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MPT contabiliza 463 denúncias de assédio eleitoral em todo o país

O BRASIL já contabiliza 463 denúncias de assédio eleitoral no ambiente laboral neste ano, de acordo com o MPT (Ministério Público do Trabalho). São Paulo (59), Rio de Janeiro (50) e Minas Gerais (47) são os estados com mais casos neste ano eleitoral.

Assédio eleitoral no trabalho é toda prática ligada ao processo eleitoral que tenta influenciar ou constranger a orientação política, a manifestação eleitoral ou o voto de trabalhadores. Pode envolver ameaças, promessas de benefícios, discriminação ou pressão por apoio a determinada candidatura, inclusive em ambientes virtuais relacionados ao trabalho, como e-mail e intranet.

“O ambiente de trabalho não é um espaço para a prática de propaganda eleitoral”, diz o procurador Igor Souza Gonçalves, procurador do Ministério Público do Trabalho. Ele é coordenador nacional de Promoção da Igualdade de Oportunidades e Eliminação da Discriminação no Trabalho do MPT. 

Um dos casos ocorreu em Brasília, onde vigilantes e empregados da empresa 5 Estrelas Sistemas de Segurança teriam sido convocados para comparecer a eventos fora da jornada regular de trabalho em que candidatos pediram votos. Após denúncia do MPT, a Justiça do Trabalho proibiu a companhia de praticar assédio eleitoral

Pela decisão, a empresa não pode convocar ou promover eventos que sejam usados para manifestações político-partidárias, nem distribuir material de propaganda eleitoral ou adotar “práticas voltadas a influenciar, direcionar, induzir ou interferir na orientação política ou no voto dos empregados e trabalhadores”.

Procurada, a 5 Estrelas afirmou que “pauta sua atuação pelo estrito cumprimento da legislação e pelo respeito à liberdade de escolha e de manifestação de seus colaboradores” e que a empresa não adota como prática institucional “qualquer forma de orientação político-eleitoral de seus empregados, tampouco autoriza o uso de suas estruturas e atividades para tal”. Também disse que está à disposição das autoridades competentes.

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Salto de denúncias em setembro

Das 463 denúncias recebidas pelo MPT em 2026, 199 ocorreram em setembro (38% do total), mês que ainda não acabou. Em 2022, o órgão tinha recebido 68 reclamações em todo o mês. 

A expectativa do MPT é que o número de denúncias aumente entre o primeiro e o segundo turno, já que esse foi o período com mais casos registrados em 2022, segundo Gonçalves.

O aumento de denúncias próximo ao pleito pode ser explicado pela maior conscientização da população e das empresas sobre o que é assédio eleitoral, diz o procurador. 

“Algumas práticas que hoje chamamos de assédio eleitoral já eram conhecidas por toda a sociedade brasileira antes desse fenômeno. Mas foi em 2022 que começamos a construir esse conceito, a partir de uma enxurrada de denúncias que chegavam ao Ministério Público do Trabalho”, explica. 

“É importante destacar a grande participação dos sindicatos, a assinatura de TACs [Termos de Ajustamento de Conduta] e de recomendações do MPT, além de cartilhas que foram amplamente reproduzidas naquele contexto”, continua Gonçalves. O total de denúncias em 2022 chegou a 3.500.

Saiba identificar e denunciar

O assédio eleitoral pode ocorrer quando há promessas de benefícios ou vantagens oferecidas a trabalhadores relacionadas à escolha do voto ou à posição política. 

Também pode acontecer em situações que envolvem ameaças de prejuízo ao emprego ou às condições de trabalho associadas ao voto ou à posição política, além de constrangimentos e humilhações. 

Entre as situações que são investigadas por assédio eleitoral estão:

  • a exigência do uso de uniforme, camiseta, boné ou outros símbolos associados a uma candidatura; 
  • a realização de reuniões no trabalho para apresentação de candidatos ou orientação política; 
  • a convocação de trabalhadores para campanhas, postagens ou abaixo-assinados eleitorais; 
  • a definição de escala e local de trabalho no dia da eleição que favoreça o voto apenas de trabalhadores que afirmem apoiar determinado candidato; 
  • a realização de pesquisas ou enquetes sobre intenção de voto no ambiente de trabalho. 

Qualquer pessoa pode apresentar denúncias ao MPT. O órgão recebe reclamações pelo site, por telefone, por e-mail ou presencialmente em suas unidades. Podem ser apresentados como evidências da denúncia: mensagens, e-mails, publicações em redes sociais, documentos, imagens, áudios, vídeos, registros em canais internos e informações de testemunhas.

“Além da simples captura de tela, é importante que o trabalhador tente fazer também, caso ele consiga, a gravação da tela [do celular ou do computador], porque isso ajuda a preservação daquela prova digital”, orienta Gonçalves, do MPT.

Segundo o procurador, a simples captura de tela tem mais chance de ser impugnada judicialmente. “[Gravar] tem maior chance de que aquela prova consiga ser aproveitada, sem a discussão de que se está escolhendo o que está postando e, de algum modo, tentando manipular aquela imagem.”

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Analysis: National Critical Minerals Policy does not guarantee a transition without sacrifice zones

THE LULA ADMINISTRATION enacted the National Critical and Strategic Minerals Policy on September 16, establishing a framework for a sector that is expected to become increasingly important in the coming years.

The idea is relatively simple and makes sense: Brazil should not limit itself to extracting minerals from the ground and exporting them as raw materials. The policy seeks to encourage mineral processing, transformation and industrialization in the country, adding value to supply chains and seeking to ensure that mineral wealth also becomes an opportunity for technological and industrial development.

The law provides financing mechanisms and tax incentives and creates a council linked to the Presidency of the Republic to coordinate the policy. It also establishes social and environmental criteria for selecting projects, calls for traceability, dialogue with affected communities, prevention, mitigation and compensation of impacts, and even creates a Low-Carbon Mineral Certificate.

This is a legislative framework developed together with the Chamber of Deputies and the Senate that sought to connect several different priorities, from economic development to sustainability, and from extraction to industrialization.

But, at least at first glance, the final design is unlikely to reassure communities and social movements rooted in the territories where these minerals are found.

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A first concern relates to governance. The policy concentrates considerable power in the federal government and gives society a fairly limited role.

The National Council for the Industrialization of Critical and Strategic Minerals will be linked to the Presidency of the Republic. Its core will consist of 15 ministers, along with representatives of states, municipalities, the private sector and universities. Civil society does not have a permanent representative with voting rights.

We are in an election year. If there are concerns about the current government, which is more open to dialogue with civil society, what could happen under a new government aligned with more reactionary sectors of society and business?

Another concern about the policy is its dependence on a range of other policies and regulations that can change, either through government decisions or congressional action.

The approved text establishes that the critical minerals policy must be implemented in accordance with instruments such as the Ecological Transformation Plan and the Climate Plan. This means that an important part of environmental protection does not necessarily lie within the minerals policy itself, but depends on the continuity and implementation of other frameworks.

And there are already signs of how these policies can come into tension.

Reporter André Borges, from Folha de S. Paulo, reported this week that the government is preparing a regulation to waive environmental licensing during the initial stage of mineral exploration, classifying certain activities as low-risk. The measure is being defended as a way to provide greater legal certainty and accelerate exploration for minerals considered strategic. But it shows how pressure to speed up exploration can quickly come into conflict with an environmental protection agenda.

Another issue concerns the climate agenda.

The Climate Plan is currently one of the main references for Brazil’s efforts to address climate change. The National Critical Minerals Policy is formally linked to it, explicitly mentioning it in Article 6. But plans and public policies can be changed, weakened or simply cease to be a priority under a future government.

That is why it is not enough to pass a good law. We need institutions and mechanisms capable of surviving changes in government. Social participation could help, but it was not included in the framework designed by policymakers.

Another point of tension in the minerals policy concerns the lack of knowledge about the impacts that opening new mining areas could generate.

The Energy Transition Observatory, a platform created by Repórter Brasil together with partners, illustrates this problem. The tool cross-references information on mining, renewable energy and infrastructure with Indigenous lands, quilombola territories, protected areas and settlements.

The result shows that the energy transition is not taking place in an empty territory.

There are communities, forests, rivers, protected areas and economic activities that may be affected by the expansion of mining needed to electrify the economy. A survey based on data from the Observatory identified applications for critical mineral exploration around hundreds of Indigenous lands.

This is an issue that needs to be at the center of the debate.

There is no doubt that we need critical minerals. Lithium, copper, nickel, rare earth elements, graphite and other minerals will be essential for technologies associated with the energy transition. They are also strategic for Brazil’s technological and industrial sovereignty.

The country has an opportunity that it should not waste. Instead of simply exporting ore, we can use our reserves to develop industry, technology, research and skilled jobs. The new law seeks precisely to create the conditions for this, including incentives to process and transform minerals within Brazil.

But there is a condition. The energy transition cannot reproduce the old development model in which the benefits remain far from the territories while the costs are borne by those who live there.

It makes no sense to fight climate change by destroying forests, contaminating rivers or putting pressure on traditional communities. Nor does it make sense to replace external dependency with a domestic model of resource exploitation that creates new sacrifice zones.

The idea of mineral sovereignty must also take into account the sovereignty of communities over their territories and their own future.

Brazil needs critical minerals, provided there is real traceability, transparency, social participation, environmental protection and a fair distribution of the benefits.

The energy transition will be one of the greatest economic transformations of this century. The question is whether Brazil will seize this transformation as an opportunity to industrialize and develop the country, or simply open a new frontier for exploiting its natural resources. And, above all, who will pay the price for this transition.

* Marcel Gomes, PhD in Energy Systems Planning from the University of Campinas (Unicamp), is Executive Director of Repórter Brasil. Article translated with the assistance of artificial intelligence.

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Análise: Política Nacional de Minerais Críticos não garante uma transição sem zonas de sacrifício

O GOVERNO LULA sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos em 16 de setembro, criando um marco para um setor que deve ganhar cada vez mais importância nos próximos anos.

A ideia é relativamente simples e faz sentido: o Brasil não deveria se limitar a retirar minerais do subsolo e exportá-los como matéria-prima. A política busca estimular o beneficiamento, a transformação mineral e a industrialização no país, agregando valor às cadeias produtivas e tentando fazer com que a riqueza mineral seja também uma oportunidade de desenvolvimento tecnológico e industrial.

A lei prevê instrumentos de financiamento e incentivos fiscais e cria um conselho ligado à Presidência da República para coordenar a política. Também estabelece critérios socioambientais para a seleção de projetos, fala em rastreabilidade, diálogo com comunidades afetadas, prevenção, mitigação e compensação de impactos e até cria um Certificado Mineral de Baixo Carbono.

Trata-se de um desenho legislativo criado junto à Câmara e ao Senado que tentou ligar várias pontas, do desenvolvimento econômico à sustentabilidade, da extração à industrialização. 

Mas, ao menos à primeira vista, esse desenho final ficou longe de tranquilizar comunidades e movimentos sociais estabelecidos nos territórios onde os minerais estão.

Um primeiro ponto de preocupação diz respeito à governança. A política concentra muito poder no governo federal e tem participação bastante limitada da sociedade.

O Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos será vinculado à Presidência da República. Seu núcleo é formado por 15 ministros, além de representantes dos estados, municípios, setor privado e universidades. A sociedade civil não tem um representante permanente com direito a voto.

Estamos em temporada de eleições. Se existe preocupação com o governo atual, que é mais aberto ao diálogo com a sociedade civil, o que poderia acontecer num cenário de um novo governo alinhado com setores retrógrados da sociedade e do empresariado? 

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Outro ponto de preocupação sobre a política trata-se da dependência da norma para uma série de outras políticas e regras que podem mudar, seja por decisão do governo ou do parlamento.

O texto aprovado determina que a política de minerais críticos seja conduzida em conformidade com instrumentos como o Plano de Transformação Ecológica e o Plano Clima. Isso significa que parte importante da proteção ambiental não está necessariamente dentro da política de minerais, mas depende da continuidade e da implementação de outros marcos.

E já há sinais de como essas políticas podem entrar em tensão.

O repórter André Borges, da Folha de S. Paulo, mostrou nesta semana que o governo prepara uma norma para dispensar a licença ambiental na fase inicial da pesquisa mineral, classificando determinadas atividades como de baixo risco. A medida é defendida como uma forma de dar mais segurança jurídica e acelerar a pesquisa por minerais considerados estratégicos. Mas ela mostra como a pressão por acelerar a exploração pode entrar rapidamente em conflito com uma agenda de proteção ambiental.

Outro ponto diz respeito à agenda climática. 

O Plano Clima é hoje uma das principais referências para a política brasileira de enfrentamento às mudanças climáticas. A Política Nacional de Minerais Críticos, inclusive, está formalmente vinculada a ele, ao mencioná-lo no seu Art. 6º. Mas planos e políticas públicas podem ser alterados, esvaziados ou simplesmente deixar de ser prioridade por um próximo governo.

Por isso, não basta criar uma boa lei. É preciso criar instituições e mecanismos capazes de sobreviver às mudanças de governo. Participação social poderia ajudar, mas isso não foi contemplado pelos burocratas.

Um outro ponto de tensão sobre a política mineral diz respeito ao desconhecimento sobre o impacto que a abertura de novos campos de exploração pode gerar.

O Observatório da Transição Energética, plataforma criada pela Repórter Brasil ao lado de parceiros, mostra justamente esse problema. A ferramenta cruza informações sobre mineração, energia renovável e infraestrutura com terras indígenas, territórios quilombolas, unidades de conservação e assentamentos.

O resultado mostra que a transição energética não acontece em um território vazio.

Existem comunidades, florestas, rios, áreas protegidas e atividades econômicas que podem ser afetadas pela expansão da mineração necessária para eletrificar a economia. Um levantamento baseado nos dados do Observatório identificou requerimentos de minerais críticos no entorno de centenas de terras indígenas.

Esse é um tema que precisa estar no centro da discussão.

Não existe dúvida de que precisamos de minerais críticos. Lítio, cobre, níquel, terras raras, grafita e outros minerais serão fundamentais para tecnologias associadas à transição energética. Eles também são estratégicos para a soberania tecnológica e industrial do Brasil.

O país tem uma oportunidade que não deveria desperdiçar. Em vez de simplesmente exportar minério, podemos usar nossas reservas para desenvolver indústria, tecnologia, pesquisa e empregos qualificados. A nova lei tenta justamente criar condições para isso, inclusive com incentivos para o beneficiamento e a transformação dos minerais em território nacional.

Mas existe uma condição. A transição energética não pode repetir o velho modelo de desenvolvimento em que os benefícios ficam longe dos territórios e os custos ficam para quem vive neles.

Não faz sentido combater a mudança do clima destruindo florestas, contaminando rios ou pressionando comunidades tradicionais, e nem trocar a dependência externa por um modelo interno de exploração que produza novas zonas de sacrifício.

A boa ideia da soberania mineral precisa considerar também a soberania das comunidades sobre seus territórios e sobre seu próprio futuro.

O Brasil precisa dos minerais críticos, desde que haja rastreabilidade, transparência, participação social, proteção ambiental e distribuição dos benefícios, de verdade.

A transição energética será uma das maiores transformações econômicas deste século. A questão é saber se o Brasil vai aproveitar essa transformação para industrializar e desenvolver o país ou se vai apenas abrir uma nova fronteira de exploração de seus recursos naturais. E, principalmente, quem vai pagar a conta dessa transição.

* Marcel Gomes, doutor em planejamento de sistemas energéticos pela Unicamp, é secretário-executivo da Repórter Brasil

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Major tin producer accused of illegal mining in the Amazon supplied the US military industry

A MINING company facing charges over allegations that it was part of an illegal mining scheme in the Yanomami Indigenous Territory in the Brazilian Amazon has already exported tin to U.S. companies that hold contracts with the U.S. Department of Defense.

The Pentagon classifies the metal as essential for the production of electronic components used in its military equipment.

White Solder, which presents itself as one of the world’s largest tin producers, supplied at least 525 metric tons to U.S.-based Indium Corporation between May 2023 and August 2025, according to customs records analyzed by Repórter Brasil.

Indium supplies solder to Raytheon, a manufacturer of military systems such as radars and precision-guided missiles, which holds several contracts with the U.S. government. With more than 100 years of operations, Raytheon reported US$88 billion in revenue in 2025.

One of these contracts, signed in 2020 for US$2.2 billion, involves the production of seven missile-defense radars to be delivered to Saudi Arabia by 2027. Under another contract, signed in 2024 and valid until 2031, Raytheon secured an additional US$2.9 billion to provide the United States with units of the company’s most advanced air and missile defense radar system.

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White Solder also supplied tin to U.S.-based Nathan Trotter, which describes itself as North America’s largest manufacturer of tin and solder alloys. Between August 2021 and August 2025, the company received at least 2,400 metric tons from the Brazilian tin producer, according to customs records analysed by the investigation. 

In September 2024, the U.S. Department of Defense awarded US$19 million to Nathan Trotter for the company to establish a tin smelting, refining, and recycling facility in Pennsylvania.

The purpose of the investment is to strengthen domestic production of critical minerals and counter “Chinese efforts to monopolize the global supply, as well as mitigate smelting supply chain vulnerabilities,” according to a release published by the agency.

Cassiterite is the raw material used to produce tin, a metal considered strategic because it functions as a “solder” in technology products (Photo: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
Cassiterite is the raw material used to produce tin, a metal considered strategic because it functions as a “solder” in technology products (Photo: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

“The US’s expanding need for raw materials to underpin its military will lead to further harms associated with mining, both illegal and legal unless safeguards and due diligence are put in place and followed,” warns Emily Iona Stewart, Head of Policy and Advocacy at Global Witness, an organization that has been mapping the harms faced by communities amid rising demand for critical minerals.

“Mining has been legitimized by creating a narrative that these minerals are strategic because of the energy transition, but a significant portion of them also goes to the military industry. There is no control over the final destination of these minerals,” says Bruno Milanez, professor at the Federal University of Juiz de Fora and coordinator of the Political Economy, Mining, Environment and Society Research and Extension Group (PoEMAS).

Contacted by Repórter Brasil, White Solder, Nathan Trotter, Raytheon, and the U.S. Department of Defense did not respond to the questions sent by the investigation.

Indium Corporation said it purchases tin from companies that meet the criteria established by the RMI (Responsible Minerals Initiative), a global initiative promoting responsible practices in the mining sector. White Solder was listed as an RMI-compliant smelter during the period when the metal was supplied, the U.S. company told the investigation. The company did not clarify whether the Brazilian producer remains a supplier (read the full response here).

RMI said it will analyze the available evidence, conduct further inquiries, and consult stakeholders to determine whether it will remove or maintain the company on its list (the full response can be read here).

Criminal scheme in the Yanomami Indigenous Territory

White Solder holds a central position in the global tin market: the group presents itself as one of the world’s largest tin manufacturers and ranks second in royalty payments from cassiterite extraction in the Brazilian Legal Amazon, according to data from the National Mining Agency (ANM). Cassiterite is the main raw material used to produce tin, a metal employed as solder in cell phones, computers, solar panels, electric vehicles, satellites, and military equipment.

In August 2026, the Federal Court accepted a complaint filed by the Federal Public Prosecutor’s Office (MPF) and made White Solder and its managing partner defendants for criminal organization, money laundering, and illegal cassiterite mining in the Yanomami Indigenous Territory, Brazil’s largest indigenous territory.

According to the MPF, White Solder allegedly paid R$166 million to Coopertin (Brazilian Tin Producers Cooperative), which is accused of operating as a shell cooperative and providing a legal origin for more than 525 tons of cassiterite extracted from the Indigenous territory between 2021 and 2022.

The cooperative did not respond to questions sent by Repórter Brasil.

Headquarters of White Solder in Rondônia, in the Brazilian Amazon. The company presents itself as one of the main global tin producers (Photo: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

According to the MPF, cassiterite from the Yanomami Indigenous Territory was sent to the mining company’s branch in Ariquemes, Rondônia state, where it was smelted and transformed into tin ingots. “Thus, cassiterite extracted from unauthorized locations can easily be inserted into the legal market,” explains prosecutor André Luiz Porreca, who led the investigation.

Acquisition of cassiterite from areas with no evidence of mining activity

This is not the only allegation involving White Solder’s cassiterite purchases.

A report published last Thursday (17) by Repórter Brasil showed that the company purchased more than 2,300 metric tons of cassiterite between 2020 and 2025 from two areas with no evidence of mining activity in Campo Novo de Rondônia, in northern Rondônia state.

The assessment, developed in collaboration with the organization Greenpeace Brasil, analyzed high-resolution satellite imagery and included aerial surveys and field investigations. “The available evidence does not show spatial and temporal signs consistent with mineral production,” Greenpeace said. According to the organization, the evidence suggests that the areas are “ghost mines.”

More than 2,000 tons of cassiterite were declared by White Solder as originating from pasture areas in Rondônia, an investigation by Repórter Brasil in conjunction with the Greenpeace organization showed (Photo: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

“Ghost mines” is a term used to describe mining areas that are authorized to operate and sell minerals but, in practice, show no actual production. Such areas may be used to conceal the true origin of minerals illegally extracted from areas without mining authorization, such as Indigenous territories.

Federal Prosecutor’s Office investigates international buyers

In addition to filing charges against White Solder, the Brazilian Federal Public Prosecutor’s Office (MPF) also opened a civil inquiry to investigate the potential responsibility of companies that allegedly purchased tin from the company. Brazilian subsidiaries of ten multinational corporations, including Amazon, Microsoft, Disney, and Intel, are mentioned in the document.

The relationship between some of these companies and White Solder was identified during Operation “Forja de Hefesto”, launched by the Brazilian Federal Police in December 2023, according to documents obtained by Repórter Brasil. The police analyzed corporate documents disclosed by the companies themselves to the U.S. Securities and Exchange Commission (SEC).

Publicly traded companies in the United States are required to report to the SEC their potential suppliers of gold, tungsten, tantalum, and tin – known as “conflict minerals” due to their association with mining activities in war zones and areas of political instability. These minerals may have been purchased directly or indirectly through external suppliers.

However, inclusion on these lists does not mean that tin produced by White Solder was actually used in the products of the reporting companies. To prepare their reports, multinational corporations rely on information shared by their suppliers and only state that minerals from the listed smelters “may have been used” in their supply chains.

Supply to Big Tech companies

Conflict minerals reports from 2025 issued by at least eight major technology, entertainment, and aerospace companies mention White Solder as a potential supplier, according to a survey by Repórter Brasil.

Following the Federal Police operation targeting White Solder, the company had already been listed in reports from Amazon, Microsoft, Disney, and Intel, as reported by Folha de S.Paulo in March 2024. The four companies’ 2025 reports continue to list the Brazilian tin producer.

The mining company is also listed in reports from semiconductor manufacturers NVIDIA and AMD (Advanced Micro Devices), rocket and space systems manufacturer Rocket Lab, and Sony. The latter is also mentioned on White Solder’s own website, which claims to hold a “green certification” from the Japanese company and Panasonic.

Repórter Brasil contacted all the companies mentioned.

Without commenting specifically on the case, NVIDIA said it is “committed to the responsible sourcing of minerals” and that it routinely reviews its suppliers to ensure compliance with its responsible minerals sourcing policy.

Panasonic Group said it carries out “Green Procurement” activities, involving the purchase of products from suppliers with good environmental practices, such as proper chemical management and greenhouse gas emissions reduction. These actions, the company clarified, are not part of a certification program. Panasonic said it does not comment on relationships with specific companies but considers “sustainability, including respect for human rights” priorities in its mineral supply chain.

Microsoft and Intel said they would not comment on the case. Amazon, Disney, AMD, Rocket Lab, and Sony did not respond.

Taxpayer-Funded Mining

Aaron Mintzes, Deputy Director of Policy at Earthworks, a Washington-based organization, criticizes the spending of US government money on mining companies linked to socio-environmental violations. “Both at home and abroad, the Trump Administration exploits foreign nations and Indigenous Peoples in an unnecessary rush for minerals.,” he argues.

A Indium Corporation, que recebeu estanho da White Solder, fornece soldas para a americana Raytheon, contratada por US$ 2,9 bilhões para produção de Sensores de Defesa Aérea e Antimíssil de Nível Inferior (LTAMDS, na sigla em inglês) para o governo dos EUA
Indium Corporation, which received tin from White Solder, supplies solder to the American company Raytheon, which has a $2.9 billion contract to produce Lower Level Air Defense and Missile Sensors (LTAMDS) for the US government (Photo: Raytheon)

According to Mintzes, U.S. lawmakers could introduce safeguards for these populations into the Defense Production Act, a federal law that grants extraordinary powers to the executive branch to invest in the national defense industry during periods of crisis. Twice this year, Donald Trump invoked the law to expand energy-related production and impose restrictions on critical mineral exports.

