Sem autorização, a irmã de Samir Xaud usou a imagem dos dois principais jogadores da seleção brasileira em seu negócio privado.
Em duas postagens no instagram da “Ponto com Gelo”, Neymar e Vinícius Jr aparecem fazendo propaganda da fábrica. A empresa, cujo nome de registro é “Única Indústria de Gelo ltda”, com sede em Boa Vista, Roraima, tem como proprietária, de acordo com os documentos da Receita Federal e da Junta Comercial daquele estado, Samara de Araujo Xaud, irmã do presidente da CBF. As peças foram feitas com uso de inteligência artificial.
A reportagem do Lance entrou em contato com os dois jogadores para saber se teriam feito publicidade ou consentido as publicações. Através da assessoria de imprensa, Neymar negou qualquer relação. “A NR Sports não mantém nenhuma relação comercial com a indicada empresa, tampouco foi autorizado o uso da imagem do Neymar Jr”. A assessoria de Vinícius Jr também desmentiu a parceria ou cessão de imagem e informou que o corpo jurídico
que trabalha com o atleta iria interpelar a empresa em questão para a retirada da postagem.
Enviamos pedido de resposta para Samara Xaud via o contato da empresa, sem resposta. Pedimos ainda que a CBF, por meio do departamento de comunicação, informasse se o presidente da entidade estava ciente dos anúncios da irmã. “O presidente Samir Xaud não tinha conhecimento das postagens”, informou a assessoria.
Ainda ontem, logo após o envio do pedido de resposta para a proprietária Samara Xaud por parte desta reportagem, as postagens com as imagens de Vinícius Jr e Neymar Jr foram removidas da página do instagram da fábrica de Samara Xaud. A reportagem printou ambos os posts antes do envio do pedido de “outro lado”.
Além da fraude em si, tanto Neymar quanto Vinícius Júnior estão retratados na montagem de maneira pejorativa para atletas.
Neymar aparece em postagem como se estivesse aplicando gelo em cima de contusão, em alusão ao histórico de lesões do jogador, e com uma legenda irônica, afirmando que “nos bons momentos, a Ponto com Gelo tá junto. Nos tombos de Neymar também”, seguido por um emoji tradicional de risada e outro de gelo. O post da fábrica com Neymar estava no feed da fábrica e foi postado no dia 21 de maio, três dias após o anúncio da convocação do grupo que iria para a Copa do Mundo.
Entre as 48 equipes participantes do Mundial, a seleção brasileira foi a única a realizar um evento grandioso para o anúncio. Na ocasião, no Museu do Amanhã, centro do Rio de Janeiro, empresas com laços de negócios anteriores com o vice-presidente da CBF Gustavo Dias Henrique foram as responsáveis pela realização da dispendiosa superprodução. O auge da cerimônia foi o anúncio da convocação de Neymar, que, ao ter seu nome proferido na lista pelo técnico Carlo Ancelotti foi recebido com urros da plateia, formada por uma mistura de jornalistas, influencers e os denominados “parças”, como são conhecidos os amigos do jogador.
Já a postagem da empresa de Samara Xaud sobre Vinícius Júnior tem características do que, no jargão do mercado publicitário, é chamado de “kitsch”, ou seja, uma peça de gosto duvidoso ou mesmo de mau gosto. No caso em questão, deselegante.
No dia 15 de maio, a Ponto com Gelo publicou uma imagem falsa, feita com utilização de inteligência artificial, na qual o atacante do Real Madrid aparece em uma mesa de bar com expressão consternada e de choro, cabisbaixo, cotovelo sobre a mesa amparando a cabeça e diante de um copo de uísque com gelo. Ao lado, um saco plástico com o logotipo da empresa e uma mensagem: “Nos bons ou maus momentos, a Ponto com Gelo está sempre com você, menino Vini Jr”.
Horas antes da postagem da Ponto com Gelo, logo pela manhã, a influencer Virgínia Fonseca tinha anunciado pelas próprias redes o término do namoro de seis meses com Vinícius Júnior. Ao fundo, como trilha sonora, a empresa de Samara Xaud usou a música “Pra você”, do conjunto “O filé do brega”, onde aparecem os versos “Tu sabes que eu preciso do seu amor/Amor igual ao teu jamais vou encontrar/Não conseguirei ficar longe de você”.
A falsa associação da marca feita via inteligência artificial e sem autorização para uso da imagem e remuneração, além de constituir violação aos direitos autorais e à personalidade, é também um pesado drible financeiro nos atletas.
De acordo com levantamento feito pela reportagem do Lance em publicações nacionais e estrangeiras, o valor no mercado de Neymar e Vinícius Júnior para esse tipo de publicidade chega a milhões.
Divulgada três dias após a convocação, confirmada a inclusão do craque santista na lista, a peça sem consentimento da Ponto com Gelo é paralela no tempo a três postagens oficiais do jogador logo após a confirmação da presença.
Em cada uma, Neymar faturou aproximadamente R$ 10 milhões, ou seja, total de R$ R$ 30 milhões.
Já uma postagem de Vinícius Júnior no feed do instagram, como é chamada a grade principal da rede onde ficam armazenadas fotos e vídeos, é avaliada em cerca de US$ 600 mil, o equivalente a R$ 3.089.100,00.
FÁBRICA DE GELO TEM COMO ATIVIDADE SECUNDÁRIA A EXTRAÇÃO DE MADEIRA
Localizada em uma área de 385,92 metros quadrados no bairro Centenário, na capital roraimense, a empresa teve seu capital social aumentado em 22 de dezembro de 2022, passando de R$ 300 mil para R$ 450 mil. Além do objeto principal, a “fabricação de gelo comum”, a fábrica de Samara Xaud tem, entre outras atividades secundárias registradas a “extração de madeira em florestas plantadas”.
Irmã mais velha do presidente da CBF, com 50 anos, Samara Xaud tem um histórico de envolvimento em casos com denúncias de corrupção. A roraimense ingressou como assessora parlamentar comissionada no gabinete do senador Chico Rodrigues (PSB-RR) em maio de 2019, com salário de R$ 10.447,29 e se desligou em dezembro de 2020. Menos de dois meses depois foi nomeada assessora especial da presidência da Assembleia Legislativa de Roraima.
SAMARA XAUD FOI PEÇA IMPORTANTE NO “ESCÂNDALO DA CUECA”
A saída veio depois de um episódio com repercussão nacional que ficou conhecido como “O escândalo da cueca”, no qual a irmã de Samir Xaud teve importante participação.
Em 14 de outubro de 2020, Chico Rodrigues, à época vice-líder do governo Bolsonaro, foi flagrado com dinheiro escondido na cueca em uma operação da Polícia Federal que investigava o desvio de cerca de R$ 20 milhões em emendas parlamentares destinadas ao combate à covid-19.
Durante o cumprimento do mandado de busca e apreensão na casa do parlamentar, em Boa Vista, a PF encontrou cédulas de dinheiro escondidas na cueca e até entre as nádegas do senador, num total de R$ 33.150,00. A PF gravou o instante da apreensão, que acabou exibido para todo o Brasil. Na ocasião, Chico Rodrigues negou qualquer irregularidade e afirmou que o dinheiro seria usado para pagar funcionários. O parlamentar justificou ter escondido as notas porque teria entrado em pânico com a batida da PF.
Na ocasião, Chico Rodrigues foi denunciado por peculato, advocacia administrativa, embaraço às investigações e lavagem de dinheiro. Em 6 de dezembro de 2021, Chico Rodrigues foi amplamente citado no relatório da CPI da Saúde.
MARIDO DE SAMARA XAUD É APONTADO COMO O OPERADOR DO “ESCÂNDALO DA CUECA”
Samara e Rodrigues ainda dividem outra ligação no caso. Ela é casada desde 13 de julho de 2010 com Jean Frank Padilha Lobato, ex-deputado estadual por Roraima e apontado como o operador de Chico Rodrigues.
O relatório da Polícia Federal indica que Chico Rodrigues repassou R$ 3,2 milhões para a Quantum Empreendimentos e Saúde, empresa registrada em nome de Roger Pimentel. No entanto, por ocasião da operação, a PF apontava que o verdadeiro dono da empresa seria Jean Frank, o marido de Samara Xaud.
A PF afirma também que Jean Frank e Chico Rodrigues chegaram a trocar 3,5 mil mensagens de WhatsApp ao longo de dois anos. De acordo com a PF, Jean Frank tratava Chico Rodrigues como “chefe”.
INQUÉRITO DA PF AFIRMOU QUE IRMÃ DO PRESIDENTE DA CBF OPERAVA A CONTA BANCÁRIA UTILIZADA PARA O DESVIO
Na peça, está descrito que Jean Frank e Samara Xaud recebiam depósitos fracionados regularmente provenientes do esquema. Na época da operação, a PF ainda encontrou na residência do casal um cronograma para destinação de verba superior a R$ 19 milhões, que as autoridades concluíram serem provenientes de recursos de emenda do senador.
De acordo com o inquérito da PF, Jean Frank recebia o dinheiro em espécie e em uma conta bancária operada por Samara Xaud.
Em um dos diálogos gravados pela PF no telefone grampeado de Roger Pimentel, de acordo com o inquérito, Samara Xaud relata a função de sacar o dinheiro da conta: “o Jean pega o dinheiro, aí ele já esquece que pegou o dinheiro. No dia seguinte ele acorda e “Nunca peguei dinheiro com você”. Então… é …todo dinheiro que eu to passando pra ele eu tenho comprovante de tudo. Porque eu tenho que sacar, entendeu”?
No último dia 7, em reportagem de Vicente Seda, o Lance publicou que Samara Xaud viajou para Coreia do Sul e Japão em outubro de 2025, em datas que coincidem com amistosos da seleção naquele país, com as notas faturadas na CBF. A entidade nega.
OUTRO LADO:
SAMARA DE ARAUJO XAUD:
A reportagem enviou questões para a empresária mas não obteve resposta.
CBF:
A reportagem questionou a CBF se o presidente da entidade tinha conhecimento de que a irmã utilizava a imagem
dos atletas que estavam defendendo a seleção brasileira na Copa do Mundo para propaganda da própria fábrica pelo
instagram da empresa:
“O presidente Samir Xaud não tinha conhecimento das postagens”
VINÍCIUS JR:
O jogador Vinícius Jr, por meio da assessoria de imprensa, informou que jamais cedeu a imagem para tal uso e que
o corpo jurídico do atleta irá notificar a empresa.
NEYMAR JR:
“A NR Sports não mantém nenhuma relação comercial com a indicada empresa, tampouco foi autorizado o uso da
Já escrevi e falei isso tantas vezes. E certamente irei falar outras tantas.
Todos os meus pensamentos correram para isso quando França x Paraguai acabou e um debate feroz se iniciou.
Era uma ode ao Paraguai, alçado a utopia e símbolo da Pátria Grande possível. O sonho de Bolívar redivivo, os defensores del chaco dizendo presente para nos restituir a glória.
O canto dos espoliados, Taiguara, Mercedes Sosa e Silvio Rodrigues numa zaga inexpugnável, a resistência ao ataque do colonizador.
Tinha muito mais.
De repente, textos em profusão com uma sentença: quem não entendeu isso ou teve a mesma leitura, não entende nada sobre esse jogo. Muito mais: não entende nada sobre a vida.
Era Guimarães Rosa torcido até virar o que vira uma história quando se repete: uma farsa.
Parece que entenderam errado o sentido da vida querer coragem da gente.
Talvez tenha faltado Caetano irromper o debate para gritar: “vocês não estão entendendo nada”.
Faltou Caetano falar que sempre que ganhamos desse colonizador nas quatro linhas foi pelos hermetismos pascoais da bola com seus tons e seus dons geniais e não por tapas, simulações e cotovelaços.
Nunca ganhamos do lado de cima do Equador dando tapa, tiro, porrada e bomba.
É assim desde que Pastinha e Bimba ensinaram como drible para ganhar do colonizador. Aquele que trouxe a bola debaixo do braço e perdeu a receita por aqui.
Nunca.
Voltemos a Galeano.
É dele não só a mais poética explicação do que são nossas veias abertas mas também a didática milimétrica para contar como o Uruguai de 50, o time considerado como maior exemplo de coragem e virtude de todos os tempos, deu a maior aula de coragem da história do futebol.
Foi ele que sintetizou os fatos daquele Brasil x Uruguai da Copa de 50.
Enquanto as redes sociais de outrora exaltavam o tapa de Obdulio em Bigode, o tapa que nunca houve e foi criação abjeta da mente de racistas para criminalizar outro preto além de Barbosa, o maestro uruguaio nos contou com breves palavras o que aconteceu em campo. Muito mais do que isso: explicou como uma mentira sobre uma falsa valentia virou ato fundador de um fracasso de décadas.
Foi a partir do mito do “Uruguai valente que por isso ganhou a Copa de 50” que o país vizinho caiu num buraco de anos. Porque achava que futebol era tapa na cara.
“O Uruguai ganhou quando estava perdendo graças à coragem. E cometeu a metade das faltas do Brasil. Naquele tempo, não confundíamos a coragem com as patadas e jogo sujo”. Zizinho corroborava a tese. O Uruguai ganhou porque tinha mais time e jogou mais bola. Ponto.
De sua mesa fixa no Café Brasilero de Montevideu, que, tal como a mesa de Hemingway na Bodeguita não podia ser tocada sem seu convite, adorava falar sobre o tema.
Tinha profundo asco da herança maldita daquela crença de que o Uruguai teria conquistado uma Copa por sua virilidade, rasteiras e tapas que tanto mal fez ao seu país e por tanto tempo mutilou o DNA futebolístico de um país.
Foi nessa mesa que esse mui humilde reportero ouviu isso dele pela primeira vez.
Foi dali que soltou a frase que dava conta de sua tristeza pelas lições de macheza em campo dos conterrâneos que destruíram um jogo tão bonito quanto vencedor. Uma poética sentença:
“Ali ficamos. Ancorados. Ás vezes, a memória atua como âncora, não como catapulta”.
Galeano teve profunda esperança em ver seu amor pelo futebol do país recuperado quando Juan Ramon Carrasco assumiu a seleção em 2003. Exaltava que no primeiro jogo o time fez apenas 10 faltas. E adorou o discurso de Carrasco em defesa da verdadeira tradição uruguaia e não daquela falsificação de coragem. “Parem de sofrer”.
Seguiu feliz quando o Maestro Tabarez assumiu fiel a essa ideia. Tinha razão.
Não foi só o Uruguai que historicamente sofreu com a distorção que agora ressurge na macheza sudaca tuiteira.
A história do futebol continental é também a história da eficiência do jogo jogado sobre a farsa da velha e surrada canção de que futebol raiz é jogo sujo, Libertadores raiz é eficiente…
Observe atento que ninguém aqui está caindo na falsa e infantil defesa de um “jogo bonito”. É sobre jogo jogado sempre ter sido mais eficiente do que jogo sujo ou que “futebol também se ganha no vale-tudo”.
E sim, aqui futebol e política, como em qualquer lugar, andam e sempre estarão juntos.
O auge da convicção de que o jogo sujo é do jogo e ganha jogo veio junto com a “Operação Condor”.
Ao mesmo tempo em que se rasgavam as leis e constituições de países, rasgavam-se as regras do jogo.
Chile, Paraguai, Uruguai. E por aqui também. Foi muito alto o preço do que agora virou exaltação.
E virou papo sobre quem entende o sentido da vida e quem não entende.
Não existe paralelo na história do futebol de alguém que tenha pago mais caro pela convicção de que “futebol também se joga assim/futebol se ganha assim” do que o Chile nos anos Pinochet.
Ninguém pagou um preço mais alto do que o Chile, agora esquecido no ostracismo dos fora de Copa. Por acreditar nesse pretenso e falso “futebol raiz”. Que de raiz nada tem.
Foi o mesmo país que serviu como o primeiro laboratório da história para a implementação do neoliberalismo com seus Chicago Boys tomando as pastas da economia e cortando direitos da população que viveu o extremo maior dessa convicção do vale-tudo no futebol.
Pinochet sabia exatamente sobre a força do futebol como propaganda.
Ganhar a qualquer custo era seu entendimento sobre a bola.
Com seu títere Gordon Cañas, general carabinero na presidência da Asociación Central de Fútbol (ACF), era hora de botar em prática.
Foi o tempo da “Plata Dulce”, do “Caso Paysandu” e da fogueteira Rosemary. Todos com a mesma convicção: valia tudo para ganhar. E com o mesmo final: perderam tudo.
O dinheiro da ditadura jorrando. Valia tudo.
Falsificar passaportes de jogadores da base para a disputa de um sulamericano e ser fragorosamente derrotado.
Os Chicago Boys enchendo o futebol de dinheiro através do Banco Hipotecario de Chile (BHC) para provar que o modelo neoliberal através do futebol-empresa era a revolução e o caminho da vitória. Esperam até hoje os avós das atuais SAFs.
Na era da “Plata Dulce”, valia manipular resultado e até fazer gol sem adversário em campo num estádio transformado em campo de concentração.
O fim foi isso que está aí: a quase morte de um país futeboleiro.
A Argentina não difere.
A junta assassina de Videla queria a vitória a qualquer custo. E teve.
A parte disso que não te contam e também deturpam é que muito mais do que Videla, foi a vitória de um treinador que era a antítese disso tudo.
Que resgatou o DNA de um modo de jogar bola, “la nuestra” e do “toco e me voy”.
Troca constante de posições, triangulações, desmarques imediatos após o passe e circulação permanente. Tudo isso fala muito mais sobre o campo e bola de 1978 do que qualquer crença em ganhar a qualquer custo dos generais. A monumental biografia “Menotti”, de Ezequiel Fernandez Moores te conta melhor sobre isso.
O Brasil de Saldanha e depois de Zagallo também nada tinha de ganhar a qualquer custo. Muito mais do que deles, de Pelé, Tostão e companhia. Definitivamente, a história desse país no futebol é de pernas tortas e não da vitória com tapa na cara e antijogo.
