❌

Reading view

#113 – Corro, logo existo

Neste episódio, mergulhamos no mundo da corrida.

Por que tantas pessoas cultivam o hábito de simplesmente sair correndo, mesmo que não estejam com pressa nem tenham realmente aonde ir?

Como é a experiência de correr uma maratona? Quem são Rarámuris, humanos capazes de correr centenas de quilômetros depois de uma noite de bebedeira? Por que pesquisas mostram que a corrida é responsável por moldar os humanos como eles são hoje?

Entrevistados do episódio

⁠Edgard José dos Santos⁠

Engenheiro, corredor amador, organizador de provas de rua.

⁠Fernanda Bonani⁠

Médica cirurgiã, maratonista, titular do perfil do X @burnoutinho, onde fala sobre questões fisiológicas da corrida.

Ficha técnica

Locução adicional: Priscila Pastre

Apoio de edição: Matheus Marcolino.

Mixagem de som: Vitor Coroa.

Trilha sonora tema: Paulo Gama.

Design das capas dos aplicativos e do site: Cláudia Furnari.

Direção, roteiro e edição: Tomás Chiaverini

💾

O estranho não é Landim não saber quem é Zico. O estranho é a Gávea não estar cercada depois disso.

O estranho não é Landim não saber o que Zico representa para o Flamengo. O estranho não é Landim não ter respeito pelo Flamengo. Tudo isso sempre esteve aí. Esse é o sujeito cujo único objetivo é negociar o Flamengo. O estranho é a Gávea não ter sido cercada, não existir protesto, não se exigir a saída de um presidente que não respeita o maior ídolo. Algo que só a cooptação de tantos personagens desse enredo explica. Não é preciso explicar pra ninguém aqui quem é Zico, quem é Zico para o Flamengo. Nem mesmo falar sobre construção de memória, o sagrado da construção de ídolos. É preciso falar sobre Landim. Vamos lá:

O Flamengo é vítima de uma apropriação indébita. Rodolfo Landim usa o Flamengo para seus objetivos pessoais.

Não bastasse a aberração que isso representa, o preço disso está sendo muito alto para o clube.

As duas frases acima vão muito além de subjetivas. São facilmente respaldadas em um conjunto de fatos recentes. Assustadores.

Aos fatos:

No dia 17 de junho de 2020, Landim esteve na posse do então novo ministro das comunicações, Fábio Faria. Após a cerimônia, em meio a uma pandemia que matava milhares todos os dias, ocorreu um almoço reservado juntando o presidente do Flamengo, Bolsonaro e Felipe Melo. São todos fatos públicos e registrados na imprensa na ocasião.

No almoço, Landim e Bolsonaro conversaram sobre a “Lei do Mandante”. Era o que os dois precisavam. Para Bolsonaro, era a forma perfeita para fustigar a TV Globo e atacar diretamente seu alvo permanente no bolso. E para Landim, o passaporte que precisava para ganhar o mandatário e alçar seus vôos particulares. Usando o Flamengo para isso. O tempo acabou mostrando o quão danoso foi para o Flamengo, mas é isso é adiante.

No dia seguinte já, célere como jamais foi para comprar vacinas, Bolsonaro edita a MP 984/2020, redigida por seu ministro Onyx Lorenzoni. A celeridade ocorreu ainda porque a alteração era simples: bastou acrescentar a palavra “mandante” ao trecho da Lei Pelé que trata sobre os detentores dos direitos de transmissão das partidas. Uma simples palavra que atingia em cheio a TV Globo e ao mesmo tempo credenciava Landim como um homem de confiança de Bolsonaro.

Paralelo ao favor em que usava o Flamengo sem pensar no cenário de perdas futuras, Landim prestava outro favor: botava lenha no fogo de Bolsonaro que ardia um país menosprezando a ciência e causando vítimas: aderia a campanha do ex-presidente a reabrir os estádios. E usava o jogador mais forte possível da mesa: o Flamengo.

A MP chegou a caducar, voltou em forma do projeto de lei PL 2.336/2021 no ano seguinte que, com menos de um mês de transitação, foi aprovado em 24 de agosto de 2021. No mês seguinte, Bolsonaro demonstrou sua gratidão e passou a falar aos próximos e deixar vazar a ideia de ter Landim como vice na eleição de 2022.

O pagamento e mais um passo da relação veio antes. No início de março de 2022, Bolsonaro expressou que pretendia tirar o general Joaquim Silva e Luna da presidência da Petrobras. O plano tinha data: com 51% dos votos do governo, na assembleia de acionistas marcada para 13 de abril seguinte, Bolsonaro tirava o general e botava Landim.

Em razão da pressão e de Landim ainda ter mandato no Flamengo, a ideia de presidência migrou para outro posto estratégico na estatal: em 28 de março, Bolsonaro indicou o nome de Landim para diretor-geral do Conselho de Administração da Petrobras (além de Adriano Pires para a presidência).

O RELATÓRIO DA PETROBRAS SOBRE LANDIM

O que veio em seguida vale sua atenção. E é assustador, caso não lembre ou na ocasião não tenha ficado sabendo:

Todo candidato ao conselho tem que passar por crivo sobre sua folha corrida. E aí a indicação de Landim desandou.

O relatório da “Diretoria de Governança e Conformidade da Petrobras” sobre Landim, entregue ao ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, assim foi descrito, em definição vazada na ocasião: “Assustador”. Até mesmo para técnicos da Corregedoria Geral da União, acostumados com sustos de prontuários.

De acordo com reportagem publicada no Globo na ocasião, o relatório mostrou que Landim recebeu em suas contas na Suíça depósitos de “contas de passagem” usadas para mandar recursos a Renato Duque e Pedro Barusco, executivos da Petrobras envolvidos no episódio que ficou conhecido como “Petrolão”.

E constatava, de acordo com o relatório, que Landim teria então uma série de processos e acusações pendentes na Justiça que atestariam sua relação com o empresário Carlos Suarez, sócio de distribuidoras de gás, em evidente conflito de interesse caso assumisse na Petrobras.

Relatava ainda que, de sua conta, Landim enviara US$ 643 mil para uma conta de Suarez, também na Suíça, em maio de 2021.

Os documentos sobre essas contas estão no processo movido pelo Ministério Público Federal contra Landim por fraude e desvio de recursos do fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, a Petros.

A quebra de sigilo das contas de Landim para apurar se as movimentações na Suíça chegou a ser pedida, mas escapou por uma liminar do desembargador Ney Bello, do Tribunal Regional Federal de Brasília, que cancelou o pedido de cooperação internacional entre Brasil e Suíça e suspendeu o processo.

Diante da certeza de que seria veementemente gongado na indicação de Bolsonaro, Landim recuou. E até para recuar usou o Flamengo, afirmando, depois de nos bastidores aceitar a indicação, que não poderia porque teria que se dedicar ao clube.

