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Dark Horse em inglês é cavalo azarão, mas pode ser azarado, que o diga George Harrison

Dark horse, literalmente “cavalo negro”, é o equivalente, em português a “azarão”. Aquele em que ninguém faz fé, e vence o páreo. Termo que parece não trazer boa sorte a quem o emprega. Vide Dark Horse, a polêmica cinebiografia, que de filme virou novela. Dark Horse lembra também George Harrison.

Em 1974, ele lançou um disco com este título, e realizou a primeira turnê de um ex-beatle pelos EUA. O “dark horse”, porque George foi o azarão do grupo. Somente nos últimos anos dos Beatles, deslanchou com canções comparáveis às de Lennon & McCartney. Porém, não poderia fazer uma turnê num momento mais impróprio. Naquele ano ele se separava de Patty Boyd, que o trocou pelo seu melhor amigo, Eric Clapton.  Antes, Patty teve um caso com Ron Wood. George, por sua vez, manteve um rápido affair com Maureen, mulher de Ringo Star, e com Criss, a esposa de Ron Wood. Como se não bastante, esse entrelaçamento de transações amorosas, Harrison vivia uma intensa relação com a cocaína.

Abriu uma gravadora com o nome de Dark Horse, cujo primeiro contratado foi seu ídolo, o citarista indiano Ravi Shankar, e um grupo chamado Splinter. O álbum Dark Horse seria muito mal recebido pela crítica. Fez uma claudicante caminhada pelas paradas americanas, e foi o primeiro disco solo dele que não emplacou na Inglaterra.

A turnê flopou. George foi pego por uma grave crise de laringite, sua voz ficou quase inaudível, mas ele preferiu não interrompê-la. Ravi Shankar abria os shows, mas o público era de fãs dos Beatles. Não estava disposto a escutar concertos de música erudita Indiana. Uma resenha na revista Rolling Stones, de Ben Fong Torres, detalha e define o que foi Dark Horse.

De azarão a azarado. The Beatles havia debandado há apenas quatro anos. O público queria o George do Fab Four, não o das canções novas. Ele só se recuperaria plenamente para as paradas 13 anos mais tarde, com o álbum Cloud Nine. Faria a segunda, e derradeira, turnê em 1991, restrita ao Japão, com a banda de Eric Clapton, e o próprio Clapton como guitarrista. Projeto que para Eric era terapia, tinha perdido o filho, que caiu do 50º andar do prédio no qual morava em Nova Iorque. Para Harrison serviria para sanear as finanças. Gastou muito em produções cinematográficas que não deram lucro. Os 25 shows no Japão resolveram seu problema.

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O livro sobre o frevo gravado ganha segunda edição

Terminei de reescrever meu livro O Frevo Gravado – de Borboleta Não É Ave a Passo de Anjo, de 2015, pessimamente divulgado por mim mesmo. Doei a edição quase toda (foi um projeto aprovado no Funcultura), de maneira que esta segunda edição será, na prática, a primeira. Até porque mudei muita coisa no texto. Abdiquei de dogmas que assimilei de outros autores e especialistas em frevo. A exemplo da propalada influencia dos capoeiras no freov e no passo, ou dos clubes serem formados por profissionais do mesmo ofício. E ainda a esdrúxula autoria \tribuida a Vassourinhas, exatamente o único frevo de rua que não tem autor, vem de uma música de domínio público. Mas deixemos isto para o livro. Daqui há uns dois meses deve tá indo pra publicação (não é Wanessa?)

A maior dificuldade de se escrever sobre este tema é se chegar aos discos. Do que se lançou até os anos 80, 95% estão fora de catálogo. Numa estimativa otimista, já que até discos lançados neste século, antes do streaming, tiveram tiragens limitadas. Complicado é entre os anos 60 e 70. Primeiro porque, ao contrário do que se fez crê, a Rozenblit não foi a maior responsável pela discografia do frevo..

