Porque os homens precisam ser recompensados por seus méritos
18 de março de 2026 por Vanessa Barbara
As premiações são uma ótima maneira de reconhecer as conquistas dos indivíduos masculinos de nossa sociedade, que muitas vezes se comportam com distinção mesmo sob extrema pressão.
Aqui estão os requisitos para alguns dos distintivos mais rigorosos e prestigiados:
Distintivo de Ajuda Doméstica – Conclua uma tarefa doméstica simples (por exemplo, trocar uma lâmpada ou desentupir uma pia) em até trinta dias e/ou após seis pedidos cada vez mais insistentes. Troque os lençóis uma vez por ano por iniciativa própria. Compre um avental engraçado para expressar sua personalidade.
Medalha de Mérito Vida Familiar – Publique fotos com seus filhos no Instagram. Ensine-os ao menos uma habilidade de vida, como arrotar a palavra “abracadabra”, cuspir longe um caroço de azeitona, controlar seus gases ou incendiar coisas aleatórias. Pague a pensão alimentícia conforme determinado pela justiça.
Prêmio Antílope de Prata – Durante um dia inteiro, mantenha um diário de suas experiências de escuta. Identifique um exemplo e discorra com sua parceira após: (1) Obter informações, (2) Ser persuadido, (3) Reconhecer algo ou (4) Compreender os sentimentos de alguém.
Prêmio Thomas A. Edison de InovadorExcepcional – Desenvolva uma técnica para higienizar vegetais na máquina de lavar louça. Passe a aquecer sua comida com um secador de cabelo em vez de consertar o micro-ondas. Compre um aspirador de pó novo em vez de trocar o filtro. (Mas não se esqueça de levar o lixo para fora a fim de apagar seus rastros.)
Especialidade em Comunicação – Mantenha uma conversa simples com alguém por cerca de dez minutos, sem depreciar nenhum grupo minoritário ou ofender a dignidade das mulheres – algo que nunca aconteceria porque é só uma piada; francamente, por que levar tudo a sério? Você fica linda quando sorri.
Medalha Nacional de Conquista ao Ar Livre – Aceite levar o lixo para fora uma vez por semana. Só isso. Você não precisa cortar a grama, buscar seus filhos na escola ou fazer qualquer outra coisa pelo resto do ano.
Menção Honrosa Conjugal por Bons Serviços – O indicado deve ter prestado um mínimo de vinte minutos de bons serviços que se destaquem. Esta medalha geralmente é concedida pela esposa de outrem enquanto você finge ser prestativo após um jantar.
Prêmio Homem Qualificado – Durante sete dias consecutivos, não dê conselhos não solicitados a mulheres. Abstenha-se de analisar as escolhas de vida e carreiras de terceiros. Por favor, evite explicar coisas que você não entende completamente. Ok, cinco dias consecutivos.
Distintivo de Mérito Pioneiro – Tente tratar todos ao seu redor como se não fossem seus subordinados. Comporte-se com o mínimo de respeito, consideração e honestidade. É aconselhável não gritar ou socar a parede, nem quando aquela tonta fez por merecer.
Insígnia Nem Todo Homem – Não recorra a envenenamento, estrangulamento, espancamento, esfaqueamento ou fuzilamento em relação a qualquer mulher em um raio de pelo menos cinquenta metros.
#116 – São Paulo, 9 de março de 2026 Especial Matrescência Cansaço, pele pálida e cabelo oleoso hortifruti.org
“Mãe é uma mulher que ficou louca” (Miguel Sokol)
:: EDITORIAL ::
Está chegando às livrarias no dia 9 de março um verdadeiro tratado sobre esse assunto complicado que é procriar, parir e então se ver irremediavelmente transformada em um legume para o resto da vida.
O que muda aí é o tipo de legume.
(Mulheres transformadas em inhames, por exemplo, são relativamente sortudas.)
