetória pública, ao contrário, ele atua pela inclusão da população negra.”

Em 1933, quando esteve à frente do Departamento de Instrução Pública de Alagoas, Graciliano promoveu Irene Braga de Miguel Garrido, professora negra que trabalhava no interior do estado, ao cargo de diretora escolar na capital, Maceió. “A gestão de Graciliano na educação alagoana proporcionou gradualmente uma maior inclusão nas escolas. Durante sua gestão, instituiu-se um programa de merenda escolar, medida que, como ele próprio registrou em relatórios, impulsionou o número de matrículas de crianças negras”, afirma Moura.

O percurso de Graciliano no funcionalismo público não foi apenas uma função paralela à vida de escritor, mas o terreno em que despontaram suas primeiras incursões literárias. Em um relatório publicado em 1928, quando era prefeito de Palmeira dos Índios (AL), escreveu: “Constava a existência de um código municipal, coisa inatingível e obscura. Procurei, rebusquei, esquadrinhei, estive quase a recorrer ao espiritismo, convenci-me de que o código era uma espécie de lobisomem”.

O tom sarcástico, incomum à linguagem burocrática dos relatórios, era uma marca de Graciliano e contribuiu para projetá-lo como escritor, segundo Moura. Pelo uso singular de uma prosa marcada por humor e ironia, esses textos escritos para a prefeitura de Palmeira dos Índios passaram a circular na imprensa carioca e nos meios intelectuais, impulsionando a publicação de seu primeiro romance, Caetés, em 1933, pela Schmidt Editora.

A relação entre a obra literária de Graciliano e sua atuação como funcionário público – primeiro como prefeito (1928-1929) e depois como diretor da Imprensa Oficial de Alagoas (1930-1931) – é analisada por Salla no artigo “Entre a escrita e a escrituração: A prosa de guarda-livros de Graciliano Ramos”. O texto integra um dossiê dedicado ao escritor, organizado pelo pesquisador e publicado na Revista USP em 2025. “É possível encontrar o embrião de romances que ele escreveria mais tarde nesses relatórios, pois, enquanto ainda não tinha livros publicados, era ali que o seu estilo encontrava espaço para se manifestar”, observa Salla.

Embora ainda não fosse filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), o que só ocorreria em 1945, a notoriedade de seus relatórios e das ações progressistas como funcionário público despertou suspeitas entre os agentes que trabalhavam na repressão do governo Getúlio Vargas (1930-1945). Havia a suspeita quanto a um possível envolvimento do escritor na Intentona Comunista, rebelião político-militar que visava destituir o poder vigente. Ainda que tal envolvimento não se confirmasse e não houvesse nenhuma acusação formal, Graciliano permaneceu preso no Rio de Janeiro por 11 meses, entre 1936 e 1937. A experiência deu origem ao livro Memórias do cárcere, cuja escrita iniciada em 1946 foi interrompida em 1953 com a morte do autor, sendo publicado, no mesmo ano, pela editora José Olympio.

Fabio Cesar Alves, professor de literatura brasileira da USP, sustenta que essa obra mostra uma faceta menos conhecida de Graciliano. “Ele é frequentemente associado à alcunha de ‘escritor da seca’, mas há também um lado mais dostoievskiano, voltado à investigação das profundezas do ser. Essa dimensão aparece tanto em Memórias do cárcere quanto em livros como Angústia ou Infância, que costumam ser menos explorados”, afirma Alves, um dos organizadores do livro Graciliano Ramos, a paixão medida: Ensaios de interpretação da obra (Hucitec, 2025).

Guilherme Gurgel / acervo da Família Amaral Gurgel / Wikimedia CommonsO escritor, em 1949, com o radialista Amaral Gurgel, responsável pela adaptação do livro S. Bernardo para a Rádio GloboGuilherme Gurgel / acervo da Família Amaral Gurgel / Wikimedia Commons

O pesquisador avalia que o teor confessional da obra pode ser atrativo no atual protagonismo da autoficção – gênero que mistura autobiografia com ficção – no cenário literário. No entanto, ele ressalta que o autor alagoano oferece uma experiência distinta aos leitores contemporâneos. “Hoje, há uma demanda do público e uma expectativa dos escritores por uma subjetividade plena e transparente”, diz. “Porém a escrita confessional de Graciliano apresenta um eu esgarçado, marcado pela repressão, e, ao mesmo tempo, atento ao entorno, sempre filtrado pelo olhar do outro. Em Memórias do cárcere, por exemplo, ele se recusa a se chamar pelo próprio nome.”