A partir de quando a gravadora pernambucana mostrou que o frevo era um produto comercialmente viável, as grandes congêneres do Sudeste passaram a lançar álbuns com a nossa música carnavalesca. O que se deu mais sistematicamente a partir de 1960. Antes disso, o maestro Severino Araújo e sua Orquestra Tabajara, e uns poucos, lançaram LP de frevo. E bem antes, nos anos 30 e 40, grandes nomes como Pixinguinha, com Os Diabos do Céu, gravaram frevos.

Em 1960, a RCA-Victor lançou Na Onda do Frevo, primeiro LP com repertório inteiramente de autores residentes em Pernambuco, porém com Zaccarias e sua Orquestra, maestro e músicos de São Paulo. Um álbum com 14 faixas, alternando frevos antigos, com recentes, ou inéditos. Obra caprichada, para competir com a Mocambo/Rozenblit. Zaccariase entemdia do riscado, pois gravava frevos desde o início dos anos 50, e animava o carnaval do Internacional já há alguns anos. Este LP, hoje está disponível para streaming, com capa diferente da que ilustra a postagem.

A edição original de Na Onda do Frevo, encontrei no blog O Frevo, que recomendo. O link:  http://www.ofrevo.com/.

Dolly Parton foi muito além de rainha da música country

Confesso que nunca curti Dolly Parton, cantora, compositora, atriz americana, falecida dias atrás, aos 80 anos. Não me lembro se possui algum dos seus discos. Ela era mais conhecida como cantora de música country. Com poucas exceções, um gênero que nunca foi do meu agrado.

Só agora, com sua morte, foi que aprendi sobre Dolly Parton, da mulher inteligente e criativa que foi. Nem imaginava que fosse autora de I Will Always Love You, uma inspirada e terna balada tornada épica na voz de Whitney Houston. Dolly Parton foi daquelas artistas que, antes de cantar sua música mais conhecida, poderia dizer: “E agora, um folclore de minha autoria, Jolene”.

Também era dona de um senso de humor apurado, confirmado pelas frases abaixo:

Custa uma grana manter este meu look brega 

Não me ofendem todas estas piadas de louras burras, porque não sou burra. Também não sou loura 

Minhas fraquezas sempre foram comida e homens. Nesta ordem 

Eu me pareço com a mocinha sua vizinha, isto se você morar ao lado de um circo

Uso salto alto em casa, sim. Senão como abriria os armários?

Vejo as coisas desta forma. Se você quer o arco-íris, então que não se incomode com a chuva

Amor é uma coisa que vem do céu pra tornar sua vida um inferno 

Quando conheci Andy Warhol, pensei: nossa, a peruca dele é mais brega do que a minha.

Canções pra mim são como filhos. Você espera que lhe sustentem quando ficar velho.

Confesso que nunca curti Dolly Parton, cantora, compositora, atriz americana, falecida dias atrás, aos 80 anos. Não me lembro se possui algum dos seus discos. Ela era mais conhecida como cantora de música country. Com poucas exceções, um gênero que nunca foi do meu agrado.

Só agora, com sua morte, foi que aprendi sobre Dolly Parton, da mulher inteligente e criativa que foi. Nem imaginava que fosse autora de I Will Always Love You, uma inspirada e terna balada tornada épica na voz de Whitney Houston. Dolly Parton foi daquelas artistas que, antes de cantar sua música mais conhecida, poderia dizer: “E agora, um folclore de minha autoria, Jolene”.

Também era dona de um senso de humor apurado, confirmado pelas frases abaixo:

Custa uma grana manter este meu look brega 

Não me ofendem todas estas piadas de louras burras, porque não sou burra. Também não sou loura 

Minhas fraquezas sempre foram comida e homens. Nesta ordem 

Eu me pareço com a mocinha sua vizinha, isto se você morar ao lado de um circo

Uso salto alto em casa, sim. Senão como abriria os armários?