A ampla relação com Bolsonaro e a utilização do Flamengo para tal e alcançar os objetivos pessoais, por fim, como se sabe, resultou no contrato assinado pelo Flamengo com a Libra. Aprovado pelo conselho do clube recentemente. E, como também se sabe, tendo como origem a Lei do Mandante urdida à surdina, à socapa, à sorrelfa, na calada da noite, por Bolsonaro e Landim, cada qual com seu interesse, menos os de um país e de um clube. E que agora custa caro e causa prejuízos para o clube.

Ao longo de sua história, o Flamengo foi apropriado indevidamente para interesses próprios muitas vezes. Em todas o fim foi danoso. O espetacular êxito e superávits atuais não transformam menos danosos tais ultilizações.

Mas acima de tudo, apontam para um único caminho: o Landim que tem agora como pensamento único vender o Flamengo e usa um estádio como cortina de fumaça, é o mesmo da Lei do Mandante assinada à pequena com Bolsonaro, é o mesmo que fez do clube caminho para indicação na Petrobras, é o mesmo do relatório assustador. O pior: com um conselho totalmente aparelhado e aos seus pés. Tradução: ou o além Gávea e gabinetes obscuros atentam para tantos fatos, (tradução para “Além Gávea: o torcedor, o verdadeiramente apaixonado, a massa, o povão, “la gente”, como dizem os argentinos), ou esse mesmo Landim e seus parceiros venderão o clube. 30% e nada mais depois, garantem, se você quiser acreditar. Para investidores respeitáveis, se você quiser acreditar.

O Flamengo é Zico e não algo tão vil. E Zico é tronco poderoso dessa árvore sagrada. Aquele que nos faz e nos permite construir as referências para os que vão chegar. A ancestralidade rubro-negra está e sempre estará em Denir, Gerdau, Dida, Zizinho, Dr Rubis, Leandro, Júnior, Leonidas. E eternamente Zico. Landim e os seus: nunca serão.

Episode 78: Guided Growth: Cultivating Contributors Through Mentorship

Explore the transformative world of the WordPress Contributor Mentorship Program with guest host Angela Jin and special guest and sponsored contributor Hari Shanker. Whether you're a long-time WordPress enthusiast or new to the scene, this episode is packed with insights, stories, and tips to help you engage more deeply with one of the most passionate open source communities.

💾

Entrevista | Luiza Romão — parte 1

💾

No dia 11 de maio de 2023, a Revista Nossa Língua dava um passo que, maior que a perna, só foi concluído quase um ano depois. A ganhadora do prêmio Jabuti de poesia de 2022, Luiza Romão, fala um pouco sobre sua história, sobre Slam e seu recém premiado livro de poesia. Intima, a entrevista que pretende pouco, mas se engrandece pela entrega e presença da autora.

Os revividos troianos recebem, aqui, uma nova roupagem; a tradição homérica se destila a partir de uma nova perspectiva; e mistura tudo isso com as particularidades da poesia Slam.

Inscreva-se para acompanhar as próximas partes dessa entrevista tão especial para nós!

Minutagem:
00:00 - Introdução
00:06 - Trajetória pessoal
03:02 - Trajetória no Slam
07:26 - Dissertação e panorama do Slam no Brasil

Acesse a dissertação "Microfone em chamas: slam, voz e representação": https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8151/tde-04012023-121226/pt-br.php

Confira nossas edições mensais e mais conteúdos:
Instagram: https://www.instagram.com/nossalingua
Site: https://nossa-lingua.github.io/

Ficha técnica
Estúdio: Lapel - USP
Cinematografia, captação e edição: Attílio Braghetto
Direção de arte e suporte: Guilherme Faber e Livia Marciano

The History of Bad Ideas: The Gold Standard

In the second episode in our series on bad ideas David talks to the political economist Helen Thompson about the gold standard, which was meant to anchor the world economy until it all fell apart a hundred years ago. Why does gold so often appear like a stable basis for money in an unstable world – and why not silver? What made the gold standard a source of instability instead?  How can money work if it has no material basis? And is quantitative easing a bad idea as well?


For ad-free listening and bonus episodes – including more bad ideas – subscribe to PPF+ www.ppfideas.com


Next time on The History of Bad Ideas: Kathleen Stock on Facebook Friends


Hosted on Acast. See acast.com/privacy for more information.

Learn more about your ad choices. Visit podcastchoices.com/adchoices

💾

THE FUTURE of WORDPRESS? - Rich Tabor REVEALS 5 upcoming editor FEATURES

💾

In this video I speak to designer, developer and all-around WordPress expert Rich Tabor (https//rich.blog) about the AMAZING new FEATURES coming to the WORDPRESS block editor in a future version of WordPress.

🔗 Resource Links - please see PINNED COMMENT (below).

⏱ Timecodes
0:00 - Coming up...
0:21 - Who is Rich Tabor?
1:16 - Information Sources
2:22 - Top 5 Features
3:48 - 1. New Editor Admin Views
9:32 - (Aside) WP Admin Redesign
10:26 - 2. Overrides to Synced Patterns
14:35 - 3. Composing with Patterns & Zoom Out
20:35 - 4. Section Specific Styles
27:37 - 5. Grid Layout
33:49 - Rich's Favourite Feature
35:29 - Follow Rich

O atraso na política de drogas no Brasil - com Ingrid Farias

No dia 16 de abril o Senado aprovou em segundo turno com gritantes 52 votos a favor e 9 contra,  a Proposta de Emenda à Constituição que criminaliza o porte e a posse de drogas independente da quantidade. A legislação brasileira vai  na contramão de um movimento internacional de repensar as políticas antidrogas. 

Um detalhe importante para entender o que está em jogo com essa proposta é que essa PEC não estabelece qual a quantidade que separa usuário de traficante, deixando a cargo da avaliação subjetiva da justiça. 

Uma matéria de 2019 da Agência Pública conta que em São Paulo pessoas negras são mais condenadas por tráfico com menos quantidade de drogas. 

O que essa nova PEC faz, portanto, é oficializar o caráter explicitamente racista da política antidrogas, que envolve desde quem é abordado pela polícia a quem é mais punido pela justiça. 

Para falar sobre isso o Pauta recebe neste episódio Ingrid Farias, fundadora da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas, a RENFA. A Ingrid é Especialista em política de drogas redução de danos e participação política na América Latina e conversa com Andrea Dip e Clarissa Levy sobre os impactos caso essa PEC avance o que ela representa e também que caminhos mais interessantes o Brasil poderia escolher que vá para além do discurso punitivista e do aparato de repressão das polícias.


 Não esqueça de seguir e curtir o Pauta Pública nas plataformas de áudio.

Disponível em Amazon Music, Apple Podcasts, Castbox, Deezer, Google Podcasts, Spotify ou no seu tocador favorito.
====

PARCERIA RÁDIO GUARDA CHUVA Conheça o podcast Cirandeiras. 