O caráter subjetivo dos conflitos vividos na prisão, explorados por Graciliano no livro, é apontado por Alves como um dos fatores que explicam a recepção discreta da obra na imprensa comunista da época. Ao relatar o pedido de desculpas de um capitão do Exército após um desentendimento durante o período de detenção, o escritor admite rever sua visão sobre os militares: “O meu juízo a respeito dos militares desmoronava-se, um sujeito de farda aplicara-me lição bem rude”, escreve. Segundo Alves, a perspectiva apresentada na obra não é puramente ideológica nem dogmática e os personagens reais aparecem em suas nuances existenciais. “Além disso, ele não se furta a fazer críticas aos rumos que o PCB vinha tomando, o que certamente não agradou a seus dirigentes”, afirma o pesquisador.

Com a entrada da obra de Graciliano em domínio público, Memórias do cárcere também ganhou nova edição pela Penguin-Companhia das Letras, em 2025. De forma inédita, o volume reúne 11 capítulos reescritos pelo autor para publicação na imprensa e foi organizado pela crítica literária Ieda Lebensztayn, que pesquisou o autor no mestrado, no doutorado e no pós-doutorado na USP, com apoio da FAPESP. Trata-se de versões diferentes das publicadas originalmente em 1953 e que serviram de base para as edições posteriores. Para estabelecer o novo texto, Lebensztayn, além de ter localizado os 11 capítulos reescritos, cotejou os originais publicados pela José Olympio e os datiloscritos corrigidos pelo próprio escritor, preservados na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. O trabalho permitiu identificar três passagens ausentes nas versões em circulação até agora.

Atualmente, Lebensztayn trabalha em parceria com Salla na edição da correspondência inédita de Graciliano com outros escritores, como Jorge Amado (1912-2001). Os pesquisadores encontraram as cartas em diferentes arquivos pelo Brasil, entre eles o do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, que guarda mais de 15 mil documentos relacionados ao autor. O material deve ser publicado em 2026. “Ao longo desse trabalho, foi possível compreender a obsessão de Graciliano por aprimorar o texto, o que pode ser visto, em um primeiro momento, como um desejo de comunicação com o público”, analisa a crítica literária. “Mas acredito que essa obstinação em ‘consertar’ a escrita também funciona como um reflexo formal do seu desejo de corrigir as injustiças e desigualdades do mundo, marcas que atravessam toda a sua obra.”

ReproduçãoNovas edições da obra de Graciliano publicadas pela Todavia (as três primeiras, a partir da esquerda) e pela Penguin-Companhia das LetrasReprodução

A reportagem acima foi publicada com o título “Em busca do texto perdido” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.

Projeto
O estilo de Graça nas cartas: Organização e estudo da Série Correspondência Graciliano Ramos no Instituto de Estudos Brasileiros – USP (nº 10/12034-9); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisador responsável Marcos Antonio de Moraes (USP); Bolsista Ieda Lebensztayn

Dossiê
SALLA, T. M. (org.). Dossiê Graciliano Ramos. Revista USP. São Paulo, n. 146, 2025.

Livros
ALVES, F. C. Armas de papel: Graciliano Ramos, as Memórias do cárcere e o Partido Comunista. São Paulo: Editora 34, 2016.
ALVES, F. C. et al (orgs). Graciliano Ramos, a paixão medida: Ensaios de interpretação da obra. São Paulo: Hucitec, 2025.
LEBENSZTAYN, I. Graciliano Ramos e a novidade: O astrônomo do inferno e os meninos impossíveis. São Paulo: Hedra, 2010.
MOURA, E. D. de. Graciliano: Romancista, homem público, antirracista. São Paulo: Edições Sesc, 2023.
SALLA, T. M. Graciliano Ramos e a cultura política: Mediação editorial e construção do sentido. São Paulo: Edusp, 2016.

