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A ciência ao redor dos ossos

Três pessoas estão em volta de uma mesa com panos azuis em uma sala no Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF), na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Em cima dos panos, há ossadas humanas. Uma perita pega um dos ossos, segura-o e pergunta para as colegas o que elas acham daquele fragmento. Uma delas observa mais de perto e aponta para uma imagem em uma apostila aberta sobre a mesa. A cena faz parte do cotidiano do laboratório forense que investiga remanescentes de pessoas mortas e desaparecidas durante a ditadura militar no Brasil. Profissionais que trabalham ali investigam remanescentes ósseos de diferentes partes do país que podem pertencer a vítimas da ditadura e têm como missão identificar os corpos e tentar descobrir o que aconteceu com eles. A rotina dos peritos, que foi registrada em vídeo nos últimos quatro anos para uma pesquisa científica, agora se tornou uma exposição imersiva.

A mostra “Fazer falar os ossos: engajamentos presentes com o passado” fica em cartaz entre os dias 14 de agosto e 27 de setembro no Centro Maria Antonia da Universidade de São Paulo (USP), na capital paulista. Além dos espaços de exposição, conta com uma programação paralela de filmes (entre eles “Nuestras Madres”, do cineasta guatemalteco César Díaz, e “Madres Paralelas”, de Pedro Almodóvar), debates, oficinas sobre atividades forenses, história e memória da ditadura militar e mesas redondas com familiares de desaparecidos políticos. A instalação reúne cenas gravadas para o projeto Fazendo Falar os Ossos, financiado pela FAPESP e pela agência suíça SNSF (Swiss National Science Foundation), encabeçado pelas pesquisadoras Fernanda Miranda da Cruz, da Unifesp, e Lorenza Mondada, da Universidade de Basileia, na Suíça, em parceria com o filósofo Edson Teles, coordenador do CAAF.

A exposição nasceu da pesquisa que aproxima a linguística da antropologia forense – a ideia do projeto surgiu de uma conversa informal entre os pesquisadores, em que Teles contou para da Cruz e Mondada sobre como os peritos forenses abriam, pela primeira vez, sacos com remanescentes humanos recém-chegados ao laboratório. “Fiquei muito impressionada [com o relato], porque não eram restos humanos quaisquer”, lembra a pesquisadora suíça, uma vez que as ossadas em questão poderiam ser de desaparecidos da ditadura. Na época, Mondada já trabalhava com investigação de interações sociais em ambientes de trabalho delicados, como salas de cirurgia.

Divulgação / CAAF-UnifespRemanescentes ósseos que podem pertencer a vítimas da ditadura militar no Brasil são analisados no Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Unifesp, na capital paulistaDivulgação / CAAF-Unifesp

Da conversa em 2017, surgiu a vontade de entender os detalhes das interações da equipe forense. O projeto se apoia na etnometodologia, abordagem que investiga como as pessoas constroem e dão sentido às práticas do cotidiano, e na análise de conversa, que examina como a fala e os gestos se organizam, momento a momento, na interação entre as pessoas a partir de detalhes como gestos, olhares e pausas. Da Cruz e Mondada registraram em vídeo, com várias câmeras, a forma como os peritos do CAAF examinavam os ossos e fragmentos, como debatiam os casos que chegavam e as dúvidas que surgiam. Para a análise, a dupla transcreveu as cenas para além das palavras: anotavam instantes em que mãos se moviam, olhares eram trocados, objetos eram manuseados.

Enquanto peritos formados em diferentes áreas do conhecimento buscam montar o quebra-cabeça sobre o que aconteceu com os mortos e desaparecidos da ditadura por meio dos ossos severamente danificados pelo tempo e pela ocultação deliberada, muitas vezes sem informações de contexto relevantes, a dupla brasileiro-suíça procura entender como esse conhecimento é produzido.

Cada milímetro de osso encontrado e cada variação patológica descrita pode ser crucial para recompor a biografia das vítimas, assim como cada detalhe, gesto, comentário e olhar durante a investigação nas longas horas de trabalho.

Entre os achados do levantamento está a noção de que o conhecimento é construído de maneira coletiva. Em diálogo com a tradição dos estudos sobre a produção do conhecimento científico que inclui a etnografia de Bruno Latour e Steve Woolgar, registrada no livro “Vida de Laboratório”, de 1979, as pesquisadoras observam em detalhe como o conhecimento é construído durante as próprias interações no laboratório. “Nos interessa o processo do pensar para além do que se passa na cabeça dos peritos; olhar para o que acontece no entorno da mesa, nos diálogos, na observação particular do material que vai permitir chegar a algum resultado, alguma conclusão sobre quem é aquela pessoa e o que aconteceu com ela”, explica Mondada. “É um saber que se constitui de maneira complexa.”

