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Garimpando o solo atrás de avanços tecnológicos

Em 2004, Andre Geim e Konstantin Novoselov, ambos físicos da Universidade de Manchester, no Reino Unido, utilizaram uma fita adesiva comum para isolar, pela primeira vez, uma folha atômica de grafite, inaugurando uma nova classe de materiais. Conhecido como grafeno, o material conduzia eletricidade tão bem quanto o cobre, era um excelente condutor de calor e, embora sua estrutura muito compacta de carbono o fizesse muito denso, sua espessura ultrafina conferia extrema flexibilidade. A própria obtenção do grafeno foi considerada um feito surpreendente na época, dado que era impensável que materiais cristalinos formados por apenas uma camada atômica fossem estáveis. Tamanho foi o impacto da descoberta que, seis anos após a obtenção do grafeno, a dupla foi agraciada com o Nobel de Física. 

Embora mais de duas décadas tenham se passado desde a descoberta de Geim e Novoselov, cientistas continuam explorando essa nova classe de materiais, conhecida como materiais bidimensionais (2D) ou lamelares. Esses materiais consistem em uma ou poucas camadas atômicas e exibem comportamentos físicos que muitas vezes desaparecem em suas formas tridimensionais, ampliando o leque de potenciais aplicações tecnológicas. 

A física Ingrid Barcelos, pesquisadora do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), parte do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (Cnpem), integra um dos grupos brasileiros dedicados ao estudo desses materiais. A pesquisa de Barcelos é centrada no estudo de materiais 2D derivados de filossilicatos, minerais encontrados na natureza, e conta com financiamento da FAPESP. Segundo Barcelos, embora os filossilicatos sejam muito abundantes na natureza, eles ainda são pouco estudados. A pesquisadora ressalta que, devido ao seu baixo custo quando comparados a materiais 2D sintéticos, esses minerais se apresentam como opções acessíveis para aplicações tecnológicas. Além de serem potencialmente mais sustentáveis, já que têm origem natural e não são processados, causando menor impacto ambiental ao serem descartados.      

Do grafeno aos minerais naturais

Os filossilicatos são formados pela combinação de átomos de silício e oxigênio, que se organizam estruturalmente em camadas empilhadas, formando o mineral. Assim como Geim e Novoselov, Barcelos utiliza fitas adesivas para esfoliar, ou seja, separar mecanicamente as camadas desses minerais, produzindo flocos de espessuras nanométricas. Segundo a pesquisadora, a separação desses materiais em camadas ultrafinas só é possível pois as interações entre as diferentes camadas sobrepostas são fracas o suficiente para permitir a separação, enquanto as ligações entre os átomos de cada camada são fortes o suficiente para manter a integridade da camada. “É como se você tivesse um pacote de folhas A4 em que você consegue tirar folha por folha desse pacote. E cada folha é uma camada atômica”, explica.

Barcelos conta que os filossilicatos possuem características físicas que conferem propriedades de isolantes elétricos a esses materiais. Segundo ela, no universo de materiais 2D, poucos apresentam esse comportamento, e um dos mais utilizados, o nitreto de boro hexagonal, apresenta custo elevado para obtenção do material com alta qualidade cristalina e produção concentrada em poucos locais no mundo, o que limita o seu acesso.

El buen maltratador y mejor padre

Los caminos del maltrato, enrevesados y variables, ofrecen situaciones que no solo obedecen a insultos, agresiones o amenazas; por eso no resulta fácil detectarlo, aún menos en edades tempranas. En la película ‘La buena hija’, de Júlia de Paz Solvas, se muestran los engranajes de la violencia machista ejercida por un padre y las secuelas en la hija adolescente.

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«Queremos a un Bukele»

En España, el nombre de Nayib Bukele aparece en conversaciones con desconocidos que admiran al presidente sin conocer el miedo, el silencio y el exilio que también forman parte de la historia reciente de El Salvador.

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Revista Pesquisa FAPESP recebe o Prêmio José Reis de Divulgação Científica

A revista Pesquisa FAPESP recebeu nesta terça-feira (28/07) o 46º Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica, na categoria “Instituição e Veículo de Comunicação”. A cerimônia de entrega ocorreu durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que acontece até o próximo sábado (01/08) no campus Gragoatá da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ).

O jornalista Bernardo Esteves, repórter da revista piauí e autor do livro Admirável novo mundo, foi o vencedor na categoria “Jornalista em Ciência e Tecnologia”.

