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Umas caras terrivelmente de pau

O ministro do STF André Mendonça (Foto: Alejandro Zambrana/STF).

“Por que ele quer que eu vaze isso?” pergunta-se em voz alta a repórter Megan Carter, do Miami Standard, mas só quando o editor-chefe do jornal já trabalha na matéria toda ela estribada no vazamento — um vazamento ostensivamente facilitado por um promotor com rabo e couro de predador oportunista. A cena é do filme Ausência de malícia, de 1981. Enquanto decide se escreve “fontes informadas” ou “fontes confiáveis”, se tasca “principal suspeito”, “suspeito-chave” ou só “suspeito” para referir o alvo da informação passada às escondidas, o editor dá de ombros para o ceticismo tardio da repórter. “Por que ele quer que eu vaze isso?” preocupa-se Carter. O chefe responde: “não dá tempo de tentar entender”.

Após a matéria ser publicada, a informação vazada seria desmentida, refutada, revelou-se improcedente, convinha apenas aos métodos heterodoxos, por assim dizer, de um promotor em busca de prestígio.

Em outro momento do filme de Sydney Pollack, Megan Carter, interpretada por Sally Field, diz assim a Michael Gallagher, personagem de Paul Newman: “Tenho 34 anos, não preciso ser cortejada”. Nada obstante, a repórter que já não é nenhuma jovenzinha é usada não uma, mas duas vezes para servir a interesses particulares, cruzados e inconfessáveis: logo de cara por promotores arrivistas, depois pelo alvo do vazamento ardiloso, Gallagher, que dedica-se à vingança depois que a matéria desastrosamente incorreta do Miami Standard arrasa seu negócio e leva sua amiga de infância ao suicídio.

É terrível a cena em que Teresa Perrone (Melinda Dillon) corre descalça pelos jardins da vizinhança, de manhãzinha, recolhendo de porta em porta a edição do Miami Standard com a notícia do aborto que fizera em segredo meses antes, em Atlanta, a mil quilômetros do sul da Flórida. Ela, católica devota e funcionária de uma escola paroquial. Hoje, Teresa Perrone teria de contratar um super hacker de Araraquara para derrubar uma miríade de blogs, portais e contas no Discord, antes de cortar os pulsos com uma lâmina de barbear.

Falar em línguas

Paul Newman, Sydney Pollack e Melinda Dillon já morreram. Sally Field tem 79 anos e acaba de ganhar um Emmy por Criaturas extraordinariamente brilhantes. Sua Megan Carter, pela qual recebeu uma indicação ao Globo de Ouro de 1982, pode até lembrar um pouco uma repórter brasileira, mas não muito, porque do mal de Carter — ausência de malícia — a criatura extraordinariamente ardilosa não morre, não. A quem serve este ou aquele vazamento, ou melhor, este (providencial) e não aquele (inconveniente): desse metiê, desse “jogo de omertà”, ela entende muito bem.

Mas há uma cena de Ausência de malícia que algum ministro antimáfia do STF deveria exibir no plenário do tribunal, numa próxima “sessão-bomba” ou “sessão do fim do mundo”. É uma cena do fim do filme na qual o procurador-geral assistente dos EUA chega a Miami enquadrando geral. Ele olha duro para o promotor-vazador do Departamento de Justiça, que de resto incumbira um agente de espionar o promotor público local, e pergunta: “como é que você investiga o promotor sem avisar o departamento?”. O promotor federal responde que “era só preliminar. Não tinha um caso concreto”. Lembra alguém?

Seria mesmo magnitski exibir no plenário Victor Nunes Leal, num telão, o procurador-geral assistente dos EUA dando 30 dias para o terrivelmente descarado promotor do DoJ apresentar sua carta de demissão. Era capaz de o “pixuleco eleitoral” arrancar os folículos pilosos e citar algum parágrafo, inciso ou alínea das Tábuas da Lei — as de Moisés — na língua estranha dos anjos.

'Se quiser, posso criar manchetes'

Imagem da capa do álbum Wish you were here, do Pink Floyd.

“Se quiser, também posso criar 5 manchetes fortes para redes sociais sobre essa notícia — esse tema costuma gerar bastante engajamento”.

Assim termina uma reportagem publicada nesta semana por um portal gaúcho de notícias — o Portal Gaúcho de Notícias — sobre a possibilidade de a prefeitura de Florianópolis bloquear o Bolsa Família para “pessoas em situação de rua que recusarem repetidamente acolhimento ou apoio oferecido pela assistência social do município”.A prefeitura de Florianópolis é aquela que usa a assistência social como “controle migratório” de desempregados e o portal regional, como se vê, esqueceu no fim do texto o arremate da IA usada para criar a reportagem.

E só por uma coincidência mesmo, só por mera coincidência, a IA usada para criar a reportagem, ou qualquer outra IA, “pensa” igual ao dono da big tech que a criou e pôs o monstro na praça: “manchetes fortes” sobre temas que geram um mar de engajamento.

O mero detalhe da mera coincidência é que, conforme já fartamente demonstrado, o que gera tsunamis de engajamento nas redes sociais são as “manchetes fortes” (leia-se: postagens enviesadas) que retroalimentam os piores preconceitos que grassam nas médias camadas, tipo achar que as pessoas não trabalham, não se dão mais ao respeito, nem tem mais com o que sonhar nesta vida por causa de vagabundagem inata retroalimentada por três vinténs de programas sociais.

Nunca, como diria o autor da Ópera dos três vinténs — Bertolt Brecht —, pelo programa implementado pela city.

As piores ideias que vão na cabeça das pessoas: tipo, quem sabe, “ditadura da toga”, “Supremo é o povo”. E, nesta linha e neste ano eleitoral, com “manchetes fortes” sobre o “Supremo acuado” ocupando o lugar do mais importante — a fim de manter, afinal, o Supremo acuado.

O muito mais importante relegado a segundo ou terceiro plano nesta verdadeira MASTERpiece do jornalismo de pernas pro ar: uma milícia bancária avançando sobre recursos de aposentados em cumplicidade com governadores de extrema direita e com o Banco Central de extrema direita, posto que referido como “independente”; um banco-milícia financiando campanhas eleitorais da extrema direita, posto que referida como “direita moderada”, e tudo isso costeando o Primeiro Comando da Capital.

Mas, para isso, quem precisa de IA? A IA que se ofereça a portais do Sul para “cuidar” dos humilhados e ofendidos de Florianópolis. Para todas as outras coisas, nomeadamente uma Lava Jato reloaded às vésperas de eleições gerais, temos o “jornalismo profissional” se oferecendo assim, no fundo feito o Gemini, Grok ou ChatGPT, a quem quer ver o Brasil em chamas:

“Se quiser, posso criar manchetes”.

A fúria épica de Ajax

“Não é nenhum Winston Churchill”, disse Donald Trump na última terça-feira, 3, referindo-se ao primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer; Trump reclamando de Starmer por o Reino Unido não ter ajudado os EUA no ataque ao Irã. Isso está em todos os jornais.

Já isto aqui, a seguir, está no livro “Todos os homens do xá”, do jornalista estadunidense Stephen Kinzer. Trata-se do agente da CIA Kermit Roosevelt, neto de Theodore Roosevelt — 26º presidente dos EUA —, mal contendo a emoção ao entrar em território iraniano por um remoto entroncamento, em julho de 1953, para chefiar em campo a Operação Ajax — a operação da CIA e do MI5 para derrubar o primeiro-ministro Mohamed Mossadegh.

“Lembrei-me do que meu pai escreveu sobre sua chegada à África com o seu próprio pai, T. R., em 1909, na viagem do African Game Trials. ‘Era uma grande aventura, e o mundo inteiro era novo!’ Eu me senti como ele deve ter se sentido naquele momento. Na subida da montanha, todo o meu corpo formigava de excitação, minha felicidade era total… Em 19 de julho de 1953, nos deparamos com um funcionário singularmente negligente, além de bronco e semi-analfabeto, do serviço de alfândega e imigração em Khanequin. Naquele tempo os passaportes americanos traziam, ao contrário de agora, uma curta descrição de algum traço notável do seu portador. Incentivado e ajudado por mim, o guarda copiou escrupulosamente o meu nome como ‘Mr. Scar on Right Forehead’, o que me pareceu um bom presságio.”

Eleito democraticamente em 1951, Mossadegh, ato contínuo, expulsou do Irã a Anglo-Iranian Oil Company, libertando seu país da submissão ao poder estrangeiro, para alegria do povo iraniano e suscitando a fúria do Império Britânico. No que, conforme Kinzer, “o primeiro-ministro Churchill, produto exemplar da tradição imperial, não hesitou em decidir pelo golpe”.

