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Edição 392 – Planejamento do encontro entre Xi e Trump está a todo vapor

Sem culpar a IA. O Tribunal Popular Intermediário de Hangzhou decidiu no fim de abril que empresas chinesas não podem demitir funcionários sob a justificativa de que foram substituídos por inteligência artificial. No caso analisado, Zhou, profissional de controle de qualidade em uma tech do leste do país, encarregado de checar as respostas de modelos de linguagem, foi rebaixado com corte salarial de 40% quando sua função foi automatizada, e demitido ao recusar a proposta. Para a corte, “progresso tecnológico” não é base legal para a rescisão unilateral, e a decisão reforça um precedente aberto em dezembro por outro tribunal contra uma empresa de mapeamento.
O recado, divulgado pela Fortune, vem alinhado com a prioridade do Partido Comunista de manter a estabilidade do mercado de trabalho em meio à desaceleração econômica e ao desemprego juvenil elevado, mesmo enquanto Pequim pressiona o setor tecnológico a liderar a corrida global da IA. Na prática, a régua é outra. Esta reportagem da Rest of World mostra que o Alibaba cortou 34% do quadro em 2025, o Baidu reduziu cerca de 7% e a BYD enxugou perto de 10%, números que aparecem nos relatórios anuais, mas que as empresas raramente anunciam publicamente, preferindo atribuir os cortes a pressão econômica e ao ajuste após o boom da internet, justamente para não bater de frente com o discurso oficial. Analistas argumentam que o resultado é uma demissão silenciosa, em ritmo acelerado. Ou seja, vai cortar, sim, mas sem dizer que foi a IA que mandou.
Sem notícias. Mais um ano, mais um ranking de liberdade de imprensa da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Na lista de 2026, Hong Kong continua a ocupar a posição 140 entre 180 países avaliados – em 2019, antes da Lei de Segurança Nacional, a região administrativa especial ocupava o 73º lugar. A RSF destacou como ponto baixo no último ano a condenação do ex-dono do extinto Apple Daily, Jimmy Lai, que recebeu, no final de abril, o Prêmio de liberdade de expressão da alemã Deutsche Welle. O veículo local Hong Kong Free Press mantém um levantamento das ocorrências que explicam a deterioração da prática jornalística na região. A China continental aparece em 178º lugar no ranking.

Agora vai. Depois de rumores e expectativas, nesta semana, os presidentes Donald Trump e Xi Jinping se sentam para conversar – mais especificamente no dia 13 de maio. Este é o segundo encontro entre eles desde que o republicano voltou à Casa Branca. Em outubro passado, os dois chefes de Estado se reuniram na Coreia do Sul, mas num cenário muito diferente do atual. Esta é a primeira vez que o líder estadunidense vai à China desde que venceu o segundo mandato como presidente. O novo encontro entre Xi e Trump acontece num mundo marcado pela guerra do Irã, iniciada pelos Estados Unidos e Israel e que, para além da destruição e das mortes, provoca uma crise energética global. Reportagens do mundo todo colocam a pauta energética como ponto central: cerca de 13% das importações de petróleo da China vêm do Irã. Além disso, pautas clássicas nas relações entre as duas maiores economias globais devem estar à mesa: tarifas e comércio, Taiwan e acesso a minerais críticos, além de Inteligência Artificial. Trump será acompanhado por uma delegação de empresários que possivelmente inclui representantes da Meta, Boeing, Visa e o próprio Elon Musk, conta Bill Bishop. No meio de tudo isso, também se fala sobre a China exercendo algum nível de mediação no cessar-fogo para a guerra no Oriente Médio, negociação na qual já teria tido um papel em abril.

O jornalismo não pode, mas a literatura tenta responder aos tempos em Hong Kong – seja localmente ou em exílio. A edição de março-abril da revista digital de literatura traduzida para o inglês Words Without Borders foi dedicada às narrativas honconguense pós-2019. As estórias, selecionadas por duas autorias locais identificadas apenas por suas iniciais, transitam entre os grandes acontecimentos políticos da cidade na última década e seus desdobramentos nas vidas íntimas dos personagens. Esses também são os grandes temas das obras de ficção e não-ficção analisadas em um artigo de Louisa Lim na edição de maio da The New York Review; Lim caracteriza a produção deste período como “literatura do trauma”, e a conecta com obras influenciadas pela Revolução Cultural chinesa dos anos 60/70; no entanto, destaca uma diferença importante entre os dois momentos: ao contrário das obras chinesas daquele período, a literatura contemporânea de Hong Kong não contempla um futuro otimista para seus protagonistas.
Uma discussão sincera sobre queerness na China. Como é ser gay no país? Neste recente episódio do podcast de Gateway to Global China, com o professor Hongwei Bao (autor do livro Queer Comrades) e o pesquisador Darius Longarino, ambos especialistas num tema que ainda é tabu na China. A partir de uma discussão de história e cultura, como o poeta Qu Yuan, a conversa questiona o argumento de que identidades LGBSQIAP+ são uma “importação” do Ocidente, perpassa questões de legislação, saúde mental e as chamadas “terapias de conversão” e do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Especial: a revista Valor Econômico publicou em final de abril um especial sobre a China e o Brasil com várias matérias e entrevistas com especialistas.
Pequim: falando em especial, o Jornal Nacional lançou uma série sobre cidades chinesas. A que fala de Pequim também conta um pouco da história política do país – como a estreia de Felipe Santana e Lucas Louis, os dois correspondentes novos da Globo no país. A série também visitou Shanghai, Hangzhou e Cantão.
Cerâmica: uma entrevista com a ex-desenvolvedora e hoje ceramista Chang Liu e o seu trabalho.
Chilli pop: além da icônica marca de óleo apimentado Laogan Ma, Ghizou, segundo reportagem do SCMP, é onde toda a cultura dessa iguaria chinesa começou.
No ano passado, o The Guardian fez um mini documentário sobre duas mulheres chinesas com mais de 30 anos lidando com o desafio de congelar óvulos no exterior, já que a prática é proibida na China.
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Edição 391 – Novo modelo da DeepSeek esquenta a disputa pela liderança em IA

A DeepSeek acaba de lançar um novo modelo de inteligência artificial, o DeepSeek-V4; ele conta com duas versões e, como de costume, seu grande destaque para os usuários finais é a relação custo-benefício, com um desempenho equivalente ao das soluções de ponta estadunidenses, mas por uma fração do valor cobrado por elas. Mas a importância dessa novidade é também geopolítica: o modelo é otimizado para chips da Huawei – o que deve diminuir a dependência chinesa de chips dos EUA e consolidar o posicionamento do país na disputa pela liderança do setor. Como explica este artigo do MIT Technology Review, com esse lançamento, a IA chinesa ainda não se livrou totalmente da Nvidia, mas o caminho está traçado – e o CEO da fabricante de chips já deixou claro que isso seria “um desfecho horrível” para os Estados Unidos. Como já contamos por aqui, em 2024 a China era responsável por 13% das vendas da empresa.
A conta chegou para parceiros da Evergrande. A PricewaterhouseCoopers (PwC) fechou um acordo para encerrar as investigações sobre sua atuação como auditora da Evergrande em Hong Kong. A negociação foi encerrada com a bagatela de HK$1,3 bilhão, cerca de R$800 milhões, divididos entre uma multa de HK$ 300 milhões aplicada pelo regulador de contabilidade de Hong Kong e HK$ 1 bilhão destinado a um fundo de compensação para acionistas. A firma ainda deve cumprir uma suspensão de seis meses, ficando impedida de aceitar novos clientes de auditoria listados na bolsa. O acordo encerra o caso “de forma plena e definitiva”, sem admissão de culpa por parte da PwC – mas a lista de problemas da firma na China é longa: em 2024, Pequim já havia multado a PwC em ¥ 441 (R$ 312) milhões e aplicado outra suspensão de seis meses no continente, após concluir que a empresa havia “fechado os olhos” para a fraude da Evergrande, que inflou receitas em mais de ¥ 560 bilhões. O escândalo derrubou clientes, sócios e a reputação da firma na região, e ainda não terminou: há uma ação movida pelos liquidantes da Evergrande contra a PwC, cuja primeira audiência está marcada para maio.