Quem faz o Pauta: 
  • Apresentação: Andrea Dip e Clarissa Levy
  • Produção: Ricardo Terto
  • Apoio de produção: Stela Diogo
  • Pauta e Entrevista: Andrea Dip e Clarissa Levy
  • Roteiro, Edição e Mixagem Final: Ricardo Terto
  • Artes e ID Visual: Tayná Gonçalves
  • Coordenação de Redes Sociais: Ravi Spreizner
  • Chamadas e teasers: Breno Andreata
  • Trilha original composta por: Pedro Vituri
 contato: podcasts@apublica.org 

Saiba que você pode ser aliado da Agência Pública e colaborar com esse trabalho. Saiba mais em apoie.apublica.org ou faça um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.
Contamos com seu apoio!

💾

Super Furry Animals

This week, Kathryn Hughes introduces her new book on the cat craze that swept Edwardian England; and she also tells us about an exhibition of the work of Julia Margaret Cameron and Francesca Woodman. Plus a review of Sunjeev Sahota's The Spoiled Heart.


'Catland: Feline Enchantment and the Making of the Modern World', by Kathryn Hughes

'Portraits to Dream In', at the National Portrait Gallery, London, until 16 June, 2024

'The Spoiled Heart', by Sunjeev Sahota


Produced by Charlotte Pardy


Hosted on Acast. See acast.com/privacy for more information.

💾

#110 - Adeus, Salazar!

Nos 50 anos da Revolução dos Cravos, uma reconstituição do dia que inaugurou a democracia em Portugal e pôs fim a um império colonial. Episódio em formato narrativo, com participação de quem viveu o 25 de Abril e suas consequências culturais, políticas e sociais: os jornalistas Leão Serva, Joana Gorjão Henriques e Ruy Castro, os historiadores Luiz Felipe de Alencastro e Fernando Rosas, e a escritora Dulce Maria Cardoso. Apoio Instituto Camões-CCP Brasília e Fundação Fernando Henrique Cardoso. Apoie o 451 MHz: https://bit.ly/Assine451

💾

The History of Bad Ideas: Eugenics

For the first episode in our new series about the hold of bad ideas David talks to the geneticist and science broadcaster Adam Rutherford about eugenics: from its origins in the 19th century through its heyday in the 20th century to its continuing legacy today. Is eugenics bad science, bad morality, bad politics – or all three? What are the fears that keep drawing people back to trying to control the consequences of human reproduction? And is a new age of consumerist eugenics upon us?


For ad-free listening and bonus episodes – including more bad ideas – subscribe to PPF+ www.ppfideas.com


Next time on The History of Bad Ideas: Helen Thompson on the Gold Standard


Hosted on Acast. See acast.com/privacy for more information.

Learn more about your ad choices. Visit podcastchoices.com/adchoices

💾

Premiê espanhol anuncia que pode deixar cargo

O premiê espanhol Pedro Sánchez tomou o país e seu partido de surpresa ao anunciar, nesta tarde de quarta-feira (24), a suspensão temporária de sua agenda pública para "refletir e decidir" se permanecerá ou não no cargo. Leia mais (04/24/2024 - 18h00)

Documentos revelam métodos de sabotadores profissionais em ataques contra torres de energia

Oito de janeiro de 2023.

Eram 21h30 quando uma torre de energia tombou em Cujubim, Rondônia.

O segundo ataque veio logo depois.

Brasília ainda ardia sob a fúria dos atos golpistas que atacaram Palácio do Planalto, Congresso e Supremo Tribunal Federal quando, 0h13 em ponto, exatas duas horas e quarenta e três minutos depois da primeira, desabou a segunda torre em Medianeira, Paraná. 0h40, num espaço de três horas e dez minutos entre as três, foi ao chão a terceira. Em Rolim de Moura, também Rondônia, a cerca de 380 quilômetros de Cujubim.

O documento da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) que relata os acontecimentos dos ataques as linhas de transmissão de energia do Brasil em janeiro de 2023, obtido pela reportagem através da Lei de Acesso à Informação, é definitivo:

SABOTAGEM E AÇÃO CRIMINOSA

“Sabotagem. Atuação ou tentativa criminosa”. Define como “ações criminosas”. E completa: “não foram registradas condições climáticas adversas que possam ter causado queda das torres”.


No total, entre os primeiros ataques, no dia 8 de janeiro e o dia 31, foram 24 torres avariadas em 14 diferentes locais, espalhados por seis estados: Rondônia (4 locais), Paraná (4), São Paulo (3), Mato Grosso (1), Piaui (1) e Pará (1). Quatro foram ao chão, sendo que 3 em Rondônia e uma no Paraná. As três atacadas em 8 de janeiro ao longo da noite e madrugada, (duas em Rondônia e uma no Paraná) foram ao chão. O laudo de todas define como  sabotagem.

FONTE: ANEEL (Obtido via Lei de Acesso à Informação)

Em todos os casos, ocorreu a repetição sistemática de um conjunto de ações: todos os parafusos da base das torres foram retirados, “ficando a torre sem sustentação, possibilitando a queda”. Além dos parafusos, foram cortados também os cabos de sustentação.

Em resumo: existiu um modus operandi. Um método repetido que uniu todas as ações.

Mais do que isso: uma organização, planejamento e pessoas com treinamento para tal operação realizada de forma sistematizada.

ATOS GOLPISTAS DE BRASÍLIA E TORRES DE ENERGIA ATACADAS: UM SÓ PLANO

Fotos ANEEL (obtidas via Lei de Acesso à Informação)

“É preciso não perder de vista jamais que o caso das torres derrubadas começam no mesmo dia, quase simultaneamente, exatamente horas depois do início dos eventos golpistas de Brasília, ao anoitecer. O que pode ser entendido como parte de um mesmo plano. Dentro desse plano, Brasília já estaria tomada pelos golpistas no executivo, judiciário e legislativo, e problemas em série com a rede de energia trariam de vez o caos ao país. Restaria a decretação da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e o poder transferido para o exército. E o governo estaria entregue. Hoje sabemos que esse era o plano”, resume um servidor envolvido na apuração dos episódios do 8 de janeiro e que pediu para não se identificar.

O histórico anual de ocorrências em torres de energia também afasta a hipótese do acaso. De acordo com a ANEEL, o ano de 2023 representa um recorde. Mais especificamente janeiro de 2023, mês em que as ações se concentraram. Para se ter uma ideia através de termos comparativos, 2019 inteiro fechou com dois registros de vandalismo em torres. Menos do que o 8 de janeiro de 2023.

Esquecido no noticiário sobre a tentativa de golpe de 8 de janeiro, jamais citado como objeto da investigação em curso sobre , sem nenhuma prisão ou operação específica, o episódio dos ataques às torres de energia foram e requerem, no entanto, tanta complexidade ou mais, logística, verbas e expertise do que os próprios eventos de 8 de janeiro ocorridos em Brasília.

Coisa de especialista.