“Congress can require the Department of Defense to prohibit spending taxpayer money on minerals bought from companies that are violating human rights or the rights of Indigenous Peoples,” he suggests.

This investigation received research support from the Pulitzer Center

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Mineradora ré por garimpo ilegal na Amazônia abasteceu indústria bélica dos EUA

UMA MINERADORA ré por suspeita de integrar um esquema de garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, já exportou estanho a empresas norte-americanas com contratos com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. 

O Pentágono classifica o metal como indispensável para a produção de componentes eletrônicos usados em seus equipamentos militares. 

Apresentando-se como uma das maiores produtoras de estanho do mundo, a White Solder forneceu ao menos 525 toneladas para a americana Indium Corporation entre maio de 2023 e agosto de 2025, segundo registros alfandegários analisados pela reportagem. 

A Indium fornece soldas para a Raytheon, fabricante de sistemas militares, como radares e mísseis de alta precisão, que mantém diversos diversos contratos com o governo norte-americano. Com mais de 100 anos de atuação, a Raytheon faturou US$ 88 bilhões em 2025.

Um desses contratos, assinado em 2020 por US$ 2,2 bilhões, prevê a produção de sete radares de defesa antimíssil destinados à Arábia Saudita até 2027. Em outro, firmado em 2024 e com validade até 2031, a Raytheon garantiu outros US$ 2,9 bilhões para fornecer aos Estados Unidos unidades do mais moderno radar de defesa aérea e antimíssil desenvolvido pela companhia.

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A White Solder também forneceu o metal para a norte-americana Nathan Trotter, que se define como a maior fabricante de estanho e ligas de solda da América do Norte. Entre agosto de 2021 e agosto de 2025, a companhia recebeu ao menos 2,4 mil toneladas da produtora de estanho brasileira, apontam registros alfandegários.

Em setembro de 2024, o Departamento de Defesa americano destinou US$ 19 milhões à Nathan Trotter para a empresa instalar uma unidade de fundição, refino e reciclagem de estanho no estado da Pensilvânia.

O objetivo do aporte é fortalecer a produção interna de minerais críticos e “conter os esforços da China para monopolizar a oferta global e a reduzir as vulnerabilidades da cadeia de suprimentos”, diz o release divulgado pelo órgão.

A cassiterita é matéria-prima do estanho, considerado estratégico por funcionar como uma “solda” em produtos de tecnologia (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

“A crescente necessidade dos EUA por matérias-primas para sustentar suas forças armadas levará a mais danos associados à mineração, tanto ilegal quanto legal, a menos que medidas de segurança e devida diligência sejam implementadas e seguidas”, alerta Emily Iona Stewart, Chefe de Políticas e Defesa de Direitos da organização Global Witness. 

“A mineração vem se legitimando ao criar essa narrativa de que os minerais são estratégicos para a transição energética, mas uma parte deles também vai para a indústria da guerra. Não existe nenhum controle sobre o destino final desses minerais”, afirma Bruno Milanez, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e coordenador do Grupo de Pesquisa e Extensão Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS). 

Procuradas pela Repórter Brasil, White Solder, Nathan Trotter, Raytheon e o Departamento de Defesa dos EUA não responderam aos questionamentos enviados pela reportagem. 

A Indium Corporation afirmou adquirir estanho de empresas que cumprem os critérios da RMI (sigla para Responsible Minerals Initiative), iniciativa global para a promoção de práticas responsáveis no setor de mineração. A White Solder era listada como uma refinaria em conformidade com a RMI durante o período de fornecimento do metal, disse a companhia americana à reportagem. A empresa não esclareceu se a produtora brasileira ainda é sua fornecedora.

Já a RMI disse que irá analisar as evidências disponíveis, realizar novas apurações e consultar as partes interessadas para avaliar se retira ou mantém a empresa na sua lista (as respostas completas podem ser lidas aqui).

Esquema criminoso na TI Yanomami

A White Solder tem uma posição central no mercado global de estanho: o grupo se apresenta como um dos maiores fabricantes mundiais do produto e ocupa o segundo lugar em arrecadação de royalties da exploração de cassiterita na Amazônia Legal, segundo dados da ANM (Agência Nacional de Mineração).

A cassiterita é a principal matéria-prima usada na fabricação do estanho, um metal empregado como solda em celulares, computadores, painéis solares, veículos elétricos, satélites e equipamentos militares.

Em agosto de 2026, a Justiça Federal aceitou denúncia do MPF (Ministério Público Federal) e tornou a White Solder e seu sócio-diretor réus por organização criminosa, lavagem de dinheiro e garimpo ilegal de cassiterita na Terra Indígena Yanomami. 

Segundo o MPF, a White Solder teria pago R$ 166 milhões à Coopertin (Cooperativa de Produtores de Estanho do Brasil), acusada de funcionar como uma cooperativa de fachada e dar origem legal a mais de 525 toneladas de cassiterita garimpadas do território indígena entre 2021 e 2022. 

Sede da White Solder em Ariquemes (RO); empresa também possui unidades em Manaus (AM) e Ribeirão Preto (SP) (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Procurada, a cooperativa não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem.

Da TI Yanomami, a cassiterita era, segundo o MPF, enviada para a filial da mineradora em Ariquemes (RO), fundida e transformada em lingotes de estanho. “Assim, a cassiterita extraída em locais não autorizados pode ser inserida com facilidade no mercado regular”, explica o procurador André Luiz Porreca, responsável pelo inquérito.

Aquisição de cassiterita de áreas sem indício de mineração

Essa não é a única suspeita que paira sobre as aquisições de cassiterita da White Solder. 

Uma reportagem publicada na última quinta-feira (17) pela Repórter Brasil mostrou que a empresa comprou, entre 2020 e 2025, mais de 2,3 mil toneladas de cassiterita de duas áreas sem indícios de atividade mineral em Campo Novo de Rondônia, no norte do estado. 

A verificação, realizada em conjunto com a organização Greenpeace, foi feita analisando imagens de satélite de alta resolução, por meio de sobrevoo e investigações em campo.

“As evidências disponíveis não apresentam sinais espaciais e temporais compatíveis com a produção mineral”, afirma o Greenpeace. Para a organização, os indícios sugerem que as áreas declaradas como origem da cassiterita seriam “garimpos fantasmas”.

Mais de 2 mil toneladas de cassiterita foram declaradas pela White Solder como oriundas de áreas de pastagem em Rondônia, mostrou investigação da Repórter Brasil em conjunto com a organização Greenpeace (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

“Garimpos fantasmas” é como são conhecidas áreas de garimpo autorizadas a funcionar e comercializar o minério, mas que, na prática, não registram produção efetiva. As áreas podem ser usadas para ocultar a real origem do minério.

MPF investiga compradores internacionais 

Além de apresentar a denúncia contra a White Solder à Justiça, o MPF também abriu um inquérito civil para apurar a eventual responsabilidade de empresas que, segundo o órgão, teriam adquirido estanho da companhia. Subsidiárias brasileiras de dez multinacionais, como Amazon, Microsoft, Disney e Intel, são mencionadas no documento. 

A relação de parte dessas empresas com a White Solder foi identificada na Operação Forja de Hefesto, deflagrada pela Polícia Federal em dezembro de 2023, segundo documentos obtidos pela Repórter Brasil. A corporação analisou documentos corporativos divulgados pelas próprias multinacionais à Comissão de Valores Mobiliários americana (SEC, na sigla em inglês). 

Empresas de capital aberto nos Estados Unidos são obrigadas a informar à SEC quem são os seus potenciais fornecedores de ouro, tungstênio, tântalo e estanho – chamados de “minerais de conflito” por serem comumente extraídos em zonas de guerra e áreas de instabilidade política. Esses minerais podem ter sido adquiridos direta ou indiretamente, via fornecedores externos.

A inclusão nessas listas, no entanto, não significa que o estanho produzido pela White Solder tenha sido efetivamente utilizado nos produtos das empresas declarantes. Para a elaboração do relatório, as multinacionais se baseiam em informações compartilhadas por seus fornecedores, e limitam-se a dizer que os minerais das refinarias listadas “podem ter sido usados” em suas cadeias produtivas.

Fornecimento para Big Techs

Mencionam a White Solder como potencial fornecedora os relatórios de minerais de conflito de 2025 de ao menos oito grandes empresas de tecnologia, entretenimento e indústria aeroespacial, segundo levantamento da Repórter Brasil

Após a operação da PF na White Solder, a empresa já era mencionada em relatórios da Amazon, Microsoft, Disney e Intel, como mostrou reportagem da Folha de S. Paulo de março de 2024. Os relatórios de 2025 das quatro empresas mantêm a produtora de estanho brasileira.

A mineradora também é listada em relatórios das produtoras de chips e processadores NVIDIA e AMD (Advanced Micro Devices), da Rocket Lab, fabricante de foguetes, satélites e sistemas espaciais, e da Sony. Esta última também é citada no próprio site da White Solder, que afirma possuir “certificação verde” da companhia japonesa e da Panasonic. 

A Repórter Brasil procurou todas as empresas citadas. 

Sem entrar em detalhes do caso, a NVIDIA disse estar “comprometida com o fornecimento responsável de minerais” e que revisa rotineiramente seus fornecedores para garantir a conformidade com sua política de aquisição responsável de minerais. 

O grupo Panasonic afirmou realizar ações de “Compras Verdes”, aquisição de produtos de fornecedores com boas práticas ambientais, como gerenciamento adequado de substâncias químicas e redução das emissões de gases de efeito estufa. Essas ações, esclareceu a empresa, não fazem parte de um programa de certificação. A Panasonic disse que não comenta relações com empresas específicas, mas que considera “a sustentabilidade e o respeito aos direitos humanos” como prioridades em sua cadeia de fornecimento de minerais. 

Microsoft e Intel disseram que não comentariam o caso. Amazon, Disney, AMD, Rocket Lab e Sony não responderam. 

Uso de dinheiro público americano 

Aaron Mintzes, Diretor Adjunto de Políticas da organização EarthWorks, com sede em Washington, critica o uso de dinheiro americano em empresas de mineração ligadas a violações socioambientais. “Tanto em casa quanto no exterior, o governo Trump explora nações estrangeiras e povos indígenas em uma corrida desnecessária por minerais”, avalia. 

A Indium Corporation, que recebeu estanho da White Solder, fornece soldas para a americana Raytheon, contratada por US$ 2,9 bilhões para produção de Sensores de Defesa Aérea e Antimíssil de Nível Inferior (LTAMDS, na sigla em inglês) para o governo dos EUA
A Indium Corporation, que recebeu estanho da White Solder, fornece soldas para a americana Raytheon, contratada por US$ 2,9 bilhões para produção de Sensores de Defesa Aérea e Antimíssil de Nível Inferior (LTAMDS, na sigla em inglês) para o governo dos EUA (Foto: Divulgação/Raytheon)

Para Mintzes, os congressistas americanos podem inserir mecanismos de proteção a essas populações na Lei de Produção de Defesa (Defense Production Act, no termo em inglês), lei federal americana que dá poderes extraordinários ao Executivo para investimentos na indústria da defesa nacional durante períodos de crise.

Em dois momentos este ano, Donald Trump recorreu à lei para expandir a produção de petróleo e impor restrições às exportações de minerais críticos. 

“O Congresso pode exigir que o Departamento de Defesa proíba o gasto de dinheiro público em minerais comprados de empresas que violam os direitos humanos ou os direitos dos povos indígenas”, sugere.

A produção desta reportagem contou com a colaboração de pesquisa do Pulitzer Center


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Global tin producer bought cassiterite from Amazon areas suspected of illegal mining activity 

TIN PRODUCER White Solder acquired cassiterite from areas of the Brazilian Amazon where there is no evidence of mining activity. Between 2020 and 2025, the company reported in official documents the purchase of 2,300 metric tons of cassiterita from two locations in Campo Novo de Rondônia, in northern Rondônia state, where no signs of mining were found.

White Solder holds a central position in the global tin market: the group presents itself as one of the world’s largest tin manufacturers and ranks second in royalty payments from cassiterite extraction in the Brazilian Legal Amazon, according to data from the Brazil’s National Mining Agency.

Repórter Brasil visited the two areas identified by the company as the source of the cassiterite but found only cattle pasture and dozens of animals. The verification was conducted through an aerial survey carried out jointly with Greenpeace Brasil and through unpaved roads.

“The available evidence does not show spatial and temporal signs consistent with mineral production,” Greenpeace said. In addition to the field verification, the organization analyzed high-resolution satellite imagery, which was reviewed by Repórter Brasil. According to Greenpeace, the evidence suggests that the areas are “ghost mines.”

“Ghost mines” is the term used to describe mining sites that are authorized to operate and sell minerals but that, in practice, have no recorded production. Such sites can be used to conceal the true origin of minerals illegally extracted from areas without mining authorization, such as Indigenous territories.

Thousands of tons of cassiterite were reported as originating from areas where cattle pasture and livestock facilities were found in Campo Novo de Rondônia, in the Brazilian Amazon (Photo: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Cassiterite is the raw material used to produce tin, a metal considered strategic for the defense and technology industries because it acts as a kind of “glue” in the soldering of electronic components. White Solder purchases raw cassiterite and processes it at an industrial facility in Rondônia before exporting it.

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A total of 2,900 tons of cassiterite were reported between January 2020 and June 2026 as having been extracted from the two Artisanal Mining Permits or PLG, in the abbreviation in Portuguese. A PLG is a simplified authorization issued by Brazil’s National Mining Agency, intended for small-scale mining. Of this amount, 2,300 tons were declared by White Solder to CFEM, Brazil’s Financial Compensation for Mineral Exploration. The estimated total value of this production is R$228.54 million (approximately USD 44,3 million). 

Contacted by email and phone by Repórter Brasil, White Solder had not responded by the time this report was published.

White Solder allegedly reported purchasing thousands of metric tons of cassiterite and processed it at its smelter in Ariquemes, Rondônia state; according to Greenpeace, the areas show no evidence of mining activity (Photo: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

At the end of August, the mining company became a defendant in Federal Court accused of operating an illegal cassiterite mining scheme in the Yanomami Indigenous Territory, in Roraima state. According to the Federal Public Prosecutor’s Office (MPF), which filed the charges, the arrangement allegedly moved R$166 million (USD 32 million).

“The main source of tin is cassiterite. The Amazon as a whole is rich in cassiterite, but much of this ore is located in environmentally sensitive areas,” warns André Luiz Porreca, the MPF prosecutor responsible for the investigation into White Solder.

Although they do not overlap with any protected areas, the PLGs with no evidence of mining activity are located six kilometers from the Uru Eu Wau Wau Indigenous Territory. Home to nine Indigenous peoples, including five isolated groups, the territory is under pressure from illegal cassiterite mining.

“More and more PLGs are expanding, and mining is reaching the Indigenous territory. People think that because it is outside the territory it does not have an impact, but it does,” says Ivaneide Bandeira, known as Neidinha Suruí, one of the founders of the Kanindé Ethnoenvironmental Defense Association.

A candidate for the Brazilian Senate, Neidinha cites river contamination and increased violence around the Indigenous territory as some of the impacts of mining. 

“The Yanomami were nearly driven to extinction by illegal mining. Imagine the effects on a territory like Uru Eu Wau Wau, which has a much smaller population. It will be a genocide,” she says. The Yanomami Indigenous Territory is home to around 31,000 Indigenous people and Uru Eu Wau Wau to 518, according to the Brazilian Institute of Geography and Statistics.

Suppliers with previous environmental infractions

White Solder presents itself as one of the world’s largest tin producers. The company is headquartered in São Paulo and Amazonas states and operates a metallurgical facility in Ariquemes, Rondônia.

The plant is located 100 kilometers from Campo Novo de Rondônia, where the two PLGs with suspected irregularities are located. One of them is registered under Coomibra (Brazilian Miners Cooperative). Greenpeace analyzed satellite images from several years and identified signs of mining activity only in 2018 and 2019. After that period, the organization found no evidence of mining.

Between January 2020 and April 2023, White Solder reported the purchase of 2,300 metric tons of cassiterite from this area, with an estimated value of R$228 million (USD 44 million), according to calculations by Repórter Brasil based on declared CFEM payments.

Most cassiterite sales took place when this PLG belonged to another cooperative, Coopercam (Campo Novo de Rondônia Miners Cooperative). The entity filed the mining application in 2013 and held the permit until March 2023. Two months later, it was ordered by the Court of Rondônia state to cease “all mining activities” in the municipality due to irregular cassiterite extraction in the region.

Contacted by Repórter Brasil, Coopercam and Coomibra did not respond by the time this report was published.

Company says it will suspend purchases after Repórter Brasil inquiry

The second PLG showing signs of being a “ghost mine” is located in an area adjacent to the first one and is operated by Coomari (Ariquemes Mining Cooperative).

A total of 7.9 metric tons of cassiterite was reported by White Solder as originating from this location in December 2024 and April 2025. 

In this area, Greenpeace said it “did not find any signs of mining activity” in the historical satellite imagery series. During an aerial survey conducted by Greenpeace and Repórter Brasil in August of this year, no mining scars were identified either.

In addition to White Solder, the company Fábrica Auricchio Indústria e Comércio de Metais, based in Mogi das Cruzes (São Paulo state), also purchased cassiterite from this area. Between June 2024 and June 2026, around 524 metric tons of ore with the alleged origin in this area were reported by the company, with an estimated total value of R$61.9 million (USD 12 million).

Besides its operations in São Paulo state, the company has facilities in Pará state and Chile and specializes in processing copper and cassiterite to produce tin ingots, solder wire, and other products.

After being contacted by Repórter Brasil, Fábrica Auricchio said it would suspend purchases of ore from the area “until the facts are properly clarified.” In a statement, the company emphasized that it “adopts due diligence and traceability procedures for responsible mineral sourcing” and that it carries out verification procedures before beginning purchases from mineral suppliers.

According to Fábrica Auricchio, an in loco inspection was carried out at Coomari’s PLG area between late 2023 and early 2024. “At the time, no elements were identified that would indicate to Fábrica Auricchio any irregularity regarding the origin of the ore or that would allow the conclusion that the situation currently reported by the investigation existed,” the company said. “Given the new information presented, the company will conduct a new specific verification of the mentioned PLG.” The full response can be read here.

Fábrica Auricchio, like White Solder, is certified by the RMI (Responsible Minerals Initiative), a global initiative that brings together companies and organizations to promote responsible mining practices.

Contacted by Repórter Brasil, RMI said it will analyze the available evidence, conduct further inquiries, and consult stakeholders to assess whether it will remove or maintain both companies on its list and whether adjustments to the program are necessary. The full response can be read here.

In June 2024, Coomari was fined more than R$1 million by Ibama (Brazil’s environmental protection agency) for maintaining “potentially polluting activities without a license.” On the same day, an 800-square-meter area in Ariquemes was embargoed.

Contacted by Repórter Brasil, Coomari did not respond by the time this report was published.

How Artisanal Mining Permit’s enable fraud in mineral origin

A PLG (Artisanal Mining Permit) is a special authorization granted by Brazil’s National Mining Agency for the small-scale extraction of minerals such as gold and cassiterite.

Experts consulted by Repórter Brasil say that, in practice, the model has vulnerabilities that may allow illegally sourced material to be declared as legal. There is no requirement for prior mineral exploration studies, and the applicant itself is responsible for declaring the productive potential of the area.

In addition, after approval by Brazil’s National Mining Agency, there is limited oversight by regulatory agencies regarding how much ore is actually extracted from the authorized areas.

According to Danicley Aguiar of Greenpeace Brazil, the lack of prior research into the productive potential of an area functions as a “second presumption of good faith.” He refers to the “presumption of good faith” rule that, until 2025, allowed buyers of artisanal gold to classify the mineral as legally sourced based solely on information provided by miners. This practice was declared unconstitutional by Brazil’s Supreme Federal Court last year.

“There is no geological study to estimate whether one kilogram, one hundred kilograms, or one hundred thousand kilograms of ore could come from that area, because no one knows the deposit’s potential,” says Aguiar. “It is a kind of ‘second presumption of good faith’: we continue to authorize and license production without knowing how much ore actually exists there,” he adds.

A PLG is an authorization granted for small-scale mining, but its use can be diverted for industrial-scale extraction (Photo: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

At the end of May, Greenpeace Brazil published an assessment estimating that 25.3 metric tons of gold (worth R$18.4 billion) may have originated from PLGs with irregularities.

“There is a clear distortion of the purpose of PLGs,” says André Luiz Porreca, the MPF prosecutor investigating the White Solder case. He criticizes the lack of monitoring by Brazil’s National Mining Agency, which “has a duty to inspect the location where the ore is extracted.” “This is established by law, but it is not being done,” the prosecutor says.

In June, the agency approved a resolution changing the rules governing the current artisanal mining permit system. Among the changes is a requirement to prove actual mining activity as a condition for renewing a PLG. The regulation also limited the maximum area for PLGs held by individuals and sole proprietorships to 50 hectares, and to 1,000 hectares for areas registered by cooperatives, which will be required to annually provide a list of their members.

Repórter Brasil contacted the ANM, but the agency did not respond by the time this report was published.

Cooperative charged with illegal mining also supplied White Solder

The aerial survey of the region also revealed a mining operation along the Massangana River, in the rural area of Ariquemes. It is a PLG operated by Coopertin (Brazilian Tin Producers Cooperative). The site contains piles of mining waste, dams, and machinery used to extract cassiterite across an area of 5,600 hectares.

However, according to satellite images analyzed by Greenpeace, the mining operation has expanded beyond the limits of the PLG. In June 2024, mining activity extended beyond the northern boundary of the area, following the course of the river, according to the organization’s analysis.

“Comparative visual inspection of the images makes it possible to identify the expansion of the mining front over time and verify its position in relation to the authorized limits of the PLG, allowing us to conclude that extraction has expanded beyond the PLG boundaries,” Greenpeace’s analysis states.

Coopertin’s mining area expanded beyond the limits of the PLG in Ariquemes, according to Greenpeace’s analysis (Photo: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Coopertin is a defendant alongside White Solder in the investigation into an alleged criminal scheme in the Yanomami Indigenous Territory.

Between January 2020 and May 2026, White Solder reported purchases of 20,000 metric tons of cassiterite attributed to the cooperative’s area, with an estimated value of R$1.6 billion.

Coopertin did not respond to Repórter Brasil by the time this report was published.

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‘Garimpos fantasmas’ legalizam 2 mil toneladas de cassiterita em Rondônia, diz ONG

DE ARIQUEMES (RO) — A mineradora White Solder comprou cassiterita de áreas onde não há indícios de exploração mineral. Entre 2020 e 2025, a empresa declarou em documentos oficiais a compra de 2,3 mil toneladas do minério de dois locais sem sinal de mineração em Campo Novo de Rondônia, no norte do estado.

A Repórter Brasil visitou as duas áreas indicadas pela White Solder como origem da cassiterita, mas encontrou apenas pasto para criação de gado e dezenas de animais. A verificação foi feita por meio de sobrevoo em conjunto com a organização Greenpeace e por estradas de terra.

“As evidências disponíveis não apresentam sinais espaciais e temporais compatíveis com a produção mineral”, afirma o Greenpeace. Além da verificação no local, a organização analisou imagens de satélite de alta resolução, material revisado pela Repórter Brasil. Para a organização, as evidências analisadas sugerem que as áreas constituem “garimpos fantasmas”. 

“Garimpos fantasmas” é como são conhecidas áreas de garimpo autorizadas a funcionar e comercializar o minério, mas que, na prática, não registram produção efetiva. Locais como esses podem ser usados para ocultar a real origem de mineral extraído ilegalmente de áreas sem autorização minerária, como territórios indígenas.

Milhares de toneladas de cassiterita foram declaradas com origem em áreas onde havia pasto e estruturas para criação de gado em Campo Novo de Rondônia (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

A cassiterita é a matéria-prima do estanho, metal considerado estratégico para a indústria bélica e da tecnologia por funcionar como uma espécie de “cola” na soldagem de componentes eletrônicos. A White Solder adquire o minério bruto e faz o processamento em uma unidade industrial em Rondônia, antes da exportação.

