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Edição 398 – Um até logo (e algumas notícias)


Queridos leitores da Shūmiàn 书面: Esta é a nossa última newsletter semanal por um tempo. Estamos entrando em um hiato para pensar como seguir.

Durante este hiato, nosso Clube do Livro de Literatura Chinesa seguirá forte como sempre; se você é nosso leitor e ainda não faz parte do Clube, fica aqui o convite. Agradecemos de coração a sua atenção e leitura das nossas newsletters até aqui e aos nossos parceiros e parceiras que ajudaram a construir o que somos.


 

Política e economia

Um acidente de avião pegou Pequim desprevenida na tarde de sexta-feira (26). A aeronave de pequeno porte atingiu o arranha-céu mais alto da cidade, a CITIC Tower, e posteriormente caiu próximo ao prédio. As vítimas foram 13 pessoas que sofreram machucados, além do piloto – que faleceu no impacto. O governo distrital de Chaoyang, o principal centro financeiro da cidade e onde fica o prédio, informou que apenas o piloto estava na aeronave. Uma série de vídeos circulou nas redes dentro e fora da China, e diversos rapidamente foram removidos, com silêncio da mídia estatal, e o espaço aéreo foi parcialmente fechado por algumas horas. Além disso, pouco se sabe sobre as causas, conforme conta a CNN. O acidente só foi confirmado pelas autoridades chinesas no dia seguinte. O espaço aéreo chinês é altamente controlado, especialmente na capital, e no começo do ano já havia restringido o uso de drones – que passaram a precisar de um registro especial para circular. 

Grandes responsabilidades. O que separa um crime comum de um crime contra a segurança nacional chinesa em Hong Kong? De acordo com uma regulamentação aprovada pelo Conselho Legislativo local no dia 11 de junho (e em vigor no mesmo dia), essa resposta pode depender da opinião do líder da cidade. De acordo com o atual ocupante do cargo, John Lee, o poder de indicar quais casos aparentemente comuns ameaçam a nação visa tornar a Lei de Segurança Nacional “ainda mais clara” e “reduzir controvérsias e debates na corte”.  O secretário de segurança local declarou que o mecanismo deve ser usado raramente; no entanto, a notícia causou reações negativas na opinião pública local e internacional, uma vez que casos sob a LSN estão sujeitos a penas mais longas e liberdade provisória limitada; além disso, tais julgamentos são comumente acusados de viés pró-governo – a taxa de condenação nesses casos, de acordo com dados oficiais, é de 80%. Por outro lado, em um editorial no China Daily deste domingo (28), o advogado e político pró-Pequim Christopher Wong defende que a Lei de Segurança Nacional vem provando seu valor nos seis anos desde sua aprovação, “punindo poucos e protegendo a maioria”.

Novos tempos. A crise empregatícia enfrentada pelos jovens chineses só se tornou mais preocupante em tempos de inteligência artificial. Um desafio que se mostra global, a China tem nos últimos ensaiado políticas, incluindo redesenhando grades curriculares e encerrando alguns cursos de graduação, para acompanhar o ritmo e alinhar as universidades com o projeto de desenvolvimento nacional. Esta matéria da Rest of World conta como uma nova pesquisa em 70 universidades mostra cortes (como suspensão de turmas) em cursos de alguns idiomas (japonês e alemão), em marketing, gestão de logística, e gestão pública. Contudo, a pesquisa mostra que até engenharia da computação teve matrículas suspensas. Os ajustes parecem também cobrir um certo reequilíbrio após o boom. Ao mesmo tempo, a matéria indica que novos cursos foram criados trazendo IA de forma importante em alguns currículos da área de Humanidades, como cursos de tradução – um ponto também analisado no china policy.

Internacional

Significa? Mais dias tensos para os observadores dos mares ao redor de Taiwan que tentam divinar o que significam os movimentos chineses na região. Na última terça-feira (23), o Fujian, porta-aviões mais avançado da China, atravessou o estreito, segundo o governo local. Desde meados de junho, a guarda-costeira de Pequim já vem patrulhando a região, medida tomada em reação a declarações de Japão e Filipinas sobre a revisão dos limites de seus territórios marítimos. Taipei considera que a movimentação indica que um ataque chinês ao território é iminente, e iniciou simulações de contra-ataque; Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha se declararam contrários à atitude de Pequim, que afirmou apenas exercer sua jurisdição e pediu que os países respeitem sua soberania.

Menos de um ano após a inauguração da sua fábrica na Bahia, a BYD anunciou que vai acelerar a produção de baterias no Brasil, além de ter divulgado que realizará investimentos de R$ 500 milhões no sistema de armazenamento de energia em baterias para participar do primeiro leilão de baterias a ser realizado no final do ano no país. O objetivo é ter até 50% da produção dos veículos de passeio realizada localmente até 2027, conta a matéria da CNN. Nos últimos meses, a empresa chinesa tem enfrentado uma série de críticas: em março, foi acusada nas redes sociais de trazer 10 mil trabalhadores chineses em vez de contratar funcionários localmente, o que não se confirmou. A empresa desmentiu e anunciou que os novos alojamentos que está construindo são para brasileiros – que obrigatoriamente devem ser 70% da mão de obra da fábrica. A mão de obra chinesa que chegou no começo do ano seria de funcionários temporários. Em abril, foi incluída durante três dias na “lista suja” de trabalho análogo à escravidão a partir da autuação do Ministério Público do Trabalho em 2025. Em maio, uma matéria da BBC brasileira contou mais detalhes sobre a operação.

Sociedade

É um negócio complicado. A sustentabilidade da estratégia de pequenas cidades chinesas de viralizarem nas redes e atraírem turistas é questionada neste texto da jornalista Zeng Shi. Nos dias de hoje, não é incomum que governos locais tentem nutrir e surfar em vídeos de influenciadores turistas – mas os altos investimentos nesses momentos é pouco sustentável e não garante o retorno que promete, principalmente pela falta de investimento em infraestrutura e serviços no longo prazo. Governos tendem a apostar em locais “instagramáveis” e que cansam rápido, replicando e padronizando o que já viralizou (sobre o tema, vale relembrar essa excelente discussão na falecida Chaoyang Trap sobre wanghong). Em tempos de economia da atenção, todo dia algo viral acontece e o que foi viral ontem é rapidamente esquecido.  

Ética. Em tempos de debate sobre divulgação de bets no Brasil, a ética da profissão de influenciador também vem sendo pauta na China. Lá em março, um influenciador de livros (booktoker, como são conhecidos) dedicou 25 minutos de vídeo a criticar as práticas de alguns colegas de profissão; um deles, não identificado, foi acusado de manipulação ao falar do mesmíssimo jeito sobre muitos dos 700 livros que recomendou ao longo de um único ano. Hoje, na China (e em muitos países), editoras usam influenciadores e principalmente booktokers para divulgar livros e criar buzz em torno de obras – mas, apesar de muitos trabalharem de forma honesta, embora precária, escândalos assim colocam em xeque a credibilidade ao mesmo tempo em que a lógica do mercado coloca pressão na comunidade, como discute este texto do site The World of Chinese.

Zheng He

Origem: como que o lying flat virou a tendência que virou nos últimos anos? Tem comunicado do Ministério de Segurança Estatal (onde fica o aparato de inteligência do Partido Comunista) que diz que é influência estrangeira para desanimar a galera, mas os netizens seguem afirmando que é apenas o capitalismo tardio. 

E o jovem a fiar: esta matéria da Sixth Tone mostra como manualidades envolvendo costura, crochê, tricô e afins com lã, estão crescendo em popularidade entre jovens chinesas. 

Miau: através da lente do fotógrafo holandês Marcel Heijnen, a conta Chinese Whiskers registra diversos belíssimos gatos, principalmente chineses. Heijnen já lançou um livro de gatos das lojas e mercados de Hong Kong e publicou um de gatos de mais de 20 cidades na China. Agora, vai lançar quatro volumes com a mesma temática. Excelente.

Opa: sabe aquele look tradicional chinês que você viu no brechó? Talvez seja de uma cerimônia funerária.

 

Não é porque a China não está na Copa do Mundo de futebol masculino que as empresas chinesas não podem surfar essa onda. Um bom exemplo, como mostra o vídeo, é o sucesso da nova e nonsense campanha internacional do chá Wang Lao Ji, que tem quase dois séculos de tradição: o garoto propaganda da vez é o boleiro norueguês Erling Haaland.

 

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Edição 397 – Rodada de investimento para o DeepSeek

Política e economia

Esse foi fundo. Segundo relatos (não confirmados pela Reuters), a startup queridinha da galera DeepSeek fez história na sua primeira rodada de captação externa – conhecida como Série A. No começo de junho, a estimativa divulgada na NeoFeed falava em expectativa de captação de 50 bilhões de yuan (em torno de 7,4 bilhões de dólares) – o que, segundo o Pandaily, foi o que de fato ocorreu na conclusão da rodada no dia 16. Ela se torna a startup de IA chinesa mais bem avaliada, no caso em 400 bilhões de yuan (51 bilhões de dólares). Os valores “normais” de uma Série A nos EUA, em média, ficam nos 20 milhões de dólares, ainda que os hypados do mundo de IA sejam outro universo. Por exemplo, a OpenAI recebeu 1 bilhão de dólares na Série A há alguns anos atrás e quebrou alguns recordes nas fases seguintes. A matéria da NeoFeed também conta como a DeepSeek ainda não anunciou planos para abrir um IPO e como a sua fama surfou na lógica de baixos custos – e agora há maior demanda por altos gastos com o desenvolvimento de IA agêntica.