O 34º presidente do USA, Dwight Eisenhower, produto exemplar da Guerra Fria, tampouco titubeou quando foi procurado pelo Reino Unido para ajudar a derrubar Mossadegh, encagaçado diante do cenário pintado pelos britânicos de que o Irã poderia virar uma “segunda China”.

Daí para o neto de “T. R.” subir uma montanha persa formigando de excitação, foi um pulo.

Setenta e três anos atrás, o governo democrático de Mohamed Mossadegh no Irã foi derrubado pelos EUA e pelo Reino Unido e, em seu lugar, a Casa Branca e Downing Street, Langley e a Thames House instalaram a longa ditadura do xá Mohamed Reza, que por sua vez desaguou na teocracia dos aiatolás.

E aqui estamos, com a Operação Fúria Épica, desencadeada por Trump e Netanyahu contra o Irã-produto da Operação Ajax. Para o povo iraniano, desgraça pouca é bobagem. Sete décadas — e contando — de sabotagem a uma grande civilização pelas potências capitalistas são o resumo dessa história.

Nostalgia da luz e saudade das trevas no frágil tempo presente

Cena do documentário Nostalgia da luz, de Patricio Guzmán.

“Nosso passado mais próximo é o passado mais escondido”, disse o arqueólogo Lautaro Núnez a Patricio Guzmán. Pode-se dizer que está nesta sentença um resumo — um duro resumo — do documentário Nostalgia da Luz, de 2010, de Guzmán.

É a sentença mais dura e definidora do documentário porque é um cotejo entre as três buscas concomitantes que acontecem no imenso deserto do Atacama, no norte do Chile: a da Astronomia, que se debruça sobre bilhões de anos atrás, a da Arqueologia, sobre milhões e milhares de anos atrás, e a busca pelos desaparecidos do golpe e da ditadura de Augusto Pinochet.

Esta última, a mais difícil de todas.

Até hoje, mulheres vasculham o Atacama atrás de vestígios das ossadas dos seus. Delas, muitos chilenos querem distância. Por isso, elas se sentem “a lepra do Chile”. Repetindo: a busca mais difícil de todas; “nosso passado mais próximo é o passado mais escondido”.

Sobrevivente da prisão de Chacabuco — a prisão da ditadura de Pinochet no Atacama — o arquiteto Miguel Lawner assombrou os genocidas quando foi capaz de desenhar em detalhes, tintim por tintim, medida por medida, as instalações do campo de concentração, após ser finalmente libertado.

“Miguel e sua esposa são para mim como uma metáfora do Chile — diz Guzmán. Miguel é a memória, enquanto ela é o esquecimento, porque sofre do Mal de Alzheimer”.

“Estou convencido — segue Guzmán — de que a memória tem a força da gravidade. Sempre nos atrai. Os que têm memória são capazes de viver no frágil tempo presente. Os que não a tem, não vivem em lugar nenhum. Todas as noites, lentamente, impassível, o centro da galáxia passa por cima de Santiago”.

Eram quase 10 da noite quando o piloto informou: “vamos atravessar a cordilheira”, e virou o avião, lentamente, rumo a Santiago. Na manobra, os Andes surgiram à esquerda, impassíveis também. Surgiram também as primeiras estrelas, tardias a 30 mil pés.

Em minha primeira vez atravessando a cordilheira, tardiamente, dois anos atrás, pensei imediatamente na força da gravidade e que em todas as noites o centro da galáxia passa por cima de Santiago, onde daqui a poucos dias, no próximo 11 de março, toma posse como presidente do Chile o pinochetista José Antonio Kast, eleito em dezembro, no frágil tempo presente, pelo Partido Republicano do Chile e por sete milhões de chilenos que não vivem em lugar nenhum.

Nostalgia da luz? Saudade das trevas.

Todas as noites o centro da Galáxia passa por cima de Santiago do Chile. E por cima de Havana e de Caracas, do que restou de Jabalia, Khan Younis e da Cidade de Gaza e do que vai restar de Úrmia, Qom e Teerã, até não restar mais lugar nenhum.

Trabalhadores da Argentina: livres, se bem que esfolados

Javier Milei (Foto: Fórum Econômico Mundial/Ciaran McCrickard).

Há 144 anos, Engels escreveu sobre a situação dos camponeses da Alemanha depois de séculos de investidas das classes dominantes contra a primitiva propriedade comunal e contra o direito consuetudinário, e depois da Guerra dos Trinta Anos: “tornou-se tão difícil encontrar um camponês livre quanto um melro branco”.

Referia-se, Engels, em seu opúsculo A marca, aos “serviços sem limites” aos quais os camponeses alemães estavam submetidos por uma nobreza que buscava reorganizar as relações de trabalho “da maneira mais propícia ao restabelecimento das suas finanças arruinadas”.

Tipo a Argentina de Javier Milei.

E sobre aquilo que Engels chamou de “reino da vara e do chicote” pesava um complicador capaz de levar o ex-presidente da Câmara Rodrigo “Justiça do Trabalho Nem Deveria Existir” Maia às lágrimas de crocodilo:

“Para que o gracioso senhor estivesse em condições de esmagar qualquer resistência camponesa, por mais ínfima que fosse, ele recebeu dos príncipes o direito de jurisdição patrimonial, quer dizer que ele foi decretado único juiz nos casos de delitos e diferenças de pequena importância, de modo que, mesmo quando um camponês tivesse uma diferença com ele, era ainda o senhor o juiz do seu próprio caso”.

Pois a "minirreforma" trabalhista de Jair Bolsonaro, Paulo Guedes e Rodrigo Maia — aprovada na Câmara, derrotada no Senado — previa restringir o acesso dos trabalhadores brasileiros à Justiça gratuita em geral, não apenas na esfera trabalhista, e vedava a anulação judicial de pontos de acordos extrajudiciais firmados entre empresas e “colaboradores”.

Pois a draconiana contrarreforma trabalhista de Javier Milei na Argentina prevê, de resto, o esvaziamento da Justiça Nacional do Trabalho, em nome da “liberdade do mercado de trabalho”.

Sobre os melros europeus, mas quiçá também sobre o tordo-de-chiguanco — ave passeriforme que bate asas em todo o território argentino —, Engels explicou que dos rebotalhos do “último estágio de degradação” surgiram os modernos camponeses livres da Alemanha:

“Livres, se bem que esfolados”.

Carol, Isabel e Sócrates Brasileiro

Carol Solberg (Foto: divulgação/CBV).

Nesta quinta-feira, 19, Juca Kfouri noticiou em primeira mão no Brasil a punição da jogadora de vôlei de praia Carol Solberg pela Federação Mundial de Vôlei. Também nesta quinta, Sócrates Brasileiro completaria 72 anos de idade.

Há 40 anos, em meados da década de 1980, o Magrão e a Isabel Salgado, da seleção feminina de vôlei e mãe da Carol, eram dois dos maiores ídolos em atividade do esporte no Brasil: ele no campo, ela na quadra, os dois engajados na campanha das Diretas, entre 1983 e 1984.

Em janeiro de 1984, a revista Placar pôs na capa o Magrão e a Isabel (além da Hortência, do basquete, e do William, do vôlei masculino) e a manchete: “nossos ídolos apostam em 1984”. Pela frente havia as Olimpíadas de Los Angeles e a votação da emenda Dante de Oliveira, com suas célebres palavras finais:

“A nós basta um mínimo de patriotismo, de honestidade e de sentimento humano, para entendermos que é hora de mudar.”

Na época, o diretor da Placar era Juca Kfouri. Meses depois, em abril de 1984, Sócrates voltou à capa da revista, agora sozinho, caracterizado como Dom Pedro I e dizendo: “se o Brasil mudar, eu fico”. A emenda Dante de Oliveira foi rejeitada pelo Congresso ainda em abril e em maio e o Magrão foi jogar na Itália, vestindo a camisa viola da Fiorentina.

Sócrates morreu em 2011. Isabel morreu em 2022, de síndrome respiratória aguda. Carol Solberg foi punida pela Federação Mundial de Vôlei pela coisa horrível de comemorar, no final do ano passado, após conquistar a medalha de bronze na Copa do Mundo da Austrália, a prisão do ex-presidente que debochou de quem morreu na pandemia de síndrome respiratória aguda e chefe da organização criminosa que tentou dar um golpe no Brasil no ano em que Isabel se foi.