Mas me afastei um pouco do cerne da questão. Matrescência é um livro de não ficção escrito pela jornalista científica britânica Lucy Jones e traduzido por esta vossa humilde criada. Está sendo publicado pela editora Fósforo. É grande e ficou especialmente caprichado, sobretudo na parte bibliográfica e nas notas de rodapé.
Leiam, divulguem, emprestem e usem como peso para fixar a cola nos brinquedos.
Essas ideias bizarras eram herança da teoria da “imaginação materna”, que prevaleceu entre os séculos XVI e XVIII. Os médicos acreditavam que as mulheres grávidas podiam transformar, com suas mentes, o feto em crescimento, e portanto os distúrbios congênitos eram culpa da mãe. Se ela se assustasse com um sapo, por exemplo, a criança poderia acabar com os pés palmados. Ou se ela passasse muito tempo olhando para uma imagem de Jesus, o bebê poderia nascer com uma barba.
Quando James Young Simpson, professor de obstetrícia em Edinburgo e criador do modelo de fórceps utilizado até hoje, ofereceu essa opção a uma paciente chamada sra. Carstairs, ela ficou tão grata que batizou a filha de “Anestesia”.
Nem todos estavam satisfeitos com essas iniciativas para minimizar a dor das mulheres no parto. O apelo inicial de Simpson para empregar analgésicos “de acordo com todos os princípios da verdadeira humanidade”, em 1847, foi contestado por padres e médicos por razões religiosas e morais: em Gênesis, Deus amaldiçoa Eva por comer a maçã, e seu castigo é que o parto deveria doer – “Multiplicarei as dores de tuas gravidezes, na dor darás à luz filhos”. (O castigo de Adão era lidar com espinhos e cardos, o que me parece um pouco injusto.)
Dessa vez, eu me permiti comer mais do que nunca. Deixei meu corpo ditar sua relação com o mundo físico. Vi meu corpo se expandir, vi minha pele esticar. Muitas vezes sonhava que as pessoas vinham até mim e me ofereciam pratos de comida, seus animais de estimação, seus entes queridos idosos, e eu os enfiava delicadamente em minha boca.
[This time I let myself eat, like I never had before. I let my body dictate its relationship with the physical world. I saw myself expand, saw my skin stretch. I’d often dream that people came to me and offered me plates of food, their pets, their aging loved ones, and I’d gently draw them all into my mouth.]
:: PRIMEIRA MULHER EM MARTE :: Abigail Tucker, Mom Genes
E, no entanto, como filha de uma mãe que, cerca de quatro décadas após meu nascimento, ainda me segue até os estábulos frios das ovelhas, e como mãe de uma filha que atualmente deseja ser a “primeira mulher em Marte”, mas também ter 22 filhos, tenho muitas perguntas sobre essa jornada feminina compartilhada e sobre os lugares aonde as mulheres vão sem saber.
[And yet, as the daughter of a mother who—some four decades after my birth—will still tail me into wintery sheep barns, and as the mother of a daughter who presently aims to be the “first girl on Mars” but also to have twenty-two children, I have many questions about this shared female journey, and the places that women unknowingly go.]
Em um dado momento, parecia que o bebê poderia rasgar o meu períneo, então rapidamente me moveram para outra posição. Nas horas seguintes, fui colocada em várias posições para aproveitar a força da gravidade: de quatro, em uma espécie de pose de cadeira, de joelhos e, por fim, deitada de lado com uma perna no ombro da parteira, porque, àquela altura, eu já não conseguia me sustentar. Estava no meu estado mais feral e primitivo. Queria queimar a indústria do hipnoparto até não sobrar mais nada.
Mas a crença de que falar abertamente sobre a dor da maternidade prejudicaria a criança, e a própria mãe, é uma mentira. E eu não quero mais ter medo disso.
[But the belief that it would hurt the child, and the mother herself, to openly speak about the pain of motherhood is a lie. And I don’t want to be afraid of it any longer.]