Balanço semanal. A coletiva de imprensa semanal do Ministério das Relações Exteriores da China virou um bom termômetro do momento diplomático do país, e a de 21 de abril não foi diferente. Em poucos minutos, o porta-voz Guo Jiakun teve que comentar sobre quase todos os pontos quentes do momento, de conflito no Oriente Médio até Japão, Hong Kong e a agenda regional da China no Sudeste Asiático. Sobre o Oriente Médio, Guo reafirmou a proposta de quatro pontos de Xi Jinping para a região: coexistência pacífica, soberania, direito internacional e equilíbrio entre desenvolvimento e segurança; ele pediu que todas as partes aproveitassem a janela de cessar-fogo antes que ela se feche. Sobre o Japão, o tom foi bem mais duro, criticando tanto a flexibilização das regras de exportação de armas japonesas quanto o envio de uma oferenda ao Santuário Yasukuni pela primeira-ministra Takaichi, ambos os gestos interpretados como sinais de “neomilitarismo”. No meio disso tudo, Guo ainda anunciou a visita do chanceler Wang Yi ao Camboja, Tailândia e Mianmar, onde será inaugurado um inédito mecanismo de diálogo “2+2” com o Camboja, que estabelece um mecanismo de diálogo estratégico entre os ministros das Relações Exteriores e da Defesa dos dois países, e rebateu um relatório do Departamento de Estado americano sobre Hong Kong. Uma semana movimentada para a diplomacia chinesa.
Sem passagem. O líder taiwanês Lai Ching-te tinha uma viagem marcada para Eswatini, o único país africano que reconhece oficialmente Taiwan, para participar das comemorações do dia nacional do país. Porém, segundo o gabinete de Lai, Seychelles, Maurício e Madagascar revogaram a autorização de voo sob pressão de Pequim, inviabilizando a rota e forçando o cancelamento da visita. Lai denunciou publicamente o episódio, chamando as ações chinesas de “coercitivas” e afirmando que nenhuma pressão vai abalar a determinação de Taiwan de se relacionar com o mundo. O Comitê sobre China da Câmara dos Representantes dos EUA foi na mesma direção, condenando a manobra com uma frase direta: “Isso não é diplomacia, é pressão econômica para isolar um parceiro democrático.” Do lado chinês, o Ministério das Relações Exteriores não admitiu a pressão sobre os países africanos, mas deixou o recado: todos os países do continente, exceto Eswatini, reconhecem o princípio de uma só China, e assim deve continuar. O episódio ilustra bem como a batalha diplomática em torno de Taiwan acontece cada vez mais longe do Estreito, em salas de reunião de Nairobi, Antananarivo e Vitória.
Juntos. O Brasil foi o país convidado de honra do China Space Day 2026, realizado em Chengdu no último dia 24, e a participação serviu para reforçar a parceria de desenvolvimento conjunto de satélites de observação da Terra, que já dura 38 anos, o programa CBERS. A delegação do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação apresentou iniciativas que vão além dos satélites já em operação, entre elas, um laboratório sino-brasileiro de clima espacial, experimentos com radiotelescópios e a articulação para uma constelação de satélites no âmbito do Brics. Também foram discutidos os próximos passos dos programas CBERS-5 e CBERS-6; este último será o primeiro satélite geoestacionário da cooperação. Para o Brasil, o interesse é de maior autonomia tecnológica no monitoramento de biomas como a Amazônia, com menos dependência de dados externos. Lula enviou uma carta a Xi Jinping para a abertura do evento, um gesto protocolar, mas que sinaliza que a cooperação espacial entre os dois países segue como prioridade na agenda bilateral, mesmo em um cenário internacional de tensões.

A Literatura sempre se adapta ao seu tempo, e o Prêmio Nobel Mo Yan não fica para trás. Neste mês, ele lançou seu novo livro, Ren Na (Oh, Humanidade, em tradução livre para o português), inspirado em sua própria experiência de vício em vídeos curtos. Segundo o autor, a ideia é tentar prender a atenção dos leitores da mesma forma, por meio 81 textos breves, que contém “mais de 70 anos de insights e reflexões sobre a vida e a natureza humana”, cada um demandando não mais que 10 minutos de dedicação. Este é o seu primeiro lançamento em seis anos.

Seja água: Este artigo do pesquisador Joseph Clarke investiga os motivos pelos quais Bruce Lee ainda é referência meio século após sua morte. TL;DR: ele redefiniu a linguagem do movimento no cinema e representa uma imagem de autoconfiança e espírito desafiador para novas gerações.
Feminismo: As pesquisadoras Angela Xiao Wu e Yige Dong destrincham os diferentes feminismos que circulam na sociedade chinesa em meio à repressão política e o reacionarismo masculino.
É o caos: O empresário Dee Zheng relatou sua experiência como investidor no mercado de tecnologia limpa na China. Ele descarta a visão do “estado engenheiro chinês” como fator determinante e aponta que o sucesso nacional no setor veio do caos.
O que é que Chongqing tem de especial que tornou a cidade uma febre nas redes sociais? O South China Post foi investigar.
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Edição 390 – A transição verde no centro da estratégia de desenvolvimento chinês

Verde é meta, não discurso. Durante um seminário no banco Asiático de Desenvolvimento, em Manila, o vice-ministro das Finanças da China Liao Min reforçou o que já aparece no 15º Plano Quinquenal: a transição verde não é apenas um acessório, mas o centro da estratégia de desenvolvimento do país. Segundo ele, dos oito indicadores vinculantes do plano, ou seja, aqueles que os governos subnacionais são obrigados a cumprir, cinco estão ligados ao desenvolvimento de baixo carbono. Liao aproveitou o espaço para fazer também um balanço econômico com números indicando que o PIB chinês superou 140 trilhões de yuans no ano passado, com a China respondendo por cerca de 30% do crescimento econômico global. O consumo doméstico também foi ressaltado, aparecendo como novo motor desse crescimento, e o país mira dobrar sua classe média de 400 para 800 milhões de pessoas na próxima década.
A Evergrande, lembra dela? A gigante da construção civil chinesa entrou em processo de liquidação em 2023, depois de ser incapaz de quitar uma dívida de 23 bilhões de dólares – apenas uma fração de um total de 300 bilhões. Nesta terça-feira (14), o fundador da empresa, Hui Ka Yan, admitiu culpa por oito crimes relacionados a fraudes financeiras da empresa. A corte de Shenzhen ainda não anunciou sua pena. Hui foi por muitos anos um exemplo de sucesso, tendo se tornado bilionário por meio do trabalho, após uma infância no campo; a Evergrande, no entanto, começou a se complicar em 2020, quando mudanças na legislação do setor foram criadas para limitar o endividamento das incorporadoras; com a prática de usar os fundos investidos por compradores de imóveis para iniciar outra obras, a Evergrande deixou dezenas de prédios inacabados pelo país. Segundo apuração do South China Morning Post em julho de 2025, uma campanha governamental que se propôs a finalizar essas moradias havia entregue, desde 2022, em torno de 6,5 milhões de unidades para seus compradores.