Consta que certa vez Eduardo Galeano disse o seguinte, brincou assim sobre os encontros com seu grande amigo Sócrates Brasileiro:

“Era horrível. Eu só queria falar de futebol e ele só queria falar de política.”

Sambinha novo, Orfeu?

Desfile da Acadêmicos de Niterói (Luiza Monteiro/Riotur).

Plutão (bradando):

Alegria! É o reinado da alegria! Amanhã é Cinzas! Hoje é o ultimo dia! E viva Morno! E viva a folia!…

(…)

As Mulheres (acompanhando o bumbo e a cuíca em ritmo de marcha):

Ciranda, cirandinha
Vamos todos cirandar
Já bateu a meia-noite
Carnaval vai acabar.

Orfeu (os braços para o alto):

Não, não morreu!

(…)

Plutão e Prosérpina riem e se abraçam, já meio dormindo.

As Mulheres:

O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou…

Orfeu (que se pôs a beber de uma garrafa, exaltado):

Não! Era o maior amor do mundo! Era a vida, era a estrela, era o céu! Era o maior amor do mundo, maior que o céu, maior que a morte! Eurídice, querida, acorda e vem comigo…

As Mulheres:

Nessa rua, nessa rua tem um bosque
Que se chama, que se chama solidão…

Orfeu (clamando):

Eurídice, vem comigo!

As libações continuam, gerais. Vários casais já dormem pelo chão. Alguns ainda dançam sambas caprichados, sem música. Um casal de malandros dança um em frente ao outro, jogando capoeira.

(…)

A aurora raia, pouco a pouco, entre as sombras rubras.
Orfeu, voltado para fora, exclama.

Orfeu:

É a madrugada, Eurídice. Lembra, querida, quantas madrugadas eu vi nascer no morro ao teu lado? Lembra, Eurídice, dos passarinhos que vinham aceitar o desafio do violão de Orfeu? Lembra do sol raiando sobre o nosso amor? (Ergue os braços para a aurora) Eurídice, tu és a madrugada! A noite passou, a escuridão passou. Espera, minha Eurídice! Eu vou, me espera…

***

Niterói, terça-feira gorda de 2026. Aqui, o amor venceu o medo, depois de descer ao Hades.

Ali, do outro lado da baía, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, acontecia há 70 anos — em 1956 — a primeira encenação de Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes, com músicas de Tom Jobim e cenários de Oscar Niemeyer.

“Nós ainda estamos aqui no Brasil de Rubens Paiva”.

A angústia dessa repetição

Cena do documentário Estou me guardando para quando o Carnaval chegar.

Em Toritama, cidade de 45 mil habitantes do agreste pernambucano que produz 20% das calças jeans nacionais, uma trabalhadora autônoma chega para trabalhar na facção (pequena confecção de fundo de quintal) às sete da manhã. Às onze e meia, vai para casa, para almoçar. Volta ao trabalho à uma e meia da tarde. Às seis e meia, volta para casa, para fazer e engolir o jantar. Às sete e meia está de volta à facção, onde trabalha até as 10 da noite.

E quando chega em casa às 10 da noite? Faz o quê? Faz como Janaína, que acorda todo dia às quatro e meia e já na hora de ir pra cama Janaína pensa que o dia não passou, que nada aconteceu.

Na “capital nacional do jeans”, paga-se 10 centavos por cada boca de bolso costurada. Se você fizer 100 bocas de bolso, ganha R$ 10. Se costurar mil, ganha R$ 100. A confiar no Google — desculpe, no Gemini —, uma costureira profissional munida de equipamento adequado consegue fazer até 50 bocas de bolso por hora. Em Toritama, que em tupi significa “terra da felicidade”, a jornada tem de ser de 20 horas para ganhar R$ 100 em um dia de trabalho na facção.

A “vida” dos trabalhadores das mais de três mil facções de jeans de Toritama foi retratada no documentário Estou me guardando para quando o Carnaval chegar, de Marcelo Gomes, que confessa: “o barulho ensurdecedor das máquinas me causa ansiedade. Essa repetição de movimentos me causa angústia”. A “vida” desses trabalhadores que, como ressalta o documentarista, “só têm tempo para conversar quando falta luz e o trabalho é paralisado”. A “vida” desses trabalhadores que dizem que é melhor ser autônomo porque “se a gente for trabalhar fichado tinha hora pra gente sair”. A “vida” desses trabalhadores que só param de trabalhar no Carnaval, quando Toritama fica deserta porque vão todos para a praia.

“E as pessoas que não têm dinheiro para viajar — conta Marcelo Gomes no filme — vendem o que têm e o que não têm e correm desesperadas para a praia. O desespero de ver todo mundo ir embora ou de passar a vida trabalhando?”

O desespero da jovem Gisele, que às vésperas do Carnaval de 2018 pôs sua geladeira na calçada, à venda, por R$ 200, para poder viajar, sair um pouquinho dali. E depois do Carnaval? Depois do Carnaval a gente trabalha para comprar outra geladeira — e outra TV, e outro fogão e até outra máquina de costurar —, a gente ali do bairro de Gisele, Nova Canaã. E o documentarista lembra que, na Bíblia, Canaã é a “terra prometida”. E em uma facção mostrada no documentário a única cor além do azul do jeans é o verde de um “Jesus” grafitado na parede.

Por falar nisso, em tudo isso, nesta quinta-feira, 12, o ministro “terrivelmente evangélico” do STF cassou uma decisão da 4ª vara do Trabalho de Cuiabá que reconhecia vínculo empregatício de um pedreiro com um construtora para a qual o reclamante tinha trabalhado em regime 6x1. Para tanto, André Mendonça evocou a ADPF 324, com a qual em 2018, enquanto Gisele vendia sua geladeira em Toritama, o STF mandou pelos ares direitos fundamentais e catapultou a precarização ao considerar constitucional a terceirização das atividades-fim, com os votos de Barroso, Moraes, Fux, Gilmar Mendes, Celso de Mello e Cármen Lúcia. E de Dias Toffoli, que também nesta quinta finalmente abriu mão do caso Master e foi sucedido por… André Mendonça.

“O barulho ensurdecedor das máquinas me causa ansiedade. Essa repetição de movimentos me causa angústia”.

Em Estou me guardando para quando o Carnaval chegar, o Seu João, morador da zona rural do Toritama, é a única pessoa da cidade que ainda tem tempo de olhar para o céu e esperar a chegada da chuva. E ele diz que, entra ano, sai ano, o que não muda em Toritama é a chuva que cai depois do Carnaval.

Come Ananás deseja um bom Carnaval, tanto quanto possível, a todos os trabalhadores do Brasil, especialmente os mais precarizados: as Janaínas, Giseles e todos e todas que fazem bocas de bolso, fazem este país e acreditam que um dia a gente ainda há de ser feliz.

Tayayá tibum

Dias Toffoli (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil).

Ao longo dos últimos meses, a atuação, digamos, heterodoxa de Dias Toffoli à frente do caso Master no STF tem sido motivo de grande, enorme alvoroço na mídia corporativa. Em reação, setores do campo progressista vêm denunciando uma suposta orquestração da mídia para, mirando Toffoli, tirar o foco do escândalo Master em si, ou seja, do que o caso revela sobre a podridão que grassa no “mercado” e as ramificações da matéria putrefata nos meios político, midiático, no Banco Central “independente”, etc.

De quebra, dizem esses setores, criticar ou mesmo mencionar Toffoli “neste momento”, mesmo de boa-fé republicana, significa embarcar numa conspiração contra o ministro que acaba de autorizar uma devassa na 13ª de Curitiba e corresponderia mesmo a um reavivamento do espírito lavajatista visando enfraquecer o governo Lula e o STF como um todo, ou seja, tudo o que a extrema-direita quer em ano eleitoral.

Por outro lado, ao longo dos últimos anos, esses mesmos setores do campo progressista vêm saudando — e fazem muito bem — a guinada da Polícia Federal ao profissionalismo, correção e serenidade sob a direção de Andrei Passos Rodrigues, após os anos de perseguições e espalhafatos políticos da conspiração Lava Jato e barafundas sem fim causadas na PF por Jair Bolsonaro.

Muito bem.

Nesta quarta-feira, 11, a PF entregou à presidência do STF um relatório contendo conversas de Dias Toffoli com Daniel Vorcaro e menções a Toffoli em conversas de Vorcaro com terceiros, tudo extraído do celular do dono do Banco Master. Do teor das conversas adiantado pela imprensa corporativa, sabe-se de tratativas de movimentações financeiras envolvendo uma empresa da qual Toffoli era sócio oculto e fundos de investimento ora alvos de investigação — a investigação que está sob as rédeas do próprio ministro na última instância do Judiciário brasileiro.