Seria curiosa, não fosse uma distorção quase grotesca a exaltação que anda rolando do discurso pré-jogo de Alfaro no vestiário antes de encarar a França.
Fique claro que se entende o contexto motivacional de um vestiário. Fora dele, tomar como verdade é quase caricatural.
Nas palavras do treinador, de um lado estavam jovens lutando por um prato de comida. Do outro, almofadinhas fúteis em busca de brilhos individuais para se admirarem diante do espelho.
Curioso é que do mesmo Paraguai, antes do jogo, o fascista Chilavert, fã de Pinochet, dizia que “jogar contra a França era jogar contra uma seleção africana”.
Decidam-se.
Paupérrimo quase tocando no patético é falar sobre isso. Sobre uma França de meninos periféricos que lutaram também por mudar de vida como seus pares do outro lado e que sofreram com a hidrofobia dos Le Pen da vida.
Pescados em projetos sociais e, acima de tudo, políticas públicas exitosas que mudaram suas histórias. E a do futebol francês.
São esses os almofadinhas, os que iriam se assombrar como janotinhas bobinhos com a malandragem? Às vezes a gente torce para ser poupado de ver certas coisas…
Franceses vindos no caminho da volta dos pais subjugados em colônias.
Tão vítimas do general francês, o facínora genocida Paul Aussaresses, quanto nós. O Carrasco de Argel, e também do Brasil, do Paraguai, do Chile, da Argentina, do Uruguai…Carrasco dos avós de todos ali de azul.
Curiosa ainda é a exaltação a uma Libertadores mítica onde, para ganhar, era preciso saber jogar sujo.
É que a memória anda falha para alguns. Em alguns casos. Em outros, é só canalhice mesmo.
Nunca ganhamos uma Libertadores com essas armas por aqui. Pelo contrário.
FOI A GENIALIDADE DE ZICO E DE UM TIME DE SONHOS QUE DERROTOU AS PEDRAS NA MÃO DE MÁRIO SOTTO
Foi a genialidade de Zico e de um time de sonhos que derrotou as pedras na mão de Mário Sotto.
E aqui voltamos a Pinochet, a “Plata Dulce” e a velha convicção de que vale tudo para ganhar.
Pouco se fala do heroísmo daquela conquista.
Não, não era um time do outro lado vestindo laranja.
Era a mais pura criação, representação e obra de Pinochet.
Que havia entendido que aqueles protestos contra a ditadura teriam na distração do futebol sua melhor forma de combate.
Um time para cada recanto do Chile e muita plata dulce. Sim, te lembra “onde a Arena vai mal, um time no nacional”. As ditaduras são monotonamente iguais em suas ideias.
Aquele Cobreloa, fruto direto da plata dulce, criado poucos anos antes para que mineiros do grotão do país se distraíssem e não prestassem atenção em “comunistas”, tinha que ganhar.
O zagueiro entrou com pedra na mão. Os jogos foram uma carnificina.
Foi Zico quem avisou: “para ganhar, só tem um jeito: jogar bola”.
Um mês depois dali, teve 3 x 0 no Liverpool, botando os ingleses na roda.
Foi esse mesmo Flamengo que protagonizou o último grande recital do futebol brasileiro em uma Libertadores. O Flamengo de Jesus. Jogando muita bola.
Teve o Fluminense de Diniz também. Sim, tinha Felipe Melo. Mas o que te faz lembrar desse time é o toco e me voy também.
O coitadismo de um Paraguai onde jorra o dinheiro pelas torneiras de Alejandro Dominguez, cada dia mais forte na FIFA, e suas contas secretas no Catar também não faz bem a história do coirmão.
E ninguém aqui está falando, note-se bem, sobre sistemas de jogo, jogar atrás. O próprio Paraguai fez isso contra a Alemanha e bem. Sem tirar a fantasia de malandro. É sobre atitudes. E sobre a velha convicção que deixou o cemitério cheio de malandro: a de que era mais malandro do que a malandragem toda.
O futebol é tão encantador que, de repente se vê um monte de gente, para fechar com Galeano de novo, “teve como coisa mais emocionante da vida atravessar a rua com o sinal aberto” falando que “futebol é sobre isso também, é sobre malandragem, sobre ser mais esperto…”.
Tem também aquele tipo que se acha mais à esquerda do que o Che porque acredita que isso é contra o sistema. Isso. Alejandro Dominguez, Samir Xaud. Todos contra o sistema… Vão ter que entrar na fila e cantar a Internacional todo dia por mil anos. Aí conversamos.
Vai ser um dia agitado em muito playground. Entre uma pipa e outra solta diante do ventilador, vai ter muito menino de gel defendendo que para ganhar vale-tudo. Pior: que o antijogo para ganhar tem que ser assim. Mesmo que a história diga um rotundo não a tudo isso.
Um largo sorriso estampado no rosto, o troféu de campeão empunhado pelo braço direito e o número 1 com o indicador da mão esquerda apontando o lugar no alto do pódio.
A foto é o melhor resumo possível do dia 25 de março de 2023 no Kartódromo Gilberto de Araújo Sobrinho, em Boa Vista, Roraima.
O piloto do carro 25 dominou o sábado que abriu a temporada.
Vencedor na categoria “Graduados A” e terceiro lugar na “Força Livre”.
Foi o prenúncio de um ano de glórias do “Passarão”, que ao fim de oito etapas sagrou-se campeão roraimense da categoria “Força Livre” e quinto colocado na “Graduados A”.
A história que a foto não conta está em uma série de documentos obtidos pela reportagem. Registros públicos que permitem montar um quebra-cabeça.
O “Passarão” é o codinome de Samir Xaud no automobilismo.
Funcionário público, lotado como médico da Secretaria de Estado de Gestão Estratégica e Administração (SEGAD) de Roraima, Xaud estava sob licença médica e afastado do trabalho no dia da prova de kart citada.
O documento registrava “incapacidade para o exercício das funções” e “incapacidade para o exercício de outras funções correlatas”.
Um episódio longe de ser um caso isolado. O cruzamento dos atos publicados no Diário Oficial do Estado de Roraima com documentos obtidos através de Lei de Acesso à Informação (LAI) mostra que o agora presidente da CBF passou mais da metade do tempo em que esteve como servidor afastado do exercício do cargo.
Amparado em licenças que descreviam distintas razões: tratamento médico em diferentes situações, licença para candidatura a deputado, licença por atividade classista, cessão para o tribunal de justiça e licença psiquiátrica.
Samir Xaud foi médico da secretaria de saúde de Roraima entre 24 de fevereiro de 2014 a 16 de maio de 2025, quando pediu a licença sem remuneração por 2 anos atualmente em vigor para ocupar a presidência da CBF.
MAIS FORA DO QUE DENTRO: XAUD PASSOU 51,05% DO TEMPO LONGE DO EXERCÍCIO DO CARGO PÚBLICO
Os números desse período no serviço público em que o atual presidente da CBF esteve fora do exercício de suas funções chamam a atenção.
Do ingresso no funcionalismo em 2014 até a licença vigente desde 16 de maio 2025, foram 4.100 dias.
Desse total, Samir Xaud esteve por 2.007 dias no exercício regular do cargo.
E em 2.093 dias estava de licença.
Aproximadamente uma licença a cada nove meses.
Uma rotina iniciada logo no ano seguinte da posse e que se intensificou na sequência.
Total fora do exercício do cargo público: 51,05% dos dias.
(Eventualmente, de acordo com a metodologia adotada, os números em questão sobre dias de licença e dias trabalhados podem divergir em pequena margem. A reportagem adotou como critério o mesmo utilizado por auditorias funcionais e cálculos de afastamento, ou seja, valendo-se das datas reais de início e fim do afastamento e não a mais frequentemente utilizada, a equivalência genérica, ou seja “um mês igual a 30 dias”. Nosso cálculo respeitou o cruzamento entre o calendário real dos dias e meses abordados e as licenças).
RESUMO:
TOTAL DOS DIAS ENTRE ADMISSÃO E INÍCIO DA ATUAL LICENÇA: 4.100 DIAS
TOTAL DOS DIAS TRABALHADOS: 2.007
TOTAL DOS DIAS EM LICENÇA OU CEDIDO: 2.093
PORCENTAGEM DOS DIAS EM LICENÇA: 51.05%
MÉDIA: UMA LICENÇA A CADA NOVE MESES DE TRABALHO
Em alguns casos, como no período em que correu a prova de kart em março de 2023, a licença descreveu um quadro de gravidade e as citadas incapacidades.
O documento emitido pela Divisão de Perícias Médicas´(DPMST), órgão da SEGAD, de Roraima, apontou para um diagnóstico com duas enfermidades enquadradas pela CID-10 (Classificação Internacional de Doenças- 10ª Revisão), sistema mundial que padroniza os diferentes tipos de doenças.
O item 9 da peça assinala um paciente com duas doenças no código da CID-10: a F43.0 e a Z73.0.
“SENSAÇÃO DE INCAPACIDADE FUNCIONAL”
A F43.0 é uma reação aguda ao estresse. De acordo com a literatura médica e os profissionais consultados pela reportagem, trata-se de um quadro psiquiátrico transitório, que pode ter sido desencadeado por evento ou situação de forte estresse psicológico. Entre os efeitos colaterais, podem estar a ansiedade intensa, desorientação, eventual crise emocional, sensação de incapacidade funcional, entre outros sintomas. A incapacidade funcional se caracteriza por dificuldade ou impossibilidade de realizar tarefas cotidianas necessárias para viver de forma independente, entre elas, impossibilidade ou redução de mobilidade.
Já a Z73.0 aborda um estado de exaustão. Mais conhecido nos dias atuais como o “burnout’. Nas descrições da CID-10, é tratado como um “estado de esgotamento” e associado a uma fadiga extrema, esgotamento físico e mental e estresse crônico.
De acordo com o documento, os 30 dias começaram a valer no dia 15 de março de 2023. A peça apresentava uma atipicidade: foi assinada em 3 de abril do mesmo ano, alguns dias após o início da licença. Uma junta de três profissionais da “Divisão de Perícias Médicas (DPMST)” da SEGAD assina a peça.
No mês anterior desta licença que coincide com a prova de kart, Samir Xaud obtivera outro atestado. No dia 13 de fevereiro de 2023, um médico psiquiatra de consultório particular assinou laudo recomendando, com caráter de urgência, uma dispensa de 30 dias, e uso de Mirtazapina, antidepressivo com potente efeito sedativo cujos efeitos colaterais descritos na literatura científica do tema são relevantes e de difícil compatibilidade em disputas automobilísticas: sonolência severa, letargia, tontura, diminuição dos reflexos e tremores. Pacientes em tratamento com o remédio costumam ser orientados a não conduzir nem mesmo veículos de passeio, de acordo com as referências médicas.
“INICIAMOS O ANO COM PÉ DIREITO APERTANDO FUNDO O ACELERADOR”, DIZ POSTAGEM DE XAUD EM DATA DE LICENÇA POR QUADRO DEPRESSIVO
Já os registros da imprensa local sobre o campeonato roraimense de kart no período, assim como os do Kart Clube Roraima, mostravam atividade intensa.
As redes sociais também mostram outro retrato, com o atual presidente da CBF esbanjando festejos em vídeos e postagens por seus feitos no kart, além de euforia com os novos passos em seus negócios particulares. Tudo bem distinto da incapacidade funcional do laudo e de paciente fazendo uso de antidepressivos:
No dia 23 de março, Samir Xaud anunciou a inauguração do CORE, um centro de treinamento em Boa Vista com academia, crossfit e musculação.
Em 26 de março, dia seguinte da prova, além de celebrar a conquista, deu o recado: “Iniciamos o ano com pé direito apertando fundo o acelerador!”.
Três dias depois da corrida, no dia 28, postou fotos em ação na competição durante o período em que a licença médica declarava incapacidade, além de fotos deitado com o troféu e escreveu: “Um sábado agradável. Fazendo o que gosto”.
Antes, em 5 de março, em pleno período que passava pela licença médica concedida por psiquiatra, escreveu com letras maiúsculas: “Loading” (carregando). E anunciou: “Vamos iniciar 2023 com muitas mudanças”. Em 28 de junho, inaugurava com alarde a Nauru Crossfit, academia de ginástica, de onde passaria a publicar vários vídeos se exercitando.
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A cronologia de licenças concedidas a Samir Xaud revela outra atipicidade em 2021.
Em 1º de julho de 2020, em plena pandemia, Samir Xaud, médico infectologista, foi cedido ao Tribunal de Justiça de Roraima para exercer o cargo em comissão de “Assessor Técnico 1” para um período de 7 meses.
No dia 4 de fevereiro de 2021, a cessão foi encerrada.
A devolução para o front da saúde durou apenas 24 horas. No dia seguinte, 5 de fevereiro, o agora presidente da CBF ingressou com pedido de licença médica para tratamento de saúde psiquiátrica por 45 dias, em laudo emitido por profissional de consultório particular.
“Atesto que Samir de Araújo Xaud iniciou tratamento para síndrome depressiva sendo prescrito Duloxetina e Rivotril. Paciente com humor deprimido, anhedonia disforia, desatenção, falta de sono insônia, manifestações somáticas (dores, artralgia, mialgia, astenia, anorexia), humor com sintomas fóbicos e crises ansiosas. Paciente necessita de 45 (quarenta e cinco) dias de afastamento das condições laborais, de trabalho”.
Sintomas como a anhedonia significam perda de capacidade de sentir prazer em atividades do cotidiano antes agradáveis como hobbies ou afins.
O laudo do dia 5 de fevereiro de 2021 apontou diagnóstico de CID F41.2, que é o “transtorno misto ansioso e depressivo”. O laudo também menciona “síndrome depressiva” acompanhada de “crises ansiosas”.
A data descrita no atestado coincide também com período de intensa movimentação do atual presidente da CBF pelos cartórios de Roraima.
Na ocasião, Xaud buscava a regularização de um terreno em Roraima situado em uma área de proteção ambiental.
Em 19 de março de 2021, em meio ao declarado quadro depressivo, Samir Xaud registrou a escritura de posse da Fazenda Paraíso Perdido. Na certidão, afirmou “ter a posse” da terra desde maio de 2008. Ou seja, de acordo com a peça assinada de próprio punho, Samir Xaud só teria feito o registro no tabelionato 13 anos depois de obter a posse da fazenda, como mostrou reportagem do UOL de 21 de maio de 2025. Apesar da assinatura em cartório, Samir Xaud negou os registros na ocasião da publicação.
VERACIDADE DE ATESTADO MÉDICO APRESENTADO POR XAUD CHEGOU A SER INVESTIGADA: “POSSÍVEL INDÍCIO DE GRACIOSIDADE”
No dia 17 de novembro de 2021, Xaud se licenciou por 30 dias. O atestado fala novamente em quadro de transtorno misto ansioso e depressivo e dificuldades físicas e mentais relacionadas ao trabalho (estresse ocupacional, problemas relacionados ao ambiente laboral e à atividade profissional).
No ofício nº 1373/2021 da secretaria de saúde do estado obtido pela reportagem, datado de 13 de dezembro do mesmo ano, Anderson Benetta, então diretor do Hospital Geral de Roraima, enviou solicitação ao Conselho Regional de Medicina de Roraima (CRM-RR) para que o órgão, através de sua corregedoria, investigasse possível indício de falsidade ou irregularidade no atestado apresentado por Samir Xaud em decorrência da falta no plantão de 26 de novembro. A peça pede para que se avalie “possível indício de graciosidade em atestado médico”. A investigação não resultou em punição conhecida e o episódio foi posteriormente arquivado.
“POUCA PRESENÇA NA ROTINA DA SECRETARIA”
O último cargo de Xaud na gestão pública veio através de uma cessão do estado para a prefeitura em outubro de 2023 ao ser nomeado como secretário-adjunto de Saúde do Município de Boa Vista (RR).
De acordo com a Folha de São Paulo de 23 de maio de 2025, de autoria de Fábio Victor, “integrantes do Ministério Público e pessoas ligadas à administração municipal descreviam Xaud como um gestor de pouca presença efetiva na rotina da secretaria, apesar de ocupar um dos principais cargos da pasta. A reportagem relata que promotores teriam encontrado dificuldades para manter contato institucional com ele durante o período em que exerceu a função”.
“ELE NUNCA APARECEU”
“É uma administração bem complexa, em que o secretário descentraliza demandas para os seus subordinados. Ele nunca apareceu, nunca assinou, nunca respondeu ofício, nunca fez nada”, disse então o promotor Igor Naves, titular da Promotoria da Saúde do Ministério Público de Roraima desde 2021, sobre o período do dirigente na secretaria. E prosseguiu: “Na rádio peão, como dizem, corre que Xaud nem aparecia para trabalhar”.
Nesse período, o Ministério Público chegou a oficiar a secretaria de saúde para prestar esclarecimentos sobre nomeação de funcionários fantasmas, sem, no entanto, instaurar uma investigação formal que chegasse a uma conclusão pública sobre as suspeitas.
No ano de 2024, ainda secretário-adjunto de saúde, Samir Xaud integrou a comitiva da CBF para acompanhar a Copa América dos Estados Unidos, realizada entre 20 de junho a 14 de julho. A reportagem não encontrou a licença respectiva.
Em 26 de agosto de 2024, a cessão de Samir Xaud da secretaria de saúde do estado para a prefeitura foi prorrogada por mais um ano.
No dia 15 de maio de 2025, Samir Xaud ingressou na secretaria de saúde do estado de Roraima com mais um pedido de licença.
A última de um longo histórico e um repetido padrão.
Onze anos e dezesseis licenças depois, sendo seis desses pedidos por motivos de saúde, duas para dedicar-se a campanha política sem interromper a remuneração, cessões para tribunal de justiça, prefeitura e para mandato classista (presidente do sindicato dos médicos de Roraima), veio a mais surpreendente de todas: a primeira expressa no documento “por interesse particular”, sem remuneração. Uma dispensa por dois anos.
Dez dias depois, no dia 25 de maio, sem jamais ter presidido uma federação de futebol por nenhum dia, num grande acordo nacional, foi eleito presidente da CBF.
