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Flávio Bolsonaro contra o Pix
Pra ver o Sena tem que ir a Paris
Edição 395 – Hukou: uma mudança que pode beneficiar 357 milhões de chineses

Discriminação contra a população LGBT+ pode finalmente ter critérios claros na China, conta a Folha. Uma suposta resposta da Suprema Corte chinesa à uma petição no começo de maio indica alguns critérios para que a discriminação contra pessoas LGBT+ seja considerada ilegal. Mais especificamente, o texto fala em discriminação e violação de direitos com base em orientação sexual, identidade de gênero e expressão de gênero – e cita o ambiente de trabalho, escolas e ambiente público (no caso de insultos, por exemplo). Contudo, como explica o Pekingnology, esse formato de resposta à petição não é formalmente uma mudança de legislação ou política, mas sim um possível entendimento. No caso, a resposta do órgão (disponível no link acima em mandarim e inglês) indicaria ao Departamento de Pesquisa da Corte para coletar e resumir casos pelo país, oferecendo uma resposta padronizada sobre o tema.
Faca de dois gumes. Pelo terceiro ano consecutivo, o Relatório Anual de Trabalho do Governo chinês menciona explicitamente a inteligência artificial, e no que diz respeito ao setor energético, a aposta é particularmente concreta: a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma estabeleceu que, até 2027, pelo menos cinco modelos de linguagem especializados estejam profundamente integrados à rede elétrica e à geração de energia. Algoritmos já são usados em Xangai, Xinjiang e Pequim para prever a produção de renováveis e otimizar a distribuição, e usinas virtuais com IA no “cérebro” devem aliviar a demanda de pico em 2026, segundo reportagem da Dialogue Earth. Os limites, contudo, são estruturais, uma vez que especialistas ouvidos pela publicação apontam que a rede chinesa é organizada para priorizar estabilidade, e não eficiência. Somam-se o apetite dos próprios data centers, estimados em 3% a 5% de todo o consumo elétrico chinês até 2030, e o fato da maioria deles ainda estar no leste, longe das fontes renováveis do oeste. Para acomodar o paradoxo, Pequim lançou em março uma política que obriga novos data centers nos hubs nacionais a extrair 80% de sua energia de fontes verdes, sinalização que, se cumprida, pode destravar novos investimentos em solar e eólica.
Sem passaporte. O governo chinês começou a impor restrições de viagem ao exterior a profissionais de inteligência artificial considerados estratégicos para o país. Segundo reportagem da Bloomberg, pesquisadores, executivos e fundadores de startups em empresas privadas como Alibaba e DeepSeek precisam agora obter aprovação das autoridades antes de embarcar. A Reuters não conseguiu verificar a informação. Pequim há anos mantém esse tipo de controle sobre cientistas nucleares e executivos de estatais (que costumam ter os passaportes guardados pelas próprias empresas), mas a extensão da medida ao setor privado é a novidade, e a inclusão de nomes se dá menos pela hierarquia funcional e mais por uma avaliação caso a caso da “importância crítica” da pessoa para o país. A movimentação vem na esteira da disputa em torno da Manus, startup chinesa de IA cuja aquisição de US$2 bilhões pela Meta foi barrada por Pequim, com dois cofundadores impedidos de deixar o país durante a investigação. Segundo as fontes ouvidas pela Bloomberg, a nova política não está diretamente ligada ao caso, mas reforça o mesmo objetivo declarado de evitar vazamentos tecnológicos, e pode acabar dificultando o recrutamento e a retenção desse talento, empurrando engenheiros com ambição global a deixar a China mais cedo na carreira.

Corrida de três pernas. Muito se fala em “corrida de IA” e disputas geopolíticas pelo controle da tecnologia, colocando China e Estados Unidos de forma concorrente. Porém, ao mesmo tempo em que a Huawei abertamente compete para desenvolver tecnologia contra as sanções dos EUA, o argumento de Viola Zhou neste texto para a Rest of World é que a realidade é mais complexa e ambos estão mais interligados do que parecem perceber a nível de setor privado. Ela argumenta com base nesta longa matéria sobre os pesquisadores e fundadores chineses (ou de segunda geração) que há anos estão envolvidos com o que acontece de mais importante no Vale do Silício. Entre idolatrar os mesmos ídolos (Elon Musk e Jensen Huang), ouvir os mesmos podcasts, trabalhar nas mesmas empresas e sonhar em ficar milionário, parece estar todo mundo meio que na mesma vibe otimista sobre o desenvolvimento de IA e a pressão em acumular o máximo de dinheiro durante a bolha. Ao mesmo tempo, os chineses que escolhem o Vale do Silício como residência enfrentam desafios de xenofobia em um momento cada vez mais tenso das relações bilaterais.
China e Paquistão. O primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif esteve em Pequim na segunda-feira (25) e firmou, junto a Xi Jinping e ao premiê Li Qiang, o que ambos os países descreveram como um “novo amplo consenso” sobre o aprofundamento da parceria estratégica, justo no ano em que se celebra o 75º aniversário das relações diplomáticas sino-paquistanesas. Segundo a Reuters, o comunicado conjunto prevê a retomada do Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC), projeto-vitrine da Iniciativa Cinturão e Rota, além do esforço para transformar portos e rodovias em rotas modernas. Em contrapartida, Islamabad reforçou medidas para proteger trabalhadores e investimentos chineses no país, após uma sequência de ataques de militantes a cidadãos chineses em solo paquistanês. O componente diplomático veio igualmente carregado: segundo a Xinhua, Sharif reafirmou o princípio de “uma só China” e o apoio paquistanês às posições de Pequim em Xinjiang, Tibete, Taiwan e questões marítimas, e ambos os lados se manifestaram contra a atuação do Tehreek-e-Taliban Pakistan e do Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, se referindo ao tema sensível para a vigilância chinesa sobre Xinjiang. Pequim ainda agradeceu o papel de Islamabad como mediador no recente cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, sinal de que o Paquistão segue se posicionando como interlocutor útil para a China tanto no flanco econômico quanto no diplomático.
O conflito EUA-China em vigilância e defesa. Não é só no comércio direto que Estados Unidos e China disputam espaço e poder. Uma reportagem recente publicada pelo The New York Times indica que a influência em sistemas de defesa e vigilância nacionais também se faz importante nessa concorrência: o texto do principal jornal estadunidense fala sobre como a China tem exportado seu sistema de vigilância para além de suas fronteiras e, neste caso específico, para as Ilhas Salomão, no Pacífico, onde cidadãos têm seus dados pessoais coletados por policiais chineses em nome de aumento de proteção e segurança. Essa aproximação não está isolada, e textos recentes dão conta de explicar que ilhas do Pacífico estão em meio às disputas das maiores economias do mundo: os EUA têm acordo de defesa com as Ilhas Salomão e, recentemente, um adversário da China foi eleito primeiro-ministro. Para quem quiser se aprofundar um pouco mais no assunto, este texto, publicado pelo Carnegie em 2022, aborda as contradições da política estadunidense para a região do Pacífico.

Novos ventos soprando para migrantes. Em um movimento recente, o governo chinês anunciou a flexibilização do hukou, abrindo mais espaço para a migração interna no país. Esse sistema foi criado no fim dos anos 1950 por Mao Zedong e é usado para tentar conter movimentos internos no país. Na prática, o hukou limitava o acesso de cidadãos a serviços públicos, como o sistema de saúde, a educação, a moradia e até o registro de bebês, impactando negativamente pessoas que estivessem vivendo e trabalhando fora de seus lugares de origem. A mudança anunciada em maio amplia o acesso de trabalhadores migrantes a esses serviços públicos. Apesar de dificultar, e muito, a vida dos chineses, na prática, o sistema não chegou a impedir as migrações, como mostra o South China Morning Post, mencionando um censo que aponta para a existência de 357 milhões de migrantes no país.

Podcast: esta série de oito episódios aborda a relação moderna da China com os seus vizinhos terrestres e marítimos – e como o país está lidando de forma “criativa” com essas dinâmicas. O projeto é liderado pela pesquisadora Nadège Rolland.
Literatura: o podcast China Talk conversou com o autor e tradutor de ficção científica chinesa Ken Liu. Os temas foram de inteligência artificial ao Taoísmo.
Nostalgia: também na China, os anos 1990 estão em alta – pelo menos na internet.
Mais um épico histórico chinês chega aos cinemas – mas, desta vez, a narrativa parece estar muito mais interessada em apontar para o futuro: A Batalha de Penghu (澎湖海战), com estreia prevista para 25 de julho, vem gerando muitos comentários sobre sua mensagem a respeito das relações entre China continental e Taiwan. A batalha que dá nome ao filme, ocorrida em 1683, marcou a conquista de Taiwan pela dinastia Qing.
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Decretos do Marco Civil da Internet são ataques à Constituição
As pessoas usam o ChatGPT como a Rainha Má usa o espelho
Edição 394 – No embalo de Trump e Putin, quem vence é a China

Até agora são 82 mortos no pior acidente em uma mina de carvão chinesa dos últimos 16 anos. A explosão de gás aconteceu na sexta-feira (22) na cidade de Changzi, na província de Shanxi (a principal para a mineração de carvão) e a mina contava com 247 trabalhadores no momento, que ficaram presos nos escombros. Ainda há pessoas desaparecidas e cerca de 120 estão hospitalizadas. As operações de resgate seguem, inclusive com apoio de robôs para a detecção de gases e câmeras. O caso será investigado para que se descubra a causa da explosão, inclusive para identificar qual a responsabilidade da empresa já que análises iniciais indicam violações de padrões de segurança. Xi Jinping solicitou uma operação ampla para o resgate e apoio às vítimas e seus familiares, especialmente em casos de idosos.
O molho secreto do sucesso da China na disputa pela liderança em Inteligência Artificial talvez vá além dos investimentos pesados e da regulação rápida. Um relatório recente da Stanford University revelou que o otimismo da população chinesa em relação à nova tecnologia é excepcional e contrasta diretamente com os sentimentos dos estadunidenses: mais de 85% das pessoas consultadas na China acreditam que a IA é mais benéfica que maléfica, contra 45% dos respondentes nos EUA. Muito foi especulado sobre o assunto, e diversos comentaristas atribuem o humor dos chineses à confiança que têm em seus legisladores; por outro lado, há quem acredite que a grande diferença está na perspectiva histórica: ao contrário do que vêm acontecendo na história recente da China, os trabalhadores dos Estados Unidos vêm vivendo relativa calmaria e estabilidade em suas relações trabalhistas e modo de produção, o que os deixaria menos abertos às grandes mudanças que a IA promete trazer.