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Ao todo, 2,9 mil toneladas de cassiterita foram declaradas entre janeiro de 2020 e junho de 2026 como se tivessem sido extraídas das duas PLGs (Permissões de Lavra Garimpeira). Desse total, 2,3 mil toneladas foram declaradas pela White Solder, segundo dados públicos da CFEM (Compensação Financeira pela Exploração Mineral), disponibilizados pela ANM (Agência Nacional de Mineração). O valor total estimado por essa produção é de R$ 228,54 milhões.

Procurada por e-mail e telefone pela Repórter Brasil, a White Solder não respondeu até a publicação desta reportagem.

White Solder teria declarado compra de milhares de toneladas de cassiterita e processado em sua metalurgia em Ariquemes (RO); as áreas não têm indício de mineração, segundo o Greenpeace (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

No final de agosto, a mineradora virou ré na Justiça Federal acusada de operar um esquema de garimpo ilegal de cassiterita na Terra Indígena Yanomami, em Roraima. O arranjo teria movimentado R$ 166 milhões, segundo o MPF (Ministério Público Federal), autor da denúncia.

“A principal fonte de estanho é a cassiterita. A Amazônia, como um todo, é rica em cassiterita, mas muito desse minério está em áreas sensíveis do ponto de vista ambiental”, alerta André Luiz Porreca, procurador do MPF responsável pelo inquérito sobre a White Solder. 

White Solder declarou a compra de 2,3 mil toneladas de cassiterita de áreas sem sinais de mineração em Campo Novo de Rondônia (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
White Solder declarou a compra de 2,3 mil toneladas de cassiterita de áreas sem sinais de mineração em Campo Novo de Rondônia (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Apesar de não incidirem sobre nenhuma área protegida, as PLGs sem indícios de atividade mineral estão a uma distância de seis quilômetros da Terra Indígena Uru Eu Wau Wau. Morada de nove povos indígenas, sendo cinco grupos isolados, o território é pressionado pelo garimpo ilegal de cassiterita

“Cada vez mais as PLGs estão avançando e o garimpo está encostando na terra indígena. Pensam que, por estar do lado de fora, não impacta o território, mas impacta sim”, afirma Ivaneide Bandeira, a Neidinha Suruí, uma das fundadoras da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé

Candidata ao Senado pelo PSB-RO, Neidinha cita a contaminação dos rios e o aumento da violência no entorno da TI como alguns dos impactos do garimpo. “Os Yanomami quase foram levados à extinção pelo garimpo. Imagina os efeitos em um território como o Uru Eu Wau Wau, que tem uma população bem menor. Vai ser um genocídio”, diz. A TI Yanomami abriga cerca de 31 mil indígenas e a TI Uru Eu Wau Wau, 518, de acordo com o IBGE.

Cooperativas responsáveis pelas PLGs têm problemas ambientais

O Grupo White Solder se apresenta como um dos maiores produtores mundiais de estanho. A empresa tem sede em São Paulo e no Amazonas e opera uma unidade de metalurgia em Ariquemes. A fábrica está a 100 km de Campo Novo de Rondônia, onde ficam as duas PLGs com indícios de irregularidades. 

Uma delas está em nome da Coomibra (Cooperativa dos Garimpeiros Mineradores do Brasil). O Greenpeace analisou imagens de satélite de vários anos e identificou sinais de atividade minerária apenas em 2018 e 2019. Depois disso, não encontrou indícios de mineração. 

Entre janeiro de 2020 e abril de 2023, a White Solder declarou à ANM compras de 2,3 mil toneladas de cassiterita atribuídas à área, com valor estimado de R$ 228 milhões, segundo cálculos da Repórter Brasil a partir dos valores declarados de CFEM. 

Sobrevoo sobre área da PLG não encontrou indícios de mineração compatíveis com as milhares de toneladas declaradas pela cooperativa (Fotos: Bruno Kelly/Greenpeace)
Sobrevoo sobre área da PLG não encontrou indícios de mineração compatíveis com as milhares de toneladas declaradas pela cooperativa (Fotos: Bruno Kelly/Greenpeace)
Sobrevoo sobre área da PLG não encontrou indícios de mineração compatíveis com as milhares de toneladas declaradas pela cooperativa (Fotos: Bruno Kelly/Greenpeace)
Sobrevoo sobre área da PLG não encontrou indícios de mineração compatíveis com as milhares de toneladas declaradas pela cooperativa (Fotos: Bruno Kelly/Greenpeace)
Sobrevoo sobre área da PLG não encontrou indícios de mineração compatíveis com as milhares de toneladas declaradas pela cooperativa (Fotos: Bruno Kelly/Greenpeace)
Sobrevoo sobre área da PLG não encontrou indícios de mineração compatíveis com as milhares de toneladas declaradas pela cooperativa (Fotos: Bruno Kelly/Greenpeace)

A maior parte das vendas da cassiterita aconteceu quando essa PLG pertencia a outra cooperativa, a Coopercam (Cooperativa de Garimpeiros de Campo Novo de Rondônia). A entidade fez o requerimento de mineração em 2013 e foi detentora do título até março de 2023. Dois meses depois, ela foi condenada pela Justiça de Rondônia a cessar “toda e qualquer atividade minerária” no município pela exploração irregular de cassiterita na região. 

Procuradas, a Coopercam e a Coomibra não responderam até a publicação da reportagem. 

Empresa diz que vai interromper fornecimento, após contato da Repórter Brasil

A segunda PLG com indício de ser um “garimpo fantasma” fica em uma área vizinha da primeira e está sob responsabilidade da Coomari (Cooperativa Mineradora de Ariquemes). 

Um total de 7,9 toneladas de cassiterita foi declarado pela White Solder com origem neste local em dezembro de 2024 e em abril de 2025. O valor estimado da carga é de R$ 570,3 mil, segundo cálculos da reportagem a partir de dados da CFEM. 

Nesta área, o Greenpeace afirma que “sequer encontrou sinais de atividade minerária” na série histórica de imagens. Em sobrevoo realizado pela organização e pela Repórter Brasil em agosto deste ano, também não foram identificadas cicatrizes de mineração.

Além da White Solder, quem também comprou cassiterita nesta área foi a empresa Fábrica Auricchio Indústria e Comércio de Metais, com sede em Mogi das Cruzes (SP). Entre junho de 2024 e junho de 2026, cerca de 524,2 toneladas do minério com suposta origem na área foram declaradas pela companhia, com valor total estimado em R$ 61,9 milhões.

Além do interior paulista, a empresa possui unidades no estado do Pará e no Chile, e é especializada em processamento de cobre e cassiterita para a produção de lingotes de estanho, fios de solda e outros produtos. 

Após o contato da Repórter Brasil, a Fábrica Auricchio afirmou que vai interromper a aquisição do minério da área “até que os fatos sejam devidamente esclarecidos”. Em nota, a empresa reforçou que “adota procedimentos de diligência e rastreabilidade para aquisição responsável de minerais” e que realiza procedimentos de verificação antes de iniciar a aquisição de minérios de fornecedores. 

Segundo a Fábrica Auricchio, uma verificação in loco foi realizada na área da PLG da Coomari entre o final de 2023 e início de 2024. “Na ocasião, não foram identificados elementos que indicassem à Fábrica Auricchio qualquer irregularidade relacionada à origem do minério ou que permitissem concluir pela existência da situação atualmente apontada pela reportagem”, disse a companhia. “Diante das novas informações apresentadas, a empresa promoverá nova verificação específica sobre a PLG mencionada”. A íntegra da resposta pode ser lida aqui.

O sobrevoo também registrou imagens da PLG da Coomari. Ali, não há indícios de mineração (Fotos: Bruno Kelly/Greenpeace)
O sobrevoo também registrou imagens da PLG da Coomari. Ali, não há indícios de mineração (Fotos: Bruno Kelly/Greenpeace)
O sobrevoo também registrou imagens da PLG da Coomari. Ali, não há indícios de mineração (Fotos: Bruno Kelly/Greenpeace)
O sobrevoo também registrou imagens da PLG da Coomari. Ali, não há indícios de mineração (Fotos: Bruno Kelly/Greenpeace)
O sobrevoo também registrou imagens da PLG da Coomari. Ali, não há indícios de mineração (Fotos: Bruno Kelly/Greenpeace)
O sobrevoo também registrou imagens da PLG da Coomari. Ali, não há indícios de mineração (Fotos: Bruno Kelly/Greenpeace)

A Fábrica Auricchio, assim como a White Solder, é certificada pela RMI (Responsible Minerals Initiative), iniciativa global que reúne empresas e organizações para promover práticas de mineração responsáveis. 

Procurada pela Repórter Brasil, a RMI disse que irá analisar as evidências disponíveis, realizar novas apurações e consultar as partes interessadas para avaliar se retira ou mantém as duas empresas em sua lista e se são necessários ajustes no programa. A resposta completa pode ser lida aqui.

Em junho de 2024, a Coomari foi multada pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) em mais de R$ 1 milhão por manter “atividades potencialmente poluidoras sem licença”. No mesmo dia, teve uma área de 800 m² embargada em Ariquemes.

Procurada, a Coomari não respondeu até a publicação desta reportagem.

Como as PLGs possibilitam fraudes na origem do minério

A PLG é uma autorização especial concedida pela ANM para a exploração em pequena escala de minerais como ouro e cassiterita. 

Especialistas consultados pela Repórter Brasil apontam que, na prática, o modelo apresenta vulnerabilidades que podem permitir que material de origem ilegal seja declarado como regular. Isso porque não há necessidade de pesquisa mineral prévia e é o próprio interessado quem declara o potencial produtivo da área. 

Além disso, após o aval da ANM, há pouco acompanhamento pelos órgãos de controle sobre o quanto de minério é realmente extraído nas áreas concedidas.

Na avaliação de Danicley Aguiar, do Greenpeace Brasil, a dispensa de uma pesquisa prévia sobre o potencial produtivo da área funciona como uma “segunda boa-fé”. Ele faz referência à “presunção de boa-fé”, regra que permitiu até 2025 que os compradores de ouro de garimpo classificassem o minério como de origem legal apenas com base nas informações declaradas pelo garimpeiro. Esta prática foi considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal no ano passado.

“Não existe um estudo geológico que permita estimar se daquela área pode sair um quilo, cem quilos ou cem mil quilos de minério, porque ninguém conhece o potencial da jazida”, afirma Aguiar. “É uma espécie de ‘segunda boa-fé’: continuamos autorizando e licenciando uma produção sem saber quanto de minério existe ali”, continua.

A PLG é uma autorização concedida para a exploração em pequena escala, mas seu uso pode ser desvirtuado para mineração em escala industrial (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

No final de maio, o Greenpeace Brasil publicou levantamento estimando que 25,3 toneladas de ouro (totalizando R$ 18,4 bilhões) teriam origem em PLGs com irregularidades.

“Há um claro desvirtuamento das PLGs”, afirma André Luiz Porreca, procurador do MPF que investiga o caso da White Solder. Ele critica a falta de monitoramento pela ANM, que “tem o dever de fiscalizar o local de onde o minério é extraído”. “Isso está expresso na lei, mas não é feito”, diz o procurador.  

Em junho, a ANM aprovou uma resolução que altera as regras do atual regime de Lavra Garimpeira. Entre as mudanças está a exigência de comprovação de efetiva atividade de mineração como condição para a renovação da PLG. A norma também limitou a 50 hectares a área máxima para PLGs de pessoas físicas e firmas individuais, e a 1.000 hectares para áreas registradas por cooperativas, que deverão apresentar anualmente a relação de seus cooperados.

A Repórter Brasil procurou a ANM, mas a agência não respondeu até a publicação.

Cooperativa ré por garimpo ilegal também forneceu para White Solder

O sobrevoo na região também revelou uma operação de mineração ao longo do rio Massangana, na zona rural de Ariquemes. É uma PLG da Coopertin (Cooperativa de Produtores de Estanho do Brasil). Ali, há pilhas de rejeitos, barragens e máquinas que extraem a cassiterita em uma área de 5,6 mil hectares.  

A lavra, no entanto, extrapolou os limites da PLG, de acordo com imagens de satélite analisadas pelo Greenpeace. Em junho de 2024, o garimpo vazou pela porção norte da área, seguindo o curso do rio, segundo análise da organização.

Área de garimpo da Coopertin extrapolou limite da PLG em Ariquemes, de acordo com análise do Greenpeace (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

“A inspeção visual comparativa das imagens permite identificar a expansão da frente de lavra ao longo do tempo e verificar sua posição em relação ao limite autorizado da PLG, podendo, desse modo, afirmar que a lavra expande para além dos limites da PLG”, diz análise do Greenpeace.

A Coopertin é ré ao lado da White Solder na investigação que apura um esquema criminoso na TI Yanomami. 

Entre janeiro de 2020 e maio de 2026, a White Solder declarou compras de 20 mil toneladas de cassiterita atribuídas à área da cooperativa, com valor estimado de R$ 1,6 bilhão.

A Coopertin não respondeu à reportagem até a publicação desta reportagem.

25 anos investigando para mudar.

A Repórter Brasil já ajudou a impulsionar leis, fortalecer direitos e combater o trabalho escravo.

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Posicionamentos para matérias sobre ‘garimpos fantasmas’ e conexões com indústria bélica dos EUA

Leia as reportagens completas:

‘Garimpos fantasmas’ legalizam 2 mil toneladas de cassiterita em Rondônia, diz ONG

Mineradora ré por garimpo ilegal na Amazônia abasteceu indústria bélica dos EUA

NVIDIA

NVIDIA is committed to the responsible sourcing of minerals. We routinely review suppliers to ensure compliance with our responsible mineral policy and conduct due diligence to ensure our products are sourced responsibly.

Panasonic

  • Panasonic Group promotes Green Procurement activities aimed at reducing environmental impact throughout its supply chain. These activities encourage suppliers to establish environmental management systems, properly manage chemical substances, and reduce greenhouse gas emissions. They are not intended to serve as a certification or accreditation program for specific companies.
  • While we do not comment on relationships with specific companies or details of our supply chain, Panasonic Group considers sustainability, including respect for human rights, to be a key priority in achieving a responsible supply chain. We also seek to identify and appropriately address risks within our mineral supply chains in line with our responsible minerals sourcing approach.

Indium Corporation

Indium Corporation maintains established responsible-sourcing and supplier due-diligence requirements for its mineral supply chain. Our tin sourcing is limited to suppliers that meet our responsible-sourcing criteria, including applicable Responsible Minerals Initiative (RMI) requirements. White Solder was listed as an RMAP-conformant tin smelter during the relevant sourcing period.

Questions regarding the allegations involving White Solder and the related legal proceedings are more appropriately addressed by White Solder and the relevant Brazilian authorities.

Indium Corporation does not comment on specific customer relationships or contracts.

We have no additional comment at this time.

Fábrica Auricchio

1. Como a Fábrica Auricchio responde aos indícios de que adquiriu cassiterita declarada como proveniente de uma PLG onde não foram identificados sinais de atividade minerária compatíveis com a produção informada?

A Fábrica Auricchio, antes de iniciar a aquisição de minério de seus fornecedores, realiza procedimentos de verificação, incluindo diligências presenciais nas áreas de mineração. No caso em questão, foi realizada verificação in loco no período compreendido entre o final de 2023 e o início de 2024.

Na ocasião, não foram identificados elementos que indicassem à Fábrica Auricchio qualquer irregularidade relacionada à origem do minério ou que permitissem concluir pela existência da situação atualmente apontada pela reportagem.

Diante das novas informações apresentadas, a empresa promoverá nova verificação específica sobre a PLG mencionada.

2. Quais procedimentos de rastreabilidade e verificação da origem do minério a empresa adota antes de comprar cassiterita de cooperativas e garimpos?

A Fábrica Auricchio adota procedimentos de diligência e rastreabilidade para aquisição responsável de minerais, em consonância com os padrões e protocolos aplicáveis no âmbito da Responsible Minerals Initiative – RMI, da qual é certificada.

Esses procedimentos abrangem, entre outras medidas, a identificação e avaliação dos fornecedores, verificação da documentação relacionada à origem e regularidade do minério, análise dos respectivos títulos e autorizações minerárias, avaliação de riscos e realização de diligências sempre que necessárias.

A empresa mantém seus procedimentos de conformidade sujeitos a acompanhamento e revisão, especialmente quando surgem informações novas capazes de indicar eventual risco relacionado à cadeia de fornecimento.

3. A Fábrica Auricchio tinha conhecimento do caso citado pela reportagem? Caso não, a empresa adotará alguma providência?

Não. A Fábrica Auricchio desconhecia os fatos específicos relatados pela reportagem.

Diante das informações agora apresentadas, a empresa comunicará formalmente a COOMARI de que interromperá, preventivamente, qualquer aquisição de minério declarado como originário da PLG nº 886330/2013, até que os fatos sejam devidamente esclarecidos.

Paralelamente, será agendada nova due diligence, incluindo verificação da área e da documentação pertinente, com o objetivo de apurar as informações relatadas e avaliar a compatibilidade entre a atividade minerária efetivamente desenvolvida e a produção declarada. 

A Fábrica Auricchio pauta sua atuação pela aquisição responsável de minerais provenientes de cooperativas e fornecedores previamente avaliados, observando seus procedimentos internos de conformidade e os protocolos aplicáveis no âmbito da RMI. As informações recebidas serão tratadas com a seriedade necessária e as medidas cabíveis serão adotadas de acordo com o resultado das verificações.

Responsible Minerals Initiative 

  1. Could the RMI confirm the current RMAP status and scope of conformance for White Solder and Fábrica Auricchio, including their latest assessment dates and whether either facility is currently subject to any review?

Both are currently designated as conformant based on their most recent assessments, which took place on 5/27/2026 for White Solder and 7/2/2026 for Fabrica Auricchio. Please see our public list. While assessment cycles would typically be 12 months, the RMI will perform a Complaint and Integrity review to determine whether a reassessment is needed sooner or if their status needs to be otherwise adjusted (please see below).  

  1. Was the RMI aware of the criminal case and the findings described above? Has it taken any action, or does it intend to review these matters?

Thank you for bringing the issue to our attention. The RMI has a process that allows external stakeholders to submit complaints related to the conduct of RMI assessed facilities that might constitute a breach of the relevant standard. We appreciate you reaching out to the RMI and we have channeled this matter via the RMI Complaint and Integrity Mechanism for a rapid admissibility review. Based on this initial review, the issue you describe in the email is in scope of the RMI Mechanism and the case will be addressed according to the established procedure. 

  1. Under the RMI’s rules, are the indications of criminal conduct and sourcing irregularities described above sufficient to prompt action by the RMI? If so, what action could be taken?

The allegation appears to be in scope and thus we will follow our Complaints and Integrity procedure. We would welcome any evidence that independent investigators could offer, referenced in your message, to support our review. The RMI will review all available evidence, conduct further analysis and engage with stakeholders as appropriate to evaluate the impacts of the issue on the conformance determination of the facilities and their participation in the RMI assessment program, and determine appropriate actions. 

  1. Do the new facts revealed by Repórter Brasil in any way affect the status of RMI’s certification for the companies White Solder and Auricchio? Will RMI take any action after becoming aware of these cases? 

Legal proceedings and credible information sources are considered in our complaints process, which has been initiated. Facility status will depend on the outcome of the review. 

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Fazenda de café tem selo socioambiental suspenso após condenação por escravidão

A RAINFOREST ALLIANCE suspendeu o selo de boas práticas concedido a uma fazenda de café após seus controladores serem condenados pela Justiça, no início de setembro, por submeter quatro trabalhadores a condições análogas à escravidão. As violações teriam ocorrido na Fazenda Três Marias, em Altinópolis (SP), entre abril e julho de 2025, quando a propriedade era chancelada pela organização. 

A Rainforest Alliance é um dos mais reconhecidos padrões internacionais de sustentabilidade no setor cafeeiro. Em seu Relatório Anual de 2023, a organização afirmou que 17% de todo o café produzido no mundo era certificado pelo seu programa.

Segundo a Rainforest Alliance, a decisão foi tomada após ser comunicada da condenação pela Repórter Brasil, por meio de um e-mail questionando-a a respeito do caso. A organização informou ainda ter iniciado uma análise de integridade do caso. “Com base nos resultados dessa análise, serão adotadas as medidas cabíveis de acordo com os requisitos e procedimentos da Rainforest Alliance”, pontuou. 

Na terça-feira (15), entretanto, a certificação ainda aparecia na plataforma da organização. Segundo sua assessoria de imprensa, isso acontece porque o site demora a ser atualizado.

A Rainforest Alliance disse, ainda, que em abril de 2025 e abril de 2026 a Fazenda Três Marias passou por auditorias “que incluíram entrevistas com trabalhadores e avaliações das condições de trabalho”, e que em ambas as avaliações “não foram identificadas evidências das violações mencionadas no processo judicial”.

Condenação abrange empresas e representantes de um mesmo grupo econômico

Na sentença de primeira instância, o juiz Renato da Fonseca Janon, da Vara do Trabalho de Batatais (SP), condenou três empresas do grupo empresarial e seus representantes a pagarem R$ 65 mil aos trabalhadores em indenizações por danos morais “em decorrência da submissão a condições degradantes de labor e moradia e redução a condição análoga à de escravo”. Determinou, ainda, o registro das vítimas, entre outras medidas. 

A condenação abrange as empresas Agropecuária Três Marias Holding Participações Ltda, Agropecuária Maria Castro Ltda e Maria Goreti de Castro e Outros, e seus representantes Maria Goreti de Castro Salomão, Alissar Salomão Botrel e Antônio Salomão Neto. Segundo a sentença, todos compõem um mesmo grupo econômico. 

Os empregadores podem recorrer da decisão. Questionados pela Repórter Brasil, eles não responderam até a publicação desta reportagem.

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Segundo um documento anexado ao processo judicial, acessado pela reportagem, além da Fazenda Três Marias, a empresa Agropecuária Três Marias também tinha certificação do programa da Rainforest Alliance, com validade até abril de 2027. No certificado, consta que a “Agropecuária Três Marias – Maria Goreti de Castro” está “em conformidade com a Norma de Agricultura Sustentável Rainforest Alliance”. À Repórter Brasil, a Rainforest Alliance disse que o selo da empresa também foi suspenso. 

Na defesa apresentada durante o processo, os empregadores anexaram as certificações para rejeitar as acusações de trabalho degradante. Na decisão, entretanto, o juiz Janon afirma que esses documentos, juntamente com outros elementos anexados, como notas fiscais de compra de equipamentos de proteção, demonstraram “apenas uma conformidade burocrática abstrata que não alcançou os colhedores de safra”. 

A Rainforest Alliance divulga que seu selo é oferecido a empresas e produtores que “apoiam um mundo melhor”, com “rigorosos requisitos de certificação”, em que são avaliadas questões socioambientais, com tolerância zero para a exploração do trabalho. Reconhecido internacionalmente, o selo facilita o acesso a mercados externos. 

Baldes de agrotóxicos eram usados como escadas 

Os quatro trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão processaram os empregadores com o apoio da Adere-MG (Articulação dos Empregados Rurais do Estado de Minas Gerais). Na ação judicial que deu origem à condenação, acessada pela reportagem, eles afirmam que trabalharam na colheita de café na Fazenda Três Marias entre 30 de abril e julho de 2025. Três dos trabalhadores dizem, ainda, que vivem em uma comunidade que se declara como quilombola. 

As vítimas relatam também que foram aliciados por um intermediador e deixaram o Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, com a promessa de bons pagamentos e condições de trabalho na Fazenda Três Marias. 

Em Altinópolis, porém, teriam sido submetidos a condições degradantes, conforme consta na decisão da Justiça: “os réus não disponibilizaram instalações sanitárias adequadas fixas ou móveis no cafezal, forçando homens e mulheres a realizarem suas necessidades fisiológicas no mato aberto, expostos a animais peçonhentos e intempéries climáticas, sem qualquer privacidade ou assepsia”. 