Em relação aos episódios de Brasília, as investigações caminham para uma direção. Em relação aos ataques contra as torres, os caminhos e os relatórios da ANEEL mostram também alto grau de profissionalismo.

OS KIDS PRETOS EM AÇÃO

Em junho de 2022, o repórter Allan de Abreu publicou a reportagem “Os Kids Pretos – O papel da elite de combate do Exército nas maquinações golpistas”, na revista Piaui, onde, pela primeira vez, era citada a participação efetiva de militares da forças especiais, os chamados “kids pretos”, na tentativa de golpe de 8 de janeiro.

Na ocasião, a reportagem mostrou que o nível de organização das ações na capital demandava profissionais capacitados.

E os profissionais no exército capacitados para tal, treinados em operações especiais, eram os kids pretos, círculo de oficiais que formavam o ciclo mais próximo a Jair Bolsonaro.

Os kids pretos são treinados em ações de sabotagem e incentivo à insurgência popular, as chamadas “operações de guerra irregular”.

MODUS OPERANDI: PARAFUSOS DA BASE RETIRADOS E CABOS CORTADOS

As fotos abaixo, todas constantes do relatório da ANEEL sobre os ataques, mostram as distintas sabotagens, como retiradas de parafusos estratégicos na base, corte de cabos também da base e retirada de hastes de sustentação:

Desde o início das investigações sobre os atos golpistas, duas operações especificamente voltadas para a participação e organização dos kids pretos já foram realizadas pela Polícia Federal.

Em 29 de setembro de 2023, a PF realizou mais uma etapa, a 18ª, da “Operação Lesa Pátria”, nome da investigação que apura financiadores, participantes e organizadores dos atos golpistas. A operação foi voltada especificamente para cumprir um mandado de busca e apreensão contra o general da reserva Ridauto Lucio Fernandes, um “kids preto”, que chegou a gravar vídeo da própria participação nos atos golpistas de 8 de janeiro.

 “A nova fase da Lesa Pátria faz parte de uma frente da investigação que busca identificar supostos integrantes das Forças Especiais do Exército, os chamados “kid pretos”, que teriam dado início às invasões às sedes dos Três Poderes”, comunicou então a Polícia Federal.

Já em 8 de fevereiro de 2024, foi deflagrada a “Operação Tempus Veritatis” da Polícia Federal, para apurar os crimes de golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito por membros do governo de Jair Bolsonaro, apontou que integrantes das Forças Especiais do Exército, os chamados “kids pretos”, estiveram envolvidos em um “planejamento minucioso” para impedir a posse de Lula na presidência da República.

De acordo com a PF, “houve planejamento minucioso de kids pretos do exército para a consumação do golpe de estado”. O plano envolveu uma reunião em novembro de 2022 com oficiais especializados em ações contra terrorismo, insurgência e guerrilha. Os “kids pretos” seriam os responsáveis por realizar as prisões de autoridades após a edição de um decreto de intervenção militar. Entre os alvos estaria o ministro do STF, Alexandre de Moraes, que chegou a ser monitorado pelos investigados.

Os detalhes do plano foram relatados em mensagens encontradas no celular do tenente-coronel Mauro Cid, que fechou colaboração premiada com a Polícia Federal.

Arte: ANEEL, obtida via Lei de Acesso à Informação

OUTRO LADO:

A reportagem enviou para a Polícia Federal um pedido oficial de resposta sobre as investigações específicas sobre o ataque às torres, mas não recebeu resposta.

Thinking about Clint Eastwood’s worst movie

Versão em português

A few weeks ago, there was a Clint Eastwood retrospective in Rio, and I ended up thinking not about the many highlights of his filmography, but what I think is the worst movie he signed as a director: 1990’s The Rookie. Why talk about a bad movie that barely anyone has thought about beyond late-night cable fodder for some 30 years? I’m not sure, but I think Clint Eastwood is a major artist, and so his missteps can be intriguing. People who like to caricature auteurism often act like it is about excusing lesser work, but it is mostly a way to think about movies and get something more out of them, so The Rookie is a bad movie, sometimes a very bad one, but it is also a Clint Eastwood movie and its connections to the movies around it make it more worthwhile to ponder about, if not necessarily to watch, than some other workman-like action movies from around 1990.

I’ve actually thought about The Rookie far too much throughout the years even though I don’t think I’ve seen it from start to finish in a couple decades prior to last week (although I’ve seen parts of it on TV from time to time). The main thing that I keep returning to is why he actually directed it. I know why it exists. Eastwood also directed and starred in White Hunter, Black Heart earlier that year, a roman à clef about the pre-production of The African Queen and John Huston’s obsession with hunting an elephant that is one of his most alienating and best movies, so The Rookie was clearly a trade-off. The same thing happened a couple of years before, when, in exchange for Warner financing his terrific Charlie Parker biopic Bird, he starred in a fifth Dirty Harry movie, The Dead Pool.

That movie was signed by his longtime stuntman Buddy Van Horn, and there has been a very consistent pattern since the 1970s of Eastwood farming his less ambitious efforts to his buddies like Van Horn or up and comers inside his production company Malpaso like screenwriter James Fargo. Eastwood’s name, for instance, is only in the most ambitious of the Dirty Harry sequels (Sudden Impact) and usually not on his occasional stabs at Burt Reynolds style of brash action comedy (save from 1977’s The Gauntlet). Yet, The Rookie is a film by Clint Eastwood; even though he barely bothers to find much of a connection to the material, he was actually far more engaged with the previous year’s Van Horn-directed Pink Cadillac. He bothered so little with The Rookie that he halted the shooting for almost a week so he could present White Hunter, Black Heart, at Cannes (it cost Warner a small fortune to indulge him, maybe he was being passively aggressive). Eastwood could be a master of the double take, delivering enough thrilling action while suggesting alienation and the cost behind it, but there’s barely a nod towards that on Rookie. The movie could pass easily for any of the many buddy cop movies that come off around the time.

It would be easy to compare The Rookie with a couple of sequels that come around the same time like Lethal Weapon 2 or Another 48 Hrs. The movie is more expensive than the average Eastwood Cop movie. As an old fashionable movie star, his movies tend to keep the focus on him, and only 1982 FX-heavy Firefox could be said to be similar and that movie was very self-conscious about it (its climax even kept the star’s face covered). Instead, The Rookie presents itself as an elaborate action movie heavy on stunt work (the press release at the time claimed it employed more stuntmen than any other Hollywood movie), with multiple car chases and plenty of violent mayhem. It delivers on that; the chases in particularly are very careful staged and the destruction has some punch to it. On this, it is not much different than Another 48hrs, only Walter Hill is a good action director, so even in a minor movie like that, the clean action does tend to stand out while remaining integrated to everything else, while on The Rookie there seems to be to separate movies going on.