Baixei um livro, publicado pela La Leche League, chamado The Womanly Art of Breastfeeding [A arte feminina de amamentar]. A capa mostrava uma bela mulher de longos cabelos ruivos cacheados e soltos, envolta em um lençol branco. “Este livro irá me ensinar a arte feminina”, pensei. “Amamentar não te dá pontos extras. É apenas a forma normal de criar um bebê”, eu li.
:: ADENDO ::
Eu também li The Womanly Art of Breastfeeding inteirinho e não cheguei a entender grande coisa sobre a tal arte feminina.
Em seu testamento, Assia Wevill foi bem direta: “A Ted Hughes, o pai dela”, escreveu, “deixo minha ausência, sem dúvida bem-vinda, e meu profundo desprezo.”
[In her will, Assia Wevill made no bones: “To Ted Hughes, their father,” she wrote, “I leave my no doubt welcome absence and my bitter contempt.”]
As reportagens nunca diziam: “Rowena ostenta seu abdome super rechonchudo apenas dois meses depois de dar à luz seu bebê”, ou: “Gia flexionou sua pança balouçante”, ou: “Ao sair de casa, Poppy fez questão de que todos olhassem para sua barriga flácida e cheia de estrias em um sutiã Balenciaga, exibindo sinais profundos de cansaço, a pele pálida e o cabelo perfeitamente oleoso”.
:: NEVOEIRO :: Yvonne Perrin, The First Seven Years: A Record Book for Mother & Child
Ele […] deve dormir ao ar livre o dia todo, no inverno e no verão. A única condição climática realmente inadequada para o bebê é o nevoeiro.
Publicado em 1894, The Care and Feeding of Children [Cuidado e alimentação infantis], do pediatra Luther Emmett Holt, foi um best-seller. “Nunca se deve brincar com bebês menores de seis meses; quanto menos isso acontecer, em qualquer época, melhor para eles”, escreveu. Outras regras incluíam não sair de casa com o bebê pelos primeiros três meses, assim como um aviso de que “emoções descontroladas, tristeza, excitação, medo e paixão podem fazer o leite cair mal à criança”.
Durante a gravidez, todo o nosso corpo passa por mudanças. Nossas pintas podem escurecer e nossa voz pode ficar mais grave (como aconteceu com Kristen Bell grávida durante as gravações de Frozen — parece que a famosa trilha sonora poderia ter sido ainda mais estridente em alguns trechos). Nossos narizes alargam, nossos arcos plantares se achatam e nossas unhas dos pés caem. Nosso cabelo pode mudar de cor ou ficar cacheado. Podemos arrotar como se tivéssemos engolido uma bomba-relógio. Nosso fígado pode liberar bile, provocando uma coceira insuportável. E nos tornamos comprovadamente mais apetitosas para os mosquitos devido ao aumento da temperatura corporal e da produção de dióxido de carbono.
[In pregnancy our entire physical selves are in flux. Our moles may darken, our voices drop an octave (as a pregnant Kristen Bell’s did while recording Frozen—it seems that the notorious soundtrack could have been still shriller in places). Our noses widen, our arches flatten, and our toenails fall off. Our hair can change color or gain curl. We may burp as if we’ve swallowed a bomb cyclone. Our livers may leak bile, causing us to itch like the dickens. And we become demonstrably more delicious to mosquitoes because of our increased body temperature and carbon dioxide output.]
Um estudo com roedores revelou que as mães ratas precisam guinchar de modo ultrassônico para que os pais ajudem a cuidar dos filhotes.
[A rodent study revealed that mice moms must ultrasonically squeak at mice dads in order to get them to pitch in with childcare.)]
>>>>
Se você gosta de A Hortaliça, encaminhe esta edição para um amigo leitor. Hoje temos 26 aguerridos assinantes e uma dúzia de doadores esporádicos que ajudam a manter essa feira livre. Se também quiser colaborar, há um botão de assinatura logo abaixo.