Vejo as coisas desta forma. Se você quer o arco-íris, então que não se incomode com a chuva

Amor é uma coisa que vem do céu pra tornar sua vida um inferno 

Quando conheci Andy Warhol, pensei: nossa, a peruca dele é mais brega do que a minha.

Canções pra mim são como filhos. Você espera que lhe sustentem quando ficar velho.

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O garoto prodígio que tocava guitarra de dois braços 15 anos antes de Jimmy Page

Se Sister Rosetta Tharpe foi a criadora do rock,  Larry Collins (com 15 anos neste vídeo), foi o criador do hard rock. Sem ele não haveria Alvin Lee, Eddie Vedder ou Jimmy Page, com sua guitarra,  de duplo braços (duble neck)? Claro que sim.

Assim como a irmã Rosetta Tharpe não tocava rock (foi, sim, guitarrista inovadora), Larry Collins tampouco fazia hard, soft ou qualquer tipo de rock (se bem que em 59 ele já fosse de rock-a-billy). Ambos, a irmã e o pirralho foram excepcionais guitarristas

Larry Collins começou aos dez anos, em dupla com a irmã. Tornou-se astro mirim da música country, apadrinhado por Joe Maphis, uma estrela do gênero, com quem também fez dupla.
.assim como a grande maioria das crianças prodígios, Larry Collins cresceu, continuou na música, mas sua popularidade só durou até a adolescência. Adulto, é lembrado por algumas canções que escreveu. Collins faleceu em 2024, aos 80 anos.

 

Bob Marley ao vivo, há 50 anos, no limiar de se tornar um superstar

Há uma coisa em comum entre Bob Marley and The Wailers, e o Creedence Clearwater Revival, o grupo americano dos anos 60, fim do no início dos 70: muito raramente tocavam em shows músicas que não estivessem em seus discos. Assim os registros de shows repetem canções que todo mundo que curte os dois já se cansou de escutar. O Creedence ficava mais próximo da versão original da canção. Bob Marley improvisa em alguns trechos do show.

É o que acontece no recém-lançado Bob Marley and The Wailers – Roots, Rock, Reggae: Live a the Hammersmith Odeon (CD e vinil duplos), registro de uma apresentação da primeira grande temporada do astro jamaicano em Londres, numa das mais importantes casas de show da cidade, o Hammersmith Odeon, considerado uma ousadia para um grupo ainda emergente. O ano era 1976, Bob Marley e a banda estavam com a turnê do álbum Rastaman Vibration, que derrubaria barreiras que ainda se opunham a penetração do reggae no universo pop.

No Woman no Cry esteve nos primeiros lugares das paradas, e imprensa incensava Marley, e o Hammersmith recebeu um grande público em todos os shows. Foram apresentações antológicas, certamente pelo entusiasmo mútuo artista e plateia. O repertório é de futuros clássicos, com exceção de Bend Down Low (lançada em 1966, e incluída no álbum Natty Dread, de 1974), que não frequentava o repertório de palco de Bob Marley. Boa parte das canções são alongadas, com abertura para que a banda exibisse os talentos que a integravam. Lively Up Yourself chega a quase oito minutos.

No encore (bis em brasileiro), Bob se solta, e toca uma versão de 12 minutos de Get Up Stand Up (de Peter Tosh), que na gravação do álbum Catch a Fire, tem pouco mais de três minutos. Uma ótima pedida para celebrar os 50 anos da vitoriosa turnê e o disco que sedimentaram Bob Marley and the Wailers como superstars mundo afora, influentes até os dias atuais. Como confirma Don Letts (Big Audio Dynamite, com Mick Jones do The Clash), no texto do disco. Em 1976, ele era DJ e ia completar 20 anos: “Ele fez os garotos britânicos, que nunca puseram os pés no Caribe, a sentir o murmúrio de algo que ia mais fundo do que o rock ou o pop. Marley mostrou ao mundo a espiritualidade, a rebelião e a beleza no interior da nossa cultura”.