Eastwood might be following current trends, but at this point, he is hardly comfortable in such a register. Violence is a main subject in his movies, but reckless abandon and blunt action aren’t their territory. He is a very sober and somber filmmaker, indeed at his worst he can be a bit ponderous, and he takes every The Rookie cliché situation, and this movie is all cliched situations, fairly straight (when Eastwood gets introduced with a Black partner, we know the guy will be dead by the end of the first action scene, for instance). He can’t be bothered with the kind of easy going back and forth between the leads that a movie like Lethal Weapon 2 coasts on or play up the comic annoyance between them like Another 48hrs, the script asks Eastwood pairing with Charlie Sheen to be treated as equal, but not only Eastwood never bothers to develop chemistry between them, and his frustration at him is allowed to overwhelm the movie. Under better conditions, Eastwood can give the blander parts of his scripts a very tossed feel, the scenes that are there by necessity so we can get to the good stuff, but he can’t quite do this here as he is not connected to anything. The awful script has lots about Sheen’s character’s daddy issues and the need for Eastwood as a replacement father figure and the filmmaker overelaborates and underlines it all, making the movie even clunkier. He most let Sheen to drown there as well, it is the worst main performance in any of his movies. Compared to the far more enjoyable The Dead Pool, it constantly weighs down without anything that really sustains it.

In one of Eastwood’s most typical touches, the terrifically executed car chases all take place at night, and they are done in his trademark dark-light cinematography, so the great stuntman work is often taking place in a dark blur. For all the talk of Eastwood as a classical filmmaker and ultimate Hollywood insider, he is not known for changing paces in between movies. There is a look and feel for a Clint Eastwood movie, one he elaborates on through the 70s and 80s, and even something lightweight like Space Cowboys has a heavy melancholic feel to it. His movies rarely serve the system but take away from its resources. An assignment like this actually makes this process clear. So, The Rookie has great action presented in a very perverse manner, and it seems like it puts its violence and destruction upfront without ever being fully comfortable with it, but also never offers any commentary on it—the worst of both worlds. It is very possible The Rookie would be a more rewatchable movie if all those resources had be given to someone more willing to play the game, as it stands it is lousier, but more intriguing in all its flaws.

If The Rookie is remembered at all over three decades later, it is for the very odd scene later on, in which a captured Eastwood is sexually tortured by Sonia Braga. The Rookie is arguably the biggest part Braga got during her post-The Kiss of Spider Woman Hollywood days, her name is even in the trailer. It is a very regressive part: she is playing the near silent second in command of Raul Julia’s criminal, whose gender, overt sexuality and non-whiteness are supposedly to add on to dangerous exoticism. She finally gets her big scene, playing around the tied-down Eastwood. It goes on for over 5 minutes, with every bit of Eastwood’s submission underlined along with the voyeuristic touch that it is being shot by a local camera and reproduced on screens implicating the audience.

Eastwood’s early work, both as a filmmaker and a star, is packed with scenes of sexual abuse with an emphasis on the kinky power dynamics involved, he is, of course, usually the abuser. He problematizes it in some rich ways in the mid-80s on Tightrope, a movie he didn’t sign but by all accounts ghost directed, in which he played a cop with a taste for sadomasochism who ends up dealing with a serial killer that feels far too close to his fantasies, with pretend and real sexual violence allowed to be put into conflict. Those scenes mostly disappear from his filmmaking in his mature period, although sexual crimes are used in the background of multiple of his 90s movies (Unforgiven, Absolute Power, Midnight in the Garden of Good and Evil), and the treat of violence against women remains a recurrent justification for action. Eastwood’s narcissism can show itself both in a certain unpleasantness, he as the otherworldly violent figure who hangs over the action, and paradoxically, in some masochism, often getting castigated by the violent world around him. The scene with Braga is rather uncomfortable and feels very disconnected from the movie around it, but it is the only time his imagination feels fully engaged. He offers his body as both an object of erotic contemplation and of narcissistic punishment. Curiously, he is never allowed much of payback, when Braga gets dispatched late, it is in a scene with Sheen.

It is fascinating that The Rookie was a payback for White Hunter, Black Heart, as those two movies couldn’t be more opposite, and not only because they suggest the budding ambitious auteur and the violent action hero. White Hunter is very much a movie about mid-20th century American machismo—let’s call it the Hemingway ideal—from which John Huston was arguably Hollywood’s most famous figure, its fantasies and its consequences. The ugly American is going to the third world for fun and more important fulfillment, letting destruction in his wake. In one of its better scenes, a drunk Eastwood (his Huston is by far his finest work as an actor) sees a white local mistreating a black waiter and decides to defend the latter, the noble cause suddenly a very good excuse for the thrill of some late-night violence. Eastwood doesn’t present any of this at a distance; it is clearly that cinema in general, and Hollywood specifically, is central to promoting such male fantasies, and Eastwood’s man with no name/Harry Callahan persona, far from divorced from it, is a late manifestation of the same. A very bitter pill presented with little distance, even less people saw White Hunter than Rookie, and it remains curiously lesser known compared to his early 90s celebrated movies despite being every bit as good.

Cut to The Rookie, which is pretty much that exactly male fantasy. A movie whose reckless violence has zero, personal or physical consequence, packed with scenarios when men get to prove themselves and predicted in the notion of its world as a playground so a little boy can learn through a positive violent figure to harness his own macho desires in a more productive way. There’s even an scene Sheen gets to destroy a biker’s bar just so to act out his frustrations. None of which is offered in much of the way of commentary. If the two movies offer any dialectic, it is for pure opposition. We often like to think of artists and people, in a way that is clear and easy to explain. After all, careers are supposed to progress instead of moving in often multiple directions, so Rookie shouldn’t come after White Hunter, Black Heart, but it does; indeed, that he can make a movie like The Rookie is probably why he can also make White Hunter. If distance can often be very important to observe some actions, so does proximity and the greatness of White Hunter, Black Heart, is tied to how well its filmmaker and star know so many of those impulses.

If one wants to complicate matters further, 1990 was also the year of one of Eastwood, the man, least defensible gestures, getting Warner to dump with little promotion his former long-term partner Sondra Locke second directed feature Impulse, a fine little thriller, in a clear “I giveth, I’m now taketh away” power move that wouldn’t be out of place inside either White Hunter or The Rookie. As an extra detail, Impulse two large male roles are played by Jeff Fahey and George Dzundza, the screenwriter/narrator and producer in White Hunter, which was shot just after it.

The Rookie was the last movie in which Eastwood played a Harry Callahan type, the one that mostly made his stardom in the previous two decades. He turned 60 during the filming, and he is obviously aging out of the action star phase, indeed his advanced age will be more often the focus from that point on (in 2002’s Blood Work, he stars as an FBI agent who has a heart attack in the opening scene and is forced into retirement). Never more will be the forceful with complicated hero who will act first and ask questions later, whatever he will show up as an authority figure is used as a failed and regretful father of some sort and after he started to direct only more often his movies will often cast younger actors like Kevin Bacon and Jeffrey Donovan as Eastwoodian cops with lots of his actorly tics but little or none of the positive effect he usually displayed.

