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“Obra do Mauro”: PF aponta favorecimento de mineradora investigada na Operação Parcours por diretor-geral da ANM

As investigações da Polícia Federal (PF) na Operação Parcours revelam indícios de ações de órgãos federais favoráveis à mineradora Empabra, a principal empresa do grupo de mineradoras investigadas por lavra ilegal na Serra do Curral em Belo Horizonte. Uma delas, citada no relatório mais recente da investigação, foi classificada como a “obra do Mauro”.

O termo foi usado pelo empresário Luis Fernando Franceschini, um dos principais alvos da Parcours, ao sugerir que a atuação da Advocacia-Geral da União (AGU) em defesa da mineradora teria sido articulada diretamente por Mauro Henrique Moreira Sousa, diretor-geral da Agência Nacional de Mineração (ANM), que também foi indiciado pela PF, que permanece no cargo. 

Segundo o relatório, o grupo percebia o dirigente da agência reguladora como um patrocinador de seus interesses, uma vez que ele “teria influenciado atuação institucional favorável à Empabra, inclusive junto à Advocacia-Geral da União”, órgão federal onde Sousa começou a atuar a partir de 2005, passando pela consultoria jurídica do Ministério de Minas e Energia (MME), como ele destacou na sua mensagem aos senadores antes de assumir o posto na ANM.

“A IPJ destaca que Mauro é servidor de carreira da AGU. Ainda que o trecho deva ser tratado como indiciário, ele revela a percepção interna do grupo de que Mauro poderia influenciar ou articular atuação institucional favorável à Empabra em disputas administrativas ou judiciais”, diz a PF. 

Esse ponto das conversas, informa o relatório, “é especialmente sensível porque a atuação estatal deveria ser guiada pelo interesse público e pela defesa da legalidade, e não pela estratégia privada de empresa regulada investigada por lavra irregular, dano ambiental, fraude documental e usurpação de bens minerais da União”.

Reprodução relatório da PF

A Polícia Federal identifica uma “relação próxima, frequente e informal” entre Mauro Sousa e o controlador da mineradora, Franceschini. Durante o período monitorado pela PF, foram registradas “diversas mensagens e 61 ligações entre ambos”, tratando de temas sensíveis como o Plano de Fechamento de Mina (PFM) da Mina Corumi.

Para os investigadores, o teor das conversas revela uma dinâmica “incompatível com a impessoalidade esperada entre o dirigente máximo de agência reguladora e empresário do setor regulado”.

Além do contato direto com o proprietário, Mauro Sousa mantinha comunicações em tom de intimidade com a coordenadora jurídica da mineradora, Ana Laura Braga de Carvalho. Em mensagens interceptadas, o Diretor-Geral chamava a advogada de “queridinha” e combinava encontros e jantares em Brasília. Esse canal privilegiado permitia que o dirigente adiantasse informações sobre a tramitação de processos, informando, por exemplo, que a equipe técnica da agência se manifestaria em data específica sobre um processo.

A captura institucional da ANM, segundo a PF, incluía também a submissão informal de documentos oficiais à autoridade máxima antes mesmo de sua entrada formal no sistema. O empresário Franceschini chegou a admitir a advogados do grupo ter enviado minutas de ofícios para que o diretor-geral apresentasse eventuais “considerações” prévias. A PF sustenta que essa conduta permitia à empresa ajustar suas petições com base na avaliação da autoridade, violando a “isonomia, impessoalidade e regularidade procedimental”.

PF indiciou Mauro Henrique Sousa por advocacia administrativa e associação criminosa

O relatório final da Operação Parcours conclui que Mauro Sousa atuou de forma decisiva para a “superação de entraves administrativos relacionados a empreendimento sob investigação por lavra irregular”.

Diante das provas de que ele teria utilizado o prestígio do cargo para favorecer interesses particulares, a PF o indiciou por condutas que reúnem “elementos de advocacia administrativa e tráfico de influência”. A investigação aponta que essa proteção interna na agência reguladora era um dos pilares para assegurar a “continuidade da exploração mineral” clandestina na Serra do Curral.

As conversas do diretor-geral da ANM com o controlador da Empabra também citam outros três servidores da agência: Fábio Perlatti, Ronaldo de Azevedo Coimbra e Roger Romão Cabral. Perlatti é gerente de Sustentabilidade e Fechamento de Mina da Superintendência de Fiscalização da ANM e Romão era diretor e deixou o cargo em dezembro de 2025. Coimbra ainda faz parte da ANM.

“Em novembro e dezembro de 2024, Franceschini tratou diretamente com Mauro sobre a equipe da ANM responsável pela análise do PFM, ocasião em que o Diretor-Geral mencionou o Diretor Roger Romão Cabral, integrante da Diretoria Colegiada, e informou movimentações internas relacionadas ao tema”, afirma o relatório.

Reprodução relatório da PF

O inquérito cita ainda que em fevereiro de 2025, ao ser questionado por Franceschini sobre pareceres de servidores da ANM, como Perlatti e Ronaldo Coimbra, Mauro respondeu que encaminharia a demanda à Romão, responsável pela coordenação do assunto.

“A gravidade do contato não está apenas na existência de diálogo entre regulador e regulado, mas no conteúdo e na forma da interlocução. Mauro adiantou a Franceschini informações sobre a tramitação interna do PFM, inclusive que Roger já havia conversado com Marco Túlio Naves De Carvalho e que a equipe deveria se manifestar até determinada data. Tal conduta, em tese, ultrapassa o dever de transparência institucional e sugere tratamento privilegiado, pois Franceschini passava a acompanhar, por canal pessoal e informal, atos internos de análise técnica da ANM relativos a procedimento administrativo de interesse direto de sua empresa”, diz a PF.

Associado ao nome de Coimbra e de Leandro Cesar de Carvalho, servidor indiciado por lavagem de dinheiro, está uma anotação em um quadro no inquérito da PF sobre como o Plano de Lavra de 2016 foi considerado satisfatório, “embora utilizasse a recuperação ambiental/PRAD para justificar a extração máxima de produtos”.

O relatório informa ainda que após denúncia de extração ilegal, relatório de fiscalização de novembro de 2017 afirmou não haver lavra ou extração mineral na poligonal da mineradora. “Informação potencialmente falsa ou enganosa, pois o acervo técnico indicou extração ilegal no período da vistoria. Indício de sonegação de dados em fiscalização e facilitação da continuidade da lavra irregular”, destaca o inquérito.

Reprodução relatório da PF

ANM não comenta e AGU informou que abriu processo interno para apurar os fatos

Procurada pela reportagem, a ANM respondeu que “em relação aos nomes mencionados, a agência não comenta o conteúdo de investigações em andamento nem faz manifestações sobre citações constantes de inquéritos policiais”.

E que a posição institucional da agência sobre o caso permanece a mesma do que foi publicado em uma nota no dia 28 de junho. No texto, a ANM informa que Mauro Sousa participou dessas tratativas “exclusivamente como representante institucional da Agência perante o Poder Judiciário e os demais órgãos envolvidos, no exercício das atribuições inerentes ao cargo”.

“Esclarecemos apenas que pareceres e manifestações técnicas produzidos por servidores da ANM são elaborados no exercício regular de suas atribuições legais, com fundamento em critérios técnicos e administrativos”, diz também a ANM em resposta aos pedidos de contrapontos sobre os servidores citados.

Os outros servidores da ANM citados no relatório da Polícia Federal, Fábio Perlatti, Ronaldo de Azevedo Coimbra e Roger Romão Cabral não estão entre os indiciados pela PF. Mauro Henrique Moreira Sousa foi indiciado por advocacia administrativa e associação criminosa.

Após ser procurada pela reportagem no dia 3 de julho, a AGU informou que abriu um processo interno para apurar os fatos neste mesmo dia.  “Diante da referida operação da Polícia Federal, a Corregedoria-Geral da AGU abriu, de ofício, análise prévia sobre a existência de potenciais infrações disciplinares cometidas por membros da instituição. Este procedimento é sigiloso”, diz a nota enviada pela AGU.

O relatório da Polícia Federal aponta que Marco Túlio foi o principal articulador técnico da organização investigada. O geólogo ocupava cargos de alta gestão no conglomerado minerário investigado e atuava como diretor de operações técnicas da Empabra e, simultaneamente, apresentava-se profissionalmente como diretor executivo da Fides Mining, mineradora controlada pelo empresário Luis Fernando Franceschini.