Stela Campos e Erico Theobaldo num disco de art pop com influências cinematográficas

Um disco instigante pra este final de semana, Anestesia, de Stela Campos e Érico Theobaldo, paulistas que trabalham em parceria há anos, mas só agora gravam disco juntos. Contando ainda com Luciano Buarque, parceiro de Stela em três faixas. Para os ligados em cinema certamente Érico Theobaldo é o mais conhecido da dupla, por ser um dos mais políticos autores de trilhas para filmes, séries, como. Quinze Dias, Barba Ensopada de Sangue e Cidade; Campo, de Aly Muritiba, e ainda se as series Cidade de Deus (HBO Max) e Cangaço Novo (Prime.
Vídeo).

Stela Campos, também jornalista em atividade, e veterana da música, e figurinha carimbada da era do manguebeat, parceira de Chico Science, com o qual animou muitas festinhas, integrou a cena com a banda Lara Hanouska, e influenciou mangueboys com um K-7 da Senza Vapuori, grupo que formou com membros do Fellini (de onde foi pinçada Criança de Domingo, incluída no Afrocibederlia, do CSNZ).
Feitas as apresentações a Anestesia, que circular nas plataformas de streaming desde 21 de agosto.

Um disco com inevitáveis influências do cinema (Stela participou de O Baile Perfumado). Grosso modo, Anestesia é art rock, com a variedade estética que o rótulo abarca. Cantado em português e inglês, com sons acústicos, eletrônicos, com os instrumentos quase todos tocados por Érico Theobaldo, as canções são bastante diferentes e interligam-se, poderia ser uma trilha, e tem música de trilha. A faixa Let’s Swim foi composta para o filme Quinze Dias de Daniel  Lieff. É dessas que resistem a classificações, poderia caber na prateleira do pós-punk, ou mesmo do tecno pop, ou apenas pop. A faixa é assinada e cantada pela dupla, com Theobaldo tocando todos os instrumentos.

Túnel (Stela e Luciano Buarque), abre o repertório, com efeitos na voz, ela e Érico Theobaldo, criam climas, atmosferas com sintetizadores minimalistas, com a guitarra de Roger Menn. O charme de Anestesia é a variedade dos beats, arranjos, andamentos das canções sempre melodiosas, e ao mesmo tempo com unidade estética, mesmo no único cover do álbum, Matte Kudasai, do King Crimson, aqui impregnada de lirismo, realçando a melodia. Um disco com 11 faixas, 42 minutos, um todo cujas canções são camadas superpostas, que se desdobram a medida que são tocadas.  

Louie Louie, o mais inusitado clássico do rock, completa 70 anos

O jornalista Dave Marsh (um grande da crítica de música dos 60 e 70, falecido na semana passada) escreveu um ótimo livro sobre Louie Louie, o único grande sucesso do grupo de garagem The Kingsmen, em 1963. E que só não chegou ao primeiro lugar na Billboard porque foi barrada por uma freira belga com Dominique, seu único sucesso (um mega hit no Brasil). Sœur Sourire (“Irmã Sorriso” em Francês) madre da ordem dominicana compôs uma canção pop folk pra São Domingos, que foi sucesso mundo afora. No Brasil, no original, e na versão de Giane (por Paulo Queiroz).

Louie Louie completa 70 anos em 2026, só perdendo em quantidade de regravações pra Yesterday, dos Beatles, e Garota de Ipanema, de Tom e Vinícius. Foi composta e lançada, em 1956, por um jovem de 21 anos, Richard Berry, sem sucesso. Ele venderia, em 1959, os direitos da música por 750 dólares.
Com apenas três acordes (copiados mais tarde em dezenas de canções), letra boba, Louie Louie começou, de repente , a ser regravada, por tudo o que foi de bandinha de garagem, e por superstars. Dos Beatles a Bruce Springsteen, de Julie London a Jimi Hendrix, dos Beach Boys ao White Stripes, todo mundo gravou, e ainda grava Louie Louie. Há discos inteiros cujo repertório são de versões de Louie Louie.

