A fotografia do futuro

Depois de ler Against Barthes, the eye and the index (Contra Barthes, o olho e o índice), de Joan Fontcuberta,Mack Books, 2025.
1.
Imagens por toda a parte. Fotografias, fotografias de fotografias, imitações de fotografias, não-fotografias, retratos, selfies, nudes, naturezas mortas, vasos, vistas, vitrines, a variedade humana, floresta democrática, cidade contínua e idêntica, extensa disneylândia-ginásio de aeroporto em aeroporto, o presente. Seja o que for o ‘eu’, é hoje (mas “hoje” em que meridiano?) da ordem do erro de itinerário, da bagagem rolando esquecida no tapete de terminal para onde perdemos o voo de ligação, contudo, já ninguém se perde do mapa (da imagem) e todos os cães são cães domésticos, como diz Moriyama; e todos vamos de férias para bancos de imagens. Os filhos já nascem humanos de outra espécie, para um planeta fotocacofônico, video-superabundante, macho-esférico, google-mapeado; constituem-se já na epistemologia do deep fake — da ia — da teatralidade e da pose — da morte da privacidade — sabe Deus que virá desta bomba-relógio — tudo mudou para sempre e nada foi conquistado, ou antes, tudo está igual para pior, logo, o melhor está para vir e temos tudo pela frente: guerras, sismos, cismas, data centers — eram os melhores dos tempos, eram os piores dos tempos; e quando morrermos, vamos todos para a cloud. E choraremos os álbuns de família e os filhos que não tivemos, apetece comprar uma quinta, fazer cerâmica, tornar-se amish com as imagens, só escrever cartas a amigos, ficar a ler para sempre.
Seja o que for o ‘eu’, quer dizer outra coisa, hoje, para a maioria. Algo entre “drone” e “dua lipa”. A gente ri-se ao ver um jovem youtuber que se filma a olhar para uma parede vazia durante uma hora para “maximizar” as suas capacidades. “Aqui estou eu”, dizia, de cara séria, “a não ver imagens, a não ver youtubes, a não interagir nas redes sociais”. Publico, ergo sum. A juventude em marcha marcha (em direcção a quê?), tudo quanto acontece acontece para ir dar a um feed, enquanto nas universidades finas os filhos dos ricos se juntam a novos clubes luditas, onde não tarda haverá jantares, seitas orgíacas, suicídios em grupo, tiroteios em massa. E, atrasado como sempre, cheio de pasmo, choque, alarme, virá um rebanho de jornalistas, haverá pânico, artigos, acesos debates, concertos solidários. Onde não estiverem, haverá bolsas de esperança, na esfera comum e privada. Pequenos gestos anônimos, a entreajuda sem a transacção, a partilha sem o algoritmo, a gentileza entre estranhos, a beleza dos corpos à luz da tarde, haverá calêndulas e figueiras, gargalhadas, refrescos, a mesa posta, almoços tardios entre amigos distantes — e haverá imagens. Alguém continuará a levar a mão ao caderno para desenhar alguma coisa, quando vir a beleza e a graça. Um verso, um braço, uma árvore, uma casa. Haverá formigas, porque haverá sobras, migalhas, caroços de fruta. E havendo a câmara fotográfica, haverá o impulso na direcção de tornar este gesto “consciente de si mesmo”, como disse John Berger.
2.
A superabundância de imagens, a percepção angustiada de que “a realidade se [tornou] uma enorme fotografia ou fotomontagem” (Luigi Ghirri, The Complete Essays, 65), a ansiedade (minoritária, embora) quanto à sua “hiper-precisão” (72), fazem temer a extinção daquele impulso. Teme-se que a overdose visual leve, por um lado, a uma anestesia do olhar, por outro, a um embotamento do espírito por via de uma (generalizada e irreversível) desistência da exterioridade. Quando a “fotografia”, se lhe quisermos continuar a dar esse nome, não depender mais da câmara, seguir-se-á a supressão de uma certa relação encantada com a superfície da vida, para que a câmara serve de ferramenta e pretexto, relação que lembra menos a pintura que a dança, menos o cinema e o teatro do que a literatura e a autobiografia. Tudo isso e o preço da habitação têm levado a modos de fotomelancolia e derrotismo que nos remetem na direcção do silêncio e do apagamento: à esperança num significado tangível, fora do centro, virado de costas para a “actualidade” e irreconciliável com o poder, com o “futuro”. Não se tratará de saudosismo mas de resistência, da qual se prevê que floresçam as mais elegíacas reflexões fotográficas da década, da primeira metade do século, às quais chegarão atrasadas às galerias e aos museus, em momentos de simpatia. E a fotografia terminará, porventura. A fotografia como a conhecíamos. Continuará como arquivo, biblioteca, património, processo datado, partitura, brinquedo. Haverá na subscrição premium retrospectivas virtuais geradas por algoritmo.