Reagentes aceleram produção de proteínas sintéticas

A biomédica Thainá Rodrigues de Almeida segura uma delicada lâmina de gel e examina as marcas deixadas pelas proteínas que acabou de purificar, deixando-as prontas para uso. Como as alturas das marcas são diferentes, ela comenta, desconfiada, que talvez a purificação não tenha sido perfeita. Mais experiente nessa área, a médica-veterinária Iris Todeschini aproxima-se e a tranquiliza: os tamanhos distintos podem ser o resultado de um fenômeno chamado oligomerização, pelo qual estruturas menores se unem para formar uma maior, como vagões de um trem.

Elas estão em um dos laboratórios da Biolinker, uma startup de biotecnologia instalada em um parque industrial de Cotia, na Região Metropolitana de São Paulo. De lá, segundo a fundadora da empresa, a bioquímica e médica-veterinária Mona Oliveira, já saíram cerca de 250 tipos de proteínas – como enzimas, anticorpos e vacinas animais – para grupos de pesquisa de empresas ou universidades de vários estados do país.

A categoria que mais dá orgulho à equipe, por causa de suas estruturas complexas, são os chamados fatores de crescimento, que induzem o desenvolvimento celular, e já são usados por produtores nacionais de carne de laboratório em substituição ao soro fetal bovino (ver Pesquisa FAPESP nº 343). Custam caro: a versão importada para pesquisa do fator de crescimento epitelial (EGF) sai de R$ 3 mil a R$ 8 mil por micrograma (mcg, um milionésimo de grama) e para uso médico, mais purificada, de R$ 10 mil a R$ 30 mil por mcg. O fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), que estimula a formação de vasos sanguíneos, pode chegar a R$ 80 mil por mcg.

Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESPO tamanho das colunas no gel indica o grau de purificação das proteínasLéo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

A Biolinker desenvolveu um sistema de inteligência artificial (IA) que facilita o planejamento e a produção de proteínas materializado em um kit de quatro tubos com 3 centímetros (cm) de altura. O rendimento da primeira versão do kit, lançada em 2020, já com ingredientes liofilizados (em pó), era de 10 microgramas por litro (mcg/L); na mais recente, distribuída a partir de setembro de 2025, saltou para 500 mcg/L. O sistema foi apoiado por cerca de R$ 8 milhões de investidores privados, como o ex-CEO do iFood Fabricio Bloisi, de empresas como o Google e de órgãos públicos, como a FAPESP, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o programa Desenvolve São Paulo.

“Reduzimos o tempo de síntese proteica de 15 dias para algumas horas”, afirma Oliveira. É um tempo próximo do executado pelos organismos vivos: as células do pâncreas produzem insulina, formada por 51 aminoácidos, e a deixam pronta para uso em duas horas.

A concorrência, porém, é grande. As poucas fabricantes nacionais de proteínas por engenharia genética – como a Biolinker, a ApexZymes, de Campinas (SP), a ByMyCell e a FastBio, ambas de Ribeirão Preto (SP), cada uma com seu próprio perfil e alvos comerciais muitas vezes sobrepostos – convivem com um mercado competitivo. Nessa área, predominam as filiais de multinacionais e as importadoras de proteínas produzidas na China, nos Estados Unidos e na Europa. Apesar disso, as perspectivas de negócio são boas: em conjunto, o mercado nacional, considerando apenas as enzimas, responde por vendas anuais próximas a US$ 300 milhões, de acordo com levantamentos de duas empresas de consultoria, a Grand View Research e a MarkNtel Advisors, realizados em 2025.

É um mercado grande, apesar de essas macromoléculas serem estruturas minúsculas. Formadas por blocos conhecidos como aminoácidos, as proteínas são de 100 a 10 mil vezes menores que uma célula humana, formada por milhares de tipos diferentes dessa categoria de moléculas complexas. Elas medem em média 5 nanômetros (nm, 1 milionésimo do milímetro), embora as maiores cheguem a 8 nm. Enzimas como a alfa-amilase, lactase e celulase, de menor peso molecular, são essenciais para a produção de alimentos como leite sem lactose e vinhos, detergentes, papel e celulose, etanol, enquanto as de maior porte, como os anticorpos e hormônios, ajudam a salvar vidas.