Até Edgar J. Hoover, chefão do FBI, colocou agentes especialistas em decifrar códigos e mensagens subliminares pra perscrutar a letra da música, denunciada como pornográfica. Talvez uma artimanha comunista para contaminar a juventude americana. Espalhou-se que se escutavam as obscenidades caso o compacto, em 45 rpm, fosse rodado em 33 rotações. Adolescentes gastaram muitos disquinhos (e acumularam calos na mão) de tanto tocar o compacto em 33 .


Se você conhece Pobre Menina (versão de Hang on Sloopy, de The McCoys), de Leno & Lilian, Like a Rolling Stone, de Bob Dylan, ou Twist and Shout, do Isley Brothers (dos primeiros sucessos dos Beatles), todas se valem dos três acordes de Louie Louie, os mesmos da canção mexicana La Bamba, talvez a inspiração para Richard Berry. La Bamba foi gravada a primeira em 1938, e de tornou sucesso nos EUA, vinte anos depois com Richie Valens.

Aldir Blanc ganha tributo a dias do aniversário de 80 anos

Aldir Blanc completaria 80 anos em 12 de setembro. A Biscoito Fino antecipa-se e, nessa sexta, 21 de agosto celebra o poeta lançando o álbum Salve Aldir!, do Equale, refinado grupo vocal carioca, responsável por outros louvados tributos, a Milton, Gil e Dorival Caymmi.

Neste tributo faz uma imersão nas muitas parcerias de Aldir, que era quase sempre letrista, e traz algumas pérolas pouco conhecidas de sua lavra. Assinadas com Djavan, Cristovão Bastos, Sueli Costa, Moacyr Luz e Maurício Tapajós. Claro, boa parte do repertório é de parcerias com João Bosco.

Viva Aldir! tem como convidados Cristóvão Bastos, Guinga, Ilessi e Marcos Sacramento, e foi produzido por André Protásio, Flavio Mendes e Tom Andrade. Oportunidade de conhecer o Equale, dos melhores grupos do gênero no país, nos palcos desde 1990.

REPERTÓRIO

01) Comissão de Frente/Ronco da Cuíca [João Bosco/Aldir Blanc] Vozes: Equale
Arranjo vocal: André Protásio
Violão: André Protásio 

Baixo elétrico: Leandro Vasques
Percussões: Davidson Ilarindo e Tom Andrade 

02) Êxtase (feat. Marcos Sacramento) [Djavan/Aldir Blanc] Vozes: Equale
Artista convidado: Marcos Sacramento (voz)
Arranjo vocal: André Protásio

 Pandeiro: Tom Andrade

03) Chá de Panela [Guinga/Aldir Blanc] Vozes: Equale
Arranjo vocal: Flavio Mendes
Violão: Flavio Mendes 

Baixo elétrico: Leandro Vasques Percussões: Davidson Ilarindo 

04) Navio Negreiro (feat. Guinga, Ilessi) [Guinga/Aldir Blanc] Vozes: Equale
Artistas convidados: Guinga e Ilessi (vozes)
Arranjo vocal: André Protásio 

Percussões: Tom Andrade 

05) Resposta ao Tempo (feat. Cristóvão Bastos) [Cristóvão Bastos/Aldir Blanc] Vozes: Equale
Artista convidado: Cristóvão Bastos (piano)
Arranjo vocal: André Protásio 

Baixo acústico: Leandro Vasques Percussões: Davidson Ilarindo 

06) Altos e Baixos [Sueli Costa/Aldir Blanc] Vozes: Equale
Arranjo vocal: Katarina Assef
Violão: Flavio Mendes 

Baixo acústico: Leandro Vasques Percussões: Davidson Ilarindo

07) Coisa Feita [João Bosco/Aldir Blanc] Vozes: Equale
Arranjo vocal: Taiana Machado
Violão: André Protásio 