É os guri. Logo depois da partida de Trump, Xi Jinping mal trocou o terno e já recebeu o líder russo Vladimir Putin no dia 19. A visita já estava marcada há algum tempo, então, dizem, foi apenas coincidência o timing – ainda que não deixe de ser . Pequim e Moscou assinaram uma série de acordos, incluindo economia digital, isenção de vistos, educação, satélites, e desenvolvimento de biofármacos, no contexto da celebração de 30 anos da parceria estratégica sino-russa. Contudo, o acordo mais esperado, envolvendo a distribuição de gás pelo gasoduto Power of Siberia 2, não foi finalizado. No Tracking People’s Daily um compilado do discurso oficial sobre a visita de Putin, inclusive a declaração conjunta sobre um novo mundo multipolar. Sobrou também preocupação com o crescente investimento em defesa europeu e uma crítica ao bloqueio do comércio transnacional (uma referência possivelmente ao Estreito de Ormuz). Se você é fã de jogo dos sete erros, vale este texto do The Guardian comparando a recepção aos dois líderes. Na conclusão das análises, o grande vencedor talvez seja Xi Jinping.
As cortinas já se fecharam no Festival de Cannes deste ano, e além dos premiados, o destaque também foi para o soft power chinês. Na abertura do festival na costa francesa, a renomada atriz Gong Li anunciou a abertura em inglês e mandarim, junto com Jane Fonda. Com um pavilhão dedicado ao cinema chinês, o país também teve na seleção oficial dois curtas-metragem feitos por IA e a estreia de A Girl Unknown, da diretora Zou Jing sobre a política do filho único e seu impacto nas meninas chinesas. Além disso, o longa-metragem Adeus, Minha Concubina (que venceu a Palma de Ouro em 1993) teve uma exibição na sessão de clássicos e o sucesso de bilheteria Dear You ganhou uma estreia francesa. A China Night, um evento oficial do Festival de Cannes que reuniu cerca de mil convidados entre atores, diretores, produtores e exibidores, foi realizado no espaço conhecido como Cannes Marché du Film, onde os filmes são negociados e vendidos entre produtores e distribuidores. A China Night também incluiu demonstrações de tecnologia para o cinema, como realidade aumentada, robótica e muita inteligência artificial. Vale assistir esta palestra realizada no mês passado com o pesquisador Paulo Menechelli sobre o cinema chinês e o soft power.

Literatura chinesa no holofote global. As últimas semanas foram animadas para os apreciadores de literatura chinesa. No começo deste mês, a autora nascida na China Yiyun Li – cujas obras publicadas no Brasil foram discutidas no nosso Clube em 2023 e 2024 – ganhou o Prêmio Pulitzer na categoria Memória ou Autobiografia com o livro Things in Nature Merely Grow, lançado no ano passado e ainda não publicado no Brasil. Yiyun escreve suas obras diretamente em inglês, ao contrário da taiwanesa Yang Shuang-zi; a tradução do romance mais recente de Yang, Taiwan Travelogue (sem previsão de chegar por aqui), realizada por Lin King, recebeu na última semana o International Booker Prize; esta foi a primeira obra traduzida do mandarim a receber o prestígio. Por fim, em meados de abril, a ilustradora chinesa Cai Gao foi reconhecida com o Hans Christian Andersen, o maior prêmio para autores e ilustradores de livros infantis. Vale conferir o dossiê que a premiação preparou para sua candidatura.
Por fim, bora falar de literatura chinesa que chega ao Brasil: Mo Yan, publicado no país pela Cosac e pela Companhia das Letras, esteve por aqui em maio para participar da celebração de 50 anos da Unesp. O Prêmio Nobel fez um discurso na abertura do evento e participou da mesa “A literatura sem fronteiras – Brasil e China – paralelos e confluências”. Vale conferir também a mesa “A nova literatura chinesa”, com participação dos escritores Suonan Kairang e Yang Zhihan. Se você assistir às gravações e ficar interessado em conhecer a obra de Mo Yan, fique atento: no final do ano, vamos discutir em nosso Clube, pela segunda vez, As Rãs.
Para a surpresa de muitos, o tradicional jogo chinês de Mahjong ganhou uma popularidade nova entre jovens, especialmente nos EUA (que tem até a sua versão alternativa do jogo). O Mahjong surgiu no final do século XIX e é extremamente popular na China, Hong Kong, Japão, Coreia do Sul, Taiwan e diáspora – especialmente entre idosos. Este texto discute essa nova ascensão, que tem sido muito apoiada pelos algoritmos, mas também como o jogo surge como uma resposta para a construção de comunidade e ao mesmo tempo como há, em alguns casos, uma apropriação cultural sobre essa nova onda de jogadores.

Podcast: neste episódio d’O Assunto, a entrevistada é a especialista Larissa Wachholz sobre a estratégia chinesa para a autossuficiência alimentar.
Pintura: a Sixth Tone entrevistou Hong Jian, pintor que há 20 anos tem uma série de obras registrando a arquitetura histórica de Shangha
Curta o som da dupla indie de Chengdu Deep Water com o novo EP Have a Good Time.
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Edição 393 – Encontro Xi e Trump gera memes, virais e pouco avanço

Sentença sem reprise. Acusados de crimes de corrupção, dois ex-ministros de Defesa da China, Wei Fenghe e Li Shangfu, foram condenados a penas mais brandas do que a pena de morte. Na última quinta-feira (7), uma corte militar do país determinou que ambos fossem punidos com pena de morte com suspensão de dois anos. Na prática, passados dois anos sem novos crimes, a pena de ambos será automaticamente convertida em prisão perpétua. Ambos foram considerados culpados de suborno e tiveram todos os bens pessoais confiscados. Segundo a Xinhua, Li teria sido acusado por ter recebido e oferecido propinas, além de não cumprir responsabilidades políticas. Wei comandou a pasta de defesa entre 2018 e 2023; Li o sucedeu em março de 2023, sumiu da vida pública em agosto daquele ano e foi formalmente afastado em outubro, após pouco mais de seis meses no cargo. As decisões se somam à onda recente de afastamentos no alto escalão militar chinês, que incluiu nos últimos meses até o general Zhang Youxia, militar mais graduado da Comissão Militar Central. Em fevereiro, Xi Jinping fez uma rara menção pública ao processo, dizendo que as Forças Armadas haviam “passado por uma têmpera revolucionária no combate à corrupção”. Analistas leem a cruzada anticorrupção em curso desde 2012 como uma combinação de saneamento institucional e de consolidação política e, no caso das Forças Armadas, as duas dimensões costumam aparecer entrelaçadas.
Cidade x Campo.Junto com os vice-prefeitos chineses que viralizam no Douyin dançando em arrozais, a onda de funcionários influencers ganha corpo desde que Xi Jinping promoveu essa estratégia. As cenas idílicas que esses livestreams projetam, com paisagens, produtos artesanais, oficiais bonzinhos servindo refeições a idosos, ajudam a reforçar uma visão romantizada do interior que circula há tempos nas cidades chinesas: a ideia de que o camponês tem terra para “se virar”, uma casa só sua, e ainda por cima com um custo de vida baixo. É justamente esse imaginário urbano que uma conversa recente entre o jornalista Peng Yuanwen e o ativista Zhou Jian, traduzida pelo China Digital Times, busca discutir. Zhou conta que ao percorrer mais de 3 mil aldeias em 150 condados pobres, ele tentou derrubar as crenças urbanas sobre o campo. Segundo o texto, o camponês não vive da terra, seu trabalho rende, no máximo, o equivalente a R$ 800 a R$ 1.500 por ano, “o suficiente para uns poucos meses de remédio de pressão”; a terra não é de fato dele (o que existe é direito de uso coletivo, sem poder vender, herdar ou usar como garantia); o terreno em que ele mora vale menos do que se imagina; e o “baixo custo de vida” rural é um mito. Entre o campo do algoritmo e o do cotidiano ainda há uma boa distância, e o relato de Peng e Zhou fala, no fundo, sobre tentar encurtar essa narrativa.