Tanto o sistema de IA quanto o kit da Biolinker nasceram de processos internos, remodelados para atender a usuários externos. Financiada parcialmente pela Google, a plataforma de IA da empresa, Bioinformatic Agents for Integrated Operations (bAIo), integra ferramentas de bioinformática, facilita a confecção de sequências de DNA ou RNA que conduzem a produção de proteínas, determina sua estrutura e interações com outras moléculas em bases públicas de dados. “Já estamos com 140 usuários inscritos”, informa

Esse e outros programas, como o AlphaFold, da Google, e o RoseTTAFold, da Universidade de Washington, ambos nos Estados Unidos, elucidam pelo computador as estruturas de proteínas, normalmente identificadas por meio de técnicas caras e demoradas, como a cristalografia de raios X e a ressonância magnética nuclear. Tais aparelhos revelaram a conformação espacial de cerca de 170 mil proteínas, uma parcela pequena diante dos estimados 200 milhões de tipos produzidos continuamente pelos organismos vivos.

Já o kit consiste em uma técnica de produção de proteínas chamada cell-free (livre de células), usando DNA ou RNA, enzimas e ribossomos (estruturas celulares responsáveis pela síntese proteica), dispensando as próprias células. Ainda que os ribossomos necessitem de armazenamento e transporte sob temperaturas negativas, é um método rápido e flexível, usado mundialmente desde os anos 1960.

Cada fabricante tem seus próprios ingredientes, mas o princípio é o mesmo (ver infográfico abaixo). A Biolinker produz no Brasil o kit cell-free, geralmente importado de multinacionais como Thermo Fisher Scientific, GenScript, Synthelis e Synbio Technologies por um preço médio de R$ 5 mil.

Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP

“Para pesquisa em pequena escala, de microgramas, e para ensino, o cell-free é fantástico. É simples e rápido, além de permitir a produção de proteínas que seriam tóxicas para as células, como as do coronavírus”, comenta a bióloga Danielle Pedrolli, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara, que não participou da pesquisa. “A restrição é que produz apenas uma quantidade limitada de proteínas, diferentemente da E. coli engenheirada, que poderia produzi-las continuamente e em quantidade maior.”

Pedrolli usou a técnica para identificar funções de moléculas específicas no interior das células e para construir sensores para vírus, permitindo sua detecção mesmo em baixas concentrações. Descritos em um artigo publicado em outubro de 2023 na ACS Synthetic Biology, esses sensores poderiam servir para diagnósticos médicos e detecção de contaminantes, a partir de amostras de sangue ou da água e do esgoto.

Em um estudo com o Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), o médico-veterinário Phelipe Vitale, cofundador da Biolinker, examina as interações entre os reagentes do kit em um aparelho de ressonância magnética nuclear. À medida que a pesquisa avança, ele saberá o que deve ser aprimorado para reduzir o tempo das reações. “Queremos ter o melhor cell-free do mundo”, almeja Oliveira.

Em outra pesquisa, que reforça essa meta, a equipe da empresa tenta produzir proteínas usando células vegetais de espécies brasileiras. Dotada de ribossomos maiores que os das células animais, as de plantas são a princípio capazes de oferecer um rendimento maior. “Está indo bem”, resume Oliveira. Sua previsão é oferecer essa técnica comercialmente a partir de 2028. Uma empresa alemã do grupo Europa Biosite já produz proteínas usando células de tabaco pelo método cell-free, com um rendimento 30 vezes maior que o dos métodos tradicionais.

Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESPÀ esquerda, o kit de produção rápida de proteínas. À direita, a proteína verde fluorescente (GFP), usada como marcador de outras proteínasLéo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

Ampliação
A Biolinker está ampliando a escala de produção. Em outro laboratório, a médica-veterinária Todeschini mostra um aparelho chamado sonicador. Com um formato semelhante a um mixer usado para triturar alimentos, ele gera frequências de ultrassom que rompem membranas celulares e libera as proteínas produzidas por engenharia genética em bactérias E. coli. “Com esse aparelho, fazíamos de 10 a 15 mililitros (mL) por vez”, ela conta. Em seguida, mostra com satisfação outro aparelho, fechado – o homogeneizador. “Resolveu nossa vida. Faz até 10 L por hora, embora não usemos tanto, porque as empresas compram no máximo 50 mL de proteínas por vez.”