The movie suggests an alternate history for Eastwood. One in which he got to age the way most male movie stars do. The script was ready to shoot until production was shutdown due to the 1988 Hollywood strike. It was supposed to be directed by stuntman turned director Craig R. Baxley, one of the many forgotten action filmmakers from the period who feels like someone who would handle this, and star Gene Hackman and Matthew Modine. It feels a lot like one of the many action movies Hackman did around this time in which his gravitas are used to prop an up-and-comer star. Lots of young actors, from Matt Dillon to Owen Wilson, got the Hackman push in the final two decades of his career. The Rookie often operates like this: Sheen is the title character, and while there’s a lot of focus on Eastwood’s usual antics, it is him who gets a developed background, psychological issues and careful thought arc. When Eastwood gets captured midway through the movie (again, the kind of thing that happens to the veteran lead in one of those), he disappears from the movie, save from a couple of quick check-in scenes, for some 20 minutes until the big Braga one, while the action is completely given to his young partner.

Sheen is the focus of the script, but Eastwood is the focus of the movie, because unlike Hackman, he has enough power to make sure no one, but Clint Eastwood is the star of a Clint Eastwood movie. It would be normal for Eastwood to age into more and more of those roles, that is how things are supposed to go, instead he crafted a new image as a respected filmmaker and use it to advanced his star persona into late age (two different Eastwood movies would go on to win the Oscars in the 15 years after The Rookie), indeed almost three decades later, in 2018, 14 years after Hackman retired due to lack of good roles, Eastwood made The Mule which is probably going to forever hold the distinction as the only sizeable hit headlined by an 88-year-old, He is current finishing a new directed movie Juror #2, he will be 94 next month.

In the alternate world proposed by The Rookie, things don’t go that way. In the final scene, Sheen arrives at the office to find out that Eastwood just got promoted to the new boss. Harry Callahan would never be a boss; the libertarian hero can’t stand bosses even if they work for the law and are well meaning, those are the people who care for rules and are always limiting them. Even in Eastwood’s later mature movies, this will still be true. But not in The Rookie, he and Sheen get to reenact their first meeting, with Sheen protesting his new female partner the way, Eastwood protested him early, so the transference can be complete. Eastwood can stay behind the desk, satisfied with his new semi-retired part. That is probably part of what makes The Rookie frustrating and interesting in equal measures, for once he is playing the game fairly straight with no attempt to find some balancing act, his skills might even function as a drawback, one can easily imagine the purposed Baxley/Hackman movie as significantly worse made and easier to like, but from these frustrations and the ugliness and dysfunction they often suggest can be instructive as well. Sometimes dealing with your favorite artists can be a matter of thinking about failure as much as success. Filmmaking isn’t a monolith, after all.

Pensando no pior filme de Clint Eastwood

English version

Há algumas semanas, o grupo Estação promoveu a primeira parte de uma retrospectiva ampla de Clint Eastwood no Rio, e acabei pensando não nos muitos destaques de sua filmografia, mas no que considero o pior filme que ele assinou como diretor: The Rookie-Um Profissional do Perigo, de 1990. Por que falar de um filme ruim sobre o qual quase ninguém pensou, além de ser exibições tarde da noite de TV a cabo, pelos últimos 30 anos? Não tenho certeza, mas acho que Clint Eastwood é um artista importante e, portanto, seus erros podem ser intrigantes. As pessoas que gostam de caricaturar o autorismo muitas vezes agem como se ele servisse para desculpar trabalhos inferiores, mas é principalmente uma maneira de pensar sobre os filmes e extrair algo mais deles. Assim, Rookie é um filme ruim, às vezes bem ruim, mas também é um filme de Clint Eastwood e suas conexões com os filmes ao redor fazem com que valha mais a pena refletir sobre ele, se não necessariamente assisti-lo, do que alguns outros filmes de ação competentes feitos por volta de 1990.

Na verdade, pensei muito em Rookie ao longo dos anos, apesar de não ter assistido a ele do início ao fim fazia algumas décadas antes da semana passada (embora tenha visto partes na TV de vez em quando). A principal questão que sempre me chama a atenção é porque ele realmente o dirigiu. Eu sei por que o filme existe. Eastwood também dirigiu e estrelou Coração de Caçador no início daquele ano, um roman à clef sobre a pré-produção de Uma Aventura na África e a obsessão do diretor John Huston em caçar um elefante, que é um de seus filmes mais alienantes e mais bonitos. O mesmo ocorreu alguns anos antes, quando, em troca do financiamento pela Warner da sua ótima biografia sobre Charlie Parker, Bird, ele estrelou um quinto filme de Harry Callahan, Dirty Harry na Lista Negra.

Aquele filme foi assinado por seu dublê de longa data, Buddy Van Horn, e há um padrão muito consistente desde a década de 1970 em que Eastwood confiava seus esforços menos ambiciosos a seus amigos, como Van Horn, ou a novatos de sua produtora Malpaso, como o roteirista James Fargo. O nome de Eastwood, por exemplo, só aparece na mais ambiciosa das continuações de Dirty Harry (Impacto Fulminante) e apenas uma das suas ocasionais tentativas de fazer uma comédia de ação grosseira mais ao estilo de Burt Reynolds  (Rota Suicida). No entanto, Rookie é um filme de Clint Eastwood; mesmo que ele mal se preocupe em encontrar uma ligação com o material, ele parecia muito mais envolvido com Pink Cadillac, dirigido por Van Horn no ano anterior. Ele se preocupou tão pouco com Rookie que interrompeu as filmagens por quase uma semana para poder apresentar Coração de Caçador, em Cannes (isso custou uma pequena fortuna à Warner para satisfazê-lo, talvez ele estivesse sendo passivamente agressivo). Eastwood pode ser um mestre do duplo significado, oferecendo ação empolgante suficiente ao mesmo tempo em que sugere a alienação e o custo por trás dela, mas não há nem um aceno nesse sentido em Rookie. O filme poderia se passar facilmente por qualquer um dos muitos filmes de dupla de policiais que foram lançados na época.

Seria fácil comparar Rookie com algumas continuações que vieram na mesma época, como Máquina Mortífera 2 ou 48 Horas Parte 2. O filme é mais caro do que a média dos filmes policiais de Eastwood. Como um astro de cinema da velha guarda, seus filmes tendem a manter o foco nele, e apenas Firefox, de 1982, com muitos efeitos especiais, poderia ser considerado semelhante, e esse filme era muito consciente disso (seu clímax até mantinha o rosto do ator coberto). Em vez disso, Rookie se apresenta como um filme de ação elaborado, com muito trabalho de dublês (o press release da época afirmava que ele empregava mais dublês do que qualquer outro filme de Hollywood até então), com várias perseguições de carro e muita destruição violenta. Ele cumpre o prometido; as perseguições, em particular, são encenadas com muito cuidado e a destruição tem um certo impacto. Nesse quesito, não é muito diferente de 48 Horas 2, só que Walter Hill é um bom diretor de ação, portanto, mesmo em um filme menor como aquele, a ação limpa tende a se destacar, mantendo-se integrada a todo o resto, enquanto em Rookie parecem existir dois filmes separados acontecendo ao mesmo tempo.