A análise, publicada em artigo na revista Research on Language and Social Interaction em novembro de 2024, aponta como uma pergunta simples como “o que você acha?” organiza boa parte do trabalho de identificação dos peritos. “Nosso objetivo é revelar aquilo que é mundano para refletir sobre as práticas [no laboratório]”, diz da Cruz. “As interações sociais do cotidiano estão no centro da produção do conhecimento. Quando eu tenho uma dúvida e peço a opinião de um colega, ‘o que você acha?’, o problema se torna coletivo”, aponta Mondada.

Para as pesquisadoras, esse tipo de evidência ajuda a questionar tanto o estereótipo da ciência como produto de um “gênio” que trabalha sozinho quanto a ideia de que a objetividade da ciência prescinde das interações entre os pesquisadores. “Momentos de discordância são muito produtivos para a ciência e a discussão é a base interacional”, diz Mondada. “Se todo mundo concordasse, não haveria conhecimento”, afirma.

DivulgaçãoLorenza Mondada e Fernanda da Cruz trabalhando nas análises linguísticas dos dados do projeto Fazendo falar os ossos, na Universidade de Basileia, na SuíçaDivulgação

Em outro artigo, publicado em 2025 na revista Ethnographic Studies, as pesquisadoras detalham o ato dos peritos de medir os ossos no laboratório. Na ciência tradicional, a medição indica uma ideia de objetividade, mas as interações mostram que há subjetividade na aplicação da metodologia. Duas peritas precisam medir fêmures para calcular a estatura de um indivíduo e também para descobrir se dois ossos são de uma mesma pessoa. Há mais de um método possível sendo discutido para os cálculos. Na interação, elas negociam os movimentos e alinham as ações para chegar a alguma conclusão. O estudo demonstra que a objetividade da medição não reside simplesmente no instrumento, mas também nos procedimentos compartilhados de checagem e validação entre as cientistas.

Na exposição, o público é convidado a ver cenas como essas em trechos dos vídeos gravados para o projeto – ao todo, são mais de 180 horas de material audiovisual. O espaço está dividido em cinco ambientes, com 14 instalações que apresentam vídeos em TVs, telas e projeções. Em uma delas, as imagens são exibidas em uma tela dentro de um saco preto, do tipo utilizado para transportar corpos. Em outra, o visitante observa, por pequenos orifícios em uma parede, cenas do manuseio dos ossos com o som estridente de uma lixadeira que serve para extrair o DNA dos ossos. “É uma realidade desconfortável, mas permite uma experiência imersiva”, explica Mondada.

Além de sensibilizar o público sobre a construção do conhecimento forense, a mostra espera provocar uma reflexão sobre os desaparecidos e mortos da ditadura, uma marca na história brasileira. “Ossos não falam e não há ossos de verdade na exposição; mas a ditadura e as investigações sobre esse período não são uma história do passado, são do presente”, diz da Cruz. No CAAF, os peritos lidam diariamente com uma pergunta que segue em aberto: onde estão os desaparecidos? Para Mondada, expor esse cotidiano é pensar em como o conhecimento sobre a ditadura está presente na ciência e na política, além da história. “É uma questão de democracia, de memória histórica e de não esquecer o que aconteceu”, reflete.

Serviço
Exposição: Fazer falar os ossos: engajamentos presentes com o passado
Curadoria: Lorenza Mondada, Fernanda Cruz e Edson Teles
Abertura: sexta-feira, 14 de agosto de 2026, às 18h
Período em cartaz: 14 de agosto a 27 de setembro de 2026
Horário de visitação: terça a domingo, das 10h às 18h
Local: Centro Maria Antonia da USP – Rua Maria Antônia, 258, São Paulo
Entrada: gratuita
Mais informações: www.mariantonia.prceu.usp.br | https://www.instagram.com/fazerfalarosossos

Racismo e exclusão no mercado do amor

Na literatura e na poesia, são vários os aforismos que descrevem o amor como um sentimento puro e desinteressado. Mas a ideia de que o amor é cego não se sustenta na vida real. Pesquisas da socióloga Maria Chaves Jardim, professora do Departamento de Ciências Sociais da Unesp de Araraquara e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da mesma universidade, mostram que relações afetivas também são atravessadas por desigualdades sociais e que mulheres negras ocupam a posição mais vulnerável no chamado mercado do afeto.