“Os dois premiados nesta edição ajudam a dar legitimidade política e social para o Prêmio José Reis. A revista Pesquisa FAPESP criou um patamar de qualidade para a comunicação científica no Brasil”, avaliou Olival Freire Junior, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em seu discurso.

Açucena Sande/divulgaçãoOlival Freire Junior, presidente do CNPq; Herton Escobar, gerente de Comunicação da FAPESP; e Luciana Santos, ministra da Ciência, Tecnologia e InovaçãoAçucena Sande/divulgação

O dirigente destacou que a divulgação científica é crucial em um mundo em que o financiamento da ciência depende da sociedade – lembrando que a maior parte do conhecimento científico é produzida em instituições públicas, com recursos públicos, não só no Brasil como no mundo. “A popularização da ciência é parte do empreendimento da promoção da ciência. É preciso que a ciência faça parte da cultura brasileira”, afirmou Freire Junior.

Promovido pelo CNPq desde 1978, o Prêmio José Reis é o mais importante reconhecimento do jornalismo científico brasileiro. A distinção consiste em diploma, medalha e, para o jornalista, R$ 20 mil.

Em 2000, a FAPESP foi premiada na categoria “Instituição”; e, em 2020, o então editor especial da revista Pesquisa FAPESP Carlos Henrique Fioravanti ganhou na categoria “Jornalista”.

“O Prêmio José Reis, que historicamente já era importante, ganha maior relevância no contexto de recrudescimento do ambiente obscurantista no Brasil e no mundo. E o obscurantismo é primo-irmão do autoritarismo. Em momentos como o que estamos vivendo é preciso combatê-lo. E nada é mais desafiador do que afirmar o óbvio, as evidências científicas, para explicar fenômenos naturais, além dos econômicos e sociais que nos cercam”, disse a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, na abertura da cerimônia.

Também foram anunciadas no evento duas menções honrosas do Prêmio José Reis, à jornalista Giovana Girardi, na categoria “Jornalista”, e ao Instituto Serrapilheira, na categoria “Instituição e Veículo de Comunicação”.

Açucena Sande/divulgaçãoO evento reuniu ex-ganhadores do prêmio, como Sabine Righetti e Ildeu de Castro Moreira (quarto da esquerda para a direita). Também esteve presente Bernardo Esteves (segundo da esquerda para a direita), atual vencedor na categoria “Jornalista em Ciência e Tecnologia”; Herton Escobar (ao centro), gerente de Comunicação da FAPESP; e Gabriel Alves, diretor de redação de Pesquisa FAPESPAçucena Sande/divulgação

Continuidade do legado

A revista Pesquisa FAPESP é publicada e financiada integralmente pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) desde 1999, como parte de seu compromisso com a difusão e popularização da ciência.

A história da publicação começa em agosto de 1995, com o lançamento do boletim mensal Notícias FAPESP, que quatro anos mais tarde daria origem à revista. Desde a sua primeira edição, em outubro de 1999, a Pesquisa FAPESP consolidou-se como um veículo nacional especializado em dar visibilidade ao impacto social, intelectual e econômico da ciência feita no Brasil, em todas as áreas do conhecimento (leia mais aqui).

“Estou muito honrado em receber esse prêmio, representando institucionalmente a FAPESP, e, muito humildemente, também todos os colegas jornalistas que trabalharam ao longo desses últimos 27 anos para construir essa revista que é um patrimônio da divulgação científica no Brasil”, disse Herton Escobar, gerente de Comunicação da FAPESP, em seu discurso de agradecimento.

O gestor explicou que a Pesquisa FAPESP está passando por um processo de transição que se insere em um esforço maior de modernização e integração de todas as plataformas de comunicação da FAPESP, incluindo a Agência FAPESP e o boletim Pesquisa para Inovação. Ele reafirmou o compromisso da instituição em honrar o legado da revista e dar-lhe continuidade. As edições impressas deverão ser retomadas em setembro, após um breve hiato para redesenho gráfico e editorial.

O diretor de redação, Gabriel Alves, sublinhou que a revista continuará sendo guiada pelos mesmos princípios e pelo mesmo compromisso assumido pela Fundação desde o lançamento da publicação, quase três décadas atrás: de fazer com que a ciência chegue à sociedade que a financia e seja apropriada por ela.

“A revista está se transformando, assim como o jornalismo, a ciência e a maneira como as pessoas consomem informação. Vamos investir em novos formatos e buscar novos públicos, mas sem abrir mão do que trouxe a publicação até aqui: apuração rigorosa, explicação honesta e respeito pela inteligência e capacidade cognitiva do leitor”, disse.