Eastwood pode estar seguindo as tendências da época, mas, a esta altura, ele não se sente confortável nesse tipo de registro. A violência é um dos principais temas de seus filmes, mas a ação imprudente e a grosseira não são seu território. Ele é um cineasta muito sóbrio e sombrio; na verdade, em seus piores momentos, ele pode ser um tanto excessivamente sisudo, e ele leva todas as situações clichês de Rookie, e esse filme é todo composto de situações clichês, de forma bastante objetiva (quando Eastwood é apresentado com um parceiro negro, sabemos que o cara estará morto ao final da primeira cena de ação, por exemplo). Ele não pode se incomodar com estabelecer um tom relaxado entre os protagonistas que um filme como Máquina Mortífera 2 utiliza, nem com a irritação cômica entre eles, como em 48 Horas 2, o roteiro pede que Eastwood trate seu par Charlie Sheen como um igual, mas Eastwood nunca se preocupa em desenvolver uma química entre eles, e sua frustração com o jovem acaba sobrecarregando o filme. Em condições melhores, Eastwood consegue passar fácil pelas partes mais superficiais de seus roteiros, elas terminam meio jogadas e desimportantes, as cenas que estão lá por necessidade para que possamos chegar às partes boas, mas ele não consegue fazer isso aqui, pois não está conectado a nada. O roteiro péssimo trata muito dos problemas com o pai do personagem de Sheen e da necessidade de Eastwood como uma figura paterna substituta, e o cineasta elabora demais e enfatiza tudo isso, tornando o filme ainda mais insosso. Ele também deixa Sheen na mão, é a pior atuação principal em qualquer um de seus filmes. Comparado com o muito mais prazeroso Dirty Harry na Lista Negra, o filme é pesadão, sem nada que realmente o sustente.

Em um dos gestos mais típicos de Eastwood, as muito bem executadas perseguições de carro executadas se passam todas à noite e são feitas com a fotografia de luz escura, que lhe é habitual, de modo que o excelente trabalho dos dublês geralmente ocorre em meio a um borrão escuro. Apesar de tudo que se escreveu sobre Eastwood como um cineasta clássico e grande insider de Hollywood, ele não é conhecido por mudar o tom entre os filmes. Há uma estética e uma pegada para um filme de Clint Eastwood, que ele desenvolve ao longo dos anos 70 e 80, e até mesmo um filme leve como Cowboys do Espaço tem uma carga melancólica acentuada. Seus filmes raramente servem ao sistema, mas tiram proveito de seus recursos. Um trabalho como esse realmente torna esse processo claro. Portanto, Rookie tem muita ação apresentada de uma maneira bastante perversa e parece que coloca sua violência e destruição em evidência sem nunca se sentir totalmente confortável com elas, mas também nunca oferece nenhum comentário sobre isso – o pior dos dois mundos. É bem possível que Rookie fosse um filme mais agradável de assistir se todos esses recursos tivessem sido dados a alguém mais disposto a jogar o jogo. Na forma atual, é ainda pior, mas também mais intrigante em todas as suas deficiências.

Se Rookie é ainda lembrado por alguém mais de três décadas depois, é pela cena muito desagradável em que Eastwood é capturado e torturado sexualmente por Sonia Braga. Rookie é, sem dúvida, o maior papel que Braga conseguiu durante seus dias de Hollywood após O Beijo da Mulher Aranha; seu nome está até no trailer. É um papel bem retrógrado: ela interpreta a quase silenciosa segunda no comando do criminoso de Raul Julia, cujo gênero, sexualidade explícita e latinidade supostamente se somam num exotismo perigoso. Ela finalmente tem sua grande cena, jogando com um Eastwood imobilizado. A cena se estende por mais de 5 minutos, com cada detalhe da submissão de Eastwood sublinhado, juntamente com um toque voyeurista de que está sendo filmado por uma câmera local e reproduzido em telas de TV que implicam o público.

Os primeiros trabalhos de Eastwood, tanto como cineasta quanto como astro, estão repletos de cenas de abuso sexual, com ênfase na dinâmica de poder perversa envolvida, com o próprio ator, claro, quase sempre como o abusador. Ele problematizou isso de forma interessante em meados dos anos 80 em Um Agente na Corda Bamba, um filme que ele não assinou, mas que, segundo todos os relatos, ele dirigido sem crédito, no qual ele interpretou um policial com gosto por sadomasoquismo que acaba lidando com um serial killer que permanece muito próximo de suas fantasias, com a violência sexual real e imaginada colocadas em conflito. Essas cenas desapareceram de sua filmografia mais madura, embora crimes de natureza sexual aparecem como pano de fundo em vários de seus filmes dos anos 90 (Os Imperdoáveis, Poder Absoluto, Meia-noite no jardim do bem e do mal), e a ameaça da violência contra a mulher continua sendo uma justificativa recorrente para a ação. O narcisismo de Eastwood pode se manifestar tanto em um tom, desagradável, ele como a figura violenta de outro mundo que paira sobre a ação, quanto, paradoxalmente, em um certo masoquismo, muitas vezes com seu corpo sendo castigado pelo mundo violento ao seu redor. A cena com Braga é bastante desconfortável e parece muito desconectada do filme ao seu redor, mas é o único momento em que sua imaginação parece totalmente engajada ao longo de todo o filme. Ele oferece seu corpo como um objeto de contemplação erótica e de punição narcisista. Curiosamente, Eastwood nunca tem direito a uma vingança como manda o clichê; quando Braga é eliminada tardiamente, é em uma cena com Sheen.

É muito interessante que Rookie seja um pagamento por Coração de Caçador, já que esses dois filmes não poderiam ser mais opostos, e não apenas porque sugerem o autor ambicioso em ascensão e o herói de ação violento. Coração de Caçador é um filme sobre o machismo americano de meados do século XX – vamos chamá-lo de ideal de Hemingway – do qual John Huston foi, sem dúvida, a figura mais famosa de Hollywood, suas fantasias e suas consequências. O americano grosseiro vai para o terceiro mundo em busca de diversão e, mais importante, de realização dos desejos, deixando um rastro de destruição. Em uma das melhores cenas, Eastwood, bêbado (seu Huston é, de longe, seu melhor trabalho como ator), vê um branco local maltratando um garçom negro e decide defendê-lo. A nobreza da causa, de repente, é uma desculpa muito boa para a adrenalina da violência noturna. Eastwood não apresenta nada disso à distância; é evidente que o cinema em geral, e Hollywood especificamente, é fundamental para promover essas fantasias masculinas, e o homem sem nome/Harry Callahan de Eastwood, longe de estar divorciado disso, é uma manifestação tardia do mesmo. Uma pílula muito amarga apresentada com pouco distanciamento, ainda menos pessoas assistiram a Coração de Caçador do que a Rookie, e esse filme continua curiosamente menos conhecido do que seus filmes celebrados do início dos anos 90, apesar de ser tão bom quanto.