A Rainforest Alliance é um dos mais reconhecidos padrões internacionais de sustentabilidade no setor cafeeiro. Em seu Relatório Anual de 2023, a organização afirmou que 17% de todo o café produzido no mundo era certificado pelo seu programa (Imagem: Reprodução/Rainforest Alliance)
A Rainforest Alliance é um dos mais reconhecidos padrões internacionais de sustentabilidade no setor cafeeiro. Em seu Relatório Anual de 2023, a organização afirmou que 17% de todo o café produzido no mundo era certificado pelo seu programa (Imagem: Reprodução/Rainforest Alliance)

A sentença cita, ainda, que os trabalhadores viviam em alojamentos sem camas ou outros móveis, não tinham água potável nos locais de trabalho e realizavam as refeições sentados no chão, expostos ao sol. Na ação, há uma foto de uma trabalhadora colhendo café em cima de um balde de defensivo agrícola. Segundo as vítimas, isso acontecia porque eles não recebiam qualquer equipamento de proteção ou de trabalho, como escadas, obrigando-os a improvisar. Essas condições teriam levado uma trabalhadora a sofrer um acidente. 

Ainda de acordo com a ação judicial, os colhedores de café eram obrigados a gastar 20% de seus salários em um supermercado com preços mais altos do que os praticados para conseguirem descontar o cheque de pagamento mensal. Os trabalhadores relatam, ainda, que por diversas vezes foram ordenados a interromper o trabalho para “ocultá-los de fiscalizações do Ministério do Trabalho e do Sindicato”.

“A coisificação ou a reificação da pessoa humana e o aproveitamento da extrema vulnerabilidade socioeconômica de trabalhadores migrantes para auferir lucro mediante redução de custos de segurança no trabalho rural configuram ato ilícito gravíssimo, demandando reparação civil integral”, escreve o juiz do Trabalho Renato da Fonseca Janon na sentença. 

Organização de trabalhadores rurais cobra responsabilização de certificadoras 

Jorge Ferreira dos Santos Filho, coordenador da Adere-MG, alerta que o trabalho escravo na cadeia do café não é pontual, e sim “endêmico”. Para ele, é um avanço que a condenação judicial do grupo empresarial tenha ocorrido mesmo sem flagrante e inspeção do Ministério do Trabalho e Emprego, mostrando que a identificação e punição do trabalho escravo não é prerrogativa apenas do Governo Federal. 

Para Santos Filho, o caso envolvendo a fazenda Três Marias demonstra que uma certificação “não é garantia de respeito ou trabalho digno”. “O processo de certificação é frágil do ponto de vista moral, ético, social e trabalhista. E o primeiro ponto disso é a falta de transparência”, pontua. 

O coordenador da Adere-MG defende que as certificadoras também sejam responsabilizadas por violações socioambientais cometidas por empresas que levam seus selos. “A certificadora é uma empresa que vai facilitar o acesso de grandes corporações ao café brasileiro, garantindo que ali tem respeito aos direitos trabalhistas e humanos. O que não tem acontecido, na sua grande maioria. Quando há uma penalização, apenas o produtor paga por isso”, critica.

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O site da Amazônia que deixou de cobrir eleições por medo de morrer

A REDAÇÃO do Tapajós de Fato passou parte deste ano definindo a pauta e buscando financiamento para cobrir as eleições de 2026. Mas ameaças e episódios de violência levaram o site de Santarém, no oeste do Pará, a abandonar o projeto antes da primeira reportagem. 

Criado em 2020 durante a onda de negacionismo da pandemia, o Tapajós de Fato é um veículo independente que se tornou referência no jornalismo feito na Amazônia, denunciando violações sociais e ambientais. Mas, na campanha deste ano, a redação não vai abordar os problemas, propor soluções para a região, nem investigar vínculos de candidatos com o garimpo, o agronegócio e as grandes obras. 

‘Quando é melhor não falar, por uma questão de sobrevivência, na verdade, quem perde é a sociedade”, afirma o coordenador de projetos João Paulo Serra, de 27 anos.

A decisão de não cobrir as eleições deste ano foi tomada após uma série de ameaças que mostraram não haver segurança para trabalhar. Na eleição presidencial de 2022, a cabeça decapitada de um gato apareceu no terreno baldio onde a equipe estacionava a caminhonete de reportagem. Ao lado, um bilhete trazia o nome de Marcos Wesley Pedroso, o fundador do Tapajós de Fato, e avisava que ele seria a próxima vítima. Dias antes, os quatro pneus do veículo haviam sido rasgados.

Em outro episódio, uma comunicadora foi atacada com uma faca e conseguiu se desviar de vários golpes. O agressor não foi identificado, e o Tapajós de Fato não conseguiu determinar se o objetivo era matá-la, intimidar a redação ou se o episódio não tinha relação com o trabalho jornalístico. 

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A violência não impediu a cobertura daquela eleição. Em 2022, o Tapajós de Fato entrevistou candidatos progressistas com atuação no oeste do Pará e debateu assuntos da região, como garimpo, desmatamento, mudanças climáticas e direitos dos povos tradicionais. 

Acompanhou também um encontro no qual movimentos sociais cobraram compromissos com a agroecologia e a agricultura familiar. Depois da votação, analisou quem o Pará havia eleito e a relação dos novos representantes com as pautas amazônicas. A equipe ainda foi às ruas para cobrir os atos bolsonaristas diante de uma unidade do Exército. 

Em 2024, porém, a insegurança levou o site a suspender a cobertura das eleições municipais. “A gente decidiu recuar de novo em 2026”, lamenta Marcos.

“Eu tenho medo de pessoas aleatórias na rua, no supermercado”, conta. “Chegou um tempo que eu dormia e, se escutasse um cachorro latindo de madrugada, acordava com taquicardia”, detalha. Marcos deixou Santarém devido às ameaças e após um diagnóstico de depressão.

Os casos foram denunciados à Polícia Civil e ao Ministério Público, mas, até o momento, não há nenhuma informação conclusiva e, por isso, não há autores identificados nem provas de que os atos estejam relacionados entre si. Ainda assim, jornalistas da equipe decidiram deixar suas casas e passaram a morar em hotéis durante os períodos mais tensos. Marcos já trocou de endereço seis vezes nos últimos três anos. E João Paulo precisou ficar um ano sem visitar a mãe.

Marcos Wesley Pedroso fundou o site para trazer novos olhares à cobertura jornalística do Oeste do Pará (Foto: Arquivo Pessoal)
Marcos Wesley Pedroso fundou o site para trazer novos olhares à cobertura jornalística do Oeste do Pará (Foto: Arquivo Pessoal)

Tapajós de Fato: origem popular e formação de jovens comunicadores

A ideia de fundar o Tapajós de Fato surgiu num encontro de comunicadores rurais, em 2019, quando Marcos atuava na comunicação do sindicato rural de Santarém. Em julho de 2020, em plena pandemia de Covid-19, ele e mais uma jornalista criaram as redes sociais do veículo. Depois lançaram o site.

Foi em casa que Marcos aprendeu a cobrar direitos e a se organizar para defendê-los, experiência que mais tarde orientaria o jornalismo do Tapajós de Fato. Os avós dirigiram o sindicato dos trabalhadores rurais de Belterra, cidade a 50 quilômetros de Santarém.

Marcos viveu com os avós em Aramanaí, comunidade de Belterra às margens do rio Tapajós. Desde os anos 2000, a pavimentação da BR-163 e a abertura do terminal da Cargill, em Santarém, transformaram o oeste do Pará em corredor de exportação de grãos e fronteira agrícola na Amazônia. As lavouras avançaram pelo Planalto Santareno até as vizinhanças da comunidade. Ali ele ouviu que o mamão deixara de vingar e que a produção de mel e de andiroba diminuíram com os agrotóxicos. 

O Planalto Santareno abrange Santarém, Belterra e Mojuí dos Campos e reúne agricultores familiares, quilombolas e indígenas. Entre 2014 e 2023, a área de soja e milho nos três municípios saltou de 66 mil para 217 mil hectares, segundo o IBGE. Comunidades viraram ilhas entre lavouras. 

Gay e pai de santo do candomblé, Marcos já pensou em seguir o sacerdócio católico e chegou a ser seminarista. Depois, estudou publicidade e entrou na comunicação pela porta da mídia comercial: trabalhou no setor de marketing da TV Tapajós, afiliada da Globo em Santarém, e escreveu para o G1.

Mas seu desejo era fazer um jornalismo voltado às comunidades da região, com liberdade para investigar quem concentra dinheiro e poder. Ao criar o Tapajós de Fato, escolheu um modelo que não dependesse do financiamento de empresas que, cedo ou tarde, poderiam aparecer em suas reportagens.

Durante a pandemia, o site denunciou o negacionismo e os problemas do Baixo Amazonas, como o desabastecimento de oxigênio. Depois, ampliou a pauta para conflitos fundiários, mineração, soja, clima e direitos dos povos tradicionais.

Entre as coberturas de destaque está a que tratou dos impactos no PAE (Projeto de Assentamento Agroextrativista) Lago Grande, quando o site produziu reportagens, podcasts e a campanha “Não Abra Mão da Sua Terra”. Entre os rios Amazonas e Arapiuns, a área é uma terra pública de uso coletivo. Seus lotes não podem ser vendidos individualmente, mas sofrem pressões fundiárias e da extração ilegal de madeira e de minérios.

As pesquisadoras Maria Cleidejane Esperidião e Thayane Guimarães, coordenadora de redes da InfoAmazonia, acompanharam a redação por uma semana, em junho de 2024, para um estudo do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, na sigla em inglês), que investigou estratégias inovadoras do jornalismo brasileiro para enfrentar a desinformação. 

A pesquisa destacou o método de “escuta profunda”, em que repórteres do Tapajós de Fato passaram dias imersos no cotidiano de comunidades tradicionais da região. Em rodas de 5 a 15 pessoas, os repórteres ouviram falar de temperaturas mais altas, açaí secando mais cedo e árvores produzindo menos óleo. Os relatos viravam cartilhas. Sem internet, áudios em pen drives seguiam de barco para serem tocados em alto-falantes.

Outra iniciativa do site é a formação de jovens comunicadores. O ICFJ destacou que o Tapajós de Fato ajudou o Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns a estruturar um departamento de comunicação e um movimento quilombola a criar seu próprio núcleo.

Além de publicar reportagens, o Tapajós de Fato ajuda organizações locais a criar seus próprios departamentos de comunicação e forma jovens comunicadores (Foto: Arquivo Pessoal)
Além de publicar reportagens, o Tapajós de Fato ajuda organizações locais a criar seus próprios departamentos de comunicação e forma jovens comunicadores (Foto: Arquivo Pessoal)

As ameaças ocorrem na região com o menor número de meios de comunicação do país. São 1.264 veículos jornalísticos no Norte (9,2% do país), segundo dados do Atlas da Notícia de 2025. Dos 450 municípios, 193 não tinham nenhum meio de comunicação e 144 possuíam um ou dois. Santarém não é considerado um deserto de notícias, mas Marcos diz que a imprensa tradicional não aborda o território com pontos de vista diversificados.

Reportagens sobre terras abriram sequência de ameaças

As intimidações ao Tapajós de Fato aumentaram em 2021, durante as reportagens sobre a venda ilegal de terras do projeto de assentamento Lago Grande. Depois, vieram ameaças de morte por telefone e por mensagem. À época, o Sindicato dos Jornalistas do Pará, a Ordem dos Advogados do Brasil e organizações sociais divulgaram uma nota de apoio.

A antiga redação ficava em uma casa sem ar-condicionado e, por isso, precisava ficar com a janela aberta para a rua durante o expediente. Certa tarde, um homem parou do lado de fora e simulou uma conversa ao celular. Por cinco minutos, gritou que era preciso matar quem falasse mal dos garimpeiros. João também notou carros desconhecidos em frente à sede. “Era muito estranho ter sempre um carro parado ali na frente.”

A tensão atingiu o auge em 2022. Primeiro, um comunicador que chegava do interior teve o celular roubado. Naquela noite, depois de a equipe jogar vôlei, uma jornalista voltava para casa com a namorada e um amigo quando os três foram assaltados por homens que estavam em um carro. A polícia localizou os suspeitos e recuperou os pertences dos dois acompanhantes, mas não os da comunicadora.

Na tarde seguinte ocorreu a tentativa de ataque a faca, a 30 metros da sede. Um boletim de ocorrência por ameaça foi registrado, mas o caso não teve andamento. Naquela noite, quando a equipe deixou a redação, por volta das 20h, percebeu que era seguida por um carro. Cerca de cinco integrantes passaram as semanas seguintes em hotéis, por não se sentirem seguros em casa.

Depois das eleições, enquanto o Tapajós de Fato cobria os acampamentos bolsonaristas diante dos quartéis, João recebeu uma ligação que interpretou como intimidação. Naquela manhã, o site havia publicado a imagem de um idoso vestido com uniforme do Exército e o apresentado como um falso militar. 

Horas depois, uma mulher telefonou e exigiu que a publicação fosse apagada, sob o argumento de que o pai dela estava passando mal. Antes de explicar o motivo da ligação, porém, recitou o nome completo do jornalista e avisou: “Peguei seu contato com uma pessoa de confiança”. 

João ofereceu o e-mail da redação para um pedido de correção ou direito de resposta, mas, segundo ele, a mulher ignorou a proposta. “Me deu a sensação de que essas pessoas sabiam muito mais sobre a minha vida do que eu podia imaginar”, afirmou. 

Parceiros ajudaram a instalar câmeras e cerca elétrica na redação e a alugar uma caminhonete, para que os repórteres pudessem se deslocar com mais segurança e sem depender de transporte de terceiros. Como o automóvel não entrava na vila onde Marcos morava, ficava estacionado num terreno em frente. Foi ali que apareceram os pneus danificados e a cabeça do gato com o bilhete.

Marcos mudou-se em 2023 e iniciou o mestrado. Na nova cidade, diz já ter recebido mensagens sobre sua roupa e sua localização no campus.

Carro de Marcos Pedroso foi atingido durante a madrugada, após homens rondarem sua casa (Foto: Arquivo Pessoal)
Carro de Marcos Pedroso foi atingido durante a madrugada, após homens rondarem sua casa (Foto: Arquivo Pessoal)

Antes de viajar à COP28, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, Marcos publicou uma foto vestindo uma camiseta com frases da sindicalista Margarida Maria Alves: “Da luta não fujo” e “É melhor morrer na luta do que morrer de fome”. Um número com prefixo do Acre ligou para ele: “A publicação que tu fez no Instagram pode ser uma profecia pra tua vida”, disse a voz do outro lado da linha 

O episódio ocorreu logo após o site ser homenageado no Prêmio Chico Mendes de Resistência, no Acre. Criada pelo Comitê Chico Mendes, a premiação reconhece ativistas, organizações e movimentos que defendem os povos da floresta, a justiça ambiental e os direitos humanos. Seu nome homenageia o seringueiro e sindicalista assassinado em 1988, em Xapuri, no Acre, depois de enfrentar fazendeiros e lutar contra a destruição da floresta. 

Marcos procurou a Terra de Direitos, uma organização de assessoria jurídica popular em Santarém. A entidade o apoia judicialmente e oferece suporte psicológico desde as primeiras ameaças. Advogados e assessores viraram amigos. “Isso ajudou muito a gente”, afirma. 

Em 2025, patas de cachorro decepadas apareceram em frente à sua casa. Ele não sabe se havia relação com os demais episódios. 

O caso mais recente ocorreu em junho deste ano, quando Marcos encontrou seu carro destruído diante de casa e pensou se tratar de um acidente. Quatro dias depois, recuperou as imagens das câmeras e viu que, de madrugada, dois ciclistas davam voltas no quarteirão. Antes da batida, um deles apontou o celular para filmar a casa e o veículo. Às 4h28, um automóvel entrou na contramão, atingiu um carro estacionado e fugiu. Marcos suspeita que a colisão era uma isca para ele sair de casa e cair numa emboscada. 

A hipótese, segundo ele, é que o “acidente” tenha sido motivado por denúncias do site contra o uso indevido de agrotóxicos. Nos últimos anos, o Tapajós de Fato publicou diversos episódios de contaminação envolvendo alunos e professores. As intoxicações no oeste do Pará aumentaram em 545% em cinco anos. Em maio, o site e outras 19 organizações entregaram à deputada Maria do Carmo (PT) uma proposta para limitar pulverizações próximas a comunidades, escolas e rios.

A equipe do Tapajós de Fato chegou a ter 20 profissionais em 2022, mas hoje conta com sete jornalistas (Arquivo Pessoal)
A equipe do Tapajós de Fato chegou a ter 20 profissionais em 2022, mas hoje conta com sete jornalistas (Arquivo Pessoal)

Ataques fizeram João Paulo deixar de visitar a própria mãe

João Paulo entrou no site em 2021, quando estudava Letras na Universidade Federal do Oeste do Pará. Ali aprendeu a fazer reportagens sobre clima, agronegócio e, sobretudo, sobre a Ferrogrão.

A ferrovia de 933 quilômetros está prevista para ligar Sinop, em Mato Grosso, a Miritituba, distrito portuário de Itaituba, no Pará. Integrará o Arco Norte, do qual o corredor de soja e milho pela BR-163 e pelo rio Tapajós é uma das principais rotas de escoamento. De Miritituba, os grãos seguem em barcaças até terminais como o da Cargill, em Santarém, na confluência com o Amazonas.

Num vídeo, João perguntou aos moradores o que sabiam sobre a ferrovia. Segundo ele, perfis de direita adulteraram o vídeo por inteligência artificial e distorceram as entrevistas. Sua conta pessoal também foi revelada. “Diziam: ‘Esse aqui é o perfil dele, vão lá’. Era a galera vindo para cima de mim”, recorda.

João fechou o perfil e deixou de visitar a mãe, por medo de revelar aos perseguidores onde ela morava. “O principal dano é a forma como a gente vive com a nossa família”, lamenta João Paulo.

Matérias deixaram de ser publicadas; repórteres reduziram as aparições e fecharam seus perfis pessoais. Marcos virou o “para-raios” dos ataques. A equipe, com mais de 20 pessoas em 2022, hoje conta com sete. A falta de financiamento também explica a redução.

Sem o Tapajós de Fato na cobertura eleitoral, João Paulo sabe quem ocupará o espaço. “Quando a gente deixa de falar sobre um tema, o outro vai falar, do seu jeito”, avalia. Para ele, uma redação não poder acompanhar as eleições por segurança revela “uma falha enorme do Estado, em todos os seus níveis e em todas as suas instâncias”.

*Esta reportagem é uma parceria entre Repórter Brasil, Agência Pública e InfoAmazonia. A iniciativa faz parte do “Consejo Editorial Transfronterizo”, que promove colaboração, troca de conhecimentos e o desenvolvimento conjunto de coberturas sobre temas que atravessam as fronteiras nacionais na Amazônia.

(Edição: Diego Junqueira, Juliana Mori e Thiago Domenici)

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‘Te olham com nojo’, conta mãe ex-usuária de drogas durante a gravidez

DEPOIS DE SER EXPULSA DE CASA e perder a guarda do primeiro filho, Helen Baum passou a viver em situação de rua em São Paulo e mergulhou na dependência química. Para sobreviver, passou a trabalhar com materiais recicláveis. O uso de cocaína deu lugar ao crack e sua vida era atravessada por diferentes formas de violência — de abordagens policiais a agressões físicas cometidas por outros moradores de rua. Nesse contexto de extrema vulnerabilidade, ela engravidou. 

“Teve um dia que eu passei muito mal e fui até a UPA [Unidade de Pronto Atendimento]. Só que não me deixaram nem entrar. Não me atenderam, porque eles têm esse preconceito com pessoas em situação de rua”, lembra quando estava grávida em 2013.

Sozinha, Helen não fez o pré-natal. Segundo ela, a discriminação e o fato de o pai da criança estar preso por furto faziam com que ela alternasse entre tentativas de interromper o uso de drogas e momentos em que o intensificava para “fugir” da realidade. Ao chegar no oitavo mês de gestação, pesando 45 quilos, sentiu fortes contrações no meio da rua, na região do Glicério, no centro de São Paulo.

“O pessoal da rua tentou pedir ajuda, mas ninguém parou para me socorrer”, conta. “Chamaram a polícia, passou uma viatura e eles ficaram me olhando, não me socorreram, mesmo eu me contorcendo de dor, e chamaram o Samu [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência]. Nesse meio tempo, meu bebê nasceu morto no meio das minhas pernas. Eu chorava muito. Quando o Samu chegou, me levaram com meu filho. Eu lembro de no hospital o médico estar me costurando e me chamando de vagabunda, de porca imunda. Foi muita violência. Os policiais poderiam ter me levado na viatura, mas ninguém queria encostar em mim porque eu era uma mulher em situação de rua”.

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À Repórter Brasil, a Polícia Militar de São Paulo afirmou que seus profissionais são “capacitados para atuar em diferentes situações, inclusive no auxílio a gestantes e parturientes” e que em casos de emergência médica, a orientação da corporação é acionar o Samu. A corporação disse também que não encontrou registro sobre a situação relatada por Helen.

Maioria se recupera sem sequela

Entre 2016 e 27 de julho deste ano, o Brasil contabilizou 311 gestantes expostas a drogas com uso abusivo, 1445 casos de intoxicações confirmadas e 16 registros de síndrome de abstinência, de acordo com o Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), do Ministério da Saúde. Os dados incluem álcool e outros tipos de drogas.

Já em relação a recém-nascidos, no mesmo período, foram notificados 326 casos de crianças de menos de um ano expostas a drogas de uso abusivo, 1.426 intoxicações confirmadas e 59 vítimas de síndrome de abstinência. 

Entre grávidas e recém-nascidos a maioria dos casos evolui sem sequelas. Os casos de mortes são a minoria. Nos últimos dez anos, foram registrados 17 óbitos por intoxicação, enquanto 1.066 gestantes foram curadas. No mesmo período, 19 bebês morreram por intoxicação e 1.025 se recuperaram. 

Para a obstetra Vera Therezinha Medeiros Borges, existe um mito que os bebês vão ter malformações. Ela coordena desde 2012 um ambulatório especializado em mães usuárias de substâncias psicoativas no HCFMB-Unesp (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista).

“Uma criança que a mãe usou crack a gravidez inteira, por exemplo, pode nascer, aparentemente, normal. Mas vai ser uma criança que vai ter um déficit de aprendizado, vai demorar, às vezes, mais para andar, para falar, vai ser mais irritada. É do ponto de vista psíquico e neurológico o comprometimento. São crianças que podem nascer prematuras, com baixo peso”, explica Borges.

A obstetra aponta que a maneira que o tratamento é dado a elas pode fazer diferença também na vida dessas crianças. “Com um estudo a gente conseguiu demonstrar que as mães que seguiram o tratamento adequado, ficaram sem usar droga, tiveram desfecho muito parecido com gestante que não usa droga”, afirma. 

Segundo ela, é necessária a capacitação das equipes para um atendimento humanizado e multidisciplinar. 

Hoje, Helen, aos 54 anos, é mestranda em Ciências Sociais na UFABC (Universidade Federal do ABC) e ativista. Ela afirma que compreende que sua vida foi marcada pela violência de gênero e estuda maternidades subjugadas no cárcere — ambiente que conhece também por experiência própria: esteve presa por cinco anos acusada de tráfico de drogas. 

“Não é só o uso problemático das drogas, não é só a gravidez, é todo um contexto. É a sociedade, são as instituições que são extremamente violentas. Essas mulheres têm um problema de saúde e elas precisam de acolhimento, porque a situação de rua potencializa esse sofrimento. Você se vê sem saída”, afirma Helen.

Idealização da maternidade

Autora de uma dissertação sobre mães marginalizadas, a psicóloga Patrícia Beretta, do Coletivo Casa Aberta, tem atendido e escutado mulheres em situação de rua e que fazem uso abusivo de drogas na região da Luz, em São Paulo. Durante mais de 30 anos, a região concentrou o fluxo da “Cracolândia” no centro da capital paulista. Apesar de as mulheres serem minoria entre a população de rua, ela aponta que elas sofrem duas vezes mais violência – e que também têm dificuldade de reconhecer algumas situações como violência.

Para Beretta, existe uma idealização da maternidade que joga a responsabilidade única e exclusivamente em cima das mulheres. “A gestação pode ser uma oportunidade de mudança de vida para essas mulheres, mas não é tão simples assim, porque você precisa de toda uma rede que consiga sustentar essa maternidade junto com essa mulher. A gente precisa não só que essas mulheres acessem os seus direitos, mas que a rede garanta que essas mulheres vão ser cuidadas, escutadas e ser acolhidas”, explica.