O novo projeto editorial da revista está sendo desenvolvido e implementado em colaboração com o Laboratório de Estudos Avançados de Jornalismo (LabJor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Todo o conteúdo da revista pode ser acessado gratuitamente pelo site e pelas redes sociais da Pesquisa FAPESP.

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Movimentos sociais impulsionaram cannabis medicinal, mas perdem espaço para grandes corporações

Pouco mais de uma década se passou desde que um grupo de mães abriu caminho para a legalização da cannabis medicinal no Brasil. A trajetória delas foi retratada no documentário Ilegal: a vida não espera, disponível no YouTube. Desde então, a cannabis medicinal deixou de ser um tema restrito ao ativismo e passou a movimentar um mercado bilionário que reúne desde associações de pacientes até grandes empresas farmacêuticas. Em 2023, o mercado mundial (legal) estava estimado em US $175 bilhões, segundo a BDSA, empresa de inteligência de mercado de cannabis.

Há anos, o professor Paulo José dos Reis Pereira, coordenador do Núcleo de Estudos sobre Drogas e Relações Internacionais (Nedri) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), acompanha os processos de regulação da cannabis em diferentes países, especialmente o papel desempenhado por associações de pacientes e grupos historicamente ligados à luta pela regulamentação da planta. Agora, afirma, uma nova preocupação ganha centralidade: “A grande questão hoje é que o mercado está sendo cada vez mais dominado pelas corporações farmacêuticas e empresas internacionais de cannabis”.

Pereira investiga como empresas, sobretudo dos Estados Unidos e Canadá, influenciam regulações e avançam sobre os mercados de cannabis na América Latina. A pesquisa que coordena, financiada pela FAPESP, também analisa os impactos sociais desse processo sobre comunidades pobres, rurais e marginalizadas que tradicionalmente participavam do mercado clandestino da planta.

A produção brasileira de fármacos à base da planta cresceu rapidamente na última década. Hoje, há 52 produtos autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pertencentes a 25 empresas. Entre elas estão laboratórios nacionais, como Eurofarma, Teuto e Biolab, além de companhias estrangeiras, como a israelense Cann10 e a canadense Verdemed. Nenhuma associação de pacientes possui autorização da Anvisa para fabricar medicamentos, já que esse tipo de registro é restrito à indústria farmacêutica.

As empresas disputam um mercado que movimentou R$ 971 milhões somente no Brasil em 2025, segundo o Anuário da Cannabis Medicinal 2025, produzido pela consultoria Kaya Mind com base em dados oficiais e levantamentos próprios. O número de pacientes chegou a 873 mil no país, crescimento de 30% em relação ao ano anterior. 

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Captura do mercado

Segundo Pereira, a captura corporativa acontece de diferentes formas. Uma delas é o alto custo regulatório: exigências sanitárias, certificações internacionais e necessidade de grandes quantidades de capital tendem a favorecer grandes empresas. Além disso, companhias de países que legalizaram antes passaram a dominar cadeias internacionais de produção, financiamento e tecnologia. 

Isso cria uma vantagem estrutural para corporações estrangeiras, enquanto países do Sul Global muitas vezes entram apenas como mercados consumidores ou fornecedores de matéria-prima – no caso, a planta de cannabis. Outro ponto central, segundo o pesquisador, é o controle sobre importação, distribuição, pesquisa clínica, propriedade intelectual e registro de medicamentos – etapas das quais as associações de pacientes normalmente ficam excluídas.

Um caso que ilustra essas disputas envolveu a farmacêutica brasileira Prati-Donaduzzi. Em 2020, a empresa obteve do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) a aprovação de patente para um fitoterápico à base de canabidiol (CBD) — composto químico não psicoativo extraído da planta Cannabis sativa — com concentração entre 20 mg/ml e 250 mg/ml. Em relatório publicado em 2022 pelo Transnational Institute, organização holandesa com programa voltado à análise da política de drogas, Pereira argumenta que a patente poderia gerar um monopólio na comercialização desse tipo de produto até 2036, dificultando a entrada de concorrentes no mercado. 

Para o pesquisador, o episódio exemplifica como decisões sobre propriedade intelectual podem acabar influenciando quem participa — ou fica de fora — do mercado legal da cannabis. 