Passemos para Rookie, que é exatamente essa fantasia masculina. Um filme cuja violência irresponsável não tem nenhuma consequência pessoal ou física, repleto de cenários em que os homens conseguem provar a si mesmos e previsto na noção de seu mundo como um playground para que um menino possa aprender, por meio de uma figura violenta positiva, a controlar seus próprios desejos de macho de uma forma mais produtiva. Há até mesmo uma cena em que Sheen destrói um bar de motoqueiros apenas para expressar suas frustrações. Nada disso é oferecido em forma de comentário. Se os dois filmes oferecem alguma dialética, é por pura oposição. Geralmente, gostamos de pensar em artistas e pessoas de uma forma clara e fácil de explicar. Afinal de contas, as carreiras devem progredir em vez de se moverem em várias direções, de modo que Rookie não deveria vir depois de Coração de Caçador mas vem; na verdade, o fato de ele poder fazer um filme como Rookie é provavelmente o motivo pelo qual ele também pode fazer Coração de Caçador. Se a distância pode ser muito importante para observar algumas ações, o mesmo acontece com a proximidade, e a grandeza de Coração de Caçador está ligada ao fato de seu cineasta e astro conhecer muito bem a maioria desses impulsos.

Se quisermos complicar ainda mais as coisas, 1990 também foi o ano de um dos gestos menos defensáveis de Eastwood, quando fez com que a Warner lançasse, com pouca promoção, o segundo longa dirigido por sua ex-parceira de longa data, Sondra Locke, Tentação Perigosa, um bom thriller, em uma clara jogada de poder do tipo “eu dei, agora tiro”, que não ficaria deslocada em Coração ou Rookie. Como um detalhe extra, os dois papéis masculinos principais de Tentação Perigosa são interpretados por Jeff Fahey e George Dzundza, o roteirista/narrador e o produtor de Coração de Caçador, que foi filmado logo depois.

Rookie foi o último filme em que Eastwood interpretou um personagem do tipo Harry Callahan, aquele que mais contribuiu para o seu estrelato nas duas décadas anteriores. Ele completou 60 anos durante as filmagens e, obviamente, está envelhecendo e saindo da fase de astro de ação; de fato, sua idade avançada será foco com mais frequência a partir de então (em Dívida de Sangue de 2002, ele interpreta um agente do FBI que sofre um ataque cardíaco na cena inicial e é forçado a se aposentar, por exemplo). Ele nunca mais será o herói vigoroso e complicado que age primeiro e faz perguntas depois, sempre que aparece como figura de autoridade é usado como um pai falho e arrependido de algum tipo e, depois que ele começou a dirigir sem atuar com mais frequência, seus filmes costumam ter atores mais jovens, como Kevin Bacon e Jeffrey Donovan, como policiais à Eastwood, com muitos de seus tiques de ator, mas pouco ou nenhum do efeito positivo que ele geralmente exibia.

O filme sugere uma história alternativa para Eastwood. Uma na qual ele envelheceu da mesma forma que a maioria dos astros homens de cinema. O roteiro estava pronto para ser filmado até que a produção foi interrompida devido à greve de 1988 em Hollywood. Deveria ter sido dirigido pelo ex-dublê tornado diretor Craig R. Baxley, um dos muitos cineastas de ação esquecidos da época e o típico diretor de um filme desses, e estrelado por Gene Hackman e Matthew Modine. E se parece mesmo muito com um dos vários filmes de ação que Hackman fez por volta dessa época, em que sua gravidade é usada para promover uma estrela em ascensão. Muitos jovens atores, de Matt Dillon a Owen Wilson, receberam o empurrão de Hackman nas duas últimas décadas de sua carreira. Rookie geralmente funciona dessa forma: Sheen é o personagem-título e, embora haja muito foco nas peripécias habituais de Eastwood, é ele quem recebe um passado desenvolvido, problemas psicológicos e um arco dramático pensado com cuidado. Quando Eastwood é capturado no meio do filme (mais uma vez, o tipo de coisa que acontece com o protagonista veterano em um desses), ele desaparece do filme, exceto por um par de cenas rápidas com os vilões, por cerca de 20 minutos até a grande cena de Braga, enquanto a ação é totalmente entregue ao seu jovem parceiro.

Sheen é o foco do roteiro, mas Eastwood é o foco do filme, porque, ao contrário de Hackman, ele tem poder suficiente para garantir que ninguém, a não ser Clint Eastwood, seja a estrela de um filme de Clint Eastwood. Seria normal que Eastwood envelhecesse e assumisse cada vez mais esses papéis, pois é assim que as coisas geralmente acontecem. Em vez disso, ele criou uma nova imagem como cineasta respeitável e a utilizou para avançar sua persona até uma idade avançada (dois filmes diferentes de Eastwood ganhariam o Oscar nos 15 anos seguintes a Rookie). De fato, quase três décadas depois, em 2018, 14 anos após Hackman ter se aposentado por falta de bons papéis, Eastwood fez A Mula, que provavelmente terá para sempre a distinção de ser o único grande sucesso encabeçado por uma pessoa de 88 anos. Ele está terminando um novo filme que dirigiu, Juror #2, e fará 94 anos no próximo mês.

No mundo alternativo proposto por Rookie, as coisas não acontecem dessa forma. Na cena final, Sheen chega ao escritório e descobre que Eastwood acabou de ser promovido a seu novo chefe. Harry Callahan jamais seria um chefe; o herói libertário não suporta chefes, mesmo que eles trabalhem para a lei e sejam bem-intencionados; essas são as pessoas que se preocupam com as regras e estão sempre os limitando. Mesmo nos últimos filmes maduros de Eastwood, isso ainda será verdade. Mas não em Rookie, em que ele e Sheen reencenam seu primeiro encontro, com Sheen protestando contra sua nova parceira, da mesma forma que Eastwood protestou contra ele no início, para que a transferência seja completa. Eastwood pode ficar atrás da mesa, satisfeito com seu novo papel de semi-aposentado. Isso provavelmente é parte do que torna Rookie frustrante e interessante em medidas iguais, pois já que ele está jogando o jogo de forma bastante direta, sem nenhuma tentativa de encontrar um ponto de equilíbrio, sua competência pode até funcionar como uma desvantagem. Pode-se facilmente imaginar o filme proposto de Baxley/Hackman como significativamente mais malfeito e mais fácil de gostar, mas essas frustrações, a grosseria e a disfunção que elas por vezes sugerem também podem ser instrutivas. Às vezes, lidar com os seus artistas favoritos pode ser uma questão de pensar tanto no fracasso quanto no sucesso. Afinal, o cinema não é um monólito.

❌