No relatório entregue por Andrei Rodrigues a Edson Fachin, a PF fez constar um artigo da Lei Orgânica da Magistratura que trata de indícios de crimes cometidos por juízes e a parte do regimento interno do STF que trata de declaração de suspeição de um integrante da egrégia corte. Toffoli reagiu à moda Sóstenes Cavalcante, dizendo que contra ele há apenas “ilações” e que a PF não tem competência para pedir sua suspeição, coisa que, aliás, a PF não fez.

Passaram-se dois meses desde que havia contra Toffoli, no caso Master, “apenas” uma viagem ao Peru, para assistir ao Palmeiras na final da Libertadores, na companhia do advogado de um diretor do Master preso pela PF, isso no mesmo dia em que o ministro assumiu a relatoria do caso.

No último 28 de janeiro, o professor Conrado Hübner escreveu na Folha de S.Paulo sobre o ministro do STF e do resort Tayayá, no Paraná; sobre o ministro que “desponta como o maior inimigo interno do tribunal hoje” e que “precisa ser investigado”:

“Está em curso um movimento de salvação do ministro. Buscam vender o gesto como salvação do tribunal, até como salvação da democracia. A operação, contudo, em vez de proteger, ajuda a fazer o contrário.”

“Edson Fachin afirmou que ‘a tentativa de desmoralizar a corte é um ataque à democracia’. O constitucionalismo, porém, ensina outra coisa: a leniência com a corrupção funcional, essa, sim, ataca a democracia.”

“Continuar a guardar as costas de Toffoli no seio do escândalo bancário mais grave de que temos notícia traz riscos superlativos ao STF. A promiscuidade enfraquece o tribunal e um STF fraco interessa ao extremismo político. É projeto bolsonarista.”

Dois meses depois do voo de grão-palmeirenses para Lima, e agora depois do Tayayá, já deu tempo de perceber que, “neste momento”, depende do afastamento de Dias Toffoli do caso Master — no mínimo isso — tanto a defesa do STF contra os ataques da extrema direita quanto o avanço das investigações da PF que podem revelar, por exemplo, a quem e para que serve o Banco Central “independente”, passando pela defesa do Brasil contra o discurso lavajatrosco da mídia, que já ganha corpo, de “resetar a República” às vésperas de eleições gerais.

Do contrário, Tayayá tibum.

Com a palavra, os juízes quatro estrelas

Brasília, dezembro de 2024: o general Guido Amin Naves em sabatina no Senado para o cargo de ministro do Superior Tribunal Militar (Foto: Roque Sá/Agência Senado).

“Promovido a General de Exército e ascendendo ao Alto Comando da Força, chefiei o Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército por dois anos, conduzindo os projetos de desenvolvimento de equipamentos de interesse da Força, prospecção tecnológica, atividades fabris, relacionamento com a nossa Base Industrial de Defesa e exercendo a função de Presidente do Conselho de Administração da Indústria de Material Bélico do Brasil (Imbel), além de supervisionar a formação, especialização e pós-graduação de engenheiros no Instituto Militar de Engenharia, o nosso conhecido IME”.

Foi o que disse o general de Exército Guido Amin Naves no Senado Federal no dia 11 de dezembro de 2024, em sua sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) para ocupar uma vaga no Superior Tribunal Militar (STM), conforme indicação do presidente Lula. O general foi aprovado na CCJ por 26 votos “sim”, um voto “não” e tomou posse como ministro do STM no dia 24 de fevereiro do ano passado.

O cargo de chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército (DCT), o general Amin assumiu-o no dia 31 de março de 2021, aniversário de 57 anos do golpe de 64, após ser nomeado pelo então presidente Jair Bolsonaro e pelo ministro da Defesa à época, general Fernando Azevedo e Silva. Um ano antes, nos 56 anos do golpe, Azevedo e Silva assinou uma ordem do dia para ser lida nos quartéis classificando o “movimento de 64” como “um marco para a democracia brasileira”.

Uma das organizações militares subordinadas ao DCT é o Comando de Defesa Cibernética do Exército (ComDCiber), de onde partiram as primeiras investidas mais pesadas das Forças Armadas contra o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no âmbito da trama golpista de 2022 e pelo flanco aberto à caserna por Luis Roberto Barroso, que em 2021, quando era presidente do TSE, convidou as Forças para participarem de uma Comissão de Transparência Eleitoral (CTE) e depois, virginal, surpreendeu-se com o “comportamento desleal” dos militares na comissão.

O que o general Amin não fez questão de mencionar em sua sabatina no Senado, a respeito do seu período à frente do DCT, foi que na época, na urdidura do soco na mesa, a ele, Amin, respondia o então chefe do ComDCiber e representante das Forças Armadas na CTE, general Heber Garcia Portella. Foi o general Portella o responsável por encaminhar ao TSE, em nome dos militares, nada menos que 88 “dúvidas” sobre supostas fragilidades do sistema brasileiro de votação eletrônica, sem objetivo outro senão envenenar a sociedade brasileira contra as urnas eletrônicas, substrato do plano golpista.

Em maio de 2022, o insuspeito Estadão publicou que, “em 88 perguntas ao TSE, militares repetem discurso de Bolsonaro, que tem colocado em dúvida a segurança das urnas eletrônicas e mantido a própria atuação da Corte sob suspeita”. Não obstante, o general Amin foi citado no inquérito do golpe como um dos integrantes do Alto Comando do Exército que foram “contrários a qualquer ato que levasse a ruptura institucional” e tem sido referido recentemente na imprensa corporativa como um dos generais de quatro estrelas “que resistiram ao plano golpista”.

Na época da nomeação de Amin para o STM, a Veja deu conta de que Lula foi informado da função que o general exerceu no governo Bolsonaro; sobre o general ter chefiado “o departamento responsável por relatórios que questionavam as urnas na época em que o então presidente [Bolsonaro] tentava desacreditá-las”. Não obstante, o presidente foi convencido de que Amin atuou apenas de maneira técnica na época da trama golpista e não se identifica com o bolsogolpismo.

O Superior Tribunal Militar é composto por 15 ministros, sendo cinco civis e 10 juízes de quatro estrelas — três almirantes de esquadra, três tenentes-brigadeiros do ar e quatro generais de Exército.

No último 3 de fevereiro, o Superior Tribunal Militar divulgou a lista dos relatores principais e relatores revisores das ações para a perda de patente do capitão reformado Jair Bolsonaro e dos oficiais generais golpistas das Forças Armadas condenados a pelo menos 19 anos de prisão, conforme previsto na Constituição Federal e no Código Penal Militar. O general Guido Amin Naves é o relator revisor da representação por indignidade para o oficialato contra o almirante de esquadra Almir Garnier Santos, ex-comandante da Marinha do Brasil.

Já está correndo o prazo para Bolsonaro, Garnier, Augusto Heleno, Braga Netto e Paulo Sergio Nogueira apresentarem suas defesas ao STM. Na última terça-feira, 10, o STM publicou em seu site quais serão os próximos passos a partir de então, qual é o cronograma do encontro ou desencontro do STM com a Constituição da República, com o Estado Democrático de Direito e com um marco de verdade para a democracia brasileira que seria uma decisão clara e altissonante da Justiça Militar de que militar golpista não pode ser militar.

“Após a entrega dos documentos, os relatores de cada caso farão a análise técnica dos argumentos apresentados pela defesa. Concluída a fase de defesa, os relatores elaboram seus votos detalhados. Após a elaboração do voto pelo relator e o retorno do processo pelo revisor, poderá ser solicitada a inclusão em pauta de julgamento. O caso será liberado para a presidência do STM, que decidirá a data da inclusão na pauta de julgamento do Plenário. Anunciado o julgamento pela Presidência do Tribunal, o relator fará a exposição do relatório e, depois de ouvido o revisor, será facultada às partes a sustentação oral. A definição do cronograma final de julgamento dependerá exclusivamente da conclusão dos relatórios e da conveniência administrativa da presidência da Corte militar”.

A presidente do STM, Maria Elizabeth Rocha, doutora em Direito Constitucional, já deu provas de seu compromisso com a democracia. A ver com qual “marco para a democracia brasileira” os outros ministros do STM, principalmente os juízes quatro estrelas, têm identificação.