Clima tenso no mar (do Sul da China). As tensões no Mar do Sul da China ganharam um capítulo inusitado. As Filipinas acusaram pescadores chineses de despejar cianeto nas águas ao redor de uma região de recifes disputada no Arquipélago Spratly, onde Manila mantém um posto avançado. Testes laboratoriais confirmaram a presença da substância tóxica em garrafas apreendidas pela Marinha filipina entre fevereiro de 2025 e março de 2026, escondida em embalagens de detergente de marcas populares chinesas. Para as autoridades filipinas, o cianeto teria sido usado de forma deliberada para matar a população de peixes local e cortar uma fonte de alimentação dos militares estacionados no navio. Pequim negou, com o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chamando as acusações de “totalmente inverossímeis e sem credibilidade”. O episódio acontece em um momento delicado, uma vez que no fim de março, China e Filipinas realizaram conversas de alto nível sobre o Mar do Sul pela primeira vez desde o início de 2025, o que mostra que, por mais que a diplomacia tente avançar, o conflito na região segue em outra frequência.
Clima tenso nas montanhas. Saindo do mar para a terra, pela sexta vez desde 2017, Pequim publicou uma lista com nomes “padronizados” para localidades na região em disputa de Arunachal Pradesh, que a China reivindica como “Zangnan”, ou Tibete do Sul. A lista mais recente, divulgada em 10 de abril, traz 23 entradas, entre montanhas, rios, aldeias e passagens, cada uma com um nome em caracteres chineses, escrita tibetana e pinyin, além de coordenadas GPS. No total, já são 112 localidades renomeadas por Pequim desde a primeira lista. Pesquisadores chamam a estratégia de “agressão cartográfica” – a normalização incremental de reivindicações territoriais por meio de mapas e listas administrativas, sem um único tiro. A Índia rejeitou a iniciativa como uma “tentativa maldosa” de criar narrativas falsas, lembrando que Arunachal Pradesh “sempre foi, é e sempre será parte integrante e inalienável da Índia”. O timing também chama atenção: a lista foi divulgada durante um período de engajamento diplomático ativo entre os dois países, o que sugere que Pequim a usa menos como rotina administrativa e mais como sinal calibrado de que não abre mão de suas pretensões territoriais, mesmo enquanto sorri para a câmera.
Efeito Beijing-Brasília. Brasil e China juntos respondem por 25% do risco de desmatamento associado ao comércio internacional de commodities agrícolas. O dado é de um novo relatório da Trase, organização especializada em rastreabilidade de cadeias produtivas, que cunhou o conceito de “Efeito Beijing-Brasília” para descrever o potencial que a dupla tem de puxar uma agenda global de sustentabilidade. A relação bilateral entre os dois países movimenta quase US$47 bilhões por ano em produtos agrícolas, com soja e carne bovina dominando o fluxo; com todo esse peso, qualquer compromisso conjunto tem impacto global. O relatório propõe cinco frentes de ação entre os países: troca de conhecimento e inovação, financiamento verde, padrões conjuntos para cadeias livres de desmatamento, combate à ilegalidade e fortalecimento da cooperação Sul-Sul. Para discutir tudo isso, a Trase realizou na última semana um webinar com representantes de governos, academia e setor privado dos dois países, incluindo nomes do Banco Mundial, da Academia Chinesa de Ciências e do Ministério brasileiro.

Revolução ou hype? Já contamos por aqui como o desenvolvimento acelerado da robótica movida a inteligência artificial na China também vem sendo acompanhado de alertas sobre uma possível bolha. Nesta longa matéria do The Guardian, a jornalista Chang Che explora o tema e como a empolgação doméstica na China sobre IA parte muito da sua combinação com a robótica, especialmente o seu uso em fábricas. Além da geopolítica, dos números impressionantes de investimento (cerca de 922 bilhões de yuans em tecnologias como quântica e robótica) e do custo reduzido dos robôs chineses, a discussão perpassa muito o mercado de trabalho. Afinal, fábricas hoje em dia empregam milhares de pessoas na China – e no mundo. Ao mesmo tempo, os jovens cada vez mais se distanciam desse tipo de trabalho braçal. Ironicamente, diversos jovens acabam indo trabalhar como “treinadores” de movimentos para esses robôs.

Corre pra casa: Com o mercado imobiliário ainda em crise, cidades chinesas precisam diversificar suas estratégias de vendas. Algumas delas, como conta a Sixth Tone, passaram a oferecer descontos para maratonistas.
Explicadinho: Depois de ler sobre Evergrande e subsídios para moradias, vale conferir este texto de Chien Ling, que explica para brasileiros toda a complexidade das limitações e opções, na sociedade chinesa, entre onde você mora e onde você nasceu.
Pra inglês ver: Este texto reflete sobre uma “europeização” do mandarim moderno, na construção de sintaxes e afins. O argumento é que esse processo vem ocorrendo desde o século XIX, em duas ondas principais que tiraram a fluidez do hanzi.
O SCMP explica como a crise no Oriente Médio afeta a aviação na Ásia – spoiler: os países asiáticos precisam importar petróleo da região para produzir o combustível usado em suas aeronaves.
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O que falta para entender a diferença entre antissemitismo e antissionismo?
Edição 389 – Após encontro com líder da oposição, Xi fala em retomar laços com Taiwan

Talita+Gui (taiwan) > Diálogo quase promissor. Depois de receber a líder do principal partido de oposição de Taiwan, o presidente chinês Xi Jinping afirmou que Pequim retomará “alguns laços” com a ilha. Como exemplos, o governo citou voos diretos interestreito e comércio de produtos de aquicultura taiwaneses. De acordo com relatos publicados pela imprensa local e internacional, durante um encontro na última sexta (10), Xi e Cheng Li-wun, líder do Kuomingtang, pediram paz entre Taipei e Pequim, mas não deram detalhes sobre como isso se daria. Ainda que haja simbolismo nas declarações e no gesto dos dois líderes, um sinal de cautela aparece quando o órgão taiwanês responsável pelas relações com a China continental afirmou que se trata apenas de transações políticas entre dois partidos. Taiwan é hoje governada pelo Partido Democrático Progressista, opositor ao Kuomintang e que tradicionalmente defende a independência entre Taipei e Pequim. Outro sinal de que uma verdadeira paz interestreito está longe da realidade foi a afirmação de Xi de que Pequim nunca vai tolerar a independência de Taiwan.
Caça High Tech. O Ministério de Segurança Pública da China anunciou um plano para combater crimes contra a vida selvagem. O foco, de acordo com o China Daily, é combater a caça ilegal com uso de armas e drones, envenenamento de pássaros e esquemas digitais de comercialização de espécies protegidas. Esse é um esforço que já vinha ganhando escala, onde, só entre agosto e dezembro de 2025, foram mais de 9.700 casos criminais registrados, incluindo milhares ligados principalmente a aves. Mais do que uma agenda ambiental, o tema vem sendo tratado como uma questão de governança e segurança ecológica. O uso de big data, operações coordenadas entre províncias e o foco em cadeias completas de crime são anunciados pelo governo como uma forma de estruturar respostas mais sistêmicas ao problema. Isso inclui tanto a repressão direta quanto o monitoramento de mercados online e de rotas de circulação, áreas nas quais o comércio ilegal de fauna vem se expandindo nos últimos anos. Nesse sentido, o combate à caça ilegal passa a refletir também a adaptação das ferramentas estatais a dinâmicas mais complexas de crimes digitais.