Os links dos livros são afiliados da Amazon e nos ajudam a recarregar o Bilhete Único.
“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)
Pequeno aviso legal: A Hortaliça será distribuída gratuitamente através desta plataforma. Não iremos produzir conteúdo fechado para assinantes por acreditar no livre acesso à informação, arte e cultura. A tarifa zero é bancada por leitores, leitoras e leitões que têm condições (e vontade) de colaborar. Quem quiser ajudar pode escolher um plano de assinatura ou depositar moedas de ouro aleatórias na chave pix: vmbarbara@yahoo.com. Vamos apoiar o jornalismo independente, a literatura de guerrilha e a bobice semiprofissional.
#115 – São Paulo, 6 de fevereiro de 2026 Especial dentistas hortifruti.org
“Até capturarmos esta tartaruga/ a outra já fugiu.” (Rafael Mantovani)
:: EDITORIAL ::
Nesta edição, juntamos dois temas palpitantes que jamais foram abordados em conjunto: carnaval e dentistas.
Somos assim audaciosos — ou preguiçosos demais para buscar a necessária congruência.
Fica a dica para as escolas de samba que, em 2027, poderão usar o samba-enredo “Da Gengiva ao Implante: O Cuidado Bucal Vira Carnaval” ou “Com Dentadura ou Natural, Nosso Samba é Imortal”.
Para mais contexto, leiam a análise: “No quesito piada infame, nota da madrugada é 10”. E divirtam-se.
:: CARNAVAL ::
Mulher no metrô:
“…Aí me falaram que eu já era a quarta pessoa que ficava com ele e ainda era 6 da tarde! [pausa] Ou seja, o cara acordou cedo.”
Segundo Roberto Díaz e Paula Hahn, administradores de um site de turismo médico chamado Border CRxing, a cidade de Los Algodones tem a maior concentração per capita de dentistas do mundo: bem mais de mil em uma população de 5.500 habitantes. É conhecida como a Cidade dos Molares.
[According to Roberto Díaz and Paula Hahn, who run a website about medical tourism called Border CRxing, Los Algodones now has the highest per-capita concentration of dentists in the world: well over a thousand in a population of fifty-five hundred. It’s known as Molar City.]
:: RATOS EM CARTOLAS :: Guimarães Rosa, Ave, palavra
Zôo (Jardin des Plantes) Tartarugas, nas lajes: estouvam-se, remexendo-se, que nem ratos debaixo de cartolas.
:: 750 CONVIDADOS E 3 ELEFANTES :: Janet Flanner, Paris era ontem
Em Versalhes [em 1939], lady Mandl deu um baile de época para 750 convidados e três elefantes, sendo que todos os três se recusaram a ser montados, entre outros, pela princesa de Kapurthala.
:: ASPECTO DE FRANGO :: Nikolai Gogol, Taras Bulba
O dono da casa, depois de ter bebido um pequeno copo de uma misteriosa infusão, despiu o cafetã e, ficando de ceroulas e pantufas, adquiriu o aspecto de um frango. Depois foi deitar-se com a mulher em algo que parecia um armário. Dois rapazolas deitaram-se no chão, defronte do armário, parecendo simples cachorros.
Na mesma época em que Loomis realizava experimentos com eletroencefalograma (EEG) em sua mansão, o artista surrealista [Dalí] fazia experiências com suas próprias transições para o sono. Como descreveu em seu livro de 1948, 50 Secrets of Magic Craftsmanship [50 segredos mágicos da pintura], ele se sentava em uma “poltrona esquelética, de preferência de estilo espanhol”, enquanto segurava frouxamente uma chave pesada sobre um prato virado para baixo no chão. À medida que adormecia, suas mãos relaxavam — e eventualmente a chave caía por entre seus dedos. O estalo repentino da chave ao bater no prato o despertava. Convencido de que acordar durante essa fase revigorava seu ser psíquico e impulsionava a criatividade, Dalí então se sentava e começava a pintar.