Desde 2017, no Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Emoções, Sociedade, Poder, Organização e Mercado (Nespom), Jardim investiga como aplicativos de relacionamento reproduzem — em vez de reduzir — desigualdades presentes na sociedade. Em um estudo de etnografia digital, financiado pela FAPESP, a pesquisadora interagiu com mais de uma centena de homens nos aplicativos Tinder e Badoo, realizou 15 entrevistas presenciais e conversou com integrantes de um grupo virtual fechado em que mulheres compartilham experiências relacionadas à vida afetiva e suas estratégias para fazer sucesso nos aplicativos.

Os resultados mostram que as ferramentas estão longe de democratizar o acesso ao amor e reproduzem constrangimentos sociais presentes fora do ambiente digital, favorecendo determinados perfis e excluindo outros. Padrões estéticos e preconceitos influenciam diretamente quem é visto como desejável e quem permanece invisível.

A interpretação parte da sociologia econômica, que entende o mercado como um espaço moldado por valores e relações sociais, e não como um ambiente neutro. “Não há aqui uma mágica, um cupido. Há elementos sociais e, entre eles, a exclusão de mulheres fora do padrão estético — que estão acima do peso ou têm o tom de pele diferente daquele considerado legítimo, que é o branco”, afirma Jardim.

A popularização dos aplicativos de namoro trouxe a promessa de ampliar as possibilidades de encontro. Com opções para diferentes perfis e interesses — como idosos, veganos e tantos outros —, criou-se a ideia de um mercado afetivo mais acessível. “Esse discurso é uma falácia, especialmente para mulheres pretas, dado o contexto de vulnerabilidade social, econômica e política no qual grande parte delas se encontra”, afirma Paulo Carvalho Moura, doutorando em Ciências Sociais na Unesp e integrante do Nespom.

Segundo Moura, os aplicativos não eliminam desigualdades, apenas reorganizam e reforçam preconceitos já existentes. “O ambiente digital não é livre de constrangimentos sociais. Trata-se de um mercado com hierarquias e padrões, considerando fatores como raça, gênero, escolaridade e gosto cultural”, destaca.

Quem fica de fora

Se o primeiro estudo mostrou como os aplicativos reproduzem desigualdades, uma pesquisa posterior, publicada na revista Tomo em parceria com Renata Paoliello, também da Unesp, buscou compreender de que maneira essas dinâmicas afetam especificamente a experiência de mulheres negras.

O grupo analisou dados de 64 mulheres negras com diferentes perfis socioeconômicos para avaliar o impacto da cor da pele nas experiências afetivas. O primeiro grupo reunia 45 delas, das quais 40 tinham diploma superior. O segundo era formado por 19 mulheres pretas, sem diploma superior, moradoras de um bairro popular de Araraquara. A conclusão foi direta: mulheres negras enfrentam barreiras estruturais também no mercado do afeto. “O amor, como todas as relações sociais, tem relação com poder. Alguns terão mais acesso a ele do que outros, pois o sentimento está sustentado por valores que carregamos no inconsciente, e o racismo é um deles”, explica Jardim.

Entre as entrevistadas, surgem padrões recorrentes de sofrimento relacionados ao racismo, sofrido desde a infância e adolescência, à invisibilidade afetiva e a relacionamentos abusivos. Embora frustrações amorosas façam parte da experiência de muitas, Jardim observa que elas costumam ser retratadas de formas distintas. Com frequência, o debate público associa as dificuldades enfrentadas por mulheres brancas ao dilema entre casamento e carreira. Já entre as mulheres pretas ouvidas pela pesquisa, o obstáculo aparece antes mesmo desse ponto: muitas descrevem dificuldades para estabelecer relações afetivas estáveis. “O dilema da mulher branca pressupõe uma possibilidade de escolha. A da mulher preta não contempla isso”, comenta a pesquisadora.

Segundo Thaís Caetano de Souza, doutoranda em Ciências Sociais pela Unesp e integrante do Nespom, essa diferença ajuda a compreender por que muitas afirmam não conseguir sequer acessar o modelo de relacionamento romântico tradicional. “A desigualdade aparece de forma mais profunda para mulheres pretas. Elas não estão reorganizando a vida afetiva em prol de projetos profissionais; elas simplesmente não possuem uma vida afetiva no modelo romântico de construção de uma família”, afirma.