Mais do que equipamentos, o que falta nessa área é mão de obra qualificada, na visão do engenheiro químico Luismar Marques Porto, professor aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), diretor técnico da empresa de biotecnologia 4Wood Biotech e diretor executivo da consultoria Tubanharon Innovation Systems. “A formação de pessoal para trabalhar com proteínas no Brasil é precária. O ensino é muito compartimentalizado e os institutos pouco integrados.”

Ele conta que, em 2009, conseguiu um financiamento internacional para um projeto em biologia sintética, mas teve de desistir porque não conseguiu formar um grupo de pesquisa na UFSC, do qual seria o coordenador. “Em 2021, para formar a equipe da Divisão de Carne Cultivada da JBS, tive de buscar fora. Trouxe pesquisadores brasileiros que estavam nos Estados Unidos, em Singapura, na Noruega e em outros países para compor a equipe prevista no projeto”, relata. Em março de 2024, para viabilizar outros projetos, Porto deixou a JBS, que em março inaugurou em Florianópolis o JBS Biotech Innovation Center, com o propósito de produzir suplementos proteicos a partir de células semelhantes às do tecido muscular animal, para serem usados em bebidas ricas em proteínas – os shakes – e barras de cereais.

Para Pedrolli, não faltam especialistas. Segundo ela, tem havido um crescimento contínuo de especialistas formados no Brasil desde 2020. A Rede Brasileira de Biologia Sintética reúne cerca de 30 grupos de pesquisa espalhados por 18 instituições de todo o país, como detalhado em um artigo de 2025 na ACS Omega. “O que falta”, observa, “são boas ofertas de emprego para quem termina sua formação acadêmica”.

A despeito das dificuldades, a Biolinker faz planos. Para ampliar a produção e reforçar a equipe de vendas, a empresa, com 12 funcionários, conseguiu R$ 2,5 milhões e pretende conseguir mais R$ 13 milhões de investimento privado. Oliveira busca também parceiros globais. “Já andei pela Bélgica, Alemanha, Portugal, Arábia Saudita, Estados Unidos e Hong Kong”, ela conta. “Até o fim do ano reforçaremos nossa atividade internacional, hoje limitada à Colômbia e a Portugal.”

A reportagem acima foi publicada com o título “Proteínas com rapidez” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.

Projetos
1. Estudo de estabilidade, reprodutibilidade e escalonamento dos kits de cell-free protein sintesis SynthEasy®️ (n° 23/09974-0); Modalidade Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Acordo de Cooperação Sebrae-SP; Pesquisador responsável Phelipe Augusto Mariano Vitale (Biolinker); Investimento R$ 1.097.076,71.
2. Desenvolvimento de kits liofilizados para síntese de proteínas livres de células (CFPS), Syntheasy (n° 19/16625-6); Modalidade Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Pesquisadora responsável Natalia Marchesan Bexiga (Biolinker); Investimento R$ 137.561,67.
3. BioApatIgG – diagnóstico sorológico de baixo custo e alta performance (n° 20/05023-2); Modalidade Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Acordo de Cooperação Finep – Pipe/Pappe Subvenção; Pesquisadora responsável Mona das Neves Oliveira (Biolinker); Investimento R$ 857.035,91.
4. LuciSTARC sistema de bioluminescência para ambientes químicos complexos (n° 22/13678-4); Modalidade Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe); Acordo de Cooperação Sebrae-SP; Pesquisadora responsável Mona das Neves Oliveira (Biolinker); Investimento R$ 449.452,75.

Artigos científicos
FRANCO, R. A. L. et al. Signal amplification for cell-free biosensors, an analog-to-digital converter. ACS Synthetic Biology. v. 12, n. 10. 4 out. 2023.
SANTOS, L. V. et al. Unveiling the frontiers of synthetic biology in Brazil: Pioneering the national synthetic biology network. ACS Omega. v. 10, n. 30. 23 jul. 2023.

As novas ferramentas que deverão transformar o sistema financeiro brasileiro

Ainda este ano, uma versão digital do real, a moeda nacional, será disponibilizada aos brasileiros. O desenvolvimento dessa inovação financeira, batizada de Drex, vem sendo conduzido pelo Banco Central do Brasil. No mundo, dezenas de países elaboram suas versões de moeda digital de banco central (CBDC, de Central Bank Digital Currency), sendo que China, Bahamas, Nigéria e Jamaica estão entre pioneiras no uso de moedas criptografadas oficiais, lançadas por esses países em 2024. A proposta do Drex, contudo, diferencia-se das CBDC em uso. O Banco Central quer disponibilizar não apenas uma moeda digital, mas uma plataforma de transações financeiras seguras. “O Drex é inovador. A principal inspiração é o ambiente de finanças descentralizadas [DeFi, de decentralized finance]”, diz o economista e engenheiro eletricista Fabio Araujo, coordenador do projeto Drex no Banco Central.