[Around the time that Loomis was conducting EEG experiments in his mansion, the surrealist artist was experimenting with his own transitions into sleep. As he described it in his 1948 book 50 Secrets of Magic Craftsmanship, he would sit in a “bony armchair, preferably of Spanish style,” while loosely holding a heavy key in one palm above an upside-down plate on the floor. As he drifted off, his hands would slacken — and eventually the key would fall through his fingers. The sudden clack of the key hitting the plate would wake him. Convinced that being aroused during this period revived his psychic being and boosted creativity, Dalí would then sit down and start painting.]
Quando Luís XIV teve um dente extraído em Versalhes, o dentista puxou sua mandíbula com tanto zelo que abriu um buraco no palato, alcançando a passagem nasal. Por um tempo depois disso, qualquer líquido que o rei bebesse jorrava pelo seu nariz. Para estancar o sangramento, o cirurgião teve que cauterizar o buraco com um ferro em brasa.
[When Louis XIV had a tooth pulled at Versailles, his dentist yanked at his jaw with such zeal that he tore a hole through the palate and into the nasal passage. For a while after that, any liquid that the King drank would come spraying out of his nose. To plug it closed, his surgeon had to cauterize the hole with a red-hot iron.]
Até mesmo os praticantes mais experientes do toma-lá-dá-cá de Washington ficaram espantados com as novas regras para a compra de influência. Em dezembro, um assento em um jantar coletivo em Mar-a-Lago podia ser garantido com uma contribuição de um milhão de dólares para a MAGA Inc., um super PAC que funciona como caixa de campanha para as eleições de meio de mandato. Mais recentemente, conversas individuais com o presidente passaram a estar disponíveis por cinco milhões de dólares.
[Even seasoned practitioners of Washington pay-to-play have been startled by the new rules for buying influence. In December, a seat at a group dinner at Mar-a-Lago could be had for a million-dollar contribution to MAGA Inc., a super PAC that serves as a war chest for the midterms. More recently, one-on-one conversations with the President have become available for five million.]
Acho que […] esse tipo de passividade é uma libertação da necessidade de controle. Como autônomo, não tenho a rotina de um emprego fixo, então o arranjo de cada hora é uma questão de escolha, uma oportunidade de reflexão e avaliação. Às vezes, eu só quero ficar onde estou e assistir Dateline, porque é o que vem a seguir. Deixe a morte me levar.
[I think because the passivity of it is a release from the need for control. As someone who is self-employed, I don’t have the jig of a regular job, so the disposition of every hour is a matter of choice, an occasion for reflection and evaluation. Sometimes I just want to stay where I am and watch Dateline, because that’s what’s next. Let death come.]
Em 2020, uma pesquisa realizada pela Faculdade de Odontologia da Universidade de Nova York revelou que três quartos dos dentistas admitiram ter sido atacados verbalmente por um paciente, e quase metade havia sofrido agressão física. Os estudantes de odontologia foram ainda mais maltratados: 86% deles haviam sofrido abuso verbal no ano anterior.
[In 2020, in a survey by the New York University College of Dentistry, three-quarters of dentists reported that they’d been verbally attacked by a patient, and nearly half had been physically assaulted. Dental students were treated even worse: eighty-six per cent had been verbally abused in the previous year.]
A socióloga Ashley Mears, que pesquisou os escalões superiores do circuito global de festas em Nova York, Miami, Ibiza e Saint-Tropez, descobriu que “os esbanjadores mais duvidosos eram os não ocidentais, como russos, árabes e ‘asiáticos loucos de ricos’, ou caras que ‘são donos de toda a água da Sérvia’”.
[The sociologist Ashley Mears, who researched the top echelons of the global party circuit in New York, Miami, Ibiza, and Saint-Tropez, found that “the most dubious of big spenders were non-Westerners, like Russian, Arab, and ‘crazy rich Asian’ spenders” or guys who “own all the water in Serbia.”]