Quando o amor não se concretiza

O desejo por relações estáveis aparece na fala das entrevistadas, seja na expectativa do casamento, seja experiências cotidianas simples, como andar de mãos dadas com o parceiro. Jardim coloca seus dados da pesquisa de campo em diálogo com as teorias existentes na sociologia sobre o amor, como o amor romântico, o amor confluente, o poliamor e o chamado “amor líquido”, caracterizado por relações frágeis e instáveis. Entre parte das mulheres pretas ouvidas na pesquisa, porém, esta última acaba sendo percebida como a única possibilidade concreta.

Como consequência, muitas relatam início tardio da vida afetiva e sexual e, em alguns casos, o estabelecimento de relações marcadas pela falta de compromisso ou pela posição de amante, não por escolha, mas pela escassez de alternativas percebidas.

Outro padrão recorrente é o tipo de abordagem recebida nos aplicativos: convites de cunho sexual, que reforçam a objetificação e reduzem as possibilidades de construção de vínculos duradouros. Diante dessas barreiras, algumas relatam optar pelo celibato definitivo, enquanto outras acabam construindo famílias como mães solo. Esse quadro contrasta com o estereótipo historicamente atribuído às negras como pessoas naturalmente hipersexualizadas. Entre as mulheres pretas com diploma universitário, a pesquisadora observou que muitas optam pela solidão afetiva em vez de aceitar relacionamentos “líquidos”.

As experiências narradas pelas participantes da pesquisa não aparecem isoladamente. Indicadores nacionais mostram que as desigualdades observadas nas entrevistas também se refletem na formação de casais e famílias no Brasil. Dados do Censo de 2022 do IBGE revelam maior probabilidade de casamento para mulheres brancas (51%) do que para pretas (44%). Já entre as mães solo, negras (pretas e pardas) representam cerca de 90% do total entre 2022 e 2023, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV).

As consequências desse processo, no entanto, não se limitam às trajetórias afetivas. Elas também repercutem na saúde mental das entrevistadas. Segundo Jardim, os impactos emocionais da exclusão afetiva vão além do sentimento de rejeição e da baixa autoestima. A equipe agora pretende investigar de forma mais aprofundada suas consequências para a saúde mental das mulheres pretas. “Esse quadro pode contribuir para o adoecimento psíquico, incluindo depressão e processos de medicalização, e será objeto da próxima etapa da pesquisa”, afirma.

Para a pesquisadora, um dos principais efeitos do estudo é deslocar a responsabilidade do plano individual para o coletivo. Ao reconhecer que essas experiências refletem desigualdades estruturais, muitas deixam de atribuir exclusivamente a si mesmas a culpa pelo chamado “fracasso afetivo”.

“Isso não resolve os problemas pessoais, mas produz uma tomada de consciência de que se trata de uma questão social. É uma forma de compreender que o problema não está nelas, mas na maneira como a sociedade organiza seus preconceitos, colocando em uma hierarquia quais são as mulheres dignas de serem amadas e as que não merecem o amor”, conclui.

Garimpando o solo atrás de avanços tecnológicos

Em 2004, Andre Geim e Konstantin Novoselov, ambos físicos da Universidade de Manchester, no Reino Unido, utilizaram uma fita adesiva comum para isolar, pela primeira vez, uma folha atômica de grafite, inaugurando uma nova classe de materiais. Conhecido como grafeno, o material conduzia eletricidade tão bem quanto o cobre, era um excelente condutor de calor e, embora sua estrutura muito compacta de carbono o fizesse muito denso, sua espessura ultrafina conferia extrema flexibilidade. A própria obtenção do grafeno foi considerada um feito surpreendente na época, dado que era impensável que materiais cristalinos formados por apenas uma camada atômica fossem estáveis. Tamanho foi o impacto da descoberta que, seis anos após a obtenção do grafeno, a dupla foi agraciada com o Nobel de Física. 

Embora mais de duas décadas tenham se passado desde a descoberta de Geim e Novoselov, cientistas continuam explorando essa nova classe de materiais, conhecida como materiais bidimensionais (2D) ou lamelares. Esses materiais consistem em uma ou poucas camadas atômicas e exibem comportamentos físicos que muitas vezes desaparecem em suas formas tridimensionais, ampliando o leque de potenciais aplicações tecnológicas. 