De lá para cá, completou um ano inteiro sem qualquer problema de saúde ou qualquer tipo de licença.
Pela primeira vez nos últimos onze anos.
*OBS1-
Existe uma divergência entre o pedido de licença de Samir de Araújo Xaud junto à secretaria de saúde para cursar pós-graduação e a data do diploma. O pedido de licença de Samir Xaud na secretaria é de 16 de setembro de 2019. Mas não está apontada a data do fim da licença, e não obtivemos registros sobre a conclusão da pós nesse momento. No entanto, de acordo com o diploma de conclusão da pós em “especialização em medicina do exercício e do esporte” na Faculdade Paulista de Serviço Social (FAPSS) obtido pela reportagem, o curso foi realizado entre 12 de março de 2021 e 28 de agosto de 2022. Nessa data, não encontramos pedido de licença. Portanto, para fins de contabilidade de afastamento, não está contabilizado afastamento para a pós-graduação.
**OBS2-
A reportagem adotou o critério de contabilizar como total os 4.100 dias de licença entre o ingresso no funcionalismo, em 24 de fevereiro de 2014 até 16 de maio de 2025. A licença atual, desde 16 de maio de 2025, válida por 2 anos, não está adotada por ainda estar em curso e sem remuneração.
OUTRO LADO:
A reportagem enviou questões sobre o tema para Samir Xaud por meio da assessoria de imprensa da CBF, que enviou a resposta abaixo:
O escritório da FIFA no Trump Tower é apenas a parte mais visível de uma conexão muito mais profunda.
De um lado está a responsável pela organização da Copa do Mundo. Do outro, o presidente do principal anfitrião.
Entre as duas partes, existe um jogo de milhões de dólares.
Por onde navegam os grandes beneficiários dos negócios ligados ao Mundial: empresários MAGA (Make America Great Again), doadores de campanha, financiadores da tentativa de golpe do 6 de janeiro de 2021, frequentadores de Mar-a-Lago e velhos conhecidos, cúmplices de histórias vividas juntos desde os tempos das festas de Jeffrey Epstein.
Em resumo: os amigos do rei. Desde já, os grandes vencedores da Copa do Mundo de 2026. Sem precisar entrar em campo, lucrando ou em negócios com o estado americano ou diretamente com a FIFA.
Gente como Timothy Unes e Justin Caporale, da Event Strategies, uma empresa de produção de eventos da Virgínia, que no último 2 de janeiro assinou contrato de US$ 4,4 milhões, o equivalente a cerca de R$ 22.156.200,00 (vinte e dois milhões, cento e cinquenta e seis mil e duzentos reais) com o Transportation Security Administration (TSA), subordinado ao Department of Homeland Security (Departamento de Segurança Interna – DHS), órgão do governo federal, tendo como objeto “criar e operar toda a comunicação digital nos aeroportos americanos durante a Copa FIFA 2026 e os eventos do America 250.”
O contrato relacionado à Copa do Mundo é apenas mais um entre os tantos milhões de dólares que Unes e Caporales já faturaram no atual governo Trump.
Tim Unes é o presidente da Event Strategies. Justin Caporales é o CEO.
A dupla e a empresa, que já haviam trabalhado na campanha presidencial de Trump em 2016, são apontados em investigações parlamentares como peças fundamentais na estrutura da tentativa de golpe de estado no ataque ao Capitólio, em Washington, no 6 de janeiro de 2021.
O coração do evento era o comício “Stop the Steal” (“Pare o Roubo”) de Donald Trump. Justin Caporale era o “Project Manager” (Gerente de Projeto) do comício e Tim Unes atuou como “Stage Manager” (Gerente de Palco).
Ambos foram interrogados no “Comitê Seleto da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos” (“House Select Committee to Investigate the January 6th Attack on the United States Capitol”), que apurou os atos golpistas. De acordo com o relatório do comitê, a empresa foi a responsável por planejar, produzir e executar a logística do comício no Ellipse, o gramado ao sul da Casa Branca.
Documentos do comitê do congresso mostram que o CEO da Event Strategies recebeu previamente mensagens que informavam as intenções de Donald Trump em incitar o ataque violento, ordenando uma marcha ao Capitólio. “As expectativas do Potus (Trump) são de ter algo íntimo e depois mandar todos para o Capitólio”, dizia a mensagem recebida por Justin Caporale.
Intimado a entregar os documentos relativos ao evento do 6/1/2021, Caporale removeu esta mensagem, que só foi revelada posteriormente, entregue por outras testemunhas.
Após a atuação na logística do evento do Capitólio, a empresa dos dois passou a conquistar significativos contratos no governo significativos contratos depois da eleição de Trump. Somente em 2025 foram US$ 11 milhões. Um aumento de 1.700 % em relação ao ano anterior, antes de Trump.
A gratidão presidencial pela empresa vai além dos milhões em contratos. Em 29 de abril de 2025, em um comício no Michigan para marcar os 100 dias de mandato, Trump citou Justin Caporales em seu discurso: “Justin Caporale, Justin, muito obrigado, onde quer que você esteja. Ele provavelmente está aí nos bastidores”. O CEO da Event Strategies também foi nomeado como “Produtor Executivo dos Grandes Eventos” da Casa Branca. Unes e Caporales não foram indiciados.
FIGURA CENTRAL DO GOVERNO TRUMP NA RELAÇÃO COM A FIFA FOI PROTAGONISTA DA LISTA DE EPSTEIN
Em março de 2025, Donald Trump nomeou oficialmente seu escolhido para ser o rosto do seu governo junto a FIFA e ao Comitê Olímpico Internacional (COI).
Com o cargo de “Enviado Especial Para Parcerias Globais”, Paolo Zampolli percorre o mundo na condição de embaixador do presidente para os dois megaeventos que serão sediados nos Estados Unidos: a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos de 2028, com sede em Los Angeles, realizando o que ambos classificam como “a diplomacia do esporte”.
É nessa condição que aproveita o cartão de visitas dos eventos para realizar grandes negócios e difundir o discurso MAGA. Em janeiro, no Fórum de Davos, Suíça, foi o representante do governo Trump e comandou a “Casa dos Estados Unidos em Davos”, um centro de reuniões da extrema-direita mundial. Em abril, levou o tema da “Sports Economy” para o “Spring Meetings” do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Nas redes sociais de Zampolli, a figura mais presente e repetida é Gianni Infantino. O embaixador que representa Trump não usa meias palavras para falar sobre o presidente da FIFA: “o rei do esporte”, grudado ao nome sempre que se refere a Infantino.
Nem mesmo o escândalo em ter como embaixador do país junto a FIFA e COI um protagonista da chamada “Lista de Epstein” fez com que Donald Trump afastasse o ítalo-americano, de 55 anos, das funções.
Jeffrey Epstein era um financista americano que morreu em 2019 em uma cadeia nova-iorquina, depois de ter se suicidado, conforme autópsia divulgada pelo Departamento de Estado americano. Preso pelos crimes sexuais cometidos desde os anos 90, inclusive contra meninas menores de idade e por comandar um esquema de tráfico sexual, que funcionava como uma rede de poder, influência e troca de favores com algumas das pessoas mais poderosas do mundo inteiro e de diferentes áreas.
Paolo Zampolli, Jeffrey Epstein e Donald Trump estiveram juntos nos anos 90 no mesmo ramo de negócios, ambientes e festas.
Enquanto Zampolli era dono da ID Model Management, Trump tinha a Trump Model Management.
Já Epstein, apesar de ter financiado a MC2 Model Management, de Jean-Luc Brunel, (também preso por crimes sexuais e que também consta ter se enforcado na cadeia), não tinha uma agência própria, apenas circulava por elas.
Sob diferentes grafias: “Zampolli”, “Zampoli”, “Zempoli”, o nome de Paolo Zampolli aparece pelo menos 51 vezes na “Lista de Epstein” e ainda através da antiga agência de modelos da propriedade dele, a “ID Models”.
DOCUMENTO DO FBI MOSTRA INTERMEDIAÇÃO DE ZAMPOLLI EM CONTATO DE EPSTEIN COM MODELO
As ligações de Zampolli e Epstein são detalhadas em um documento do Federal Bureau of Investigation (FBI) de 26 de novembro de 2019.
Os manuscritos com o depoimento que subsidiaram a peça do FBI também estão nos arquivos do Departamento de Estado Americano que compõem a Lista de Epstein. Os nomes das vítimas não aparecem nos registros.
Epstein é descrito como alguém que frequentava a agência de Zampolli, participava dos castings (os recrutamentos) e avaliava os portfólios das modelos.
Em frases curtas, a vítima conta sobre a ida a uma boate com Zampolli e Epstein. E uma ida à casa na Rua 71 (Epstein morava em East 71st street, rua no Upper East Side, um dos bairros mais tradicionais e elegantes de Manhattan, Nova Iorque).
“Ele (JE) folheou fotos de portfólios.” (JE: Jeffrey Epstein).
“JE olhou para a minha quando [eu estava] usando apenas partes de baixo (biquíni).
Posteriormente, após Epstein analisar e escolher a modelo no portfólio da agência de Zampolli, ocorreu um encontro entre ela e Epstein na casa do financista onde, segundo o depoimento da vítima ao FBI, ocorreu o abuso sexual.
O relato é semelhante ao de várias outras vítimas, seguindo o padrão de conduta descrito por várias vítimas nos arquivos da investigação, que apontam que Epstein costumava tocar piano para as meninas antes do jantar. Ao fim do encontro, levou para a “sala de massagem e esfregou uma espécie de vibrador”, para então mandar que um motorista levasse embora.
De acordo com o relato, Zampolli e Epstein tentaram comprar a Elite Models juntos: “ele tentou comprar a Elite Models com JE”.
A modelo lembra ainda no depoimento que Zampolli serviu de cupido e apresentou Melanie a Trump.
“ZAMPOLLI ERA DESPREZÍVEL”
Em outro documento do FBI, com data de 23 de abril de 2020, uma modelo vítima de Epstein e que assinou com a agência de Zampolli aos 18 anos, descreve assim o agora todo-poderoso homem dos esportes nos Estados Unidos junto à FIFA e COI:
“Zampolli era desprezível”. A palavra usada no depoimento é “sleazy”, que pode ter distintas traduções, entre elas, além de desprezível, sórdido, canalha.
A vítima conta que o empresário se relacionava com as modelos. Em determinado momento, obrigou-a a cortar o cabelo bem curto e depois a dispensou.
Outros registros na lista corroboram um mesmo modus operandi da relação, relatando Epstein como alguém que frequentava a agência de Zampolli constantemente e tinha acessos aos portfólios das modelos.
ZAMPOLLI É ACUSADO POR CRIMES SEXUAIS PELA EX-MULHER, A BRASILEIRA AMANDA UNGARO
Paolo Zampolli foi denunciado em carta que consta ser assinada por Amanda Ungaro, a brasileira com quem Zampolli viveu por 19 anos e com quem tem um filho.
No texto, a ex-modelo afirma que foi testemunha, de acordo com o texto, de vários crimes cometidos pelo ex-marido. “Eu testemunhei muitas coisas desde que eu era uma adolescente que se envolveu neste pesadelo. Tenho fotos para provar o
abuso físico que experimentei nas mãos de Paolo. Eu tenho provas de que Paolo começou a tentar namorar comigo quando eu tinha 15 anos de idade, e é verdade que eu estava no avião de Jeffrey Epstein quando adolescente. Tinha apenas 16 anos na primeira vez que fui colocada no avião dele”, afirma Amanda Ungaro, que, entre outras acusações, publicou a cópia de uma lista em vôo que afirma ser do avião de Epstein onde consta o nome dela.
A recente entrevista do embaixador de Trump para a RAI, rede italiana, também não resultou em seu afastamento, apesar do teor ofensivo em relação às mulheres brasileiras.
“As mulheres brasileiras causam confusão com todo mundo, certo? Não é que essa foi a primeira, asmulheres brasileiras são programadas”. E foi além ao falar sobre a mãe do seu filho: “É uma dessas putas brasileiras, essa raça maldita de brasileiras, são todas iguais. Aquela vaca, estávamos juntos, trepava com ela, depois ela também ficou louca”, afirmou o embaixador.
Contra Paolo Zampolli não há nada na justiça. O empresário não foi indiciado em momento algum como parte das acusações dos crimes cometidos por Epstein.
O UFC NO QUINTAL DE TRUMP E O PRESENTE PARA O PRÓPRIO AGENTE
O grande evento que simboliza as relações entre os empresários próximos a Donald Trump tem data: no próximo dia 14 de junho, o UFC será realizado no gramado da Casa Branca, como parte das comemorações pelos 250 anos da independência dos Estados Unidos.
Desde o início da preparação, Trump tem se movimentado para tomar a data nacional como um festejo MAGA, tendo articulado inclusive a criação de uma agência, a Freedom 250, integrada a Força-Tarefa 250, da Casa Branca, para a promoção das comemorações. Tomando espaço da America 250, criada em 2016 pelo congresso e de caráter bipartidário, sob a coordenação da Comissão do Semiquincentenário dos Estados Unidos.
Muito além dos festejos de independência, a data do UFC na Casa Branca tem algo particular: aniversário de Donald Trump. Assim, com dinheiro do contribuinte americano e instalações do estado, Donald Trump prepara um evento 100% MAGA para se autocelebrar na data de aniversário.
O presente não é apenas para Trump. Milhões em dólares esperam Ari Emanuel, empresário muito próximo ao presidente tendo, inclusive, sido agente do presidente quando ele era estrela da série de TV “O Aprendiz”.
O UFC é propriedade do TKO Group, que, por sua vez, é parte do Endeavor Group, ambos tendo Ari Emanuel como sócio majoritário.
Milhões arrecadados com patrocinadores são estimados para o evento. Pacotes para marcas incluindo assentos ao lado do ringue são especulados a preços estratosféricos.
De acordo com reportagem do Wall Street Journal, recentemente o presidente Donald Trump chegou a ligar para juízes federais em socorro a Ari Emanuel, em um caso que a justiça combatia o monopólio na venda de ingressos por parte de empresa ligada ao amigo.
Ari Emanuel também é um dos grandes personagens da Copa do Mundo.
Sua empresa On Location, também do grupo Endeavor, ganhou, em julho de 2024, a concorrência para comercialização dos pacotes de hospitalidade da Copa do Mundo que se aproxima, derrubando décadas de supremacia da Match Hospitality, que por anos deteve esse direito junto à FIFA.
Pacotes de hospitalidade são um dos mais valiosos ativos de comercialização de um Mundial, juntamente com direitos de transmissão.
Apenas mais um negócio MAGA na ação entre amigos em que se transformou a Copa do Mundo marcada desde já pelas relações íntimas e pouco transparentes entre Gianni Infantino e Donald Trump.
OUTRO LADO:
GOVERNO DOS ESTADOS UNIDOS:
“Graças à liderança do Presidente Trump, a Copa do Mundo da FIFA de 2026 será, sem dúvida, um dos maiores e mais espetaculares eventos da história da humanidade, atraindo milhões de fãs de todo o mundo para onze cidades-sede nos Estados Unidos. Este será um evento monumental que exige estreita coordenação entre o governo Trump, a FIFA e todos os nossos importantes parceiros federais, estaduais e locais. O Presidente Trump está empenhado em garantir que esta seja não apenas uma experiência incrível para todos os fãs e visitantes, mas também a mais segura da história.”
Davis Ingle, porta-voz da Casa Branca
FIFA:
A reportagem enviou pedido de “outro lado” através da diretoria de comunicação da entidade, sem obter resposta.
PAOLO ZAMPOLLI:
“Muito obrigado pela sua solicitação. Antes de mais nada, Amanda é a mãe biológica do meu filho; nunca fomos casados. Desejo-lhe tudo de bom em seus projetos e atividades futuras. Não estamos juntos desde 2017. De qualquer forma, em relação ao arquivo de Jeffrey Epstein, meu nome consta lá, assim como o de muitos outros- não há nada mais a acrescentar”.
ON LOCATION:
A reportagem enviou pedido de “outro lado” para a empresa, sem obter resposta.
Tapete azul, plantas tropicais, convidados e imprensa à esquerda, vips à direita, painéis cenográficos “instagramáveis”. No fim do corredor em forma de um “L invertido”, com a Baía de Guanabara ao fundo e rodeado por palmeiras imperiais, está o local para onde todos os olhares irão convergir na tarde de hoje: o palco em que Carlo Ancelotti fará a revelação dos seus 26 escolhidos para representar o Brasil na Copa do Mundo. A parte não visível desse cenário é a teia de conexões por trás do evento que a CBF promove no Museu do Amanhã, centro do Rio, para a convocação da seleção.
No coração desta teia está a empresa contratada pela CBF como responsável pela produção da cerimônia: a R2B Produções de Eventos, domiciliada em Brasília.
De acordo com uma investigação da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) que culminou com a “Operação Praia de Goia” em 18 de setembro de 2018, a R2B foi beneficiária de milhões ao longo dos anos em patrocínios e incentivos fiscais do governo do Distrito Federal e do Banco Regional de Brasília (BRB). Já a Terracap (Agência de Desenvolvimento do Distrito Federal) teria outra função no esquema, segundo a PCDF: a cessão subfaturada de espaços públicos para eventos.
Gustavo Dias Henrique, vice-presidente da CBF e considerado nos bastidores como o nome mais poderoso da instituição na atual gestão, ocupou diversos cargos de comando na Terracap entre 2015 e 2019. Em 2019, assumiu o comando da Biotic, uma subsidiária da Terracap. O brasiliense nega qualquer relação com a R2B na ocasião.
Apenas entre 2023 e 2025, durante a gestão de Paulo Henrique Costa, que está preso por transações financeiras ilícita, o BRB aportou R$ 3.600.000,00 (três milhões e seiscentos mil reais) para a R2B em 4 pagamentos (ver quadro ao fim da reportagem).
Além da R2B na produção, a CBF escolheu para cuidar da decoração do Museu do Amanhã o Studio Traços de Arquitetura. A R2B e o Studio Traços tem laços entre eles: uma das sócias do estúdio, Ana Falconi, é casada com Lucas Sarmento Mendes, que se apresenta nas redes sociais como sócio da R2B e tem participação societária na Colabr2 Participações junto com outros acionistas da R2B.