Baixo elétrico: Leandro Vasques
Percussões: Davidson Ilarindo e Tom Andrade 

08) Corsário [João Bosco/Blanc]
Vozes: Equale
Arranjo vocal: André Protásio e Flavio Mendes Violão: Flavio Mendes
Percussões: Tom Andrade 

09) A Nível de… (feat. André Protásio) [João Bosco/Aldir Blanc] Vozes: Equale
Arranjo vocal e solo: André Protásio 

10) Profissionalismo é isso aí [João Bosco/Aldir Blanc] Vozes: Equale
Arranjo vocal: Dalton Coelho
Violão: Dalton Coelho 

Baixo elétrico: Leandro Vasques
Percussões: Davidson Ilarindo e Tom Andrade

11) Nação [João Bosco/Aldir Blanc) Vozes: Equale
Arranjo vocal: Dalton Coelho Violão: Dalton Coelho 

Baixo elétrico: Leandro Vasques
Percussões: Davidson Ilarindo e Tom Andrade 

12) Querelas do Brasil (feat. Muiza Adnet, Flavio Mendes) [Maurício Tapajós/Aldir Blanc] Vozes: Equale
Solos: Flavio Mendes e Muiza Adnet (vozes)
Arranjo vocal: Flavio Mendes 

Violão: Flavio Mendes
Baixo elétrico: Leandro Vasques 

Percussões: Davidson Ilarind

Ramones há 50 anos foi o Davi contra os Golias do rock

“Ramones (Sire), pode ser, ou não, o melhor disco do ano até agora, mas seja qual for seu destino – bom ou ruim – terá repercussões que interessarão a qualquer um que ame o rock and roll”.  Início da resenha de Paul Nelson, na revista Circus, do disco de estreia do Ramones, em julho de 1976. Aquele LP que o resenhista considera que passa a falsa impressão de simples, com 14 faixas curtas, pouco polidas tratava-se do mais subversivo disco desde que Elvis Presley lançou, pela Sum Records, sua versão de That’s All Right, de Arthur Big Boy Cruddup, 22 anos antes.

Na segunda metade dos anos 70, o rock estava rico, autoindulgente, as bandas e estrelas mais badaladas não diferiam muito dos adolescentes de dentaduras de comerciais de dentifrícios, que invadiram a cena depois que Elvis foi servir o exército em 1958, Vendiam muito, enchiam os cofres das gravadoras, que permitiam-lhes extravagâncias, rios de dinheiro para fazer um disco como lhes aprouvessem.

“Nos últimos cinco anos o custo médio para produzir um álbum subiu de 25 mil para 50 mil dólares. Estimativas modestas, ambas. Até o disco do Ramones, o disco mais barato em que posso pensar foi o disco No More No Less, do Blue Bush (Mercury), que custou 12 mil dólares, e isto porque o estúdio onde foi gravado pertence, em parte, à gravadora, que cobrou um preço bem baixo por hora de uso.

Por outro lado, eu sei de fontes seguras que um disco, de uma banda americana bem famosa custou mais de 600 mil dólares. A 100 dólares por hora, custo médio dos estúdio, isto dá 6 mil horas de gravação. Ou 250 vezes 14 horas. Oito meses a 16 centavos por minutos… Meu ponto é que ninguém precisa gastar 600 mil dólares para gravar um disco de rock. É obsceno, mesmo que o artista possa bancar.

Ramones custou 6.400 dólares, e foi feito em menos de uma semana. E é tão bom quanto, Chega tão perto do verdadeiro espirito do rock na roll do que o de 600 mil dólares. Se a Sire vender 15 mil discos o grupo vai ganhar dinheiro. E já que são tão baratos, continuarão a fazer discos a custos razoáveis, sem sofrer pressões para se tornarem superstars ou debandar.

Acreditem ou não, é preciso coragem para uma banda gravar um disco por 6.400 dólares. Alguns podem achar uma piada. Mas o Ramones não é nenhuma piada… Vamos torcer para que Joey, Johnny, Tommy e Dee Dee acordem alguém antes que um LP médio custe cem mil dólares. E algum babaca torre 1 milhão em dez músicas que soem feito pílulas de dormir de aço inoxidável”.