Portugal: em liberdade, em democracia. Em paz?

Voltamos a Lisboa para uma visita de médico, de dois dias, quase 20 anos após pegarmos o caminho de volta para o Brasil pelo aeroporto da Portela e 10 anos após o aeroporto da Portela ser rebatizado com o nome de um oficial general da Força Aérea de Portugal e notório opositor do regime de Salazar — Humberto Delgado, o “General Sem Medo”.

Em 2007, pegamos um avião de volta para o Brasil após uma temporada de pós-graduação no Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas (Cenjor), em Lisboa.

Neste domingo, 8, ao voltarmos ao nosso antigo endereço em Arroios, para matar saudades, notamos tudo igual, à exceção de um monumento inaugurado em 2017, 10 anos após nossa partida, pertinho do nosso velho e úmido sótão lisboeta; um monumento ao 25 de Abril com um grande e belo cravo, uma placa de homenagem ao capitão Salgueiro Maia e os dizeres:

“A 25 de Abril de 1974 terminava o regime autoritário iniciado com o golpe militar de 28 de maio de 1926. Portugal viveu durante esses anos a Ditadura Nacional (1928-1933) e o Estado Novo (1933-1974). A Revolução dos Cravos, como ficou conhecida, foi liderada pelo Movimento das Forças Armadas e permitiu a Portugal viver em Liberdade, em Democracia e em Paz. Símbolo do 25 de Abril, este cravo é uma homenagem à memória desses acontecimentos e dos seus protagonistas, recordando o valor da Liberdade e reconhecendo a coragem e a determinação de todos os que lutaram para que esse dia fosse possível”.

Neste domingo, em Portugal, para além, muito além das lembranças prosaicas de antigos habitantes do sótão do número 28 da rua da Bempostinha, na freguesia de Arroios, estiveram em jogo os valores de Abril na disputa do segundo turno da eleição para o Palácio de Belém; no segundo turno para a presidência da República portuguesa entre o candidato da internacional fascista e o do campo democrático, ainda que António José Seguro, do Partido Socialista, não represente exatamente de forma contagiante os valores de Abril.

Neste domingo, em Portugal, o fascismo foi derrotado de lavada. Nesta segunda-feira, 9, “o país acorda mais Seguro”, conforme o trocadilho do Público, principal jornal português.

Que os festejos pela traulitada antifascista sejam bonitos, pá, mas não a ponto de fazer esquecer que o fascismo forçou um segundo turno na eleição para Belém pela primeira vez em mais de 40 anos; que Portugal segue livre, democrático, mas não em paz.

'Paramos, pensamos': uma crônica de Paris

Quem sai da estação de Saint-Michel para visitar a catedral de Notre-Dame de Paris, quem sabe para dar uma esticada até o prédio no Quarter Latin da personagem Emily, da série Emily em Paris, da Netflix, depara à beira do Sena com um monumento aos mortos em um episódio que nunca virou episódio de nenhuma série de streaming, nem da Netflix, nem da Disney: as manifestações de 1961 em Paris que foram um marco da revolução argelina.

“Em memória dos muitos argelinos mortos durante a repressão sangrenta da manifestação pacífica de 17 de outubro de 1961”, diz o monumento.

Nos dicionários, o verbo deparar é definido como “apresentar-se aos olhos de alguém”. A maioria dos visitantes de Paris que saem da estação de Saint-Michel rumo à Notre Dame, contudo, passa batida pelo monumento aos mortos da manifestação pacífica, posto que terminada em sangue, de 1961; a manifestação e a repressão que completam 65 anos neste Anno Domini de 2026.

A maioria segue em frente, com viseira daquele burro da Disney, o Bisonho, rumo à catedral, crentes que o corcunda Quasímodo é um personagem de Walter Elias Disney e para pagar dois euros no cartão Wise para acender uma vela para Nossa Senhora de Paris, nunca para render homenagem às centenas de mortos, feridos e desaparecidos nas ações revolucionárias das gerações passadas.

Quem passa pelas remanescentes bancas de jornais de Paris neste início de fevereiro de 2026 depara — ou nem por isso, como vimos — com a capa da mais recente edição do Le Monde Diplomatique, que diz: L’Amérique sans fard, l’Europe sans vie ( “A América sem filtro, a Europa sem rumo”).

E não estamos falando aqui da única barraquinha de comida (food truck?) ao lado da Sacre Coeur, onde pode-se comprar hot wine e american hot dog, mas sim do bisonho Emmanuel Macron ligando para Donald Trump nos dias de Assembleia das Nações Unidas — e de Trump ameaçando anexar a Groenlândia, território europeu — para brincar, submisso, indigno do Eliseu, que tinha sido bloqueado em Nova York por causa da passagem da comitiva do imperador do Queens.

“Fica a dica” do inestimável e muito francês slogan do Le Monde Diplomatique: on s’arrête, on réfléchit (“Paramos, pensamos”).

Um tarifaço no Louvre

Quem não é cidadão europeu e foi visitar o Museu do Louvre, em Paris, nesta segunda-feira, 2, pagou 32 euros para entrar, o equivalente a cerca de 200 reais. A nova tarifa está em vigor desde 14 de janeiro. Trata-se de um aumento de 45% em relação ao preço do ano passado e são 10 euros a mais do que pagam os residentes do Espaço Econômico Europeu. Da sala Mollien, a Liberdade de Delacroix guia o povo e está vendo a discriminação.

Nesta segunda, quem pagou 32 euros no antecipado e chegou cedo para visitar o Louvre encontrou primeiro um aviso de que o museu não iria abrir no horário previsto e, pior, não tinha hora para abrir. Não demorou e apareceram membros do sindicato SUD-Culture Solidaires explicando aos desavisados o porquê.

É que desde o dia 15 de dezembro os trabalhadores do Louvre estão empenhados em uma das mais longas greves da história do museu, em resposta ao corte de pessoal e de recursos que vem resultando em condições de trabalho cada vez mais precárias e nisto aqui, nas palavras do sindicato e como se não bastassem as milhares de selfies por dia com a pobre Monalisa: “visitar o Louvre tornou-se uma verdadeira provação”.

“A retirada do apoio estatal às instituições públicas e as políticas neoliberais dos sucessivos governos impuseram um sistema de suposta rentabilidade que promove a massificação e a comercialização da cultura. O aumento generalizado dos preços dos museus e a introdução de uma taxa adicional para pequenos grupos guiados são um duro golpe para os guias profissionais e prejudicam a igualdade de acesso aos serviços de visita guiada”, diz o comunicado do SUD-Culture Solidaires distribuído aos turistas nesta segunda nas entradas do Louvre.

Nesta segunda, o Louvre abriu à tarde, só à tarde, em operação-padrão. Entre as reivindicações dos grevistas está o fim do tarifaço para não-europeus, política que, de novo nas palavras de quem faz a greve — e faz muito bem —, “atropela nossa história republicana e o universalismo fundador do museu”.

Recentemente, a A Liberdade guiando o povo passou por uma restauração que durou seis meses e removeu camadas de verniz oxidado que sufocavam o azul, o branco e o vermelho da bandeira da República francesa.

Os deserdados da terra e os 140 santos de travertino romano

Detalhe da escultura Angels Unawares, no Vaticano.

Na praça de São Pedro, Cidade do Vaticano, 140 santos católicos espreitam do alto a multidão de devotos e a fila imensa para entrar na basílica homônima. Eles, os santos feitos de travertino romano, estão lá desde o fim do século XVII, início do século XVIII. Bem mais recente é a escultura Angels Unawares, inaugurada por Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, em 2019.

A escultura fica no lado oposto à entrada do enclave papal, à direita da basílica de São Pedro e, portanto, bem no caminho dos que enfrentaram a fila, finalmente conheceram, emocionaram-se e acabaram de sair do maior e mais importante edifício do catolicismo.

Poucos, porém, pouquíssimos devotos prestam atenção à impressionante escultura de bronze de migrantes flagelados e apinhados numa jangada, representando o sofrimento das pessoas que deixam seus países de origem não para fazer turismo religioso, mas por motivo de guerra, miséria, perseguição, tudo, enfim, o que lhes foi legado pelas potências da “civilização cristã ocidental”.

Angels Unawares é uma obra do escultor canadense Timothy Schmalz. No ano passado, após o assassinato de Charlie Kirk nos EUA, Schmalz homenageou o extremista morto com uma escultura em tamanho real de Kirk nos braços do próprio Cristo. A quem interessar possa, a escultura pode ser vista em uma universidade católica da Flórida, a oito mil quilômetros do Vaticano.