“A gente tem gestações que não foram planejadas, mas não quer dizer que não foram desejadas. E também muitas gestações que são fruto de violência sexual, porque a gente está falando de um território em que não é só a vulnerabilidade financeira que está em jogo, mas tem uma vulnerabilidade do corpo feminino na situação de rua que está presente. Mulheres tem relações com companheiros agressivos, porque [ele] protege de todos os outros, da ameaça de todos os outros, mesmo que ele seja violento”, complementa Beretta.

Os riscos de perder a guarda dos filhos

A Repórter Brasil tentou conversar com mulheres que se tornaram mães quando usavam drogas, mas nenhuma delas quis dar entrevista, mesmo sob condição de anonimato. O principal motivo relatado foi o medo de sofrer algum tipo de retaliação, em especial perder a guarda dos filhos no caso daqueles que ainda são recém-nascidos ou menores de idade. 

Esse medo, aponta Beretta, tem fundamento e é atravessado por questões de classe e de raça. “Uma mulher em situação de rua, quando chega no hospital para dar a luz. É constantemente perguntada onde ela mora, o comprovante de residência, se ela faz uso de droga, se ela tem histórico de uso, se tem histórico de trajetória de rua. É bombardeada de informações que uma mulher num hospital particular, por exemplo, não é”, explica. “Então, do momento em que elas se descobrem grávidas, já são julgadas e questionadas sobre a sua capacidade de exercer essa maternidade.”

Mulher negra, a facilitadora social Michelle Marques, 43, afirmou que passou por isso ao menos quatro vezes, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Ela começou a usar loló, uma versão caseira do lança-perfume, ainda na adolescência. Sua infância foi marcada por abusos sexuais cometidos pelo pai e pela responsabilidade, assumida ainda criança, de cuidar dos irmãos menores enquanto a mãe trabalhava. Mais tarde conta ter sofrido tentativa de feminicídio por um dos ex-companheiros e vivido nas ruas da cidade, onde também passou a consumir crack. Ela também afirma que nessa época desconhecia métodos para prevenção. 

O primeiro filho ficou aos cuidados da avó. Na época, Michelle tinha 15 anos. Já o segundo, que nasceu prematuro e com baixo peso, permaneceu alguns dias na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) por causa de uma infecção urinária. Ela conta que, naquela época, aos 20 anos, trabalhava vendendo o jornal Boca de Rua, feito pela população vulnerável, e fazia outros bicos. O dinheiro usava para comprar fralda, leite e outros itens básicos para a criança, além de manter o vício. 

“Eu deixava ele com uma vizinha que todo o dia falava para eu dar meu filho para ela e eu disse que não ia dar. Como ela viu que eu não ia dar meu filho para ela, ela me denunciou ao Conselho Tutelar, disse que não deixava nada pra ele, o que era mentira”, conta. “Eu não usava droga em casa, nem na frente do meu filho”.

Segundo Michelle, a criança ficou num abrigo municipal, e ela o visitasa até quando ele completou um ano de idade. “[Eles] me deram três meses para parar com a droga, arrumar um emprego formal e uma casa para poderem entregar meu filho. Eu levava um papel comprovando que eu frequentava o NA [Narcóticos Anônimos], mas era muito difícil. Eu usava o loló desde os 13 anos, e comecei com o crack aos 16, tentava parar e tinha recaída, mas nunca me perguntaram nada, como eu estava. Em uma das vezes que eu fui entregar o papel do NA no fórum, vi alguma coisa escrita de adoção procedente ou improcedente. Perguntei para uma moça e ela disse que meu filho estava disponível para adoção. Eu pensei ‘nunca mais vou ver meu filho’, desisti, fiquei muito triste porque eu não ia conseguir alcançar os três objetivos em três meses e aquilo aumentou a minha dependência química”, afirma. O NA é um programa da sociedade civil que apoia pessoas que desejam parar de usar drogas.

De acordo com o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), uma criança pode ser colocada para adoção se nenhum familiar procurá-la no prazo de 30 dias, a partir da data do acolhimento. Essa possibilidade também pode ser avaliada durante um processo judicial. 

Nas três gestações seguintes, Michelle afirma que já era questionada nos hospitais quem ficaria com as crianças. “No hospital falavam ‘como tem todo o histórico de droga, você não vai poder tirar teu filho do hospital, você precisa arrumar alguém para ficar’, e eu tive que ir atrás das avós paternas. Era muita discriminação, te olham com cara de nojo”, diz. 

Uma assistente social que trabalha no acolhimento de recém-nascidos na rede pública de uma cidade do sul do país, e que pediu para não ser identificada, concorda. “Quando um bebê vai para um abrigo, é sinal de que o Estado falhou na política pública anterior”, diz. Ela afirma que as decisões judiciais que chegam ao serviço costumam estar “regadas de discriminação”. Tanto a transferência para um abrigo quanto eventual perda da guarda passam pelo Poder Judiciário. 

“Existe sempre um argumento de negligência e, do tempo que eu trabalho aqui, nunca vi um homem, um pai, indo atrás das crianças para visitar, são sempre as mães, as avós, as mulheres da família”, diz. Para ela, o judiciário também precisa ser mais acolhedor.

Beretta ressalta que a questão da negligência é subjetiva. “A definição de negligência passa por questões muito pessoais e valores morais. O que é negligência para mim não vai ser negligência para você e nem para o Estado porque no ECA diz que o uso de droga por si só não é motivo suficiente para a retirada das crianças. Então, você não pode colocar que a retirada de guarda é só pelo uso, você tem que justificar algo a mais”, explica.

Isso significa, segundo ela, que é necessário demonstrar que a dependência química gerou algum tipo de violação aos direitos da criança, e não simplesmente apontar o uso de drogas pela mãe. 

Dados do SAICA (Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes) da Prefeitura de São Paulo registram que 2.185 crianças, adolescentes e jovens de 0 até 19 anos estavam em centros de acolhimento, até 6 de setembro deste ano. 

Os motivos registrados são: negligência ou maus-tratos (510), em situação de rua (296), alcoolismo e/ou drogadição de pais ou responsáveis (253), conflitos familiares (201) e em situação de abandono (200). Os órgãos que mais direcionam o acolhimento são, em ordem, CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), Conselho Tutelar e Vara de Infância e Juventude, já que o acolhimento pode ser emergencial ou via judicial.

Já em Porto Alegre, onde Michelle vive, foram contabilizados 798 acolhimentos de crianças e adolescentes em 2025, segundo a Secretaria Municipal de Assistência Social. A maioria (499) é por demandas judiciais, nas quais, entre as motivações, lideram negligência e abandono (115), violência intrafamiliar (70) e uso de substância psicoativas por genitores, incluindo casos de mães usuárias de recém-nascidos (97).

Michelle, que há um ano trabalha junto à assistência social no atendimento à população de rua, alerta que a abordagem qualificada faz diferença, uma vez que a construção de vínculo e de apoio são muito importantes para que essas pessoas consigam se reestabelecer. “Aquela pessoa precisa entender que ela existe para a gente, que ela é importante para alguém, nem que seja para abordagem social”, aponta.

Há oito anos, após idas e vindas, e ter recuperado o apoio da mãe, ela tem conseguido se manter longe do loló e do crack. Ela retomou o contato com parte dos filhos, como o mais velho que já é pai, e os mais novos, que ainda estão em idade escolar. Helen diz que hoje ela e o primeiro filho que são inseparáveis.

As duas mães escreveram livros, lançados no ano passado, sobre suas histórias de vida a fim de conscientizar sobre o uso abusivo de drogas, mas também para influenciar para que políticas públicas sejam executadas de forma humanizada para ajudar mulheres em situação de rua.

À Repórter Brasil, a Secretaria Municipal de Assistência Social de São Paulo disse que “atende gestantes e puérperas em situação de vulnerabilidade, incluindo aquelas com uso prejudicial de álcool e outras drogas, de forma contínua pela RAPS (Rede de Atenção Psicossocial), em articulação com a Atenção Primária à Saúde, maternidades e demais serviços da rede municipal. O cuidado é desenvolvido de forma individualizada, por equipes multiprofissionais.”

Segundo o órgão, as ações contemplam “o acompanhamento do pré-natal, do puerpério e do recém-nascido, visando à proteção da saúde materno-infantil. A rede conta com Caps (Centros de Atenção Psicossocial), equipes de Consultório na Rua, UBSs (Unidades Básicas de Saúde) e maternidades”, que “atuam de forma integrada para garantir o acesso ao cuidado e fortalecer o vínculo das pacientes com os serviços de saúde”.

A Secretaria de Assistência Social de Porto Alegre não respondeu até a publicação desta reportagem.

Esta reportagem faz parte do levantamento “A outra cara do narcotráfico: bebês da droga na América Latina”, um trabalho conjunto dos veículos Ruido (Argentina), Repórter Brasil, Plaza Pública (Guatemala), Contratopedia Caribe (Colômbia), Tierra de Nadie (Equador) e POPlab (México), com apoio do Chequeado (Argentina), unidos em um consórcio que busca jogar luz a dados e histórias invisibilizadas nesses países.

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Caso Sônia: Justiça dificulta aproximação com irmãos biológicos, diz família

A CADA TRÊS MESES, Marcelo de Jesus viaja de São Paulo a Florianópolis (SC) para encontrar Sônia Maria de Jesus, a irmã que passou quase quatro décadas sem ver. 

Os encontros, segundo ele, ainda dependem de acordos entre os advogados da família biológica e os da família de Jorge Luiz de Borba, desembargador do TJSC (Tribunal de Justiça de Santa Catarina), com quem Sônia vive atualmente. 

Só recentemente, depois de “muita luta”, conta Marcelo, ele e os cinco irmãos conseguiram que Sônia passasse uma noite com eles.

Num caso de ampla repercussão nacional, uma operação realizada por cinco órgãos públicos em junho de 2023 concluiu que Sônia, hoje com 52 anos, estaria submetida a condições análogas à de escravidão na casa dos Borba, em Florianópolis. A fiscalização afirmou que ela trabalhava para a família havia quase 40 anos, sem salário e direitos trabalhistas. 

Fiscalização conjunta de cinco órgãos públicos concluiu que Sônia Maria de Jesus foi mantida em regime de trabalho escravo doméstico por quase 40 anos na residência do desembarghador Jorge Luiz de Borba, do TJ-SC (Foto: Reprodução/TV Globo e Divulgação/TJSC)
Fiscalização conjunta de cinco órgãos públicos concluiu que Sônia Maria de Jesus foi mantida em regime de trabalho escravo doméstico por quase 40 anos na residência do desembarghador Jorge Luiz de Borba, do TJ-SC (Foto: Reprodução/TV Globo e Divulgação/TJSC)

O desembargador e sua esposa, Ana Cristina Gayotto de Borba, negam as acusações e afirmam que Sônia sempre foi tratada como integrante da família. 

Três meses depois da operação das autoridades, ela voltou a viver na residência do casal, após decisões do STJ (Superior Tribunal de Justiça) e do STF (Supremo Tribunal Federal).  

É esse movimento judicial que a advogada dos irmãos biológicos, Juliana Stamm, chama de “desresgate”. Ela usa a expressão para definir a situação de Sônia, que não teve tempo de passar por um trabalho efetivo de ressocialização e resgatar o convívio com a família biológica. 

“Quando eles [os irmãos] conseguiram se organizar para finalmente ir para Florianópolis, houve a decisão do desresgate”, explica a advogada.

Procurada pela Repórter Brasil, a banca de advocacia que representa a família Borba afirmou que, “uma vez que o processo tramita sob segredo de justiça, o escritório não irá se manifestar neste momento”. 

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‘Barreiras’ do Poder Judiciário

Quase três anos depois do retorno à casa dos Borba, a avaliação da família biológica e da advogada Juliana Stamm é que os principais obstáculos para ampliar a autonomia de Sônia e o convívio com os irmãos vêm hoje do próprio Poder Judiciário.

Para Juliana Stamm, o foco do caso não deveria se restringir às acusações contra os Borba. A advogada afirma que os próprios processos judiciais passaram a impor obstáculos à convivência dos irmãos e à ampliação da autonomia de Sônia.

“Agora, quem está praticando as grandes violações é o Poder Judiciário”, afirma.

A advogada diz ter feito quatro pedidos de habilitação no habeas corpus que tramita no STF sem que, segundo ela, tenha havido manifestação sobre os requerimentos. Afirma ainda que pedidos para que os representantes da família biológica participassem do processo criminal no STJ foram negados. O processo tramita sob sigilo.

Apesar das disputas judiciais, Marcelo diz perceber mudanças na irmã a cada encontro. Se nas primeiras visitas os irmãos precisavam interpretar seus gestos, hoje, com o aprendizado de Libras, Sônia está se comunicando cada vez melhor.

Mas, para a família, a aproximação continua em construção. Os encontros permanecem menos frequentes do que eles gostariam e, segundo Marcelo, as possibilidades de atuação dos irmãos estão cada vez mais concentradas nos processos judiciais.

“Da nossa parte, enquanto família, a gente não tem muito que fazer, a não ser, de fato, contar mesmo com as manifestações que as nossas advogadas conseguem fazer”, afirma.

Recentemente, a família passou a levantar novas preocupações com a saúde de Sônia. Stamm afirma que os irmãos observaram obesidade, falta de ar e episódios que descrevem como compulsão alimentar durante as visitas. De acordo com a advogada, eles também solicitaram esclarecimentos sobre o acompanhamento médico de Sônia.

Após o resgate, Sônia chegou a passar por diversos atendimentos de saúde. Segundo Stamm, a avaliação odontológica realizada pelo SUS identificou três raízes dentárias apodrecidas e outro dente que precisava ser removido. 

Também foi atendida por um ginecologista, que identificou um mioma benigno, além de ter sido vacinada, porque seu esquema vacinal não estava completo.

Avaliação da capacidade de Sônia não deveria ter se restringido à surdez, diz advogada

Ao recorrer ao Supremo Tribunal Federal, a DPU (Defensoria Pública da União) sustentou que a decisão do STJ que possibilitou a volta de Sônia para a casa da família Borba contrariava o fluxo nacional de atendimento às vítimas de trabalho escravo e o sistema de proteção de mulheres vítimas de violência. 

A Defensoria também argumentou que Sônia, que é surda desde a infância, havia passado décadas sem acesso à educação formal e não era alfabetizada em Libras. Dessa forma, ela precisaria permanecer sob acompanhamento de uma equipe multidisciplinar pelo tempo necessário para desenvolver sua autonomia e capacidade de comunicação.

Uma decisão do Superior Tribunal de Justiça de agosto de 2023 estabeleceu que, após um encontro com os Borba, ela deveria ser questionada sobre permanecer no acolhimento ou retornar à antiga residência. Caso manifestasse vontade de forma “expressa, clara e inequívoca”, as autoridades presentes estavam proibidas de impedir a volta.

Como mostrou a Repórter Brasil em 2023, um relatório dos órgãos envolvidos no resgate afirma que Sônia teria sido “induzida” a retornar à residência dos Borba.  

Apesar de a decisão do STJ autorizar somente a visita do magistrado e de sua esposa, o casal foi ao abrigo onde Sônia se encontrava acompanhado de advogados e diversos parentes, incluindo crianças com quem ela tinha contato. O relatório define a visita como “uma estratégia pensada de manipulação e controle psicológicos, típicos de relacionamentos abusivos”. A família Borba nega irregularidades.

A DPU tentou suspender a autorização para a visita por meio de habeas corpus. 

Em setembro de 2023, no entanto, o STF negou o pedido liminar. A decisão afirmou que, naquele momento, não havia nos autos manifestações técnicas especializadas indicando que Sônia fosse privada de discernimento, para além das restrições associadas à surdez bilateral. 

Assinada pelo ministro André Mendonça, a decisão afirmou que as investigações haviam permitido compreender melhor a convivência e que, durante os 40 anos anteriores, Sônia teria vivido “como se fosse membro da família”. Para o ministro, caberia a ela, “enquanto pessoa maior e capaz, e não ao Estado”, decidir sobre o retorno à residência dos Borba.

A decisão também registrou que as avaliações da assistência social e psicológica recomendavam que ela continuasse frequentando a Associação de Surdos para aprender Libras.

O próprio processo no STJ registra, no entanto, que haviam sido considerados indícios de que a surdez bilateral de Sônia, a ausência de ensino formal e sua “patente dificuldade de comunicação” poderiam ter contribuído para que uma situação inicial de acolhimento, na casa dos Borba, se transformasse em uma situação de escravização.

Juliana Stamm afirma que a avaliação da capacidade de Sônia não deveria ter se restringido à surdez. Segundo a advogada, Sônia também apresenta deficiência cognitivo-intelectual e não havia desenvolvido autonomia suficiente para fazer uma escolha informada naquele momento.

“Ela não tem compreensão de que lavar, passar, fazer massagem no pé da Ana Cristina são tarefas pelas quais ela poderia ter sido remunerada. Ela não faz a menor ideia dos direitos. Então, não dá pra falar que ela manifestou vontade”, explica a advogada. 

A questão cognitiva já havia aparecido em outros documentos. Em uma decisão da Justiça do Trabalho de setembro de 2023, Sônia é descrita como “pessoa com deficiência auditiva e problemas de cognição”. No mesmo documento, foi reproduzido o entendimento do STJ de que caberia a ela, considerada “pessoa maior e capaz”, decidir sobre o retorno.

Já em 2025, o STJ determinou a realização de perícia multidisciplinar nas áreas de neuropsicologia, psiquiatria, assistência social e fonoaudiologia com o objetivo de avaliar a capacidade de Sônia de se autodeterminar.

Para Stamm, o caso coloca em discussão o significado de respeitar a vontade de uma pessoa recém-retirada de décadas de exploração e dependência. A advogada sustenta que não havia, no momento em que Sônia teria concordado em voltar para a casa dos Borba, condições para que ela fizesse uma escolha verdadeiramente autônoma.

Isso porque a aproximação com a família biológica sequer havia começado quando Sônia retornou à casa dos Borba. Os irmãos estavam seguindo orientações do processo de acolhimento e aguardando o início do aprendizado de Libras antes de encontrá-la. Quando finalmente conseguiram se organizar para ir a Florianópolis, Sônia já havia voltado à residência de onde havia sido resgatada.

Irmãos encontram Sônia a cada três meses

O primeiro encontro dos irmãos biológicos com Sônia ocorreu em setembro de 2023, na sede da Polícia Federal, em Florianópolis. Segundo Marcelo, que não participou da visita, os irmãos presentes relataram um ambiente “muito gélido” e “muito controlado”. A reunião durou cerca de 40 minutos. 

O desembargador, segundo o relato repassado a Marcelo, teria permanecido ao lado de Sônia durante todo o tempo. “Os relatos que eles [meus irmãos] trazem sobre isso é que de fato nesse dia a interação foi mínima, foi controlada”, afirma.

Nos primeiros encontros com a família biológica, havia ainda outra barreira entre os irmãos: a comunicação. Surda, sem acesso à educação formal e sem domínio da linguagem de Libras, Sônia se comunicava principalmente por gestos. “A gente gesticulava e deduzia o que ela falava”, lembra Marcelo.

As fotografias da família passaram a fazer parte desse processo de aproximação. Marcelo conta que os irmãos levavam imagens da mãe, dos sobrinhos e deles próprios.

“A gente foi apresentando para ela a família dela, e a partir daí também a gente foi identificando que ela também se reconhecia, em algumas fotos, no sentido de reconhecer a nossa mãe”, conta.

“Senti muita alegria por saber que ela está viva”, diz Marcelo de Jesus (Foto: Caue Angeli/Repórter Brasil)
“A gente foi apresentando para ela a família dela”, conta Marcelo de Jesus sobre a reaproximação com a irmã (Foto: Caue Angeli/Repórter Brasil)

Quando Marcelo encontrou a irmã pessoalmente pela primeira vez, em 2024, também percebeu sinais de memória. Segundo ele, Sônia olhou para o irmão e fez um gesto que ele interpretou como uma referência ao fato de tê-lo conhecido ainda pequeno e reencontrá-lo adulto. 

Com o passar do tempo e a continuidade do acompanhamento na Associação de Surdos da Grande Florianópolis, Marcelo diz ter percebido uma evolução. Hoje, segundo ele, Sônia consegue expressar necessidades como estar com fome, querer ir ao banheiro, tomar água ou se levantar.

Ainda assim, a convivência continua espaçada. Desde 2024, os irmãos conseguem encontrar Sônia aproximadamente a cada três meses. Inicialmente, eles a buscavam pela manhã e tinham horário para levá-la de volta no mesmo dia. Só mais recentemente conseguiram que ela passasse uma noite com eles.

Ação sobre trabalho escravo aguarda decisão sobre filiação socioafetiva

A discussão sobre o vínculo familiar, alegada pelos Borba, passou a interferir diretamente na ação trabalhista sobre o caso. 

Em agosto deste ano, a 1ª Vara do Trabalho de Florianópolis suspendeu a ação civil pública apresentada pelo MPT e pela DPU até o julgamento do processo de reconhecimento de maternidade e paternidade socioafetiva movido por Jorge Luiz e Ana Cristina.

A Justiça do Trabalho considerou que um eventual reconhecimento da filiação socioafetiva constitui uma “questão prejudicial” à discussão sobre reconhecimento de trabalho escravo e vínculo de emprego. 

Para Stamm, a suspensão aumenta o temor de que um eventual reconhecimento da filiação seja levado em conta nos demais processos envolvendo Sônia. 

A suspensão ocorreu em meio a outro revés judicial relacionado ao caso. Como mostrou a Repórter Brasil, o TRT da 12ª Região anulou o processo administrativo que havia confirmado o auto de infração contra Ana Cristina Gayotto de Borba e determinou sua retirada da “lista suja” do trabalho escravo.

A decisão ocorreu por uma questão processual: o tribunal considerou que houve violação ao contraditório e à ampla defesa porque os advogados constituídos não foram notificados de uma etapa do procedimento. O TRT não analisou o mérito da fiscalização nem concluiu que Sônia não tenha sido submetida a condições análogas à escravidão.

No começo de setembro, no entanto, houve nova reviravolta.

O presidente do TST (Tribunal Superior do Trabalho) devolveu à Lista Suja do trabalho escravo o caso de Sônia. A decisão atendeu a um pedido da AGU (Advocacia-Geral da União). A medida vale até o trânsito em julgado do processo, quando não houver mais possibilidade de recurso. 

Em sua manifestação, o presidente do TST ressaltou que a decisão não antecipa o julgamento definitivo da controvérsia, mas mantém os efeitos da autuação que reconheceu as irregularidades enquanto o caso continua em discussão.

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Amid ‘Super El Niño’, Brazilian state bank maintains rural credit for farm after fire-related deforestation fine

PROPERTIES FINANCED with public subsidies by Banco do Nordeste, a federal government-controlled bank, had areas embargoed and were fined by Ibama (Brazil’s Institute for the Environment and Renewable Natural Resources) for deforestation involving the use of fire, according to an investigation by Repórter Brasil.

The data were obtained by cross-referencing environmental violation records, information from Sicor (the Rural Credit Operations System) and the Rural Credit Monitor, a platform developed by the MapBiomas organization.

One of the financing contracts identified by the investigation, intended for agricultural activities on a farm in the Cerrado biome in Maranhão state, remains active at a time when the Brazilian government itself is warning of the risk of extreme droughts and increased wildfires associated with the “Super El Niño” phenomenon. The climate event – whose effects are intensified by deforestation, according to experts – is expected to reduce rainfall and raise temperatures in the North, Northeast and parts of the Center-West regions in Brazil.

Since January 2025, Brazil’s Central Bank has required contracts involving public rural credit resources to include the possibility of loan disqualification if, during the financing period, environmental obligations related to the rural property are found to have been breached.

Such violations include the existence of environmental embargoes on financed properties registered on Ibama’s public list. An embargo is an administrative sanction that prohibits productive activities harmful to the environment and, in many cases, aims to ensure the restoration of native vegetation in illegally deforested areas.

With loan disqualification, farmers lose subsidies and other benefits associated with rural credit, increasing the interest rates charged on the financing. However, it is up to the financial institutions that provide the loans to carry out this monitoring.

According to Priscila Souza, senior public policy evaluation manager at the Climate Policy Initiative, the current regulations do not yet establish a rule requiring banks to periodically review Ibama’s embargo list during the term of an already contracted loan, except for financing modalities in which funds are released gradually.

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“Loan disqualification, foreseen in cases of non-compliance during the financing period, is a possible consequence when a violation is identified, rather than an obligation to monitor,” she explains.