A reportagem não conseguiu retorno das tentativas de contato com Marco Túlio Naves de Carvalho por meio dos canais de comunicação da empresa em que atua com Francischini, a Fides Mining. A defesa de Luis Fernando Franceschini disse que não dará declarações nesta fase do processo.

A reportagem não conseguiu contato com Ana Laura Braga de Carvalho ou seus advogados no processo. Ela foi indiciada por associação criminosa, falsidade ideológica ambiental e participação em estratégias para manter a lavra sob aparência de recuperação ambiental. 

O espaço para Ana Laura e os demais citados que não conseguiram contrapontos até o fechamento desta edição continua aberto para suas manifestações e alegações.

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Sigma Lithium tenta censurar matéria e envia mais uma notificação extrajudicial ao Observatório da Mineração

Em 6 de julho de 2026, a Sigma Mineração S.A. (Sigma Lithium), por seus advogados, enviou ao Observatório da Mineração notificação extrajudicial a respeito da reportagem “Polícia Federal indicia empresários, diretor-geral e alto escalão da ANM por organização criminosa e outras acusações em novos relatórios”, publicada em 27 de junho.

A empresa pede a retirada de “toda e qualquer menção” ao seu nome no trecho “Do ferro ao lítio” e que o Observatório se abstenha de novas publicações que a associem a ilícitos ou a investigações das quais não faça parte. A Sigma sustenta, ainda, que “não tem, e nunca teve, qualquer relação com a Associação Ambiental e Cultural Zeladoria do Planeta”, nem participou do estudo técnico que embasou a redução da APA Chapada do Lagoão.

O Observatório da Mineração reitera o conteúdo da reportagem e faz três esclarecimentos.

Primeiro: o texto não afirma — nem sugere — que a Sigma seja investigada, indiciada ou integrante da organização criminosa apurada nas operações Rejeito e Parcours. A reportagem descreve a empresa como uma das mineradoras de lítio interessadas na região do Jequitinhonha que seriam eventualmente favorecidas pela redução da área de proteção ambiental, informação de interesse público e apoiada em documentos, a partir de outra matéria publicada em setembro de 2025, “ONG citada na Operação Rejeito pagou estudo que reduziu mais de 50% de APA no Jequitinhonha, favorecendo mineradoras de lítio”.

Segundo: a afirmação da empresa de que “nunca teve qualquer relação” com a Zeladoria do Planeta é contrariada por registro público da própria empresa. Em novembro de 2023 a Sigma Lithium recebeu da entidade um prêmio de “Gestão Ambiental”. A publicação, nas redes sociais da Sigma Lithium, afirma que a mineradora recebeu “com muito orgulho” o reconhecimento concedido “pela respeitada ONG”. A publicação traz na foto Fernando Benício de Oliveira Paula, dirigente da Zeladoria do Planeta, conselheiro do Copam (Conselho Estadual de Política Ambiental) e indiciado pela PF na Operação Rejeito por organização criminosa, corrupção passiva, tráfico de influência, lavagem de dinheiro e crime ambiental (documento falso). O Observatório não afirmou que a Sigma tenha contratado ou custeado o estudo que reduziu a APA; a menção diz respeito ao interesse da empresa na região.

Terceiro: esta é a segunda vez que a Sigma recorre à via da notificação extrajudicial contra o Observatório. A primeira, de maio de 2025, motivou repúdio de entidades como a Abraji e a ABA e apurações por MPF, MPMG, DPU e pela Federação Internacional pelos Direitos Humanos (FIDH) sobre a intimidação ao veículo. Nesse intervalo, o Observatório publicou diversas reportagens sobre a empresa sem que ela se manifestasse pelos canais ordinários de assessoria de imprensa.

O Observatório da Mineração, que já registrou na reportagem original a tentativa de ouvir a empresa, reitera que o espaço permanece aberto: manifestação objetiva da Sigma sobre os fatos será integralmente publicada, na forma da prática jornalística.

Também reiteramos nosso compromisso com o jornalismo e reforçamos a importância de que a Sigma, em respeito à transparência e ao debate público, utilize os canais institucionais de relacionamento com a imprensa para prestar esclarecimentos, abstendo-se de recorrer a expedientes que possam consubstanciar assédio judicial ou tentativa inconstitucional de censura e intimidação.

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“NAQUELE TEMPO, NÃO CONFUNDÍAMOS A CORAGEM COM PATADAS E JOGO SUJO”

Eduardo Galeano faz falta.

Tanta falta.

Já escrevi e falei isso tantas vezes.  E certamente irei falar outras tantas.

Todos os meus pensamentos correram para isso quando França x Paraguai acabou e um debate feroz se iniciou.

Era uma ode ao Paraguai, alçado a utopia e símbolo da Pátria Grande possível. O sonho de Bolívar redivivo, os defensores del chaco dizendo presente para nos restituir a glória.

O canto dos espoliados, Taiguara, Mercedes Sosa e Silvio Rodrigues numa zaga inexpugnável, a resistência ao ataque do colonizador.

Tinha muito mais.

De repente, textos em profusão com uma sentença: quem não entendeu isso ou teve a mesma leitura, não entende nada sobre esse jogo. Muito mais: não entende nada sobre a vida.

Era Guimarães Rosa torcido até virar o que vira uma história quando se repete: uma farsa.

Parece que entenderam errado o sentido da vida querer coragem da gente.

Talvez tenha faltado Caetano irromper o debate para gritar: “vocês não estão entendendo nada”.

Faltou Caetano falar que sempre que ganhamos desse colonizador nas quatro linhas foi pelos hermetismos pascoais da bola com seus tons e seus dons geniais e não por tapas, simulações e cotovelaços.

Nunca ganhamos do lado de cima do Equador dando tapa, tiro, porrada e bomba.

É assim desde que Pastinha e Bimba ensinaram como drible para ganhar do colonizador. Aquele que trouxe a bola debaixo do braço e perdeu a receita por aqui.

Nunca.

Voltemos a Galeano.

É dele não só a mais poética explicação do que são nossas veias abertas mas também a didática milimétrica para contar como o Uruguai de 50, o time considerado como maior exemplo de coragem e virtude de todos os tempos, deu a maior aula de coragem da história do futebol.

Foi ele que sintetizou os fatos daquele Brasil x Uruguai da Copa de 50.

Enquanto as redes sociais de outrora exaltavam o tapa de Obdulio em Bigode, o tapa que nunca houve e foi criação abjeta da mente de racistas para criminalizar outro preto além de Barbosa, o maestro uruguaio nos contou com breves palavras o que aconteceu em campo. Muito mais do que isso: explicou como uma mentira sobre uma falsa valentia virou ato fundador de um fracasso de décadas.

Foi a partir do mito do “Uruguai valente que por isso ganhou a Copa de 50” que o país vizinho caiu num buraco de anos. Porque achava que futebol era tapa na cara.

“O Uruguai ganhou quando estava perdendo graças à coragem. E cometeu a metade das faltas do Brasil. Naquele tempo, não confundíamos a coragem com as patadas e jogo sujo”. Zizinho corroborava a tese. O Uruguai ganhou porque tinha mais time e jogou mais bola. Ponto.

De sua mesa fixa no Café Brasilero de Montevideu, que, tal como a mesa de Hemingway na Bodeguita não podia ser tocada sem seu convite, adorava falar sobre o tema.

Tinha profundo asco da herança maldita daquela crença de que o Uruguai teria conquistado uma Copa por sua virilidade, rasteiras e tapas que tanto mal fez ao seu país e por tanto tempo mutilou o DNA futebolístico de um país.

Foi nessa mesa que esse mui humilde reportero ouviu isso dele pela primeira vez.

Foi dali que soltou a frase que dava conta de sua tristeza pelas lições de macheza em campo dos conterrâneos que destruíram um jogo tão bonito quanto vencedor. Uma poética sentença:

“Ali ficamos. Ancorados. Ás vezes, a memória atua como âncora, não como catapulta”.