Associações e ativismo

O avanço da cannabis medicinal no Brasil foi impulsionado pela mobilização de pacientes, familiares e associações que passaram a pressionar autoridades sanitárias por acesso ao tratamento, de acordo com Pereira. Hoje, médicos e dentistas prescritores de cannabis já somam mais de 57 mil no Brasil, segundo o anuário da Kaya. Não há uma habilitação específica para isso: a prescrição segue as mesmas regras aplicáveis aos demais medicamentos de controle especial. Ainda é um número pequeno diante dos cerca de 635 mil médicos e 440 mil dentistas registrados no país, mas muito diante da realidade de dez anos atrás, quando praticamente nenhum profissional se arriscava a prescrever canabidiol.

A advogada carioca Margarete Santos de Brito lembra das dificuldades enfrentadas nos anos 2010 para tratar a filha Sofia, hoje com 17 anos, afetada pela síndrome de CDKL5, doença genética rara que provoca crises epilépticas graves e atraso no desenvolvimento neuropsicomotor.

Depois de pesquisar alternativas dentro e fora do Brasil, Margarete encontrou no CBD o único medicamento capaz de reduzir as convulsões da filha. Na época, porém, o produto era proibido no país, o que deu início a outra batalha: conseguir importá-lo legalmente.

No mesmo período, em João Pessoa, Cassiano Gomes enfrentava problema semelhante para tratar as crises convulsivas da mãe. Além da burocracia, havia a dependência do dólar. “Quando subia, a medicação encarecia”, lembra.

Gomes decidiu então fundar a Abrace Esperança, associação que mantém cultivo de cannabis e produz CBD para os associados. Segundo ele, mais de 60 mil pacientes já foram atendidos. “Assumi a responsabilidade de criar uma solução”, afirma.

Margarete Brito e o marido, Marcos Langenbach, seguiram caminho semelhante ao criar a Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal (Apepi), que hoje cultiva cannabis no interior do Rio de Janeiro para atender cerca de 1.400 associados. 

A mobilização dessas associações ajudou a pressionar as autoridades sanitárias. Em março de 2019, a Anvisa publicou a Resolução 327, que regulamentou a fabricação, importação e venda de produtos de cannabis medicinal para uso humano no Brasil.

Cultivo de Cannabis no interior do Rio de Janeiro para atender associados. Foto: Apepi / Divulgação

Apesar do avanço, a situação das associações ainda é considerada precária. Muitas operam amparadas por decisões judiciais: entidades que receberam autorização da Justiça cultivam a planta e fornecem produtos de cannabis medicinal exclusivamente para seus associados, não podendo comercializá-los no mercado como fazem as empresas farmacêuticas. Segundo a consultoria Kaya, havia 315 associações de pacientes com CNPJ ativo em 2025, um aumento de 22% em relação ao ano anterior. 

Como funcionam por autorização judicial, as associações não são fiscalizadas pela Anvisa. O acompanhamento é feito no âmbito da Justiça, que pode exigir relatórios e prestar contas sobre as atividades autorizadas.

Modelo fragmentado

Em artigo publicado em 2025 na revista Contemporary Drug Problems, Pereira analisou o papel dessas associações na transformação do cenário regulatório brasileiro. O estudo conclui que essa “governança de baixo para cima” — isto é, impulsionada por pacientes e movimentos sociais — foi decisiva para ampliar o acesso à cannabis medicinal no país.

“O Brasil não é o país mais atrasado, mas está longe de ser vanguarda na regulação da cannabis”, afirma o pesquisador. Segundo ele, o modelo brasileiro é fragmentado: permite a comercialização de cannabis medicinal, mas o cultivo da planta continua restrito. Associações de pacientes só conseguem plantar mediante ações judiciais, enquanto a Resolução 1.012 aprovada em 2026 pela Anvisa autorizou o cultivo para fins de pesquisa, mediante cadastro prévio, por universidades, instituições científicas e empresas farmacêuticas. A regulamentação entra em vigor em 4 de agosto.

Pereira comenta que o proibicionismo também prejudicou a pesquisa científica sobre a cannabis. “Havia uma série de restrições para estudar a planta. Nas últimas décadas ocorreu um boom dessa produção acadêmica mundialmente”, afirma.

O grupo liderado por Pereira integra o Centro Transnacional de Pesquisa Sobre Mercados Emergentes de Drogas (TRC-EDM), sediado na Universidade de Loughborough, no Reino Unido, que  conta com financiamento da Fundação Open Society para pesquisar os impactos sociais, econômicos e políticos da regulamentação dos mercados de drogas em diferentes países. 

Kojo Koram, pesquisador ganês que coordena o centro, conta que o objetivo é “influenciar processos de legalização da cannabis no Sul Global, para priorizar igualdade econômica, justiça racial e sustentabilidade ambiental em detrimento do lucro corporativo”. 