Além do valor altíssimo, chamou atenção no relato a estrutura de governança desses fundos. Sob a liderança do fundador Liang Wenfeng, o dinheiro não vai diretamente para a DeepSeek, mas sim um novo ente jurídico. Ademais, boa parte dos investidores não terá poder de voto de forma a proteger a empresa (e Liang) de futuras mudanças. As matérias relatam que o fundador colocou 20 bilhões de yuan do seu próprio dinheiro. E o destaque fica que o Fundo Nacional de Indústria de IA – do estado chinês – que colocou 1 bilhão de yuan na startup. Os principais investidores são a Tencent Holding, JD.com, NetEase e surpreendentemente a CATL (de baterias).

Internacional

Sem cabo para você. Em uma história muito surreal, o ministro do transporte e das comunicações do Chile perdeu o visto para os Estados Unidos por conta de negociações com a China sobre um cabo submarino, conta esta matéria da Rest of World. O plano era conectar a América do Sul a Hong Kong de forma direta com um novo cabo submarino, algo que estava em negociação no último ano. Contudo, em fevereiro de 2026, o então ministro Juan Carlos Muñoz e mais dois funcionários de alto nível foram informados que os seus vistos diplomáticos para os EUA foram cancelados sob o argumento de atividades que ofereciam perigo à infraestrutura crítica na região. Eles estavam analisando uma proposta da estatal China Mobile de um cabo de 500 milhões de dólares, que avançava nos trâmites. O ex-presidente Gabriel Boric deu um basta na proposta após tensões com o governo dos EUA. O desafio agora é do novo governo de José Antonio Kast, que assumiu a presidência em março. No discurso, Kast é bastante alinhado à Trump, ainda que queira manter boas relações com a China. 

O Reino Unido condenou dois homens por espionagem para a China. Os cidadãos sino-britânicos Chung Biu “Bill” Yuen, e Chi Leung “Peter” Wai, ex-trabalhadores do serviço de fronteiras britânico, teriam monitorado as atividades de exilados honconguenses pró-democracia entre 2023 e 2024. A prisão de ambos ocorreu após uma tentativa frustrada de sequestrar Monica Kwong em sua casa em maio de 2024, operação que envolveu um terceiro cidadão britânico, Matthew Trickett, que foi encontrado morto no mesmo ano; Kwong é acusada em Hong Kong de desvio de fundos da empresa para a qual trabalhava. Yuen deve cumprir oito anos de prisão; Wai cumprirá dez anos, condenado também por usar suas credenciais profissionais para acessar dados pessoais dos alvos da espionagem. Esse é o primeiro caso de condenação de pessoas acusadas de espionagem para a China em solo britânico. Segundo a Embaixada chinesa em Londres, as acusações britânicas são caluniosas.

Sociedade

Aqui e na China, a vida das mulheres não é fácil. O jornal britânico The Guardian publicou uma série de quatro reportagens sobre as dificuldades enfrentadas por meninas e mulheres chinesas, mas também sobre as formas como elas mesmas têm respondido e tomado a agência de suas vidas. Um dos tópicos presentes na série de reportagens, como tinha de ser, é a questão dos casamentos forçados e dos abusos. O texto, o terceiro da série, fala sobre como ativistas chinesas têm agido nas sombras para proteger e resgatar vítimas de casamentos forçados. O primeiro dos quatro textos adota um tom de esperança, com foco na agência das mulheres e na história de Chengdu, que tem, cada vez mais, espaços exclusivos para elas. Sem dourar a pílula, mas apontando para saídas, a última publicação da série fala sobre como o humor tem sido um bálsamo para lidar com dificuldades. 

Uma agulha no palheiro. Num momento em que as condições climáticas e ambientais nos enchem de ansiedade e apreensão, sinais positivos vêm da recuperação do rio Yangtze, na China, um dos mais importantes do país e um dos mais longos do mundo. Há um ano, o TV Al-Jazeera tinha feito uma reportagem sobre esse processo. Estudos independentes e, claro, o próprio governo chinês, mostram que a situação melhorou em 2026, sobretudo graças ao banimento de pesca. Mas vale lembrar que mora no rio a usina das Três Gargantas, projeto de mega hidrelétrica que coleciona críticas ambientais. Para quem quer entender melhor a importância e os problemas do Yangtze para além do factual, o diretor chinês Jia Zhangke fez dois filmes brilhantes que contam as mudanças que a usina trouxe à região e à sua população em Still Life (2006) e Caught by the Tides (2025).

Zheng He

Chá ou café: este longo texto no Elephant Room vai até a província de Yunnan – terra do café na China e do chá pu’er – para aprender sobre plantações e origens do mundo do chá e do café. Prepare um chá ou um cafezinho para ler.

Devagar: em terra de trens rápidos, quem ainda pega os trens antigos e demorados (e baratos) na China? Este pequeno documentário entrevista pessoas durante o feriadão do Ano Novo Lunar. A versão transcrita para o inglês está aqui.

IAIAIAI: Um artigo recém-publicado por pesquisadores de Hong Kong e Estocolmo indicou que o uso de inteligência artificial acelerou e melhorou a execução de lição de casa de estudantes chineses – mas chegou a derrubar as notas nas provas em até 20%.

Análise: este artigo do Made in China Journal traz uma reflexão sobre a história da cientista Joan Hinton, que nasceu nos EUA e se mudou para a China em 1948 e se tornou uma grande amiga do regime maoísta. A figura de Hinton foi usada como garota propaganda do comunista e o texto reflete sobre quão integrada de fato foi a experiência dela e sua família no país.

 

Vídeo da Folha de S. Paulo sobre a história em quadrinhos Meus Fantasmas, uma autobiografia de Tessa Hulls. Apesar do nome, a premiada HQ de Hulls conta a história da avó chinesa que fugiu para Hong Kong durante a Revolução Cultural, da sua mãe que emigrou para os EUA e dela própria. O livro acaba de ser lançado no Brasil.

 

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Edição 396 – China, Copa e Inteligência Artificial: o país asiático em debate

Política e economia

Três desejos, zero gols. Afinal, cadê a China no Mundial?  Com a Copa do Mundo expandida para 48 seleções e a Ásia ganhando o dobro de vagas diretas, Xi Jinping finalmente teria sua chance. Isso porque, em 2011, quando ainda era vice-presidente, Xi declarou seus “três desejos” para o futebol chinês: o país se classificar, sediar os jogos e vencer o Mundial. Não foi daquela vez. A seleção terminou as eliminatórias atrás de Omã, Indonésia e Palestina, recuando da 82ª para a 94ª posição no ranking da FIFA desde 2016. A Shumian acompanha essa jornada há algum tempo, dos protestos nos estádios de Hong Kong contra Pequim ao estouro da bolha da Superliga Chinesa; tema sobre o qual nosso redator (Guilherme) chegou a publicar um artigo. O roteiro segue familiar; o boom de US$ 1,1 bilhão em contratações entre 2015 e 2017, financiado por incorporadoras imobiliárias, desmoronou junto com o setor, já que mais de 40 clubes faliram desde 2021, metade dos times da primeira divisão iniciou a temporada atual com pontos negativos por corrupção e o ex-técnico da seleção Li Tie admitiu ter pago US$ 440 mil pelo próprio cargo.

Há uma questão “filosófica”. O modelo chinês funciona para esportes olímpicos de repetição centralizada. O futebol conta com outros fatores como improviso, base comunitária e uma cultura que cresce de baixo para cima. A China tem 980 mil jogadores registrados; a Inglaterra, com 4% da população, tem mais federados e três vezes mais times amadores. Há sinais na base,  a liga amadora de Jiangsu Suchao acumulou 2,2 bilhões de visualizações com times de entregadores e professores, mas a seleção não estará no torneio. Mas nem tudo está perdido, as marcas chinesas marcaram presença em peso na Copa. Lenovo, Hisense e Mengniu ocupam posições de destaque entre os parceiros da FIFA, uma presença global sem a inconveniência de jogar.

Quantas pessoas são executadas pelo estado chinês a cada ano? Segundo a Anistia Internacional, não é possível saber ao certo; apesar disso, a organização colocou mais uma vez a China no topo de seu ranking anual, como destacou a Folha de S.Paulo. Embora alguns casos apurados pela Anistia fossem relacionados ao tráfico de drogas, a punição seria mais comumente uma forma de repressão política. A falta de dados se dá pela confidencialidade dessa informação, considerada um segredo de estado; além da China, Vietnã e Coreia do Norte também teriam realizado um número considerável, mas desconhecido, de execuções judiciais. Entre os 17 países que têm a pena capital, houve em 2025 um aumento de 78% no número de pessoas executadas em comparação com 2024, chegando a um total de 2707 ocorrências; esse número desconsidera os casos identificados na China – que, segundo estimativa da Anistia, passariam de mil.

Internacional

Jogo duplo. A China estaria usando IA para influenciar o próprio debate sobre IA nos EUA. É o que aponta a OpenAI em relatório publicado na semana passada, descrevendo dois clusters de contas do ChatGPT ligados à RPC banidos após uso em operações de influência encobertas: o primeiro, “Data Center Bandwagon”, gerou comentários associando data centers de IA ao aumento das contas de luz das famílias americanas; o segundo, “Tech and Tariffs”, produzia críticas às tarifas dos EUA com instrução explícita de não mencionar Xi Jinpin, só Trump. A rede ainda espalhou alegações falsas de vazamento de dados do ChatGPT. A OpenAI não encontrou evidências de que a operação tenha mudado a opinião pública, mas o gesto em si já diz bastante: enquanto o diplomata Richard Haass pede que encontros de alto nível entre Washington e Pequim se tornem rotina em vez de “notícia”, operadores vinculados à RPC tentavam infiltrar, com as próprias ferramentas que criticam, o debate que esse diálogo precisaria resolver. 