Galeano teve profunda esperança em ver seu amor pelo futebol do país recuperado quando Juan Ramon Carrasco assumiu a seleção em 2003. Exaltava que no primeiro jogo o time fez apenas 10 faltas. E adorou o discurso de Carrasco em defesa da verdadeira tradição uruguaia e não daquela falsificação de coragem. “Parem de sofrer”.

Seguiu feliz quando o Maestro Tabarez assumiu fiel a essa ideia. Tinha razão.

Não foi só o Uruguai que historicamente sofreu com a distorção que agora ressurge na macheza sudaca tuiteira.

A história do futebol continental é também a história da eficiência do jogo jogado sobre a farsa da velha e surrada canção de que futebol raiz é jogo sujo, Libertadores raiz é eficiente…

Observe atento que ninguém aqui está caindo na falsa e infantil defesa de um “jogo bonito”. É sobre jogo jogado sempre ter sido mais eficiente do que jogo sujo ou que “futebol também se ganha no vale-tudo”.

E sim, aqui futebol e política, como em qualquer lugar, andam e sempre estarão juntos.

O auge da convicção de que o jogo sujo é do jogo e ganha jogo veio junto com a “Operação Condor”.

Ao mesmo tempo em que se rasgavam as leis e constituições de países, rasgavam-se as regras do jogo.

Chile, Paraguai, Uruguai. E por aqui também. Foi muito alto o preço do que agora virou exaltação.

E virou papo sobre quem entende o sentido da vida e quem não entende.

Não existe paralelo na história do futebol de alguém que tenha pago mais caro pela convicção de que “futebol também se joga assim/futebol se ganha assim” do que o Chile nos anos Pinochet.

Ninguém pagou um preço mais alto do que o Chile, agora esquecido no ostracismo dos fora de Copa. Por acreditar nesse pretenso e falso “futebol raiz”. Que de raiz nada tem.

Foi o mesmo país que serviu como o primeiro laboratório da história para a implementação do neoliberalismo com seus Chicago Boys tomando as pastas da economia e cortando direitos da população que viveu o extremo maior dessa convicção  do vale-tudo no futebol.

Pinochet sabia exatamente sobre a força do futebol como propaganda.

Ganhar a qualquer custo era seu entendimento sobre a bola.

Com seu títere Gordon Cañas, general carabinero na presidência da Asociación Central de Fútbol (ACF), era hora de botar em prática.

Foi o tempo da “Plata Dulce”, do “Caso Paysandu” e da fogueteira Rosemary. Todos com a mesma convicção: valia tudo para ganhar. E com o mesmo final: perderam tudo.

O dinheiro da ditadura jorrando. Valia tudo.

Falsificar passaportes de jogadores da base para a disputa de um sulamericano e ser fragorosamente derrotado.

Os Chicago Boys enchendo o futebol de dinheiro através do Banco Hipotecario de Chile (BHC) para provar que o modelo neoliberal através do futebol-empresa era a revolução e o caminho da vitória. Esperam até hoje os avós das atuais SAFs.

Na era da “Plata Dulce”, valia manipular resultado e até fazer gol sem adversário em campo num estádio transformado em campo de concentração.

O fim foi isso que está aí: a quase morte de um país futeboleiro.

A Argentina não difere.

A junta assassina de Videla queria a vitória a qualquer custo. E teve.

A parte disso que não te contam e também deturpam é que muito mais do que Videla, foi a vitória de um treinador que era a antítese disso tudo.

Que resgatou o DNA de um modo de jogar bola, “la nuestra” e do “toco e me voy”.

Troca constante de posições, triangulações, desmarques imediatos após o passe e circulação permanente. Tudo isso fala muito mais sobre o campo e bola de 1978 do que qualquer crença em ganhar a qualquer custo dos generais. A monumental biografia “Menotti”, de Ezequiel Fernandez Moores te conta melhor sobre isso.

O Brasil de Saldanha e depois de Zagallo também nada tinha de ganhar a qualquer custo. Muito mais do que deles, de Pelé, Tostão e companhia. Definitivamente, a história desse país no futebol é de pernas tortas e não da vitória com tapa na cara e antijogo.

Seria curiosa, não fosse uma distorção quase grotesca a exaltação que anda rolando do discurso pré-jogo de Alfaro no vestiário antes de encarar a França.

Fique claro que se entende o contexto motivacional de um vestiário. Fora dele, tomar como verdade é quase caricatural.

Nas palavras do treinador, de um lado estavam jovens lutando por um prato de comida. Do outro, almofadinhas fúteis em busca de brilhos individuais para se admirarem diante do espelho.

Curioso é que do mesmo Paraguai, antes do jogo, o fascista Chilavert, fã de Pinochet, dizia que “jogar contra a França era jogar contra uma seleção africana”.

Decidam-se.

Paupérrimo quase tocando no patético é falar sobre isso. Sobre uma França de meninos periféricos que lutaram também por mudar de vida como seus pares do outro lado e que sofreram com a hidrofobia dos Le Pen da vida.

Pescados em projetos sociais e, acima de tudo, políticas públicas exitosas que mudaram suas histórias. E a do futebol francês.  

São esses os almofadinhas, os que iriam se assombrar como janotinhas bobinhos com a malandragem? Às vezes a gente torce para ser poupado de ver certas coisas…

Franceses vindos no caminho da volta dos pais subjugados em colônias.

Tão vítimas do general francês, o facínora genocida Paul Aussaresses, quanto nós. O Carrasco de Argel, e também do Brasil, do Paraguai, do Chile, da Argentina, do Uruguai…Carrasco dos avós de todos ali de azul.

Curiosa ainda é a exaltação a uma Libertadores mítica onde, para ganhar, era preciso saber jogar sujo.

É que a memória anda falha para alguns. Em alguns casos. Em outros, é só canalhice mesmo.

Nunca ganhamos uma Libertadores com essas armas por aqui. Pelo contrário.

FOI A GENIALIDADE DE ZICO E DE UM TIME DE SONHOS QUE DERROTOU AS PEDRAS NA MÃO DE MÁRIO SOTTO

Foi a genialidade de Zico e de um time de sonhos que derrotou as pedras na mão de Mário Sotto.

E aqui voltamos a Pinochet, a “Plata Dulce” e a velha convicção de que vale tudo para ganhar.

Pouco se fala do heroísmo daquela conquista.

Não, não era um time do outro lado vestindo laranja.

Era a mais pura criação, representação e obra de Pinochet.

Que havia entendido que aqueles protestos contra a ditadura teriam na distração do futebol sua melhor forma de combate.

Um time para cada recanto do Chile e muita plata dulce. Sim, te lembra “onde a Arena vai mal, um time no nacional”. As ditaduras são monotonamente iguais em suas ideias.

Aquele Cobreloa, fruto direto da plata dulce, criado poucos anos antes para que mineiros do grotão do país se distraíssem e não prestassem atenção em “comunistas”, tinha que ganhar.

O zagueiro entrou com pedra na mão. Os jogos foram uma carnificina.

Foi Zico quem avisou: “para ganhar, só tem um jeito: jogar bola”.

Um mês depois dali, teve 3 x 0 no Liverpool, botando os ingleses na roda.

Foi esse mesmo Flamengo que protagonizou o último grande recital do futebol brasileiro em uma Libertadores. O Flamengo de Jesus. Jogando muita bola.

Teve o Fluminense de Diniz também. Sim, tinha Felipe Melo. Mas o que te faz lembrar desse time é o toco e me voy também.

O coitadismo de um Paraguai onde jorra o dinheiro pelas torneiras de Alejandro Dominguez, cada dia mais forte na FIFA, e suas contas secretas no Catar também não faz bem a história do coirmão.

E ninguém aqui está falando, note-se bem, sobre sistemas de jogo, jogar atrás. O próprio Paraguai fez isso contra a Alemanha e bem. Sem tirar a fantasia de malandro. É sobre atitudes. E sobre a velha convicção que deixou o cemitério cheio de malandro: a de que era mais malandro do que a malandragem toda.

O futebol é tão encantador que, de repente se vê um monte de gente, para fechar com Galeano de novo, “teve como coisa mais emocionante da vida atravessar a rua com o sinal aberto” falando que “futebol é sobre isso também, é sobre malandragem, sobre ser mais esperto…”.

Tem também aquele tipo que se acha mais à esquerda do que o Che porque acredita que isso é contra o sistema. Isso. Alejandro Dominguez, Samir Xaud. Todos contra o sistema… Vão ter que entrar na fila e cantar a Internacional todo dia por mil anos. Aí conversamos.