Muito além da disputa comercial, as relações entre EUA e China ganharam um novo tópico. Pequim pediu que as autoridades estadunidenses apurem a morte de um pesquisador chinês nos Estados Unidos. Danhao Wang, que pesquisava semicondutores na Universidade de Michigan, morreu logo depois de ter uma conversa com agentes federais. De acordo com os relatos, a conversa teria sido um questionamento hostil. O caso permanece com muitas lacunas sobre a causa da morte e a conversa com as autoridades. Até o momento, a imprensa afirma que Wang teria caído de um dos prédios da instituição. A universidade, por sua vez, fala na investigação de um possível caso de suicídio. As autoridades chinesas, por sua vez, pediram que seus nacionais na condição de estudantes nos EUA, elevem preocupações com segurança.
Ainda sobre as relações, a decisão de Trump de bloquear o Estreito de Ormuz pode afetar o possível encontro entre Xi Jinping e o republicano. Pequim disse publicamente que é de interesse mundial que o Estreito permaneça aberto. A China é uma das compradoras do petróleo Iraniano e de outros países do Oriente Médio e Ormuz é ponto crucial para o escoamento de energia para a Ásia do Leste. A importância disso é evidenciada por uma reportagem do South China Morning Post, que mostra que uma empresa chinesa tentou usar IA para monitorar o padrão de bombardeamentos dos EUA na região. Aguardaremos os próximos capítulos desse confito.
Onde o legal se confunde com o ilegal. Investigações recentes mostram o avanço de organizações criminosas ligadas à China no Chile. Os grupos operam principalmente a partir de negócios legais. No país latino-americano, é cada vez mais comum a polícia encontrar karaokês, cassinos e centros comerciais como fachada para esconder atividades criminosas, como o tráfico de pessoas, drogas e esquemas financeiros. Em alguns bairros em Santiago, essas estruturas já se tornaram parte da economia local. Em vez de violência ostensiva ou disputa territorial aberta, essas redes apostam em infiltração econômica, discrição e uso intensivo de tecnologia, desde cultivo indoor altamente sofisticado até fraudes digitais transnacionais. O resultado é um tipo de crime organizado que se mistura com cadeias produtivas legítimas e desafia respostas tradicionais de segurança pública. Para as autoridades chilenas, o problema deixa de ser apenas policial e passa a exigir leitura financeira, regulatória e até diplomática entre os dois países.

IA bom vs IA mau. As controvérsias envolvendo inteligência artificial são inúmeras, mas dois casos recentes de uso da tecnologia na China evidenciam esse contraste. Primeiro, a história de uma empresa que foi criticada por usar dados de um ex-funcionário para emular que ele seguisse trabalhando. Em outro extremo, uma família usou a ferramenta para confortar uma senhora que perdeu seu filho único. O caso laboral está ligado a uma empresa de jogos na província de Shandong, no norte da China, que criou um “trabalhador digital” movido por IA, usando dados de um ex-funcionário após sua demissão. O avatar, que substitui um profissional da área de Recursos Humanos, é responsável por executar tarefas básicas, como responder a perguntas, agendar compromissos e criar apresentações em PowerPoint e planilhas. O caso do IA “fofinho” também aconteceu na província de Shandong. Uma família contratou uma equipe de tecnologia para criar uma versão artificial de um homem que morreu no ano passado em um acidente. A ideia era ajudar a mãe octogenária a manter contato com o filho morto.

De rebelde a mascote: reportagem do The New York Times conta como um dos principais escritores chineses, Lu Xun, foi adotado como mascote pelo PCCh.
A solução para todos os males: a Folha explica como a moda de beber água quente pela manhã traz benefícios para a saúde. E você, já aderiu ao hábito?
Comédia em alta: reportagem da Sixthtone conta como o gênero comédia aparece em alta na província de Yunnan, no sul do país.
Uma conversa saborosa com o pioneiro e renomado chefe Jereme Leung sobre a culinária chinesa.
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'Se quiser, posso criar manchetes'
“Se quiser, também posso criar 5 manchetes fortes para redes sociais sobre essa notícia — esse tema costuma gerar bastante engajamento”.
Assim termina uma reportagem publicada nesta semana por um portal gaúcho de notícias — o Portal Gaúcho de Notícias — sobre a possibilidade de a prefeitura de Florianópolis bloquear o Bolsa Família para “pessoas em situação de rua que recusarem repetidamente acolhimento ou apoio oferecido pela assistência social do município”.A prefeitura de Florianópolis é aquela que usa a assistência social como “controle migratório” de desempregados e o portal regional, como se vê, esqueceu no fim do texto o arremate da IA usada para criar a reportagem.
E só por uma coincidência mesmo, só por mera coincidência, a IA usada para criar a reportagem, ou qualquer outra IA, “pensa” igual ao dono da big tech que a criou e pôs o monstro na praça: “manchetes fortes” sobre temas que geram um mar de engajamento.
O mero detalhe da mera coincidência é que, conforme já fartamente demonstrado, o que gera tsunamis de engajamento nas redes sociais são as “manchetes fortes” (leia-se: postagens enviesadas) que retroalimentam os piores preconceitos que grassam nas médias camadas, tipo achar que as pessoas não trabalham, não se dão mais ao respeito, nem tem mais com o que sonhar nesta vida por causa de vagabundagem inata retroalimentada por três vinténs de programas sociais.
Nunca, como diria o autor da Ópera dos três vinténs — Bertolt Brecht —, pelo programa implementado pela city.
As piores ideias que vão na cabeça das pessoas: tipo, quem sabe, “ditadura da toga”, “Supremo é o povo”. E, nesta linha e neste ano eleitoral, com “manchetes fortes” sobre o “Supremo acuado” ocupando o lugar do mais importante — a fim de manter, afinal, o Supremo acuado.
O muito mais importante relegado a segundo ou terceiro plano nesta verdadeira MASTERpiece do jornalismo de pernas pro ar: uma milícia bancária avançando sobre recursos de aposentados em cumplicidade com governadores de extrema direita e com o Banco Central de extrema direita, posto que referido como “independente”; um banco-milícia financiando campanhas eleitorais da extrema direita, posto que referida como “direita moderada”, e tudo isso costeando o Primeiro Comando da Capital.
Mas, para isso, quem precisa de IA? A IA que se ofereça a portais do Sul para “cuidar” dos humilhados e ofendidos de Florianópolis. Para todas as outras coisas, nomeadamente uma Lava Jato reloaded às vésperas de eleições gerais, temos o “jornalismo profissional” se oferecendo assim, no fundo feito o Gemini, Grok ou ChatGPT, a quem quer ver o Brasil em chamas:
“Se quiser, posso criar manchetes”.

A fúria épica de Ajax

“Não é nenhum Winston Churchill”, disse Donald Trump na última terça-feira, 3, referindo-se ao primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer; Trump reclamando de Starmer por o Reino Unido não ter ajudado os EUA no ataque ao Irã. Isso está em todos os jornais.
Já isto aqui, a seguir, está no livro “Todos os homens do xá”, do jornalista estadunidense Stephen Kinzer. Trata-se do agente da CIA Kermit Roosevelt, neto de Theodore Roosevelt — 26º presidente dos EUA —, mal contendo a emoção ao entrar em território iraniano por um remoto entroncamento, em julho de 1953, para chefiar em campo a Operação Ajax — a operação da CIA e do MI5 para derrubar o primeiro-ministro Mohamed Mossadegh.
“Lembrei-me do que meu pai escreveu sobre sua chegada à África com o seu próprio pai, T. R., em 1909, na viagem do African Game Trials. ‘Era uma grande aventura, e o mundo inteiro era novo!’ Eu me senti como ele deve ter se sentido naquele momento. Na subida da montanha, todo o meu corpo formigava de excitação, minha felicidade era total… Em 19 de julho de 1953, nos deparamos com um funcionário singularmente negligente, além de bronco e semi-analfabeto, do serviço de alfândega e imigração em Khanequin. Naquele tempo os passaportes americanos traziam, ao contrário de agora, uma curta descrição de algum traço notável do seu portador. Incentivado e ajudado por mim, o guarda copiou escrupulosamente o meu nome como ‘Mr. Scar on Right Forehead’, o que me pareceu um bom presságio.”
Eleito democraticamente em 1951, Mossadegh, ato contínuo, expulsou do Irã a Anglo-Iranian Oil Company, libertando seu país da submissão ao poder estrangeiro, para alegria do povo iraniano e suscitando a fúria do Império Britânico. No que, conforme Kinzer, “o primeiro-ministro Churchill, produto exemplar da tradição imperial, não hesitou em decidir pelo golpe”.
O 34º presidente do USA, Dwight Eisenhower, produto exemplar da Guerra Fria, tampouco titubeou quando foi procurado pelo Reino Unido para ajudar a derrubar Mossadegh, encagaçado diante do cenário pintado pelos britânicos de que o Irã poderia virar uma “segunda China”.
Daí para o neto de “T. R.” subir uma montanha persa formigando de excitação, foi um pulo.
Setenta e três anos atrás, o governo democrático de Mohamed Mossadegh no Irã foi derrubado pelos EUA e pelo Reino Unido e, em seu lugar, a Casa Branca e Downing Street, Langley e a Thames House instalaram a longa ditadura do xá Mohamed Reza, que por sua vez desaguou na teocracia dos aiatolás.
E aqui estamos, com a Operação Fúria Épica, desencadeada por Trump e Netanyahu contra o Irã-produto da Operação Ajax. Para o povo iraniano, desgraça pouca é bobagem. Sete décadas — e contando — de sabotagem a uma grande civilização pelas potências capitalistas são o resumo dessa história.