Eu te respeito, mas se voce veio na minha na casa falar do RIO TUMEN, você veio ao lugar errado. Xi Jinping visitou Kim Jong-un na Coreia do Norte na segunda-feira, sua primeira viagem ao exterior em 2026 e a primeira ao país desde 2019, completando uma rodada diplomática que incluiu Trump em maio e Putin logo em seguida. O líder chinês chegou com elogios à “amizade inabalável” entre os dois países, mas os temas espinhosos ficaram fora dos comunicados. Na desnuclearização, as posições seguem irreconciliáveis: a irmã de Kim declarou, na véspera da chegada de Xi, que o programa nuclear norte-coreano é “a linha do sem-retorno”, enquanto Washington e Pequim dizem compartilhar o objetivo de desnuclearizar a península. Mais silenciosa ainda foi a ausência de qualquer menção ao Rio Tumen, a estreita faixa de água que separa a Coreia do Norte da Rússia e bloqueia o acesso chinês ao Mar do Japão, uma aspiração histórica de Pequim desde que cedeu o território da região de Primorsky ao Império Russo em 1860. Moscou deu sinais positivos sobre a questão no mês passado, mas Pyongyang permanece reticente. Analistas apontam que a visita pode ser a forma de Xi equilibrar a influência crescente da Rússia sobre Kim, que enviou tropas à Ucrânia em troca de tecnologia e alimentos, mas o resultado prático foi uma coleção de frases sobre amizade eterna e nenhum acordo concreto. 

Chips para o Sul. A Huawei estuda implantar seus novos processadores Ascend de IA nos serviços de nuvem que oferece na América Latina, confirmou Mark Chen, presidente da Huawei Cloud para a região, em entrevista ao South China Morning Post durante o Rio Web Summit. Os chips Ascend, centrais na estratégia de Pequim para construir uma indústria de IA autossuficiente e reduzir a dependência de tecnologia americana, ainda estão em estágios iniciais de implantação na própria China: o primeiro modelo da família, foi lançado comercialmente em março, com Alibaba, ByteDance e DeepSeek entre os primeiros compradores. Chen não deu prazo para a chegada à região, mas o movimento aponta para uma disputa crescente no mercado latino-americano de infraestrutura de IA, dominado há anos por fornecedores americanos, e coloca o hardware chinês mais perto de uma região que tanto Pequim quanto Washington cortejam ativamente.

Sociedade

Junho é mês do quê? Foi-se o tempo em que a comunidade LGBTQIAP+ de Hong Kong podia celebrar seu orgulho em Hong Kong. Pelo segundo ano consecutivo, o evento de origem singapurense Pink Dot foi cancelado na cidade; a justificativa foi a indisponibilidade do espaço até então reservado para a feira. O cancelamento do Pink Dot chama especial atenção porque, ao contrário das marchas do Orgulho, o evento não tem um caráter abertamente político; apesar disso, especialistas ouvidos pela Hong Kong Free Press indicam que, no passado, o movimento LGBTQIAP+ contava com apoio vocal de diversas figuras centrais do movimento pró-democracia e de organizações da sociedade civil, uma associação que hoje pode pesar contra a comunidade.

Amor com ficha cadastral. Aos fins de semana, centenas de pais se reúnem no People’s Park de Xangai com um objetivo claro: encontrar cônjuge para seus filhos adultos, geralmente sem o conhecimento ou entusiasmo deles. A Paris Review publicou uma reportagem imersiva sobre esse mercado matrimonial, onde currículos substituem perfis de aplicativos, nível educacional, renda anual, altura, status de hukou, imóvel próprio ou alugado. Como já abordamos por aqui em outras ocasiões, o fenômeno não é novo, mas o contexto se aprofundou. A China registrou a menor taxa de natalidade de sua história (5,6 nascimentos por mil habitantes), o casamento está em queda há uma década e o desemprego juvenil chegou a 19%. “Sem salário, como vão poder namorar?”, resume um pai ouvido pela repórter. O que move os pais não é só tradição: com serviços públicos frágeis, a lógica é que filhos bem casados são a melhor aposentadoria disponível, e a feirinha do amor no parque é, no fundo, um termômetro da ansiedade de uma geração inteira.

Zheng He

Mudança: por aqui somos fãs de Mo Yan e voltamos à visita dele ao Brasil e fazemos trocadilho de um de seus livros para sugerir esse podcast, no qual Giorgio Sinedino fala sobre o impacto da vinda de Mo para a literatura chinesa no Brasil.

Portinari na China: a partir deste mês, o artista brasileiro terá sua primeira grande apresentação na Ásia. A mostra está exposta na Praça da Paz Celestial, em Pequim, e integra a programação oficial do ano do Turismo e da Cultura Brasil-China. A expectativa da organização é de que o famoso endereço receba até 4 milhões de visitantes para ver Portinari.

 

O governo brasileiro está apostando no mercado chinês para atrair turistas para o Brasil. Confira a peça publicitária da Embratur e diga para a gente: vai gerar resultado?

 

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Edição 395 – Hukou: uma mudança que pode beneficiar 357 milhões de chineses

Política e economia

Discriminação contra a população LGBT+ pode finalmente ter critérios claros na China, conta a Folha. Uma suposta resposta da Suprema Corte chinesa à uma petição no começo de maio indica alguns critérios para que a discriminação contra pessoas LGBT+ seja considerada ilegal. Mais especificamente, o texto fala em discriminação e violação de direitos com base em orientação sexual, identidade de gênero e expressão de gênero – e cita o ambiente de trabalho, escolas e ambiente público (no caso de insultos, por exemplo). Contudo, como explica o Pekingnology, esse formato de resposta à petição não é formalmente uma mudança de legislação ou política, mas sim um possível entendimento. No caso, a resposta do órgão (disponível no link acima em mandarim e inglês) indicaria ao Departamento de Pesquisa da Corte para coletar e resumir casos pelo país, oferecendo uma resposta padronizada sobre o tema.

Faca de dois gumes. Pelo terceiro ano consecutivo, o Relatório Anual de Trabalho do Governo chinês menciona explicitamente a inteligência artificial, e no que diz respeito ao setor energético, a aposta é particularmente concreta: a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma estabeleceu que, até 2027, pelo menos cinco modelos de linguagem especializados estejam profundamente integrados à rede elétrica e à geração de energia. Algoritmos já são usados em Xangai, Xinjiang e Pequim para prever a produção de renováveis e otimizar a distribuição, e usinas virtuais com IA no “cérebro” devem aliviar a demanda de pico em 2026, segundo reportagem da Dialogue Earth. Os limites, contudo, são estruturais, uma vez que especialistas ouvidos pela publicação apontam que a rede chinesa é organizada para priorizar estabilidade, e não eficiência. Somam-se o apetite dos próprios data centers, estimados em 3% a 5% de todo o consumo elétrico chinês até 2030, e o fato da maioria deles ainda estar no leste, longe das fontes renováveis do oeste. Para acomodar o paradoxo, Pequim lançou em março uma política que obriga novos data centers nos hubs nacionais a extrair 80% de sua energia de fontes verdes, sinalização que, se cumprida, pode destravar novos investimentos em solar e eólica. 

Sem passaporte. O governo chinês começou a impor restrições de viagem ao exterior a profissionais de inteligência artificial considerados estratégicos para o país. Segundo reportagem da Bloomberg, pesquisadores, executivos e fundadores de startups em empresas privadas como Alibaba e DeepSeek precisam agora obter aprovação das autoridades antes de embarcar. A Reuters não conseguiu verificar a informação. Pequim há anos mantém esse tipo de controle sobre cientistas nucleares e executivos de estatais (que costumam ter os passaportes guardados pelas próprias empresas), mas a extensão da medida ao setor privado é a novidade, e a inclusão de nomes se dá menos pela hierarquia funcional e mais por uma avaliação caso a caso da “importância crítica” da pessoa para o país. A movimentação vem na esteira da disputa em torno da Manus, startup chinesa de IA cuja aquisição de US$2 bilhões pela Meta foi barrada por Pequim, com dois cofundadores impedidos de deixar o país durante a investigação. Segundo as fontes ouvidas pela Bloomberg, a nova política não está diretamente ligada ao caso, mas reforça o mesmo objetivo declarado de evitar vazamentos tecnológicos, e pode acabar dificultando o recrutamento e a retenção desse talento, empurrando engenheiros com ambição global a deixar a China mais cedo na carreira.

Internacional

Corrida de três pernas. Muito se fala em “corrida de IA” e disputas geopolíticas pelo controle da tecnologia, colocando China e Estados Unidos de forma concorrente. Porém, ao mesmo tempo em que a Huawei abertamente compete para desenvolver tecnologia contra as sanções dos EUA, o argumento de Viola Zhou neste texto para a Rest of World é que a realidade é mais complexa e ambos estão mais interligados do que parecem perceber a nível de setor privado. Ela argumenta com base nesta longa matéria sobre os pesquisadores e fundadores chineses (ou de segunda geração) que há anos estão envolvidos com o que acontece de mais importante no Vale do Silício. Entre idolatrar os mesmos ídolos (Elon Musk e Jensen Huang), ouvir os mesmos podcasts, trabalhar nas mesmas empresas e sonhar em ficar milionário, parece estar todo mundo meio que na mesma vibe otimista sobre o desenvolvimento de IA e a pressão em acumular o máximo de dinheiro durante a bolha. Ao mesmo tempo, os chineses que escolhem o Vale do Silício como residência enfrentam desafios de xenofobia em um momento cada vez mais tenso das relações bilaterais.