Vai ser um dia agitado em muito playground. Entre uma pipa e outra solta diante do ventilador, vai ter muito menino de gel defendendo que para ganhar vale-tudo. Pior: que o antijogo para ganhar tem que ser assim. Mesmo que a história diga um rotundo não a tudo isso.

Edição 398 – Um até logo (e algumas notícias)


Queridos leitores da Shūmiàn 书面: Esta é a nossa última newsletter semanal por um tempo. Estamos entrando em um hiato para pensar como seguir.

Durante este hiato, nosso Clube do Livro de Literatura Chinesa seguirá forte como sempre; se você é nosso leitor e ainda não faz parte do Clube, fica aqui o convite. Agradecemos de coração a sua atenção e leitura das nossas newsletters até aqui e aos nossos parceiros e parceiras que ajudaram a construir o que somos.


 

Política e economia

Um acidente de avião pegou Pequim desprevenida na tarde de sexta-feira (26). A aeronave de pequeno porte atingiu o arranha-céu mais alto da cidade, a CITIC Tower, e posteriormente caiu próximo ao prédio. As vítimas foram 13 pessoas que sofreram machucados, além do piloto – que faleceu no impacto. O governo distrital de Chaoyang, o principal centro financeiro da cidade e onde fica o prédio, informou que apenas o piloto estava na aeronave. Uma série de vídeos circulou nas redes dentro e fora da China, e diversos rapidamente foram removidos, com silêncio da mídia estatal, e o espaço aéreo foi parcialmente fechado por algumas horas. Além disso, pouco se sabe sobre as causas, conforme conta a CNN. O acidente só foi confirmado pelas autoridades chinesas no dia seguinte. O espaço aéreo chinês é altamente controlado, especialmente na capital, e no começo do ano já havia restringido o uso de drones – que passaram a precisar de um registro especial para circular. 

Grandes responsabilidades. O que separa um crime comum de um crime contra a segurança nacional chinesa em Hong Kong? De acordo com uma regulamentação aprovada pelo Conselho Legislativo local no dia 11 de junho (e em vigor no mesmo dia), essa resposta pode depender da opinião do líder da cidade. De acordo com o atual ocupante do cargo, John Lee, o poder de indicar quais casos aparentemente comuns ameaçam a nação visa tornar a Lei de Segurança Nacional “ainda mais clara” e “reduzir controvérsias e debates na corte”.  O secretário de segurança local declarou que o mecanismo deve ser usado raramente; no entanto, a notícia causou reações negativas na opinião pública local e internacional, uma vez que casos sob a LSN estão sujeitos a penas mais longas e liberdade provisória limitada; além disso, tais julgamentos são comumente acusados de viés pró-governo – a taxa de condenação nesses casos, de acordo com dados oficiais, é de 80%. Por outro lado, em um editorial no China Daily deste domingo (28), o advogado e político pró-Pequim Christopher Wong defende que a Lei de Segurança Nacional vem provando seu valor nos seis anos desde sua aprovação, “punindo poucos e protegendo a maioria”.

Novos tempos. A crise empregatícia enfrentada pelos jovens chineses só se tornou mais preocupante em tempos de inteligência artificial. Um desafio que se mostra global, a China tem nos últimos ensaiado políticas, incluindo redesenhando grades curriculares e encerrando alguns cursos de graduação, para acompanhar o ritmo e alinhar as universidades com o projeto de desenvolvimento nacional. Esta matéria da Rest of World conta como uma nova pesquisa em 70 universidades mostra cortes (como suspensão de turmas) em cursos de alguns idiomas (japonês e alemão), em marketing, gestão de logística, e gestão pública. Contudo, a pesquisa mostra que até engenharia da computação teve matrículas suspensas. Os ajustes parecem também cobrir um certo reequilíbrio após o boom. Ao mesmo tempo, a matéria indica que novos cursos foram criados trazendo IA de forma importante em alguns currículos da área de Humanidades, como cursos de tradução – um ponto também analisado no china policy.

Internacional

Significa? Mais dias tensos para os observadores dos mares ao redor de Taiwan que tentam divinar o que significam os movimentos chineses na região. Na última terça-feira (23), o Fujian, porta-aviões mais avançado da China, atravessou o estreito, segundo o governo local. Desde meados de junho, a guarda-costeira de Pequim já vem patrulhando a região, medida tomada em reação a declarações de Japão e Filipinas sobre a revisão dos limites de seus territórios marítimos. Taipei considera que a movimentação indica que um ataque chinês ao território é iminente, e iniciou simulações de contra-ataque; Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha se declararam contrários à atitude de Pequim, que afirmou apenas exercer sua jurisdição e pediu que os países respeitem sua soberania.

Menos de um ano após a inauguração da sua fábrica na Bahia, a BYD anunciou que vai acelerar a produção de baterias no Brasil, além de ter divulgado que realizará investimentos de R$ 500 milhões no sistema de armazenamento de energia em baterias para participar do primeiro leilão de baterias a ser realizado no final do ano no país. O objetivo é ter até 50% da produção dos veículos de passeio realizada localmente até 2027, conta a matéria da CNN. Nos últimos meses, a empresa chinesa tem enfrentado uma série de críticas: em março, foi acusada nas redes sociais de trazer 10 mil trabalhadores chineses em vez de contratar funcionários localmente, o que não se confirmou. A empresa desmentiu e anunciou que os novos alojamentos que está construindo são para brasileiros – que obrigatoriamente devem ser 70% da mão de obra da fábrica. A mão de obra chinesa que chegou no começo do ano seria de funcionários temporários. Em abril, foi incluída durante três dias na “lista suja” de trabalho análogo à escravidão a partir da autuação do Ministério Público do Trabalho em 2025. Em maio, uma matéria da BBC brasileira contou mais detalhes sobre a operação.

Sociedade

É um negócio complicado. A sustentabilidade da estratégia de pequenas cidades chinesas de viralizarem nas redes e atraírem turistas é questionada neste texto da jornalista Zeng Shi. Nos dias de hoje, não é incomum que governos locais tentem nutrir e surfar em vídeos de influenciadores turistas – mas os altos investimentos nesses momentos é pouco sustentável e não garante o retorno que promete, principalmente pela falta de investimento em infraestrutura e serviços no longo prazo. Governos tendem a apostar em locais “instagramáveis” e que cansam rápido, replicando e padronizando o que já viralizou (sobre o tema, vale relembrar essa excelente discussão na falecida Chaoyang Trap sobre wanghong). Em tempos de economia da atenção, todo dia algo viral acontece e o que foi viral ontem é rapidamente esquecido.  

Ética. Em tempos de debate sobre divulgação de bets no Brasil, a ética da profissão de influenciador também vem sendo pauta na China. Lá em março, um influenciador de livros (booktoker, como são conhecidos) dedicou 25 minutos de vídeo a criticar as práticas de alguns colegas de profissão; um deles, não identificado, foi acusado de manipulação ao falar do mesmíssimo jeito sobre muitos dos 700 livros que recomendou ao longo de um único ano. Hoje, na China (e em muitos países), editoras usam influenciadores e principalmente booktokers para divulgar livros e criar buzz em torno de obras – mas, apesar de muitos trabalharem de forma honesta, embora precária, escândalos assim colocam em xeque a credibilidade ao mesmo tempo em que a lógica do mercado coloca pressão na comunidade, como discute este texto do site The World of Chinese.

Zheng He

Origem: como que o lying flat virou a tendência que virou nos últimos anos? Tem comunicado do Ministério de Segurança Estatal (onde fica o aparato de inteligência do Partido Comunista) que diz que é influência estrangeira para desanimar a galera, mas os netizens seguem afirmando que é apenas o capitalismo tardio. 

E o jovem a fiar: esta matéria da Sixth Tone mostra como manualidades envolvendo costura, crochê, tricô e afins com lã, estão crescendo em popularidade entre jovens chinesas. 

Miau: através da lente do fotógrafo holandês Marcel Heijnen, a conta Chinese Whiskers registra diversos belíssimos gatos, principalmente chineses. Heijnen já lançou um livro de gatos das lojas e mercados de Hong Kong e publicou um de gatos de mais de 20 cidades na China. Agora, vai lançar quatro volumes com a mesma temática. Excelente.