Não é só a convocação que terá produção da R2B e do Studio Traços. As duas firmas brasilienses monopolizaram os grandes eventos mais recentes da CBF, como o Summit CBF Academy e o camarote da entidade na Marques de Sapucaí no carnaval deste ano.
A operação de 2018 realizada pela Cecor (Coordenação de Combate ao Crime Organizado) da PCDF, apontou indícios de crimes financeiros, lavagem de dinheiro crimes contra a administração pública e organização criminosa. A suspeita era de que a empresa teria utilizado de forma irregular a Lei de Incentivo à Cultura e os milhões em patrocínios. A operação gerou um processo, que em 2023 foi arquivado na justiça do DF.
POLÍCIA CIVIL DO DF APONTOU PAPÉIS COMPLEMENTARES ENTRE TERRACAP, BRB E GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL NA ORGANIZAÇÃO
De acordo com o que foi apurado então pela Polícia Civil, os braços da estrutura tinham funções bem definidas: o governo do DF era o epicentro da engrenagem. O BRB era o principal ator financeiro, entrando com os maiores valores destinados para a R2B. A função da Terracap era primordial: embora tenha chegado a conceder patrocínio em dinheiro, tinha como papel principal ser a responsável por viabilizar os eventos ao ceder os terrenos públicos com aluguéis subfaturados. O que a PCDF chamou de “patrocinador indireto”.
Em uma das escutas policiais que resultaram na operação, a relação próxima entre a R2B e a Terracap é destacada.
A quebra de sigilo telefônico indicou, segundo a investigação, entre outras coisas, até movimentações dos sócios da R2B junto ao governo do DF, relacionadas à tentativa de evitar que a Terracap cedesse a Torre Digital para evento de empresa concorrente, sob o argumento de que o espaço vinha sendo utilizado pela R2B no evento denominado ‘Surreal”.
De acordo com as gravações, os sócios da R2B se preocuparam em suas ações em não causar constrangimento para a Terracap. “Sartório diz para o Rafa ver a melhor forma de falar para não exporem a Terracap. Rafa diz que falará direto com ele, que pretendem fazer a Federal Music na Torre Digital”… e isso é péssimo”.
Sartório e Rafa em questão são Rafael Damas e Bruno Sartório, sócios da R2B.
Gustavo Dias Henrique, que entrou na CBF ainda com Ednaldo Rodrigues na presidência, foi uma das indicações do ministro do STF Gilmar Mendes na atual diretoria da CBF. O brasiliense é doutorando em administração pública pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), comandado pelo filho do magistrado, Francisco Schertel Mendes, que tem contrato para ministrar os cursos da CBF Academy/IDP.
Questionado pela reportagem sobre a relação com a R2B, Gustavo Dias Henrique afirmou através da assessoria de imprensa da CBF que “no âmbito da Terracap, atuou como Diretor de Habitação e Regularização Fundiária de Interesse Social e nesta condição não atuou na contratação ou parceria com a R2B, na medida em que contratos desta natureza não eram atribuição de sua competência”.
De acordo com um currículo disponibilizado por ele mesmo e publicado ao ser homenageado pela Assembleia Legislativa de Alagoas em 2024, o vice-presidente da CBF passou por diferentes diretorias na Terracap entre 2015 e 2019:
“Diretor de Habitação e Regularização Fundiária Social e Rural, Diretor Extraordinário de Habitação e Regularização Fundiária Interesse Social, Diretor Extraordinário de Regularização de Imóveis Rurais, Diretor de Comercialização e Novos Negócios (em substituição), Diretor de Administração e Finanças (em substituição) e Presidente (em substituição)”. Em seguida, assumiu como diretor presidente da Biotic, onde ficou até 2024. (veja íntegra da resposta da CBF ao fim, em “outro lado”).
A Terracap, origem de Gustavo Dias Henrique antes da CBF e que tem como missão assegurar a gestão das terras públicas do DF, é a concedente do Estádio Mané Garrincha, que, até o mês passado, levava o nome de Arena BRB. Após o escândalo do Banco Master o contrato de naming rights foi encerrado, voltando ao nome original. O escritório da R2B fica no Estádio Mané Garrincha. Também estão sob gestão da Terracap espaços candangos como o conjunto Aquático Cláudio Coutinho e Quadras Poliesportivas, além da Área da Concha Acústica, Orla do Lago Paranoá, Parque Tecnológico BIOTIC, Torre de TV e entorno do Eixo Monumental, palcos de eventos da empresa.
Um relatório de inteligência financeira (RIF)sobre a atuação da R2B emitido pelo COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), órgão ligado ao Banco Central e responsável por prevenir e combater a lavagem de dinheiro, constatou a “existência de saques de vultosas quantias em dinheiro, o que, segundo a autoridade policial, apontaria a existência de indícios da prática do crime de lavagem de dinheiro, em razão de causar estranheza o volume de dinheiro em espécie movimentado, mesmo porque quase tudo no evento é feito por meio de transações com cartão de crédito”.
O inquérito de 2018 cita que grande parte dos gastos custeados com os recursos da lei de incentivo teria tido foi apresentando na prestação de contas como compra de equipamentos, e que teria havido sobrepreço, como, segundo a peça, a aquisição de um gerador com valor superfaturado em 59%.
Os relatórios da Coordenação Especial de Combate à Corrupção (CECOR), da Polícia Civil do DF, e o RIF do COAF detalham o favorecimento do governo do DF via incentivos fiscais e Terracap, BRB e Banco do Brasil para a R2B, de acordo com o inquérito:
“… a existência de indícios de que o grupo de empresas R2 Produções, do qual era diretor financeiro Gilberto Soares da Silva Júnior, entre elas, a R2B Produções e Eventos Ltda- da qual são sócios Bruno Sartório Silva, Ricardo Abreu Emediato, Rafael de Araújo Damas e Eduardo José de Azambuja Alves, teria sido favorecido irregularmente pelo Governo do Distrito Federal, mediante benefícios e incentivos fiscais disponibilizados pela Secretaria de Estado de Cultura do DF, e por patrocínios da Terracap, BRB e Banco do Brasil, para realizar os eventos denominados “Na Praia”, “Na Praia Social” e “Na Praia Cultural”, ocorridos entre os anos de 2015 e 2017. Os relatórios ns. 13 e 25 do CECOR detalham a participação de cada sócio no grupo empresarial e nos eventos produzidos pelo grupo entre os anos de 2015 e 2017. E apontaram a contratação de parceiros comerciais por valores exorbitantes, bem como a existência de indícios de favorecimento do grupo R2 pelo Governo do DF, pelo Banco do Brasil, pelo BRB e pela Terracap. E o relatório de inteligência financeira, elaborado pelo COAF, registra grande movimentação financeira dos envolvidos, em curto período, a evidenciar a existência de indícios de irregularidades que podem caracterizar, em tese, crimes”.
A investigação cita ainda suspeitas de que a R2B, responsável pelos eventos Na Praia, Na Praia Social e Na Praia Cultural, “estaria recebendo tratamento diferenciado do governo, uma vez que teria recebido nos anos de 2015, 2016 e 2017, não só benefícios e incentivos fiscais concedidos pela Secretaria de Cultura, como também patrocínios da Terracap, do BRB e do Banco do Brasil, todos concedidos sem a realização de licitação, por meio de contratação direta”.
A operação da Polícia Civil também mirou o ex-administrador do Plano Piloto, Igor Tokarski. Em uma das escutas, Rafael Damas, sócio da R2B, citou que o gestor “teria me ajudado muito” e que, por isso, teria feito doação para a campanha parlamentar de Tokarski em 2018 no valor de R$ 30 mil. A doação consta na página do TSE.
EMPRESA TEM ESTRUTURA SOCIETÁRIA COMPLEXA
Em 2015, a Terracap destinou R$ 100 mil (corrigidos para valores atuais pelo IGPM, seriam R$ 207.984,98) para a R2B para a realização do “Na Praia Social”.
A PCDF também apontou outros episódios que, segundo os investigadores, poderiam indicar tratamento privilegiado. De acordo com a investigação da PCDF, a R2B estava sendo favorecida pelo Governo do Distrito Federal também em relação a outros eventos culturais:
“…a exemplo do carnaval, tudo conforme anteriormente exposto, em que, pelo menos no ano de 2018, tradicionais blocos carnavalescos do DF não lograram obter apoio junto à Secretaria de Cultura, chegando, inclusive, a não sair às ruas, enquanto evento de natureza privada, o denominado Carnaval no Parque, produzido pelos representados R2B Produções e Eventos Ltda… teria sido privilegiado pela Secretaria de Cultura, inclusive, mediante cessão de espaços públicos para utilização de coletiva de imprensa do referido projeto cultural. Além disso, diante dos prefalados indícios de ocorrência de crimes de lavagem de dinheiro e de corrupção ativa e passiva, foi solicitado ao COAF relatório das pessoas físicas e jurídicas envolvidas nas investigações, o qual trouxe a lume diversas transações financeiras com indícios de irregularidade, merecendo destaque, a título de exemplo, a movimentação, pela empresa R2B Produções de Eventos, entre os meses de julho e agosto de 2015, meses em que ocorreu o evento Na Praia, do importe de R$ 902.030,00 em espécie, isto é, em transações de saque e depósito, o que é típico de atividades relacionadas aos crimes de lavagem de dinheiro”.
Em novembro de 2014, a secretaria de cultura do DF autorizou a R2B a captar R$ 1.029.867,11 (um milhão, vinte e nove mil, oitocentos e sessenta e sete reais e onze centavos) para o “Festival Vila Brasil”.
No ano seguinte, o BRB entrou com uma cota de R$ 240.000,00 para a R2B pelo evento “Na Praia”.
Atualmente, a R2B oferece o trecho da orla do Lago Paranoá conhecido como “Prainha” para aluguel de eventos no trecho chamado de “Setor de Clubes Sul”. No site da empresa, a R2B promete o aluguel do espaço da orla e serviço completo: “Sim, vamos além da locação! Além de oferecer os espaços, produzimos todo o seu evento com a excelência e a experiência consolidada da R2, garantindo um evento completo e de alto padrão”. A gestão da orla é da Terracap.
A R2B é parte de uma estrutura societária complexa e sofisticada, em várias camadas, onde a controladora é a R22 Holding e a participação cruzada de pessoas físicas, holdings patrimoniais, empresas de participações, consultorias e investidores individuais.
QUADRO:
VERBA CONCEDIDA PELO BRB PARA A R2B ENTRE 2023 E 2025:
1-
172/2025:
PATROCÍNIO À EVENTO ESPORTIVO
Vigência: 11 de março de 2025 Limite da vigência 30 de março de 2025
Valor do contrato: R$ 1.200.000,00 (valor consumido)
2-
048/2024:
Objeto: PATROCÍNIO CARNAVOOU.
Vigência: 27 de fevereiro de 2024 Limite da vigência 31 de março de 2024
Valor do contrato R$ 600.000,00 (Valor consumido)
3-
024/2024
Objeto: PATROCINIO DO PROJETO CARNAVAL DO MANE 2024
Vigência: 4 de março de 2024 Limite da vigência 31 de março de 2024
Valor do contrato R$ 1.000.000,00
4-
383/2023
Objeto: PATROCÍNIO DO EVENTO FINAL DE ANO NO MANÉ.
Vigência: 8 de janeiro de 2024 Limite da vigência 31 de janeiro de 2024
Valor do contrato: R$ 800.000,00
TOTAL:
R$ 3.600.000, 00 (três milhões e seiscentos mil reais)
OUTRO LADO:
CBF:
“Em atenção às questões encaminhadas, a CBF informa que suas contratações seguem diretrizes internas de governança e observam a legislação aplicável às entidades privadas integrantes do Sistema Esportivo Nacional.
Em todos os casos, a seleção de fornecedores é feita com base em critérios técnicos, capacidade operacional, experiência compatível e adequação às necessidades específicas de cada projeto.
A escolha dos fornecedores para o evento de convocação da Seleção Brasileira no Museu do Amanhã observou exatamente essas condições, ainda mais necessárias diante da complexidade do evento.
Por razões de confidencialidade comercial, a CBF não divulga detalhes de suas relações contratuais com fornecedores.
Em relação ao vice-presidente Gustavo Dias Henrique, o mesmo esclarece que, no âmbito da Terracap, atuou como Diretor de Habitação e Regularização Fundiária de Interesse Social e nesta condição não atuou na contratação ou parceria com a R2B, na medida em que contratos desta natureza não eram atribuição de sua competência.
Por fim, a CBF não comenta ilações sobre processos já arquivados pelas autoridades. Como o próprio questionamento admite, não há qualquer investigação ou impedimento vigente envolvendo a empresa contratada no âmbito da operação citada”.
R2B PRODUÇÕES DE EVENTOS:
A reportagem enviou pedido de resposta para a R2B, mas não obteve êxito.
STUDIO TRAÇOS
A reportagem enviou pedido de resposta para o Studio Traços Arquitetura, mas não obteve êxito.
TERRACAP
A reportagem enviou pedido de resposta para a Terracap, mas não obteve êxito.
BRB
A reportagem enviou pedido de resposta para o BRB, mas não obteve êxito.
Vinte e dois dias depois da posse de Samir Xaud (25/5), a CBF se tornou parte de articulação milionária que poderá beneficiar o próprio pai do presidente com dinheiro da entidade.
José Gama Xaud, o Zeca Xaud, pai do dirigente, comanda a Federação Roraimense de Futebol (FRF) há 49 anos.
No dia 16 de junho, Zeca Xaud enviou ofício, obtido pela reportagem, para Mikael Wallas, titular da secretaria de estado de educação e desporto (SEED) de Roraima, com a proposta de obter a concessão, por 20 anos, do principal estádio local, o Flamarion Vasconcelos (“Canarinho”).
A contrapartida da FRF para a SEED pela concessão é uma promessa de R$ 3 milhões em investimentos. Pagos indiretamente através de uma melhoria das instalações. Uma operação triangular, onde uma terceira parte dá o dinheiro para FRF. A terceira parte, de acordo com o ofício da FRF: a CBF. Uma “parceria” entre FRF e CBF. Em 30 de junho, duas semanas depois de formalizar o interesse no arrendamento do “Canarinho”, a FRF enviou novo ofício e incluiu outro estádio da capital Boa Vista no requerimento: o Raimundo Ribeiro (Ribeirão).
Sem apresentar uma planilha com os custos do projeto especificados, Zeca Xaud prometeu que a FRF usaria o dinheiro a ser liberado pelo filho para “modernizar o estádio”.
PAI DE SAMIR XAUD USA NOME DA CBF PARA OBTER CONCESSÃO DE ESTÁDIO MAS CBF AFIRMA DESCONHECER O PROJETO
Questionada pela reportagem sobre financiar um projeto de concessão que tem como beneficiária final a federação comandada pelo pai do presidente, a confederação informou que “o projeto ainda não foi apresentado à CBF mas que se enquadra nos objetivos e no orçamento do Palcos do Futebol”.
Ou seja, de acordo com a CBF, até o momento, o pai de Samir Xaud negocia um contrato com o governo de Roraima em que a federação que preside passará a ser concessionária de bem público usando o nome da CBF como financiador sem ter consultado a própria CBF.
O “Palcos do Futebol” citado na resposta é o item do projeto “CBF Transforma”, em que a entidade investe em melhorias nos estádios.
Na sequência de longa resposta para a reportagem, a CBF diz poder participar do projeto em que está tendo o nome usado, segundo ela sem ser consultada. E que poderá ter participação futura através de projetos de investimentos já existentes na entidade para financiar melhoria de estádios e federações.
“Assim, a proposta de eventual cessão do estádio Canarinho pelo Governo à Federação Roraimense, mediante contrapartida de R$ 3 milhões em investimentos que seriam custeados pela CBF por meio do Programa Palcos do Futebol, é totalmente razoável e perfeitamente admissível. No entanto, uma vez que a Federação ainda não apresentou o referido projeto à CBF, só podemos concluir que o ofício referido pelo jornalista dispunha apenas das tratativas iniciais com o governo, visando uma parceria em benefício do futebol de Roraima”, respondeu a CBF em nota. Samir Xaud está desde terça-feira em Roraima, onde recebe uma série de homenagens, e estava marcado de comparecer ontem na federação.
FINANCIAR A CONCESSÃO PODE TORNAR CBF PASSÍVEL DE FISCALIZAÇÃO DE PF E MPF
A concessão de estádios para federações é incomum. Recentemente, a federação de Mato Grosso do Sul também manifestou proposta de gestão do Estádio Pedro Pedrossian, o Morenão, em audiência pública realizada na assembleia legislativa local em 17 de junho, onde se discutiu o processo de transferência do estádio da UFMS para o governo do estado.
De acordo com especialistas ouvidos pela reportagem, ser financiador de recursos para exploração de um bem público pode tornar a CBF passível de eventual ação por parte do Ministério Público Federal (MPF) e Polícia Federal, mesmo CBF e federação sendo instituições privadas. Isso ocorreria porque utilização de recursos para explorar um bem público (como um estádio concedido) pode caracterizar atuação no âmbito de interesse público, sujeitando-as ao controle de órgãos de investigação desde a necessária licitação.
CONFIRMAÇÃO DE AJUDA DA CBF REPRESENTARIA AUMENTO DE 113% NA VERBA PARA FEDERAÇÃO DO PAI DE SAMIR XAUD
Um dos itens da proposta da FRF é a “implantação de placar eletrônico”. Sem discriminar modelo e preço, apenas informando ser dentro dos padrões do regulamento esportivo mundial e chancelado pela FIFA e pela própria CBF.
A “substituição do gramado e plantação de grama na área lateral” é outro artigo assinalado, também sem orçamento. E sem garantia de data para ser realizada. O documento afirma apenas que será uma troca “gradativa”.
O projeto de R$ 3 milhões prevê ainda “substituição das traves fixas por traves removíveis e ampliação do banco de reservas”.