China e Paquistão. O primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif esteve em Pequim na segunda-feira (25) e firmou, junto a Xi Jinping e ao premiê Li Qiang, o que ambos os países descreveram como um “novo amplo consenso” sobre o aprofundamento da parceria estratégica, justo no ano em que se celebra o 75º aniversário das relações diplomáticas sino-paquistanesas. Segundo a Reuters, o comunicado conjunto prevê a retomada do Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC), projeto-vitrine da Iniciativa Cinturão e Rota, além do esforço para transformar portos e rodovias em rotas modernas. Em contrapartida, Islamabad reforçou medidas para proteger trabalhadores e investimentos chineses no país, após uma sequência de ataques de militantes a cidadãos chineses em solo paquistanês. O componente diplomático veio igualmente carregado: segundo a Xinhua, Sharif reafirmou o princípio de “uma só China” e o apoio paquistanês às posições de Pequim em Xinjiang, Tibete, Taiwan e questões marítimas, e ambos os lados se manifestaram contra a atuação do Tehreek-e-Taliban Pakistan e do Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, se referindo ao tema sensível para a vigilância chinesa sobre Xinjiang. Pequim ainda agradeceu o papel de Islamabad como mediador no recente cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, sinal de que o Paquistão segue se posicionando como interlocutor útil para a China tanto no flanco econômico quanto no diplomático. 

O conflito EUA-China em vigilância e defesa. Não é só no comércio direto que Estados Unidos e China disputam espaço e poder. Uma reportagem recente publicada pelo The New York Times indica que a influência em sistemas de defesa e vigilância nacionais também se faz importante nessa concorrência: o texto do principal jornal estadunidense fala sobre como a China tem exportado seu sistema de vigilância para além de suas fronteiras e, neste caso específico, para as Ilhas Salomão, no Pacífico, onde cidadãos têm seus dados pessoais coletados por policiais chineses em nome de aumento de proteção e segurança. Essa aproximação não está isolada, e textos recentes dão conta de explicar que ilhas do Pacífico estão em meio às disputas das maiores economias do mundo: os EUA têm acordo de defesa com as Ilhas Salomão e, recentemente, um adversário da China foi eleito primeiro-ministro. Para quem quiser se aprofundar um pouco mais no assunto, este texto, publicado pelo Carnegie em 2022, aborda as contradições da política estadunidense para a região do Pacífico.

Sociedade

Novos ventos soprando para migrantes. Em um movimento recente, o governo chinês anunciou a flexibilização do hukou, abrindo mais espaço para a migração interna no país. Esse sistema foi criado no fim dos anos 1950 por Mao Zedong e é usado para tentar conter movimentos internos no país. Na prática, o hukou limitava o acesso de cidadãos a serviços públicos, como o sistema de saúde, a educação, a moradia e até o registro de bebês, impactando negativamente pessoas que estivessem vivendo e trabalhando fora de seus lugares de origem. A mudança anunciada em maio amplia o acesso de trabalhadores migrantes a esses serviços públicos. Apesar de dificultar, e muito, a vida dos chineses, na prática, o sistema não chegou a impedir as migrações, como mostra o South China Morning Post, mencionando um censo que aponta para a existência de 357 milhões de migrantes no país. 

Zheng He

Podcast: esta série de oito episódios aborda a relação moderna da China com os seus vizinhos terrestres e marítimos – e como o país está lidando de forma “criativa” com essas dinâmicas. O projeto é liderado pela pesquisadora Nadège Rolland. 

Literatura: o podcast China Talk conversou com o autor e tradutor de ficção científica chinesa Ken Liu. Os temas foram de inteligência artificial ao Taoísmo.

Nostalgia: também na China, os anos 1990 estão em alta – pelo menos na internet.

 

Mais um épico histórico chinês chega aos cinemas – mas, desta vez, a narrativa parece estar muito mais interessada em apontar para o futuro: A Batalha de Penghu (澎湖海战), com estreia prevista para 25 de julho, vem gerando muitos comentários sobre sua mensagem a respeito das relações entre China continental e Taiwan. A batalha que dá nome ao filme, ocorrida em 1683, marcou a conquista de Taiwan pela dinastia Qing.

 

 

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Edição 394 – No embalo de Trump e Putin, quem vence é a China

Política e economia

Até agora são 82 mortos no pior acidente em uma mina de carvão chinesa dos últimos 16 anos. A explosão de gás aconteceu na sexta-feira (22) na cidade de Changzi, na província de Shanxi (a principal para a mineração de carvão) e a mina contava com 247 trabalhadores no momento, que ficaram presos nos escombros. Ainda há pessoas desaparecidas e cerca de 120 estão hospitalizadas. As operações de resgate seguem, inclusive com apoio de robôs para a detecção de gases e câmeras. O caso será investigado para que se descubra a causa da explosão, inclusive para identificar qual a responsabilidade da empresa já que análises iniciais indicam violações de padrões de segurança. Xi Jinping solicitou uma operação ampla para o resgate e apoio às vítimas e seus familiares, especialmente em casos de idosos. 

O molho secreto do sucesso da China na disputa pela liderança em Inteligência Artificial talvez vá além dos investimentos pesados e da regulação rápida. Um relatório recente da Stanford University revelou que o otimismo da população chinesa em relação à nova tecnologia é excepcional e contrasta diretamente com os sentimentos dos estadunidenses: mais de 85% das pessoas consultadas na China acreditam que a IA é mais benéfica que maléfica, contra 45% dos respondentes nos EUA. Muito foi especulado sobre o assunto, e diversos comentaristas atribuem o humor dos chineses à confiança que têm em seus legisladores; por outro lado, há quem acredite que a grande diferença está na perspectiva histórica: ao contrário do que vêm acontecendo na história recente da China, os trabalhadores dos Estados Unidos vêm vivendo relativa calmaria e estabilidade em suas relações trabalhistas e modo de produção, o que os deixaria menos abertos às grandes mudanças que a IA promete trazer.

Internacional

É os guri. Logo depois da partida de Trump, Xi Jinping mal trocou o terno e já recebeu o líder russo Vladimir Putin no dia 19. A visita já estava marcada há algum tempo, então, dizem, foi apenas coincidência o timing – ainda que não deixe de ser . Pequim e Moscou assinaram uma série de acordos, incluindo economia digital, isenção de vistos, educação, satélites, e desenvolvimento de biofármacos, no contexto da celebração de 30 anos da parceria estratégica sino-russa. Contudo, o acordo mais esperado, envolvendo a distribuição de gás pelo gasoduto Power of Siberia 2, não foi finalizado. No Tracking People’s Daily um compilado do discurso oficial sobre a visita de Putin, inclusive a declaração conjunta sobre um novo mundo multipolar. Sobrou também preocupação com o crescente investimento em defesa europeu e uma crítica ao bloqueio do comércio transnacional (uma referência possivelmente ao Estreito de Ormuz). Se você é fã de jogo dos sete erros, vale este texto do The Guardian comparando a recepção aos dois líderes. Na conclusão das análises, o grande vencedor talvez seja Xi Jinping.

As cortinas já se fecharam no Festival de Cannes deste ano, e além dos premiados, o destaque também foi para o soft power chinês. Na abertura do festival na costa francesa, a renomada atriz Gong Li anunciou a abertura em inglês e mandarim, junto com Jane Fonda. Com um pavilhão dedicado ao cinema chinês, o país também teve na seleção oficial dois curtas-metragem feitos por IA e a estreia de A Girl Unknown, da diretora Zou Jing sobre a política do filho único e seu impacto nas meninas chinesas. Além disso, o longa-metragem Adeus, Minha Concubina (que venceu a Palma de Ouro em 1993) teve uma exibição na sessão de clássicos e o sucesso de bilheteria Dear You ganhou uma estreia francesa. A China Night, um evento oficial do Festival de Cannes que reuniu cerca de mil convidados entre atores, diretores, produtores e exibidores, foi realizado no espaço conhecido como Cannes Marché du Film, onde os filmes são negociados e vendidos entre produtores e distribuidores. A China Night também incluiu demonstrações de tecnologia para o cinema, como realidade aumentada, robótica e muita inteligência artificial. Vale assistir esta palestra realizada no mês passado com o pesquisador Paulo Menechelli sobre o cinema chinês e o soft power.

Sociedade

Literatura chinesa no holofote global. As últimas semanas foram animadas para os apreciadores de literatura chinesa. No começo deste mês, a autora nascida na China Yiyun Li – cujas obras publicadas no Brasil foram discutidas no nosso Clube em 2023 e 2024 – ganhou o Prêmio Pulitzer na categoria Memória ou Autobiografia com o livro Things in Nature Merely Grow, lançado no ano passado e ainda não publicado no Brasil. Yiyun escreve suas obras diretamente em inglês, ao contrário da taiwanesa Yang Shuang-zi; a tradução do romance mais recente de Yang, Taiwan Travelogue (sem previsão de chegar por aqui), realizada por Lin King, recebeu na última semana o International Booker Prize; esta foi a primeira obra traduzida do mandarim a receber o prestígio. Por fim, em meados de abril, a ilustradora chinesa Cai Gao foi reconhecida com o Hans Christian Andersen, o maior prêmio para autores e ilustradores de livros infantis. Vale conferir o dossiê que a premiação preparou para sua candidatura.

Por fim, bora falar de literatura chinesa que chega ao Brasil: Mo Yan, publicado no país pela Cosac e pela Companhia das Letras, esteve por aqui em maio para participar da celebração de 50 anos da Unesp. O Prêmio Nobel fez um discurso na abertura do evento e participou da mesa “A literatura sem fronteiras – Brasil e China – paralelos e confluências”. Vale conferir também a mesa “A nova literatura chinesa”, com participação dos escritores Suonan Kairang e Yang Zhihan. Se você assistir às gravações e ficar interessado em conhecer a obra de Mo Yan, fique atento: no final do ano, vamos discutir em nosso Clube, pela segunda vez, As Rãs.

