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Tortas na cara

Como não pensaram nisso antes? De tanto assistir às antigas comédias-pastelão de O Gordo e O Magro, em que multidões levam na cara tortas de creme atiradas pela dupla ou por uns contra os outros, demorou, mas alguém viu nelas um objeto ideal de protesto, uma forma de desmoralizar um inimigo sem precisar alvejá-lo com balas de verdade. A inspiração veio da obra-prima de Laurel & Hardy, o curta "The Battle of the Century", produzido por Hal Roach em 1927 ?mais de 3.000 tortas atiradas em apenas 3min40 de filme, disponível no YouTube. Leia mais (09/19/2026 - 08h00)

Eu e o comunismo


Meus leitores bolsonaristas ?a quem agradeço pela fidelidade com que não perdem o que escrevo neste espaço-- costumam me honrar com a pecha de comunista. Não que me envaideça dessa classificação, porque, para eles, se uma tartaruga morder o dedão do pé de Jair Bolsonaro no quintal de sua luxuosa prisão domiciliar, será uma tartaruga comunista. Como deve haver tartarugas de todas as cores políticas, não posso falar por ela, mas, no meu caso, lamento decepcioná-los. Não sou nem nunca fui comunista. Sou Flamengo, o que me satisfaz com sobras em matéria de fé ideológica, partidária e religiosa. Leia mais (09/17/2026 - 08h00)

O berço dos Bolsonaros

Sempre que ouço falar do Rio como berço político da família Bolsonaro, olho em torno em busca de vestígios da passagem deles por aqui. Pfftt. O patriarca Jair Bolsonaro, por exemplo, nasceu em Glicério (SP). Só saiu de lá aos 19 anos, em 1974, para estudar e morar na Academia Militar das Agulhas Negras, onde se formou, casou e teve os filhos Flávio, Eduardo e Carlos. A Aman fica em Resende (RJ), divisa de MG e SP, a 162 km do Rio. Expulso do Exército em 1989, mudou-se para Bento Ribeiro, zona norte do Rio, e se tornou vereador. Em 1991, elegeu-se para a Câmara e foi para Brasília. Leia mais (09/16/2026 - 08h00)

Babando na gravata

Fotos de Donald Trump o mostram com hematomas nas mãos, pernas inchadas e dificuldade de ficar acordado em cerimônias. Alguns veem nisso sinais de decrepitude. A Casa Branca desmente. Segundo ela, as manchas são provocadas pelos apertos de mão que Trump tem de cumprir -mas, como elas aparecem também em sua mão esquerda, será porque, às vezes, ele cumprimenta canhotos? As pernas inchadas se deveriam às horas que passa sentado com outros líderes -mas estes cumprem a mesma rotina em seus países e não aparentam o problema. Quanto a cochilar nas cerimônias, por que não se Trump mal escuta o que dizem nelas? Leia mais (09/13/2026 - 08h00)

Múltiplo Ismael

Se as exposições permitissem que, ao se admirar um quadro, se pudesse ver também através dele e enxergar o artista, poucas seriam tão surpreendentes quanto "Ismael Nery: Armadilha Moderna", em cartaz na Pinacoteca do Estado de São Paulo. É um dos casos agudos em que não se sabe quem é mais fascinante, se a obra ou o autor. O fascínio em Ismael Nery (1900-1934) é a dificuldade de defini-lo, por suas muitas e inesperadas aptidões. Ele era especial em todas. Leia mais (09/12/2026 - 08h00)

Os pterodátilos contra-atacam

Tive o prazer de saber por José Eduardo Agualusa de um bem-vindo contra-ataque do analógico a certos flancos da ditadura digital: fotógrafos que voltaram a trabalhar com o velho filme, músicos gravando discos em fita magnética e escritores que -como ele- escrevem à mão e depois passam o texto para o computador. Não é só uma volta ao tempo dos pterodátilos. Os mais jovens talvez gostem de saber que há razões inclusive estéticas para essa recuperação de mídias dadas como extintas.

É fácil disparar a câmera do celular e ver se, até sem querer, sai algo que preste. Já a foto em filme obriga o fotógrafo, pelo custo do material, a buscar a expressão, a luz e o enquadramento perfeitos antes de clicar. O mesmo quanto à gravação da música em fita. Sem os recursos que hoje permitem afinar desafinados, dar voz a quem não tem e inventar ídolos incapazes de reproduzir no palco o que sai da mesa de som, os artistas precisam mostrar a que vêm. Quanto a escrever à mão, eu próprio teimo em fazer isso -todo dia.

Fui dos primeiros da minha turma a trocar a máquina de escrever pelo computador, em 1988, e nunca mais olhei para trás. Mas também nunca abandonei a caneta. Nos 19 anos em que ocupo este espaço na Folha, desde 2007 já produzi mais de 3.000 colunas. Todas escritas primeiro à mão, em cadernetas, com a infalível Bic preta, depois transcritas para o computador e, em muitos casos, impressas, rabiscadas e só então, se as acho prontas, enviadas para o jornal.

Escrevo em qualquer lugar -no táxi, na fila do supermercado, na sala de espera do dentista. Acho ótimo. Publicada a coluna, reabro a caderneta e xizo o rascunho de alto a baixo. Não me deixo apanhar de surpresa -se uma caderneta está acabando, já trago outra no bolso, pronta para entrar em campo. E não jogo fora as usadas. Servem para me lembrar o quanto me custaram de queima de massa cinzenta.