Optimistas como o grande artista catalão Joan Fontbuberta vêem neste provável desfecho (provável já que a lei de Murphy parece ter-se tornado matemática), ou seja, na supressão da fotografia enquanto “processo de tornar a observação consciente de si mesma”, Berger, (Para entender a fotografia, 38), um desfecho lógico e feliz. Estaremos enfim libertos do “ancien régime fotográfico e da sua tirania da referência” (Against Barthes, 130). Pois que outra coisa presume “a tirania da referência” senão, como escreveu Baudelaire, “un moi insatiable du non-moi”(“um eu insaciável de não-eu”)? — um eu tiranizado pelo impulso de inscrever a observação, as suas reacções ao modo como a luz desenha o visível numa fatia de tempo-espaço. Tirania por tirania, o nouveau régime será tecno-romântico: o fim da fotografia directa sinalizará a introjecção da arte, a não-indexicalidade, a apoteose do eu-insaciável-de-eu, de resto, amiga do Zeitgeist. Com a seguinte nuance, todavia. A “fotografia” deixará de ser um espelho da natureza (se é que alguma vez o foi) mas, desengane-se Virginia Woolf, desengane-se Szarkowski, não será um reflexo da interioridade. Deixará de ser uma janela para o mundo e passará a ser uma janela (para a alma dos artistas? para a imaginação subjectiva? — oh, não, tudo menos isso) para a regurgitação não-humana de respostas visuais a enunciados propostos a iterações progressivamente desenvolvidas de software especializado. (Evidentemente, subscrito em planos mensais ou anuais, com preço especial para estudantes e saldos nas black fridays e nas cyber-mondays e assim por diante até ser preciso upgrade your memory space). Não era bem isto que Niépce tinha em mente, mas aí têm.
Não queremos com isto descartar com imerecida leviandade a genuína perspicácia e originalidade do livro de Fontcuberta, cuja polêmica contra Barthes (que contra todas as expectativas também poderia chamar-se Against Michael Fried) tem aspectos de resto profundos, acutilantes e aliás cômicos. Em toda a sua impaciência contra Barthes, a sua análise de Câmara Clara — em particular,o capítulo “Barthology” — é exaustiva, abrangente e rigorosa. Não é esta todavia nem a ocasião nem o contexto certo para uma recensão crítica aturada a um dos escritos mais instigantes sobre fotografia a aparecer na última década. A sua revisão (apetece dizer: demolição) de intuições de Roland Barthes que se tornaram lugares-comuns da crítica, tais como os termos e implicações da célebre distinção entre studium e punctum, ou a ideia que o máximo que a fotografia pode chegar a dizer é: “ça-a-été”, “isto foi” — e outras noções que Barthes vai rolando com distinta indiferença a incongruências (que também Michael Fried assinalara com uma sedutora suavidade, recrutando Barthes para a equipa Fried-Wall no grande debate em torno da pergunta: para que serve a fotografia como arte?) — a sua revisão, dizíamos, além de ser precisa, era necessária. Vem sacudir à janela os tapetes empoeirados do nosso vocabulário, partindo de uma análise prévia do esquema conceptual da indexicalidade a partir de uma colecção fabulosa: imagens publicadas em Alarma! (um tablóide mexicano) que, à falta de imagens da acção criminosa, recriam crimes recorrendo a figurantes — frequentemente, vítimas e testemunhas dos mesmos crimes — que surgem de dedo apontado na direcção de evidências dos crimes que as imagens referem.
O dedo indicador, substituto do olho, irônico símbolo da imagem fotográfica como dispositivo deítico, tem ali uma leitura duplamente irônica, já que, como explica o artista, aos 13 anos, perdeu metade do indicador num acidente (74). Deste traumatismo idiossincrático resulta em Fontcuberta uma disfunção indexical, um desvio da indexicalidade que como se sabe nunca foi prioritária na sua prática fotográfica, ou que pelo contrário opera de um modo muito peculiar no seu trabalho. (Combinando texto e imagem, ou não, a fotografia é usada por Fontcuberta quase sempre como medium ficcional cujos referentes, tipicamente construídos e até enfatizando o artifício, engendram mundos sustentados em si mesmos, o que todavia só acontece, pelo menos, em parte, em resultado de uma série de expectativas estabelecidadas acerca da referencialidade da fotografia. À nossa familiaridade com o jogo habitual da fotografia, com os códigos e convenções de algumas das suas práticas, se deve, em grande medida, o studium das suas imagens, fabricações (composições taxonomicamente fantásticas) que adquirem um ar de documento na medida em que são fotografadas e apresentadas de certas formas.)