Para a surpresa de muitos, o tradicional jogo chinês de Mahjong ganhou uma popularidade nova entre jovens, especialmente nos EUA (que tem até a sua versão alternativa do jogo). O Mahjong surgiu no final do século XIX e é extremamente popular na China, Hong Kong, Japão, Coreia do Sul, Taiwan e diáspora – especialmente entre idosos. Este texto discute essa nova ascensão, que tem sido muito apoiada pelos algoritmos, mas também como o jogo surge como uma resposta para a construção de comunidade e ao mesmo tempo como há, em alguns casos, uma apropriação cultural sobre essa nova onda de jogadores.

Zheng He

Podcast: neste episódio d’O Assunto, a entrevistada é a especialista Larissa Wachholz sobre a estratégia chinesa para a autossuficiência alimentar. 

Pintura: a Sixth Tone entrevistou Hong Jian, pintor que há 20 anos tem uma série de obras registrando a arquitetura histórica de Shangha

 

Curta o som da dupla indie de Chengdu Deep Water com o novo EP Have a Good Time.

 

 

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Edição 393 – Encontro Xi e Trump gera memes, virais e pouco avanço

Política e economia

Sentença sem reprise. Acusados de crimes de corrupção, dois ex-ministros de Defesa da China, Wei Fenghe e Li Shangfu, foram condenados a penas mais brandas do que a pena de morte. Na última quinta-feira (7), uma corte militar do país determinou que ambos fossem punidos com pena de morte com suspensão de dois anos. Na prática, passados dois anos sem novos crimes, a pena de ambos será automaticamente convertida em prisão perpétua. Ambos foram considerados culpados de suborno e tiveram todos os bens pessoais confiscados. Segundo a Xinhua, Li teria sido acusado por ter recebido e oferecido propinas, além de não cumprir responsabilidades políticas. Wei comandou a pasta de defesa entre 2018 e 2023; Li o sucedeu em março de 2023, sumiu da vida pública em agosto daquele ano e foi formalmente afastado em outubro, após pouco mais de seis meses no cargo. As decisões se somam à onda recente de afastamentos no alto escalão militar chinês, que incluiu nos últimos meses até o general Zhang Youxia, militar mais graduado da Comissão Militar Central. Em fevereiro, Xi Jinping fez uma rara menção pública ao processo, dizendo que as Forças Armadas haviam “passado por uma têmpera revolucionária no combate à corrupção”. Analistas leem a cruzada anticorrupção em curso desde 2012 como uma combinação de saneamento institucional e de consolidação política e, no caso das Forças Armadas, as duas dimensões costumam aparecer entrelaçadas. 

Cidade x Campo.Junto com os vice-prefeitos chineses que viralizam no Douyin dançando em arrozais, a onda de funcionários influencers ganha corpo desde que Xi Jinping promoveu essa estratégia. As cenas idílicas que esses livestreams projetam, com paisagens, produtos artesanais, oficiais bonzinhos servindo refeições a idosos, ajudam a reforçar uma visão romantizada do interior que circula há tempos nas cidades chinesas: a ideia de que o camponês tem terra para “se virar”, uma casa só sua, e ainda por cima com um custo de vida baixo. É justamente esse imaginário urbano que uma conversa recente entre o jornalista Peng Yuanwen e o ativista Zhou Jian, traduzida pelo China Digital Times, busca discutir. Zhou conta que ao percorrer mais de 3 mil aldeias em 150 condados pobres, ele tentou derrubar as crenças urbanas sobre o campo. Segundo o texto, o camponês não vive da terra, seu trabalho rende, no máximo, o equivalente a R$ 800 a R$ 1.500 por ano, “o suficiente para uns poucos meses de remédio de pressão”; a terra não é de fato dele (o que existe é direito de uso coletivo, sem poder vender, herdar ou usar como garantia); o terreno em que ele mora vale menos do que se imagina; e o “baixo custo de vida” rural é um mito. Entre o campo do algoritmo e o do cotidiano ainda há uma boa distância, e o relato de Peng e Zhou fala, no fundo, sobre tentar encurtar essa narrativa.

Internacional

Xi recebe Trump. Na semana passada, Beijing recebeu o presidente Donald Trump para sua primeira visita de Estado à China em nove anos. Como tinha de ser, o encontro com Xi Jinping não decepcionou em termos de drama e simbolismo. As duas maiores economias do mundo concordaram em criar conselhos de comércio e investimento, reduzir tarifas de forma recíproca e estabelecer um mecanismo para gerenciar disputas. Também saíram acordos concretos: a China comprará pelo menos 200 aviões da Boeing , mas esse número pode mais do que triplicar e chegar até 750, mas isso só se determinadas condições forem atendidas. Apesar do tom cordial, os resultados, na prática, foram modestos: nenhum grande avanço, apenas uma estabilização das relações e um esforço para evitar que a rivalidade entre as superpotências saísse do controle. 

Para além das relações entre Pequim e Washington, Xi e Trump trataram de temas que preocupam o mundo: a situação de Taiwan, as guerras no Irã e na Ucrânia e o papel e ameaça da Coreia do Norte. Quanto ao Irã, os dois líderes concordaram que o Estreito de Ormuz deve permanecer aberto. Xi também deixou um recado pouco sutil ao perguntar a Trump se EUA e China conseguiriam superar a “Armadilha de Tucídides“, a teoria de que potências em ascensão inevitavelmente entram em conflito com as estabelecidas, e criar um novo paradigma para as grandes potências. Com seu típico “otimismo”, Trump respondeu no Truth Social dizendo que Xi estava falando do declínio americano causado por Biden, não pelo seu governo. E para coroar a visita com aquele toque de entretenimento que só essa dupla proporciona, um vídeo viral mostrou Trump dando uma espiadela no caderno de Xi assim que o líder chinês se afastou (recomendamos ver o nosso vídeo da semana).  

Outro momento pitoresco da visita ficou por conta do Secretário de Estado Marco Rubio: sancionado pela China duas vezes quando ainda era senador, Rubio só conseguiu entrar no país porque Beijing simplesmente trocou uma letra do seu nome em mandarim, transformando “卢比奥” em “鲁比奥” (Lubiao), ambas têm a mesma pronúncia, caractere diferente, problema resolvido. Do lado chinês, o embaixador Xie Feng aproveitou o encontro para publicar um artigo em tom solene no People’s Daily, defendendo que “cooperação beneficia os dois lados, enquanto confronto prejudica ambos” e que os EUA deveriam abandonar a mentalidade da Guerra Fria e tratar a China como parceira. 

E o assunto azedou com Taiwan. Após uma cúpula de dois dias em Pequim com Xi Jinping, Donald Trump alertou Taiwan a não declarar formalmente sua independência e disse, em entrevista à Fox News, que “não está buscando que alguém vá ser independente” e o que quer mesmo é que “a China se acalme”. A resposta de Taipei veio no sábado pela porta-voz presidencial Karen Kuo, que afirmou ser “evidente por si só” que Taiwan é um país soberano, independente e democrático, mas reforçou o compromisso da ilha em manter o status quo, sem declaração formal e sem unificação, postura já sustentada pelo presidente Lai Ching-te, para quem não há necessidade de declarar o que já se considera fato. No mesmo encontro, Trump disse que decidirá em breve sobre um pacote de venda de armamentos de US$11 bilhões para a ilha, sinal de que, mesmo evitando atrito imediato com Pequim, Washington segue obrigado por lei a fornecer meios de autodefesa a Taipei.  

Uma batalha atrás da outra. Poucos dias depois da cúpula entre Xi Jinping e Donald Trump em Pequim, é a vez de Vladimir Putin desembarcar na capital chinesa, visita confirmada por Moscou e Pequim no último sábado, se trata da primeira vez do líder russo ao exterior em 2026. A agenda inclui encontro com Xi para reforçar a “parceria estratégica abrangente” entre os dois países, a possível assinatura de uma declaração conjunta e conversas separadas com o primeiro-ministro sobre cooperação econômica e comercial. A coincidência de calendário, segundo analistas, não foi orquestrada. A visita russa já vinha sendo articulada há meses, mas ganha peso simbólico extra, uma vez que 2026 marca o 30º aniversário da parceria estratégica sino-russa e o 25º do Tratado de Boa Vizinhança, cuja renovação deve entrar em pauta. Entre os temas esperados estão o gasoduto Power of Siberia 2, a guerra na Ucrânia, e a crise no Estreito de Ormuz. O comércio bilateral entre os dois países somou mais de US$228 bilhões em 2025, com Pequim se consolidando como principal comprador de petróleo e gás russos.

Pressão. A famosa RightsCon – a maior conferência de direitos humanos digitais – teve a sua edição de 2026 cancelada. O evento iria acontecer em Lusaka, capital da Zâmbia, entre 5 e 8 de maio. Contudo, a 15ª edição foi cancelada sem muitas explicações duas semanas antes da data para o choque e prejuízo financeiro de muita gente. A nota final de explicação do cancelamento, a organização do evento citou interferência estrangeira. Não demorou muito e questionamentos passaram a surgir sobre isso ter relação com pressão do governo chinês, dado o crescente relacionamento entre a China e a Zâmbia, e o fato da edição de 2025 ter sido realizada em Taipei. Ao que tudo indica, o país asiático exigiu que participantes taiwaneses não comparecessem, e a discussão é elaborada nesta análise no China Digital Times.