Opa: sabe aquele look tradicional chinês que você viu no brechó? Talvez seja de uma cerimônia funerária.

 

Não é porque a China não está na Copa do Mundo de futebol masculino que as empresas chinesas não podem surfar essa onda. Um bom exemplo, como mostra o vídeo, é o sucesso da nova e nonsense campanha internacional do chá Wang Lao Ji, que tem quase dois séculos de tradição: o garoto propaganda da vez é o boleiro norueguês Erling Haaland.

 

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Edição 397 – Rodada de investimento para o DeepSeek

Política e economia

Esse foi fundo. Segundo relatos (não confirmados pela Reuters), a startup queridinha da galera DeepSeek fez história na sua primeira rodada de captação externa – conhecida como Série A. No começo de junho, a estimativa divulgada na NeoFeed falava em expectativa de captação de 50 bilhões de yuan (em torno de 7,4 bilhões de dólares) – o que, segundo o Pandaily, foi o que de fato ocorreu na conclusão da rodada no dia 16. Ela se torna a startup de IA chinesa mais bem avaliada, no caso em 400 bilhões de yuan (51 bilhões de dólares). Os valores “normais” de uma Série A nos EUA, em média, ficam nos 20 milhões de dólares, ainda que os hypados do mundo de IA sejam outro universo. Por exemplo, a OpenAI recebeu 1 bilhão de dólares na Série A há alguns anos atrás e quebrou alguns recordes nas fases seguintes. A matéria da NeoFeed também conta como a DeepSeek ainda não anunciou planos para abrir um IPO e como a sua fama surfou na lógica de baixos custos – e agora há maior demanda por altos gastos com o desenvolvimento de IA agêntica.

Além do valor altíssimo, chamou atenção no relato a estrutura de governança desses fundos. Sob a liderança do fundador Liang Wenfeng, o dinheiro não vai diretamente para a DeepSeek, mas sim um novo ente jurídico. Ademais, boa parte dos investidores não terá poder de voto de forma a proteger a empresa (e Liang) de futuras mudanças. As matérias relatam que o fundador colocou 20 bilhões de yuan do seu próprio dinheiro. E o destaque fica que o Fundo Nacional de Indústria de IA – do estado chinês – que colocou 1 bilhão de yuan na startup. Os principais investidores são a Tencent Holding, JD.com, NetEase e surpreendentemente a CATL (de baterias).

Internacional

Sem cabo para você. Em uma história muito surreal, o ministro do transporte e das comunicações do Chile perdeu o visto para os Estados Unidos por conta de negociações com a China sobre um cabo submarino, conta esta matéria da Rest of World. O plano era conectar a América do Sul a Hong Kong de forma direta com um novo cabo submarino, algo que estava em negociação no último ano. Contudo, em fevereiro de 2026, o então ministro Juan Carlos Muñoz e mais dois funcionários de alto nível foram informados que os seus vistos diplomáticos para os EUA foram cancelados sob o argumento de atividades que ofereciam perigo à infraestrutura crítica na região. Eles estavam analisando uma proposta da estatal China Mobile de um cabo de 500 milhões de dólares, que avançava nos trâmites. O ex-presidente Gabriel Boric deu um basta na proposta após tensões com o governo dos EUA. O desafio agora é do novo governo de José Antonio Kast, que assumiu a presidência em março. No discurso, Kast é bastante alinhado à Trump, ainda que queira manter boas relações com a China. 

O Reino Unido condenou dois homens por espionagem para a China. Os cidadãos sino-britânicos Chung Biu “Bill” Yuen, e Chi Leung “Peter” Wai, ex-trabalhadores do serviço de fronteiras britânico, teriam monitorado as atividades de exilados honconguenses pró-democracia entre 2023 e 2024. A prisão de ambos ocorreu após uma tentativa frustrada de sequestrar Monica Kwong em sua casa em maio de 2024, operação que envolveu um terceiro cidadão britânico, Matthew Trickett, que foi encontrado morto no mesmo ano; Kwong é acusada em Hong Kong de desvio de fundos da empresa para a qual trabalhava. Yuen deve cumprir oito anos de prisão; Wai cumprirá dez anos, condenado também por usar suas credenciais profissionais para acessar dados pessoais dos alvos da espionagem. Esse é o primeiro caso de condenação de pessoas acusadas de espionagem para a China em solo britânico. Segundo a Embaixada chinesa em Londres, as acusações britânicas são caluniosas.

Sociedade

Aqui e na China, a vida das mulheres não é fácil. O jornal britânico The Guardian publicou uma série de quatro reportagens sobre as dificuldades enfrentadas por meninas e mulheres chinesas, mas também sobre as formas como elas mesmas têm respondido e tomado a agência de suas vidas. Um dos tópicos presentes na série de reportagens, como tinha de ser, é a questão dos casamentos forçados e dos abusos. O texto, o terceiro da série, fala sobre como ativistas chinesas têm agido nas sombras para proteger e resgatar vítimas de casamentos forçados. O primeiro dos quatro textos adota um tom de esperança, com foco na agência das mulheres e na história de Chengdu, que tem, cada vez mais, espaços exclusivos para elas. Sem dourar a pílula, mas apontando para saídas, a última publicação da série fala sobre como o humor tem sido um bálsamo para lidar com dificuldades. 

Uma agulha no palheiro. Num momento em que as condições climáticas e ambientais nos enchem de ansiedade e apreensão, sinais positivos vêm da recuperação do rio Yangtze, na China, um dos mais importantes do país e um dos mais longos do mundo. Há um ano, o TV Al-Jazeera tinha feito uma reportagem sobre esse processo. Estudos independentes e, claro, o próprio governo chinês, mostram que a situação melhorou em 2026, sobretudo graças ao banimento de pesca. Mas vale lembrar que mora no rio a usina das Três Gargantas, projeto de mega hidrelétrica que coleciona críticas ambientais. Para quem quer entender melhor a importância e os problemas do Yangtze para além do factual, o diretor chinês Jia Zhangke fez dois filmes brilhantes que contam as mudanças que a usina trouxe à região e à sua população em Still Life (2006) e Caught by the Tides (2025).

Zheng He

Chá ou café: este longo texto no Elephant Room vai até a província de Yunnan – terra do café na China e do chá pu’er – para aprender sobre plantações e origens do mundo do chá e do café. Prepare um chá ou um cafezinho para ler.

Devagar: em terra de trens rápidos, quem ainda pega os trens antigos e demorados (e baratos) na China? Este pequeno documentário entrevista pessoas durante o feriadão do Ano Novo Lunar. A versão transcrita para o inglês está aqui.

IAIAIAI: Um artigo recém-publicado por pesquisadores de Hong Kong e Estocolmo indicou que o uso de inteligência artificial acelerou e melhorou a execução de lição de casa de estudantes chineses – mas chegou a derrubar as notas nas provas em até 20%.

Análise: este artigo do Made in China Journal traz uma reflexão sobre a história da cientista Joan Hinton, que nasceu nos EUA e se mudou para a China em 1948 e se tornou uma grande amiga do regime maoísta. A figura de Hinton foi usada como garota propaganda do comunista e o texto reflete sobre quão integrada de fato foi a experiência dela e sua família no país.

 

Vídeo da Folha de S. Paulo sobre a história em quadrinhos Meus Fantasmas, uma autobiografia de Tessa Hulls. Apesar do nome, a premiada HQ de Hulls conta a história da avó chinesa que fugiu para Hong Kong durante a Revolução Cultural, da sua mãe que emigrou para os EUA e dela própria. O livro acaba de ser lançado no Brasil.

 

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Por que com os pés?