Nostalgia da luz e saudade das trevas no frágil tempo presente
“Nosso passado mais próximo é o passado mais escondido”, disse o arqueólogo Lautaro Núnez a Patricio Guzmán. Pode-se dizer que está nesta sentença um resumo — um duro resumo — do documentário Nostalgia da Luz, de 2010, de Guzmán.
É a sentença mais dura e definidora do documentário porque é um cotejo entre as três buscas concomitantes que acontecem no imenso deserto do Atacama, no norte do Chile: a da Astronomia, que se debruça sobre bilhões de anos atrás, a da Arqueologia, sobre milhões e milhares de anos atrás, e a busca pelos desaparecidos do golpe e da ditadura de Augusto Pinochet.
Esta última, a mais difícil de todas.
Até hoje, mulheres vasculham o Atacama atrás de vestígios das ossadas dos seus. Delas, muitos chilenos querem distância. Por isso, elas se sentem “a lepra do Chile”. Repetindo: a busca mais difícil de todas; “nosso passado mais próximo é o passado mais escondido”.
Sobrevivente da prisão de Chacabuco — a prisão da ditadura de Pinochet no Atacama — o arquiteto Miguel Lawner assombrou os genocidas quando foi capaz de desenhar em detalhes, tintim por tintim, medida por medida, as instalações do campo de concentração, após ser finalmente libertado.
“Miguel e sua esposa são para mim como uma metáfora do Chile — diz Guzmán. Miguel é a memória, enquanto ela é o esquecimento, porque sofre do Mal de Alzheimer”.
“Estou convencido — segue Guzmán — de que a memória tem a força da gravidade. Sempre nos atrai. Os que têm memória são capazes de viver no frágil tempo presente. Os que não a tem, não vivem em lugar nenhum. Todas as noites, lentamente, impassível, o centro da galáxia passa por cima de Santiago”.
Eram quase 10 da noite quando o piloto informou: “vamos atravessar a cordilheira”, e virou o avião, lentamente, rumo a Santiago. Na manobra, os Andes surgiram à esquerda, impassíveis também. Surgiram também as primeiras estrelas, tardias a 30 mil pés.
Em minha primeira vez atravessando a cordilheira, tardiamente, dois anos atrás, pensei imediatamente na força da gravidade e que em todas as noites o centro da galáxia passa por cima de Santiago, onde daqui a poucos dias, no próximo 11 de março, toma posse como presidente do Chile o pinochetista José Antonio Kast, eleito em dezembro, no frágil tempo presente, pelo Partido Republicano do Chile e por sete milhões de chilenos que não vivem em lugar nenhum.
Nostalgia da luz? Saudade das trevas.
Todas as noites o centro da Galáxia passa por cima de Santiago do Chile. E por cima de Havana e de Caracas, do que restou de Jabalia, Khan Younis e da Cidade de Gaza e do que vai restar de Úrmia, Qom e Teerã, até não restar mais lugar nenhum.

Trabalhadores da Argentina: livres, se bem que esfolados
Há 144 anos, Engels escreveu sobre a situação dos camponeses da Alemanha depois de séculos de investidas das classes dominantes contra a primitiva propriedade comunal e contra o direito consuetudinário, e depois da Guerra dos Trinta Anos: “tornou-se tão difícil encontrar um camponês livre quanto um melro branco”.
Referia-se, Engels, em seu opúsculo A marca, aos “serviços sem limites” aos quais os camponeses alemães estavam submetidos por uma nobreza que buscava reorganizar as relações de trabalho “da maneira mais propícia ao restabelecimento das suas finanças arruinadas”.
Tipo a Argentina de Javier Milei.
E sobre aquilo que Engels chamou de “reino da vara e do chicote” pesava um complicador capaz de levar o ex-presidente da Câmara Rodrigo “Justiça do Trabalho Nem Deveria Existir” Maia às lágrimas de crocodilo:
“Para que o gracioso senhor estivesse em condições de esmagar qualquer resistência camponesa, por mais ínfima que fosse, ele recebeu dos príncipes o direito de jurisdição patrimonial, quer dizer que ele foi decretado único juiz nos casos de delitos e diferenças de pequena importância, de modo que, mesmo quando um camponês tivesse uma diferença com ele, era ainda o senhor o juiz do seu próprio caso”.
Pois a "minirreforma" trabalhista de Jair Bolsonaro, Paulo Guedes e Rodrigo Maia — aprovada na Câmara, derrotada no Senado — previa restringir o acesso dos trabalhadores brasileiros à Justiça gratuita em geral, não apenas na esfera trabalhista, e vedava a anulação judicial de pontos de acordos extrajudiciais firmados entre empresas e “colaboradores”.
Pois a draconiana contrarreforma trabalhista de Javier Milei na Argentina prevê, de resto, o esvaziamento da Justiça Nacional do Trabalho, em nome da “liberdade do mercado de trabalho”.
Sobre os melros europeus, mas quiçá também sobre o tordo-de-chiguanco — ave passeriforme que bate asas em todo o território argentino —, Engels explicou que dos rebotalhos do “último estágio de degradação” surgiram os modernos camponeses livres da Alemanha:
“Livres, se bem que esfolados”.

Contra seu tempo, Ian McEwan confronta mal-estar do presente em livro
Carol, Isabel e Sócrates Brasileiro
Nesta quinta-feira, 19, Juca Kfouri noticiou em primeira mão no Brasil a punição da jogadora de vôlei de praia Carol Solberg pela Federação Mundial de Vôlei. Também nesta quinta, Sócrates Brasileiro completaria 72 anos de idade.
Há 40 anos, em meados da década de 1980, o Magrão e a Isabel Salgado, da seleção feminina de vôlei e mãe da Carol, eram dois dos maiores ídolos em atividade do esporte no Brasil: ele no campo, ela na quadra, os dois engajados na campanha das Diretas, entre 1983 e 1984.
Em janeiro de 1984, a revista Placar pôs na capa o Magrão e a Isabel (além da Hortência, do basquete, e do William, do vôlei masculino) e a manchete: “nossos ídolos apostam em 1984”. Pela frente havia as Olimpíadas de Los Angeles e a votação da emenda Dante de Oliveira, com suas célebres palavras finais:
“A nós basta um mínimo de patriotismo, de honestidade e de sentimento humano, para entendermos que é hora de mudar.”
Na época, o diretor da Placar era Juca Kfouri. Meses depois, em abril de 1984, Sócrates voltou à capa da revista, agora sozinho, caracterizado como Dom Pedro I e dizendo: “se o Brasil mudar, eu fico”. A emenda Dante de Oliveira foi rejeitada pelo Congresso ainda em abril e em maio e o Magrão foi jogar na Itália, vestindo a camisa viola da Fiorentina.
Sócrates morreu em 2011. Isabel morreu em 2022, de síndrome respiratória aguda. Carol Solberg foi punida pela Federação Mundial de Vôlei pela coisa horrível de comemorar, no final do ano passado, após conquistar a medalha de bronze na Copa do Mundo da Austrália, a prisão do ex-presidente que debochou de quem morreu na pandemia de síndrome respiratória aguda e chefe da organização criminosa que tentou dar um golpe no Brasil no ano em que Isabel se foi.
Consta que certa vez Eduardo Galeano disse o seguinte, brincou assim sobre os encontros com seu grande amigo Sócrates Brasileiro:
“Era horrível. Eu só queria falar de futebol e ele só queria falar de política.”