Sociedade

Violência contra mulheres chinesas fora da China. Em abril, um tribunal de Munique proferiu uma sentença que chocou a Europa e reacendeu o debate sobre violência sexual e o papel das plataformas digitais. Zhongyi J., um estudante chinês de 28 anos, foi condenado a 11 anos e três meses de prisão por duas tentativas de homicídio e sete estupros agravados contra a sua vizinha, a quem drogou e agrediu sexualmente pelo menos sete vezes entre fevereiro e dezembro de 2024. O réu filmou cada agressão e armazenou os vídeos em um HD externo; em um dos casos, o ataque durou mais de três horas. O caso foi imediatamente comparado ao escândalo Pelicot, que abalou a França em 2024 — e o juiz descreveu os crimes como “atos monstruosos”, declarando que “entramos em território jurídico inexplorado.” Mas o que torna o caso ainda mais perturbador é o contexto coletivo: o julgamento em Munique faz parte de uma investigação mais ampla sobre oito homens que integravam um grupo no Telegram chamado “Autoschule” (Escola de Direção Alemã), no qual coordenavam e compartilhavam imagens dos crimes. O caso levanta questões urgentes sobre a responsabilidade das plataformas de mensagens na proliferação desse tipo de conteúdo — um debate que, infelizmente, ainda está longe de ter uma resposta.

Zheng He

Mo Yan, IA e literatura: o nobel de literatura chinês Mo Yan, disse em evento no Brasil ver na Inteligência Artificial uma esperança para a superação de barreiras linguísticas. Confira como foi a visita dele por aqui.

Taishanese: o Radii China conta por que um “misterioso” idioma falado no filme Sinners está dando o que falar até hoje. 

Old school: dois vídeos viralizaram na internet chinesa recentemente exatamente por não usarem inteligência artificial. Esta matéria da Sixth Tone conta como o drama ENEMY e o filme Ji Shi Yi Dao não usaram IA generativa para os efeitos visuais e chamaram atenção pela qualidade da produção.

 

Veja o vídeo aqui.

A internet quase quebrou com o que teria sido Trump bisbilhotando uma pasta de Xi Jinping. Não foi bem assim, e a CNN conta o que aconteceu.

 

 

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Edição 392 – Planejamento do encontro entre Xi e Trump está a todo vapor

Política e economia

Sem culpar a IA. O Tribunal Popular Intermediário de Hangzhou decidiu no fim de abril que empresas chinesas não podem demitir funcionários sob a justificativa de que foram substituídos por inteligência artificial. No caso analisado, Zhou, profissional de controle de qualidade em uma tech do leste do país, encarregado de checar as respostas de modelos de linguagem, foi rebaixado com corte salarial de 40% quando sua função foi automatizada, e demitido ao recusar a proposta. Para a corte, “progresso tecnológico” não é base legal para a rescisão unilateral, e a decisão reforça um precedente aberto em dezembro por outro tribunal contra uma empresa de mapeamento. 

O recado, divulgado pela Fortune, vem alinhado com a prioridade do Partido Comunista de manter a estabilidade do mercado de trabalho em meio à desaceleração econômica e ao desemprego juvenil elevado, mesmo enquanto Pequim pressiona o setor tecnológico a liderar a corrida global da IA. Na prática, a régua é outra. Esta reportagem da Rest of World mostra que o Alibaba cortou 34% do quadro em 2025, o Baidu reduziu cerca de 7% e a BYD enxugou perto de 10%, números que aparecem nos relatórios anuais, mas que as empresas raramente anunciam publicamente, preferindo atribuir os cortes a pressão econômica e ao ajuste após o boom da internet, justamente para não bater de frente com o discurso oficial. Analistas argumentam que o resultado é uma demissão silenciosa, em ritmo acelerado. Ou seja, vai cortar, sim, mas sem dizer que foi a IA que mandou. 

Sem notícias. Mais um ano, mais um ranking de liberdade de imprensa da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Na lista de 2026, Hong Kong continua a ocupar a posição 140 entre 180 países avaliados – em 2019, antes da Lei de Segurança Nacional, a região administrativa especial ocupava o 73º lugar. A RSF destacou como ponto baixo no último ano a condenação do ex-dono do extinto Apple Daily, Jimmy Lai, que recebeu, no final de abril, o Prêmio de liberdade de expressão da alemã Deutsche Welle. O veículo local Hong Kong Free Press mantém um levantamento das ocorrências que explicam a deterioração da prática jornalística na região. A China continental aparece em 178º lugar no ranking.

Internacional

Agora vai. Depois de rumores e expectativas, nesta semana, os presidentes Donald Trump e Xi Jinping se sentam para conversar – mais especificamente no dia 13 de maio. Este é o segundo encontro entre eles desde que o republicano voltou à Casa Branca. Em outubro passado, os dois chefes de Estado se reuniram na Coreia do Sul, mas num cenário muito diferente do atual. Esta é a primeira vez que o líder estadunidense vai à China desde que venceu o segundo mandato como presidente.  O novo encontro entre Xi e Trump acontece num mundo marcado pela guerra do Irã, iniciada pelos Estados Unidos e Israel e que, para além da destruição e das mortes, provoca uma crise energética global. Reportagens do mundo todo colocam a pauta energética como ponto central: cerca de 13% das importações de petróleo da China vêm do Irã. Além disso, pautas clássicas nas relações entre as duas maiores economias globais devem estar à mesa: tarifas e comércio, Taiwan e acesso a minerais críticos, além de Inteligência Artificial. Trump será acompanhado por uma delegação de empresários que possivelmente inclui representantes da Meta, Boeing, Visa e o próprio Elon Musk, conta Bill Bishop. No meio de tudo isso, também se fala sobre a China exercendo algum nível de mediação no cessar-fogo para a guerra no Oriente Médio, negociação na qual já teria tido um papel em abril.

Sociedade

O jornalismo não pode, mas a literatura tenta responder aos tempos em Hong Kong – seja localmente ou em exílio. A edição de março-abril da revista digital de literatura traduzida para o inglês Words Without Borders foi dedicada às narrativas honconguense pós-2019. As estórias, selecionadas por duas autorias locais identificadas apenas por suas iniciais, transitam entre os grandes acontecimentos políticos da cidade na última década e seus desdobramentos nas vidas íntimas dos personagens. Esses também são os grandes temas das obras de ficção e não-ficção analisadas em um artigo de Louisa Lim na edição de maio da The New York Review; Lim caracteriza a produção deste período como “literatura do trauma”, e a conecta com obras influenciadas pela Revolução Cultural chinesa dos anos 60/70; no entanto, destaca uma diferença importante entre os dois momentos: ao contrário das obras chinesas daquele período, a literatura contemporânea de Hong Kong não contempla um futuro otimista para seus protagonistas.

Uma discussão sincera sobre queerness na China. Como é ser gay no país? Neste recente episódio do podcast de Gateway to Global China, com o professor Hongwei Bao (autor do livro Queer Comrades) e o pesquisador Darius Longarino, ambos especialistas num tema que ainda é tabu na China. A partir de uma discussão de história e cultura, como o poeta Qu Yuan, a conversa questiona o argumento de que identidades LGBSQIAP+ são uma “importação” do Ocidente, perpassa questões de legislação, saúde mental e as chamadas “terapias de conversão” e do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Zheng He

Especial: a revista Valor Econômico publicou em final de abril um especial sobre a China e o Brasil com várias matérias e entrevistas com especialistas. 

Pequim: falando em especial, o Jornal Nacional lançou uma série sobre cidades chinesas. A que fala de Pequim também conta um pouco da história política do país – como a estreia de Felipe Santana e Lucas Louis, os dois correspondentes novos da Globo no país. A série também visitou Shanghai, Hangzhou e Cantão.

Cerâmica: uma entrevista com a ex-desenvolvedora e hoje ceramista Chang Liu e o seu trabalho. 

Chilli pop: além da icônica  marca de óleo apimentado Laogan Ma, Ghizou, segundo reportagem do SCMP, é onde toda a cultura dessa iguaria chinesa começou. 

 

No ano passado, o The Guardian fez um mini documentário sobre duas mulheres chinesas com mais de 30 anos lidando com o desafio de congelar óvulos no exterior, já que a prática é proibida na China.

 

 

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Edição 391 – Novo modelo da DeepSeek esquenta a disputa pela liderança em IA

Política e economia

A DeepSeek acaba de lançar um novo modelo de inteligência artificial, o DeepSeek-V4; ele conta com duas versões e, como de costume, seu grande destaque para os usuários finais é a relação custo-benefício, com um desempenho equivalente ao das soluções de ponta estadunidenses, mas por uma fração do valor cobrado por elas. Mas a importância dessa novidade é também geopolítica: o modelo é otimizado para chips da Huawei – o que deve diminuir a dependência chinesa de chips dos EUA e consolidar o posicionamento do país na disputa pela liderança do setor. Como explica este artigo do MIT Technology Review, com esse lançamento, a IA chinesa ainda não se livrou totalmente da Nvidia, mas o caminho está traçado – e o CEO da fabricante de chips já deixou claro que isso seria “um desfecho horrível” para os Estados Unidos. Como já contamos por aqui, em 2024 a China era responsável por 13% das vendas da empresa.