A quem interessar possa, entre as coisas que Charlie Kirk dizia antes de ser assassinado estava, por exemplo, que não conseguia sentir “compaixão como a de Cristo” por imigrantes que, segundo ele, “estão nos EUA há mais de 30 anos e não sabem falar inglês”.

Do lado de fora das muralhas do Vaticano, doentes, descalços e toda sorte de desgraçados pela miséria imploram por misericórdia. A quem vai, a quem vem. Alguns, de tão corcundas e de tanta eczema, parecem Salvatores saídos diretamente de O Nome da Rosa. Às vezes, quem vai, quem vem dá a eles uns trocados. A eles, 140 santos de travertino romano dão as costas.

Manchinha, Orelha, esses nomes tão peculiares

Orelha (Foto: reprodução).

No dia 28 de novembro de 2018, uma cadela de rua chamada por todos de Manchinha foi envenenada, espancada e morta no Carrefour de Osasco. Em dezembro daquele ano, a Polícia Civil de São Paulo indiciou um segurança terceirizado do supermercado pelo crime de abuso e maus-tratos a animais.

No tempo entre o crime e a conclusão do inquérito em São Paulo, no Rio a 7ª Vara Cível da Barra da Tijuca precisou determinar que o Carrefour da Barra não praticasse atos que pudessem “ocasionar o extermínio de gatos eventualmente existentes no interior do supermercado”.

O grupo transnacional francês, maior varejista alimentar que opera no Brasil, não foi responsabilizado pela terceirização da atividade-meio, por assim dizer, que deu cabo de Manchinha. Agora, dois empresários de Florianópolis, pais dos frequentadores da Disney que deram cabo de um cão idoso na Praia Brava, em Florianópolis, acabam de ser indiciados pela Polícia Civil de Santa Catarina por coação de um segurança que teria provas do assassinato, o assassinato do Orelha.

Em dezembro de 2018, 20 dias após o assassinato de Manchinha no Carrefour de Osasco, o Carrefour de Osasco pegou fogo. Em uma coincidência impressionante, começa assim o conto “Velório”, do escritor australiano Shaun Tan, que se notabilizou por explicar para as crianças, com sensibilidade ímpar, o quão duro, cão, é o mundo lá fora: “aconteceu um incêndio na casa de um homem que, poucos dias antes, havia matado seu cachorro a pauladas”.

E segue:

“Ele era um homem forte e por isso conseguiu salvar todos seus pertences sozinho, carregando-os da casa para o jardim. Assim que terminou, uma centena de cachorros de todos os tamanhos e formas correu diante das luzes oscilantes, vindos das trevas ao redor, e prontamente sentaram em cima de cada eletrodoméstico e de cada móvel restantes, como se fossem os donos. Além de não deixarem o homem chegar perto e rosnar ferozes quando ele tentava bater neles, ficavam estáticos, olhando impassivelmente para as chamas”.

“O fogo era de uma intensidade surpreendente e a casa veio abaixo em questão de minutos. O homem, enfurecido, saiu procurando uma arma. Como se tivessem entendido, os cachorros pularam para o chão e começaram a circular calmamente pelas trevas enfumaçadas, revezando-se para urinar sobre cada objeto salvo pelo homem. Eles uivaram apenas uma vez, nem muito alto nem muito demorado, mas o uivo continha tanta melancolia que até quem não podia ouvi-lo revirou-se na cama”.

“E então eles se foram, espalhando-se pelas ruas e pelos becos, atentos ao som de suas próprias patas arranhando as calçadas de concreto, o chão que já fora de terra escura e selvagem. Eles não se voltaram para os últimos focos de incêndio na grama, nem mesmo para o homem que retornara segurando um pé de cabra inútil e estava parado sobre as cinzas, sozinho e chorando. Os cachorros só pensavam em seus lares: no cheiro das casinhas quentinhas, nos cobertores macios e nas camas em que os humanos dormiam, aqueles que lhe haviam dado nomes tão peculiares”.

Tipo Manchinha, como Orelha.

O conto “Velório” está no livro infanto-juvenil “Contos de Lugares Distantes”, de Shaun Tan, editado no Brasil pela Cosac Naify. As trevas enfumaçadas estão sempre logo ali, numa “área nobre” de Santa Catarina.

Quarta-feira no Paseo de la Castellana

A luz é como a água, um dos 12 contos peregrinos de Gabriel García Márquez, foi editado no Brasil pela Record em separado, em capa dura e com lindas ilustrações de Carme Solé Vendrell para a aventura fabulosa vivida por Totó e Joel toda quarta-feira no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana, em Madri, quando seus pais, emigrados colombianos, saíam para ir ao cinema: a aventura fabulosa de navegar na luz com barco a remos, bússola e sextante.

Reproduzimos abaixo A luz é como a água, porque hoje bem cedo estivemos no Paseo de la Castellana e em homenagem a todos os pais que já foram fulminados por olhares de reprovação por contarem para seus filhos pequenos, na hora de dormir, a história de como numa quarta-feira como esta, aqui, em Madri, talvez com menos chuva, o quarto ano elementar inteiro da escola São João Hospitalário quebrou tantas lâmpadas acesas ao mesmo tempo que acabou afogando-se na luz, enquanto os pais de Totó e Joel assistiam no cinema A batalha de Argel.

A luz é como a água

Gabriel García Márquez

No Natal os meninos tornaram a pedir um barco a remos.

— De acordo — disse o pai —, vamos comprá-lo quando voltarmos a Cartagena.

Totó, de nove anos, e Joel, de sete, estavam mais decididos do que seus pais achavam.

— Não — disseram em coro. — Precisamos dele agora e aqui.

— Para começar — disse a mãe —, aqui não há outras águas navegáveis além da que sai do chuveiro.

Tanto ela como o marido tinham razão. Na casa de Cartagena de Indias havia um pátio com um atracadouro sobre a baía e um refúgio para dois iates grandes. Em Madri, porém, viviam apertados no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Mas no final nem ele nem ela puderam dizer não, porque haviam prometido aos dois um barco a remos com sextante e bússola se ganhassem os louros do terceiro ano primário, e tinham ganhado. Assim sendo, o pai comprou tudo sem dizer nada à esposa, que era a mais renitente em pagar dívidas de jogo. Era um belo barco de alumínio com um fio dourado na linha de flutuação.

— O barco está na garagem — revelou o pai na hora do almoço. — O problema é que não tem jeito de trazê-lo pelo elevador ou pela escada, e na garagem não tem mais lugar.

No entanto, na tarde do sábado seguinte, os meninos convidaram seus colegas para carregar o barco pelas escadas, e conseguiram levá-lo até o quarto de empregada.

— Parabéns — disse o pai. — E agora?

— Agora, nada — disseram os meninos. — A única coisa que a gente queria era ter o barco no quarto, e pronto.

Na noite de quarta-feira, como em todas as quartas-feiras, os pais foram ao cinema. Os meninos, donos e senhores da casa, fecharam portas e janelas, e quebraram a lâmpada acesa de um lustre da sala. Um jorro de luz dourada e fresca feito água começou a sair da lâmpada quebrada, e deixaram correr até que o nível chegou a quatro palmos. Então desligaram a corrente, tiraram o barco, e navegaram com prazer entre as ilhas da casa.

Esta aventura fabulosa foi o resultado de uma leviandade minha quando participava de um seminário sobre a poesia dos utensílios domésticos. Totó me perguntou como era que a luz acendia só com a gente apertando um botão, e não tive coragem para pensar no assunto duas vezes.

— A luz é como a água — respondi. — A gente abre a torneira e sai.

E assim continuaram navegando nas noites de quarta-feira, aprendendo a mexer com o sextante e a bússola, até que os pais voltavam do cinema e os encontravam dormindo como anjos em terra firme.

Meses depois, ansiosos por ir mais longe, pediram um equipamento de pesca submarina. Com tudo: máscaras, pés-de-pato, tanques e carabinas de ar comprimido.

— Já é ruim ter no quarto de empregada um barco a remos que não serve para nada — disse o pai. — Mas pior ainda é querer ter além disso equipamento de mergulho.

— E se ganharmos a gardênia de ouro do primeiro semestre? — perguntou Joel.

— Não — disse a mãe, assustada. — Chega.

O pai reprovou sua intransigência.

— É que estes meninos não ganham nem um prego por cumprir seu dever — disse ela —, mas por um capricho são capazes de ganhar até a cadeira do professor.