O DeFi funciona como uma plataforma independente, em que os usuários realizam transações entre si, sem a intermediação de governos, bancos ou corretoras. Para isso, utiliza a tecnologia blockchain, um registro digital imutável, criptografado, que pode ser compartilhado de forma descentralizada, como ocorre com as criptomoedas (ver glossário abaixo). “Queremos trazer para o ambiente regulado os desenvolvimentos que estão acontecendo em DeFi, que se encontram majoritariamente ao largo da regulação”, detalha Araujo.

Como danos causados por descoloração e raios ultravioleta mudam as propriedades do cabelo

Pegue um fio de cabelo saudável com as mãos e tente amassá-lo sem danificar sua superfície. “É quase impossível deformá-lo por compressão”, diz o químico Raphael Machado. Ao longo de seu estágio de pós-doutorado no grupo da física Maria Cecília Salvadori, da Universidade de São Paulo (USP), o pesquisador aprendeu a apreciar a surpreendente resistência desse material biológico, comparável à de fibras sintéticas como o náilon. Também constatou como a rigidez de fios de cabelos humanos naturalmente expostos à luz solar ao longo da vida pode ser reduzida em até seis vezes, depois de uma aplicação de um pó descolorante com água oxigenada.

Usando diferentes técnicas de microscopia, Machado produziu uma série de imagens mostrando as propriedades da superfície de fios de cabelo, com uma resolução de até cerca de 60 nanômetros (nm), mais de mil vezes menor do que a própria espessura do filamento. A análise desses mapas microscópicos ajudou a entender melhor como os danos provocados pela descoloração e a radiação ultravioleta [UV] alteram o relevo e a composição química dos fios em posições anatômicas diferentes ao longo da mecha e transformam um material naturalmente hidrofóbico – isto é, que repele a água – em seu oposto, hidrofílico, que “gosta” do líquido. Absorvendo mais água, o cabelo enfraquece sua estrutura e se torna mais quebradiço. Os resultados da pesquisa, publicados em março na revista Journal of the Mechanical Behavior of Biomedical Materials, podem ajudar no desenvolvimento de novos tratamentos.

Fios de cabelo têm uma espessura média de cerca de 100 mil nm, embora existam grandes variações entre populações distintas. Assim como as unhas, são um tecido morto formado principalmente pela proteína queratina. Sua estrutura mais interna é uma pequena região central denominada medula, que é envolvida pelo córtex, camada intermediária que corresponde a cerca de 85% da massa dos cabelos. Os fios nascem do couro cabeludo com o córtex totalmente coberto pela cutícula, estrutura externa que forma uma armadura de escamas de queratina mais compacta e organizada. Por sua vez, a cutícula é recoberta por uma fina camada de gordura, com espessura da ordem de 1 nm, composta pelo ácido 18-metileicosanoico (18-MEA), que se liga a átomos de enxofre da queratina, deixando a porção hidrofóbica da molécula voltada para fora. A aversão natural dos fios à água decorre sobretudo dessa camada, mas também dos espaços criados pelos degraus entre as escamas da cutícula, que reduzem a área de contato com a água.

Durante a descoloração, os reagentes removem o 18-MEA, rompendo sua ligação com a queratina. Ao mesmo tempo, a oxidação degrada a queratina, produzindo moléculas com hidroxilas, carboxilatos e sulfonatos, que atraem água em vez de repeli-la. Enfraquecidas por microfissuras, as escamas da cutícula podem se quebrar e se desprender, expondo o córtex à ação química e à água.

A radiação UV induz reações semelhantes: erode a camada de 18-MEA e também forma moléculas hidrofílicas. Esse processo ocorre de forma mais gradual e localizada, criando pequenos poros na cutícula que podem acelerar os danos causados pela descoloração. Todo esse dano é mais intenso nas pontas dos fios, onde a cutícula já se encontra naturalmente desgastada pelo envelhecimento. “As pontas guardam um histórico de tudo a que elas foram expostas desde o último corte de cabelo”, conta Machado.