 Paul Nelson (faleceu em 2006) era um dos principais jornalistas de música americanos desde o início dos 60. Tinha um texto admirável. Focou no custo da gravação do disco Ramones, porque o rock, há 50 anos, tornara-se flatulento, limado, sem arestas. É provável que o disco que diz ter custado 600 mil dólares seja o Tusk, do Fleetwood Mac. Depois de ter vendido toneladas do álbum Rumours, recebeu sinal verde da gravadora pros gastos. Gravou um disco duplo, que não emplacou, e foi o começo da descida da rampa pra banda. Eis que o Ramones chegou apontando o caminho, que não passava pela autoestrada, mas por uma picada segura, e que encurtou o caminho para o rock voltar a incomodar.

Steely Dan antes do Steely Dan na trilha de um filme obscuro

Num sábado à noite, curtindo a leve ressaca pós programa Mesa de Bar, de Wagner Gomes (CBN) em homenagem a Maciel Melo, teço loas ao YouTube, onde achei a trilha do filme You’ve Got to Walk It Like You Talk It, filme obscuro de Peter Locke, de 1971, mas realizado entre 1969 e 70. 

Não sei se o filme vale a pena ver. Ele só ainda é lembrado por causa da trilha, assinada por dois músicos então desconhecidos, Walter Beck e Donald Fagen que, no ano em que o filme foi às telas ,fundaram umas das mais refinadas e cultuadas bandas americanas, a Steely Dan. 

Essa trilha é o disco perdido do duo. Tive em CD de origem duvidosa, sem informações, comprado num camelô em Paris, acho que em 2000. Nem sei que fim levou. A trilha soube de uma biografia da banda, mas não fui atrás. Esta semana li sobre num artigo no Substack. Hoje fui procurar pra escutar. 

Walter Beck e Donald Fagen gravaram tocando,  guitarra e baixo, o primeiro, teclados, o segundo. Com eles, na outra guitarra e percussão Denny Diaz, futuro colaborador do Steely Dan (e parceiro em sete das oito faixas da trilha), John Discepolo na bateria.

O filme sumiu. Recebeu péssimas críticas, e nunca foi relançado, ao menos oficialmente (tem no São Youtube). A trilha está no Spotify, mesmo assim a música tem altos e baixos, Interessa mais por ser o embrião do Steely Dan. Aqui e ali, lampejos do talento e engenhosidade de Becker e Fagen, como em … Roll Back The Meaning. Em 1972 eles estrearam como  grupo, com o disco Can’t Buy Me A Thrill. Um clássico.

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Feiticeiro Julião num Trenzinho do Caipira Psicodélico

Aterrissou ontem, 8 de agosto, nas plataformas, Mata e Montanha, novo disco de Feiticeiro Julião, trazendo as influências da topografia e modus vivendus de Minas, onde o músico recifense está morando (aqui,  continua participando do projeto Forró do Suco Elétrico). Estéticas se cruzam num repertório construído em parte em terras mineiras, Clube da Esquina com Cátia de França, elementos da psicodelia dos anos 70, e rock rural, reforçado pela viola do multi-instrumentista Julião.

Em dois anos de Minas, ele se entrosou no meio musical da terra, encetando parcerias, com a mineira Maira Matos (que participa de quase todo o trabalho nos vocais), e mais jovens músicos seus conterrâneos. Porém, trazendo para o disco pernambucanos com os quais costuma trabalhar, Juvenil Silva, Marília Parente, Juba Valença, ou Marcelo Cavalcante.