A conta chegou para parceiros da Evergrande. A PricewaterhouseCoopers (PwC) fechou um acordo para encerrar as investigações sobre sua atuação como auditora da Evergrande em Hong Kong. A negociação foi encerrada com a bagatela de HK$1,3 bilhão, cerca de R$800 milhões, divididos entre uma multa de HK$ 300 milhões aplicada pelo regulador de contabilidade de Hong Kong e HK$ 1 bilhão destinado a um fundo de compensação para acionistas. A firma ainda deve cumprir uma suspensão de seis meses, ficando impedida de aceitar novos clientes de auditoria listados na bolsa. O acordo encerra o caso “de forma plena e definitiva”, sem admissão de culpa por parte da PwC – mas a lista de problemas da firma na China é longa: em 2024, Pequim já havia multado a PwC em ¥ 441 (R$ 312) milhões e aplicado outra suspensão de seis meses no continente, após concluir que a empresa havia “fechado os olhos” para a fraude da Evergrande, que inflou receitas em mais de ¥ 560 bilhões. O escândalo derrubou clientes, sócios e a reputação da firma na região, e ainda não terminou: há uma ação movida pelos liquidantes da Evergrande contra a PwC, cuja primeira audiência está marcada para maio.

Internacional

Balanço semanal. A coletiva de imprensa semanal do Ministério das Relações Exteriores da China virou um bom termômetro do momento diplomático do país, e a de 21 de abril não foi diferente. Em poucos minutos, o porta-voz Guo Jiakun teve que comentar sobre quase todos os pontos quentes do momento, de conflito no Oriente Médio até Japão, Hong Kong e a agenda regional da China no Sudeste Asiático. Sobre o Oriente Médio, Guo reafirmou a proposta de quatro pontos de Xi Jinping para a região:  coexistência pacífica, soberania, direito internacional e equilíbrio entre desenvolvimento e segurança; ele pediu que todas as partes aproveitassem a janela de cessar-fogo antes que ela se feche. Sobre o Japão, o tom foi bem mais duro, criticando tanto a flexibilização das regras de exportação de armas japonesas quanto o envio de uma oferenda ao Santuário Yasukuni pela primeira-ministra Takaichi, ambos os gestos interpretados como sinais de “neomilitarismo”. No meio disso tudo, Guo ainda anunciou a visita do chanceler Wang Yi ao Camboja, Tailândia e Mianmar, onde será inaugurado um inédito mecanismo de diálogo “2+2” com o Camboja, que estabelece um mecanismo de diálogo estratégico entre os ministros das Relações Exteriores e da Defesa dos dois países, e rebateu um relatório do Departamento de Estado americano sobre Hong Kong. Uma semana movimentada para a diplomacia chinesa.

Sem passagem. O líder taiwanês Lai Ching-te tinha uma viagem marcada para Eswatini, o único país africano que reconhece oficialmente Taiwan, para participar das comemorações do dia nacional do país.  Porém, segundo o gabinete de Lai, Seychelles, Maurício e Madagascar revogaram a autorização de voo sob pressão de Pequim, inviabilizando a rota e forçando o cancelamento da visita. Lai denunciou publicamente o episódio, chamando as ações chinesas de “coercitivas” e afirmando que nenhuma pressão vai abalar a determinação de Taiwan de se relacionar com o mundo. O Comitê sobre China da Câmara dos Representantes dos EUA foi na mesma direção, condenando a manobra com uma frase direta: “Isso não é diplomacia, é pressão econômica para isolar um parceiro democrático.” Do lado chinês, o Ministério das Relações Exteriores não admitiu a pressão sobre os países africanos, mas deixou o recado: todos os países do continente, exceto Eswatini, reconhecem o princípio de uma só China, e assim deve continuar. O episódio ilustra bem como a batalha diplomática em torno de Taiwan acontece cada vez mais longe do Estreito, em salas de reunião de Nairobi, Antananarivo e Vitória. 

Juntos. O Brasil foi o país convidado de honra do China Space Day 2026, realizado em Chengdu no último dia 24, e a participação serviu para reforçar a parceria de desenvolvimento conjunto de satélites de observação da Terra, que já dura 38 anos, o programa CBERS. A delegação do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação apresentou iniciativas que vão além dos satélites já em operação, entre elas, um laboratório sino-brasileiro de clima espacial, experimentos com radiotelescópios e a articulação para uma constelação de satélites no âmbito do Brics. Também foram discutidos os próximos passos dos programas CBERS-5 e CBERS-6; este último será o primeiro satélite geoestacionário da cooperação. Para o Brasil, o interesse é de maior autonomia tecnológica no monitoramento de biomas como a Amazônia, com menos dependência de dados externos. Lula enviou uma carta a Xi Jinping para a abertura do evento, um gesto protocolar, mas que sinaliza que a cooperação espacial entre os dois países segue como prioridade na agenda bilateral, mesmo em um cenário internacional de tensões.

Sociedade

A Literatura sempre se adapta ao seu tempo, e o Prêmio Nobel Mo Yan não fica para trás. Neste mês, ele lançou seu novo livro, Ren Na (Oh, Humanidade, em tradução livre para o português), inspirado em sua própria experiência de vício em vídeos curtos. Segundo o autor, a ideia é tentar prender a atenção dos leitores da mesma forma, por meio 81 textos breves, que contém “mais de 70 anos de insights e reflexões sobre a vida e a natureza humana”, cada um demandando não mais que 10 minutos de dedicação. Este é o seu primeiro lançamento em seis anos.

Zheng He

Seja água: Este artigo do pesquisador Joseph Clarke investiga os motivos pelos quais Bruce Lee ainda é referência meio século após sua morte. TL;DR: ele redefiniu a linguagem do movimento no cinema e representa uma imagem de autoconfiança e espírito desafiador para novas gerações.

Feminismo: As pesquisadoras Angela Xiao Wu e Yige Dong destrincham os diferentes feminismos que circulam na sociedade chinesa em meio à repressão política e o reacionarismo masculino.

É o caos: O empresário Dee Zheng relatou sua experiência como investidor no mercado de tecnologia limpa na China. Ele descarta a visão do “estado engenheiro chinês” como fator determinante e aponta que o sucesso nacional no setor veio do caos.

 

O que é que Chongqing tem de especial que tornou a cidade uma febre nas redes sociais? O South China Post foi investigar.

 

 

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Edição 390 – A transição verde no centro da estratégia de desenvolvimento chinês

Política e economia

Verde é meta, não discurso. Durante um seminário no banco Asiático de Desenvolvimento, em Manila, o vice-ministro das Finanças da China Liao Min reforçou o que já aparece no 15º Plano Quinquenal: a transição verde não é apenas um acessório, mas o centro da estratégia de desenvolvimento do país. Segundo ele, dos oito indicadores vinculantes do plano, ou seja, aqueles que os governos subnacionais são obrigados a cumprir, cinco estão ligados ao desenvolvimento de baixo carbono. Liao aproveitou o espaço para fazer também um balanço econômico com números indicando que o PIB chinês superou 140 trilhões de yuans no ano passado, com a China respondendo por cerca de 30% do crescimento econômico global. O consumo doméstico também foi ressaltado, aparecendo como novo motor desse crescimento, e o país mira dobrar sua classe média de 400 para 800 milhões de pessoas na próxima década.

A Evergrande, lembra dela? A gigante da construção civil chinesa entrou em processo de liquidação em 2023, depois de ser incapaz de quitar uma dívida de 23 bilhões de dólares – apenas uma fração de um total de 300 bilhões. Nesta terça-feira (14), o fundador da empresa, Hui Ka Yan, admitiu culpa por oito crimes relacionados a fraudes financeiras da empresa. A corte de Shenzhen ainda não anunciou sua pena. Hui foi por muitos anos um exemplo de sucesso, tendo se tornado bilionário por meio do trabalho, após uma infância no campo; a Evergrande, no entanto, começou a se complicar em 2020, quando mudanças na legislação do setor foram criadas para limitar o endividamento das incorporadoras; com a prática de usar os fundos investidos por compradores de imóveis para iniciar outra obras, a Evergrande deixou dezenas de prédios inacabados pelo país. Segundo apuração do South China Morning Post em julho de 2025, uma campanha governamental que se propôs a finalizar essas moradias havia entregue, desde 2022, em torno de 6,5 milhões de unidades para seus compradores.

Internacional

Clima tenso no mar (do Sul da China). As tensões no Mar do Sul da China ganharam um capítulo inusitado. As Filipinas acusaram pescadores chineses de despejar cianeto nas águas ao redor de uma região de recifes disputada no Arquipélago Spratly, onde Manila mantém um posto avançado. Testes laboratoriais confirmaram a presença da substância tóxica em garrafas apreendidas pela Marinha filipina entre fevereiro de 2025 e março de 2026, escondida em embalagens de detergente de marcas populares chinesas. Para as autoridades filipinas, o cianeto teria sido usado de forma deliberada para matar a população de peixes local e cortar uma fonte de alimentação dos militares estacionados no navio. Pequim negou, com o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chamando as acusações de “totalmente inverossímeis e sem credibilidade”. O episódio acontece em um momento delicado, uma vez que no fim de março, China e Filipinas realizaram conversas de alto nível sobre o Mar do Sul pela primeira vez desde o início de 2025, o que mostra que, por mais que a diplomacia tente avançar, o conflito na região segue em outra frequência.

Clima tenso nas montanhas. Saindo do mar para a terra, pela sexta vez desde 2017, Pequim publicou uma lista com nomes “padronizados” para localidades na região em disputa de Arunachal Pradesh, que a China reivindica como “Zangnan”, ou Tibete do Sul. A lista mais recente, divulgada em 10 de abril, traz 23 entradas, entre montanhas, rios, aldeias e passagens, cada uma com um nome em caracteres chineses, escrita tibetana e pinyin, além de coordenadas GPS. No total, já são 112 localidades renomeadas por Pequim desde a primeira lista. Pesquisadores chamam a estratégia de “agressão cartográfica” – a normalização incremental de reivindicações territoriais por meio de mapas e listas administrativas, sem um único tiro. A Índia rejeitou a iniciativa como uma “tentativa maldosa” de criar narrativas falsas, lembrando que Arunachal Pradesh “sempre foi, é e sempre será parte integrante e inalienável da Índia”. O timing também chama atenção: a lista foi divulgada durante um período de engajamento diplomático ativo entre os dois países, o que sugere que Pequim a usa menos como rotina administrativa e mais como sinal calibrado de que não abre mão de suas pretensões territoriais, mesmo enquanto sorri para a câmera.