Estou me interessando agora pelos lápis, treinando em lhes fazer a ponta com gilete e lambê-la (a ponta, não a gilete) antes de escrever. Leia mais (09/09/2026 - 08h00)

Filmando você na praia

Sempre que dou uma entrevista gravada, tenho de assinar um documento autorizando a exibição de minha "imagem". Acho isso uma asnice já que, se me ponho diante da câmera e converso com o entrevistador, é porque aceitei estar ali. Mas admito a precaução -querem evitar que, no futuro, alguém entenda naquilo um abuso e resolva processar. Só quero ver se tal precaução será tomada também diante dos "óculos inteligentes", a última invenção da Meta para tornar o mundo mais perigoso para nós e celestial para o trilionário Mark Zuckerberg. Leia mais (09/06/2026 - 08h00)

As cores do coração

Há dias, um garoto de 8 anos levantou uma placa no jogo contra o Santos na Neo Química Arena: "Neymar, amo o Corinthians, mas sou seu fã. Me dá sua camisa?". Pediu e recebeu. Por causa disso, ouviu um coro de urros, insultos e ameaças de um grupo de torcedores corintianos. O risco de linchamento levou sua mãe a retirá-lo do estádio sob proteção policial. O Corinthians condenou os brutamontes. Pergunto-me o que essa criança levará pelo resto da vida -profunda repulsa pelo ser dito humano ou a certeza de que nada é mais importante do que a tolerância? Leia mais (09/05/2026 - 08h00)

Com a ditadura no bolso

Diante da hipotética possibilidade de Flávio Bolsonaro vencer a eleição presidencial (afinal, está concorrendo), vamos a um rápido e razoável exercício de adivinhação sobre o que poderá acontecer. Na posse, como já prometeu, ele subirá a rampa do Planalto de braço com seu pai, um subitamente ágil e lépido Jair Bolsonaro, sem soluços e com os movimentos peristálticos funcionando. Ao receber a faixa das mãos de seu antecessor, não será surpresa se Flávio B. retribuir esse gesto democrático com uma cusparada no rosto do ex-presidente. Leia mais (09/02/2026 - 08h00)

'Paul quem?'

Na semana passada [21/8], falei de artistas e personalidades que, ao morrer, têm seus "legados", ditos eternos, rapidamente esquecidos. Citei o caso de Ary Barroso, o compositor que, durante 30 anos (1930-60), ditou a lei na música popular brasileira e cuja obra está hoje "fora dos palcos, das telas, das prateleiras, das páginas dos livros e da memória do Brasil". Instiguei o pessoal a lembrar outros e não me surpreendi ao ver que tantos gigantes não foram sequer citados. Leia mais (08/29/2026 - 08h00)

'Dark Horse', estrangeiro onde?

Flávio Bolsonaro está se jactando de que as especulações sobre "Dark Horse" , filme sobre seu pai, são "página virada". A Ancine (Agência Nacional do Cinema) deu ao filme o registro de "obra estrangeira", o que o põe a salvo de investigações sobre a origem, a trajetória e o destino do dinheiro usado na produção. Com isso, por ser uma produção "americana", ninguém tem nada a ver com o fato de que esse dinheiro, gerado no Brasil, foi dar um passeio pelos EUA e voltou para pagar as contas aqui. Mas será ele, tecnicamente, uma "obra estrangeira"? Leia mais (08/27/2026 - 08h00)

Elogio da esterilidade

Por ter me dedicado a biografar algumas figuras da cultura brasileira, às vezes sou chamado a opinar sobre questões do gênero biografia. Algumas: o que fazer quando duas fontes dão informações discrepantes sobre o mesmo assunto? Como saber que uma fonte está dizendo a verdade? Como induzir uma fonte a se abrir sobre um assunto de que ela não quer falar? Pode não parecer, mas não são problemas tão difíceis de resolver. Dei dicas sobre isso num livro publicado em 2022, "A Vida por Escrito ? Ciência e Arte da Biografia" (Companhia das Letras). Mais complicada é a pergunta: quem é o biografado ideal? Leia mais (08/26/2026 - 08h00)

Novo vaso, nova vida

De repente, a surpresa. Em meio ao noticiário envolvendo as trumpices do presidente Donald Trump, a primeira página do site do jornal The New York Times do dia 3 último oferecia uma reportagem intitulada "Mude a tampa de sua privada e mude seu estilo de vida". E, para atenuar o estupor do leitor, completava: "É sério". Secular leitor do jornal americano, nunca tinha visto título mais ousado desde o famoso "HOMENS CAMINHAM NA LUA", de 21 de julho de 1969, enorme e em maiúsculas. Leia mais (08/23/2026 - 08h00)

Legados ao vento

Todo dia morre um artista ou intelectual ?jovem ou velho, famoso ou quase, de qualquer ramo. Consternado, vou à internet, às TVs e às reportagens e ouço ou leio a infalível declaração: "Perdemos Fulano, mas seu legado jamais será esquecido". Será? Antes cêsse, mas não ésse, penso eu. Será esquecido, sim, e esse esquecimento começará assim que encerrarem o velório, e o jornal com seu obituário for forrar a gaiola do papagaio. No Brasil, é um erro morrer. Leia mais (08/20/2026 - 08h00)

O crime nos trinques

De vez em quando estouram um reduto do PCC ou do CV, apreendem um caminhão de drogas, armas e dinheiro, e o que vemos de material humano? Um brasileiro normal, de seus 30 anos, baixinho, quilos a mais, barba por fazer, camiseta regata, bermuda e de chinelo, num fundo de garagem de bairro pobre ou de comunidade. Se sua aparência reflete seu estilo de vida, parece incompatível com as toneladas de pó que ele movimenta ou os milhares de narizes sob seu controle em bairros chiques do Rio ou São Paulo. Eu me pergunto para onde vai o dinheiro que esse sujeito ganha. Leia mais (08/16/2026 - 08h00)
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