Mata e Montanha é o terceiro álbum de Feiticeiro Julião (ou Júlio Lima), e o mais maduro, com melodias e arranjos vocais engenhosos, muitas participações, o que é uma característica da música atual, o tal do feat. Música viajada, rescendendo a anos 70 e patchuli.  Caso de Abrigo Lunar (Feiticeiro Julião/Maira Matos), ou Lá no Sol (Feiticeiro Julião/Maira Matos), com as vozes de Julião, Maira e Marília Parente, uma inspirada canção, com aquele toque Beatles/Lô Borges, na melodia, e arranjo sofisticado. A viagem vira mantra em Beira-Mar de Maraca (Julião, Juba e Veridiana Chiari Gatto), em que até o final, repetem-se dois versos, como um mourão voltando, no compasso das ondas.

Um trabalho com um rosto, uma unicidade estética, eletroacústico, e compromisso com a música de melodia consistente, algo cada vez mais difícil na música brasileira. Quer dizer, a que toca no rádio e TV.  Montanha Moída (Julião/Maira), que abre o repertório de 11 faixas, é um baião que lembra um Edu Lobo psicodélico nas terras de Minas. Um trabalho pra se curtir, e dos melhores discos desta temporada de 2026.

Nara Leão fazia muito barulho na surdina

“Não é verdade que a bossa nova nasceu em minha casa. Não nasceu, nem poderia nascer na casa de ninguém. Minha casa era somente um dos pontos de pessoas que gostavam da mesma música, e tinham os mesmos problemas em relação à música brasileira, calcada em boleros e música americana. As gravadoras não davam acesso à nossa verdadeira música: o samba de morro, maxixe, maculelê e outros ritmos nacionais.

Com o desenvolvimento econômico do país, foi sacudido por um forte sentimento de nacionalismo. Até então, qualquer coisa brasileira ou feita por brasileiros era considera feia, indecente ou de mau gosto. Paralelamente a este desenvolvimento econômico, houve o desenvolvimento cultural.  Começou uma maior solicitação para se fazer uma arte brasileira. A nacionalização da nossa arte.

Dessa necessidade, resultaram bossa nova, cinema novo e a afirmação de novas formas de arte. A essa altura Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli e Carlos Lyra, se reuniram para fazer uma música nova, embora muito influenciado pelo jazz, muito ouvido por eles. Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes já faziam um samba que nada tinha a ver com o samba tradicional.  João Gilberto aparecia com um novo ritmo, influenciando toda uma geração de cantores. Era samba de branco, dizia-se.

O samba começa a ser feito por pessoas que tinham acesso à cultura. A forma do samba mudou, modernizando-se. O problema do intérprete era: conseguir o melhor som que ele pudesse. Elevou-se à enésima potência a preocupação da forma. O resultado disso, depois de esgotados os esquemas, foram músicas bonitas mas sem sentido. Em favor de uma constante abusiva das palavras flor e passarinhos. Eram cortadas as que consideradas fora de moda correspondiam ao exato sentido da letras que se pretendia.

II

“A bossa nova que se apresentava como como movimento renovador – e foi até determinado momento – tornava-se caduca, acadêmica. Este problema foi superado por alguns autores que atualmente têm a preocupação e ouvir e se deixar influenciar por compositores populares. Carlos Lyra procura em Zé Kéti, Nelson Cavaquinho e Cartola ideias para suas composições, estes, por sua vez, se inspiram em Carlos Lyra. Baden Powell busca seus temas nos samba de roda e capoeira. Moacir Santos revê em sua composição sua infância no Maranhão (sic).”

(…) também da parte de alguns letristas há a preocupação de fazer letras que atinjam público maior, e dizer coisas importantes a esse público. Ha a consciência de que a nossas música pode servir como veículo de informação. É o que acontece com a música de Zé Kéti, João do Vale. Retratam uma época, uma região, seus problemas, seus costumes. A bossa nova começa a perder seu caráter intimista para, com esses autores sofrer uma renovação (…)”

Texto transcrito da revista O Cruzeiro, de agosto de 1963. Nara Leão, praticamente, a vida inteira procurou desfazer a lenda de que a bossa nova nasceu na sala do apartamento dos seus pais, num dos edifícios mais requintado na Avenida Atlântica,

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