A conclusão dos objetos de responsabilidade do concessionário deixa o escopo das obrigações ainda mais frouxo, sem estabelecer por contrato, e ao afirmar que “demais mudanças serão alinhadas com concedente”.
Se vier a ser assinado o acordo de R$ 3 milhões, somente em uma única operação a CBF já iria superar o montante dado em 2024 para a FRF em 113,22%, já que, de acordo com o balanço financeiro da federação, no ano passado a CBF repassou para a entidade R$ 1.407.000,00. Ou seja: em apenas 22 dias de mandato de Samir Xaud, a FRF já tinha a perspectiva de dobrar a verba recebida via CBF.
DE NOVO? ÚLTIMA REFORMA DO ESTÁDIO ACABOU EM 2020 E RECEBEU R$ 33,6 MILHÕES DO GOVERNO FEDERAL
A necessidade de modernização chama atenção, já que a última reforma do “Canarinho” é recente. Em 2020, depois de ficar 8 anos fechado para o público, com eventuais jogos de portão fechado, o estádio foi reaberto. Com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, o estado gastou R$ 33.689.217,48. (trinta e três milhões, seiscentos e oitenta e nove mil, duzentos e dezessete reais e quarenta e oito centavos).
Incluído no pacote de concessão posteriormente, a proposta da federação para ficar também com o estádio Ribeirão inclui apenas a aplicação da grama que sair do Canarinho, ou seja, sem qualquer gasto. E assim como no estádio maior, o ofício fala que “outras modificações e melhorias poderão ser ajustadas em comum acordo com o ente concedente”. O Ribeirão também passou por reforma entregue há 2 anos, em 2023, ao custo de R$ 365.697,63 para os cofres do estado.
O uso do estádio Canarinho no estado vai muito além do futebol, assim como as possibilidades de arrecadação.
Utilização para partidas amistosas de particulares, shows e diversos eventos das secretarias são realizados no local ao longo do ano.
No dia 19 de abril, a SEED concedeu o estacionamento do estádio Canarinho para realização de show do cantor Gustavo Lima. No contrato, examinado pela reportagem, está dito que a cessão para a GSA Produções e Eventos, empresa do artista, foi gratuita. Com venda de 18.500 ingressos, exploração de camarotes e bar.
O Estádio Canarinho tem capacidade para 4.500 mil espectadores e o Ribeirão, 3 mil.
Antonio Denarium, o governador de Roraima, tem no prontuário diversas acusações de corrupção e conflitos de interesses. Como a compra de carne do Frigo10, frigorífico do qual o mandatário é sócio, em 2023, em acordo de R$ 3,1 milhões. O Frigo10 também fechou acordo como governo federal na gestão Bolsonaro para fornecer 8 toneladas de contra-filé para o exército.
Denarium é parte de um processo de cassação que está há dez meses parado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), já tendo sido cassado quatro vezes pelo Tribunal Regional Eleitoral de Roraima (TRE-RR) por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. O julgamento segue suspenso depois de ter sido retirado de pauta pelo TSE.
Ao longo dos anos, o político bolsonarista foi algo de denúncias de grilagem de terras, favorecimento do garimpo ilegal e extermínio da população indígena de Roraima.
A reportagem enviou questões também para a Federação Roraimense de Futebol e para a secretaria de estado de educação e desporto (SEED), ambas sem resposta. Além da resposta inicial, com trechos já citados, a CBF enviou a resposta abaixo:
“O Regulamento do programa CBF Transforma, que tem como objetivo fomentar o futebol em todo o território brasileiro, é claro ao estipular “cooperação com Federações e clubes filiados, com base na realidade e nas necessidades específicas de cada região do País”. O estádio Canarinho é a casa do futebol roraimense, portanto é lógico que seja alvo de investimento do subprograma Palcos do Futebol. Fica evidente que é muito mais apropriado reformar um estádio que já existe do que buscar alternativas. Outras federações já sinalizaram o desejo de convênios com Estados ou Municípios para cessão de equipamentos públicos. Nesse cenário, a CBF, como investidora, precisa de garantia de uso desses estádios por períodos determinados em contrato. Por fim, convém acrescentar que o assunto em questão ainda é um projeto da FRF. A comunicação levantada pela reportagem foi apenas uma consulta à Secretaria de Estado de Educação e Desporto (SEED) do Estado que não foi nem sequer formalizada junto à CBF”.
Alejandro Guillermo Dominguez Wilson Smith tinha 13 anos quando a Polícia Federal (PF) brasileira escreveu seu nome no confidencial “Informe 576”. Na ficha, além da foto do menino, está dito que ele foi um dos paraguaios a obter vistos permanentes para o Brasil com dados falsos. A solicitação do pai, Osvaldo Dominguez Dibb, o “ODD”, continha endereços forjados de residência em Foz do Iguaçu. Daquele 21 de maio de 1985 em diante, o prontuário nunca mais parou de engordar. O dele e o da família, juntos também por relações societárias.
Assim como o histórico de denúncias na justiça: contrabando de cigarros, lavagem de dinheiro, crimes contra o sistema financeiro, formação de quadrilha, grilagem de terra. E uma profunda e intima ligação com um dos maiores criminosos do século XX: o general Alfredo Stroessner, o ditador paraguaio que ficou 34 anos no poder, entre 4 de maio de 1954 e 3 de fevereiro de 1989. Unidos por laços empresariais e políticos. E familiares, desde quando Humberto, irmão de Osvaldo e tio de Alejandro, se casou com a filha do general, Graciela, e os Dominguez e os Stroessner passaram a ter um tronco Dominguez Stroessner. Uma ligação que estende suas fronteiras para o Brasil, onde Alejandro Dominguez e seus primos Stroessner possuem sociedade.
O
menino com anotação prematura na folha policial há exatos 40 anos virou
Alejandro Dominguez, o todo-poderoso do futebol no hemisfério sul, presidente
da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) desde 2016. Agora com 53
anos e um percurso marcado por coincidências, como uma empresa aberta em
paraíso fiscal exatamente 45 dias depois de assinar o controverso contrato por
direitos de transmissão da seleção paraguaia para Copa de 2018.
O
presidente da Conmebol é, junto com mais 5 irmãos, herdeiro em uma fortuna
estimada em mais de US$ 500 milhões. Inteiramente construída por “ODD”, à
sombra de benesses na era Stroessner. Os Dominguez Dibb foram protagonistas na
chamada “elite stronista”, os três principais grupos que sustentavam o poder do
ditador: famílias próximas aos Stroessner, empresários do Partido Colorado e
ainda militares e funcionários do alto escalão governamental. Os Dominguez Dibb
se enquadravam nos dois primeiros grupos aqui citados.
Beneficiário
direto dos 34 anos de horror. De uma das mais sanguinárias ditaduras da
história. Nesse período, foram 19.862 presos, 18.772 torturadas, 20.814
exilados, 236 menores privados de liberdade e 17 crianças nascidas na
prisão. Com 459 desaparecidos. Um total de 128.076 vítimas diretas e
indiretas, de acordo com os números da Comissão da Verdade e Justiça do
Paraguai.
Esses
números e relatos não dão conta de todo horror.
De
acordo com o Departamento de Memória Histórica e Reparação do Ministério da
Justiça paraguaio, Stroessner estuprava em média quatro meninas entre 10 e 15
anos por mês. Um pedófilo em série, que, ao longo dos 34 anos no poder, teria
estuprado 1.600 crianças. Meninas ainda na infância, sequestradas por militares
na área rural e enviadas ao general.
Julia
Ozorio Gamecho foi uma dessas meninas. Levada ao ditador aos 13 anos, depois de
retirada à força da casa dos pais. Perdeu a virgindade estuprada por Stroessner
e então foi “ofertada” por ele ao coronel Miers, de quem foi escrava sexual até
os 15 anos, quando então essas crianças eram consideradas velhas pelos
militares. Sobreviveu para contar. Enfrentando seus fantasmas, escreveu o
pungente relato da barbárie “Uma rosa e mil soldados”, onde descreve a
barbárie. Sobre homens que “saciavam sua luxúria sem limites com sede de
possuir aos despossuídos”, conta. “As bestas carniceiras”, resume.
Os
herdeiros e beneficiários dessas trevas ainda estão entre nós. Em todas as
áreas. Nos gabinetes, parlamentos, no mundo corporativo, nas telas. E nos
estádios.
PARTÍCIPES
DO HORROR
Farta
documentação, em diferentes fontes públicas, mostra que os Dominguez Dibb foram
muito além de beneficiários da ditadura, se locupletando como amigos e
familiares do rei. Mais do que cúmplices e entusiastas. Foram partícipes da
barbárie.
Entre os documentos, está o que se chamou de “Arquivos do Terror”, encontrados em uma delegacia de Assunção em 1992. Milhares de registros que possibilitaram a comprovação definitiva da “Operação Condor”. Incluindo o relato sádico e cruel relato do desaparecimento do médico Agustín Goiburú, opositor de Stroessner. Preso em 1970, conseguiu fugir e refugiar-se na embaixada chilena da capital paraguaia. Durante o refúgio de dez dias, Humberto Dominguez Dibb, o citado genro do ditador, tio e sócio de Alejandro Dominguez, foi para a calçada em frente a janela da embaixada, de onde insuflava populares e dirigia gritos para que o médico se entregasse, além de xingamentos. Beneficiado por um salvo-conduto do chileno Salvador Allende, Goiburú foi para o Chile. Em 1977, trabalhando na cidade argentina de Entre Rios, foi sequestrado em uma missão conjunta da Condor que juntava agentes paraguaios e argentinos, e nunca mais apareceu. A Corte Interamericana de justiça condenou o estado paraguaio a pagamento de indenização aos familiares.
ALÉM
DA BARBÁRIE, CORRUPÇÃO FOI A OUTRA GRANDE MARCA DA DITADURA STROESSNER
“A corrupção é o preço que se paga pela paz.” A famosa frase do ditador paraguaio teve como símbolo maior a Usina Hidrelétrica de Itaipu. O acordo binacional Brasil/Paraguai foi assinado em junho de 1966 entre os militares que governavam os dois países.
O
primeiro projeto da usina, o “Sete Quedas”, foi lançado ainda no governo civil
de João Goulart, derrubado pelo golpe de 1964 que iniciou a ditadura no Brasil.
Orçado em 1,3 bilhão de dólares. Projeto substituído pelo governo militar por
outro de 13 bilhões de dólares, sendo que o preço final ficou em estimados 30
bilhões de dólares.
O
superfaturamento foi esmiuçado por um militar. Em 1996, o coronel Alberto
Carlos Costa Fortunato escreveu “A direita explosiva no Brasil”, onde detalha
por onde escoou o dinheiro público dos dois países: “Conhecem a história sobre
o aumento de 23% no custo de Itaipu? Pois o negócio foi o seguinte: lá pelas
tantas, o governo paraguaio pretendeu (mais adequado seria dizer que
condicionou) um aumento de 23%. Os representantes brasileiros articularam um
conchavo e combinaram o seguinte: vocês topam aumentar em 46% (metade para cada
um)”? De acordo com o autor, assim foi feito.
Os Dominguez também são parte desta história. Desde os conchavos de lançamento até a influência em cargos estratégicos.
O
Jornal do Brasil, edição de 25 de abril de 1973, conta que, por ocasião do
lançamento de Itaipu, a comitiva de 90 integrantes do general Stroessner que
estava em Brasília para firmar a construção da usina espalhou-se pelo Hotel
Nacional. O nono andar ficou reservado para a cúpula da delegação: o general, o
filho, primeiro-tenente Gustavo Adolfo Stroessner, a filha Graciela Stroessner
e o genro do ditador, Humberto Dominguez Dibb, o tio e sócio de Alejandro
Dominguez.
Nomeações
para a empresa mostram essa influência. Como a de Gerardo Soria Dávalos, um
secretário de Osvaldo Dominguez Dibb que chegou a chefe do gabinete paraguaio
de Itaipu em 2014. Em 2022, o faz tudo dos Dominguez Dibb sofreu uma acusação
de assédio moral e sexual, quando ocupava o cargo de Diretor de
Responsabilidade Social na hidrelétrica. Episódio posteriormente arquivado.
“ODD”:
PEDIDO DE VISTO COM DADOS FALSOS AO FIM DA DITADURA STROESSNER POR MEDO DE
PUNIÇÕES
Tomado
por ditaduras militares desde a década de 60, sufocado pela “Operação Condor”,
os ventos do continente começaram a mudar de direção em meados dos anos 80.
Na
Argentina, o regime militar tinha acabado em 1983. No Brasil, o último general
se sustentava no poder, de onde sairia em 1985, assim como no Uruguai. No
Chile, o general Pinochet iria até 1990. É nesse contexto de provável mudança
no cenário político que, em 1984, o patriarca dos Dominguez pede os vistos
permanentes brasileiros para toda família. Uma precaução e salvaguarda depois
de décadas de relação umbilical, sanguínea e de negócios entre os Dominguez e
os Stroessner, como está no próprio relatório da PF:
“Referidos paraguaios são ligados direta ou indiretamente aos detentores do poder no governo do seu País. O propósito das artimanhas por eles praticadas para obterem permanência no Brasil, visa prevenirem-se contra possível mudança política no Paraguai”.
As
“artimanhas” citadas no processo: a criação de empresas fictícias no Brasil,
com intuito de provar vínculos já existentes, viabilizando a permissão. Essas
empresas se extinguiram logo após a concessão dos vistos.
Entre
as empresas criadas, está a Iguamóveis S.A. De acordo com os dados da Receita
Federal, a abertura, em Foz do Iguaçu, foi no dia 23 de fevereiro de 1984,
sendo baixada em 23 de outubro de 1985.
“Aquela
firma nunca funcionou. Foi criada com o fim de viabilizar a obtenção de
permanência definitiva no Brasil para a esposa, filhos, netos e alguns amigos
de Júlio Dominguez, tendo sido extinta definitivamente após a realização
daqueles objetivos”, diz o documento.
Na
ocasião, em depoimento a PF sobre o caso, corroborando a conhecida colaboração
entre ditaduras e seus beneficiários, o despachante e contador responsável por
abrir as empresas, Luiz Aires, “insinuou que citados elementos possuem ótimo
relacionamento nos altos escalões do governo brasileiro e que houve tráfico de
influência no processo de concessão da permanência definitiva no Brasil aos
nomeados”.
MUITO
MAIS DO QUE UM HERDEIRO: PRESIDENTE DA CONMEBOL É SÓCIO DOS STROESSNER E
BENEFICIÁRIO DA DITADURA NOS NEGÓCIOS
A participação de Alejandro Dominguez em toda engrenagem de fortuna e poder, vai muito além do parentesco. Assumiu parte dos empreendimentos do pai ainda cedo, como o conglomerado de jornal e rádios “Grupo Nación de Comunicaciones (GNC”), onde ocupou a presidência de 1999 a 2014. O império dos Dominguez passa por hoteis, imobiliárias, gastronomia, fábrica de cigarros, cassinos, exploração de jogo, terras e empresas ligadas ao agro.
O Brasil também reúne os Dominguez e os Stroessner nos negócios. Como na imobiliária Dominguez Dibb & Cia, aberta por “ODD” em Foz do Iguaçu, 1982, e ainda ativa, onde Alejandro está através da holding “Muharde Administradora de Bens”, sócio também de Humberto Dominguez e Alfredo Gustavo Domínguez Stroessner, o “Goli”, primo de Alejandro, filho de Humberto e neto do ditador.
Uma
comunicação datada de 10 de janeiro de 2010 entre a embaixada americana em
Assunção e o Departamento de Estado, vazada no Wikileaks, traça um perfil do herdeiro
de Osvaldo Dominguez Dibb: “seu filho, Alejandro Dominguez Wilson-Smith, que
estudou nos EUA, é o diretor do Grupo La Nacion, que inclui dois jornais
diários: La Nacion e Cronica, rádio 970 AM e várias estações de FM. Tanto pai
quanto filho tem laços com a família Stroessner”. Cita ainda as extensas
propriedades imobiliárias da família.
POLÍCIA
GRAVOU GARANTIA DE “ODD” SOBRE CIGARRO CONTRABANDEADO PELOS DOMINGUEZ: “TODA A
PRODUÇÃO TEM O MESMO PADRÃO DE QUALIDADE”
É
do ramo da fábrica de cigarros que brotaram os maiores escândalos da família.
Aqui novamente o presidente da Conmebol é muito mais do que somente um
herdeiro: Alejandro Dominguez é sócio da Tabacalera Boqueron. Acionista e nome
no registro da empresa, já estava como sócio quando, nos anos 90, começaram a
explodir as acusações de contrabando de cigarro da empresa. Escândalos
detalhados em comissões parlamentares de inquérito e processos judiciais em
diferentes países, investigação policiais e do ministério público.
Uma
modesta apreensão de 87 caixas de cigarro contrabandeados do Paraguai para São
Paulo, em 1997, foi o ponto de partida para uma investigação do Ministério
Público Federal-SP, que desembocou em denúncia oferecida e aceita em 2001 na
justiça de São Paulo, tendo tramitado na 6º Vara Criminal.
O
MPF-SP traçou com detalhes a ação e o papel da Tabacalera Boquerón, a sociedade
de “ODD” e do filho Alejandro Dominguez no que chamaram de “organização
criminosa” que comandava a engrenagem do contrabando de cigarros entre Brasil e
Paraguai.
O
empreendimento criminoso, segundo a peça, apresentava “uma divisão funcional de
atividades e conexões locais, nacionais e internacionais”. É nesse braço de
atividades e conexões internacionais que entrava a unidade dos Dominguez, de
acordo com o MPF-SP. “Assim é que os cigarros, de marcas próprias ou
contrafações de marcas nacionais, produzidos nas fábricas de Roberto Eleutério
ou na Tabacalera Boquerón, de propriedade do cidadão paraguaio Osvaldo
Dominguez Dibb, eram contrabandeados do Paraguai”.
A
monitoração telefônica de “ODD” por parte da investigação também permitiu
desenhar com maiores detalhes os tentáculos da Tabacalera Boquerón no esquema.