Xi recebe Trump. Na semana passada, Beijing recebeu o presidente Donald Trump para sua primeira visita de Estado à China em nove anos. Como tinha de ser, o encontro com Xi Jinping não decepcionou em termos de drama e simbolismo. As duas maiores economias do mundo concordaram em criar conselhos de comércio e investimento, reduzir tarifas de forma recíproca e estabelecer um mecanismo para gerenciar disputas. Também saíram acordos concretos: a China comprará pelo menos 200 aviões da Boeing , mas esse número pode mais do que triplicar e chegar até 750, mas isso só se determinadas condições forem atendidas. Apesar do tom cordial, os resultados, na prática, foram modestos: nenhum grande avanço, apenas uma estabilização das relações e um esforço para evitar que a rivalidade entre as superpotências saísse do controle.
Para além das relações entre Pequim e Washington, Xi e Trump trataram de temas que preocupam o mundo: a situação de Taiwan, as guerras no Irã e na Ucrânia e o papel e ameaça da Coreia do Norte. Quanto ao Irã, os dois líderes concordaram que o Estreito de Ormuz deve permanecer aberto. Xi também deixou um recado pouco sutil ao perguntar a Trump se EUA e China conseguiriam superar a “Armadilha de Tucídides“, a teoria de que potências em ascensão inevitavelmente entram em conflito com as estabelecidas, e criar um novo paradigma para as grandes potências. Com seu típico “otimismo”, Trump respondeu no Truth Social dizendo que Xi estava falando do declínio americano causado por Biden, não pelo seu governo. E para coroar a visita com aquele toque de entretenimento que só essa dupla proporciona, um vídeo viral mostrou Trump dando uma espiadela no caderno de Xi assim que o líder chinês se afastou (recomendamos ver o nosso vídeo da semana).
Outro momento pitoresco da visita ficou por conta do Secretário de Estado Marco Rubio: sancionado pela China duas vezes quando ainda era senador, Rubio só conseguiu entrar no país porque Beijing simplesmente trocou uma letra do seu nome em mandarim, transformando “卢比奥” em “鲁比奥” (Lubiao), ambas têm a mesma pronúncia, caractere diferente, problema resolvido. Do lado chinês, o embaixador Xie Feng aproveitou o encontro para publicar um artigo em tom solene no People’s Daily, defendendo que “cooperação beneficia os dois lados, enquanto confronto prejudica ambos” e que os EUA deveriam abandonar a mentalidade da Guerra Fria e tratar a China como parceira.
E o assunto azedou com Taiwan. Após uma cúpula de dois dias em Pequim com Xi Jinping, Donald Trump alertou Taiwan a não declarar formalmente sua independência e disse, em entrevista à Fox News, que “não está buscando que alguém vá ser independente” e o que quer mesmo é que “a China se acalme”. A resposta de Taipei veio no sábado pela porta-voz presidencial Karen Kuo, que afirmou ser “evidente por si só” que Taiwan é um país soberano, independente e democrático, mas reforçou o compromisso da ilha em manter o status quo, sem declaração formal e sem unificação, postura já sustentada pelo presidente Lai Ching-te, para quem não há necessidade de declarar o que já se considera fato. No mesmo encontro, Trump disse que decidirá em breve sobre um pacote de venda de armamentos de US$11 bilhões para a ilha, sinal de que, mesmo evitando atrito imediato com Pequim, Washington segue obrigado por lei a fornecer meios de autodefesa a Taipei.
Uma batalha atrás da outra. Poucos dias depois da cúpula entre Xi Jinping e Donald Trump em Pequim, é a vez de Vladimir Putin desembarcar na capital chinesa, visita confirmada por Moscou e Pequim no último sábado, se trata da primeira vez do líder russo ao exterior em 2026. A agenda inclui encontro com Xi para reforçar a “parceria estratégica abrangente” entre os dois países, a possível assinatura de uma declaração conjunta e conversas separadas com o primeiro-ministro sobre cooperação econômica e comercial. A coincidência de calendário, segundo analistas, não foi orquestrada. A visita russa já vinha sendo articulada há meses, mas ganha peso simbólico extra, uma vez que 2026 marca o 30º aniversário da parceria estratégica sino-russa e o 25º do Tratado de Boa Vizinhança, cuja renovação deve entrar em pauta. Entre os temas esperados estão o gasoduto Power of Siberia 2, a guerra na Ucrânia, e a crise no Estreito de Ormuz. O comércio bilateral entre os dois países somou mais de US$228 bilhões em 2025, com Pequim se consolidando como principal comprador de petróleo e gás russos.
Pressão. A famosa RightsCon – a maior conferência de direitos humanos digitais – teve a sua edição de 2026 cancelada. O evento iria acontecer em Lusaka, capital da Zâmbia, entre 5 e 8 de maio. Contudo, a 15ª edição foi cancelada sem muitas explicações duas semanas antes da data para o choque e prejuízo financeiro de muita gente. A nota final de explicação do cancelamento, a organização do evento citou interferência estrangeira. Não demorou muito e questionamentos passaram a surgir sobre isso ter relação com pressão do governo chinês, dado o crescente relacionamento entre a China e a Zâmbia, e o fato da edição de 2025 ter sido realizada em Taipei. Ao que tudo indica, o país asiático exigiu que participantes taiwaneses não comparecessem, e a discussão é elaborada nesta análise no China Digital Times.

Violência contra mulheres chinesas fora da China. Em abril, um tribunal de Munique proferiu uma sentença que chocou a Europa e reacendeu o debate sobre violência sexual e o papel das plataformas digitais. Zhongyi J., um estudante chinês de 28 anos, foi condenado a 11 anos e três meses de prisão por duas tentativas de homicídio e sete estupros agravados contra a sua vizinha, a quem drogou e agrediu sexualmente pelo menos sete vezes entre fevereiro e dezembro de 2024. O réu filmou cada agressão e armazenou os vídeos em um HD externo; em um dos casos, o ataque durou mais de três horas. O caso foi imediatamente comparado ao escândalo Pelicot, que abalou a França em 2024 — e o juiz descreveu os crimes como “atos monstruosos”, declarando que “entramos em território jurídico inexplorado.” Mas o que torna o caso ainda mais perturbador é o contexto coletivo: o julgamento em Munique faz parte de uma investigação mais ampla sobre oito homens que integravam um grupo no Telegram chamado “Autoschule” (Escola de Direção Alemã), no qual coordenavam e compartilhavam imagens dos crimes. O caso levanta questões urgentes sobre a responsabilidade das plataformas de mensagens na proliferação desse tipo de conteúdo — um debate que, infelizmente, ainda está longe de ter uma resposta.

Mo Yan, IA e literatura: o nobel de literatura chinês Mo Yan, disse em evento no Brasil ver na Inteligência Artificial uma esperança para a superação de barreiras linguísticas. Confira como foi a visita dele por aqui.
Taishanese: o Radii China conta por que um “misterioso” idioma falado no filme Sinners está dando o que falar até hoje.
Old school: dois vídeos viralizaram na internet chinesa recentemente exatamente por não usarem inteligência artificial. Esta matéria da Sixth Tone conta como o drama ENEMY e o filme Ji Shi Yi Dao não usaram IA generativa para os efeitos visuais e chamaram atenção pela qualidade da produção.
Veja o vídeo aqui.
A internet quase quebrou com o que teria sido Trump bisbilhotando uma pasta de Xi Jinping. Não foi bem assim, e a CNN conta o que aconteceu.
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CONVOCAÇÃO TEM PRODUÇÃO DE EMPRESA QUE FOI INVESTIGADA POR SUPERFATURAMENTO EM VERBAS DO BRB E DA TERRACAP, NA QUAL O VICE DA CBF FOI DIRETOR

Tapete azul, plantas tropicais, convidados e imprensa à esquerda, vips à direita, painéis cenográficos “instagramáveis”. No fim do corredor em forma de um “L invertido”, com a Baía de Guanabara ao fundo e rodeado por palmeiras imperiais, está o local para onde todos os olhares irão convergir na tarde de hoje: o palco em que Carlo Ancelotti fará a revelação dos seus 26 escolhidos para representar o Brasil na Copa do Mundo. A parte não visível desse cenário é a teia de conexões por trás do evento que a CBF promove no Museu do Amanhã, centro do Rio, para a convocação da seleção.
No coração desta teia está a empresa contratada pela CBF como responsável pela produção da cerimônia: a R2B Produções de Eventos, domiciliada em Brasília.
De acordo com uma investigação da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) que culminou com a “Operação Praia de Goia” em 18 de setembro de 2018, a R2B foi beneficiária de milhões ao longo dos anos em patrocínios e incentivos fiscais do governo do Distrito Federal e do Banco Regional de Brasília (BRB). Já a Terracap (Agência de Desenvolvimento do Distrito Federal) teria outra função no esquema, segundo a PCDF: a cessão subfaturada de espaços públicos para eventos.
Gustavo Dias Henrique, vice-presidente da CBF e considerado nos bastidores como o nome mais poderoso da instituição na atual gestão, ocupou diversos cargos de comando na Terracap entre 2015 e 2019. Em 2019, assumiu o comando da Biotic, uma subsidiária da Terracap. O brasiliense nega qualquer relação com a R2B na ocasião.
Apenas entre 2023 e 2025, durante a gestão de Paulo Henrique Costa, que está preso por transações financeiras ilícita, o BRB aportou R$ 3.600.000,00 (três milhões e seiscentos mil reais) para a R2B em 4 pagamentos (ver quadro ao fim da reportagem).

Além da R2B na produção, a CBF escolheu para cuidar da decoração do Museu do Amanhã o Studio Traços de Arquitetura. A R2B e o Studio Traços tem laços entre eles: uma das sócias do estúdio, Ana Falconi, é casada com Lucas Sarmento Mendes, que se apresenta nas redes sociais como sócio da R2B e tem participação societária na Colabr2 Participações junto com outros acionistas da R2B.