In Souza’s view, the worsening climate risk is one of the reasons why current rules should be reviewed. “Someone who is causing environmental damage, whether through fire or deforestation, should not receive support through subsidized public funds,” she says. “Public resources should encourage good practices, environmental preservation and the achievement of our environmental and climate targets,” she adds.

Fires in Maranhão’s Cerrado

One of the cases investigated by Repórter Brasil involves the company Triunfante Florestal e Agrícola. In November 2025, the company was fined R$268,000 (approximately USD 52,222) after allegedly clearing 134 hectares of Cerrado vegetation using fire in the municipality of Caxias, Maranhão. The area where the violation was identified was embargoed by Ibama.

The incident occurred on a farm that had benefited from a R$5.8 million (USD 1,1 million) loan contracted by cattle rancher Clésio Coelho Cunha with Banco do Nordeste. Cunha, who is also a judge at the Court of Justice of Maranhão, previously headed Triunfante Florestal e Agrícola. Today, the company’s corporate structure includes his wife and daughter.

The financing, intended for soil correction services and the opening of rural plots, began in October 2021 and is scheduled to mature in October 2030. Even after the embargo, the loan remained active.

When contacted, Clésio Cunha said Ibama’s embargo was “completely illegal, based on false assumptions.” He claims the area had authorization for vegetation removal issued by Maranhão’s State Secretariat for Environment and Natural Resources. The farmer shared with the investigation the authorization issued by the state environmental agency in January 2021, valid until January 2023.

According to Ibama, the violation on the property occurred in November 2023. “The clearing was carried out in 2022. The fire entered the farm in 2023 and made the clearing visible. What I can guarantee is that the clearing was carried out within the validity period,” Cunha said. He added that he will appeal Ibama’s fine and embargo. The farmer also said that fires are common in the region and that the fire on his property was accidental (read the full response here).

Two other Ibama embargoes in the same municipality, also issued in November 2025, were registered against rural producer Sérgio Wilkon. At the time, he received two fines for allegedly clearing a total of 363.3 hectares using fire, resulting in penalties totaling R$728,000 (USD 141,800, approximately). The embargoes remain active on the environmental agency’s public list.

In June 2024, Wilkon contracted a R$2.6 million (approximately USD 506,630) loan to open rural plots, brokered by Banco do Nordeste. The financing was intended for the same property where the environmental violations were detected months later. The contract was scheduled to mature in June 2036.

The loan was disqualified in February this year, according to the list of rural credit contracts disqualified by the Central Bank. However, the reason was not related to environmental or social restrictions – one of the categories available in the database.

Contacted through his lawyer, the producer had not provided a response by the time this article was published.

Wilkon and Cunha’s loans used resources from FNE (Constitutional Fund for Financing the Northeast), managed by Sudene (Superintendence for the Development of the Northeast). To Repórter Brasil, Sudene said it had not identified the cases until receiving the questions from the investigation and that it would forward them to Banco do Nordeste “for its knowledge and adoption, within its scope of responsibilities, of any measures it deems appropriate.”

Banco do Nordeste, in turn, did not provide details about the two cases mentioned by the investigation. The financial institution said that “all of its rural credit operations are granted in strict compliance with current legislation and regulations” and that “in addition to the analysis carried out at the time of contracting, the monitoring of operations takes place continuously throughout the entire financing period” (read the full response here).

On August 19, seven days after Repórter Brasil first contacted the bank’s press office, Banco do Nordeste formally notified Clésio Cunha about environmental issues involving the financed property, according to information provided by the producer to the investigation. At the time, the bank gave him 30 days to submit explanations.

According to Cunha, Banco do Nordeste had already informed him about the pending issue through an informal WhatsApp message and had sent a notification but was unable to locate him. Cunha also said that, because of the embargo, he has been unable to renegotiate the loan debt, which may now become subject to early maturity – meaning he would have to repay in advance a loan that had originally been contracted for installment payments.

Asked again by the investigation, Banco do Nordeste confirmed that the loan remains under review by the institution. “We emphasize that the operation may be disqualified after the investigation of the facts is concluded and the handling of the occurrence is finalized,” the bank said.

Fires in financed areas of the Amazon

Other cases identified by the investigation involve Banco da Amazônia, another federally controlled bank. In Tarauacá, in the state of Acre, cattle rancher Lucimar de Andrade Marques was fined by Ibama after a fire occurred on the Colônia Andrade property in April 2025. An area of 41.7 hectares was embargoed by the environmental agency, which fined Marques R$105,000 (USD 20,460).

Marques appears as the beneficiary of a R$128,000 (USD 25,000) rural loan contracted with Banco da Amazônia in November 2024 – five months before the violation. The financing, obtained with resources from FNO (Constitutional Fund for Financing the North), was intended to fund cattle-ranching activities on the property where the environmental embargo occurred.

To justify the fine, Ibama argued that the lack of action by the offender in implementing fire prevention and firefighting measures contributed to the burning of an area already designated for agricultural use and to the emission of atmospheric pollutants.

The loan was scheduled to mature in November 2026. However, the contract was disqualified in March this year, almost one year after Ibama’s embargo. As in the case of producer Sérgio Wilkon, the disqualification did not occur due to environmental restrictions related to the contract, according to the disqualification list published by the Central Bank. The investigation was unable to locate Marques for comment.

Her case falls outside the scope of the Rural Credit Manual (MCR), which sets out environmental restrictions for loans financed with public resources, as Ibama’s violation notice did not concern deforestation but rather the failure to adopt mandatory fire prevention measures.

“This is currently a limitation of the MCR, since these areas can receive financing with public resources,” says Priscila Souza from the Climate Policy Initiative.

In another case, in Novo Progresso, Pará, Wellington Oliveira Amorim contracted four loans with Banco da Amazônia between 2020 and 2023. In April 2025, while one of the contracts was still active, he received two Ibama fines involving the same area declared for financing.

In one of the violations, Amorim was fined R$40,000 (USD 8,000) for allegedly destroying, without authorization, 7.4 hectares of native Amazon vegetation intended for productive use. In another, the environmental agency imposed a R$1 million fine (USD 200,000, approximately) for considering that he failed to adopt mandatory measures to prevent and fight forest fires.

For this second violation, Ibama classified the conduct as intentional, meaning there was intent to commit the act. The fines resulted in two embargoes covering 7.4 and 32.7 hectares on the property.

The financing contract for cattle-ranching activities also used FNO resources and was scheduled to end in October 2025, seven months after the embargo.

Repórter Brasil sent questions by email to Wellington Amorim and Sudam (Superintendence for the Development of the Amazon), the institution responsible for FNO, but had not received a response by the publication deadline.

Banco da Amazônia said that “no environmental restrictions were identified on the dates when the mentioned operations were contracted” and that “the environmental occurrences mentioned in the investigation occurred after the formalization of the operations and, when verified, are assessed in light of the applicable regulations and the specific characteristics of each case.”

Regarding Amorim’s case, the bank said that “the situation is being technically analyzed, considering the available information, current legislation and applicable internal regulations, in order to define any appropriate measures” (read the full response here).

For expert, rules need to be expanded

In addition to the fact that the Rural Credit Manual does not require financial institutions to periodically review the list of areas embargoed by Ibama, the document has another limitation, according to Priscila Souza from the Climate Policy Initiative.

The embargoes considered by the manual are restricted to cases in which there was economic use of the illegally deforested area. Situations involving deforestation through the use of fire, for example, fall under the rules, since environmental legislation considers burning an aggravating factor in the practice of deforestation. Other situations, such as embargoes issued after fines for irregular burning or failure to prevent fires, are not covered by the regulation. In these cases, the environmental agency does not classify the violation as deforestation.

“In some areas, fire is the first step toward deforestation,” Souza points out. In her view, the manual has a “limitation” and needs to continue being expanded. “Rural credit receives different forms of public support, and public resources need to generate positive returns for society. Therefore, embargoes related to fires should be included among the restrictions for rural credit financing.”

When questioned, Brazil’s Central Bank said that its role regarding Rural Credit “consists of monitoring and supervising compliance with the rules issued by the National Monetary Council” and that “financial institutions are responsible for the analysis, granting, monitoring, inspection and adoption of the measures established under the applicable regulations.”

“In exercising its legal and regulatory powers, the Central Bank may request information and clarifications from financial institutions as necessary to assess the compliance of operations and may adopt monitoring and supervisory measures related to the processes and controls used,” the agency stated, without, however, informing whether it will request information from banks regarding the cases (see full statement here).

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Posicionamentos enviados para reportagem sobre financiamentos para áreas desmatadas com fogo

Leia a reportagem: Em meio a ‘Super El Niño’, banco estatal mantém crédito a multado por queimada

Banco da Amazônia 

Enviada em 19 de agosto de 2026 

O Banco da Amazônia esclarece que os recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Norte (FNO) destinam-se exclusivamente à sua área legal de atuação, não abrangendo o estado do Maranhão. Especificamente em relação aos casos mencionados, as análises realizadas identificaram que os financiamentos estão vinculados a empreendimentos localizados nos municípios de Tarauacá, no Acre, e Novo Progresso, no Pará, ambos situados na área de atuação do Fundo. Ademais, nas datas das respectivas contratações, não foram identificados impedimentos ambientais que inviabilizassem a concessão do crédito, conforme os critérios e procedimentos vigentes à época.

E, baseado nos questionamentos da reportagem, afirmamos:

1. As operações citadas violam normas do Banco ou da regulamentação aplicável?

Não foram identificados impedimentos ambientais nas datas de contratação das operações mencionadas. As análises técnicas e socioambientais realizadas observaram os critérios previstos na regulamentação e nos normativos internos vigentes em cada período.

As ocorrências ambientais mencionadas na reportagem são posteriores à formalização das operações e, quando verificadas, são avaliadas à luz da regulamentação aplicável e das características específicas de cada caso.

2. O Banco pretende adotar providências em relação aos financiamentos mencionados?

O Banco avalia continuamente as informações relacionadas às operações de crédito e adota os procedimentos previstos na regulamentação e em suas normas internas, observando as particularidades de cada situação.

Sempre que identificados fatos que demandem análise, é realizada avaliação técnica para definição das medidas eventualmente cabíveis, observando-se o enquadramento normativo aplicável.

3. No caso de Wellington Oliveira Amorim, o Banco identificou embargos durante a vigência das operações? Houve providências?

As verificações realizadas apontam que os registros ambientais atualmente associados ao imóvel ocorreram após a contratação das operações mencionadas na demanda.

A situação está sendo analisada tecnicamente pelo Banco, observando-se os elementos disponíveis, a legislação vigente e os normativos internos aplicáveis, para definição dos encaminhamentos eventualmente cabíveis.

4. A ocorrência de embargo após a contratação implica automaticamente desclassificação, suspensão ou vencimento da operação?

Não. A ocorrência de embargo ambiental superveniente demanda análise individualizada, considerando a natureza da ocorrência, sua relação com a atividade financiada, o enquadramento previsto na regulamentação vigente e as características específicas de cada operação.

Dessa forma, eventuais providências são definidas caso a caso, conforme os dispositivos regulamentares aplicáveis e a avaliação técnica correspondente.

5. Como o Banco trata os aspectos socioambientais nas operações de crédito?

O Banco possui normas internas específicas para avaliação e acompanhamento de aspectos socioambientais relacionados às operações de crédito.

Essas normas são permanentemente atualizadas para refletir a evolução da legislação, das regulamentações editadas pelos órgãos competentes e das melhores práticas de gestão de riscos socioambientais, garantindo alinhamento contínuo dos processos internos às exigências vigentes.

6. Como é realizado o monitoramento de aspectos socioambientais das operações?

O Banco realiza o monitoramento e acompanhamento das operações observando os procedimentos previstos na regulamentação aplicável e em suas normas internas de gestão e controle.

As avaliações são conduzidas de acordo com critérios técnicos e de gestão de risco estabelecidos para esse fim, assegurando a aderência dos processos às exigências regulatórias vigentes.

O Banco da Amazônia reafirma seu compromisso com a observância da legislação ambiental, com a gestão responsável do crédito e com o contínuo aperfeiçoamento de seus processos de controle e acompanhamento. As operações citadas foram contratadas após a realização das análises técnicas e socioambientais aplicáveis à época, não tendo sido identificados impedimentos para sua contratação. As situações posteriormente reportadas são objeto de avaliação específica pelo Banco, em conformidade com a regulamentação vigente e com seus normativos internos.

Banco do Nordeste 

Enviada em 18 de agosto de 2026 

O Banco do Nordeste (BNB) esclarece que todas as suas operações de crédito rural são concedidas em estrita conformidade com a legislação e os normativos vigentes, incluindo a verificação dos requisitos de regularidade socioambiental e dos demais critérios legais e regulamentares pertinentes. 

Além da análise realizada na contratação, o acompanhamento das operações ocorre de forma contínua durante toda a vigência dos financiamentos. Nesse processo, o Banco monitora fatos e condições que possam afetar a segurança das operações ou sua aderência à legislação, aperfeiçoando continuamente seus procedimentos, metodologias e ferramentas de avaliação,  em observância ao Manual de Crédito Rural (MCR) e demais normativos aplicáveis.

O BNB ressalta que faz uso de ferramentas especializadas de avaliação socioambiental, complementadas por tecnologias de sensoriamento remoto e consultas a bases oficiais de controle, o que confere maior precisão e robustez às análises realizadas. Esses mecanismos fortalecem a capacidade de identificação prévia de impedimentos legais e restrições socioambientais, contribuindo para a prevenção e a gestão adequada dos riscos envolvidos.

Caso seja identificado algum embargo, o cliente é notificado para apresentar defesa, podendo, ao fim do processo de apuração, ter sua operação desclassificada e seu vencimento antecipado. Com isso, não são liberados novos recursos. 

Vale salientar que a consulta de existência de embargos é item obrigatório do processo de desembolso em todos os contratos, o que já impede qualquer liberação.

O Banco do Nordeste reafirma seu compromisso com a observância da legislação, o fortalecimento da governança socioambiental e a promoção do desenvolvimento sustentável, conciliando a expansão do crédito com a responsabilidade social, ambiental e econômica em sua área de atuação.

Resposta adicional do Banco do Nordeste enviada em 2 de setembro de 2026 (após questionamento da Repórter Brasil sobre o caso do financiamento ao produtor Clésio Coelho Cunha)

A operação em questão se encontra em processo de tratamento da ocorrência identificada, estando ainda dentro do prazo de 30 dias contados a partir da confirmação da interpelação ao cliente. Ressaltamos que a operação poderá ser desclassificada após a conclusão da apuração dos fatos e finalização do tratamento da ocorrência.

Banco do Brasil 

Enviada em 18 de agosto de 2026 

O Banco considera todos os tipos de embargos para fins de verificação ambiental, não apenas desmatamento como disciplinado no Manual de Crédito Rural. Uma vez que um auto de infração venha a se tornar em uma punição restritiva, sendo cadastrado um embargo respectivo, torna-se impeditivo para fins de financiamento.

Sobre o caso em questão, não constatamos a ocorrência de embargos ambientais mesmo considerando as diversas bases de monitoramento como o Mapbiomas ou apontados no INPE e CENSIPAM. Do mesmo modo, além do MCR não regular qualquer sanção ou impedimento relativo a auto de infração do IBAMA sem que a área tenha sido embargada por qualquer motivo, a localização geográfica apontada no respectivo auto de infração não possui sobreposição com área financiada pelo BB.

O BB ratifica que não financia imóveis rurais que constem na base georreferenciada de áreas que sejam embargadas por motivos que evoluam desde uma situação de desmatamento ou por uso ilegal de fogo que chegue a se tornar um embargo. Deste modo, o Banco ressalta a regularidade das operações de crédito, bem como, reafirma seu compromisso com a sustentabilidade, a conformidade regulatória, a gestão responsável do crédito.

Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste)

Enviada em 17 de agosto de 2026

Nos termos da Lei nº 7.827/1989, a administração do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) é exercida pelo Conselho Deliberativo da Sudene (Condel/Sudene), pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional e pelo Banco do Nordeste, observadas as atribuições legalmente definidas para cada ente.

Nesse arranjo, cabe ao Condel/Sudene estabelecer as diretrizes, prioridades e programas de financiamento, avaliar os resultados obtidos e determinar as medidas de ajuste necessárias ao cumprimento das diretrizes estabelecidas. Ao Ministério, cabe estabelecer as diretrizes e orientações gerais para as aplicações dos recursos, de forma a compatibilizar os programas de financiamento com as orientações da política macroeconômica, das políticas setoriais e da Política Nacional de Desenvolvimento Regional. E, ao Banco do Nordeste, na condição de instituição administradora, cabe aplicar os recursos, implementar a política de crédito, definir as normas, os procedimentos e as condições operacionais próprias da atividade bancária e prestar contas sobre os resultados alcançados, o desempenho e o estado dos recursos e das aplicações.

No âmbito das diretrizes e condições para aplicação dos recursos, o art. 22 da Portaria MIDR nº 2.252/2023 estabelece restrições à concessão ou renovação de financiamentos em determinadas situações, inclusive quando dirigentes tenham sido condenados por crime contra o meio ambiente. Regra de mesma natureza consta da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026 e, no caso específico do FNE, a Programação do Fundo também estabelece restrição ao financiamento de empreendimentos cujos dirigentes tenham condenação por crime contra o meio ambiente.

O acompanhamento e a avaliação realizados pela Sudene e pelo Condel/Sudene ocorrem em nível agregado, no âmbito da política de financiamento, dos programas e dos resultados do FNE, não envolvendo, ordinariamente, o acompanhamento individualizado das operações de crédito. Nesse mesmo plano inserem-se a competência do Condel/Sudene para determinar as medidas de ajuste necessárias ao cumprimento das diretrizes estabelecidas e, na prática, a prestação de contas realizada pelo Banco do Nordeste sobre os resultados, o desempenho e o estado dos recursos e das aplicações do Fundo. Entre os instrumentos desse acompanhamento está o Relatório Circunstanciado anual previsto no art. 20 da Lei nº 7.827/1989, que apresenta as atividades desenvolvidas e os resultados obtidos pelo FNE, com indicadores destinados à mensuração do desempenho e dos resultados da política de aplicação dos recursos.

As informações periódicas recebidas pela Sudene não constituem um fluxo de comunicação individualizada de autuações ou embargos ambientais incidentes sobre cada operação ativa.

No caso das operações de crédito rural, o monitoramento e a fiscalização das operações são de responsabilidade da instituição financeira, nos termos do Manual de Crédito Rural e da regulamentação do Conselho Monetário Nacional.

Os casos mencionados pela reportagem não haviam sido identificados no âmbito da rotina de acompanhamento e avaliação realizada em nível agregado. Diante das informações apresentadas, a Sudene as encaminhará ao Banco do Nordeste, para conhecimento e adoção, no âmbito de suas competências, das providências que considerar cabíveis.

Banco Central

Enviada em 20 de agosto de 2026 

O Banco Central esclarece que sua atuação, no âmbito do crédito rural, consiste em monitorar e supervisionar o cumprimento das normas editadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Na forma da Lei e conforme regulamentado pelo CMN, cabe às instituições financeiras a análise, concessão, monitoramento, fiscalização e adoção das medidas previstas na regulamentação aplicável. A avaliação sobre o enquadramento de operações específicas nas hipóteses de desclassificação previstas no Manual de Crédito Rural (MCR), bem como sobre os efeitos decorrentes de eventuais irregularidades ou restrições incidentes sobre empreendimentos financiados, deve ser realizada pela instituição financeira responsável, com base nos fatos apurados e no quadro normativo vigente. Compete às instituições financeiras adotar as providências cabíveis quando constatadas irregularidades.

No exercício de suas atribuições legais e regulamentares, o Banco Central pode solicitar às instituições financeiras informações e esclarecimentos necessários à avaliação da conformidade das operações e adotar medidas de monitoramento e de supervisão relacionadas aos processos e controles utilizados. O Banco Central avalia a efetividade dos procedimentos e controles adotados pelas instituições supervisionadas por meio de análises de bases de dados, cruzamento de informações e ações específicas de monitoramento e supervisão. A Autarquia não se manifesta sobre casos concretos. Quando são verificadas irregularidades, são adotadas as medidas correspondentes, estabelecidas em Lei e na regulamentação do CMN.

Cumpre destacar que a edição de normas referentes a impedimentos sociais, ambientais e climáticos é de responsabilidade do CMN, não cabendo a esta autarquia antecipar ou manifestar-se quanto a potenciais aperfeiçoamentos normativos.

Clésio Coelho Cunha 

Enviada em 22 de agosto de 2026 

Minha esposa Valdirene do Nascimento Coelho Cunha e minha filha Leticia do Nascimento Coelho Cunha Costa, são as proprietárias da triunfante Florestal e administradoras da Empresa.

As nossas áreas rurais tem como áreas adjacentes a Área Quilombola Jacarezinho e a Área quilombola Brejinho, no município de São Joao do Sóter.

A área de terras denominada Caraíbas pertence a mim há pelo menos 20 anos e convivemos harmoniosamente – sem nenhum conflito, atrito ou confusão. Somos amigos, eu e as pessoas da comunidade. Há respeito absoluto entre mim e essas comunidades.

Eu pessoalmente, sou um homem preto de 60 anos, filho de uma professora preta e neto de um ex escravizado = Primitivo Martins Coelho e de uma indígena Guajajara. Portanto respeito as comunidade quilombolas, por conta da minha origem.

No caso da Associação dos Moradores do Bom Descanso, esta não é uma área Quilombola reconhecida pela Fundação Palmares e pelo INCRA, como tal. Não há Laudo Antropológico atestando isso. Mas, nada obstante, ninguém acreditar nessa hipótese na nossa região, se os órgãos estatais declararem área Bom descanso como Quilombola, acataremos a decisão com todo respeito.

A liderança Quilombola assassinada era da Comunidade Quilombola Jacarezinho e nada tinha a ver com a comunidade Bom Descanso, e era um dos duvidava que a Comunidade Bom Descanso fosse remanescente de Quilombo. 

Sobre as suas perguntas, erespondo que eu pessoalmente, muito menos a minha esposa ou a minha filha, jamais, nunca fizemos desmatamento ilegal e o embargo ambiental feito pelo IBAMA, sobre o qual nunca fomos pessoalmente intimados, é totalmente ilegal, baseado em premissas falsas: não houve desmatamento com fogo, nem desmatamento sem autorização.

De acordo com os documentos que eu te enviei a Fazenda Alegria tinha Licença para desmatar 243 hectares, mas só desmatou 136, portanto preservou 100 hectares a mais do que os 90 inicialmente previstos.

Quanto ao fogo, ele ocorre todo ano, por acidente, no cerrado da região de nossas propriedades, por conta das temperaturas altas e do vento forte.

Ficamos sabendo do Embargo por comunicação que nos foi feita pela gerente do Banco do Nordeste, de São Luis, que nos comunicou a suspensão do nosso financiamento, vencimento antecipado, etc..

O BNB nos puniu por conta do equívoco do IBAMA. Somos vítimas dos erros de terceiros.

Quanto ao papel da empresa Triunfante Florestal, minha esposa entrou ou a empresa dela não são rés originárias em nenhum processo movido pela Associação do Bom descanso.

Na verdade, a associação entrou com uma ação judicial acerca da Gleba Ponte, que tem no total 1.577 hectares.

Desse total, 322 hectares pertencem à empresa de minha esposa.  Portanto, para garantir direitos, inclusive à indenização se a Gleba for desapropriada pelo INCRA a pedido da Fundação Palmares, ela ingressou no processo em andamento proposto pela associação contra os posseiros  da área de 1.200 hectares.

Está tudo muito bem explicado no arquivo que enviei há pouco.

A área embargada não está sendo utilizada em nenhum atividade agrícola. e não estão sendo utilizados recursos de financiamento ou recursos próprios na área embargada.

Espero ter prestado as informações solicitadas.

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Em meio a ‘Super El Niño’, banco estatal mantém crédito a multado por queimada

PROPRIEDADES FINANCIADAS com subsídios públicos pelo Banco do Nordeste, controlado pelo governo federal, tiveram áreas interditadas e foram alvo de multas do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) por desmatamento com uso de fogo, mostra levantamento da Repórter Brasil

Os dados foram obtidos a partir do cruzamento de registros de infrações ambientais, informações do Sicor (Sistema de Operações do Crédito Rural) e do Monitor do Crédito Rural, plataforma da organização MapBiomas.