“É de se observar que a marca Derby, de titularidade da empresa Souza Cruz,
conforme diálogos mantidos entre integrantes da organização no Brasil e os
fornecedores paraguaios, entre eles Osvaldo Dominguez Dibb, é uma das mais
falsificadas e contrabandeadas, muitas vezes sendo identificada, durante a
transação comercial, com o código “418”.
As
apreensões geraram provas: “os cigarros apreendidos apresentam em muitas de
suas caixas, conforme se pode observar em vista realizada pelo MPF ao depósito
da Receita Federal, rótulos indicando que foram produzidos pela Tabacalera
Boquerón, sediada no Paraguai e de propriedade de Osvaldo Dominguez Dibb”.
Denunciado por associação criminosa, contrabando, falsificação de estampilhas
(selos) e crime contra a saúde pública, o processo por fim foi arquivado.
Em
2003, a câmara dos deputados instaurou em Brasília uma Comissão Parlamentar de
Inquérito, a “CPI da Pirataria”. “ODD” e a Tabacalera Boquerón ocupam um
capítulo inteiro do relatório final, apontado como “um dos principais
falsificadores de cigarros do Paraguai”.
O
modus operandi dos donos da Tabacalera Boquerón no esquema também está
esmiuçado no relatório da CPI:
“Utiliza
um avião do tipo Bell/90, série LA 46, registro ZP-TZE, em nome de sua filha,
para a prática do contrabando ou descaminho. As pistas utilizadas são as do
Aeroporto Guarani, de Ciudaddel Este, e uma em La Fortuna…Suas fábricas
produzem pelo menos 13 marcas de cigarros de peso no mercado brasileiro:
Belmont, Campeão, Derby, Indy, LS, Minister, Mistura Fina, Mustang, Oscar,
Plaza, Ritz, US e Vanguard. Todas falsificadas.”
As
escutas em cima de “ODD” captaram ainda a garantia de qualidade dos produtos da
Tabacalera Boquerón dada aos parceiros por “ODD”: “Podem ficar tranquilos
porque toda a produção tem o mesmo padrão de qualidade”.
A transformação de um país em negócio privado da família Stroessner e de seus parceiros alimentou os Dominguez em diferentes fronts. E gerou a fortuna do conglomerado Dominguez Dibb. Em fevereiro de 1969, Humberto Dominguez inaugurou, ao lado do sogro, sua fábrica de arames, a ICIERSA. Stroessner já tinha deixado o caminho livre para eliminar qualquer chance de insucesso dois meses antes, quando, no 31 de dezembro, publicou decreto proibindo a importação de alguns itens, entre eles o arame. Em 1975, o genro inaugurou ao lado do general a fábrica de pilhas “Paraguayas”. Noventa dias depois, decretou a proibição de importação de pilhas. De decreto em decreto do general, de monopólio em monopólio, os Dibb foram amealhando a fortuna da família.
PLATA
Y PLOMO: “MATADOR COM UMA ESCOPETA AMEAÇANDO CRIANÇAS E MULHERES”
O
roubo de terras por parte do que a Comissão de Verdade e Justiça do Paraguai
chamou de “famílias próximas a ditadura Stroessner” foi uma das maiores marcas
do período. De acordo com a comissão, 3.336 famílias ou grupos empresariais com
alguma relação ao ditador, se apropriaram de 8 milhões de hectares de “terras
mal habidas”.
O relatório “Los dueños de la tierra en Paraguay”, publicado pela organização internacional Oxford Committe for Famine Relief (OXFAM) em 2016, estima que o “Grupo Domínguez Dibb” acumulou 52 mil hectares no período, concentrados principalmente na Estancia La Gringa, de 35 mil hectares, em San Pedro, e na Estancia Loma Verde, em Presidente Hayes, com 17 mil hectares.
O
caso mais conhecido de terras do “Grupo Dominguez Dibb” apontadas como
apropriadas ilegalmente é o da Estância Loma Verde, onde está a “Agroganadera
Loma Verde”, da família.
Ali estão as terras da comunidade indígena Yakye Axa, que tiveram seu território gradualmente sendo tomado por fazendeiros ao longo do século XX, processo acelerado no período Stroessner.
Em 13 de julho de 2005, a CIDH sentenciou que o estado paraguaio deveria identificar o território tradicional e ancestral dos membros da Comunidade Indígena Yakye Axa, em posse dos Dominguez Dibb e entregá-los de maneira gratuita. Isso nunca ocorreu.
Expulsa de sua terra, a comunidade indígena vive até hoje à margem da estrada, onde é frequente o falecimento de crianças Yakye Axa por causa de acidentes na rodovia. No documento da CDIH de 2012, publicado pelo ministério da justiça do Brasil, o relato de uma testemunha cita a presença de um “matador” na propriedade dos Dominguez Dibb:
“Na
Estancia Loma Verde foi colocada uma pessoa como o matador do lugar, que
costuma percorrer o alambrado com uma escopeta ameaçando as crianças e as
mulheres, porque tem a ordem de não deixar as pessoas entrarem para retirar
lenha nem água. A testemunha é a única que pode se aproximar do senhor quando é
necessário que se esclareça algo, de modo que também recebeu ameaças.” Por fim,
contam que “as crianças não possuem alimentação, às vezes não possuem nada para
comer durante o dia. Há muitas dificuldades para a prática de caça, já que
estão proibidos de entrar na estância”.
FUTEBOL:
EM BUSCA DA POPULARIDADE E SEMPRE NA ROTA DOS ESCÂNDALOS
Poderosos,
impunes, milionários e amigos do rei. Os donos do Paraguai.
Faltava
apenas um ingrediente aos Dominguez Dibb: o respaldo popular.
Percorreram
o caminho mais fácil, indo ao encontro de onde muitas vezes se busca esse
ingrediente: o futebol.
Em
1976, ainda na ditadura Stroessner, “ODD” assumiu a presidência do Olímpia. Em
1979, o clube conquistou a Libertadores e o Mundial Interclubes.
Estabeleceram
uma dinastia e um feudo no Olímpia, com Humberto nos bastidores e Alejandro no
conselho de administração entre 1995 e 1996, e a vice-presidência entre 2004 e
2006. Neste ano, Alejandro Dominguez passou a vice-presidência da Associação
Paraguaia de Futebol (APF), com o “ODD” mantendo-se influente até a morte, em
2024. Em 2014, Juan Angel Napout, então o presidente da APF, assumiu a
titularidade da Conmebol e Alejandro chegou número 1 da APF.
Em
dezembro de 2015, quando explodiu o Fifagate, maior caso de corrupção da
história do esporte, Napout foi preso na Suíça. De acordo com a acusação
apresentada por Loretta Lynch, então Procuradora-Geral dos Estados Unidos,
Napout, em 2013, ainda na presidência da APF, teria recebido US$ 7,5 milhões da
Datisa, empresa que comercializava os direitos de televisão pela exclusividade
da Copa América. Alejandro Dominguez era seu vice no período, mas não foi
acusado. Com a queda de Napout da Conmebol, em janeiro de 2016, Alejandro
Dominguez foi aclamado novo presidente da Conmebol, onde está até hoje.
OPÇÃO
POR CONTRATO COM “PARCEIROS” ASSINADO POR ALEJANDRO DOMINGUEZ GEROU PERDA DE
US$ 7,6 MILHÕES
Em
2021, com Alejandro Dominguez já na presidência da Conmebol, veio à tona o
episódio do contrato assinado por ele quando ainda estava na Associação
Paraguaia de Futebol.
De
acordo com as denúncias, Alejandro, então mandatário da APF, teria assinado, em
5 de maio de 2015, um contrato com a empresa Ciffart Sport, no valor de US$
9.380 milhões, cedendo os direitos de transmissão dos jogos do Paraguai nas
eliminatórias da Copa da Rússia 2018. A Ciffart seria intermediária da Full
Play para pagamento de subornos.
Ocorre
que, exatos 11 dias antes, em 24 de abril, Alejandro Dominguez teria tido uma
oferta e um contrato na mão, que acabou vindo a público, no valor de US$ 17
milhões com a Tenfield pelos mesmos direitos. Ou seja: teria optado por uma
perda de US$ US$ 7,62 milhões (sete milhões, seiscentos e vinte mil dólares).
Em novembro de 2021, numa corte de Assunção, Alejandro Dominguez se recusou a
responder sobre o caso. Em 2023, o episódio foi alvo de investigação do Comitê
de Ética da Fifa, onde Alejandro Dominguez ocupa uma vice-presidência desde
2018. A investigação não foi adiante. O escândalo não o impediu de ser também,
desde 2017, o presidente da Comissão de Finanças da Fifa.
ALEJANDRO
DOMINGUEZ ABRIU EMPRESAS EM PARAÍSO FISCAL LOGO DEPOIS DE ASSINAR O CONTRATO DA
APF POR ELIMINATÓRIAS DE 2018
Refazendo o caminho e as pegadas desse episódio e desse contrato, a reportagem descobriu uma nova coincidência de datas muito próximas:
No dia 19 de junho de 2015, exatos 45 dias depois de assinar com a Ciffart o contrato com valor muito menor do que a oferta que recebera da Tenfield, o registro público de empresas do Panamá tem a abertura da “Spark Bay S.A.”, cujo objeto é de investimentos e gestão de ativos diversos.
Alejandro
Guillermo Dominguez Wilson Smith assina como presidente da empresa.
Maria
Mercedez Perez Dominguez, casada com Alejandro Dominguez, está como secretária.
Ambos constando no mesmo endereço em Assunção.
Montserrat Jimenez Granada aparece como tesoureira.
Montserrat
Jimenez Granada não é apenas sócia de Alejandro Dominguez em uma empresa
privada em paraíso fiscal. A advogada é a Diretora Jurídica e Secretária Geral
Adjunta da Conmebol desde a chegada de seu sócio na Spark Bay à presidência da
entidade máxima do futebol sul-americano. E já acompanhava o dirigente na
Associação Paraguaia de Futebol desde a entrada dele como presidente, em 2014,
só saindo para acompanhá-lo na Conmebol.
Na empresa panamenha, a diretora da Conmebol forneceu como endereço o escritório de advocacia Jiménez Balbiani & Asociados, do qual é parte, com seu irmão, Julio Jimenez, vice-presidente do Olímpia e intimamente ligado a Alejandro Dominguez: calle Jejuy 290 esquina Oleary.
Alejandro
Dominguez e Montserrat Jimenez seguem juntos na Conmebol e na empresa privada.
O Panamá está na lista de paraísos fiscais de entidades como a Organização para
a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e União Europeia, e é conhecido
por práticas de sigilo financeiro e baixa tributação, que facilitam a evasão
fiscal e a lavagem de dinheiro. A abertura da “Spark Bay”, em 2015 no país é,
portanto, anterior ao Panamá Papers, escândalo de 2016, a partir do qual outros
países se tornaram mais procurados para tais transações
CRONOLOGIA
–
24 DE ABRIL DE 2015: ALEJANDRO DOMINGUEZ RECEBE OFERTA DE US$ 17 MILHÕES DA
TENFIELD POR DIREITOS DE ELIMINATÓRIA DE COPA DE 2018
–
5 DE MAIO DE 2015: ALEJANDRO DOMINGUEZ ASSINA CONTRATO COM O A CIFFART POR US$
9,38 MILHÕES
–
19 DE JUNHO DE 2015: ALEJANDRO DOMINGUEZ ABRE A EMPRESA “SPARK BAY” NO PARAÍSO
FISCAL DO PANAMÁ JUNTO COM A SECRETÁRIA DA CONMEBOL
NOVOS
NEGÓCIOS, VELHAS SOMBRAS: UM CONTRATO MILIONÁRIO DE PETRÓLEO E MUITAS DÚVIDAS
O
negócio da vez dos Dominguez cruza as fronteiras e envolve milhões.
No dia 30 de setembro de 2024, a Petroleos Paraguayos (Petropar) e Doha Holding Group assinaram um contrato no valor de US$ 61 milhões.
Com
previsão de entrega de 100.000 toneladas métricas de combustível por um preço
significativamente menor do que o que a Petropar normalmente paga. Com preço do
diesel fixado em US$ 610 por tonelada, o que é bem abaixo do praticado no
cenário mundial, em que o preço médio internacional do diesel em 2023/2024
variou entre US$ 700 e US$ 900 por tonelada. A entrega do combustível deveria
ter sido entre outubro e novembro do ano passado, mas em março último as
empresas assinaram a quinta prorrogação de prazos.
PANAMÁ,
DOHA, ASSUNÇÃO E A MESMA ESQUINA: TODOS OS CAMINHOS LEVAM A ALEJANDRO DOMINGUEZ
Sem
qualquer tradição ou registro público de transação no mercado de combustível e
histórico comprovado, a Doha Holding contou com um trunfo para obter o contrato
com a Petropar: quem assina como um dos representantes da empresa é Alejandro
Facundo Dominguez Pérez. O filho do dirigente máximo do futebol continental. É
a terceira geração dos Dominguez envolvida em negócios controversos.
O herdeiro de Alejandro Dominguez como representante de uma empresa estrangeira em uma transação milionária no ramo do petróleo chama atenção também, já que cerca de um ano antes, mais exatamente no dia 13 de maio de 2023, estava se formando em jornalismo na William Allen White School of Journalism and Mass Communications, da Universidade do Kansas, Estados Unidos. Pouco tempo depois, estava assinando contrato milionário em área totalmente distinta da formação no ano anterior.
Além do filho, todos os caminhos da Doha Holding tangenciam o presidente da Conmebol. Como o endereço em Assunção fornecido pela empresa catari no contrato com a Petropar: calle Jejuy 290 esquina Oleary.
Este endereço já apareceu nesta reportagem. Sede do escritório de advocacia Jiménez Balbiani & Asociados, de Julio Jimenez, vice-presidente do Olímpia e intimamente ligado a Alejandro Dominguez, e de Montserrat Jimenez Granada, a sócia de Alejandro Dominguez na empresa que os dois tem no paraíso fiscal do Panamá. A advogada já citada que o acompanha não só em offshores, mas que está com ele também na Conmebol e antes esteve na Associação Paraguaia de Futebol.
Os documentos da Doha Holding Group obtidos pela reportagem mostram que ela foi aberta em 14 de dezembro de 2023, apenas nove meses antes do contrato com a Petropar, e está registrada no Qatar Financial Centre, que funciona como uma zona econômica especial e centro financeiro no Catar, operando com um sistema jurídico e regulatório independente, em inglês, para empresas de serviços financeiros e não financeiros. De acordo com o Tax Justice Network, ONG inglesa que investiga paraísos fiscais e países com alto grau de sigilo bancário, o Catar, embora não seja um paraíso fiscal, está classificado como um dos países de sigilo financeiro relevante, em 20º no mundo.
Com
capital de dez milhões de riais catarianos, equivalentes a US$ 2,75 milhões, a
Doha Holding tem como acionista principal o Sheik Khalifa Hamad Al-Thani, que
foi emir do Catar até 2013, sendo sucedido pelo filho, atualmente no poder. O
secretário Saad Doukali aparece em diversos empreendimentos financeiros.
O
DONO DO PARAGUAI
No
dia 11 de abril de 2024, uma quinta-feira, às 12h17, as câmeras de uma obra em
construção flagraram um homem de camisa social azul e calça num tom mais escuro
adentrando um pequeno campo de futebol com gramado sintético, situado na
Avenida Molas Lopez, entre San Martin e Dr Cirilo Cáceres, no bairro de Las
Lomas.
Aos berros, gritava para os operários do prédio em construção no terreno ao lado do campinho: “Si llego a ver a alguien que invada mi propiedad privada, levoy a meter plomo”. Em bom português: “Se eu pegar alguém invadindo minha propriedade, vou meter chumbo”. Pouco tempo depois, obteve o embargo da obra.
No vídeo, que é parte do processo na justiça paraguaia e foi obtido pela reportagem, o homem, captado à meia distância nas imagens, fala da polícia como se fosse uma instituição a serviço dele, e segue aos berros avisando aos funcionários da obra que se houver invasão da propriedade dele, “vai fazer descerem e serem presos”, sempre enfatizando ser o dono da propriedade ao lado da obra.
A
propriedade é de Alejandro Dominguez, o presidente da Conmebol, como está no
processo. A entidade de futebol inclusive está citada porque, de acordo com a
peça, o dirigente promoveu reunião de interesse particular com a entidade de
classe dos proprietários imobiliários na própria Conmebol.
Além de tratar dos assuntos de interesse particular do mandatário, a Conmebol segue o fracasso semanal no combate ao racismo pelos campos do continente. Em 17 de março último, Alejandro Dominguez achou por bem falar sobre eventual ausência de clubes do Brasil na Copa Libertadores da América comparando brasileiros a macacos: “Seria como o Tarzan sem a Chita”. Dezoito anos antes, o pai, Osvaldo Dominguez Dibb, ganhou o prêmio de “Artigo Mais Racista do Ano de 2007”, concedido pela organização de direitos humanos Survival International.
No
editorial “Índios na Praça Uruguai”, publicado no La Nacion no dia 13
de setembro de 2007, “ODD” atacou os indígenas, que expulsos por aqueles que
tinham tomado suas terras, acamparam entre janeiro e setembro no local. Uma
praça, por acaso, vizinha do Crowne Plaza Hotel, de propriedade dos Dominguez.
“Um câncer” e “hábitos imundos”, foram alguns dos termos usados
por “ODD”. Que prosseguiu em seu texto:
“Um
acampamento indígena neolítico bem no centro da cidade é impensável, mas lá
está ele, como um câncer perigoso, espalhando maus cheiros, destruição e
contaminação. A cidade está sendo punida sem motivo e não deveria ter que pagar
por isso. Os indígenas precisam aprender a viver como pessoas ou voltar para a
selva.”