Não é só a convocação que terá produção da R2B e do Studio Traços. As duas firmas brasilienses monopolizaram os grandes eventos mais recentes da CBF, como o Summit CBF Academy e o camarote da entidade na Marques de Sapucaí no carnaval deste ano.
A operação de 2018 realizada pela Cecor (Coordenação de Combate ao Crime Organizado) da PCDF, apontou indícios de crimes financeiros, lavagem de dinheiro crimes contra a administração pública e organização criminosa. A suspeita era de que a empresa teria utilizado de forma irregular a Lei de Incentivo à Cultura e os milhões em patrocínios. A operação gerou um processo, que em 2023 foi arquivado na justiça do DF.
POLÍCIA CIVIL DO DF APONTOU PAPÉIS COMPLEMENTARES ENTRE TERRACAP, BRB E GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL NA ORGANIZAÇÃO
De acordo com o que foi apurado então pela Polícia Civil, os braços da estrutura tinham funções bem definidas: o governo do DF era o epicentro da engrenagem. O BRB era o principal ator financeiro, entrando com os maiores valores destinados para a R2B. A função da Terracap era primordial: embora tenha chegado a conceder patrocínio em dinheiro, tinha como papel principal ser a responsável por viabilizar os eventos ao ceder os terrenos públicos com aluguéis subfaturados. O que a PCDF chamou de “patrocinador indireto”.
Em uma das escutas policiais que resultaram na operação, a relação próxima entre a R2B e a Terracap é destacada.
A quebra de sigilo telefônico indicou, segundo a investigação, entre outras coisas, até movimentações dos sócios da R2B junto ao governo do DF, relacionadas à tentativa de evitar que a Terracap cedesse a Torre Digital para evento de empresa concorrente, sob o argumento de que o espaço vinha sendo utilizado pela R2B no evento denominado ‘Surreal”.
De acordo com as gravações, os sócios da R2B se preocuparam em suas ações em não causar constrangimento para a Terracap. “Sartório diz para o Rafa ver a melhor forma de falar para não exporem a Terracap. Rafa diz que falará direto com ele, que pretendem fazer a Federal Music na Torre Digital”… e isso é péssimo”.
Sartório e Rafa em questão são Rafael Damas e Bruno Sartório, sócios da R2B.
Gustavo Dias Henrique, que entrou na CBF ainda com Ednaldo Rodrigues na presidência, foi uma das indicações do ministro do STF Gilmar Mendes na atual diretoria da CBF. O brasiliense é doutorando em administração pública pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), comandado pelo filho do magistrado, Francisco Schertel Mendes, que tem contrato para ministrar os cursos da CBF Academy/IDP.
Questionado pela reportagem sobre a relação com a R2B, Gustavo Dias Henrique afirmou através da assessoria de imprensa da CBF que “no âmbito da Terracap, atuou como Diretor de Habitação e Regularização Fundiária de Interesse Social e nesta condição não atuou na contratação ou parceria com a R2B, na medida em que contratos desta natureza não eram atribuição de sua competência”.
De acordo com um currículo disponibilizado por ele mesmo e publicado ao ser homenageado pela Assembleia Legislativa de Alagoas em 2024, o vice-presidente da CBF passou por diferentes diretorias na Terracap entre 2015 e 2019:
“Diretor de Habitação e Regularização Fundiária Social e Rural, Diretor Extraordinário de Habitação e Regularização Fundiária Interesse Social, Diretor Extraordinário de Regularização de Imóveis Rurais, Diretor de Comercialização e Novos Negócios (em substituição), Diretor de Administração e Finanças (em substituição) e Presidente (em substituição)”. Em seguida, assumiu como diretor presidente da Biotic, onde ficou até 2024. (veja íntegra da resposta da CBF ao fim, em “outro lado”).
A Terracap, origem de Gustavo Dias Henrique antes da CBF e que tem como missão assegurar a gestão das terras públicas do DF, é a concedente do Estádio Mané Garrincha, que, até o mês passado, levava o nome de Arena BRB. Após o escândalo do Banco Master o contrato de naming rights foi encerrado, voltando ao nome original. O escritório da R2B fica no Estádio Mané Garrincha. Também estão sob gestão da Terracap espaços candangos como o conjunto Aquático Cláudio Coutinho e Quadras Poliesportivas, além da Área da Concha Acústica, Orla do Lago Paranoá, Parque Tecnológico BIOTIC, Torre de TV e entorno do Eixo Monumental, palcos de eventos da empresa.
Um relatório de inteligência financeira (RIF)sobre a atuação da R2B emitido pelo COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), órgão ligado ao Banco Central e responsável por prevenir e combater a lavagem de dinheiro, constatou a “existência de saques de vultosas quantias em dinheiro, o que, segundo a autoridade policial, apontaria a existência de indícios da prática do crime de lavagem de dinheiro, em razão de causar estranheza o volume de dinheiro em espécie movimentado, mesmo porque quase tudo no evento é feito por meio de transações com cartão de crédito”.
O inquérito de 2018 cita que grande parte dos gastos custeados com os recursos da lei de incentivo teria tido foi apresentando na prestação de contas como compra de equipamentos, e que teria havido sobrepreço, como, segundo a peça, a aquisição de um gerador com valor superfaturado em 59%.
Os relatórios da Coordenação Especial de Combate à Corrupção (CECOR), da Polícia Civil do DF, e o RIF do COAF detalham o favorecimento do governo do DF via incentivos fiscais e Terracap, BRB e Banco do Brasil para a R2B, de acordo com o inquérito:
“… a existência de indícios de que o grupo de empresas R2 Produções, do qual era diretor financeiro Gilberto Soares da Silva Júnior, entre elas, a R2B Produções e Eventos Ltda- da qual são sócios Bruno Sartório Silva, Ricardo Abreu Emediato, Rafael de Araújo Damas e Eduardo José de Azambuja Alves, teria sido favorecido irregularmente pelo Governo do Distrito Federal, mediante benefícios e incentivos fiscais disponibilizados pela Secretaria de Estado de Cultura do DF, e por patrocínios da Terracap, BRB e Banco do Brasil, para realizar os eventos denominados “Na Praia”, “Na Praia Social” e “Na Praia Cultural”, ocorridos entre os anos de 2015 e 2017. Os relatórios ns. 13 e 25 do CECOR detalham a participação de cada sócio no grupo empresarial e nos eventos produzidos pelo grupo entre os anos de 2015 e 2017. E apontaram a contratação de parceiros comerciais por valores exorbitantes, bem como a existência de indícios de favorecimento do grupo R2 pelo Governo do DF, pelo Banco do Brasil, pelo BRB e pela Terracap. E o relatório de inteligência financeira, elaborado pelo COAF, registra grande movimentação financeira dos envolvidos, em curto período, a evidenciar a existência de indícios de irregularidades que podem caracterizar, em tese, crimes”.
A investigação cita ainda suspeitas de que a R2B, responsável pelos eventos Na Praia, Na Praia Social e Na Praia Cultural, “estaria recebendo tratamento diferenciado do governo, uma vez que teria recebido nos anos de 2015, 2016 e 2017, não só benefícios e incentivos fiscais concedidos pela Secretaria de Cultura, como também patrocínios da Terracap, do BRB e do Banco do Brasil, todos concedidos sem a realização de licitação, por meio de contratação direta”.
A operação da Polícia Civil também mirou o ex-administrador do Plano Piloto, Igor Tokarski. Em uma das escutas, Rafael Damas, sócio da R2B, citou que o gestor “teria me ajudado muito” e que, por isso, teria feito doação para a campanha parlamentar de Tokarski em 2018 no valor de R$ 30 mil. A doação consta na página do TSE.
EMPRESA TEM ESTRUTURA SOCIETÁRIA COMPLEXA
Em 2015, a Terracap destinou R$ 100 mil (corrigidos para valores atuais pelo IGPM, seriam R$ 207.984,98) para a R2B para a realização do “Na Praia Social”.

A PCDF também apontou outros episódios que, segundo os investigadores, poderiam indicar tratamento privilegiado. De acordo com a investigação da PCDF, a R2B estava sendo favorecida pelo Governo do Distrito Federal também em relação a outros eventos culturais:
“…a exemplo do carnaval, tudo conforme anteriormente exposto, em que, pelo menos no ano de 2018, tradicionais blocos carnavalescos do DF não lograram obter apoio junto à Secretaria de Cultura, chegando, inclusive, a não sair às ruas, enquanto evento de natureza privada, o denominado Carnaval no Parque, produzido pelos representados R2B Produções e Eventos Ltda… teria sido privilegiado pela Secretaria de Cultura, inclusive, mediante cessão de espaços públicos para utilização de coletiva de imprensa do referido projeto cultural. Além disso, diante dos prefalados indícios de ocorrência de crimes de lavagem de dinheiro e de corrupção ativa e passiva, foi solicitado ao COAF relatório das pessoas físicas e jurídicas envolvidas nas investigações, o qual trouxe a lume diversas transações financeiras com indícios de irregularidade, merecendo destaque, a título de exemplo, a movimentação, pela empresa R2B Produções de Eventos, entre os meses de julho e agosto de 2015, meses em que ocorreu o evento Na Praia, do importe de R$ 902.030,00 em espécie, isto é, em transações de saque e depósito, o que é típico de atividades relacionadas aos crimes de lavagem de dinheiro”.
Em novembro de 2014, a secretaria de cultura do DF autorizou a R2B a captar R$ 1.029.867,11 (um milhão, vinte e nove mil, oitocentos e sessenta e sete reais e onze centavos) para o “Festival Vila Brasil”.
No ano seguinte, o BRB entrou com uma cota de R$ 240.000,00 para a R2B pelo evento “Na Praia”.
Atualmente, a R2B oferece o trecho da orla do Lago Paranoá conhecido como “Prainha” para aluguel de eventos no trecho chamado de “Setor de Clubes Sul”. No site da empresa, a R2B promete o aluguel do espaço da orla e serviço completo: “Sim, vamos além da locação! Além de oferecer os espaços, produzimos todo o seu evento com a excelência e a experiência consolidada da R2, garantindo um evento completo e de alto padrão”. A gestão da orla é da Terracap.
A R2B é parte de uma estrutura societária complexa e sofisticada, em várias camadas, onde a controladora é a R22 Holding e a participação cruzada de pessoas físicas, holdings patrimoniais, empresas de participações, consultorias e investidores individuais.
QUADRO:
VERBA CONCEDIDA PELO BRB PARA A R2B ENTRE 2023 E 2025:
1-
172/2025:
PATROCÍNIO À EVENTO ESPORTIVO
Vigência: 11 de março de 2025 Limite da vigência 30 de março de 2025
Valor do contrato: R$ 1.200.000,00 (valor consumido)
2-
048/2024:
Objeto: PATROCÍNIO CARNAVOOU.
Vigência: 27 de fevereiro de 2024 Limite da vigência 31 de março de 2024
Valor do contrato R$ 600.000,00 (Valor consumido)
3-
024/2024
Objeto: PATROCINIO DO PROJETO CARNAVAL DO MANE 2024
Vigência: 4 de março de 2024 Limite da vigência 31 de março de 2024
Valor do contrato R$ 1.000.000,00
4-
383/2023
Objeto: PATROCÍNIO DO EVENTO FINAL DE ANO NO MANÉ.
Vigência: 8 de janeiro de 2024 Limite da vigência 31 de janeiro de 2024
Valor do contrato: R$ 800.000,00
TOTAL:
R$ 3.600.000, 00 (três milhões e seiscentos mil reais)
OUTRO LADO:
CBF:
“Em atenção às questões encaminhadas, a CBF informa que suas contratações seguem diretrizes internas de governança e observam a legislação aplicável às entidades privadas integrantes do Sistema Esportivo Nacional.
Em todos os casos, a seleção de fornecedores é feita com base em critérios técnicos, capacidade operacional, experiência compatível e adequação às necessidades específicas de cada projeto.
A escolha dos fornecedores para o evento de convocação da Seleção Brasileira no Museu do Amanhã observou exatamente essas condições, ainda mais necessárias diante da complexidade do evento.
Por razões de confidencialidade comercial, a CBF não divulga detalhes de suas relações contratuais com fornecedores.
Em relação ao vice-presidente Gustavo Dias Henrique, o mesmo esclarece que, no âmbito da Terracap, atuou como Diretor de Habitação e Regularização Fundiária de Interesse Social e nesta condição não atuou na contratação ou parceria com a R2B, na medida em que contratos desta natureza não eram atribuição de sua competência.
Por fim, a CBF não comenta ilações sobre processos já arquivados pelas autoridades. Como o próprio questionamento admite, não há qualquer investigação ou impedimento vigente envolvendo a empresa contratada no âmbito da operação citada”.
R2B PRODUÇÕES DE EVENTOS:
A reportagem enviou pedido de resposta para a R2B, mas não obteve êxito.
STUDIO TRAÇOS
A reportagem enviou pedido de resposta para o Studio Traços Arquitetura, mas não obteve êxito.
TERRACAP
A reportagem enviou pedido de resposta para a Terracap, mas não obteve êxito.
BRB
A reportagem enviou pedido de resposta para o BRB, mas não obteve êxito.

