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Secretos, escondidos: documentos do Exército sobre os acusados de matar Rubens Paiva ainda estão assim

Brasília, 1963: o então deputado Rubens Paiva participa de sessão da CPI do Instituto Brasileiro de Ação Democrática, o Ibad (Foto: reprodução).

Há cerca de um ano, no auge do sucesso de público e crítica do filme Ainda estou aqui, que aborda o caso Rubens Paiva, a ótima plataforma Fiquem Sabendo solicitou ao Exército Brasileiro acesso às fichas funcionais dos agentes da ditadura acusados de torturar e assassinar o ex-deputado em 1971. Para surpresa de zero pessoa, o Exército negou o pedido.

O caso foi parar na Controladoria-Geral da União e, em julho do ano passado, a CGU, em decisão histórica, deu 30 dias para o Exército disponibilizar a papelada. Para surpresa de zero ser vivente, o Exército pediu revisão da decisão. A CGU manteve a decisão. O Exército, então, na virada do ano, bateu na porta da Advocacia-Geral da União para manter os documentos escondidos do povo brasileiro e eles ainda estão assim, até hoje, mais de meio século após o crime contra a humanidade. E assim seguirão, secretos, escondidos, enquanto a Câmara de Mediação e Conciliação da AGU não arquivar a chicana da caserna, o que, segundo a Folha de S.Paulo, deve acontecer em breve.

O Exército garante que não quer manter nada debaixo do Tapete Guararapes, peça (esta bem à vista) de seis por doze metros do acervo do Quartel-General da Força, em Brasília. O Exército afirma, afirmou à Folha, que quer apenas estabelecer as condições, os detalhes de um “eventual” fornecimento de dados sensíveis, de “informações pessoais de militares” e com “potencial impacto sobre a hierarquia e a disciplina”…

Treze anos atrás, em fevereiro de 2013, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) confirmou, com novos documentos (entregues nunca, jamais pelo Exército, mas pela família de um coronel reformado assassinado em 2012), o que já se suspeitava fortemente: Rubens Paiva foi torturado e morto nas dependências do DOI-CODI do I Exército, no Rio de Janeiro.

Meses depois, em setembro daquele ano, senadores da Subcomissão Permanente da Memória, Verdade e Justiça e membros da CNV estiveram na Rua Barão de Mesquita 425, na Tijuca, instalação militar onde funcionou o DOI do I Exército, para realizarem uma inspeção após o Comando Militar do Leste impedir membros da Comissão da Verdade do Rio de acessarem o local.

Para surpresa de zero criatura que caminha sobre a Terra, o então deputado Jair Bolsonaro apareceu no local no dia e na hora da inspeção, para tumultuar a visita, chegando a agredir o senador Randolfe Rodrigues, então membro da subcomissão da Verdade, Memória e Justiça e autor do requerimento para a diligência. Depois, Bolsonaro disse que não queria tumultuar nada, que não agrediu ninguém.

E disse também que um soco dele, Bolsonaro, teria potencial impacto para fazer, bem ali onde um ex-deputado foi torturado e assassinado pelo Exército, um senador da República “desmontar”, para botá-lo “para dormir três dias no chão”.

História recente da peçonha

O presidente Lula (Marcelo Camargo/Agência Brasil).

Por estes dias, apenas os primeiros dias do ano eleitoral, Flavio Bolsonaro e criaturas que tais andaram espalhando via Meta e via X que Lula teria afirmado que “pobre não precisar estudar”. Como assim? Foi assim: na semana passada, em uma cerimônia em Brasília pelos 90 anos da criação do salário mínimo, Lula usou a primeira pessoa para criticar, digamos, a “expectativa” das elites brasileiras sobre as classes populares: “pobre não nasceu pra estudar, porra! Você nasceu pra trabalhar!”.

Não é novidade, a artimanha. Em setembro do ano passado, circulou feroz nas redes sociais um vídeo mostrando Lula supostamente atacando negros e pobres com uma coleção de declarações preconceituosas. Em uma delas, Lula aparecia dizendo que “negro não tem que aprender, negro tem que trabalhar”. O que não aparecia no vídeo era que Lula, na verdade, tinha usado a frase para ilustrar a “mentalidade escravagista” delas, as ferozes elites nacionais.

Antes, em 2023, e na mesma linha, espalhou-se como um rastilho de pólvora entre paióis, ou melhor, entre grupos de WhatsApp, um vídeo de Lula dizendo que o “papel do trabalhador é trabalhar e o papel do pobre é esperar as políticas de ajuda do governo”. O vídeo puxava ali do baú dos preconceitos que grassam nas classes médias do país a aversão ao Bolsa Família. Lula, na verdade, tinha criticado a histórica ausência de políticas de inclusão social nos países da América Latina. Mas isso a Globo, ou melhor, a Meta não mostra.

Há quatro anos, em 2022, a poucos dias do segundo turno das eleições daquele ano, o que viralizou foi um vídeo de apenas oito segundos falseando, desvirtuando, adulterando uma fala de Lula contra os políticos que só lembram dos pobres em período eleitoral. Como? Para quê? para fazer crer que ele, Lula, o presidente que mais tinha feito contra a miséria na história do Brasil, largaria os pobres à própria sorte tão logo acabassem as eleições.

Ainda mais lá atrás: em janeiro de 2022, começaram a circular na internet vídeos manipulados que mostravam recortes de um encontro de Lula, meses antes, com lideranças do movimento negro em Salvador; vídeos que mostravam frases de Lula picotadas e rearranjadas de modo a fazer crer que o então pré-candidato à presidência da República estava “falando com o demônio” depois de receber uma imagem de Xangô e tomar um banho de pipoca de Obaluaê.

A fala completa de Lula na Bahia tinha sido a seguinte:

“Ontem, quando eu cheguei, as mulheres no palco jogaram pipoca em mim e me entregaram um santo, me entregaram um Xangô. E nas redes sociais do bolsonarismo, eles estão dizendo que eu tenho relação com o demônio, que eu estou falando com o demônio e o demônio está tomando conta de mim. Mas é uma campanha massiva, é uma campanha violenta como eles sabem fazer, do mal, massiva, é uma campanha violenta como eles sabem fazer, do mal. Eles só sabem fazer isso.”

O que fez, então, por exemplo, ele, Flavio Bolsonaro? Compartilhou um vídeo editado no qual Lula aparecia dizendo apenas que “eu estou falando com o demônio e o demônio está tomando conta de mim”. E fez, o 01, a seguinte convocatória a seus milhões de seguidores nas redes sociais: “marque seu pastor, padre, rabino nos comentários. Envie este vídeo a sua liderança religiosa e pergunte o que ela pensa disso. A guerra é também espiritual”.

O TSE foi acionado e em maio de 2023 — só em maio de 2023, quase um ano e meio depois — Flavio foi punido, mas apenas com uma multa de R$ 5 mil…

O responsável pela publicação do vídeo desfigurado, da peçonha compartilhada por Flavio Bolsonaro, um vereador bolsonarista chamado Rômulo Quintino, também foi multado e hoje ele é superintendente da Administração de Cemitérios e Serviços Funerários de… Cascavel. Flávio Nantes Bolsonaro é senador e pré-candidato à Presidência da República e agora as “deep fakes”, como as eleições de 2026, estão aí. As mentiras ultrarrealistas feitas com IA estão aí, à mão que fazia a rachadinha, e até agora sem soro antiofídico eficaz.

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