A física Ingrid Barcelos, pesquisadora do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), parte do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (Cnpem), integra um dos grupos brasileiros dedicados ao estudo desses materiais. A pesquisa de Barcelos é centrada no estudo de materiais 2D derivados de filossilicatos, minerais encontrados na natureza, e conta com financiamento da FAPESP. Segundo Barcelos, embora os filossilicatos sejam muito abundantes na natureza, eles ainda são pouco estudados. A pesquisadora ressalta que, devido ao seu baixo custo quando comparados a materiais 2D sintéticos, esses minerais se apresentam como opções acessíveis para aplicações tecnológicas. Além de serem potencialmente mais sustentáveis, já que têm origem natural e não são processados, causando menor impacto ambiental ao serem descartados.      

Do grafeno aos minerais naturais

Os filossilicatos são formados pela combinação de átomos de silício e oxigênio, que se organizam estruturalmente em camadas empilhadas, formando o mineral. Assim como Geim e Novoselov, Barcelos utiliza fitas adesivas para esfoliar, ou seja, separar mecanicamente as camadas desses minerais, produzindo flocos de espessuras nanométricas. Segundo a pesquisadora, a separação desses materiais em camadas ultrafinas só é possível pois as interações entre as diferentes camadas sobrepostas são fracas o suficiente para permitir a separação, enquanto as ligações entre os átomos de cada camada são fortes o suficiente para manter a integridade da camada. “É como se você tivesse um pacote de folhas A4 em que você consegue tirar folha por folha desse pacote. E cada folha é uma camada atômica”, explica.

Barcelos conta que os filossilicatos possuem características físicas que conferem propriedades de isolantes elétricos a esses materiais. Segundo ela, no universo de materiais 2D, poucos apresentam esse comportamento, e um dos mais utilizados, o nitreto de boro hexagonal, apresenta custo elevado para obtenção do material com alta qualidade cristalina e produção concentrada em poucos locais no mundo, o que limita o seu acesso.

El buen maltratador y mejor padre

Los caminos del maltrato, enrevesados y variables, ofrecen situaciones que no solo obedecen a insultos, agresiones o amenazas; por eso no resulta fácil detectarlo, aún menos en edades tempranas. En la película ‘La buena hija’, de Júlia de Paz Solvas, se muestran los engranajes de la violencia machista ejercida por un padre y las secuelas en la hija adolescente.

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«Queremos a un Bukele»

En España, el nombre de Nayib Bukele aparece en conversaciones con desconocidos que admiran al presidente sin conocer el miedo, el silencio y el exilio que también forman parte de la historia reciente de El Salvador.

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Revista Pesquisa FAPESP recebe o Prêmio José Reis de Divulgação Científica

A revista Pesquisa FAPESP recebeu nesta terça-feira (28/07) o 46º Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica, na categoria “Instituição e Veículo de Comunicação”. A cerimônia de entrega ocorreu durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que acontece até o próximo sábado (01/08) no campus Gragoatá da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ).

O jornalista Bernardo Esteves, repórter da revista piauí e autor do livro Admirável novo mundo, foi o vencedor na categoria “Jornalista em Ciência e Tecnologia”.

“Os dois premiados nesta edição ajudam a dar legitimidade política e social para o Prêmio José Reis. A revista Pesquisa FAPESP criou um patamar de qualidade para a comunicação científica no Brasil”, avaliou Olival Freire Junior, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em seu discurso.

Açucena Sande/divulgaçãoOlival Freire Junior, presidente do CNPq; Herton Escobar, gerente de Comunicação da FAPESP; e Luciana Santos, ministra da Ciência, Tecnologia e InovaçãoAçucena Sande/divulgação

O dirigente destacou que a divulgação científica é crucial em um mundo em que o financiamento da ciência depende da sociedade – lembrando que a maior parte do conhecimento científico é produzida em instituições públicas, com recursos públicos, não só no Brasil como no mundo. “A popularização da ciência é parte do empreendimento da promoção da ciência. É preciso que a ciência faça parte da cultura brasileira”, afirmou Freire Junior.

Promovido pelo CNPq desde 1978, o Prêmio José Reis é o mais importante reconhecimento do jornalismo científico brasileiro. A distinção consiste em diploma, medalha e, para o jornalista, R$ 20 mil.