Maya pegou um volume da Grande Enciclopédia Soviética, um tomo encadernado em tecido azul-escuro. Era o volume cinco, que começava e terminava com palavras completamente incompreensíveis: “Berezna” e “Botokudy”. Maya abriu o livro e deparou-se com um retrato de página inteira de um homem de meia-idade, quase careca, com rosto redondo, lábios finos e óculos de pincenê com lentes redondas sem aro.
Era Lavrentiy Beria, descrito no artigo de quatro páginas que acompanhava o retrato como “um dos líderes mais destacados do Partido Comunista Soviético Bolchevique e do Estado soviético, um aluno leal e camarada de J. V. Stálin”, e assim por diante. Não era o avô de Arutyunyan — era o principal executor de Stálin. Depois que o próprio Beria foi executado, os assinantes da Grande Enciclopédia Soviética receberam uma carta que Maya agora lhe mostrava: a editora estatal acadêmica da Grande Enciclopédia Soviética recomenda que as páginas 21, 22, 23 e 24, bem como o retrato anexado entre as páginas 22 e 23, sejam removidos e substituídos por novas páginas, anexas a esta carta. Use tesoura ou lâmina de barbear para remover as páginas mencionadas, tomando cuidado para preservar as margens internas onde as novas páginas serão coladas.
As páginas de substituição continham um artigo sobre o Estreito de Bering.
[Maya got out a volume of the Great Soviet Encyclopedia, a tome in blue-black cloth. This was volume five, which began and ended with perfectly incomprehensible words: “Berezna” and “Botokudy.” Maya opened the book to a full-page portrait of a middle-aged, mostly bald man with a round face, perfectly thin lips, and a pince-nez with round rimless lenses. This was Lavrentiy Beria, whom the accompanying four-page article described as “one of the most outstanding leaders of the All-Soviet Communist Party of Bolsheviks and of the Soviet state, a loyal student and comrade of J. V. Stalin,” and so forth. This was not Arutyunyan’s grandfather—this was Stalin’s chief executioner. After he himself was executed, subscribers to the Great Soviet Encyclopedia received a letter that Maya was now showing her: The state scholarly publishing house of the Great Soviet Encyclopedia recommends that pages 21, 22, 23, and 24, as well as the portrait bound in between pages 22 and 23, be removed and replaced with new pages, enclosed with this letter. Use scissors or a razor blade to remove the above-mentioned pages, taking care to retain inner margins to which new pages are to be glued. The replacement pages contained an article on the Bering Strait.]
:: OBRA- PRIMA ::
Este álbum é uma obra-prima.
>>>>
Agradecimentos: Adriano Bastos, Arthur Tertuliano, Gigio, minha mãe. Esta edição foi possível graças a 27 aguerridos assinantes e uma dúzia de doadores esporádicos.
Os links dos livros são afiliados da Amazon e nos ajudam a recarregar o Bilhete Único.
“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)
Pequeno aviso legal: A Hortaliça será distribuída gratuitamente através desta plataforma. Não iremos produzir conteúdo fechado para assinantes por acreditar no livre acesso à informação, arte e cultura. A tarifa zero será bancada pelos leitores e leitoras e leitões que tiverem condições financeiras (e vontade) de colaborar. A estes, pedimos que nos apoiem escolhendo um plano de assinatura ou depositando moedas de ouro aleatórias para a chave pix: vmbarbara@yahoo.com. Vamos apoiar o jornalismo independente, a literatura de guerrilha e a bobice semiprofissional.
O desenho acima representa a autora fugindo de uma espiral de extravagância. Talvez ela tenha uma mochila nas costas e um par de botas bufantes. Ou então está tentando escapar de um rocambole descontrolado.
Nesta edição extra, trazemos dois comunicados importantes e um alerta. O boletim “O Mês em Batata” virá quando possível, pois não trabalhamos sob pressão.