Representantes do setor empresarial discordam do temor de concentração de mercado. Denise Queiroz, diretora de Relações Institucionais da farmacêutica Biolab, afirma que a complexidade regulatória no Brasil dificulta investimentos externos nos produtos. “É uma barreira de entrada para competidores internacionais”, diz.

A Biolab mantém acordo com a companhia suíça Promediol para importação de extratos e CBD purificados para envase e comercialização no Brasil. A empresa também investe na capacitação de médicos e farmacêuticos para atuação na área.

“Não vejo risco de concentração [de mercado]”, afirma Caio Santos Abreu, empreendedor que representa no Brasil a empresa americana Entourage Cannabis. Segundo ele, os grandes laboratórios brasileiros ainda investem pouco em pesquisa e desenvolvimento, o que abriria espaço para startups e associações. 

A Entourage desenvolve uma plataforma de produtos emulsificantes que buscam reduzir efeitos colaterais no fígado comuns nos tratamentos à base de CBD, embora ainda não estejam disponíveis comercialmente.

Memristores: os chips que imitam o cérebro

Em 1971, o engenheiro eletricista filipino Leon Chua previu a existência de um componente eletrônico passivo, capaz de “lembrar” quanta corrente havia passado por ele mesmo após ser desligado. Ele o chamou de memristor, contração de memory resistor. Passaram-se 37 anos até que a Hewlett-Packard (HP) construísse o primeiro protótipo concreto, em 2008. Hoje, pesquisadores no Brasil transformam essa ideia em algo ainda mais ambicioso: chips que, além de processar informação, também “aprendem”, imitando mecanismos de memória do cérebro humano em silício e em óxidos metálicos.

A chamada computação neuromórfica é promissora. Enquanto o cérebro humano consome cerca de 20 watts (W) – algo parecido com uma lâmpada comum – processando informações com eficiência que nenhum supercomputador atual replica, inteligências artificiais de última geração demandam energia equivalente à de cidades inteiras e ocupam galpões com servidores refrigerados. Uma das principais diferenças é de arquitetura: enquanto computadores convencionais separam processamento de armazenamento, o cérebro faz as duas coisas no mesmo lugar, no nível das sinapses, onde os neurônios se conectam.

Os memristores prometem superar esse gargalo. “A vantagem genérica de dispositivos com memória é a capacidade de fazer operações lógicas e armazenar os resultados no mesmo espaço”, explica o físico cubano Victor Lopez-Richard, do Departamento de Física da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). “Isso reduz a necessidade de interconectores, diminui o tamanho do dispositivo e, consequentemente, o consumo de energia.”

Imitando neurônios

A cada disparo de um neurônio, a conexão com o neurônio seguinte pode se fortalecer ou enfraquecer – fenômeno conhecido como plasticidade sináptica. Em um dos tipos mais estudados desse processo, conexões neurais que disparam repetidamente em sequência tendem a se fortalecer, contribuindo para a formação de determinadas memórias e para o aprendizado. Os memristores replicam esse comportamento ao alterar sua resistência elétrica em resposta aos pulsos recebidos.

Para explicar esse funcionamento, o físico Marcio Peron Franco de Godoy, também da UFSCar, recorre ao cotidiano: “Quando fecho uma porta, dali a segundos posso esquecer se a tranquei ou não. Mas eu não esqueço o nome da minha mãe. Isso é uma memória de longa duração – algo que pode ser emulado com dispositivos memristores.”

A analogia com a biologia, porém, tem limites que Lopez-Richard faz questão de demarcar. “Nossos dispositivos não reproduzem sinapses, propriamente, porque não transportam íons, mas elétrons que se armazenam em certos lugares. Em termos metafóricos, é um processo semelhante.”

O resultado mais recente da pesquisa de Lopez-Richard, que conta com financiamento da FAPESP, vai além dos memristores convencionais: um transístor polimorfo que é capaz de assumir diferentes funções – transistor, capacitor ou memristor –, dependendo da configuração do circuito. Em artigo publicado na Nature Communications em abril, Lopez-Richard e colaboradores mostram que, na prática, o mesmo componente realiza cálculos e aprende com os padrões dos dados que processa. “A gente ensina o dispositivo a reconhecer um padrão e depois apresenta outros padrões que, em princípio, ele poderia ajudar a reconhecer”, descreve. Outra vantagem: o dispositivo opera à temperatura ambiente, sem necessidade de resfriamento extremo. “A ideia é criar dispositivos que funcionem em condições normais, sem necessidade de criogenia e com baixo consumo de energia.”

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