Não admira assim que um artista — mais ainda, um fotógrafo — a cuja biografia falta metade do indicador se consciencialize a tal ponto de um acto em geral tão espontâneo e instintivo como o de apontar. (Que é no fundo uma fotografia senão um apontar-para?) É natural a referencialidade ter sido vivida por si como uma “tirania”. Não é de espantar, também, a sua relação com Roland Barthes ser marcada por isso por um leve ressentimento, tornando-o bode expiatório ou projecção edipiana da avariada consciência indexical. Barthes “matou a cabeça [racked his brains] (…) para fazer a fotografia dependente da realidade” (103), concebendo-a não como representação mas como análogo perfeito, emanação do real, vínculo cujas melhores descrições serão, sem dúvida, o cordão umbilical e ainda o dedo acusatório. Não deixa de ser curioso, então, o pathos acusatório da despedida. “Tu, Roland, tinhas todos os dedos. A mim, falta-me meio indicador”, escreve a linhas do fim: “foste para mim um guru, um maître-à-penser, um pai intelectual. Dito isto, é necessário matar o pai para pensar pela própria cabeça.” (149-150).
É sempre bom lembrar que a história de Édipo termina num acto de cegueira auto-inflingida. Impaciente com a teimosia de Câmara Clara quanto ao facto de aparentemente o máximo que qualquer imagem “diz” ser “ça-a-été”(“isto foi”), Foncuberta queixa-se de modo justo e reiterado da frivolidade ou do vazio desta conclusão (algo que, em abono da verdade, o próprio Barthes reconhece sem problemas de consciência). “‘Isto foi’, está bem, mas além disso e mais especificamente, o que é que foi?” “Pior de tudo”, prossegue, “é a fotografia em si nos dizer pouquíssimo sobre ‘isto’. Não nos diz muito mais para lá do cenário e do figurino [the set and the costume], e o que nos interessa realmente não são cenário e figurino mas o que se esconde atrás”. “Talvez o problema resida no facto de toda a fotografia esperar um texto” (120-121). Heresia! Esta conclusão é tão provocadora quanto entusiasmante. Mas será que ao lançar a estocada final, Fontcuberta pratica, sem querer, harakiri?
Todos estamos a par da frustração de muitos fotógrafos quando lhes pedem que escrevam sobre o seu trabalho. Vêm à memória palavras de Robert Adams segundo o qual “a melhor maneira de evitar falar sobre as imagens é falar sobre os seus objectos”. “Se se é obrigado a preencher o silêncio de uma imagem, a maneira menos destrutiva é falar acerca do que estava diante da câmara quando se fez a imagem” (35). Solução semelhante (que parece ter caído em desuso, excepto para acompanhar o preço das imagens) tem sido o recurso a legendas. A arte da legenda é menos fácil do que parece e um gênero literário em si mesmo. Nada nos impede de o organizarmos provisoriamente em torno da distinção entre studium e puntcum. Por um lado, as legendas que se limitam àquilo que, quando se olha para uma imagem, será mais ou menos evidente (excepção feita a detalhes adicionais de cariz meramente documental: localização, data, etc.). Por outro, legendas que interpretam a imagem (ainda que com o minimalismo que verificamos, por exemplo, em tantas das legendas de Diane Arbus, especificando o que vê, o que quer mostrar, a razão pela qual a imagem se destaca). Perfeitamente congruente com Barthes é o facto de alguns dos melhores legendistas não serem necessariamente fotógrafos. (Veja-se como Wes Anderson legenda as chapas de Stephen Shore). Não é que uma boa legenda eventualmente melhore a imagem, a não ser que a imagem não faça o seu trabalho. Mas esse trabalho, seja ele qual for, é ele “dizer” uma coisa? Quando afirma que toda a fotografia espera um texto, quer Foncuberta dizer que todas as imagens vêm digamos equipadas com uma legenda? De mais a mais, com uma legenda?