"Warum mit den Füßen?" Não falo alemão, mas meu querido cunhado, Pedro Bial, fala ou pelo menos lê -e foi ele quem me contou da chamada, na primeira página do jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, numa edição de julho de 2006, durante a Copa: "Por que com os pés?". A resposta, num ensaio muito erudito (como se espera de um diário germânico), era simples e bela: porque é mais difícil. Leia mais (06/20/2026 - 16h45)

Defesa Civil alertou o Brasil de que nossa cibersegurança é um fiasco

Por volta de 23h45 desta sexta-feira (19) as primeiras mensagens de alerta extremo começaram a chegar em celulares de Curitiba. Nas duas horas seguintes, celulares no Distrito Federal, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Pará, Mato Grosso e outros estados começaram a disparar com o texto "misantropia" e um forte sinal sonoro acordando muita gente na madrugada. Até que a plataforma foi tirada do ar. Leia mais (06/20/2026 - 12h00)

Edição 396 – China, Copa e Inteligência Artificial: o país asiático em debate

Política e economia

Três desejos, zero gols. Afinal, cadê a China no Mundial?  Com a Copa do Mundo expandida para 48 seleções e a Ásia ganhando o dobro de vagas diretas, Xi Jinping finalmente teria sua chance. Isso porque, em 2011, quando ainda era vice-presidente, Xi declarou seus “três desejos” para o futebol chinês: o país se classificar, sediar os jogos e vencer o Mundial. Não foi daquela vez. A seleção terminou as eliminatórias atrás de Omã, Indonésia e Palestina, recuando da 82ª para a 94ª posição no ranking da FIFA desde 2016. A Shumian acompanha essa jornada há algum tempo, dos protestos nos estádios de Hong Kong contra Pequim ao estouro da bolha da Superliga Chinesa; tema sobre o qual nosso redator (Guilherme) chegou a publicar um artigo. O roteiro segue familiar; o boom de US$ 1,1 bilhão em contratações entre 2015 e 2017, financiado por incorporadoras imobiliárias, desmoronou junto com o setor, já que mais de 40 clubes faliram desde 2021, metade dos times da primeira divisão iniciou a temporada atual com pontos negativos por corrupção e o ex-técnico da seleção Li Tie admitiu ter pago US$ 440 mil pelo próprio cargo.

Há uma questão “filosófica”. O modelo chinês funciona para esportes olímpicos de repetição centralizada. O futebol conta com outros fatores como improviso, base comunitária e uma cultura que cresce de baixo para cima. A China tem 980 mil jogadores registrados; a Inglaterra, com 4% da população, tem mais federados e três vezes mais times amadores. Há sinais na base,  a liga amadora de Jiangsu Suchao acumulou 2,2 bilhões de visualizações com times de entregadores e professores, mas a seleção não estará no torneio. Mas nem tudo está perdido, as marcas chinesas marcaram presença em peso na Copa. Lenovo, Hisense e Mengniu ocupam posições de destaque entre os parceiros da FIFA, uma presença global sem a inconveniência de jogar.

Quantas pessoas são executadas pelo estado chinês a cada ano? Segundo a Anistia Internacional, não é possível saber ao certo; apesar disso, a organização colocou mais uma vez a China no topo de seu ranking anual, como destacou a Folha de S.Paulo. Embora alguns casos apurados pela Anistia fossem relacionados ao tráfico de drogas, a punição seria mais comumente uma forma de repressão política. A falta de dados se dá pela confidencialidade dessa informação, considerada um segredo de estado; além da China, Vietnã e Coreia do Norte também teriam realizado um número considerável, mas desconhecido, de execuções judiciais. Entre os 17 países que têm a pena capital, houve em 2025 um aumento de 78% no número de pessoas executadas em comparação com 2024, chegando a um total de 2707 ocorrências; esse número desconsidera os casos identificados na China – que, segundo estimativa da Anistia, passariam de mil.

Internacional

Jogo duplo. A China estaria usando IA para influenciar o próprio debate sobre IA nos EUA. É o que aponta a OpenAI em relatório publicado na semana passada, descrevendo dois clusters de contas do ChatGPT ligados à RPC banidos após uso em operações de influência encobertas: o primeiro, “Data Center Bandwagon”, gerou comentários associando data centers de IA ao aumento das contas de luz das famílias americanas; o segundo, “Tech and Tariffs”, produzia críticas às tarifas dos EUA com instrução explícita de não mencionar Xi Jinpin, só Trump. A rede ainda espalhou alegações falsas de vazamento de dados do ChatGPT. A OpenAI não encontrou evidências de que a operação tenha mudado a opinião pública, mas o gesto em si já diz bastante: enquanto o diplomata Richard Haass pede que encontros de alto nível entre Washington e Pequim se tornem rotina em vez de “notícia”, operadores vinculados à RPC tentavam infiltrar, com as próprias ferramentas que criticam, o debate que esse diálogo precisaria resolver. 

Eu te respeito, mas se voce veio na minha na casa falar do RIO TUMEN, você veio ao lugar errado. Xi Jinping visitou Kim Jong-un na Coreia do Norte na segunda-feira, sua primeira viagem ao exterior em 2026 e a primeira ao país desde 2019, completando uma rodada diplomática que incluiu Trump em maio e Putin logo em seguida. O líder chinês chegou com elogios à “amizade inabalável” entre os dois países, mas os temas espinhosos ficaram fora dos comunicados. Na desnuclearização, as posições seguem irreconciliáveis: a irmã de Kim declarou, na véspera da chegada de Xi, que o programa nuclear norte-coreano é “a linha do sem-retorno”, enquanto Washington e Pequim dizem compartilhar o objetivo de desnuclearizar a península. Mais silenciosa ainda foi a ausência de qualquer menção ao Rio Tumen, a estreita faixa de água que separa a Coreia do Norte da Rússia e bloqueia o acesso chinês ao Mar do Japão, uma aspiração histórica de Pequim desde que cedeu o território da região de Primorsky ao Império Russo em 1860. Moscou deu sinais positivos sobre a questão no mês passado, mas Pyongyang permanece reticente. Analistas apontam que a visita pode ser a forma de Xi equilibrar a influência crescente da Rússia sobre Kim, que enviou tropas à Ucrânia em troca de tecnologia e alimentos, mas o resultado prático foi uma coleção de frases sobre amizade eterna e nenhum acordo concreto. 

Chips para o Sul. A Huawei estuda implantar seus novos processadores Ascend de IA nos serviços de nuvem que oferece na América Latina, confirmou Mark Chen, presidente da Huawei Cloud para a região, em entrevista ao South China Morning Post durante o Rio Web Summit. Os chips Ascend, centrais na estratégia de Pequim para construir uma indústria de IA autossuficiente e reduzir a dependência de tecnologia americana, ainda estão em estágios iniciais de implantação na própria China: o primeiro modelo da família, foi lançado comercialmente em março, com Alibaba, ByteDance e DeepSeek entre os primeiros compradores. Chen não deu prazo para a chegada à região, mas o movimento aponta para uma disputa crescente no mercado latino-americano de infraestrutura de IA, dominado há anos por fornecedores americanos, e coloca o hardware chinês mais perto de uma região que tanto Pequim quanto Washington cortejam ativamente.

Sociedade

Junho é mês do quê? Foi-se o tempo em que a comunidade LGBTQIAP+ de Hong Kong podia celebrar seu orgulho em Hong Kong. Pelo segundo ano consecutivo, o evento de origem singapurense Pink Dot foi cancelado na cidade; a justificativa foi a indisponibilidade do espaço até então reservado para a feira. O cancelamento do Pink Dot chama especial atenção porque, ao contrário das marchas do Orgulho, o evento não tem um caráter abertamente político; apesar disso, especialistas ouvidos pela Hong Kong Free Press indicam que, no passado, o movimento LGBTQIAP+ contava com apoio vocal de diversas figuras centrais do movimento pró-democracia e de organizações da sociedade civil, uma associação que hoje pode pesar contra a comunidade.

Amor com ficha cadastral. Aos fins de semana, centenas de pais se reúnem no People’s Park de Xangai com um objetivo claro: encontrar cônjuge para seus filhos adultos, geralmente sem o conhecimento ou entusiasmo deles. A Paris Review publicou uma reportagem imersiva sobre esse mercado matrimonial, onde currículos substituem perfis de aplicativos, nível educacional, renda anual, altura, status de hukou, imóvel próprio ou alugado. Como já abordamos por aqui em outras ocasiões, o fenômeno não é novo, mas o contexto se aprofundou. A China registrou a menor taxa de natalidade de sua história (5,6 nascimentos por mil habitantes), o casamento está em queda há uma década e o desemprego juvenil chegou a 19%. “Sem salário, como vão poder namorar?”, resume um pai ouvido pela repórter. O que move os pais não é só tradição: com serviços públicos frágeis, a lógica é que filhos bem casados são a melhor aposentadoria disponível, e a feirinha do amor no parque é, no fundo, um termômetro da ansiedade de uma geração inteira.