São eles:
1. O aniversário é do episódio e quem perde somos nozes
Esses dias comemoramos o aniversário de um ano do episódio “CPF na nota?”, esse feito literário intrépido que nos enche de orgulho.
Algumas coisas que aconteceram desde então:
Fui acusada de “monetizar meu chifre”
Recebi 2 (dois, deux, two, zwei) pedidos de desculpas de homens envolvidos
Alguns veículos de imprensa se prestaram quase que imediatamente a descredibilizar a vítima
Houve inúmeras tentativas de descobrir meus interesses escusos
Um total de zero pessoas foi cancelada, apesar do pânico moral
Um sujeito lembrou que eu era colaboradora regular do NYT, e que portanto minha carreira jamais foi prejudicada. Achei humilde que ele tenha admitido exercer influência significativa em jornais americanos. (A autoestima do homem branco!)
Mulheres colocaram meu relato em dúvida e falaram em questões inverificáveis
As escritoras — eu gostaria de ter contado com o apoio de meia dúzia delas. Mas nessa selva editorial, isso pode significar perder emprego, prêmio, contrato.
Um jornal chegou a anunciar que houve um aumento de 13.800% nas vendas dos meus livros, em um levantamento realizado a pedido do veículo. Os números absolutos não foram fornecidos, mas estou aqui para fornecê-los: vendi 3 mil exemplares do livro Operação Impensável. Hoje vivo em Bora Bora e apoio os pés nas carcaças dos homens que desgracei.
Não deixem de ouvir Silenciadas, podcast narrativo da Cristina Fibe, e O chá revelação, de Chico Felitti, para um pouco mais de contexto.
A obra foi originalmente publicada em 2008 pela CosacNaify. No ano seguinte, ganhou os prêmios APCA e Jabuti de melhor livro reportagem. Também nesse ano, a capa do livro, criada por Elaine Ramos e Maria Carolina Sampaio, entrou para a lista de melhores do mundo do American Institute of Graphic Arts (AIGA). O livro foi republicado em 2018 pela editora do SESI-SP.
Com o tempo, todas essas edições se esgotaram.
Em 2026, a Fósforo preparou esta nova edição com um projeto gráfico totalmente distinto, assinado por Flávia Castanheira. Ela decidiu atualizar a cara do livro usando elementos das passagens rodoviárias de hoje: linhas pontilhadas, fontes monospaced, QR codes e códigos de barras.
Aproveito para agradecer a minha editora, Juliana Rodrigues, pela paciência e pelo capricho.
O lançamento oficial é em 4 de fevereiro.
Editora : Fósforo
Data da publicação : 4 fevereiro 2026
Número de páginas : 224 páginas
Peso do produto : 193 g
Dimensões : 14 x 1 x 20 cm
Quantidade de vezes que eu tive que reler : quatro
O release fala em “obra essencial do jornalismo literário brasileiro”, e quem sou eu para questionar?, e faz um resumo da trama:
“Borrando as fronteiras entre jornalismo e literatura, esta obra tornou-se um registro atemporal do funcionamento da segunda maior rodoviária do mundo, na qual Vanessa Barbara assume ao mesmo tempo os papéis de historiadora e investigadora, exploradora e cronista, dissecando a ‘cidade de chicletes abandonados, de pessoas com pressa e de coisas perdidas’.
3. Cuidado!
Se eu não tivesse lido direitinho a descrição dessa promoção, não sei o que faria com uma família tão grande.
Tomem cuidado.
>>>>
Agradecimentos: Esta edição foi possível graças a 26 aguerridos assinantes e uma dúzia de doadores esporádicos.
Os links dos livros são afiliados da Amazon e nos ajudam a recarregar o Bilhete Único.
“Para ser lido na maldita hora da noite em que tudo é engraçado – logo após a hora em que nada faz sentido e antes daquela em que tudo faz sentido” (Stephanie A.)