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Steely Dan antes do Steely Dan na trilha de um filme obscuro

Num sábado à noite, curtindo a leve ressaca pós programa Mesa de Bar, de Wagner Gomes (CBN) em homenagem a Maciel Melo, teço loas ao YouTube, onde achei a trilha do filme You’ve Got to Walk It Like You Talk It, filme obscuro de Peter Locke, de 1971, mas realizado entre 1969 e 70. 

Não sei se o filme vale a pena ver. Ele só ainda é lembrado por causa da trilha, assinada por dois músicos então desconhecidos, Walter Beck e Donald Fagen que, no ano em que o filme foi às telas ,fundaram umas das mais refinadas e cultuadas bandas americanas, a Steely Dan. 

Essa trilha é o disco perdido do duo. Tive em CD de origem duvidosa, sem informações, comprado num camelô em Paris, acho que em 2000. Nem sei que fim levou. A trilha soube de uma biografia da banda, mas não fui atrás. Esta semana li sobre num artigo no Substack. Hoje fui procurar pra escutar. 

Walter Beck e Donald Fagen gravaram tocando,  guitarra e baixo, o primeiro, teclados, o segundo. Com eles, na outra guitarra e percussão Denny Diaz, futuro colaborador do Steely Dan (e parceiro em sete das oito faixas da trilha), John Discepolo na bateria.

O filme sumiu. Recebeu péssimas críticas, e nunca foi relançado, ao menos oficialmente (tem no São Youtube). A trilha está no Spotify, mesmo assim a música tem altos e baixos, Interessa mais por ser o embrião do Steely Dan. Aqui e ali, lampejos do talento e engenhosidade de Becker e Fagen, como em … Roll Back The Meaning. Em 1972 eles estrearam como  grupo, com o disco Can’t Buy Me A Thrill. Um clássico.

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Feiticeiro Julião num Trenzinho do Caipira Psicodélico

Aterrissou ontem, 8 de agosto, nas plataformas, Mata e Montanha, novo disco de Feiticeiro Julião, trazendo as influências da topografia e modus vivendus de Minas, onde o músico recifense está morando (aqui,  continua participando do projeto Forró do Suco Elétrico). Estéticas se cruzam num repertório construído em parte em terras mineiras, Clube da Esquina com Cátia de França, elementos da psicodelia dos anos 70, e rock rural, reforçado pela viola do multi-instrumentista Julião.

Em dois anos de Minas, ele se entrosou no meio musical da terra, encetando parcerias, com a mineira Maira Matos (que participa de quase todo o trabalho nos vocais), e mais jovens músicos seus conterrâneos. Porém, trazendo para o disco pernambucanos com os quais costuma trabalhar, Juvenil Silva, Marília Parente, Juba Valença, ou Marcelo Cavalcante.

Mata e Montanha é o terceiro álbum de Feiticeiro Julião (ou Júlio Lima), e o mais maduro, com melodias e arranjos vocais engenhosos, muitas participações, o que é uma característica da música atual, o tal do feat. Música viajada, rescendendo a anos 70 e patchuli.  Caso de Abrigo Lunar (Feiticeiro Julião/Maira Matos), ou Lá no Sol (Feiticeiro Julião/Maira Matos), com as vozes de Julião, Maira e Marília Parente, uma inspirada canção, com aquele toque Beatles/Lô Borges, na melodia, e arranjo sofisticado. A viagem vira mantra em Beira-Mar de Maraca (Julião, Juba e Veridiana Chiari Gatto), em que até o final, repetem-se dois versos, como um mourão voltando, no compasso das ondas.

Um trabalho com um rosto, uma unicidade estética, eletroacústico, e compromisso com a música de melodia consistente, algo cada vez mais difícil na música brasileira. Quer dizer, a que toca no rádio e TV.  Montanha Moída (Julião/Maira), que abre o repertório de 11 faixas, é um baião que lembra um Edu Lobo psicodélico nas terras de Minas. Um trabalho pra se curtir, e dos melhores discos desta temporada de 2026.

Nara Leão fazia muito barulho na surdina

“Não é verdade que a bossa nova nasceu em minha casa. Não nasceu, nem poderia nascer na casa de ninguém. Minha casa era somente um dos pontos de pessoas que gostavam da mesma música, e tinham os mesmos problemas em relação à música brasileira, calcada em boleros e música americana. As gravadoras não davam acesso à nossa verdadeira música: o samba de morro, maxixe, maculelê e outros ritmos nacionais.

Com o desenvolvimento econômico do país, foi sacudido por um forte sentimento de nacionalismo. Até então, qualquer coisa brasileira ou feita por brasileiros era considera feia, indecente ou de mau gosto. Paralelamente a este desenvolvimento econômico, houve o desenvolvimento cultural.  Começou uma maior solicitação para se fazer uma arte brasileira. A nacionalização da nossa arte.

Dessa necessidade, resultaram bossa nova, cinema novo e a afirmação de novas formas de arte. A essa altura Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli e Carlos Lyra, se reuniram para fazer uma música nova, embora muito influenciado pelo jazz, muito ouvido por eles. Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes já faziam um samba que nada tinha a ver com o samba tradicional.  João Gilberto aparecia com um novo ritmo, influenciando toda uma geração de cantores. Era samba de branco, dizia-se.

O samba começa a ser feito por pessoas que tinham acesso à cultura. A forma do samba mudou, modernizando-se. O problema do intérprete era: conseguir o melhor som que ele pudesse. Elevou-se à enésima potência a preocupação da forma. O resultado disso, depois de esgotados os esquemas, foram músicas bonitas mas sem sentido. Em favor de uma constante abusiva das palavras flor e passarinhos. Eram cortadas as que consideradas fora de moda correspondiam ao exato sentido da letras que se pretendia.

II

“A bossa nova que se apresentava como como movimento renovador – e foi até determinado momento – tornava-se caduca, acadêmica. Este problema foi superado por alguns autores que atualmente têm a preocupação e ouvir e se deixar influenciar por compositores populares. Carlos Lyra procura em Zé Kéti, Nelson Cavaquinho e Cartola ideias para suas composições, estes, por sua vez, se inspiram em Carlos Lyra. Baden Powell busca seus temas nos samba de roda e capoeira. Moacir Santos revê em sua composição sua infância no Maranhão (sic).”

(…) também da parte de alguns letristas há a preocupação de fazer letras que atinjam público maior, e dizer coisas importantes a esse público. Ha a consciência de que a nossas música pode servir como veículo de informação. É o que acontece com a música de Zé Kéti, João do Vale. Retratam uma época, uma região, seus problemas, seus costumes. A bossa nova começa a perder seu caráter intimista para, com esses autores sofrer uma renovação (…)”

Texto transcrito da revista O Cruzeiro, de agosto de 1963. Nara Leão, praticamente, a vida inteira procurou desfazer a lenda de que a bossa nova nasceu na sala do apartamento dos seus pais, num dos edifícios mais requintado na Avenida Atlântica,

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