O
poder dos Stroessner ficou para trás, deixando um rastro genocida, violento e
corrupto. Os Dominguez, cúmplices e produtos desse tempo, seguem cada vez mais
firmes e se renovando. Inaugurando a terceira geração envolvida em negócios
rumorosos. E cada vez mais poderosos. Terras, imóveis, fortuna, justiça,
transações milionárias, meios de comunicação. Como donos de um país. Ou mais do
que isso. Do futebol no continente. Numa história tão América Latina. Como
tantas outras já vistas por aqui, de plata y plomo.
OUTRO
LADO:
A reportagem enviou para Alejandro Dominguez, através do departamento de comunicação da Conmebol e também para seu e-mail pessoal, questões sobre os pontos abordados. A Conmebol confirmou o contato mas não respondeu as perguntas e pedidos de comentário, assim como o presidente da entidade, Alejandro Dominguez, e a secretária Montserrat Jimenez.
Milhares de frequentadores
estiveram com a vida em risco na praia de Copacabana no verão do ano passado.
No auge da estação, durante os meses de janeiro e fevereiro de 2024, turistas e cariocas mergulharam em um ponto cego num dos mais concorridos lugares da orla. Um pedaço de mar com a visão e a proteção dos salva-vidas obstruídas, como mostram imagens e documentos obtidos pela reportagem. Banhistas e salva-vidas separados por paineis de propaganda gigantescos.
Por iniciativa da prefeitura
do Rio, uma das maiores intervenções publicitárias de todos os tempos foi feita
na paisagem do Rio de Janeiro, em uma clara demonstração da força da indústria
das bets, as casas de aposta.
No total, foram dois meses de
ocupação. Entre 26 de dezembro de 2023 e 18 de fevereiro de 2024, o Rio foi
tomado por gigantescas estruturas estampando a marca da casa de apostas Pixbet:
Seis cubos gigantes espalhados pela cidade, um “beach club” e duas imensas
torres unindo uma tirolesa, ambos na praia de Copacabana.
O “Beach Club Pixbet” teve o funcionamento entre os dias 25 de janeiro 18 de fevereiro de 2024, de 8h às 18h autorizado em 2 de janeiro.
Peças imensas foram montadas no trecho de areia que fica entre o Lido e a rua Prado Júnior. Além de todas as instalações do “Beach Club Pixbet”, mais duas torres para abrigar uma “tirolesa”. Em plena areia, a torre de partida tinha quase 10 metros de altura. Exatos 9,50. E a torre de chegada 3,60.
No dia 29 de janeiro, já com quatro dias de funcionamento do “Beach Club Pixbet”, o comandante do 3º Grupamento Marítimo (3º GMar), coronel Márcio André Mathias de Oliveira, responsável pela área do evento, enviou comunicação ao comandante do Comando de Atividades de Salvamentos Marítimos (CBA X), obtida pela reportagem, onde apontou para os graves riscos da montagem. Uma negligência que poderia ter causado uma tragédia para a história da cidade e botou a vida de milhares de pessoas em risco. A solução veio em forma de gambiarra. A reportagem questionou o CBMERJ por meio da assessoria de imprensa sobre o fato. A instituição informou que “no período mencionado, os militares foram reposicionados estrategicamente para mais perto da areia, garantindo a continuidade do serviço de salvamento marítimo sem qualquer prejuízo à segurança da população” Já a prefeitura respondeu, via assessoria, que “ante todas as liberações oficiais, o município autorizou a realização do evento entre os dias 25 de janeiro de 2024 e 18 de fevereiro de 2024, de 8h às 18h”. (ver íntegra das respostas ao fim).
Com o improviso o “clube” foi
mantido, mesmo causando o reconhecido transtorno.
MERGULHO EM PONTO CEGO NA PRAIA DE COPACABANA
O relatório do comandante do 3º
Grupamento Marítimo (3º GMar), em 29 de janeiro, não deixa qualquer margem de
dúvida sobre o risco. Textualmente, palavra por palavra:
“Considerando o Beach Club
PixBet, evento esportivo que está sendo realizado na Avenida Atlântica, s/n –
Copacabana, a direita do Posto de Salvamento 2, com data de início as
11/01/2024 e término previsto para 18/02/2024, cujo tem estimativa de 200
pessoas por dia”;
“Considerando a estrutura montada para a realização do evento que, além de ser próxima à torre de salvamento, ocupa boa parte da faixa de areia, fazendo com que o guarda-vidas de serviço tenha a visão do lado esquerdo do posto prejudicada, perdendo visibilidade do mar”.
“Venho por meio desta
informar que a estrutura supracitada prejudica sobremaneira o serviço dos
guarda-vidas do Posto 2”.
O relato informava ainda que a estrutura do evento prejudicava o serviço de salvamento diretamente “diminuindo o tempo de resposta do guarda-vidas”.
E mais: que a representante do evento não considerou a gravidade dos fatos. Estava tudo legalizado. “A mesma informou que cumpriu com o projeto que foi apresentado para a legalização do evento”.
A organização do evento foi
indiferente ao relato sobre o risco que milhares estavam correndo: “…na
tentativa de mitigar o prejuízo, após conversar com uma das organizadoras, o
retorno não foi positivo por parte desta”, escreveu.
A reportagem teve acesso às fotos anexadas no relatório. São imagens contundentes quanto ao nível de interferência. Definitivas para se entender a dimensão do perigo que frequentadores da praia correram durante mais de um mês sob o patrocínio da casa de apostas Pixbet.
AS INTERVENÇÕES DA PIXBET NA PAISAGEM DO RIO NO VERÃO
DE 2024
– Um Beach Club ao lado do posto
2, Copacabana ocupando um quarteirão inteiro de um dos mais nobres ponto da
praia.
– Ao lado do “beach club” do
posto 2, em Copacabana, duas torres foram montadas para abrigar uma tirolesa.
Em plena areia, a torre de partida tinha quase 10 metros de altura. Exatos
9,50. E a torre de chegada 3,60.
– 6 cubos
publicitários, com 3 metros de altura e 5,15 metros de comprimento.
INVASÃO DA CASA
DE APOSTAS OCORREU NOS PONTOS MAIS VALORIZADOS DA CIDADE
Os pontos onde os 6 cubos
Pixbet foram instalados:
1- Avenida
das Américas, 900 (Barra da Tijuca)
2- Parque do
Flamengo (altura da rua Jardel Jercólis)
3- Parque do
Flamengo (altura do Hotel Glória)
4- Orla de Copacabana
(Avenida Atlântica na altura da rua Rainha Elisabeth)
5- Lagoa (na
saída do metro estação General Osorio)
6- Lagoa (canteiro central na subida do Túnel Rebouças)
CUBO PIXBET NA LAGOA
DOCUMENTOS DO IPHAN E INEPAC FALAM EM IRREGULARIDADES
O Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional (IPHAN) e o INEPAC enviaram ofícios para prefeitura e
produtores contestando as instalações. Por diversas irregularidades. Sem
efeito.
Em 29 de dezembro de 2023,
três dias depois da montagem das torres para abrigar a tirolesa no posto 2 da
praia de Copacabana, a superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (IPHAN) no Rio de Janeiro pediu a retirada dos paineis de
propaganda do local, por ser um “Sítio Patrimônio Mundial: paisagem carioca
entre a montanha e o mar”.
“Considerando o posicionamento histórico deste Iphan
de que o patrimônio cultural não seja utilizado como suporte de propaganda
comercial, recomenda-se a retirada dos grandes painéis da empresa promotora.
Além disso, relativamente à limitação de uma extensa faixa de areia,
recomenda-se que o acesso seja franqueado a todos, com o objetivo de garantir a
fruição do patrimônio por todo o coletivo da sociedade”.
Além do “Beach Club” e da tirolesa que contrariavam as
normas do IPHAN, os 2 cubos da Pixbet no Parque do Flamengo também apresentaram
irregularidades.
Em outro ofício de 29 de janeiro, a instituição pediu
a retirada dos cubos ali instalados, “cada vez maiores e mais numerosos”:
“Relativamente aos 2 cubos previstos para o Parque do
Flamengo, solicitamos a retirada dos elementos do local à luz do posicionamento
institucional adotado para a área de que os paineis publicitários em si já
causam poluição visual na paisagem e, recentemente, sendo projetados com
dimensões cada vez maiores e se tornando mais numerosos, ofuscam a
singularidade da paisagem natural urbana carioca. Dessa forma, requeiro o envio
de relatório fotográfico que demonstre a integridade dos canteiros ajardinados
após a desmontagem dos elementos, e/ou a recuperação dos gramados eventualmente
danificados em virtude da montagem do cubo de publicidade. Ressaltamos que
eventuais danos identificados no local, causados pela instalação dos cubos,
serão imputados à responsabilidade do requerente”.
MAIS
IRREGULARIDADES EM OUTRO CUBO NA ORLA
O segundo ponto da orla de Copacabana, instalado na
avenida Atlântica com a rua Rainha Elizabeth, a poucos quilômetros da
instalação do Posto 2, também apresentou problemas na liberação.
O Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC)
recebeu ofício para solicitação de autorização para a instalação patrocinada
pela Pixbet em 30 de janeiro de 2024, seis dias depois de já montada. Em 2 de
fevereiro, o arquiteto da instituição, Eduardo Valdetaro enviou ofício para a
prefeitura e para os representantes dos patrocinadores com duas considerações
principais apontando irregularidades:
“O cubo publicitário instalado em cima do piso tombado
de pedras portuguesas de autoria Roberto Burle Marx em um trecho do mosaico em
área integrante do tombamento estadual denominado Conjunto urbano-paisagístico
nas praias do Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon; o cubo publicitário de led “em
funcionamento 24 horas por dia, o que impactará diretamente na paisagem da Orla
de Copacabana, já que o local faz parte do Sítio Rio de Janeiro – ‘Paisagens
Cariocas entre a Montanha e o Mar’, patrimônio mundial declarado pela UNESCO
desde 2012, na categoria paisagem cultural”.
O parecer do INEPAC: “Diante das considerações acima e
após análise do material recebido, e sob o ponto de vista estrito do tombamento
Estadual, este Instituto se opõe a instalação de cubo publicitário Pixbet em
cima do piso de mosaico em pedras portuguesas de autoria de Roberto Burle Marx”.
O INEPAC também lamentou o envio com pedido de autorização fora do prazo:
“Solicitamos que, para as próximas realizações, seja
observado o prazo para envio da documentação de requisição ao INEPAC, de 20
dias antes da data inicial da montagem das peças artísticas”.
MUNICÍPIO NÃO RECEBEU UM CENTAVO PELA UTILIZAÇÃO DA
CIDADE COMO CENÁRIO DA PIXBET
A transformação da cidade em
um cenário da Pixbet não valeu um real diretamente para os cofres da
prefeitura. Assim mesmo: não houve qualquer pagamento direto da Pixbet ao
município para que a cidade se transformasse em um canteiro de exposição da
casa de apostas.
A transação da casa de
apostas para expor sua marca nos principais pontos da cidade foi feita através
de um intermediário, que recebeu o pagamento. No caso, um personagem de longa
relação com eventos realizados no Rio de Janeiro nas gestões Eduardo Paes: a SR
Promoções Culturais (SR COM) empresa de organização de eventos com R$
94.690.022,12 (noventa e quatro milhões, seiscentos e noventa mil, vinte e dois
reais e doze centavos) em 22 contratos com a prefeitura do Rio ao longo dos
anos, sendo que 18 deles em gestões de Eduardo Paes, além de outros eventos com
múltiplos financiadores além do município, como a festa de abertura dos Jogos
Olímpicos em 2016 e Jogos Mundiais Militares, em 2011.
O início da invasão da Pixbet
se deu próximo ao réveillon de 2023. Um edital da Riotur, a empresa de turismo
do município do Rio, selecionou a empresa responsável pela produção da festa de
fim de ano na cidade. A SR Promoções Culturais foi a vencedora da concorrência.
O edital autorizava a empresa
vencedora a captar patrocinadores no mercado privado, com a contrapartida de
ações de marketing nas áreas da festa. Assim, em breve resumo, a Pixbet assinou
e realizou o pagamento para ser patrocinadora da produtora do evento, a SR
Promoções Culturais. Não entrando nenhum centavo para a prefeitura diretamente
pela exposição da casa de apostas, como confirma a própria prefeitura, através
da assessoria de imprensa da Riotur, em resposta para a reportagem.
“Não houve qualquer
transferência de recursos entre a “Pixbet” e a Prefeitura do Rio de
Janeiro. Houve, na verdade, um aporte de recursos privados, a título de
patrocínio, para a sociedade organizadora privada, a “SR COM”,
selecionada mediante Edital de Caderno de Encargo realizado pela Riotur.”
(veja a íntegra da resposta ao fim da reportagem).
PREFEITURA NÃO RECEBEU PELO PATROCÍNIO DO RÉVEILLON MAS PAGOU R$ 22,1 MILHÕES PARA INTERMEDIÁRIA EM GASTOS NA FESTA
A SR Promoções Culturais
ganhou dos dois lados.
Se não houve pagamento de
patrocinadores para o cofre da cidade diretamente, indo para a empresa, o mesmo
não pode ser dito em relação ao fluxo “prefeitura – SR Promoções Culturais”.
Mesmo captando recursos na iniciativa privada, a empresa ainda assinou um total
de R$ 22.150.000,00 (vinte e dois milhões, cento e cinquenta mil reais) a serem
pagos pela gestão de Eduardo Paes, em ações diretas para o réveillon, divididas
em dois contratos: um junto a própria Riotur, (R$ 11.900.000,00) e outro com a
Casa Civil (R$ 10.250.000,00).
Assinado em 13 de dezembro, o
contrato de R$ 11,9 milhões da Riotur com a SR Promoções Culturais teve como
objeto “contratação de empresa especializada para prestação de serviço de
evento, planejamento operacional, execução, acompanhamento, fornecimento de
bens e insumos, infraestrutura e apoio logístico para viabilizar o evento do
réveillon 2023/2024 – Palcos da Cidade do Rio de Janeiro”.
Já o contrato da Casa Civil
do município com a Sr Promoções Culturais, assinado no apagar do ano que
partia, em 28 de dezembro, no valor de R$ 10,2 milhões, tinha como objeto a
“divulgação da marca G-20 durante o réveillon de 2023/2024, em vários pontos da
cidade, tendo como seu ponto alto a praia de Copacabana”.
A INVASÃO DA CASA DE APOSTAS SEGUIU DEPOIS DO RÉVEILLON
Passado o réveillon, a
invasão da Pixbet seguiu. E aumentou.
Em 15 de janeiro, a Liga
Independente das Escolas de Samba (LIESA), através de seu presidente Gabriel
David, oficiou a prefeitura e enviou documento formal de “consulta prévia de
evento”. O evento já estava montado.
A consulta tratou sobre a
ocupação da cidade com a tirolesa, um beach club e 6 cubos gigantes espalhados
em pontos turísticos como uma “contribuição para a cidade” por parte da Pixbet,
que também é patrocinadora da Liesa.
Mais do que isso: como algo que irá
“enriquecer a experiência dos participantes. Assim, solicitou formalmente “a
permissão da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro para a instalação de
ativações promocionais em locais estratégicos da cidade durante o período
mencionado”.
Em 19 de janeiro, foi a vez
da Dream Factory, empresa organizadora do carnaval de rua do Rio, “informar o
interesse da empresa Pixbet em realizar ativações espalhadas pela cidade do Rio
de Janeiro durante o período que compreende janeiro e fevereiro, até o final do
carnaval”.
Em 30 de janeiro, seis dias
depois de já iniciada a ação, a SR Promoções Culturais escreveu para o Instituto
Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC), onde o projeto tinha entrado em
exigência, e também citou a invasão da casa de apostas na paisagem como um
“oferecimento” para a cidade, assim como a extensão do réveillon para
permanência até depois do carnaval. Os termos: “Já que a empresa Pixbet
patrocinou o réveillon do Rio e ofereceu para a prefeitura os cubos para
divulgar agendas de eventos do carnaval do Rio”, solicitava a autorização da
instalação para “em parceria com a prefeitura do Rio, divulgar agendas de
eventos de eventos do carnaval do Rio”.
Nenhum dos ofícios trata
sobre valores e sim apenas sobre a instalação dos objetos da Pixbet na cidade
como um “oferecimento” da empresa.
Os pedidos formais nos
documentos obtidos pela reportagem, na verdade eram mesmo formalidades, já que
os objetos já estavam instalados.
EMPRESA RESPONSÁVEL PELO EVENTO RESPONDEU POR
IRREGULARIDADES ANTERIORMENTE
Vencedora do edital para o
réveillon de 2024, assim como em outros anos anteriores, e responsável pelo
projeto que espalhou a marca da casa de apostas pelo Rio, a SR Promoções
Culturais esteve citada por irregularidades em eventos anteriores na cidade.
Na edição dos Jogos Mundiais
Militares (JMM), realizados no Rio em 2011, a empresa foi citada em 2012 em
processo do Tribunal de Contas da União (TCU), por irregularidades. Entre elas,
a ligação entre Abel Silveira Gomes, contratado para elaboração do projeto das
cerimônias de abertura e de encerramento da competição, além do gerenciamento
do contrato de produção e execução do referidos cerimoniais, por R$ 765.000,00.
Em seguida ao projeto de Abel
Gomes, foi realizada a licitação para escolha da empresa especializada na execução
desse projeto das cerimônias de abertura e encerramento. Venceu a SR Promoções
Culturais, com proposta de R$ 24.994.000,00. Um valor apresentado na licitação abaixo
da estimativa inicial do Comitê de Planejamento Operacional dos JMM, de R$
27.998.266,67.
No voto sobre o processo do
TCU, o tribunal apontou irregularidade na escolha mas ao fim não
responsabilizou ninguém.
A SR Promoções Culturais, executora do projeto, está em nome de Sheila Roza, que mantinha união estável com Abel Gomes, o autor do projeto, além de relações societárias em outras empresas. De acordo com o TCU na ocasião, a empresa “possui estreito relacionamento profissional, societário e pessoal com o projetista das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos, Sr. Abel Silveira Gomes, em violação ao disposto no art. 9º da Lei 8.666/1993”. Tal artigo estabelece que não pode participar de licitações, obras, serviços e fornecimento de bens: “o autor do projeto, seja ele básico ou executivo; a empresa que elaborou o projeto, ou da qual o autor seja dirigente, gerente, acionista, controlador, responsável técnico ou subcontratado”.