Filme português aposta no presente, tempo dos mal-entendidos
Edição 392 – Planejamento do encontro entre Xi e Trump está a todo vapor

Sem culpar a IA. O Tribunal Popular Intermediário de Hangzhou decidiu no fim de abril que empresas chinesas não podem demitir funcionários sob a justificativa de que foram substituídos por inteligência artificial. No caso analisado, Zhou, profissional de controle de qualidade em uma tech do leste do país, encarregado de checar as respostas de modelos de linguagem, foi rebaixado com corte salarial de 40% quando sua função foi automatizada, e demitido ao recusar a proposta. Para a corte, “progresso tecnológico” não é base legal para a rescisão unilateral, e a decisão reforça um precedente aberto em dezembro por outro tribunal contra uma empresa de mapeamento.
O recado, divulgado pela Fortune, vem alinhado com a prioridade do Partido Comunista de manter a estabilidade do mercado de trabalho em meio à desaceleração econômica e ao desemprego juvenil elevado, mesmo enquanto Pequim pressiona o setor tecnológico a liderar a corrida global da IA. Na prática, a régua é outra. Esta reportagem da Rest of World mostra que o Alibaba cortou 34% do quadro em 2025, o Baidu reduziu cerca de 7% e a BYD enxugou perto de 10%, números que aparecem nos relatórios anuais, mas que as empresas raramente anunciam publicamente, preferindo atribuir os cortes a pressão econômica e ao ajuste após o boom da internet, justamente para não bater de frente com o discurso oficial. Analistas argumentam que o resultado é uma demissão silenciosa, em ritmo acelerado. Ou seja, vai cortar, sim, mas sem dizer que foi a IA que mandou.
Sem notícias. Mais um ano, mais um ranking de liberdade de imprensa da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Na lista de 2026, Hong Kong continua a ocupar a posição 140 entre 180 países avaliados – em 2019, antes da Lei de Segurança Nacional, a região administrativa especial ocupava o 73º lugar. A RSF destacou como ponto baixo no último ano a condenação do ex-dono do extinto Apple Daily, Jimmy Lai, que recebeu, no final de abril, o Prêmio de liberdade de expressão da alemã Deutsche Welle. O veículo local Hong Kong Free Press mantém um levantamento das ocorrências que explicam a deterioração da prática jornalística na região. A China continental aparece em 178º lugar no ranking.

Agora vai. Depois de rumores e expectativas, nesta semana, os presidentes Donald Trump e Xi Jinping se sentam para conversar – mais especificamente no dia 13 de maio. Este é o segundo encontro entre eles desde que o republicano voltou à Casa Branca. Em outubro passado, os dois chefes de Estado se reuniram na Coreia do Sul, mas num cenário muito diferente do atual. Esta é a primeira vez que o líder estadunidense vai à China desde que venceu o segundo mandato como presidente. O novo encontro entre Xi e Trump acontece num mundo marcado pela guerra do Irã, iniciada pelos Estados Unidos e Israel e que, para além da destruição e das mortes, provoca uma crise energética global. Reportagens do mundo todo colocam a pauta energética como ponto central: cerca de 13% das importações de petróleo da China vêm do Irã. Além disso, pautas clássicas nas relações entre as duas maiores economias globais devem estar à mesa: tarifas e comércio, Taiwan e acesso a minerais críticos, além de Inteligência Artificial. Trump será acompanhado por uma delegação de empresários que possivelmente inclui representantes da Meta, Boeing, Visa e o próprio Elon Musk, conta Bill Bishop. No meio de tudo isso, também se fala sobre a China exercendo algum nível de mediação no cessar-fogo para a guerra no Oriente Médio, negociação na qual já teria tido um papel em abril.

O jornalismo não pode, mas a literatura tenta responder aos tempos em Hong Kong – seja localmente ou em exílio. A edição de março-abril da revista digital de literatura traduzida para o inglês Words Without Borders foi dedicada às narrativas honconguense pós-2019. As estórias, selecionadas por duas autorias locais identificadas apenas por suas iniciais, transitam entre os grandes acontecimentos políticos da cidade na última década e seus desdobramentos nas vidas íntimas dos personagens. Esses também são os grandes temas das obras de ficção e não-ficção analisadas em um artigo de Louisa Lim na edição de maio da The New York Review; Lim caracteriza a produção deste período como “literatura do trauma”, e a conecta com obras influenciadas pela Revolução Cultural chinesa dos anos 60/70; no entanto, destaca uma diferença importante entre os dois momentos: ao contrário das obras chinesas daquele período, a literatura contemporânea de Hong Kong não contempla um futuro otimista para seus protagonistas.
Uma discussão sincera sobre queerness na China. Como é ser gay no país? Neste recente episódio do podcast de Gateway to Global China, com o professor Hongwei Bao (autor do livro Queer Comrades) e o pesquisador Darius Longarino, ambos especialistas num tema que ainda é tabu na China. A partir de uma discussão de história e cultura, como o poeta Qu Yuan, a conversa questiona o argumento de que identidades LGBSQIAP+ são uma “importação” do Ocidente, perpassa questões de legislação, saúde mental e as chamadas “terapias de conversão” e do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Especial: a revista Valor Econômico publicou em final de abril um especial sobre a China e o Brasil com várias matérias e entrevistas com especialistas.
Pequim: falando em especial, o Jornal Nacional lançou uma série sobre cidades chinesas. A que fala de Pequim também conta um pouco da história política do país – como a estreia de Felipe Santana e Lucas Louis, os dois correspondentes novos da Globo no país. A série também visitou Shanghai, Hangzhou e Cantão.
Cerâmica: uma entrevista com a ex-desenvolvedora e hoje ceramista Chang Liu e o seu trabalho.
Chilli pop: além da icônica marca de óleo apimentado Laogan Ma, Ghizou, segundo reportagem do SCMP, é onde toda a cultura dessa iguaria chinesa começou.
No ano passado, o The Guardian fez um mini documentário sobre duas mulheres chinesas com mais de 30 anos lidando com o desafio de congelar óvulos no exterior, já que a prática é proibida na China.
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Edição 391 – Novo modelo da DeepSeek esquenta a disputa pela liderança em IA

A DeepSeek acaba de lançar um novo modelo de inteligência artificial, o DeepSeek-V4; ele conta com duas versões e, como de costume, seu grande destaque para os usuários finais é a relação custo-benefício, com um desempenho equivalente ao das soluções de ponta estadunidenses, mas por uma fração do valor cobrado por elas. Mas a importância dessa novidade é também geopolítica: o modelo é otimizado para chips da Huawei – o que deve diminuir a dependência chinesa de chips dos EUA e consolidar o posicionamento do país na disputa pela liderança do setor. Como explica este artigo do MIT Technology Review, com esse lançamento, a IA chinesa ainda não se livrou totalmente da Nvidia, mas o caminho está traçado – e o CEO da fabricante de chips já deixou claro que isso seria “um desfecho horrível” para os Estados Unidos. Como já contamos por aqui, em 2024 a China era responsável por 13% das vendas da empresa.
A conta chegou para parceiros da Evergrande. A PricewaterhouseCoopers (PwC) fechou um acordo para encerrar as investigações sobre sua atuação como auditora da Evergrande em Hong Kong. A negociação foi encerrada com a bagatela de HK$1,3 bilhão, cerca de R$800 milhões, divididos entre uma multa de HK$ 300 milhões aplicada pelo regulador de contabilidade de Hong Kong e HK$ 1 bilhão destinado a um fundo de compensação para acionistas. A firma ainda deve cumprir uma suspensão de seis meses, ficando impedida de aceitar novos clientes de auditoria listados na bolsa. O acordo encerra o caso “de forma plena e definitiva”, sem admissão de culpa por parte da PwC – mas a lista de problemas da firma na China é longa: em 2024, Pequim já havia multado a PwC em ¥ 441 (R$ 312) milhões e aplicado outra suspensão de seis meses no continente, após concluir que a empresa havia “fechado os olhos” para a fraude da Evergrande, que inflou receitas em mais de ¥ 560 bilhões. O escândalo derrubou clientes, sócios e a reputação da firma na região, e ainda não terminou: há uma ação movida pelos liquidantes da Evergrande contra a PwC, cuja primeira audiência está marcada para maio.