Um dos contratos de financiamento identificados pela reportagem, destinado a atividades agropecuárias em uma fazenda do Cerrado maranhense, segue vigente num momento em que o próprio governo alerta para o risco de seca extrema e aumento das queimadas associados ao “Super El Niño”. Nas regiões Norte, Nordeste e em partes do Centro-Oeste, o fenômeno climático – que tem, segundo especialistas, seus efeitos intensificados pelo desmatamento – tende a reduzir as chuvas e elevar as temperaturas

Desde janeiro de 2025, o Banco Central determina que os contratos que utilizam recursos públicos do crédito rural prevejam a possibilidade de desclassificação do empréstimo, caso seja verificado, durante a vigência do financiamento, o descumprimento de obrigações ambientais no imóvel rural. 

Entre esses descumprimentos está a existência de embargos ambientais nas propriedades financiadas registrados na lista pública do Ibama. O embargo é uma sanção administrativa para interditar atividades produtivas nocivas ao meio ambiente e, em muitos casos, garantir a restauração da vegetação nativa em áreas desmatadas ilegalmente. 

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Com a desclassificação, o produtor perde os subsídios e demais benefícios associados ao crédito rural, o que eleva os juros cobrados sobre o financiamento. No entanto, cabe às instituições financeiras que emprestam os recursos realizar esse monitoramento. 

Na avaliação de Priscila Souza, gerente sênior de avaliação de política pública da organização Climate Policy Initiative, ainda não existe no manual uma norma que obrigue a instituição bancária a revisar a lista de embargos do Ibama periodicamente durante a vigência de uma operação já contratada, a não ser nas modalidades em que o crédito é liberado aos poucos. 

“A desclassificação da operação, prevista em casos de descumprimento durante a vigência, é uma consequência possível quando o descumprimento é identificado, e não uma obrigação de fiscalizar”, explica.

O agravamento do risco climático é um dos motivos que, na opinião de Souza, pedem a revisão das regras atuais. “Alguém que está causando danos ambientais, seja por fogo ou por desmatamento, não deve receber apoio com dinheiro público subsidiado”, avalia. “O recurso público deveria incentivar boas práticas, preservação ambiental e o atingimento das nossas metas ambientais e climáticas”, complementa.

Queimadas no Cerrado maranhense 

Um dos casos apurados pela Repórter Brasil envolve a empresa Triunfante Florestal e Agrícola. Em novembro de 2025, ela foi multada em R$ 268 mil porque teria desmatado com uso de fogo 134 hectares de Cerrado no município maranhense de Caxias. A área onde foi identificada a infração foi embargada pelo Ibama. 

O flagrante ocorreu em uma fazenda beneficiada por um empréstimo de R$ 5,8 milhões contratado pelo pecuarista Clésio Coelho Cunha junto ao Banco do Nordeste. Cunha, que também é juiz no Tribunal de Justiça do Maranhão, já esteve à frente da Triunfante Florestal e Agrícola. Hoje, a empresa tem em seu quadro societário sua esposa e filha. 

O financiamento, destinado à realização de serviços de correção do solo e abertura de glebas rurais, teve início em outubro de 2021 e possui vencimento previsto para outubro de 2030. Mesmo após o embargo, o empréstimo seguiu vigente.

Questionado, Clésio Cunha afirmou que o embargo do Ibama é “totalmente ilegal, baseado em premissas falsas”. Ele alega que a área possuía autorização para supressão vegetal emitida pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Recursos Naturais do Maranhão. O produtor compartilhou com a reportagem a autorização emitida pelo órgão ambiental estadual, expedida em janeiro de 2021 e com validade até janeiro de 2023. 

Segundo o Ibama, a infração na propriedade teria ocorrido em novembro de 2023. “O desmate foi feito em 2022. O fogo entrou na fazenda em 2023 e deixou o desmate aparente. O que posso garantir é que o desmate foi feito dentro do prazo de validade”, ressaltou Cunha, que irá recorrer da autuação e embargo do Ibama. O produtor disse, ainda, que situações de incêndio são comuns na região e que o fogo em sua área foi acidental (leia a resposta na íntegra aqui).

Outros dois embargos do Ibama no mesmo município, também lavrados em novembro de 2025, foram registrados contra o produtor rural Sérgio Wilkon. Na ocasião, ele recebeu duas autuações porque teria desmatado um total de 363,3 hectares com uso de fogo, que geraram multas de R$ 728 mil. Os embargos seguem vigentes na lista pública do órgão ambiental.

Em junho de 2024, Wilkon contratou um empréstimo de R$ 2,6 milhões para a abertura de glebas rurais, com intermediação do Banco do Nordeste. O financiamento foi destinado para a mesma propriedade onde foram flagradas as infrações ambientais meses depois. O contrato teria vencimento previsto para junho de 2036. 

O empréstimo foi desclassificado em fevereiro deste ano, segundo a lista de desclassificações de contratos de crédito rural publicada pelo Banco Central. O motivo, no entanto, não se deveu a impedimentos socioambientais do contrato – uma das categorias disponíveis na listagem. 

Questionado por meio de sua advogada, o produtor não enviou posicionamento até a publicação da reportagem. 

Os empréstimos de Wilkon e Cunha contaram com recursos do FNE (Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste), administrado pela Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste). À Repórter Brasil, a Sudene informou que não havia identificado os casos até o questionamento da reportagem e que irá encaminhá-los ao Banco do Nordeste “para conhecimento e adoção, no âmbito de suas competências, das providências que considerar cabíveis”.

O Banco do Nordeste, por sua vez, não deu detalhes dos dois casos mencionados pela reportagem. A instituição financeira disse que “todas as suas operações de crédito rural são concedidas em estrita conformidade com a legislação e os normativos vigentes” e que “além da análise realizada na contratação, o acompanhamento das operações ocorre de forma contínua durante toda a vigência dos financiamentos” (leia a resposta na íntegra aqui). 

No dia 19 de agosto, sete dias após o primeiro contato da Repórter Brasil com a assessoria de imprensa da instituição, o Banco do Nordeste notificou formalmente Clésio Cunha sobre pendências ambientais na propriedade financiada, segundo informou o produtor à reportagem. Na ocasião, o banco deu um prazo de 30 dias para apresentação de justificativas. 

Segundo Cunha, o Banco do Nordeste já havia informado sobre a pendência em comunicação informal pelo Whatsapp e enviado notificação, sem conseguir encontrá-lo. Cunha disse ainda que, devido ao embargo, não está conseguindo renegociar a dívida do empréstimo, que poderá ter vencimento antecipado – o que significa quitar antecipadamente o empréstimo que havia sido contratado para pagamento parcelado.

Questionando novamente pela reportagem, o Banco do Nordeste confirmou que o empréstimo ainda está sob análise da instituição. “Ressaltamos que a operação poderá ser desclassificada após a conclusão da apuração dos fatos e finalização do tratamento da ocorrência”, disse o banco (leia manifestação na íntegra aqui).

Fogo em áreas financiadas da Amazônia

Outros casos identificados pela reportagem envolvem o Banco da Amazônia, também controlado pelo governo federal. Em Tarauacá, no Acre, a pecuarista Lucimar de Andrade Marques foi autuada pelo Ibama após uma queimada na propriedade Colônia Andrade, em abril de 2025. Uma área de 41,7 hectares foi embargada pelo órgão ambiental, que multou Marques em R$ 105 mil. 

Marques figura como beneficiária de um empréstimo rural de R$ 128 mil contratado com o Banco da Amazônia em novembro de 2024, cinco meses antes da autuação. O financiamento, obtido com recursos do FNO (Fundo Constitucional de Financiamento do Norte), é destinado ao custeio de atividade pecuária na propriedade onde ocorreu o embargo ambiental. 

Para fundamentar a multa, o Ibama argumentou que a omissão da autuada em implementar as ações de prevenção e combate a incêndios contribuiu para a queima de uma área já destinada a uso agropecuário e para a emissão de poluentes atmosféricos. 

O empréstimo teria vencimento previsto para novembro de 2026. No entanto, o contrato foi desclassificado em março deste ano, quase um ano após o embargo do Ibama. Assim como no caso do produtor Sérgio Wilkon, a desclassificação não ocorreu por impedimentos socioambientais relacionados ao contrato, segundo a lista de desclassificações publicada pelo Banco Central. A reportagem não localizou Marques para esclarecimentos.  

O caso dela não está contemplado no MCR (Manual de Crédito Rural), regulamento do Banco Central que lista impedimentos socioambientais para a concessão de empréstimos com recursos públicos. Isso porque a infração classificada pelo Ibama não foi desmatamento, mas a falha em prevenir o incêndio. “Essa é uma limitação do MCR atualmente, uma vez que essas áreas podem receber financiamento com recursos públicos”, ressalta Priscila Souza, do Climate Policy Initiative. 

Num outro caso, em Novo Progresso, no Pará, Wellington Oliveira Amorim contratou quatro empréstimos com o Banco da Amazônia entre 2020 e 2023. Em abril de 2025, durante a vigência de um dos contratos, ele recebeu duas autuações do Ibama na mesma área declarada para o financiamento.

Em uma das autuações, Amorim foi multado em R$ 40 mil porque teria destruído, sem autorização, de 7,4 hectares de vegetação nativa amazônica destinada a uso produtivo. Em outra, o órgão ambiental aplicou multa de R$ 1 milhão por considerar que ele deixou de adotar medidas obrigatórias de prevenção e combate a incêndios florestais. 

Nesta segunda infração, o Ibama classificou a conduta como dolosa, quando há a intenção de praticar o ato. As autuações geraram dois embargos de 7,4 e 32,7 hectares na propriedade. 

O contrato de financiamento para a atividade pecuária também contou com recursos do FNO e tinha data de encerramento prevista para outubro de 2025, sete meses após o embargo.  

A Repórter Brasil enviou, por e-mail, questionamentos para Wellington Amorim e a Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia), responsável pelo FNO, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem. 

O Banco da Amazônia informou que “não foram identificados impedimentos ambientais nas datas de contratação das operações mencionadas” e que “as ocorrências ambientais mencionadas na reportagem são posteriores à formalização das operações e, quando verificadas, são avaliadas à luz da regulamentação aplicável e das características específicas de cada caso”. 

Sobre o caso de Amorim, o banco informou que “a situação está sendo analisada tecnicamente, observando-se os elementos disponíveis, a legislação vigente e os normativos internos aplicáveis, para definição dos encaminhamentos eventualmente cabíveis” (leia a resposta na íntegra aqui).

Para especialista, normas precisam de ampliação 

Além do Manual de Crédito Rural não determinar a obrigação da instituição financeira em revisar periodicamente a lista de áreas embargadas divulgadas pelo Ibama, o documento tem outra limitação, na avaliação de Priscila Souza, do Climate Policy Initiative. 

Os embargos considerados pelo manual se restringem a casos em que havia o uso econômico da área desmatada ilegalmente. Situações em que há desmatamento com uso de fogo, por exemplo, se enquadram nas normas, já que a legislação ambiental compreende a queimada como um agravante para a prática do desmate. Outras situações, como embargos após autuações por queimadas irregulares ou não prevenção de incêndios, não estão contempladas pela normativa. Nesses casos, não há a classificação de desmatamento por parte do órgão ambiental. 

“Em algumas áreas, o fogo é o primeiro passo de um desmatamento”, salienta Souza. Para ela, o manual apresenta uma “limitação” e precisa seguir sendo ampliado. “O crédito rural recebe distintas formas de apoio público e recursos públicos precisam gerar retornos positivos para a sociedade. Dessa forma, embargos por queimadas devem ser incluídos nas normas de impedimentos do crédito rural”. 

Questionado, o Banco Central do Brasil informou que sua atuação em relação ao Crédito Rural “consiste em monitorar e supervisionar o cumprimento das normas editadas pelo Conselho Monetário Nacional” e que “cabe às instituições financeiras a análise, concessão, monitoramento, fiscalização e adoção das medidas previstas na regulamentação aplicável”. 

“No exercício de suas atribuições legais e regulamentares, o Banco Central pode solicitar às instituições financeiras informações e esclarecimentos necessários à avaliação da conformidade das operações e adotar medidas de monitoramento e de supervisão relacionadas aos processos e controles utilizados”, afirmou o órgão sem, contanto, informar se irá solicitar aos bancos informações sobre os caso (leia a resposta na íntegra aqui).

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Com megaoperação, Brasil acumula 70 mil resgatados da escravidão desde 1995

UMA MEGAOPERAÇÃO resgatou 479 pessoas de condições análogas às de escravo em 231 ações de fiscalização em todo o país. Dessas, 13 eram crianças e adolescentes, 75 mulheres, nove trabalhadoras domésticas e 68 migrantes oriundos da Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Venezuela, Burkina Faso, Senegal e Guiné-Bissau.

Com isso, o Brasil ultrapassou a marca de 70 mil pessoas resgatadas desde que o Estado brasileiro reconheceu diante das Nações Unidas a persistência de formas contemporâneas de escravidão em seu território e criou, em maio de 1995, o sistema de fiscalização para combatê-lo. A reportagem pediu à Inspeção do Trabalho do governo federal uma totalização de resgatados: são, neste momento, 70.271 (o número está em constante atualização porque há sempre uma operação em curso).

Entre as vítimas, duas trabalhadoras domésticas negras, de 90 e 65 anos, que permaneceram 75 e 58 anos, respectivamente, vinculadas a uma mesma família em Belo Horizonte. De acordo com a fiscalização, elas foram transferidas de uma geração para outra de empregadores (mais sobre elas abaixo).

A Operação Resgate 6, realizada entre 1 e 31 de agosto, foi um esforço concentrado de auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego, procuradores do Ministério Público do Trabalho e do Ministério Público Federal, agentes da Polícia Federal e defensores da Defensoria Pública da União.

Realizada anualmente, ela tem sido uma das maiores ferramentas de combate a esse crime, não pelo número de resgatados (em 2007, 1.064 foram libertados em uma só fiscalização em uma fazenda de cana e usina em Ulianópolis, no Pará), mas pela estrutura envolvida, quantidade de ações fiscais simultâneas e diversidade de atuação.

Vale ressaltar que operações de fiscalização guiadas por denúncias de trabalho escravo são realizadas semanalmente no Brasil desde maio de 1995. Quando constatam o crime, elas resgatam os trabalhadores e obrigam o pagamento dos valores atrasados, além de buscar indenizações e a condenação criminal dos envolvidos.

Nessa edição da Operacão Resgate, as ações no meio rural corresponderam a 57,5% do total e registraram 292 resgatados, enquanto as no meio urbano representaram 36,5%, com 178 resgatados. A região Sudeste concentrou o maior número de trabalhadores, com 267, dos quais 208 apenas em Minas Gerais.

No total, foram pagos mais de R$ 1,4 milhão em verbas trabalhistas e rescisórias. Cada vítima foi inscrita no seguro-desemprego especial para resgatados e receberá seis parcelas de um salário-mínimo cada.

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Doméstica de 90 anos permaneceu 75 anos com a mesma família

Os patrões das trabalhadoras domésticas tentaram convencer as autoridades de que as duas eram membros da família, mas a fiscalização apontou que elas, na verdade, prestavam serviços. Limpavam a casa, faziam as compras, preparavam as refeições, entre outras tarefas, não tendo descanso nem aos domingos, não contando com direitos trabalhistas e enfrentando restrições à vida social.

Além disso, ao contrário de outros membros da família, elas não tiveram as mesmas oportunidades de educação (não chegaram à quinta série do ensino fundamental) ou de construção de projetos de vida. Também não tiveram garantidos direitos patrimoniais e sucessórios.

Após o resgate, ambas foram encaminhadas para acolhimento em uma instituição governamental de assistência a mulheres vítimas de violência e passaram a ser acompanhadas por uma rede de proteção.

Como evidência do vínculo estabelecido, ainda se referem à antiga empregadora como “a patroa”. Segundo a fiscalização, uma das vítimas demonstrava, inclusive, insistência em realizar tarefas domésticas no local de acolhimento, como lavar louças e ajudar na limpeza.

Trabalhadoras domésticas negras, de 90 e 65 anos, que permaneceram 75 e 58 anos, respectivamente, vinculadas a uma mesma família em Belo Horizonte (Foto: AFT)
Trabalhadoras domésticas negras, de 90 e 65 anos, que permaneceram 75 e 58 anos, respectivamente, vinculadas a uma mesma família em Belo Horizonte (Foto: AFT)

Café, batata, cebola

Ainda em Minas Gerais, três ações com resgates ocorreram na colheita manual do café. A primeira, em Santa Rosa da Serra (MG), retirou oito trabalhadores migrantes oriundos do interior do Estado da Bahia. No segundo caso, em Turvolândia (MG), foram resgatados dois migrantes de Campo Formoso (BA) e Florianópolis (SC) que exerciam atividades na colheita sem registro formal e em condições degradantes de trabalho.

Na terceira ação, mais nove trabalhadores submetidos a condições análogas às de escravo em uma propriedade produtora de café localizada na zona rural de Campos Altos (MG), recrutados na região de Bonito (BA).

Entre as irregularidades: ausência de água potável nas frentes de trabalho, inexistência de instalações sanitárias, falta de local adequado para refeições e descanso, ausência de equipamentos de proteção individual, falta de camas, utilização da cozinha como dormitório, condições inadequadas de higiene e instalações elétricas precárias.

Em Estrela do Sul (MG), foram resgatados 44 trabalhadores que atuavam no cultivo de batata, dos quais 21 brasileiros vindos do Nordeste, 17 senegaleses, cinco de Burkina Faso e um de Guiné-Bissau.

De acordo com a fiscalização, a situação atingia de maneira grave três mulheres que integravam o grupo, pois, sem instalações que lhes assegurassem privacidade e condições mínimas de higiene, elas recorriam a embalagens vazias utilizadas na atividade agrícola para tentar esconder o corpo enquanto urinavam ou defecavam no campo.

Já em Matias Cardoso, foram flagrados dois empregadores explorando trabalhadores na colheita de mudas de batata para plantio, envolvendo 38 vítimas. Um empregador foi flagrado escravizando 36 vítimas, sendo 20 delas mulheres e cinco adolescentes. Um outro empregador escravizava dois adolescentes na colheita das mudas. De acordo com os auditores fiscais, no início da ação, houve tentativa de fuga das vítimas por orientação dos encarregados da atividade.

E, em uma ação em Araxá (MG), foram resgatados 47 no cultivo da cebola. Durante a fiscalização, foram constatadas graves irregularidades relacionadas à saúde, à segurança e à dignidade das vítimas. Entre os resgatados, quatro adolescentes, incluindo uma trabalhadora de 15 anos. A equipe identificou ainda que a maioria realizava as atividades descalça e sem qualquer proteção em área em que houve aplicação de agrotóxicos.

Um ano e meio sem receber salário

Em Roraima, as operações resgataram seis trabalhadores de condições análogas às de escravo em Boa Vista. Em um sítio em Bom Intento, um trabalhador estava há um ano e meio sem registro e sem recebimento de salário e trabalhava na construção de cercas, na estrutura e criação de aves e porcos.

Em uma carvoaria no Distrito Industrial, cinco venezuelanos trabalhavam na produção de carvão e residiam no próprio local de trabalho em estruturas improvisadas e estavam expostos a todo tipo de poeira e sujidade.

“A vulnerabilidade dos trabalhadores foi decisiva para que fossem reduzidos à condição análoga à escravidão sob o falso pretexto de ajuda humanitária. Os proprietários das terras se aproveitaram dessa fragilidade para negar direitos básicos”, afirma o coordenador dessa operação, o auditor fiscal do trabalho Maurício Krepsky.

Os locais usados como alojamento estavam em condições precárias, com superlotação, calor excessivo, ausência de privacidade, deficiência de instalações sanitárias, instalações elétricas improvisadas e ausência de local para refeições.

A fiscalização identificou, ainda, dois adolescentes, de 15 e 16 anos, em situação de trabalho infantil no cultivo de maracujá em uma fazenda em Bonfim (RR).

Tarifaço de Trump

O governo Trump aplicou uma tarifa de 12,5% sobre produtos de dezenas de países (Brasil, China, Índia, mas também aliados fiéis como Argentina, Israel e Japão) sob o pretexto de que esses países seriam incapazes de barrar mercadorias feitas com trabalho forçado. Outros seis, como Canadá, México e União Europeia, levaram 10%. Isso vem depois do tarifaço de 25% contra o Brasil, motivado por outras razões (Pix, Big Techs, busca de privilégios a setores dos EUA, eleições brasileiras).

Ironicamente, o modelo brasileiro de enfrentamento a esse crime, que atua, inclusive, para punir de forma cirúrgica empregadores em cadeias produtivas, é visto como mais eficiente até do que as políticas implementadas pelo governo dos EUA. A Casa Branca, aliás, reconhecia os esforços do Brasil nessa área e vinha apoiando o nosso sistema de combate à escravidão. Até o retorno de Trump ao poder.

Os Estados Unidos são o país com maior número de pessoas escravizadas no continente americano, com quase 1,1 milhão de pessoas nessas condições, de acordo com o Global Slavery Index (GSI), calculado pela Walk Free, em parceria com a OIT. Não só isso, como lideram o mundo em termos de importações de produtos em risco de terem sido feitos com trabalho escravo, batendo quase 170 bilhões de dólares.

Trabalho escravo no Brasil

A Lei Áurea aboliu a escravidão formal em maio de 1888, o que significou que o Estado brasileiro não mais reconhece que alguém seja dono de outra pessoa. Persistiram, contudo, situações que transformam pessoas em instrumentos descartáveis de trabalho, negando a elas sua liberdade e dignidade.

Desde a década de 1940, a legislação brasileira prevê a punição para esse crime. A essas formas dá-se o nome de trabalho escravo contemporâneo, escravidão contemporânea, condições análogas às de escravo.

De acordo com o artigo 149 do Código Penal, quatro elementos podem definir escravidão contemporânea: trabalho forçado (que envolve cerceamento do direito de ir e vir), servidão por dívida (um cativeiro atrelado a dívidas, muitas vezes fraudulentas), condições degradantes (trabalho que nega a dignidade humana, colocando em risco a saúde e a vida) ou jornada exaustiva (levar o trabalhador ao completo esgotamento, dada a intensidade da exploração, também colocando em risco sua saúde e vida).

Mais de 70 mil trabalhadores resgatados estavam em fazendas de gado, soja, algodão, café, frutas, erva-mate, batatas, cebola, sisal, na derrubada de mata nativa, na produção de carvão para a siderurgia, na extração de caulim e de minérios, na construção civil, em oficinas de costura, em bordéis, entre outras atividades, como o trabalho doméstico.

No total, a pecuária bovina é a principal atividade econômica flagrada desde 1995. Denúncias podem ser feitas de forma anônima pela Plataforma Ipê ou pelo Disque 100.

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Manifestações enviadas sobre cerco minerário à Terra Indígena Aldeia Velha

Leia a reportagem completa

FUNAI

Não respondeu.

INEMA

Tendo em vista que os processos se encontram em perímetro de Terra Indígena (TI), recomendamos que busque informações junto ao Ibama – órgão responsável por essas tratativas.

IBAMA

O procedimento de concessão de direitos minerários é de competência da Agência Nacional de Mineração (ANM). O Ibama atua nos casos de atividade minerária irregular e no âmbito do licenciamento ambiental necessário para o início da fase de operação (lavra). 

Portanto, sugerimos que os questionamentos sobre o tema sejam encaminhados à assessoria de comunicação da ANM.

PREFEITURA DE PORTO SEGURO

Sem resposta até o momento. Pedido enviado em 26 de agosto.

ANM

Boa tarde,

De acordo com as informações georreferenciadas constantes na base de dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), não há sobreposições de processos minerários com a Terra Indígena Aldeia Velha, localizada no município de Porto Seguro (BA), conforme demonstrado na imagem abaixo:

A legislação vigente não veda a outorga de títulos minerários em áreas contíguas a terras indígenas. Da mesma forma, não há impedimento legal para a outorga de títulos minerários a empresas que possuam débitos junto à ANM, uma vez que tais débitos podem se encontrar em diferentes situações administrativas, como parcelamento, fase recursal ou fase de autuação (anterior à aplicação de multa), entre outras hipóteses previstas na legislação.

DPU

1-A homologação da TI Aldeia Velha está valendo?