Efeito Beijing-Brasília. Brasil e China juntos respondem por 25% do risco de desmatamento associado ao comércio internacional de commodities agrícolas. O dado é de um novo relatório da Trase, organização especializada em rastreabilidade de cadeias produtivas, que cunhou o conceito de “Efeito Beijing-Brasília” para descrever o potencial que a dupla tem de puxar uma agenda global de sustentabilidade. A relação bilateral entre os dois países movimenta quase US$47 bilhões por ano em produtos agrícolas, com soja e carne bovina dominando o fluxo; com todo esse peso, qualquer compromisso conjunto tem impacto global. O relatório propõe cinco frentes de ação entre os países: troca de conhecimento e inovação, financiamento verde, padrões conjuntos para cadeias livres de desmatamento, combate à ilegalidade e fortalecimento da cooperação Sul-Sul. Para discutir tudo isso, a Trase realizou na última semana um webinar com representantes de governos, academia e setor privado dos dois países, incluindo nomes do Banco Mundial, da Academia Chinesa de Ciências e do Ministério brasileiro.

Sociedade

Revolução ou hype? Já contamos por aqui como o desenvolvimento acelerado da robótica movida a inteligência artificial na China também vem sendo acompanhado de alertas sobre uma possível bolha. Nesta longa matéria do The Guardian, a jornalista Chang Che explora o tema e como a empolgação doméstica na China sobre IA parte muito da sua combinação com a robótica, especialmente o seu uso em fábricas. Além da geopolítica, dos números impressionantes de investimento (cerca de 922 bilhões de yuans em tecnologias como quântica e robótica) e do custo reduzido dos robôs chineses, a discussão perpassa muito o mercado de trabalho. Afinal, fábricas hoje em dia empregam milhares de pessoas na China – e no mundo. Ao mesmo tempo, os jovens cada vez mais se distanciam desse tipo de trabalho braçal. Ironicamente, diversos jovens acabam indo trabalhar como “treinadores” de movimentos para esses robôs.

Zheng He

Corre pra casa: Com o mercado imobiliário ainda em crise, cidades chinesas precisam diversificar suas estratégias de vendas. Algumas delas, como conta a Sixth Tone, passaram a oferecer descontos para maratonistas.

Explicadinho: Depois de ler sobre Evergrande e subsídios para moradias, vale conferir este texto de Chien Ling, que explica para brasileiros toda a complexidade das limitações e opções, na sociedade chinesa, entre onde você mora e onde você nasceu.

Pra inglês ver: Este texto reflete sobre uma “europeização” do mandarim moderno, na construção de sintaxes e afins. O argumento é que esse processo vem ocorrendo desde o século XIX, em duas ondas principais que tiraram a fluidez do hanzi.

 

O SCMP explica como a crise no Oriente Médio afeta a aviação na Ásia – spoiler: os países asiáticos precisam importar petróleo da região para produzir o combustível usado em suas aeronaves.

 

 

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Edição 389 – Após encontro com líder da oposição, Xi fala em retomar laços com Taiwan

Política e economia

Talita+Gui (taiwan) > Diálogo quase promissor. Depois de receber a líder do principal partido de oposição de Taiwan, o presidente chinês Xi Jinping afirmou que Pequim retomará “alguns laços” com a ilha. Como exemplos, o governo citou voos diretos interestreito e comércio de produtos de aquicultura taiwaneses. De acordo com relatos publicados pela imprensa local e internacional, durante um encontro na última sexta (10), Xi e Cheng Li-wun, líder do Kuomingtang, pediram paz entre Taipei e Pequim, mas não deram detalhes sobre como isso se daria. Ainda que haja simbolismo nas declarações e no gesto dos dois líderes, um sinal de cautela aparece quando o órgão taiwanês responsável pelas relações com a China continental afirmou que se trata apenas de transações políticas entre dois partidos. Taiwan é hoje governada pelo Partido Democrático Progressista, opositor ao Kuomintang e que tradicionalmente defende a independência entre Taipei e Pequim. Outro sinal de que uma verdadeira paz interestreito está longe da realidade foi a afirmação de Xi de que Pequim nunca vai tolerar a independência de Taiwan. 

Caça High Tech. O Ministério de Segurança Pública da China anunciou um plano para combater crimes contra a  vida selvagem. O foco, de acordo com o China Daily, é combater a caça ilegal com uso de armas e drones, envenenamento de pássaros e esquemas digitais de comercialização de espécies protegidas. Esse é um esforço que já vinha ganhando escala, onde, só entre agosto e dezembro de 2025, foram mais de 9.700 casos criminais registrados, incluindo milhares ligados principalmente a aves. Mais do que uma agenda ambiental, o tema vem sendo tratado como uma questão de governança e segurança ecológica. O uso de big data, operações coordenadas entre províncias e o foco em cadeias completas de crime são anunciados pelo governo como uma forma de estruturar respostas mais sistêmicas ao problema. Isso inclui tanto a repressão direta quanto o monitoramento de mercados online e de rotas de circulação, áreas nas quais o comércio ilegal de fauna vem se expandindo nos últimos anos. Nesse sentido, o combate à caça ilegal passa a refletir também a adaptação das ferramentas estatais a dinâmicas mais complexas de crimes digitais.

Internacional

Muito além da disputa comercial, as relações entre EUA e China ganharam um novo tópico. Pequim pediu que as autoridades estadunidenses apurem a morte de um pesquisador chinês nos Estados Unidos. Danhao Wang, que pesquisava semicondutores na Universidade de Michigan, morreu logo depois de ter uma conversa com agentes federais. De acordo com os relatos, a conversa teria sido um questionamento hostil. O caso permanece com muitas lacunas sobre a causa da morte e a conversa com as autoridades. Até o momento, a imprensa afirma que Wang teria caído de um dos prédios da instituição. A universidade, por sua vez, fala na investigação de um possível caso de suicídio. As autoridades chinesas, por sua vez, pediram que seus nacionais na condição de estudantes nos EUA, elevem preocupações com segurança. 

Ainda sobre as relações, a decisão de Trump de bloquear o Estreito de Ormuz pode afetar o possível encontro entre Xi Jinping e o republicano. Pequim disse publicamente que é de interesse mundial que o Estreito permaneça aberto. A China é uma das compradoras do petróleo Iraniano e de outros países do Oriente Médio e Ormuz é ponto crucial para o escoamento de energia para a Ásia do Leste. A importância disso é evidenciada por uma reportagem do South China Morning Post, que mostra que uma empresa chinesa tentou usar IA para monitorar o padrão de bombardeamentos dos EUA na região. Aguardaremos os próximos capítulos desse confito. 

Onde o legal se confunde com o ilegal. Investigações recentes mostram o avanço de organizações criminosas ligadas à China no Chile. Os grupos operam principalmente a partir de negócios legais. No país latino-americano, é cada vez mais comum a polícia encontrar karaokês, cassinos e centros comerciais como fachada para esconder atividades criminosas, como o tráfico de pessoas, drogas e esquemas financeiros. Em alguns bairros em Santiago, essas estruturas já se tornaram parte da economia local. Em vez de violência ostensiva ou disputa territorial aberta, essas redes apostam em infiltração econômica, discrição e uso intensivo de tecnologia, desde cultivo indoor altamente sofisticado até fraudes digitais transnacionais. O resultado é um tipo de crime organizado que se mistura com cadeias produtivas legítimas e desafia respostas tradicionais de segurança pública. Para as autoridades chilenas, o problema deixa de ser apenas policial e passa a exigir leitura financeira, regulatória e até diplomática entre os dois países.

Sociedade

IA bom vs IA mau. As controvérsias envolvendo inteligência artificial são inúmeras, mas dois casos recentes de uso da tecnologia na China evidenciam esse contraste. Primeiro, a história de uma empresa que foi criticada por usar dados de um ex-funcionário para emular que ele seguisse trabalhando. Em outro extremo, uma família usou a ferramenta para confortar uma senhora que perdeu seu filho único. O caso laboral está ligado a uma empresa de jogos na província de Shandong, no norte da China, que criou um “trabalhador digital” movido por IA, usando dados de um ex-funcionário após sua demissão. O avatar, que substitui um profissional da área de Recursos Humanos,  é responsável por executar tarefas básicas, como responder a perguntas, agendar compromissos e criar apresentações em PowerPoint e planilhas. O caso do IA “fofinho” também aconteceu na província de Shandong. Uma família contratou uma equipe de tecnologia para criar uma versão artificial de um homem que morreu no ano passado em um acidente. A ideia era ajudar a mãe octogenária a manter contato com o filho morto.

Zheng He

De rebelde a mascote: reportagem do The New York Times conta como um dos principais escritores chineses, Lu Xun, foi adotado como mascote pelo PCCh.

A solução para todos os males: a Folha explica como a moda de beber água quente pela manhã traz benefícios para a saúde. E você, já aderiu ao hábito? 

Comédia em alta: reportagem da Sixthtone conta como o gênero comédia aparece em alta na província de Yunnan, no sul do país.

 

Uma conversa saborosa com o pioneiro e renomado chefe Jereme Leung sobre a culinária chinesa.

 

 

 

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