A IA generativa precisa ser tratada como um problema público

O chamado hype da Inteligência Artificial (IA) generativa tem limitado nossa compreensão sobre os usos e consequências dessa tecnologia. Em boa parte do tempo, assistimos a uma frenética competição das empresas por versões cada vez mais “eficientes” e “poderosas”, que vão “resolver” problemas da sociedade ou tornar menos dolorosa muitas das nossas atividades. No maravilhoso mundo da inovação, no qual a cobertura jornalística tem pecado ao não estimular abordagens mais críticas, o que temos é um excesso de entusiasmo, inflacionado pela perspectiva puramente comercial das big techs.
Acontece que a revolução promovida por essa tecnologia precisa urgentemente ser tratada como um problema público, como bem observou recentemente o professor da Universidade do Sul da Califórnia, Mike Ananny. Problemas públicos são aqueles que trazem danos que nem sempre são sentidos individualmente, mas que moldam a nossa vida coletiva. Eles nos afetam indiretamente, mas nem por isso são menos importantes.
A poluição do ar, a contaminação da água ou aquecimento global são exemplos de problemas públicos mais facilmente observáveis quando pensamos no futuro da humanidade ou na qualidade de vida que queremos. No caso da IA, o debate tem sido liderado por engenheiros e empresas interessadas nessa tecnologia, sugerindo que o domínio é puramente técnico. A IA não se restringe a uma questão de natureza técnica. A IA é um problema público porque ela tem reconfigurado nossas relações com o mundo à nossa volta.
É verdade que há avanços quando atentamos para a questão do viés dos algoritmos, a opacidade dos códigos, o risco para a privacidade dos dados, entre outras questões. Tudo isso é necessário, mas ainda tímido. A tecnologia da IA generativa, ou se preferirmos a algoritmização de quase todas as dimensões das nossas atividades, tem assumido o lugar de uma linguagem, uma forma que usamos para estruturar, definir e contar histórias coletivas ou de nos ensinar uns sobre os outros. Não é pouca coisa.
Para ser mais preciso, delegamos a modelos probabilísticos de aprendizado de máquina a produção de textos, vídeos ou áudios para explicar, ilustrar ou representar histórias sobre os mais variados assuntos. O uso desse modelo traz efeitos profundos porque estamos promovendo um tipo de linguagem estatisticamente aceitável que define e interfere na representação e compreensão da nossa vida social, política e cultural. Em outras palavras, a linguagem da IA privilegia aquilo que é significativo do ponto de vista matemático, excluindo ou omitindo uma série de nuances politicamente ou socialmente relevantes para a nossa realidade partilhada.
É nesse sentido que precisamos tratar a IA como um problema público. A sociedade civil organizada, o poder público e demais agentes precisam assumir o debate, reconfigurando a discussão. O efeito disruptivo da IA na nossa mediação com o mundo é relevante demais para ser tratado como um problema em uma linha de código.