Zheng He

Mudança: por aqui somos fãs de Mo Yan e voltamos à visita dele ao Brasil e fazemos trocadilho de um de seus livros para sugerir esse podcast, no qual Giorgio Sinedino fala sobre o impacto da vinda de Mo para a literatura chinesa no Brasil.

Portinari na China: a partir deste mês, o artista brasileiro terá sua primeira grande apresentação na Ásia. A mostra está exposta na Praça da Paz Celestial, em Pequim, e integra a programação oficial do ano do Turismo e da Cultura Brasil-China. A expectativa da organização é de que o famoso endereço receba até 4 milhões de visitantes para ver Portinari.

 

O governo brasileiro está apostando no mercado chinês para atrair turistas para o Brasil. Confira a peça publicitária da Embratur e diga para a gente: vai gerar resultado?

 

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PRESIDENTE DA CBF PASSOU MAIS DA METADE DO TEMPO COMO SERVIDOR PÚBLICO DE LICENÇA E APRESENTOU ATESTADO DE DEPRESSÃO NO DIA EM QUE CORREU DE KART

Um largo sorriso estampado no rosto, o troféu de campeão empunhado pelo braço direito e o número 1 com o indicador da mão esquerda apontando o lugar no alto do pódio.

A foto é o melhor resumo possível do dia 25 de março de 2023 no Kartódromo Gilberto de Araújo Sobrinho, em Boa Vista, Roraima.

O piloto do carro 25 dominou o sábado que abriu a temporada.

Vencedor na categoria “Graduados A” e terceiro lugar na “Força Livre”.

Foi o prenúncio de um ano de glórias do “Passarão”, que ao fim de oito etapas sagrou-se campeão roraimense da categoria “Força Livre” e quinto colocado na “Graduados A”.

A história que a foto não conta está em uma série de documentos obtidos pela reportagem. Registros públicos que permitem montar um quebra-cabeça.

O “Passarão” é o codinome de Samir Xaud no automobilismo.

Funcionário público, lotado como médico da Secretaria de Estado de Gestão Estratégica e Administração (SEGAD) de Roraima, Xaud estava sob licença médica e afastado do trabalho no dia da prova de kart citada.

O documento registrava “incapacidade para o exercício das funções” e “incapacidade para o exercício de outras funções correlatas”.

Um episódio longe de ser um caso isolado. O cruzamento dos atos publicados no Diário Oficial do Estado de Roraima com documentos obtidos através de Lei de Acesso à Informação (LAI) mostra que o agora presidente da CBF passou mais da metade do tempo em que esteve como servidor afastado do exercício do cargo.

Amparado em licenças que descreviam distintas razões: tratamento médico em diferentes situações, licença para candidatura a deputado, licença por atividade classista, cessão para o tribunal de justiça e licença psiquiátrica.

Samir Xaud foi médico da secretaria de saúde de Roraima entre 24 de fevereiro de 2014 a 16 de maio de 2025, quando pediu a licença sem remuneração por 2 anos atualmente em vigor para ocupar a presidência da CBF.

MAIS FORA DO QUE DENTRO: XAUD PASSOU 51,05% DO TEMPO LONGE DO EXERCÍCIO DO CARGO PÚBLICO

Os números desse período no serviço público em que o atual presidente da CBF esteve fora do exercício de suas funções chamam a atenção.

Do ingresso no funcionalismo em 2014 até a licença vigente desde 16 de maio 2025, foram 4.100 dias.

Desse total, Samir Xaud esteve por 2.007 dias no exercício regular do cargo.

E em 2.093 dias estava de licença.

Aproximadamente uma licença a cada nove meses.

Uma rotina iniciada logo no ano seguinte da posse e que se intensificou na sequência.

Total fora do exercício do cargo público: 51,05% dos dias.

(Eventualmente, de acordo com a metodologia adotada, os números em questão sobre dias de licença e dias trabalhados podem divergir em pequena margem. A reportagem adotou como critério o mesmo utilizado por auditorias funcionais e cálculos de afastamento, ou seja, valendo-se das datas reais de início e fim do afastamento e não a mais frequentemente utilizada, a equivalência genérica, ou seja “um mês igual a 30 dias”. Nosso cálculo respeitou o cruzamento entre o calendário real dos dias e meses abordados e as licenças).

RESUMO:

TOTAL DOS DIAS ENTRE ADMISSÃO E INÍCIO DA ATUAL LICENÇA: 4.100 DIAS

TOTAL DOS DIAS TRABALHADOS: 2.007

TOTAL DOS DIAS EM LICENÇA OU CEDIDO: 2.093

PORCENTAGEM DOS DIAS EM LICENÇA: 51.05%

MÉDIA: UMA LICENÇA A CADA NOVE MESES DE TRABALHO

Em alguns casos, como no período em que correu a prova de kart em março de 2023, a licença descreveu um quadro de gravidade e as citadas incapacidades.

O documento emitido pela Divisão de Perícias Médicas´(DPMST), órgão da SEGAD, de Roraima, apontou para um diagnóstico com duas enfermidades enquadradas pela CID-10 (Classificação Internacional de Doenças- 10ª Revisão), sistema mundial que padroniza os diferentes tipos de doenças.

O item 9 da peça assinala um paciente com duas doenças no código da CID-10: a F43.0 e a Z73.0.

“SENSAÇÃO DE INCAPACIDADE FUNCIONAL”

A F43.0 é uma reação aguda ao estresse. De acordo com a literatura médica e os profissionais consultados pela reportagem, trata-se de um quadro psiquiátrico transitório, que pode ter sido desencadeado por evento ou situação de forte estresse psicológico. Entre os efeitos colaterais, podem estar a ansiedade intensa, desorientação, eventual crise emocional, sensação de incapacidade funcional, entre outros sintomas. A incapacidade funcional se caracteriza por dificuldade ou impossibilidade de realizar tarefas cotidianas necessárias para viver de forma independente, entre elas, impossibilidade ou redução de mobilidade.

Já a Z73.0 aborda um estado de exaustão. Mais conhecido nos dias atuais como o “burnout’. Nas descrições da CID-10, é tratado como um “estado de esgotamento” e associado a uma fadiga extrema, esgotamento físico e mental e estresse crônico.

De acordo com o documento, os 30 dias começaram a valer no dia 15 de março de 2023. A peça apresentava uma atipicidade: foi assinada em 3 de abril do mesmo ano, alguns dias após o início da licença. Uma junta de três profissionais da “Divisão de Perícias Médicas (DPMST)” da SEGAD assina a peça.

No mês anterior desta licença que coincide com a prova de kart, Samir Xaud obtivera outro atestado. No dia 13 de fevereiro de 2023, um médico psiquiatra de consultório particular assinou laudo recomendando, com caráter de urgência, uma dispensa de 30 dias, e uso de Mirtazapina, antidepressivo com potente efeito sedativo cujos efeitos colaterais descritos na literatura científica do tema são relevantes e de difícil compatibilidade em disputas automobilísticas: sonolência severa, letargia, tontura, diminuição dos reflexos e tremores. Pacientes em tratamento com o remédio costumam ser orientados a não conduzir nem mesmo veículos de passeio, de acordo com as referências médicas.

“INICIAMOS O ANO COM PÉ DIREITO APERTANDO FUNDO O ACELERADOR”, DIZ POSTAGEM DE XAUD EM DATA DE LICENÇA POR QUADRO DEPRESSIVO

Já os registros da imprensa local sobre o campeonato roraimense de kart no período, assim como os do Kart Clube Roraima, mostravam atividade intensa.

As redes sociais também mostram outro retrato, com o atual presidente da CBF esbanjando festejos em vídeos e postagens por seus feitos no kart, além de euforia com os novos passos em seus negócios particulares. Tudo bem distinto da incapacidade funcional do laudo e de paciente fazendo uso de antidepressivos:

No dia 23 de março, Samir Xaud anunciou a inauguração do CORE, um centro de treinamento em Boa Vista com academia, crossfit e musculação.

Em 26 de março, dia seguinte da prova, além de celebrar a conquista, deu o recado: “Iniciamos o ano com pé direito apertando fundo o acelerador!”.