No fim, os pais não disseram que sim ou que não. Mas Totó e Joel, que tinham sido os últimos nos dois anos anteriores, ganharam em julho as duas gardênias de ouro e o reconhecimento público do diretor.

Naquela mesma tarde, sem que tivessem tornado a pedir, encontraram no quarto os equipamentos em seu invólucro original. De maneira que, na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam O Último Tango em Paris, encheram o apartamento até a altura de duas braças, mergulharam como tubarões mansos por baixo dos móveis e das camas, e resgataram do fundo da luz as coisas que durante anos tinham-se perdido na escuridão.

Na premiação final os irmãos foram aclamados como exemplo para a escola e ganharam diplomas de excelência. Desta vez não tiveram que pedir nada, porque os pais perguntaram o que queriam. E eles foram tão razoáveis que só quiseram uma festa em casa para os companheiros de classe.

O pai, a sós com a mulher, estava radiante.

— É uma prova de maturidade — disse.

— Deus te ouça — respondeu a mãe.

Na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam A Batalha de Argel, as pessoas que passaram pela Castellana viram uma cascata de luz que caía de um velho edifício escondido entre as árvores. Saía pelas varandas, derramava-se em torrentes pela fachada, e formou um leito pela grande avenida numa correnteza dourada que iluminou a cidade até o Guadarrama.

Chamados com urgência, os bombeiros forçaram a porta do quinto andar, e encontraram a casa coberta de luz até o teto. O sofá e as poltronas forradas de pele de leopardo flutuavam na sala a diferentes alturas, entre as garrafas do bar e o piano de cauda com seu xale de Manilha que agitava-se com movimentos de asa a meia água como uma arraia de ouro. Os utensílios domésticos, na plenitude de sua poesia, voavam com suas próprias asas pelo céu da cozinha. Os instrumentos da banda de guerra, que os meninos usavam para dançar, flutuavam a esmo entre os peixes coloridos liberados do aquário da mãe, que eram os únicos que flutuavam vivos e felizes no vasto lago iluminado. No banheiro flutuavam as escovas de dentes de todos, os preservativos do pai, os potes de cremes e a dentadura de reserva da mãe, e o televisor da alcova principal flutuava de lado, ainda ligado no último episódio do filme da meia-noite proibido para menores.

No final do corredor, flutuando entre duas águas, Totó estava sentado na popa do bote, agarrado aos remos e com a máscara no rosto, buscando o farol do porto até o momento em que houve ar nos tanques de oxigênio, e Joel flutuava na proa buscando ainda a estrela polar com o sextante, e flutuavam pela casa inteira seus 37 companheiros de classe, eternizados no instante de fazer xixi no vaso de gerânios, de cantar o hino da escola com a letra mudada por versos de deboche contra o diretor, de beber às escondidas um copo de brandy da garrafa do pai. Pois haviam aberto tantas luzes ao mesmo tempo que a casa tinha transbordado, e o quarto ano elementar inteiro da escola de São João Hospitalário tinha se afogado no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Em Madri de Espanha, uma cidade remota de verões ardentes e ventos gelados, sem mar nem rio, e cujos aborígenes de terra firme nunca foram mestres na ciência de navegar na luz.

'Aperte o play e saiba mais': já viu os novos repórteres do Globo?

A logomarca dos 100 anos do jornal O Globo, com o símbolo do infinito e traços de movimento, “sintetiza alguns dos valores fundamentais que orientaram a criação do jornal” e representa um jornal que “está sempre em atualização, 24 horas por dia, todos os dias da semana, em diferentes formatos”.

“Diferentes formatos”, tipo os reels — vídeos curtos, “dinâmicos”, para Facebook e Instagram.

Na tarde desta sexta-feira, 23, O Globo publicou em suas redes sociais um reel com imagens da “caminhada pela liberdade” de Nikolas Ferreira. Os repórteres neófitos que gravaram as imagens publicadas pelo Globo — com direito à call to action “aperte o play e saiba mais” — são Fernando Holiday, Bruno Zambelli, André Fernandes e o próprio Nikolas.

Na compilação de postagens de bolsonaristas publicada pelo Globo, Fernando Holiday, por exemplo, aparece dando entrada em uma UPA, enrolado na bandeira pátria e gemendo de dor nas cartilagens. Já que decidiu agora repostar material de propaganda da extrema direita, O Globo poderia, pelo menos, ter lembrado que em 2020 o mais novo usuário do SUS apoiou um decreto de Jair Bolsonaro (logo revogado, de tão disparatado) que abria as portas para a privatização das Unidades Básicas de Saúde.

Em vez disso, O Globo corrobora a “Paixão de Nikolas” legendando assim, candidamente, seu pot-pourri de aflições produzidas pela extrema direita para as redes sociais: “políticos bolsonaristas enfrentam dores e cansaço em caminhada de 200 km liderada por Nikolas Ferreira, de Minas Gerais a Brasília, em apoio à anistia de Bolsonaro”.

Na parte do reel do Globo em que Nikolas Ferreira é amparado por Bruno Zambelli na “caminhada pela liberdade”, e num sinal dos tempos, a marca d’água do jornal chega a aparecer nas imagens junto com a marca d’água do irmão de Carla e, entre as duas, a manifestação de solidariedade em letras garrafais: “Força, Nikolas!”.

E no fim do reel, quando o deputado André Fernandes aparece tratando os calos do pé, começa a se desenhar, em animação, a logomarca dos 100 anos do Globo, até ficar completa e com o slogan “100 anos de história”, uma história no meio da qual houve, como se sabe, apoio do jornal à ditadura.

Tem jornal que não tratou como devia, como se vê, os calos da sua caminhada.

Impossível, desarrazoável, inadequado

Alexandre de Moraes (Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil).

“As condutas pelas quais o réu foi condenado por essa Suprema Corte foram absolutamente incompatíveis com o Estado de Direito, a democracia e os princípios constitucionais que regem as Forças Armadas e tornam juridicamente impossível, desarrazoável e inadequada a participação do réu em atividades diretamente relacionadas com o aperfeiçoamento das Forças Armadas, as quais desempenham papel essencial na defesa da Constituição, da soberania nacional e da estabilidade do Estado Democrático de Direito”.

Foi nestes termos que nesta quinta-feira, 22, o ministro do STF Alexandre de Moraes pôs fim à tentativa do Exército Brasileiro de transformar um general recém-condenado por tentativa golpe de Estado em consultor doutrinário da Força mediante a realização, na prisão e para remição da pena, de “atividade laboral de cunho intelectual e institucionalmente proveitosa”.

Trata-se do general Mário Fernandes, autor do plano Punhal Verde e Amarelo. A solicitação para Fernandes trabalhar foi encaminhada a Moraes no dia 9 de janeiro pela Assessoria de Apoio para Assuntos Jurídicos do Comando Militar do Planalto (CMP), onde o general cumpre pena sob custódia do Exército. O CMP montou mesmo e enviou a Alexandre de Moraes um Plano Individual de Trabalho para o general que escreveu o plano para matar Lula, Alckmin e o próprio Moraes.

O plano Punhal Verde e Amarelo previa, para o “cumprimento da missão”, “tiro de curta, média ou longa distância ou uso de artefato explosivo” ou ainda o “envenenamento do alvo” com “elemento químico e/ou biológico preferencialmente em Evento Oficial Público”. O Plano Individual de Trabalho montado pelo Exército para Mário Fernandes previa o general fazendo a “revisão de produtos doutrinários e literários” e “produção de textos técnicos sobre história militar, estrutura da Força, doutrina militar terrestre” para a Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército e para o Centro de Doutrina do Exército.

Inicialmente, Moraes autorizou Mário Fernandes a “se classificar para realização de trabalho interno, conforme Plano Individual Trabalho encaminhado pelo Comando Militar do Planalto”. Quatro dias depois, porém, o ministro achou melhor intimar o CMP a especificar, “de forma clara e objetiva”, a natureza das atividades reservadas pelo Exército ao seu custodiado. Afinal, qual “atividade de cunho intelectual” da parte de um general condenado por tentativa de golpe de Estado poderia ser “institucionalmente proveitosa” para o Exército Brasileiro?

O indeferimento à gozação saiu nesta quinta e deve ser “jurisprudência” para barrar camaradagens semelhantes do Exército e da Marinha com outros dois oficiais generais, ex-comandantes de suas respectivas Forças, condenados e presos por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, etc. O Exército quer que o general Paulo Sergio Nogueira faça revisão doutrinária, atualização de livros e manuais da Força Terrestre. A Marinha quer o almirante Almir Garnier na avaliação de sistemas de comando e controle, processos decisórios, simulações operacionais e estudos relacionados a projetos estratégicos da Força Naval.