Críticos como Berger e Barthes (este, pelo menos, no que toca ao que entende por studium) tendem a acreditar que sim. O famoso ça-a-été não anda distante do pronunciamento de Berger segundo o qual “A fotografia é o processo de tornar a observação consciente de si mesma” (Para entender a fotografia, 38). Esta consciência de si mesma, que envolve uma explicitação ou inscrição, desde logo visual, presume uma compreensão ou uma cognição, que não existe separadamente da linguagem.Isso explica que se sinta inclinado a descrever o processo por termos que sugerem um modelo da comunicação. “Em seu sentido mais simples,” garante, “a mensagem, descodificada, quer dizer: Eu decidi que a visão disso vale a pena ser registrada.”(38) É então como se uma fotografia não só viesse equipada com a sua própria legenda mas como se esta fosse auto-evidente. Vir assim equipada quereria dizer que a imagem, nalgum sentido, sabe o que diz e, de resto, que “diz” alguma coisa, ou antes, que o que diz pode ser dito. Estamos de volta à impaciência de Fontcuberta: o que é “a visão disso”? o que é “isso”, especificamente? Num grande número de casos, sabemos o que estamos a ver numa fotografia. No entanto, não sabemos bem descrever o que ela diz (se é que “diz” alguma coisa) através do que mostra. A esta comichão visual corresponde a noção de punctum. Acontece então que à falta de saber o que fazer com uma fotografia a tratamos como linguagem, mas a fotografia (que até prova em contrário não “disse” uma única palavra) pede para ser tratada como literatura.
Em grande medida, a confusão tem origem numa indecisão perdoada a Barthes, que oscila ao longo do seu livro entre tratar o conceito de punctum ora como designando uma propriedade da imagem, ora como uma peculiaridade da relação com a imagem (o que imagina, como Fontcuberta, aliás, ser uma questão subjectiva). Este, por sua vez, parece julgar que o texto que toda a fotografia espera a especifica. Que constitui, por assim dizer, o remate da imagem, uma espécie de verniz hermenêutico — o que sugere que a fotografia, nalgum sentido, não está terminada antes da explicitação da linguagem. Vem então a fotografia equipada com uma legenda? (tem uma fotografia um punctum?) Fontcuberta revela-se nesse ponto aparentemente tão indeciso quanto o seu pai espiritual e tão preso quanto ele à ideia de referencialidade que pretende abolir, para facilitar, à tese segundo a qual uma imagem fotográfica é uma imagem que aponta parauma coisa. Porque para lá do aparente (da fachada específica de uma tão breve fracção de tempo que ilude qualquer duração) a imagem pouco ou nada diz, o texto parece especificar o que uma fotografia só sabe dizer por gestos. “Só com os metadados do texto”, deixa Fontcuberta escapar no final da refutação de Barthes, referindo-se às legendas no verso das imagens de tablóide que ilustram o argumento, apenas “com os metadados do texto pode o punctum emergir, permitindo que a imagem atinja o seu valor” (122). A sua ideia de punctum confunde-se consequentemente com um texto definido que faz as vezes da imagem se a ela não tivéssemos acesso.
Este modo de pensar a fotografia trai uma série de mal-entendidos, o mais frequente dos quais é a tendência a considerar um modo de expressão artística adequadamente entendido em referência a imagens isoladas. Se aquilo a que chamávamos punctum mas a que também poderíamos chamar a leitura da imagemvaria (e significativamente) consoante a sensibilidade e a qualidade do leitor, levando a supor (erradamente) que se trata de uma questão “subjectiva”; isso varia sobretudo consoante o contexto em que se mostra a imagem, cujas exigências formais podem muitas vezes tornar a mesma imagem outra imagem. (Se se muda a escala, por exemplo, ou a margem, a posição na sequência, etc.) A imagem isolada é somente uma entre várias modalidades da fotografia, nem por sombras prevalente, nem a mais determinante para entender qualquer imagem. Este é um dos princípios básicos por via dos quais os fotógrafos (que são antes de qualquer outra coisa e por definição coleccionadores de imagens) tendem a querer mostrar o seu trabalho em conjuntos, que de resto dão sentido a ciclos de vida algo solipsistas. (O pensamento que os organiza — que obedece a nenhuma gramática, a nenhum conjunto de regras generalizável, portanto, nenhuma “linguagem” além do “idioma” ou da “dicção” de um artista ou de um editor, se é que estas metáforas ajudam — esse pensamento tem sobre cada imagem o resultado de alterar as suas condições de legibilidade, cuja plasticidade não quer saber de limites, senão a pessoa que os organiza e, claro, a profundidade dos seus bolsos.)