No entanto, apesar de
identificar a irregularidade, o TCU, em fevereiro de 2015, não aplicou sanção a
Abel Gomes nem à empresa SR Promoções Culturais Ltda. Como justificativa,
apesar do reconhecimento de ilicitudes, o tribunal, através de votação, definiu
que como nem Abel nem a SRCOM eram gestores públicos, não cabia aplicar
penalidades a eles.
Além de outras relações
societárias apontadas pelo TCU, a reportagem encontrou ainda o registro da
empresa SR COM Limited no equivalente a junta comercial do Reino Unido, onde
Abel Gomes aparece como proprietário e Sheila Roza como sócia, além de Paulo
Cezar da Silva Ferreira.
OUTRO LADO:
Prefeitura do Rio de Janeiro:
“A Prefeitura do Rio informa
que autorizou a realização do evento “Beach Club Pixbet”, na Praia de
Copacabana, Posto 2, após todos os órgãos envolvidos na concessão da licença
emitirem o nada a opor. Inclusive, o Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro
(CBMERJ), via Autorização A-00016/24 DGDP, expedida em 2 de janeiro de 2024.
Ante todas as liberações oficiais, o município autorizou a realização do evento
entre os dias 25 de janeiro de 2024 e 18 de fevereiro de 2024, de 8h às 18h”.
RIOTUR:
A reportagem enviou também para
a prefeitura, via assessoria de imprensa, pedido de resposta sobre a relação
entre o município, a SR Promoções Culturais e a Pixbet no episódio. A
prefeitura indicou a Riotur como responsável pela resposta. A Riotur enviou a
resposta abaixo:
“A Riotur para o
Réveillon do Rio de 2023/2024 lançou o edital – Caderno de encargos e
contrapartidas para selecionar publicamente a empresa responsável pela produção
do festejo de final de ano. A empresa SR PROMOÇÕES CULTURAIS LTDA (“SR
COM”) se sagrou vencedora do processo de seleção.
Para financiar os custos do
projeto vencedor do Réveillon, a sociedade organizadora (“SR COM”)
buscou, no mercado privado, potenciais patrocinadores interessados, os quais
teriam, como contrapartida, a possibilidade de realizar ações de marketing e
ativações nas regiões que circundam as áreas onde o Réveillon é realizado.
Uma dessas sociedades
patrocinadoras, portanto, foi a PIXBET SOLUCOES TECNOLOGICAS LTDA (“Pix
bet”), firmando relação jurídica com SRCom, permitindo-lhe realizar ações
de marketing e outros.
Em conclusão, não houve
qualquer transferência de recursos entre a “Pixbet” e a Prefeitura do
Rio de Janeiro. Houve, na verdade, um aporte de recursos privados, a título de
patrocínio, para a sociedade organizadora privada, a “SR COM”,
selecionada mediante Edital de Caderno de Encargo realizado pela RIOTUR.”
CBMERJ:
“O Corpo de Bombeiros Militar
do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ) informa que a situação relatada não
impactou as atividades dos guarda-vidas. No período mencionado, os militares
foram reposicionados estrategicamente para mais perto da areia, garantindo a
continuidade do serviço de salvamento marítimo sem qualquer prejuízo à
segurança da população”.
IPHAN:
A reportagem enviou pedido de
resposta para o IPHAN sem resposta.
SRCOM:
A reportagem enviou pedido de resposta para a SRCOM, sem resposta.
PIXBET:
A reportagem tentou contato
com a bets e seus proprietários. Enviou
demanda ainda para o escritório de advocacia da Pixbet, mas não obteve retorno.
O estranho não é Landim não saber o que Zico representa para o Flamengo. O estranho não é Landim não ter respeito pelo Flamengo. Tudo isso sempre esteve aí. Esse é o sujeito cujo único objetivo é negociar o Flamengo. O estranho é a Gávea não ter sido cercada, não existir protesto, não se exigir a saída de um presidente que não respeita o maior ídolo. Algo que só a cooptação de tantos personagens desse enredo explica. Não é preciso explicar pra ninguém aqui quem é Zico, quem é Zico para o Flamengo. Nem mesmo falar sobre construção de memória, o sagrado da construção de ídolos. É preciso falar sobre Landim. Vamos lá:
O Flamengo é vítima de uma apropriação indébita. Rodolfo Landim usa o Flamengo para seus objetivos pessoais.
Não bastasse a aberração que isso representa, o preço disso está sendo muito alto para o clube.
As duas frases acima vão muito além de subjetivas. São facilmente respaldadas em um conjunto de fatos recentes. Assustadores.
Aos fatos:
No dia 17 de junho de 2020, Landim esteve na posse do então novo ministro das comunicações, Fábio Faria. Após a cerimônia, em meio a uma pandemia que matava milhares todos os dias, ocorreu um almoço reservado juntando o presidente do Flamengo, Bolsonaro e Felipe Melo. São todos fatos públicos e registrados na imprensa na ocasião.
No almoço, Landim e Bolsonaro conversaram sobre a “Lei do Mandante”. Era o que os dois precisavam. Para Bolsonaro, era a forma perfeita para fustigar a TV Globo e atacar diretamente seu alvo permanente no bolso. E para Landim, o passaporte que precisava para ganhar o mandatário e alçar seus vôos particulares. Usando o Flamengo para isso. O tempo acabou mostrando o quão danoso foi para o Flamengo, mas é isso é adiante.
No dia seguinte já, célere como jamais foi para comprar vacinas, Bolsonaro edita a MP 984/2020, redigida por seu ministro Onyx Lorenzoni. A celeridade ocorreu ainda porque a alteração era simples: bastou acrescentar a palavra “mandante” ao trecho da Lei Pelé que trata sobre os detentores dos direitos de transmissão das partidas. Uma simples palavra que atingia em cheio a TV Globo e ao mesmo tempo credenciava Landim como um homem de confiança de Bolsonaro.
Paralelo ao favor em que usava o Flamengo sem pensar no cenário de perdas futuras, Landim prestava outro favor: botava lenha no fogo de Bolsonaro que ardia um país menosprezando a ciência e causando vítimas: aderia a campanha do ex-presidente a reabrir os estádios. E usava o jogador mais forte possível da mesa: o Flamengo.
A MP chegou a caducar, voltou em forma do projeto de lei PL 2.336/2021 no ano seguinte que, com menos de um mês de transitação, foi aprovado em 24 de agosto de 2021. No mês seguinte, Bolsonaro demonstrou sua gratidão e passou a falar aos próximos e deixar vazar a ideia de ter Landim como vice na eleição de 2022.
O pagamento e mais um passo da relação veio antes. No início de março de 2022, Bolsonaro expressou que pretendia tirar o general Joaquim Silva e Luna da presidência da Petrobras. O plano tinha data: com 51% dos votos do governo, na assembleia de acionistas marcada para 13 de abril seguinte, Bolsonaro tirava o general e botava Landim.
Em razão da pressão e de Landim ainda ter mandato no Flamengo, a ideia de presidência migrou para outro posto estratégico na estatal: em 28 de março, Bolsonaro indicou o nome de Landim para diretor-geral do Conselho de Administração da Petrobras (além de Adriano Pires para a presidência).
O RELATÓRIO DA PETROBRAS SOBRE LANDIM
O que veio em seguida vale sua atenção. E é assustador, caso não lembre ou na ocasião não tenha ficado sabendo:
Todo candidato ao conselho tem que passar por crivo sobre sua folha corrida. E aí a indicação de Landim desandou.
O relatório da “Diretoria de Governança e Conformidade da Petrobras” sobre Landim, entregue ao ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, assim foi descrito, em definição vazada na ocasião: “Assustador”. Até mesmo para técnicos da Corregedoria Geral da União, acostumados com sustos de prontuários.
De acordo com reportagem publicada no Globo na ocasião, o relatório mostrou que Landim recebeu em suas contas na Suíça depósitos de “contas de passagem” usadas para mandar recursos a Renato Duque e Pedro Barusco, executivos da Petrobras envolvidos no episódio que ficou conhecido como “Petrolão”.
E constatava, de acordo com o relatório, que Landim teria então uma série de processos e acusações pendentes na Justiça que atestariam sua relação com o empresário Carlos Suarez, sócio de distribuidoras de gás, em evidente conflito de interesse caso assumisse na Petrobras.
Relatava ainda que, de sua conta, Landim enviara US$ 643 mil para uma conta de Suarez, também na Suíça, em maio de 2021.
Os documentos sobre essas contas estão no processo movido pelo Ministério Público Federal contra Landim por fraude e desvio de recursos do fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, a Petros.
A quebra de sigilo das contas de Landim para apurar se as movimentações na Suíça chegou a ser pedida, mas escapou por uma liminar do desembargador Ney Bello, do Tribunal Regional Federal de Brasília, que cancelou o pedido de cooperação internacional entre Brasil e Suíça e suspendeu o processo.
Diante da certeza de que seria veementemente gongado na indicação de Bolsonaro, Landim recuou. E até para recuar usou o Flamengo, afirmando, depois de nos bastidores aceitar a indicação, que não poderia porque teria que se dedicar ao clube.
A ampla relação com Bolsonaro e a utilização do Flamengo para tal e alcançar os objetivos pessoais, por fim, como se sabe, resultou no contrato assinado pelo Flamengo com a Libra. Aprovado pelo conselho do clube recentemente. E, como também se sabe, tendo como origem a Lei do Mandante urdida à surdina, à socapa, à sorrelfa, na calada da noite, por Bolsonaro e Landim, cada qual com seu interesse, menos os de um país e de um clube. E que agora custa caro e causa prejuízos para o clube.
Ao longo de sua história, o Flamengo foi apropriado indevidamente para interesses próprios muitas vezes. Em todas o fim foi danoso. O espetacular êxito e superávits atuais não transformam menos danosos tais ultilizações.
Mas acima de tudo, apontam para um único caminho: o Landim que tem agora como pensamento único vender o Flamengo e usa um estádio como cortina de fumaça, é o mesmo da Lei do Mandante assinada à pequena com Bolsonaro, é o mesmo que fez do clube caminho para indicação na Petrobras, é o mesmo do relatório assustador. O pior: com um conselho totalmente aparelhado e aos seus pés. Tradução: ou o além Gávea e gabinetes obscuros atentam para tantos fatos, (tradução para “Além Gávea: o torcedor, o verdadeiramente apaixonado, a massa, o povão, “la gente”, como dizem os argentinos), ou esse mesmo Landim e seus parceiros venderão o clube. 30% e nada mais depois, garantem, se você quiser acreditar. Para investidores respeitáveis, se você quiser acreditar.
O Flamengo é Zico e não algo tão vil. E Zico é tronco poderoso dessa árvore sagrada. Aquele que nos faz e nos permite construir as referências para os que vão chegar. A ancestralidade rubro-negra está e sempre estará em Denir, Gerdau, Dida, Zizinho, Dr Rubis, Leandro, Júnior, Leonidas. E eternamente Zico. Landim e os seus: nunca serão.
Eram 21h30 quando uma torre de energia tombou em Cujubim, Rondônia.
O segundo ataque veio logo depois.
Brasília ainda ardia sob a fúria dos atos golpistas que atacaram Palácio do Planalto, Congresso e Supremo Tribunal Federal quando, 0h13 em ponto, exatas duas horas e quarenta e três minutos depois da primeira, desabou a segunda torre em Medianeira, Paraná. 0h40, num espaço de três horas e dez minutos entre as três, foi ao chão a terceira. Em Rolim de Moura, também Rondônia, a cerca de 380 quilômetros de Cujubim.
O documento da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) que relata os acontecimentos dos ataques as linhas de transmissão de energia do Brasil em janeiro de 2023, obtido pela reportagem através da Lei de Acesso à Informação, é definitivo:
SABOTAGEM E AÇÃO CRIMINOSA
“Sabotagem. Atuação ou tentativa criminosa”. Define como “ações criminosas”. E completa: “não foram registradas condições climáticas adversas que possam ter causado queda das torres”.
No total, entre os primeiros ataques, no dia 8 de janeiro e o dia 31, foram 24 torres avariadas em 14 diferentes locais, espalhados por seis estados: Rondônia (4 locais), Paraná (4), São Paulo (3), Mato Grosso (1), Piaui (1) e Pará (1). Quatro foram ao chão, sendo que 3 em Rondônia e uma no Paraná. As três atacadas em 8 de janeiro ao longo da noite e madrugada, (duas em Rondônia e uma no Paraná) foram ao chão. O laudo de todas define como sabotagem.
FONTE: ANEEL (Obtido via Lei de Acesso à Informação)
Em todos os casos, ocorreu a repetição sistemática de um conjunto de ações: todos os parafusos da base das torres foram retirados, “ficando a torre sem sustentação, possibilitando a queda”. Além dos parafusos, foram cortados também os cabos de sustentação.
Em resumo: existiu um modus operandi. Um método repetido que uniu todas as ações.
Mais do que isso: uma organização, planejamento e pessoas com treinamento para tal operação realizada de forma sistematizada.
ATOS GOLPISTAS DE BRASÍLIA E TORRES DE ENERGIA ATACADAS: UM SÓ PLANO
Fotos ANEEL (obtidas via Lei de Acesso à Informação)
“É preciso não perder de vista jamais que o caso das torres derrubadas começam no mesmo dia, quase simultaneamente, exatamente horas depois do início dos eventos golpistas de Brasília, ao anoitecer. O que pode ser entendido como parte de um mesmo plano. Dentro desse plano, Brasília já estaria tomada pelos golpistas no executivo, judiciário e legislativo, e problemas em série com a rede de energia trariam de vez o caos ao país. Restaria a decretação da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e o poder transferido para o exército. E o governo estaria entregue. Hoje sabemos que esse era o plano”, resume um servidor envolvido na apuração dos episódios do 8 de janeiro e que pediu para não se identificar.
O histórico anual de ocorrências em torres de energia também afasta a hipótese do acaso. De acordo com a ANEEL, o ano de 2023 representa um recorde. Mais especificamente janeiro de 2023, mês em que as ações se concentraram. Para se ter uma ideia através de termos comparativos, 2019 inteiro fechou com dois registros de vandalismo em torres. Menos do que o 8 de janeiro de 2023.
Esquecido no noticiário sobre a tentativa de golpe de 8 de janeiro, jamais citado como objeto da investigação em curso sobre , sem nenhuma prisão ou operação específica, o episódio dos ataques às torres de energia foram e requerem, no entanto, tanta complexidade ou mais, logística, verbas e expertise do que os próprios eventos de 8 de janeiro ocorridos em Brasília.
Coisa de especialista.
Em relação aos episódios de Brasília, as investigações caminham para uma direção. Em relação aos ataques contra as torres, os caminhos e os relatórios da ANEEL mostram também alto grau de profissionalismo.
OS KIDS PRETOS EM AÇÃO
Em junho de 2022, o repórter Allan de Abreu publicou a reportagem “Os Kids Pretos – O papel da elite de combate do Exército nas maquinações golpistas”, na revista Piaui, onde, pela primeira vez, era citada a participação efetiva de militares da forças especiais, os chamados “kids pretos”, na tentativa de golpe de 8 de janeiro.
Na ocasião, a reportagem mostrou que o nível de organização das ações na capital demandava profissionais capacitados.
E os profissionais no exército capacitados para tal, treinados em operações especiais, eram os kids pretos, círculo de oficiais que formavam o ciclo mais próximo a Jair Bolsonaro.
Os kids pretos são treinados emações de sabotagem e incentivo à insurgência popular, as chamadas “operações de guerra irregular”.
MODUS OPERANDI: PARAFUSOS DA BASE RETIRADOS E CABOS CORTADOS
As fotos abaixo, todas constantes do relatório da ANEEL sobre os ataques, mostram as distintas sabotagens, como retiradas de parafusos estratégicos na base, corte de cabos também da base e retirada de hastes de sustentação:
Desde o início das investigações sobre os atos golpistas, duas operações especificamente voltadas para a participação e organização dos kids pretos já foram realizadas pela Polícia Federal.
Em 29 de setembro de 2023, a PF realizou mais uma etapa, a 18ª, da “Operação Lesa Pátria”, nome da investigação que apura financiadores, participantes e organizadores dos atos golpistas. A operação foi voltada especificamente para cumprir um mandado de busca e apreensão contra o general da reserva Ridauto Lucio Fernandes, um “kids preto”, que chegou a gravar vídeo da própria participação nos atos golpistas de 8 de janeiro.
“A nova fase da Lesa Pátria faz parte de uma frente da investigação que busca identificar supostos integrantes das Forças Especiais do Exército, os chamados “kid pretos”, que teriam dado início às invasões às sedes dos Três Poderes”, comunicou então a Polícia Federal.
Já em 8 de fevereiro de 2024, foi deflagrada a “Operação Tempus Veritatis” da Polícia Federal, para apurar os crimes de golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito por membros do governo de Jair Bolsonaro, apontou que integrantes das Forças Especiais do Exército, os chamados “kids pretos”, estiveram envolvidos em um “planejamento minucioso” para impedir a posse de Lula na presidência da República.
De acordo com a PF, “houve planejamento minucioso de kids pretos do exército para a consumação do golpe de estado”. O plano envolveu uma reunião em novembro de 2022 com oficiais especializados em ações contra terrorismo, insurgência e guerrilha. Os “kids pretos” seriam os responsáveis por realizar as prisões de autoridades após a edição de um decreto de intervenção militar. Entre os alvos estaria o ministro do STF, Alexandre de Moraes, que chegou a ser monitorado pelos investigados.
Os detalhes do plano foram relatados em mensagens encontradas no celular do tenente-coronel Mauro Cid, que fechou colaboração premiada com a Polícia Federal.
Arte: ANEEL, obtida via Lei de Acesso à Informação
OUTRO
LADO:
A reportagem enviou para a Polícia Federal um pedido oficial de resposta sobre as investigações específicas sobre o ataque às torres, mas não recebeu resposta.