Balanço semanal. A coletiva de imprensa semanal do Ministério das Relações Exteriores da China virou um bom termômetro do momento diplomático do país, e a de 21 de abril não foi diferente. Em poucos minutos, o porta-voz Guo Jiakun teve que comentar sobre quase todos os pontos quentes do momento, de conflito no Oriente Médio até Japão, Hong Kong e a agenda regional da China no Sudeste Asiático. Sobre o Oriente Médio, Guo reafirmou a proposta de quatro pontos de Xi Jinping para a região: coexistência pacífica, soberania, direito internacional e equilíbrio entre desenvolvimento e segurança; ele pediu que todas as partes aproveitassem a janela de cessar-fogo antes que ela se feche. Sobre o Japão, o tom foi bem mais duro, criticando tanto a flexibilização das regras de exportação de armas japonesas quanto o envio de uma oferenda ao Santuário Yasukuni pela primeira-ministra Takaichi, ambos os gestos interpretados como sinais de “neomilitarismo”. No meio disso tudo, Guo ainda anunciou a visita do chanceler Wang Yi ao Camboja, Tailândia e Mianmar, onde será inaugurado um inédito mecanismo de diálogo “2+2” com o Camboja, que estabelece um mecanismo de diálogo estratégico entre os ministros das Relações Exteriores e da Defesa dos dois países, e rebateu um relatório do Departamento de Estado americano sobre Hong Kong. Uma semana movimentada para a diplomacia chinesa.
Sem passagem. O líder taiwanês Lai Ching-te tinha uma viagem marcada para Eswatini, o único país africano que reconhece oficialmente Taiwan, para participar das comemorações do dia nacional do país. Porém, segundo o gabinete de Lai, Seychelles, Maurício e Madagascar revogaram a autorização de voo sob pressão de Pequim, inviabilizando a rota e forçando o cancelamento da visita. Lai denunciou publicamente o episódio, chamando as ações chinesas de “coercitivas” e afirmando que nenhuma pressão vai abalar a determinação de Taiwan de se relacionar com o mundo. O Comitê sobre China da Câmara dos Representantes dos EUA foi na mesma direção, condenando a manobra com uma frase direta: “Isso não é diplomacia, é pressão econômica para isolar um parceiro democrático.” Do lado chinês, o Ministério das Relações Exteriores não admitiu a pressão sobre os países africanos, mas deixou o recado: todos os países do continente, exceto Eswatini, reconhecem o princípio de uma só China, e assim deve continuar. O episódio ilustra bem como a batalha diplomática em torno de Taiwan acontece cada vez mais longe do Estreito, em salas de reunião de Nairobi, Antananarivo e Vitória.
Juntos. O Brasil foi o país convidado de honra do China Space Day 2026, realizado em Chengdu no último dia 24, e a participação serviu para reforçar a parceria de desenvolvimento conjunto de satélites de observação da Terra, que já dura 38 anos, o programa CBERS. A delegação do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação apresentou iniciativas que vão além dos satélites já em operação, entre elas, um laboratório sino-brasileiro de clima espacial, experimentos com radiotelescópios e a articulação para uma constelação de satélites no âmbito do Brics. Também foram discutidos os próximos passos dos programas CBERS-5 e CBERS-6; este último será o primeiro satélite geoestacionário da cooperação. Para o Brasil, o interesse é de maior autonomia tecnológica no monitoramento de biomas como a Amazônia, com menos dependência de dados externos. Lula enviou uma carta a Xi Jinping para a abertura do evento, um gesto protocolar, mas que sinaliza que a cooperação espacial entre os dois países segue como prioridade na agenda bilateral, mesmo em um cenário internacional de tensões.

A Literatura sempre se adapta ao seu tempo, e o Prêmio Nobel Mo Yan não fica para trás. Neste mês, ele lançou seu novo livro, Ren Na (Oh, Humanidade, em tradução livre para o português), inspirado em sua própria experiência de vício em vídeos curtos. Segundo o autor, a ideia é tentar prender a atenção dos leitores da mesma forma, por meio 81 textos breves, que contém “mais de 70 anos de insights e reflexões sobre a vida e a natureza humana”, cada um demandando não mais que 10 minutos de dedicação. Este é o seu primeiro lançamento em seis anos.

Seja água: Este artigo do pesquisador Joseph Clarke investiga os motivos pelos quais Bruce Lee ainda é referência meio século após sua morte. TL;DR: ele redefiniu a linguagem do movimento no cinema e representa uma imagem de autoconfiança e espírito desafiador para novas gerações.
Feminismo: As pesquisadoras Angela Xiao Wu e Yige Dong destrincham os diferentes feminismos que circulam na sociedade chinesa em meio à repressão política e o reacionarismo masculino.
É o caos: O empresário Dee Zheng relatou sua experiência como investidor no mercado de tecnologia limpa na China. Ele descarta a visão do “estado engenheiro chinês” como fator determinante e aponta que o sucesso nacional no setor veio do caos.
O que é que Chongqing tem de especial que tornou a cidade uma febre nas redes sociais? O South China Post foi investigar.
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Edição 390 – A transição verde no centro da estratégia de desenvolvimento chinês

Verde é meta, não discurso. Durante um seminário no banco Asiático de Desenvolvimento, em Manila, o vice-ministro das Finanças da China Liao Min reforçou o que já aparece no 15º Plano Quinquenal: a transição verde não é apenas um acessório, mas o centro da estratégia de desenvolvimento do país. Segundo ele, dos oito indicadores vinculantes do plano, ou seja, aqueles que os governos subnacionais são obrigados a cumprir, cinco estão ligados ao desenvolvimento de baixo carbono. Liao aproveitou o espaço para fazer também um balanço econômico com números indicando que o PIB chinês superou 140 trilhões de yuans no ano passado, com a China respondendo por cerca de 30% do crescimento econômico global. O consumo doméstico também foi ressaltado, aparecendo como novo motor desse crescimento, e o país mira dobrar sua classe média de 400 para 800 milhões de pessoas na próxima década.
A Evergrande, lembra dela? A gigante da construção civil chinesa entrou em processo de liquidação em 2023, depois de ser incapaz de quitar uma dívida de 23 bilhões de dólares – apenas uma fração de um total de 300 bilhões. Nesta terça-feira (14), o fundador da empresa, Hui Ka Yan, admitiu culpa por oito crimes relacionados a fraudes financeiras da empresa. A corte de Shenzhen ainda não anunciou sua pena. Hui foi por muitos anos um exemplo de sucesso, tendo se tornado bilionário por meio do trabalho, após uma infância no campo; a Evergrande, no entanto, começou a se complicar em 2020, quando mudanças na legislação do setor foram criadas para limitar o endividamento das incorporadoras; com a prática de usar os fundos investidos por compradores de imóveis para iniciar outra obras, a Evergrande deixou dezenas de prédios inacabados pelo país. Segundo apuração do South China Morning Post em julho de 2025, uma campanha governamental que se propôs a finalizar essas moradias havia entregue, desde 2022, em torno de 6,5 milhões de unidades para seus compradores.

Clima tenso no mar (do Sul da China). As tensões no Mar do Sul da China ganharam um capítulo inusitado. As Filipinas acusaram pescadores chineses de despejar cianeto nas águas ao redor de uma região de recifes disputada no Arquipélago Spratly, onde Manila mantém um posto avançado. Testes laboratoriais confirmaram a presença da substância tóxica em garrafas apreendidas pela Marinha filipina entre fevereiro de 2025 e março de 2026, escondida em embalagens de detergente de marcas populares chinesas. Para as autoridades filipinas, o cianeto teria sido usado de forma deliberada para matar a população de peixes local e cortar uma fonte de alimentação dos militares estacionados no navio. Pequim negou, com o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chamando as acusações de “totalmente inverossímeis e sem credibilidade”. O episódio acontece em um momento delicado, uma vez que no fim de março, China e Filipinas realizaram conversas de alto nível sobre o Mar do Sul pela primeira vez desde o início de 2025, o que mostra que, por mais que a diplomacia tente avançar, o conflito na região segue em outra frequência.
Clima tenso nas montanhas. Saindo do mar para a terra, pela sexta vez desde 2017, Pequim publicou uma lista com nomes “padronizados” para localidades na região em disputa de Arunachal Pradesh, que a China reivindica como “Zangnan”, ou Tibete do Sul. A lista mais recente, divulgada em 10 de abril, traz 23 entradas, entre montanhas, rios, aldeias e passagens, cada uma com um nome em caracteres chineses, escrita tibetana e pinyin, além de coordenadas GPS. No total, já são 112 localidades renomeadas por Pequim desde a primeira lista. Pesquisadores chamam a estratégia de “agressão cartográfica” – a normalização incremental de reivindicações territoriais por meio de mapas e listas administrativas, sem um único tiro. A Índia rejeitou a iniciativa como uma “tentativa maldosa” de criar narrativas falsas, lembrando que Arunachal Pradesh “sempre foi, é e sempre será parte integrante e inalienável da Índia”. O timing também chama atenção: a lista foi divulgada durante um período de engajamento diplomático ativo entre os dois países, o que sugere que Pequim a usa menos como rotina administrativa e mais como sinal calibrado de que não abre mão de suas pretensões territoriais, mesmo enquanto sorri para a câmera.
Efeito Beijing-Brasília. Brasil e China juntos respondem por 25% do risco de desmatamento associado ao comércio internacional de commodities agrícolas. O dado é de um novo relatório da Trase, organização especializada em rastreabilidade de cadeias produtivas, que cunhou o conceito de “Efeito Beijing-Brasília” para descrever o potencial que a dupla tem de puxar uma agenda global de sustentabilidade. A relação bilateral entre os dois países movimenta quase US$47 bilhões por ano em produtos agrícolas, com soja e carne bovina dominando o fluxo; com todo esse peso, qualquer compromisso conjunto tem impacto global. O relatório propõe cinco frentes de ação entre os países: troca de conhecimento e inovação, financiamento verde, padrões conjuntos para cadeias livres de desmatamento, combate à ilegalidade e fortalecimento da cooperação Sul-Sul. Para discutir tudo isso, a Trase realizou na última semana um webinar com representantes de governos, academia e setor privado dos dois países, incluindo nomes do Banco Mundial, da Academia Chinesa de Ciências e do Ministério brasileiro.