Outro desses mal-entendidos, tão grande que precisará de outro texto, é a confusão ainda mais frequente entre “referencialidade” e “verdade” e “certificação de presença”. Para que aponta uma fotografia? Aponta para o mundo, decerto. Aponta é claro para a sua própria forma, que é duvidoso que se resuma a um dedo apontar na direcção de um cadáver. Aponta ainda para a relação do fotógrafo com o que está diante da câmara mas também e sobretudo para sua relação com o que situa por detrás da câmara, desde logo, na fase há muito madura da fotografia, a sua relação com a história da fotografia — da literatura, do cinema, da música, etc. Duas mãos não chegam para enumerar, em qualquer fotografia, quantos dedos apontam em quantas direcções. E porém Fontcuberta, para quem tudo isto — obviamente — não constitui novidade, recua na direcção da versão menos interessante do problema. Talvez a questão resida na ansiedade edipiana para matar, não apenas o pai, mas a necessidade da câmara e, por conseguinte, a necessidade do mundo. Nunca isso é tão evidente quanto, num auge de tecno-romantismo, o artista prevê que substituindo a câmara por modelos de inteligência artificial a fotografia converter-se-á em “écfrase reversa”, tornando a fotografia do futuro, não uma emanação do real, mas uma “emanação do texto” (141)
“As câmaras deixarão de ser necessárias para criar novo conteúdo. (…) As nossas fotografias serão geradas através de simples instruções verbais, não haverá lugar a processos de aprendizagem, ver-nos-emos obrigados a repensar as nossas teorias sobre verdade e memória, referência e ça-a-été. As imagens serão trazidas ao mundo através parteiras algorítmicas treinadas para produzir bebés perfeitos a cada tentativa. (…) o referente deixará de estar inscrito na imagem e a fotografia deixará de ser uma emanação do real para se tornar em vez disso uma emanação do texto.” (140-141)
O optimismo quase exultante desta passagem levanta inúmeras e difíceis questões que vão bastante para lá da fotografia e do mundo da arte e a que não é possível responder de forma adequada quando nos acercamos ainda por cima do fim. Vale a pena notar em todo o caso como a ideia de “écfrase reversa” trai, numa mera inversão de termos, a ideia unívoca de punctum que inibe a compreensão de Barthes da fotografia, de cujo dogma indexical Fontcuberta, por muito que esgaravate, acaba por não conseguir libertar-se. Uma segunda conclusão levar-nos-á à condição elegíaca a que o progresso pretende remeter a “civilização olho/câmara” (idem). Que pena nos daria perder contacto com o fluxo do presente, com a superfície da vida. Ça-a-été não é mais que uma expressão de um coração apertado quando nos apercebemos pessoalmente do fim, de que a fotografia nos conta, não por ser “referencial”, mas por nos mostrar tudo o que estamos a perder no instante da morte. É uma arte meio satânica, essa: seduzida de mundo e amiga da queda, descrente de que outro mundo possa existir cuja luz apesar de tudo seja melhor que a deste planeta condenado, em toda a sua graça e fealdade.
Segue-se uma terceira conclusão em torno da ideia de que no princípio será o Verbo. Mais IA menos IA, talvez aquilo que Fontucuberta tem em mente não se chame exactamente “fotografia”, nem “pós-fotografia”, mas ilustração. Nada contra. Só que nenhuma ideia razoável de fotografia resiste à violenta inversão da ordem de acontecimentos que elide o não-eu não enquanto referente mas a origem de um impulso na direcção de o fixar numa imagem — que, suprimido da face do planeta, para quê continuar a habitá-lo? Mais cedo ou mais tarde se verificará porém que todas questões de valor irão derivar da qualidade do input. A especificidade descritiva da imagem tenderá a depender da sensibilidade da écfrase reversa, a qual, deixada a youtubers e programadores, não nos parece promissora (sem ofensa). Não, caro Joan, aquilo que você profetiza exige capacidades flaubertianas, nabokovianas. E se chegarmos a tanto, para quê porém a imagem, se haverá o texto, sem necessidade de subscrição, sem deturpações algorítmicas. Na melhor dos mundos, a fotografia do futuro será a literatura. Só que para isso já temos a fotografia. ///
Djaimilia Pereira de Almeida é escritora. Os seus livros receberam várias distinções, entre as quais o prêmio Oceanos e o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores.
Humberto Brito é fotógrafo, ensaísta e professor de Literatura e Fotografia e de Teoria da Literatura na Universidade Nova de Lisboa, onde coordena a pós-graduação em Artes da Escrita. Como visitante, ensinou em Stanford, na Universidade de Lisboa, na Universidade de Chicago, e na NYU.
O post A fotografia do futuro apareceu primeiro em ZUM.
























































































































