O Decreto nº 12.000/2024 havia homologado a demarcação da Terra Indígena Aldeia Velha. Entretanto, em  relação à empresa Cosvar Agropecuária Ltda. (Fazenda Santo Amaro), uma decisão monocrática de retratação proferida pelo Ministro André Mendonça, em 12/11/2025, concedeu a segurança para anular, em relação à impetrante (Cosvar), os efeitos do Decreto nº 12.000/2024 e determinou a reabertura do processo demarcatório prévio referente a essa área.

Essa decisão do Ministro André Mendonça não transitou em julgado e é objeto de Agravos Internos/Regimentais interpostos pela União/AGU e pela Procuradoria-Geral da República (PGR), os quais aguardam julgamento pelo Plenário do STF.

2-Existe anular uma homologação só em relação a um caso de conflito possessório? A decisão do ministro alcança toda a TI Aldeia Velha ou apenas a área da Cosvar?

A anulação efetuada na decisão do Ministro André Mendonça aplica-se especificamente e exclusivamente à impetrante (Cosvar Agropecuária Ltda.) e ao polígono que abrange o seu título de propriedade (a “Fazenda Santo Amaro”).

O mandado de segurança foi impetrado pela empresa contra o ato lesivo individualmente apontado à sua propriedade.

Na decisão de 25 de junho de 2026, o Ministro André Mendonça tratou da preservação do quadro fático e determinou que, até o julgamento dos agravos, tanto a Cosvar quanto o povo indígena Pataxó devem permanecer ocupando as áreas que atualmente estão sob sua posse, sendo vedada qualquer expansão ou modificação.

3-O processo demarcatório foi anulado ou reaberto?

A decisão de 12/11/2025 determinou a reabertura do processo demarcatório prévio relativo à área da impetrante, devendo este ser conduzido em observância ao decidido pelo STF no Tema 1.031 da Repercussão Geral (especialmente o item V da tese, que trata da justa e prévia indenização ao particular possuidor de justo título/propriedade registrada antes de 1988).

Contudo, os recursos contra essa reabertura/anulação parcial ainda pendem de julgamento definitivo pelo STF.

4-Como está, exatamente, a situação atual?

A ordem proferida pela Vara Federal de Eunápolis/BA no Cumprimento Provisório de Sentença nº 1001270-30.2026.4.01.3310 (que havia concedido prazo de 60 dias para desocupação voluntária da Fazenda Santo Amaro pela comunidade indígena) foi liminarmente suspensa pelo Ministro André Mendonça em 25 de junho de 2026.

Portanto, não há ordem de despejo/reintegração de posse em execução contra os indígenas no momento.

O STF determinou a preservação da situação fática existente: os Pataxó e a empresa devem permanecer nas porções do imóvel que já ocupavam, até deliberação posterior da Corte.

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Marco temporal, despejo e mineração ameaçam território Pataxó no litoral da Bahia

ALVOS de uma ordem de despejo que pode tirar mais da metade de suas terras, os Pataxó da Terra Indígena (TI) Aldeia Velha, no sul da Bahia, enfrentam uma nova pressão sobre o território: o avanço de projetos de mineração, inclusive de terras raras.

A área está cercada por ao menos 34 requerimentos minerários em um raio de 8 km — distância em que a legislação considera a possibilidade de haver impactos sobre áreas indígenas. Metade dos pedidos foi protocolada nos últimos dez anos, segundo dados da ANM (Agência Nacional de Mineração) analisados pela Repórter Brasil.

Para lideranças indígenas, a corrida minerária acirra uma disputa de mais de 40 anos entre a comunidade e uma empresa agrícola pela posse da área. “Não era só a especulação imobiliária. É a mineração”, afirma a vice-cacica Ahnã Pataxó.

Com 2 mil hectares e aproximadamente 2 mil moradores, a TI Aldeia Velha foi homologada pelo presidente Lula em 2024, mas é alvo de uma ação de reintegração de posse desde 2006, movida pela Cosvar Agropecuária. A empresa reivindica 1.275 hectares da área — quase dois terços da TI. 

Conhecida como Fazenda Santo Amaro —em referência a um histórico aldeamento indígena no local —, a área foi adquirida pelos fazendeiros em 1983, e registrada dois anos depois em um cartório de Porto Seguro (BA).

Contudo, em 1998 os Pataxó retomaram a área, alegando que o local seria de uso tradicional do povo indígena. No mesmo ano teve início o processo de demarcação.  Os estudos da Funai, aprovados em 2008, registram a ocupação indígena no local desde o século 16, quando ali  existia o aldeamento de Santo Amaro. 

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O documento afirma que famílias Pataxó de várias regiões do litoral sul da Bahia mantiveram vínculos permanentes com a área, utilizada para moradia, agricultura, pesca, caça e coleta. Algumas viveram ali por décadas, enquanto outras frequentavam o território de maneira temporária. 

A permanência é sustentada, de acordo com a Funai, por documentos, memória oral e vestígios arqueológicos, como antigos locais de moradia, pomares, sambaquis e fornos usados para produzir farinha.

Segundo a Funai, a partir das décadas de 1960 e 1970, com a chegada de fazendeiros, muitos Pataxó foram expulsos. Em 1983, quando a Cosvar assumiu a Santo Amaro, havia cerca de 13 famílias indígenas no local. Segundo a Funai, os Pataxó passaram a sofrer ameaças, restrições ao uso da terra e outras formas de pressão para deixarem o local.

A maioria das famílias se dispersou pela região, com exceção de uma, a de Dona Dió. O núcleo serviu de base para a organização dos chamados “Pataxó sem terra”. Em 1993, eles fizeram uma primeira tentativa frustrada de retomada da terra. Cinco anos depois, cerca de 40 famílias Pataxó ocuparam a área e fixaram residência.

Após a homologação da TI em 2024, a Cosvar recorreu ao STF (Supremo Tribunal Federal) com um mandado de segurança. Relator do caso, o ministro André Mendonça acolheu o pedido da empresa, anulou o decreto de Lula e pediu a reabertura do processo demarcatório. 

Indígenas participam de uma das reuniões da câmara de conciliação do STF sobre o marco temporal, coordenada pelo ministro Gilmar Mendes, que foi encerrada em julho de 2025 sem acordo (Foto: Gustavo Moreno/STF)
Lideranças indígenas participam de uma das reuniões da câmara de conciliação do STF sobre o marco temporal, coordenada pelo ministro Gilmar Mendes, que foi encerrada em julho de 2025 sem acordo (Foto: Gustavo Moreno/STF)

Mendonça entendeu que, como a Cosvar não havia sido indenizada antes da demarcação, a homologação violaria o direito de propriedade. Na decisão, o ministro ignora a presença histórica dos indígenas na área, apontada pela Funai, e destaca que a “ocupação indígena” ocorreu “apenas após a promulgação da Constituição”.

Os argumentos de Mendonça fazem referência ao “marco temporal”, tese jurídica segundo a qual os indígenas só teriam direito às terras que ocupavam ou disputavam em outubro de 1988, data de promulgação da Constituição. A regra é criticada por lideranças indígenas e organizações da sociedade civil por ignorar expulsões e outras violências sofridas pelas comunidades.

Embora tenha considerado o marco temporal inconstitucional em duas ocasiões, o STF admitiu a possibilidade de indenização pela terra nua a proprietários de boa-fé em algumas situações. O assunto é analisado no julgamento do Tema de repercussão geral 1.031, que ainda não foi finalizado. Foi com base neste processo que Mendonça anulou a homologação da TI Aldeia Velha.

A decisão de Mendonça não é definitiva. Ela foi questionada pela Advocacia Geral da União e pela Procuradoria-Geral da República, e os recursos aguardam julgamento do Supremo.

Mesmo sem o encerramento do caso, a 1ª Vara Federal de Eunápolis autorizou o despejo. Em julho, no entanto, o ministro Mendonça suspendeu temporariamente a reintegração de posse, até que os recursos sejam julgados.

Para a Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), o processo no STF cria um precedente perigoso. “Fazendeiros estão usando o mandado de segurança como instrumento político, para barrar a efetivação dos direitos indígenas. Trata-se de uma ameaça gravíssima, porque homologações presidenciais e processos demarcatórios não podem ser suspensos ou relativizados a favor de disputas pela posse individual da terra”, diz a organização.

A Repórter Brasil procurou a Cosvar Agropecuária por e-mail, telefone e mensagem de aplicativo, mas não obteve retorno até a publicação do texto.

Assinaura da TI Aldeia Velha pelo presidente Lula ocorreu em abril de 2025, durante a 1ª reunião do Conselho Nacional de Políticas Indigenistas (CNPI), ao lado da ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, e do então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski (Foto: Divulgação/Ricardo Stuckert/PR)
Assinaura da TI Aldeia Velha pelo presidente Lula ocorreu em abril de 2024, durante a 1ª reunião do Conselho Nacional de Políticas Indigenistas (CNPI), ao lado da ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, e do então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski (Foto: Divulgação/Ricardo Stuckert/PR)

Pataxó apontam cerco minerário no entorno da Aldeia Velha

Ao se mobilizarem contra o despejo, os Pataxó da TI Aldeia Velha descobriram estar pressionados também pela mineração. 

A Repórter Brasil teve acesso a uma representação que as lideranças preparam para entregar ao MPF (Ministério Público Federal) e a outros órgãos públicos, na qual identificam dezenas de processos minerários no entorno da terra indígena. 

No documento, os Pataxó dizem que o processo de reintegração de posse “dissimula operação de cercamento territorial”, a fim de “remover a comunidade indígena para beneficiar exploração de recursos minerais”. Se as extrações minerárias se efetivarem, argumentam, ficarão em uma “bolha isolada”, confinados por um anel de mineração. 

“Quando chegou essa sentença [de despejo], começamos a querer entender o porquê de a gente incomodar tanto”, relata Ahnã Pataxó, vice-cacica da TI Aldeia Velha. “A gente começou a pesquisar e viu que a mineração está aqui. E a gente ainda disperso no território. Precisou vir isso aí para que a gente percebesse realmente a intenção de nos tirar daqui”, afirma.

A Repórter Brasil questionou a Cosvar Agropecuária se a ação de reintegração de posse teria alguma relação com as requisições minerárias, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.

Mapa da TI Aldeia Velha mostra os processos minerário no entorno da TI Aldeia Velha (Mapa:  Pedro Stropasolas e Rodrigo Bento/Repórter Brasil)
Mapa da TI Aldeia Velha mostra os processos minerário no entorno da TI Aldeia Velha (Mapa: Pedro Stropasolas e Rodrigo Bento/Repórter Brasil)

Análise de processos minerários aponta falta de consulta à comunidade indígena 

A reportagem cruzou dados do Sigmine (Sistema de Informações Geográficas da Mineração) da ANM e identificou 34 requisições minerárias a menos de 8 km da TI Aldeia Velha.

O entorno de uma Terra Indígena não é uma área de preservação integral nem de uso proibido, mas tem restrições de uso, de acordo com os atos normativos vigentes da Funai.

A Portaria Interministerial 60/2015 considera a possibilidade de impactos ambientais quando atividades de mineração ocorrem a menos de 8 km de terras indígenas fora da Amazônia. Os impactos só são descartados a partir de estudos feitos durante o processo de licenciamento ambiental. 

Já a Instrução Normativa 2/2015 prevê que o órgão licenciador estadual comunique a Funai quando empreendimentos possam “ocasionar impacto socioambiental direto”.

Além disso, a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), ratificada pelo Brasil em 2004, determina a consulta a comunidades tradicionais afetadas por empreendimentos econômicos.

Das 34 requisições minerárias no entorno da TI Aldeia Velha, apenas uma está em fase de operação, para exploração de água mineral. Outras 11 estão em fase de licenciamento ou com direito de requerer a lavra (todas para exploração de areia ou argila). As 22 restantes já têm autorização de pesquisa pela ANM, incluindo três de terras raras.

Somadas, as áreas cobiçadas pela mineração chegam a 8,6 mil hectares, cerca de quatro vezes o tamanho do território indígena. À Repórter Brasil, a comunidade afirma que só soube agora das requisições minerárias na região e que jamais foi consultada sobre quaisquer destes empreendimentos.

“A comunidade indígena de Aldeia Velha nunca teve oportunidade de ser ouvida. A falta de respeito é muito grande e atropela os direitos dos povos originários”, frisa Ahnã Pataxó. 

Os órgãos estatais confirmaram que não houve qualquer consulta aos Pataxó de Aldeia Velha. Questionado, o Inema, órgão ambiental da Bahia, recomendou que a pergunta fosse feita ao Ibama. O Ibama disse que a competência é da ANM. 

A ANM, por sua vez, informou que “a legislação vigente não veda a outorga de títulos minerários em áreas contíguas a terras indígenas”. Leia as manifestações na íntegra.

Procurada pela reportagem, a Funai recebeu seis e-mails e se comprometeu a responder, mas não o fez até o fechamento deste texto. 

Ricardo Terena, do setor jurídico da Apib, destaca que “o critério da obrigatoriedade de consulta é o de impacto na comunidade, direto ou indireto”, e acrescenta que na Convenção 169 da OIT “nem se fala de perímetro”. 

Ele destaca também que “a consulta tem que ser prévia”, o que não aconteceu nestes casos. “Se há requisições minerárias ao redor da TI, já são procedimentos em andamento. A primeira coisa que deveria ser feita, a partir do surgimento destes requerimentos, é a consulta à comunidade”.

Uma das preocupações dos Pataxó é em relação à possível contaminação de rios pela exploração de terras raras — conjunto de 17 elementos químicos essenciais à transição energética e às indústrias bélica e de tecnologia.

Os três requerimentos na área de influência da TI ocupam 2,1 mil hectares, estando a aproximadamente 500 metros do território e em cima do Rio Buranhém, um dos mais importantes da região. “É nossa fonte de vida”, resume dona Jaçanã Pataxó, pajé da Aldeia Velha. 

“Os brancos querem tomar as terras indígenas. Os brancos são ricos, não precisam. Será que o coração deles não dói? Acho que deve doer. Porque nesta aldeia os indígenas se criaram, é nosso lugarzinho. Como é que vamos viver?”, questiona dona Jaçanã. 

“Realmente o céu vai desabar. As pessoas querem cavar a terra para tirar todas as riquezas do solo, destruir história, memória, sustento de um povo sem sequer perguntar”, critica a vice-cacica Ahnã Pataxó, citando os livros “Como adiar o fim do mundo” (Ailton Krenak) e “A queda do céu” (Davi Kopenawa). “Que a população não deixe a responsabilidade para nós e se levante também”, finaliza. 

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Banks cut agricultural subsidies over deforestation and slave labor cases

AT LEAST 101 agribusiness financing operations lost access to subsidies in 2026 after the financial institutions responsible for releasing the funds identified socio-environmental liabilities in the financed projects, according to data from Brazil’s Central Bank.

As reported by Repórter Brasil, illegal deforestation and the use of conditions analogous to slavery are among the practices for which beneficiaries were held accountable in inspections carried out by Brazil’s federal environmental agency and the Ministry of Labor and Employment. Under Brazilian law, “conditions analogous to slavery” is a legal classification covering forced labor, exhausting working hours, degrading working or living conditions, and debt bondage or other restrictions on workers’ freedom of movement. 

As a result, approximately R$50 million (approximately USD 9.7 million) obtained by farmers and companies through these contracts will no longer benefit from advantages such as easier access to public funds, tax incentives, and lower interest rates.

Data on the so-called “disclassified” operations – the technical term used for financing agreements that no longer comply with rural credit regulations and therefore lose access to federal incentive policies – are now available on the Central Bank’s website. The disclosure follows a request made by Repórter Brasil to the Central Bank in May 2025 through Brazil’s Access to Information Law.

At the time, the institution said it did not have segmented data on disqualifications motivated by socio-environmental restrictions. Private and state-owned banks that provide rural credit are responsible for monitoring environmental and labor practices on the financed farms, as well as categorizing cases of disqualification according to the reasons defined by the Central Bank.

“Given the relevance of the issue, we will review the list of reasons in due course in order to specify these occurrences,” the Central Bank said at the time. Contacted again, the institution said that a category covering these cases was effectively created in August last year.

Since January 2025, Central Bank rules have required rural credit contracts to include the possibility of disqualification of financing if, during the term of the agreement, breaches of environmental and labor obligations are identified on the rural property.

Among these breaches is the imposition of environmental embargoes on properties – an administrative sanction that suspends productive activities in areas where Brazil’s federal environmental agency has identified irregularities such as illegal deforestation.

The rules also prohibit the continuation of credit for employers included in the Dirty List, the federal government’s official registry of individuals and companies held administratively responsible for subjecting workers to conditions analogous to slavery.

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TST atende AGU e devolve caso de escravizada em residência de juiz à Lista Suja

O PRESIDENTE DO TST (Tribunal Superior do Trabalho), ministro Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, devolveu à Lista Suja do trabalho escravo o caso do resgate da trabalhadora doméstica Sônia Maria de Jesus de condições análogas às de escravo na residência do desembargador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina Jorge Luiz de Borba, em Florianópolis.

A decisão, assinada nesta quinta (3), atende a um pedido da Advocacia-Geral da União. Ela suspende acórdão da 4ª Câmara do Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região, em Santa Catarina, que havia anulado o processo administrativo e determinando, em julho, a retirada do nome da autuada do cadastro de empregadores responsabilizado por esse crime. A lista é atualizada desde 2003 pelo governo federal.

A medida vale até o trânsito em julgado do processo, quando não houver mais possibilidade de recurso. O ministro ressaltou que a decisão não antecipa o julgamento definitivo da controvérsia, mas mantém os efeitos da autuação que reconheceu as irregularidades enquanto o caso continua em discussão. O processo está sob Segredo de Justiça para preservar informações médicas e familiares da trabalhadora.

Segundo a decisão do TST, Sônia, uma mulher negra com surdez bilateral profunda, permaneceu por quase quatro décadas submetida a trabalho escravo na residência da família do desembargador e de Ana Cristina Gayotto de Borba, esposa do magistrado, apontada como empregadora da trabalhadora.

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Os autos de infração apontam que ela vivia em um cômodo externo, úmido e com infiltrações, e realizava continuamente tarefas de limpeza, cuidados pessoais e vestuário para a família. Nesse período, não teria recebido salário, férias, 13º salário nem descanso semanal remunerado.

A trabalhadora também teria sido mantida afastada do convívio social e da família biológica sob a alegação de que havia sido acolhida e tratada como integrante do núcleo familiar. O Grupo Especial de Fiscalização Móvel, composto pela Inspeção do Trabalho, pelo Ministério Público do Trabalho, pelo Ministério Público Federal, pela Defensoria Pública da União e pela Polícia Federal, contudo, defendeu que essa justificativa não correspondia à realidade.

De acordo com os órgãos responsáveis pela apuração, a situação de vulnerabilidade da mulher foi explorada durante décadas. E corroboraria que ela não é da família o fato de não ter tido acesso à educação, sido alfabetizada em português e tampouco aprendido Libras, a Língua Brasileira de Sinais.

O TRT-12 havia anulado o processo administrativo por entender que a decisão que confirmou a autuação deveria ter sido comunicada à advogada constituída, e não diretamente à empregadora. Para Vieira de Mello Filho, entretanto, o procedimento de fiscalização trabalhista segue regra própria, prevista em portaria do Ministério do Trabalho e Emprego, que determina a intimação pessoal do autuado.

Na decisão, o presidente do TST afirmou ainda que a defesa técnica foi apresentada, processada e analisada pela autoridade administrativa. Como não foi demonstrado prejuízo concreto ao exercício do contraditório, a falha apontada pelo tribunal regional não seria suficiente, nesse momento, para anular todo o processo.

Na avaliação do ministro, a retirada do nome da autuada da Lista Suja provoca grave lesão às ordens social, administrativa e jurídica. Também enfraquece a fiscalização do trabalho escravo doméstico, que já enfrenta dificuldades para entrar nas residências e produzir provas.

“A retirada do nome da autuada do Cadastro de Empregadores representa retrocesso na tutela estatal da dignidade humana e enfraquece a rede de proteção social”, escreveu Vieira de Mello Filho na decisão.

Ele também destacou que o cadastro constitui uma ferramenta de transparência e garante à sociedade acesso a informações sobre graves violações de direitos humanos.

A Lista Suja, considerada pelas Nações Unidas um dos mais efetivos instrumentos de combate ao trabalho escravo em todo o mundo, é atualizada semestralmente pelo governo federal desde 2003. O nome é inserido quando o processo administrativo é concluído, ou seja, se não há mais recurso possível. Empresas nacionais e estrangeiras, bancos e financeiras usam o cadastro para gerenciamento de risco.

Doméstica foi ‘devolvida’ à casa dos patrões com anuência do STJ e do STF

Durante a operação, a fiscalização constatou que Sônia, então com 50 anos, trabalhava para a família desde os nove, quando foi levada de uma creche na Grande São Paulo pela mãe de Ana Cristina, Maria Leonor Gayotto. Ela trabalhava na residência dos Borba, cuidando da família e exercendo tarefas domésticas. Além de não ter carteira de trabalho, salário, descanso semanal remunerado, férias, 13º e outros direitos, ela havia passado a maior parte da vida sem documento de identidade, que obteve apenas em 2019, de acordo com a fiscalização.

O desembargador e sua esposa foram denunciados pela Procuradoria-Geral da República pelo crime de submissão de alguém à condição análoga à de escravo, previsto no artigo 149 do Código Penal.

Diante da repercussão do caso, eles e os quatro filhos do casal assinaram uma nota à imprensa anunciando que iriam ingressar na Justiça com um pedido de filiação afetiva, o que garantiria direitos de herança. Também afirmaram que jamais tolerariam trabalho escravo, “ainda mais contra quem sempre trataram como membro da família”, e que estavam colaborando com as autoridades.

Três meses após o resgate, com o aval do ministro Mauro Campbell, do Superior Tribunal de Justiça, o desembargador e sua esposa visitaram Sônia no abrigo e a levaram de volta para a residência deles, em 6 de setembro de 2023, sob a justificativa de que ela demonstrou “vontade clara e inequívoca” de voltar. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, negou um habeas corpus impetrado pela Defensoria Pública da União contra a decisão do STJ.

O subprocurador-geral da República Carlos Frederico Santos, que cuida do caso no Ministério Público Federal, concordou com o pedido da DPU para que o STF considerasse ilegal a decisão judicial que permitiu o retorno da trabalhadora. Em seu parecer, afirmou que há laudos técnicos que atestam a vulnerabilidade da mulher e a impossibilidade de ela manifestar sua vontade de forma livre e inequívoca.

“As circunstâncias são tão complexas que não soa exagero se comparar a situação àquela pela qual passam as vítimas da ‘Síndrome de Estocolmo’, estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade perante o seu agressor”, escreveu.

Carlos Frederico chama de “teratológica” a ordem que permitiu a retomada do convívio entre os investigados e a vítima. E diz que “o retorno da vítima à casa dos denunciados compromete não apenas seu processo de aprendizado em Libras, como interrompe a construção de sua autonomia e de desvinculação afetiva (dependência) em relação aos seus antigos patrões”.

Organizações e sindicatos pediram à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão ligado à Organização dos Estados Americanos (OEA), em outubro de 2023, que o Brasil fosse questionado sobre o caso.

Após visita ao Brasil, o relator da ONU para formas contemporâneas de escravidão Tomoya Obokata afirmou estar “alarmado” com o fato de o Poder Judiciário brasileiro ter autorizado o retorno da trabalhadora doméstica Sônia Maria de Jesus à casa do empregador, “apesar de informações confiáveis que denunciam exploração e abuso”.

Desembargador disse que doméstica era sua filha afetiva

Após o resgate, Jorge Luiz de Borba afirmou que Sônia é sua filha afetiva, prometendo adotá-la. Contudo, uma postagem no Instagram de sua esposa mostra a trabalhadora relacionada em uma lista de “funcionárias” do casal. Ela também não aparece entre as pessoas que Ana Gayotto mencionou em uma postagem de 23 de setembro para celebrar o Dia dos Filhos. Tampouco aparece em outra imagem, de 2019, em que Ana comemora a “família toda reunida”.

Questionada pela coluna sobre as postagens no Instagram, na época da publicação da reportagem sobre o resgate, a família Borba afirmou, por meio de sua assessoria, que “em respeito às decisões da Justiça, não haverá manifestação enquanto perdurar o sigilo”.

Ana Cristina Gayotto de Borba foi incluída, em abril do ano passado, na Lista Suja do trabalho escravo do governo federal. Em julho, foi removida por ordem do tribunal. E, agora, o TST ordena que ela retorne ao cadastro.

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