Revolução ou hype? Já contamos por aqui como o desenvolvimento acelerado da robótica movida a inteligência artificial na China também vem sendo acompanhado de alertas sobre uma possível bolha. Nesta longa matéria do The Guardian, a jornalista Chang Che explora o tema e como a empolgação doméstica na China sobre IA parte muito da sua combinação com a robótica, especialmente o seu uso em fábricas. Além da geopolítica, dos números impressionantes de investimento (cerca de 922 bilhões de yuans em tecnologias como quântica e robótica) e do custo reduzido dos robôs chineses, a discussão perpassa muito o mercado de trabalho. Afinal, fábricas hoje em dia empregam milhares de pessoas na China – e no mundo. Ao mesmo tempo, os jovens cada vez mais se distanciam desse tipo de trabalho braçal. Ironicamente, diversos jovens acabam indo trabalhar como “treinadores” de movimentos para esses robôs.

Corre pra casa: Com o mercado imobiliário ainda em crise, cidades chinesas precisam diversificar suas estratégias de vendas. Algumas delas, como conta a Sixth Tone, passaram a oferecer descontos para maratonistas.
Explicadinho: Depois de ler sobre Evergrande e subsídios para moradias, vale conferir este texto de Chien Ling, que explica para brasileiros toda a complexidade das limitações e opções, na sociedade chinesa, entre onde você mora e onde você nasceu.
Pra inglês ver: Este texto reflete sobre uma “europeização” do mandarim moderno, na construção de sintaxes e afins. O argumento é que esse processo vem ocorrendo desde o século XIX, em duas ondas principais que tiraram a fluidez do hanzi.
O SCMP explica como a crise no Oriente Médio afeta a aviação na Ásia – spoiler: os países asiáticos precisam importar petróleo da região para produzir o combustível usado em suas aeronaves.
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O que falta para entender a diferença entre antissemitismo e antissionismo?
Edição 389 – Após encontro com líder da oposição, Xi fala em retomar laços com Taiwan

Talita+Gui (taiwan) > Diálogo quase promissor. Depois de receber a líder do principal partido de oposição de Taiwan, o presidente chinês Xi Jinping afirmou que Pequim retomará “alguns laços” com a ilha. Como exemplos, o governo citou voos diretos interestreito e comércio de produtos de aquicultura taiwaneses. De acordo com relatos publicados pela imprensa local e internacional, durante um encontro na última sexta (10), Xi e Cheng Li-wun, líder do Kuomingtang, pediram paz entre Taipei e Pequim, mas não deram detalhes sobre como isso se daria. Ainda que haja simbolismo nas declarações e no gesto dos dois líderes, um sinal de cautela aparece quando o órgão taiwanês responsável pelas relações com a China continental afirmou que se trata apenas de transações políticas entre dois partidos. Taiwan é hoje governada pelo Partido Democrático Progressista, opositor ao Kuomintang e que tradicionalmente defende a independência entre Taipei e Pequim. Outro sinal de que uma verdadeira paz interestreito está longe da realidade foi a afirmação de Xi de que Pequim nunca vai tolerar a independência de Taiwan.
Caça High Tech. O Ministério de Segurança Pública da China anunciou um plano para combater crimes contra a vida selvagem. O foco, de acordo com o China Daily, é combater a caça ilegal com uso de armas e drones, envenenamento de pássaros e esquemas digitais de comercialização de espécies protegidas. Esse é um esforço que já vinha ganhando escala, onde, só entre agosto e dezembro de 2025, foram mais de 9.700 casos criminais registrados, incluindo milhares ligados principalmente a aves. Mais do que uma agenda ambiental, o tema vem sendo tratado como uma questão de governança e segurança ecológica. O uso de big data, operações coordenadas entre províncias e o foco em cadeias completas de crime são anunciados pelo governo como uma forma de estruturar respostas mais sistêmicas ao problema. Isso inclui tanto a repressão direta quanto o monitoramento de mercados online e de rotas de circulação, áreas nas quais o comércio ilegal de fauna vem se expandindo nos últimos anos. Nesse sentido, o combate à caça ilegal passa a refletir também a adaptação das ferramentas estatais a dinâmicas mais complexas de crimes digitais.

Muito além da disputa comercial, as relações entre EUA e China ganharam um novo tópico. Pequim pediu que as autoridades estadunidenses apurem a morte de um pesquisador chinês nos Estados Unidos. Danhao Wang, que pesquisava semicondutores na Universidade de Michigan, morreu logo depois de ter uma conversa com agentes federais. De acordo com os relatos, a conversa teria sido um questionamento hostil. O caso permanece com muitas lacunas sobre a causa da morte e a conversa com as autoridades. Até o momento, a imprensa afirma que Wang teria caído de um dos prédios da instituição. A universidade, por sua vez, fala na investigação de um possível caso de suicídio. As autoridades chinesas, por sua vez, pediram que seus nacionais na condição de estudantes nos EUA, elevem preocupações com segurança.
Ainda sobre as relações, a decisão de Trump de bloquear o Estreito de Ormuz pode afetar o possível encontro entre Xi Jinping e o republicano. Pequim disse publicamente que é de interesse mundial que o Estreito permaneça aberto. A China é uma das compradoras do petróleo Iraniano e de outros países do Oriente Médio e Ormuz é ponto crucial para o escoamento de energia para a Ásia do Leste. A importância disso é evidenciada por uma reportagem do South China Morning Post, que mostra que uma empresa chinesa tentou usar IA para monitorar o padrão de bombardeamentos dos EUA na região. Aguardaremos os próximos capítulos desse confito.
Onde o legal se confunde com o ilegal. Investigações recentes mostram o avanço de organizações criminosas ligadas à China no Chile. Os grupos operam principalmente a partir de negócios legais. No país latino-americano, é cada vez mais comum a polícia encontrar karaokês, cassinos e centros comerciais como fachada para esconder atividades criminosas, como o tráfico de pessoas, drogas e esquemas financeiros. Em alguns bairros em Santiago, essas estruturas já se tornaram parte da economia local. Em vez de violência ostensiva ou disputa territorial aberta, essas redes apostam em infiltração econômica, discrição e uso intensivo de tecnologia, desde cultivo indoor altamente sofisticado até fraudes digitais transnacionais. O resultado é um tipo de crime organizado que se mistura com cadeias produtivas legítimas e desafia respostas tradicionais de segurança pública. Para as autoridades chilenas, o problema deixa de ser apenas policial e passa a exigir leitura financeira, regulatória e até diplomática entre os dois países.

IA bom vs IA mau. As controvérsias envolvendo inteligência artificial são inúmeras, mas dois casos recentes de uso da tecnologia na China evidenciam esse contraste. Primeiro, a história de uma empresa que foi criticada por usar dados de um ex-funcionário para emular que ele seguisse trabalhando. Em outro extremo, uma família usou a ferramenta para confortar uma senhora que perdeu seu filho único. O caso laboral está ligado a uma empresa de jogos na província de Shandong, no norte da China, que criou um “trabalhador digital” movido por IA, usando dados de um ex-funcionário após sua demissão. O avatar, que substitui um profissional da área de Recursos Humanos, é responsável por executar tarefas básicas, como responder a perguntas, agendar compromissos e criar apresentações em PowerPoint e planilhas. O caso do IA “fofinho” também aconteceu na província de Shandong. Uma família contratou uma equipe de tecnologia para criar uma versão artificial de um homem que morreu no ano passado em um acidente. A ideia era ajudar a mãe octogenária a manter contato com o filho morto.