Sambinha novo, Orfeu?
Plutão (bradando):
Alegria! É o reinado da alegria! Amanhã é Cinzas! Hoje é o ultimo dia! E viva Morno! E viva a folia!…
(…)
As Mulheres (acompanhando o bumbo e a cuíca em ritmo de marcha):
Ciranda, cirandinha
Vamos todos cirandar
Já bateu a meia-noite
Carnaval vai acabar.
Orfeu (os braços para o alto):
Não, não morreu!
(…)
Plutão e Prosérpina riem e se abraçam, já meio dormindo.
As Mulheres:
O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou…
Orfeu (que se pôs a beber de uma garrafa, exaltado):
Não! Era o maior amor do mundo! Era a vida, era a estrela, era o céu! Era o maior amor do mundo, maior que o céu, maior que a morte! Eurídice, querida, acorda e vem comigo…
As Mulheres:
Nessa rua, nessa rua tem um bosque
Que se chama, que se chama solidão…
Orfeu (clamando):
Eurídice, vem comigo!
As libações continuam, gerais. Vários casais já dormem pelo chão. Alguns ainda dançam sambas caprichados, sem música. Um casal de malandros dança um em frente ao outro, jogando capoeira.
(…)
A aurora raia, pouco a pouco, entre as sombras rubras.
Orfeu, voltado para fora, exclama.
Orfeu:
É a madrugada, Eurídice. Lembra, querida, quantas madrugadas eu vi nascer no morro ao teu lado? Lembra, Eurídice, dos passarinhos que vinham aceitar o desafio do violão de Orfeu? Lembra do sol raiando sobre o nosso amor? (Ergue os braços para a aurora) Eurídice, tu és a madrugada! A noite passou, a escuridão passou. Espera, minha Eurídice! Eu vou, me espera…
***
Niterói, terça-feira gorda de 2026. Aqui, o amor venceu o medo, depois de descer ao Hades.
Ali, do outro lado da baía, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, acontecia há 70 anos — em 1956 — a primeira encenação de Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes, com músicas de Tom Jobim e cenários de Oscar Niemeyer.
“Nós ainda estamos aqui no Brasil de Rubens Paiva”.

A angústia dessa repetição
Em Toritama, cidade de 45 mil habitantes do agreste pernambucano que produz 20% das calças jeans nacionais, uma trabalhadora autônoma chega para trabalhar na facção (pequena confecção de fundo de quintal) às sete da manhã. Às onze e meia, vai para casa, para almoçar. Volta ao trabalho à uma e meia da tarde. Às seis e meia, volta para casa, para fazer e engolir o jantar. Às sete e meia está de volta à facção, onde trabalha até as 10 da noite.
E quando chega em casa às 10 da noite? Faz o quê? Faz como Janaína, que acorda todo dia às quatro e meia e já na hora de ir pra cama Janaína pensa que o dia não passou, que nada aconteceu.
Na “capital nacional do jeans”, paga-se 10 centavos por cada boca de bolso costurada. Se você fizer 100 bocas de bolso, ganha R$ 10. Se costurar mil, ganha R$ 100. A confiar no Google — desculpe, no Gemini —, uma costureira profissional munida de equipamento adequado consegue fazer até 50 bocas de bolso por hora. Em Toritama, que em tupi significa “terra da felicidade”, a jornada tem de ser de 20 horas para ganhar R$ 100 em um dia de trabalho na facção.
A “vida” dos trabalhadores das mais de três mil facções de jeans de Toritama foi retratada no documentário Estou me guardando para quando o Carnaval chegar, de Marcelo Gomes, que confessa: “o barulho ensurdecedor das máquinas me causa ansiedade. Essa repetição de movimentos me causa angústia”. A “vida” desses trabalhadores que, como ressalta o documentarista, “só têm tempo para conversar quando falta luz e o trabalho é paralisado”. A “vida” desses trabalhadores que dizem que é melhor ser autônomo porque “se a gente for trabalhar fichado tinha hora pra gente sair”. A “vida” desses trabalhadores que só param de trabalhar no Carnaval, quando Toritama fica deserta porque vão todos para a praia.
“E as pessoas que não têm dinheiro para viajar — conta Marcelo Gomes no filme — vendem o que têm e o que não têm e correm desesperadas para a praia. O desespero de ver todo mundo ir embora ou de passar a vida trabalhando?”
O desespero da jovem Gisele, que às vésperas do Carnaval de 2018 pôs sua geladeira na calçada, à venda, por R$ 200, para poder viajar, sair um pouquinho dali. E depois do Carnaval? Depois do Carnaval a gente trabalha para comprar outra geladeira — e outra TV, e outro fogão e até outra máquina de costurar —, a gente ali do bairro de Gisele, Nova Canaã. E o documentarista lembra que, na Bíblia, Canaã é a “terra prometida”. E em uma facção mostrada no documentário a única cor além do azul do jeans é o verde de um “Jesus” grafitado na parede.
Por falar nisso, em tudo isso, nesta quinta-feira, 12, o ministro “terrivelmente evangélico” do STF cassou uma decisão da 4ª vara do Trabalho de Cuiabá que reconhecia vínculo empregatício de um pedreiro com um construtora para a qual o reclamante tinha trabalhado em regime 6x1. Para tanto, André Mendonça evocou a ADPF 324, com a qual em 2018, enquanto Gisele vendia sua geladeira em Toritama, o STF mandou pelos ares direitos fundamentais e catapultou a precarização ao considerar constitucional a terceirização das atividades-fim, com os votos de Barroso, Moraes, Fux, Gilmar Mendes, Celso de Mello e Cármen Lúcia. E de Dias Toffoli, que também nesta quinta finalmente abriu mão do caso Master e foi sucedido por… André Mendonça.
“O barulho ensurdecedor das máquinas me causa ansiedade. Essa repetição de movimentos me causa angústia”.
Em Estou me guardando para quando o Carnaval chegar, o Seu João, morador da zona rural do Toritama, é a única pessoa da cidade que ainda tem tempo de olhar para o céu e esperar a chegada da chuva. E ele diz que, entra ano, sai ano, o que não muda em Toritama é a chuva que cai depois do Carnaval.
Come Ananás deseja um bom Carnaval, tanto quanto possível, a todos os trabalhadores do Brasil, especialmente os mais precarizados: as Janaínas, Giseles e todos e todas que fazem bocas de bolso, fazem este país e acreditam que um dia a gente ainda há de ser feliz.