Três dias depois da corrida, no dia 28, postou fotos em ação na competição durante o período em que a licença médica declarava incapacidade, além de fotos deitado com o troféu e escreveu: “Um sábado agradável. Fazendo o que gosto”.

Antes, em 5 de março, em pleno período que passava pela licença médica concedida por psiquiatra, escreveu com letras maiúsculas: “Loading” (carregando). E anunciou: “Vamos iniciar 2023 com muitas mudanças”. Em 28 de junho, inaugurava com alarde a Nauru Crossfit, academia de ginástica, de onde passaria a publicar vários vídeos se exercitando.

COINCIDÊNCIA: LICENÇA EM PLENA PANDEMIA COINCIDIU COM FINAL DE CESSÃO AO TRIBUNAL DE JUSTIÇA

A cronologia de licenças concedidas a Samir Xaud revela outra atipicidade em 2021.

Em 1º de julho de 2020, em plena pandemia, Samir Xaud, médico infectologista, foi cedido ao Tribunal de Justiça de Roraima para exercer o cargo em comissão de “Assessor Técnico 1” para um período de 7 meses.

No dia 4 de fevereiro de 2021, a cessão foi encerrada.

A devolução para o front da saúde durou apenas 24 horas. No dia seguinte, 5 de fevereiro, o agora presidente da CBF ingressou com pedido de licença médica para tratamento de saúde psiquiátrica por 45 dias, em laudo emitido por profissional de consultório particular.

“Atesto que Samir de Araújo Xaud iniciou tratamento para síndrome depressiva sendo prescrito Duloxetina e Rivotril. Paciente com humor deprimido, anhedonia disforia, desatenção, falta de sono insônia, manifestações somáticas (dores, artralgia, mialgia, astenia, anorexia), humor com sintomas fóbicos e crises ansiosas. Paciente necessita de 45 (quarenta e cinco) dias de afastamento das condições laborais, de trabalho”.

Sintomas como a anhedonia significam perda de capacidade de sentir prazer em atividades do cotidiano antes agradáveis como hobbies ou afins.

O laudo do dia 5 de fevereiro de 2021 apontou diagnóstico de CID F41.2, que é o “transtorno misto ansioso e depressivo”. O laudo também menciona “síndrome depressiva” acompanhada de “crises ansiosas”.

A data descrita no atestado coincide também com período de intensa movimentação do atual presidente da CBF pelos cartórios de Roraima.

Na ocasião, Xaud buscava a regularização de um terreno em Roraima situado em uma área de proteção ambiental.

Em 19 de março de 2021, em meio ao declarado quadro depressivo, Samir Xaud registrou a escritura de posse da Fazenda Paraíso Perdido. Na certidão, afirmou “ter a posse” da terra desde maio de 2008. Ou seja, de acordo com a peça assinada de próprio punho, Samir Xaud só teria feito o registro no tabelionato 13 anos depois de obter a posse da fazenda, como mostrou reportagem do UOL de 21 de maio de 2025. Apesar da assinatura em cartório, Samir Xaud negou os registros na ocasião da publicação.

VERACIDADE DE ATESTADO MÉDICO APRESENTADO POR XAUD CHEGOU A SER INVESTIGADA: “POSSÍVEL INDÍCIO DE GRACIOSIDADE”

No dia 17 de novembro de 2021, Xaud se licenciou por 30 dias. O atestado fala novamente em quadro de transtorno misto ansioso e depressivo e dificuldades físicas e mentais relacionadas ao trabalho (estresse ocupacional, problemas relacionados ao ambiente laboral e à atividade profissional).

No ofício nº 1373/2021 da secretaria de saúde do estado obtido pela reportagem, datado de 13 de dezembro do mesmo ano, Anderson Benetta, então diretor do Hospital Geral de Roraima, enviou solicitação ao Conselho Regional de Medicina de Roraima (CRM-RR) para que o órgão, através de sua corregedoria, investigasse possível indício de falsidade ou irregularidade no atestado apresentado por Samir Xaud em decorrência da falta no plantão de 26 de novembro. A peça pede para que se avalie “possível indício de graciosidade em atestado médico”. A investigação não resultou em punição conhecida e o episódio foi posteriormente arquivado.

“POUCA PRESENÇA NA ROTINA DA SECRETARIA”

O último cargo de Xaud na gestão pública veio através de uma cessão do estado para a prefeitura em outubro de 2023 ao ser nomeado como secretário-adjunto de Saúde do Município de Boa Vista (RR).

De acordo com a Folha de São Paulo de 23 de maio de 2025, de autoria de Fábio Victor, “integrantes do Ministério Público e pessoas ligadas à administração municipal descreviam Xaud como um gestor de pouca presença efetiva na rotina da secretaria, apesar de ocupar um dos principais cargos da pasta. A reportagem relata que promotores teriam encontrado dificuldades para manter contato institucional com ele durante o período em que exerceu a função”.

“ELE NUNCA APARECEU”

“É uma administração bem complexa, em que o secretário descentraliza demandas para os seus subordinados. Ele nunca apareceu, nunca assinou, nunca respondeu ofício, nunca fez nada”, disse então o promotor Igor Naves, titular da Promotoria da Saúde do Ministério Público de Roraima desde 2021, sobre o período do dirigente na secretaria. E prosseguiu: “Na rádio peão, como dizem, corre que Xaud nem aparecia para trabalhar”.

Nesse período, o Ministério Público chegou a oficiar a secretaria de saúde para prestar esclarecimentos sobre nomeação de funcionários fantasmas, sem, no entanto, instaurar uma investigação formal que chegasse a uma conclusão pública sobre as suspeitas.

No ano de 2024, ainda secretário-adjunto de saúde, Samir Xaud integrou a comitiva da CBF para acompanhar a Copa América dos Estados Unidos, realizada entre 20 de junho a 14 de julho. A reportagem não encontrou a licença respectiva.

Em 26 de agosto de 2024, a cessão de Samir Xaud da secretaria de saúde do estado para a prefeitura foi prorrogada por mais um ano.                    

No dia 15 de maio de 2025, Samir Xaud ingressou na secretaria de saúde do estado de Roraima com mais um pedido de licença.

 A última de um longo histórico e um repetido padrão.

Onze anos e dezesseis licenças depois, sendo seis desses pedidos por motivos de saúde, duas para dedicar-se a campanha política sem interromper a remuneração, cessões para tribunal de justiça, prefeitura e para mandato classista (presidente do sindicato dos médicos de Roraima), veio a mais surpreendente de todas: a primeira expressa no documento “por interesse particular”, sem remuneração. Uma dispensa por dois anos. 

Dez dias depois, no dia 25 de maio, sem jamais ter presidido uma federação de futebol por nenhum dia, num grande acordo nacional, foi eleito presidente da CBF.

De lá para cá, completou um ano inteiro sem qualquer problema de saúde ou qualquer tipo de licença.

Pela primeira vez nos últimos onze anos.

*OBS1-

Existe uma divergência entre o pedido de licença de Samir de Araújo Xaud junto à secretaria de saúde para cursar pós-graduação e a data do diploma. O pedido de licença de Samir Xaud na secretaria é de 16 de setembro de 2019. Mas não está apontada a data do fim da licença, e não obtivemos registros sobre a conclusão da pós nesse momento. No entanto, de acordo com o diploma de conclusão da pós em “especialização em medicina do exercício e do esporte” na Faculdade Paulista de Serviço Social (FAPSS) obtido pela reportagem, o curso foi realizado entre 12 de março de 2021 e 28 de agosto de 2022. Nessa data, não encontramos pedido de licença. Portanto, para fins de contabilidade de afastamento, não está contabilizado afastamento para a pós-graduação.

**OBS2-

A reportagem adotou o critério de contabilizar como total os 4.100 dias de licença entre o ingresso no funcionalismo, em 24 de fevereiro de 2014 até 16 de maio de 2025. A licença atual, desde 16 de maio de 2025, válida por 2 anos, não está adotada por ainda estar em curso e sem remuneração.

OUTRO LADO:

A reportagem enviou questões sobre o tema para Samir Xaud por meio da assessoria de imprensa da CBF, que enviou a resposta abaixo:

“A CBF não irá responder às questões”.

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