Não demora e alguém vai pedir ao STF que Silvinei Vasques possa trabalhar para a Polícia Rodoviária Federal, na Papudinha, revisando os procedimentos de atuação da PRF nas estradas em dia de eleição e de controle do fluxo de pessoas na fronteira do Brasil com o Paraguai.

Brizola: os olhos fixos na fogueira e um sorriso maroto no rosto

Leonel Brizola (Foto: reprodução).

Leonel de Moura Brizola faria 104 anos nesta quinta-feira, 22.

‘Parecia estar num voo acima de tudo’

Estamos em 1982. Três anos após voltar do exílio, Leonel Brizola é candidato a governador do Rio de Janeiro. Abrindo a biografia de Brizola escrita por Clovis Brigagão e Trajano Ribeiro, o fotógrafo Aguinaldo Ramos conta a história da foto “Brizola pula a fogueira”, feita no subúrbio carioca durante um ato daquela histórica campanha eleitoral.

Conta Aguinaldo Ramos:

Um dia [do ano de 1982], saí da redação do JB com o repórter J. Paulo para acompanhar o então candidato a governador [Brizola] num roteiro pela Zona Norte da cidade. No começo da tarde estávamos no conjunto Amarelinho, em Irajá, junto à Avenida Brasil. As lideranças locais aproveitaram a promissora visita para fazer, além da luta pela reforma do conjunto, uma manifestação pela paz na comunidade, cercada de favelas. Promoveram a queima, em grande fogueira à frente do conjunto, das armas de plástico recolhidas das crianças. Brizola ganhou a honra de atear o fogo, o que fez com prática de gaúcho churrasqueiro. De repente, vira-se para o mais destacado cabo eleitoral local e pergunta: “tens coragem de pular a fogueira, tchê?!... então vai na frente que eu vou atrás!”.

Os assessores, até mesmo o futuro prefeito Marcelo Alencar, também na campanha, tentaram preservar o chefe. Nada adiantou, Brizola estava tranquilo e ia pular.

Eu me preparei como pude... Busquei uma posição lateral, pus a 24 mm (a maior grande angular que tinha ali), me agachei, mantive o dedo no obturador. O líder local, com a maior desenvoltura, cumpriu sua parte. Acompanhei de rabo de olho, sem apertar, preocupado com Brizola, que podia nem esperar o salto do outro. Ou, refugar... Brizola tinha os olhos fixos na fogueira e um sorriso maroto no rosto. Com suas botinas de gaúcho exilado, camisa azul-clara de mangas arregaçadas, arredou um pouco a garotada, abriu uma roda, concentrou-se e, sem considerações, partiu! No meio do caminho, abriu os braços, parecia estar num voo acima de tudo. aterrissou com perfeição, sem qualquer escorregão ou derrapagem.

E quase estourou a guerra no Hotel da Paz

Outra história de Leonel Brizola contada no livro de Clóvis Brigagão e Trajano Ribeiro:

Na década de 1970, durante o turno de Ernesto Geisel à frente da ditadura civil-militar no Brasil, Brizola, no exílio, foi a Roterdã para fazer contatos com o Partido Trabalhista Holandês e encontrar outros brasileiros exilados, após participar de uma reunião da Internacional Socialista na Alemanha. O engenheiro estava acompanhado de Trajano e sua esposa, Maria Ribeiro, e Moniz Bandeira.

Ao final do seu primeiro dia na Holanda, Brizola recebeu o pernambucano Maurílio Ferreira Lima, ex-deputado cassado, e seu irmão, Bruno Ferreira Lima. À noite, Brizola, Trajano e os irmãos Ferreira Lima conversavam no átrio do Hotel da Paz sobre a situação no Brasil. Durante a conversa, Trajano notou que um homem encostado na recepção prestava atenção no que diziam e sugeriu que o grupo se retirasse para um local mais reservado.

No caminho para o elevador, Trajano alertou Brizola sobre o homem que os observava e disse que, “pela pinta”, era brasileiro. “Não é possível. Tu estás vendo guampa em cabeça de égua”, replicou Brizola.

Segue o relato do livro:

Trajano foi até o recepcionista e perguntou-lhe se o homem que estivera algum tempo encostado no balcão era brasileiro, e o holandês confirmou. Voltou ao grupo em frente ao elevador:

- É brasileiro, governador.

- Mas onde ele está?

- Entrou naquela sala.

Trajano apontou para uma sala ao lado do salão de recepção, onde o homem acabara de entrar. Brizola dirigiu-se a passos largos para lá. Trajano e os Ferreira Lima os seguiram. Era uma sala de estar, onde um grupo assistia a televisão. Trajano mostrou a Brizola o homem. Para seu espanto e dos irmãos pernambucanos, Brizola dirigiu-se ao indivíduo, sentado numa poltrona, postando-se à sua frente:

- Boa noite.

- Boa noite.

- Brasileiro?

- Sim, sou brasileiro.

- Passeando?

- Não, trabalhando. Na verdade, fazendo um curso.

- E o amigo trabalha em quê?

- Sou da Marinha do Brasil.

Refazendo-se do impacto da surpreendente resposta, Brizola disparou:

- Eu sou Leonel Brizola e lhe desejo sucesso na sua missão. Boa noite.

Secretos, escondidos: documentos do Exército sobre os acusados de matar Rubens Paiva ainda estão assim

Brasília, 1963: o então deputado Rubens Paiva participa de sessão da CPI do Instituto Brasileiro de Ação Democrática, o Ibad (Foto: reprodução).

Há cerca de um ano, no auge do sucesso de público e crítica do filme Ainda estou aqui, que aborda o caso Rubens Paiva, a ótima plataforma Fiquem Sabendo solicitou ao Exército Brasileiro acesso às fichas funcionais dos agentes da ditadura acusados de torturar e assassinar o ex-deputado em 1971. Para surpresa de zero pessoa, o Exército negou o pedido.

O caso foi parar na Controladoria-Geral da União e, em julho do ano passado, a CGU, em decisão histórica, deu 30 dias para o Exército disponibilizar a papelada. Para surpresa de zero ser vivente, o Exército pediu revisão da decisão. A CGU manteve a decisão. O Exército, então, na virada do ano, bateu na porta da Advocacia-Geral da União para manter os documentos escondidos do povo brasileiro e eles ainda estão assim, até hoje, mais de meio século após o crime contra a humanidade. E assim seguirão, secretos, escondidos, enquanto a Câmara de Mediação e Conciliação da AGU não arquivar a chicana da caserna, o que, segundo a Folha de S.Paulo, deve acontecer em breve.

O Exército garante que não quer manter nada debaixo do Tapete Guararapes, peça (esta bem à vista) de seis por doze metros do acervo do Quartel-General da Força, em Brasília. O Exército afirma, afirmou à Folha, que quer apenas estabelecer as condições, os detalhes de um “eventual” fornecimento de dados sensíveis, de “informações pessoais de militares” e com “potencial impacto sobre a hierarquia e a disciplina”…

Treze anos atrás, em fevereiro de 2013, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) confirmou, com novos documentos (entregues nunca, jamais pelo Exército, mas pela família de um coronel reformado assassinado em 2012), o que já se suspeitava fortemente: Rubens Paiva foi torturado e morto nas dependências do DOI-CODI do I Exército, no Rio de Janeiro.

Meses depois, em setembro daquele ano, senadores da Subcomissão Permanente da Memória, Verdade e Justiça e membros da CNV estiveram na Rua Barão de Mesquita 425, na Tijuca, instalação militar onde funcionou o DOI do I Exército, para realizarem uma inspeção após o Comando Militar do Leste impedir membros da Comissão da Verdade do Rio de acessarem o local.

Para surpresa de zero criatura que caminha sobre a Terra, o então deputado Jair Bolsonaro apareceu no local no dia e na hora da inspeção, para tumultuar a visita, chegando a agredir o senador Randolfe Rodrigues, então membro da subcomissão da Verdade, Memória e Justiça e autor do requerimento para a diligência. Depois, Bolsonaro disse que não queria tumultuar nada, que não agrediu ninguém.

E disse também que um soco dele, Bolsonaro, teria potencial impacto para fazer, bem ali onde um ex-deputado foi torturado e assassinado pelo Exército, um senador da República “desmontar”, para botá-lo “para dormir três dias no chão”.

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