Tayayá tibum
Ao longo dos últimos meses, a atuação, digamos, heterodoxa de Dias Toffoli à frente do caso Master no STF tem sido motivo de grande, enorme alvoroço na mídia corporativa. Em reação, setores do campo progressista vêm denunciando uma suposta orquestração da mídia para, mirando Toffoli, tirar o foco do escândalo Master em si, ou seja, do que o caso revela sobre a podridão que grassa no “mercado” e as ramificações da matéria putrefata nos meios político, midiático, no Banco Central “independente”, etc.
De quebra, dizem esses setores, criticar ou mesmo mencionar Toffoli “neste momento”, mesmo de boa-fé republicana, significa embarcar numa conspiração contra o ministro que acaba de autorizar uma devassa na 13ª de Curitiba e corresponderia mesmo a um reavivamento do espírito lavajatista visando enfraquecer o governo Lula e o STF como um todo, ou seja, tudo o que a extrema-direita quer em ano eleitoral.
Por outro lado, ao longo dos últimos anos, esses mesmos setores do campo progressista vêm saudando — e fazem muito bem — a guinada da Polícia Federal ao profissionalismo, correção e serenidade sob a direção de Andrei Passos Rodrigues, após os anos de perseguições e espalhafatos políticos da conspiração Lava Jato e barafundas sem fim causadas na PF por Jair Bolsonaro.
Muito bem.
Nesta quarta-feira, 11, a PF entregou à presidência do STF um relatório contendo conversas de Dias Toffoli com Daniel Vorcaro e menções a Toffoli em conversas de Vorcaro com terceiros, tudo extraído do celular do dono do Banco Master. Do teor das conversas adiantado pela imprensa corporativa, sabe-se de tratativas de movimentações financeiras envolvendo uma empresa da qual Toffoli era sócio oculto e fundos de investimento ora alvos de investigação — a investigação que está sob as rédeas do próprio ministro na última instância do Judiciário brasileiro.
No relatório entregue por Andrei Rodrigues a Edson Fachin, a PF fez constar um artigo da Lei Orgânica da Magistratura que trata de indícios de crimes cometidos por juízes e a parte do regimento interno do STF que trata de declaração de suspeição de um integrante da egrégia corte. Toffoli reagiu à moda Sóstenes Cavalcante, dizendo que contra ele há apenas “ilações” e que a PF não tem competência para pedir sua suspeição, coisa que, aliás, a PF não fez.
Passaram-se dois meses desde que havia contra Toffoli, no caso Master, “apenas” uma viagem ao Peru, para assistir ao Palmeiras na final da Libertadores, na companhia do advogado de um diretor do Master preso pela PF, isso no mesmo dia em que o ministro assumiu a relatoria do caso.
No último 28 de janeiro, o professor Conrado Hübner escreveu na Folha de S.Paulo sobre o ministro do STF e do resort Tayayá, no Paraná; sobre o ministro que “desponta como o maior inimigo interno do tribunal hoje” e que “precisa ser investigado”:
“Está em curso um movimento de salvação do ministro. Buscam vender o gesto como salvação do tribunal, até como salvação da democracia. A operação, contudo, em vez de proteger, ajuda a fazer o contrário.”
“Edson Fachin afirmou que ‘a tentativa de desmoralizar a corte é um ataque à democracia’. O constitucionalismo, porém, ensina outra coisa: a leniência com a corrupção funcional, essa, sim, ataca a democracia.”
“Continuar a guardar as costas de Toffoli no seio do escândalo bancário mais grave de que temos notícia traz riscos superlativos ao STF. A promiscuidade enfraquece o tribunal e um STF fraco interessa ao extremismo político. É projeto bolsonarista.”
Dois meses depois do voo de grão-palmeirenses para Lima, e agora depois do Tayayá, já deu tempo de perceber que, “neste momento”, depende do afastamento de Dias Toffoli do caso Master — no mínimo isso — tanto a defesa do STF contra os ataques da extrema direita quanto o avanço das investigações da PF que podem revelar, por exemplo, a quem e para que serve o Banco Central “independente”, passando pela defesa do Brasil contra o discurso lavajatrosco da mídia, que já ganha corpo, de “resetar a República” às vésperas de eleições gerais.
Do contrário, Tayayá tibum.

Com a palavra, os juízes quatro estrelas

“Promovido a General de Exército e ascendendo ao Alto Comando da Força, chefiei o Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército por dois anos, conduzindo os projetos de desenvolvimento de equipamentos de interesse da Força, prospecção tecnológica, atividades fabris, relacionamento com a nossa Base Industrial de Defesa e exercendo a função de Presidente do Conselho de Administração da Indústria de Material Bélico do Brasil (Imbel), além de supervisionar a formação, especialização e pós-graduação de engenheiros no Instituto Militar de Engenharia, o nosso conhecido IME”.
Foi o que disse o general de Exército Guido Amin Naves no Senado Federal no dia 11 de dezembro de 2024, em sua sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) para ocupar uma vaga no Superior Tribunal Militar (STM), conforme indicação do presidente Lula. O general foi aprovado na CCJ por 26 votos “sim”, um voto “não” e tomou posse como ministro do STM no dia 24 de fevereiro do ano passado.
O cargo de chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército (DCT), o general Amin assumiu-o no dia 31 de março de 2021, aniversário de 57 anos do golpe de 64, após ser nomeado pelo então presidente Jair Bolsonaro e pelo ministro da Defesa à época, general Fernando Azevedo e Silva. Um ano antes, nos 56 anos do golpe, Azevedo e Silva assinou uma ordem do dia para ser lida nos quartéis classificando o “movimento de 64” como “um marco para a democracia brasileira”.
Uma das organizações militares subordinadas ao DCT é o Comando de Defesa Cibernética do Exército (ComDCiber), de onde partiram as primeiras investidas mais pesadas das Forças Armadas contra o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no âmbito da trama golpista de 2022 e pelo flanco aberto à caserna por Luis Roberto Barroso, que em 2021, quando era presidente do TSE, convidou as Forças para participarem de uma Comissão de Transparência Eleitoral (CTE) e depois, virginal, surpreendeu-se com o “comportamento desleal” dos militares na comissão.
O que o general Amin não fez questão de mencionar em sua sabatina no Senado, a respeito do seu período à frente do DCT, foi que na época, na urdidura do soco na mesa, a ele, Amin, respondia o então chefe do ComDCiber e representante das Forças Armadas na CTE, general Heber Garcia Portella. Foi o general Portella o responsável por encaminhar ao TSE, em nome dos militares, nada menos que 88 “dúvidas” sobre supostas fragilidades do sistema brasileiro de votação eletrônica, sem objetivo outro senão envenenar a sociedade brasileira contra as urnas eletrônicas, substrato do plano golpista.
Em maio de 2022, o insuspeito Estadão publicou que, “em 88 perguntas ao TSE, militares repetem discurso de Bolsonaro, que tem colocado em dúvida a segurança das urnas eletrônicas e mantido a própria atuação da Corte sob suspeita”. Não obstante, o general Amin foi citado no inquérito do golpe como um dos integrantes do Alto Comando do Exército que foram “contrários a qualquer ato que levasse a ruptura institucional” e tem sido referido recentemente na imprensa corporativa como um dos generais de quatro estrelas “que resistiram ao plano golpista”.
Na época da nomeação de Amin para o STM, a Veja deu conta de que Lula foi informado da função que o general exerceu no governo Bolsonaro; sobre o general ter chefiado “o departamento responsável por relatórios que questionavam as urnas na época em que o então presidente [Bolsonaro] tentava desacreditá-las”. Não obstante, o presidente foi convencido de que Amin atuou apenas de maneira técnica na época da trama golpista e não se identifica com o bolsogolpismo.
O Superior Tribunal Militar é composto por 15 ministros, sendo cinco civis e 10 juízes de quatro estrelas — três almirantes de esquadra, três tenentes-brigadeiros do ar e quatro generais de Exército.
No último 3 de fevereiro, o Superior Tribunal Militar divulgou a lista dos relatores principais e relatores revisores das ações para a perda de patente do capitão reformado Jair Bolsonaro e dos oficiais generais golpistas das Forças Armadas condenados a pelo menos 19 anos de prisão, conforme previsto na Constituição Federal e no Código Penal Militar. O general Guido Amin Naves é o relator revisor da representação por indignidade para o oficialato contra o almirante de esquadra Almir Garnier Santos, ex-comandante da Marinha do Brasil.
Já está correndo o prazo para Bolsonaro, Garnier, Augusto Heleno, Braga Netto e Paulo Sergio Nogueira apresentarem suas defesas ao STM. Na última terça-feira, 10, o STM publicou em seu site quais serão os próximos passos a partir de então, qual é o cronograma do encontro ou desencontro do STM com a Constituição da República, com o Estado Democrático de Direito e com um marco de verdade para a democracia brasileira que seria uma decisão clara e altissonante da Justiça Militar de que militar golpista não pode ser militar.
“Após a entrega dos documentos, os relatores de cada caso farão a análise técnica dos argumentos apresentados pela defesa. Concluída a fase de defesa, os relatores elaboram seus votos detalhados. Após a elaboração do voto pelo relator e o retorno do processo pelo revisor, poderá ser solicitada a inclusão em pauta de julgamento. O caso será liberado para a presidência do STM, que decidirá a data da inclusão na pauta de julgamento do Plenário. Anunciado o julgamento pela Presidência do Tribunal, o relator fará a exposição do relatório e, depois de ouvido o revisor, será facultada às partes a sustentação oral. A definição do cronograma final de julgamento dependerá exclusivamente da conclusão dos relatórios e da conveniência administrativa da presidência da Corte militar”.
A presidente do STM, Maria Elizabeth Rocha, doutora em Direito Constitucional, já deu provas de seu compromisso com a democracia. A ver com qual “marco para a democracia brasileira” os outros ministros do STM, principalmente os juízes quatro estrelas, têm identificação.