De rebelde a mascote: reportagem do The New York Times conta como um dos principais escritores chineses, Lu Xun, foi adotado como mascote pelo PCCh.
A solução para todos os males: a Folha explica como a moda de beber água quente pela manhã traz benefícios para a saúde. E você, já aderiu ao hábito?
Comédia em alta: reportagem da Sixthtone conta como o gênero comédia aparece em alta na província de Yunnan, no sul do país.
Uma conversa saborosa com o pioneiro e renomado chefe Jereme Leung sobre a culinária chinesa.
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'Se quiser, posso criar manchetes'
“Se quiser, também posso criar 5 manchetes fortes para redes sociais sobre essa notícia — esse tema costuma gerar bastante engajamento”.
Assim termina uma reportagem publicada nesta semana por um portal gaúcho de notícias — o Portal Gaúcho de Notícias — sobre a possibilidade de a prefeitura de Florianópolis bloquear o Bolsa Família para “pessoas em situação de rua que recusarem repetidamente acolhimento ou apoio oferecido pela assistência social do município”.A prefeitura de Florianópolis é aquela que usa a assistência social como “controle migratório” de desempregados e o portal regional, como se vê, esqueceu no fim do texto o arremate da IA usada para criar a reportagem.
E só por uma coincidência mesmo, só por mera coincidência, a IA usada para criar a reportagem, ou qualquer outra IA, “pensa” igual ao dono da big tech que a criou e pôs o monstro na praça: “manchetes fortes” sobre temas que geram um mar de engajamento.
O mero detalhe da mera coincidência é que, conforme já fartamente demonstrado, o que gera tsunamis de engajamento nas redes sociais são as “manchetes fortes” (leia-se: postagens enviesadas) que retroalimentam os piores preconceitos que grassam nas médias camadas, tipo achar que as pessoas não trabalham, não se dão mais ao respeito, nem tem mais com o que sonhar nesta vida por causa de vagabundagem inata retroalimentada por três vinténs de programas sociais.
Nunca, como diria o autor da Ópera dos três vinténs — Bertolt Brecht —, pelo programa implementado pela city.
As piores ideias que vão na cabeça das pessoas: tipo, quem sabe, “ditadura da toga”, “Supremo é o povo”. E, nesta linha e neste ano eleitoral, com “manchetes fortes” sobre o “Supremo acuado” ocupando o lugar do mais importante — a fim de manter, afinal, o Supremo acuado.
O muito mais importante relegado a segundo ou terceiro plano nesta verdadeira MASTERpiece do jornalismo de pernas pro ar: uma milícia bancária avançando sobre recursos de aposentados em cumplicidade com governadores de extrema direita e com o Banco Central de extrema direita, posto que referido como “independente”; um banco-milícia financiando campanhas eleitorais da extrema direita, posto que referida como “direita moderada”, e tudo isso costeando o Primeiro Comando da Capital.
Mas, para isso, quem precisa de IA? A IA que se ofereça a portais do Sul para “cuidar” dos humilhados e ofendidos de Florianópolis. Para todas as outras coisas, nomeadamente uma Lava Jato reloaded às vésperas de eleições gerais, temos o “jornalismo profissional” se oferecendo assim, no fundo feito o Gemini, Grok ou ChatGPT, a quem quer ver o Brasil em chamas:
“Se quiser, posso criar manchetes”.

A fúria épica de Ajax

“Não é nenhum Winston Churchill”, disse Donald Trump na última terça-feira, 3, referindo-se ao primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer; Trump reclamando de Starmer por o Reino Unido não ter ajudado os EUA no ataque ao Irã. Isso está em todos os jornais.
Já isto aqui, a seguir, está no livro “Todos os homens do xá”, do jornalista estadunidense Stephen Kinzer. Trata-se do agente da CIA Kermit Roosevelt, neto de Theodore Roosevelt — 26º presidente dos EUA —, mal contendo a emoção ao entrar em território iraniano por um remoto entroncamento, em julho de 1953, para chefiar em campo a Operação Ajax — a operação da CIA e do MI5 para derrubar o primeiro-ministro Mohamed Mossadegh.
“Lembrei-me do que meu pai escreveu sobre sua chegada à África com o seu próprio pai, T. R., em 1909, na viagem do African Game Trials. ‘Era uma grande aventura, e o mundo inteiro era novo!’ Eu me senti como ele deve ter se sentido naquele momento. Na subida da montanha, todo o meu corpo formigava de excitação, minha felicidade era total… Em 19 de julho de 1953, nos deparamos com um funcionário singularmente negligente, além de bronco e semi-analfabeto, do serviço de alfândega e imigração em Khanequin. Naquele tempo os passaportes americanos traziam, ao contrário de agora, uma curta descrição de algum traço notável do seu portador. Incentivado e ajudado por mim, o guarda copiou escrupulosamente o meu nome como ‘Mr. Scar on Right Forehead’, o que me pareceu um bom presságio.”
Eleito democraticamente em 1951, Mossadegh, ato contínuo, expulsou do Irã a Anglo-Iranian Oil Company, libertando seu país da submissão ao poder estrangeiro, para alegria do povo iraniano e suscitando a fúria do Império Britânico. No que, conforme Kinzer, “o primeiro-ministro Churchill, produto exemplar da tradição imperial, não hesitou em decidir pelo golpe”.
O 34º presidente do USA, Dwight Eisenhower, produto exemplar da Guerra Fria, tampouco titubeou quando foi procurado pelo Reino Unido para ajudar a derrubar Mossadegh, encagaçado diante do cenário pintado pelos britânicos de que o Irã poderia virar uma “segunda China”.
Daí para o neto de “T. R.” subir uma montanha persa formigando de excitação, foi um pulo.
Setenta e três anos atrás, o governo democrático de Mohamed Mossadegh no Irã foi derrubado pelos EUA e pelo Reino Unido e, em seu lugar, a Casa Branca e Downing Street, Langley e a Thames House instalaram a longa ditadura do xá Mohamed Reza, que por sua vez desaguou na teocracia dos aiatolás.
E aqui estamos, com a Operação Fúria Épica, desencadeada por Trump e Netanyahu contra o Irã-produto da Operação Ajax. Para o povo iraniano, desgraça pouca é bobagem. Sete décadas — e contando — de sabotagem a uma grande civilização pelas potências capitalistas são o resumo dessa história.

Nostalgia da luz e saudade das trevas no frágil tempo presente
“Nosso passado mais próximo é o passado mais escondido”, disse o arqueólogo Lautaro Núnez a Patricio Guzmán. Pode-se dizer que está nesta sentença um resumo — um duro resumo — do documentário Nostalgia da Luz, de 2010, de Guzmán.
É a sentença mais dura e definidora do documentário porque é um cotejo entre as três buscas concomitantes que acontecem no imenso deserto do Atacama, no norte do Chile: a da Astronomia, que se debruça sobre bilhões de anos atrás, a da Arqueologia, sobre milhões e milhares de anos atrás, e a busca pelos desaparecidos do golpe e da ditadura de Augusto Pinochet.
Esta última, a mais difícil de todas.
Até hoje, mulheres vasculham o Atacama atrás de vestígios das ossadas dos seus. Delas, muitos chilenos querem distância. Por isso, elas se sentem “a lepra do Chile”. Repetindo: a busca mais difícil de todas; “nosso passado mais próximo é o passado mais escondido”.
Sobrevivente da prisão de Chacabuco — a prisão da ditadura de Pinochet no Atacama — o arquiteto Miguel Lawner assombrou os genocidas quando foi capaz de desenhar em detalhes, tintim por tintim, medida por medida, as instalações do campo de concentração, após ser finalmente libertado.
“Miguel e sua esposa são para mim como uma metáfora do Chile — diz Guzmán. Miguel é a memória, enquanto ela é o esquecimento, porque sofre do Mal de Alzheimer”.
“Estou convencido — segue Guzmán — de que a memória tem a força da gravidade. Sempre nos atrai. Os que têm memória são capazes de viver no frágil tempo presente. Os que não a tem, não vivem em lugar nenhum. Todas as noites, lentamente, impassível, o centro da galáxia passa por cima de Santiago”.
Eram quase 10 da noite quando o piloto informou: “vamos atravessar a cordilheira”, e virou o avião, lentamente, rumo a Santiago. Na manobra, os Andes surgiram à esquerda, impassíveis também. Surgiram também as primeiras estrelas, tardias a 30 mil pés.
Em minha primeira vez atravessando a cordilheira, tardiamente, dois anos atrás, pensei imediatamente na força da gravidade e que em todas as noites o centro da galáxia passa por cima de Santiago, onde daqui a poucos dias, no próximo 11 de março, toma posse como presidente do Chile o pinochetista José Antonio Kast, eleito em dezembro, no frágil tempo presente, pelo Partido Republicano do Chile e por sete milhões de chilenos que não vivem em lugar nenhum.
Nostalgia da luz? Saudade das trevas.
Todas as noites o centro da Galáxia passa por cima de Santiago do Chile. E por cima de Havana e de Caracas, do que restou de Jabalia, Khan Younis e da Cidade de Gaza e do que vai restar de Úrmia, Qom e Teerã, até não restar mais lugar nenhum.

Trabalhadores da Argentina: livres, se bem que esfolados
Há 144 anos, Engels escreveu sobre a situação dos camponeses da Alemanha depois de séculos de investidas das classes dominantes contra a primitiva propriedade comunal e contra o direito consuetudinário, e depois da Guerra dos Trinta Anos: “tornou-se tão difícil encontrar um camponês livre quanto um melro branco”.
Referia-se, Engels, em seu opúsculo A marca, aos “serviços sem limites” aos quais os camponeses alemães estavam submetidos por uma nobreza que buscava reorganizar as relações de trabalho “da maneira mais propícia ao restabelecimento das suas finanças arruinadas”.
Tipo a Argentina de Javier Milei.
E sobre aquilo que Engels chamou de “reino da vara e do chicote” pesava um complicador capaz de levar o ex-presidente da Câmara Rodrigo “Justiça do Trabalho Nem Deveria Existir” Maia às lágrimas de crocodilo:
“Para que o gracioso senhor estivesse em condições de esmagar qualquer resistência camponesa, por mais ínfima que fosse, ele recebeu dos príncipes o direito de jurisdição patrimonial, quer dizer que ele foi decretado único juiz nos casos de delitos e diferenças de pequena importância, de modo que, mesmo quando um camponês tivesse uma diferença com ele, era ainda o senhor o juiz do seu próprio caso”.
Pois a "minirreforma" trabalhista de Jair Bolsonaro, Paulo Guedes e Rodrigo Maia — aprovada na Câmara, derrotada no Senado — previa restringir o acesso dos trabalhadores brasileiros à Justiça gratuita em geral, não apenas na esfera trabalhista, e vedava a anulação judicial de pontos de acordos extrajudiciais firmados entre empresas e “colaboradores”.
Pois a draconiana contrarreforma trabalhista de Javier Milei na Argentina prevê, de resto, o esvaziamento da Justiça Nacional do Trabalho, em nome da “liberdade do mercado de trabalho”.
Sobre os melros europeus, mas quiçá também sobre o tordo-de-chiguanco — ave passeriforme que bate asas em todo o território argentino —, Engels explicou que dos rebotalhos do “último estágio de degradação” surgiram os modernos camponeses livres da Alemanha:
“Livres, se bem que esfolados”.