Machado, R. et al. Journal of the Mechanical Behavior of Biomedical Materials. 2026Imagem de microscopia eletrônica de varredura da raiz de fio de cabelo humano em quatro diferentes condições: natural e preservado (A); natural, com poucos sinais de alterações (B); descolorido, com alguma deterioração (C); e descolorido, envelhecido e com danos químicos (D)Machado, R. et al. Journal of the Mechanical Behavior of Biomedical Materials. 2026

As mechas analisadas por Machado foram preparadas pela equipe do farmacêutico Flávio Camargo Júnior, gerente de terapia capilar e testes clínicos da Chemyunion, uma indústria química brasileira que vende, no país e no exterior, ingredientes para produtos cosméticos, farmacêuticos e de outros setores. Desde 2016, o Laboratório de Filmes Finos do Instituto de Física da USP, coordenado por Salvadori, presta serviços de microscopia à Chemyunion, que financiou o estudo. A colaboração rendeu sua primeira pesquisa científica em 2021, quando a física Raissa de Oblitas defendeu seu doutorado, orientado por Salvadori, mostrando que uma das fórmulas da empresa foi capaz de penetrar na cutícula e melhorar a resistência dos fios. Durante o processo, Oblitas criou um método mais preciso que o convencional para calcular o chamado módulo elástico, que mede o quão rígido é um material, a partir de imagens de microscopia de força atômica.

Assim como a agulha de uma vitrola extrai música ao subir e descer sobre os pequenos sulcos de um disco de vinil, a ponta nanométrica de um microscópio de força atômica pode se aproximar e se afastar de uma superfície milhares de vezes por segundo, registrando forças de atração e repulsão entre os átomos. “A cada ciclo de aproximação e retração medimos cinco grandezas: topografia da superfície, módulo elástico, deformação, adesão e energia dissipada”, explica Machado. “A adesão, a capacidade de grudar mais ou menos, é a propriedade mais sensível às interações intermoleculares e à composição química superficial.”

Os mapas de adesão revelaram que a descoloração elimina a variedade natural de moléculas da queratina, deixando no lugar uma superfície mais homogênea, dominada pelos sulfonatos e até cinco vezes mais adesiva nas pontas dos fios. Machado validou a composição química inferida pela adesão utilizando um microscópio eletrônico de varredura.

O estudo foi o primeiro a usar uma técnica de análise de dados conhecida como densidade espectral de potência para medir a rugosidade da superfície dos fios. “Foi difícil encontrar um revisor adequado para o artigo, porque não se utiliza normalmente essa ferramenta analítica para estudar fibras capilares”, lembra Salvadori.

A técnica traduz a informação espacial das imagens em gráficos de distribuição de frequências, analisando como a rugosidade está distribuída na superfície dos fios. Os gráficos mostraram que, em fios virgens, predominam frequências mais baixas, dado que indica a presença de feições de relevo maiores, como as bordas das escamas. Por outro lado, em fios descoloridos e irradiados se destacam frequências mais altas, apontando variações no relevo em escala menor, criadas pelos poros e fissuras que tornam a superfície mais áspera, propensa a reter água.

“Os resultados são muito interessantes”, comenta a cientista de materiais Valéria Longo, fundadora e diretora de ciência e inovação da startup Katléia Lab, que não participou do estudo. Criada em São Carlos (SP), a Katléia desenvolve, por meio de um projeto financiado pela FAPESP na modalidade Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe), um diagnóstico capilar personalizado. Segundo Longo, analisar a cutícula, a estrutura mais externa dos fios, é importante para entender a interação do cabelo com os cosméticos. Para um diagnóstico ainda mais aprofundado da saúde dos fios, a pesquisadora diz ser necessário um estudo de todo o córtex capilar.

A reportagem acima foi publicada com o título “Histórias de um fio de cabelo” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.

Artigo científico
MACHADO, R.C.L. et al. Unveiling the link between surface physicochemistry and nanomechanical behavior in bleached and UV-irradiated human hair fibers. Journal of the Mechanical Behavior of Biomedical Materials. 6 mar. 2026.

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