Portugal: em liberdade, em democracia. Em paz?
Voltamos a Lisboa para uma visita de médico, de dois dias, quase 20 anos após pegarmos o caminho de volta para o Brasil pelo aeroporto da Portela e 10 anos após o aeroporto da Portela ser rebatizado com o nome de um oficial general da Força Aérea de Portugal e notório opositor do regime de Salazar — Humberto Delgado, o “General Sem Medo”.
Em 2007, pegamos um avião de volta para o Brasil após uma temporada de pós-graduação no Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas (Cenjor), em Lisboa.
Neste domingo, 8, ao voltarmos ao nosso antigo endereço em Arroios, para matar saudades, notamos tudo igual, à exceção de um monumento inaugurado em 2017, 10 anos após nossa partida, pertinho do nosso velho e úmido sótão lisboeta; um monumento ao 25 de Abril com um grande e belo cravo, uma placa de homenagem ao capitão Salgueiro Maia e os dizeres:
“A 25 de Abril de 1974 terminava o regime autoritário iniciado com o golpe militar de 28 de maio de 1926. Portugal viveu durante esses anos a Ditadura Nacional (1928-1933) e o Estado Novo (1933-1974). A Revolução dos Cravos, como ficou conhecida, foi liderada pelo Movimento das Forças Armadas e permitiu a Portugal viver em Liberdade, em Democracia e em Paz. Símbolo do 25 de Abril, este cravo é uma homenagem à memória desses acontecimentos e dos seus protagonistas, recordando o valor da Liberdade e reconhecendo a coragem e a determinação de todos os que lutaram para que esse dia fosse possível”.
Neste domingo, em Portugal, para além, muito além das lembranças prosaicas de antigos habitantes do sótão do número 28 da rua da Bempostinha, na freguesia de Arroios, estiveram em jogo os valores de Abril na disputa do segundo turno da eleição para o Palácio de Belém; no segundo turno para a presidência da República portuguesa entre o candidato da internacional fascista e o do campo democrático, ainda que António José Seguro, do Partido Socialista, não represente exatamente de forma contagiante os valores de Abril.
Neste domingo, em Portugal, o fascismo foi derrotado de lavada. Nesta segunda-feira, 9, “o país acorda mais Seguro”, conforme o trocadilho do Público, principal jornal português.
Que os festejos pela traulitada antifascista sejam bonitos, pá, mas não a ponto de fazer esquecer que o fascismo forçou um segundo turno na eleição para Belém pela primeira vez em mais de 40 anos; que Portugal segue livre, democrático, mas não em paz.

'Paramos, pensamos': uma crônica de Paris
Quem sai da estação de Saint-Michel para visitar a catedral de Notre-Dame de Paris, quem sabe para dar uma esticada até o prédio no Quarter Latin da personagem Emily, da série Emily em Paris, da Netflix, depara à beira do Sena com um monumento aos mortos em um episódio que nunca virou episódio de nenhuma série de streaming, nem da Netflix, nem da Disney: as manifestações de 1961 em Paris que foram um marco da revolução argelina.
“Em memória dos muitos argelinos mortos durante a repressão sangrenta da manifestação pacífica de 17 de outubro de 1961”, diz o monumento.
Nos dicionários, o verbo deparar é definido como “apresentar-se aos olhos de alguém”. A maioria dos visitantes de Paris que saem da estação de Saint-Michel rumo à Notre Dame, contudo, passa batida pelo monumento aos mortos da manifestação pacífica, posto que terminada em sangue, de 1961; a manifestação e a repressão que completam 65 anos neste Anno Domini de 2026.
A maioria segue em frente, com viseira daquele burro da Disney, o Bisonho, rumo à catedral, crentes que o corcunda Quasímodo é um personagem de Walter Elias Disney e para pagar dois euros no cartão Wise para acender uma vela para Nossa Senhora de Paris, nunca para render homenagem às centenas de mortos, feridos e desaparecidos nas ações revolucionárias das gerações passadas.
Quem passa pelas remanescentes bancas de jornais de Paris neste início de fevereiro de 2026 depara — ou nem por isso, como vimos — com a capa da mais recente edição do Le Monde Diplomatique, que diz: L’Amérique sans fard, l’Europe sans vie ( “A América sem filtro, a Europa sem rumo”).
E não estamos falando aqui da única barraquinha de comida (food truck?) ao lado da Sacre Coeur, onde pode-se comprar hot wine e american hot dog, mas sim do bisonho Emmanuel Macron ligando para Donald Trump nos dias de Assembleia das Nações Unidas — e de Trump ameaçando anexar a Groenlândia, território europeu — para brincar, submisso, indigno do Eliseu, que tinha sido bloqueado em Nova York por causa da passagem da comitiva do imperador do Queens.
“Fica a dica” do inestimável e muito francês slogan do Le Monde Diplomatique: on s’arrête, on réfléchit (“Paramos, pensamos”).

Um tarifaço no Louvre
Quem não é cidadão europeu e foi visitar o Museu do Louvre, em Paris, nesta segunda-feira, 2, pagou 32 euros para entrar, o equivalente a cerca de 200 reais. A nova tarifa está em vigor desde 14 de janeiro. Trata-se de um aumento de 45% em relação ao preço do ano passado e são 10 euros a mais do que pagam os residentes do Espaço Econômico Europeu. Da sala Mollien, a Liberdade de Delacroix guia o povo e está vendo a discriminação.
Nesta segunda, quem pagou 32 euros no antecipado e chegou cedo para visitar o Louvre encontrou primeiro um aviso de que o museu não iria abrir no horário previsto e, pior, não tinha hora para abrir. Não demorou e apareceram membros do sindicato SUD-Culture Solidaires explicando aos desavisados o porquê.
É que desde o dia 15 de dezembro os trabalhadores do Louvre estão empenhados em uma das mais longas greves da história do museu, em resposta ao corte de pessoal e de recursos que vem resultando em condições de trabalho cada vez mais precárias e nisto aqui, nas palavras do sindicato e como se não bastassem as milhares de selfies por dia com a pobre Monalisa: “visitar o Louvre tornou-se uma verdadeira provação”.
“A retirada do apoio estatal às instituições públicas e as políticas neoliberais dos sucessivos governos impuseram um sistema de suposta rentabilidade que promove a massificação e a comercialização da cultura. O aumento generalizado dos preços dos museus e a introdução de uma taxa adicional para pequenos grupos guiados são um duro golpe para os guias profissionais e prejudicam a igualdade de acesso aos serviços de visita guiada”, diz o comunicado do SUD-Culture Solidaires distribuído aos turistas nesta segunda nas entradas do Louvre.
Nesta segunda, o Louvre abriu à tarde, só à tarde, em operação-padrão. Entre as reivindicações dos grevistas está o fim do tarifaço para não-europeus, política que, de novo nas palavras de quem faz a greve — e faz muito bem —, “atropela nossa história republicana e o universalismo fundador do museu”.
Recentemente, a A Liberdade guiando o povo passou por uma restauração que durou seis meses e removeu camadas de verniz oxidado que sufocavam o azul, o branco e o vermelho da bandeira da República francesa.