Em 2000, a FAPESP foi premiada na categoria “Instituição”; e, em 2020, o então editor especial da revista Pesquisa FAPESP Carlos Henrique Fioravanti ganhou na categoria “Jornalista”.

“O Prêmio José Reis, que historicamente já era importante, ganha maior relevância no contexto de recrudescimento do ambiente obscurantista no Brasil e no mundo. E o obscurantismo é primo-irmão do autoritarismo. Em momentos como o que estamos vivendo é preciso combatê-lo. E nada é mais desafiador do que afirmar o óbvio, as evidências científicas, para explicar fenômenos naturais, além dos econômicos e sociais que nos cercam”, disse a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, na abertura da cerimônia.

Também foram anunciadas no evento duas menções honrosas do Prêmio José Reis, à jornalista Giovana Girardi, na categoria “Jornalista”, e ao Instituto Serrapilheira, na categoria “Instituição e Veículo de Comunicação”.

Açucena Sande/divulgaçãoO evento reuniu ex-ganhadores do prêmio, como Sabine Righetti e Ildeu de Castro Moreira (quarto da esquerda para a direita). Também esteve presente Bernardo Esteves (segundo da esquerda para a direita), atual vencedor na categoria “Jornalista em Ciência e Tecnologia”; Herton Escobar (ao centro), gerente de Comunicação da FAPESP; e Gabriel Alves, diretor de redação de Pesquisa FAPESPAçucena Sande/divulgação

Continuidade do legado

A revista Pesquisa FAPESP é publicada e financiada integralmente pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) desde 1999, como parte de seu compromisso com a difusão e popularização da ciência.

A história da publicação começa em agosto de 1995, com o lançamento do boletim mensal Notícias FAPESP, que quatro anos mais tarde daria origem à revista. Desde a sua primeira edição, em outubro de 1999, a Pesquisa FAPESP consolidou-se como um veículo nacional especializado em dar visibilidade ao impacto social, intelectual e econômico da ciência feita no Brasil, em todas as áreas do conhecimento (leia mais aqui).

“Estou muito honrado em receber esse prêmio, representando institucionalmente a FAPESP, e, muito humildemente, também todos os colegas jornalistas que trabalharam ao longo desses últimos 27 anos para construir essa revista que é um patrimônio da divulgação científica no Brasil”, disse Herton Escobar, gerente de Comunicação da FAPESP, em seu discurso de agradecimento.

O gestor explicou que a Pesquisa FAPESP está passando por um processo de transição que se insere em um esforço maior de modernização e integração de todas as plataformas de comunicação da FAPESP, incluindo a Agência FAPESP e o boletim Pesquisa para Inovação. Ele reafirmou o compromisso da instituição em honrar o legado da revista e dar-lhe continuidade. As edições impressas deverão ser retomadas em setembro, após um breve hiato para redesenho gráfico e editorial.

O diretor de redação, Gabriel Alves, sublinhou que a revista continuará sendo guiada pelos mesmos princípios e pelo mesmo compromisso assumido pela Fundação desde o lançamento da publicação, quase três décadas atrás: de fazer com que a ciência chegue à sociedade que a financia e seja apropriada por ela.

“A revista está se transformando, assim como o jornalismo, a ciência e a maneira como as pessoas consomem informação. Vamos investir em novos formatos e buscar novos públicos, mas sem abrir mão do que trouxe a publicação até aqui: apuração rigorosa, explicação honesta e respeito pela inteligência e capacidade cognitiva do leitor”, disse.

O novo projeto editorial da revista está sendo desenvolvido e implementado em colaboração com o Laboratório de Estudos Avançados de Jornalismo (LabJor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Todo o conteúdo da revista pode ser acessado gratuitamente pelo site e pelas redes sociais da Pesquisa FAPESP.

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Movimentos sociais impulsionaram cannabis medicinal, mas perdem espaço para grandes corporações

Pouco mais de uma década se passou desde que um grupo de mães abriu caminho para a legalização da cannabis medicinal no Brasil. A trajetória delas foi retratada no documentário Ilegal: a vida não espera, disponível no YouTube. Desde então, a cannabis medicinal deixou de ser um tema restrito ao ativismo e passou a movimentar um mercado bilionário que reúne desde associações de pacientes até grandes empresas farmacêuticas. Em 2023, o mercado mundial (legal) estava estimado em US $175 bilhões, segundo a BDSA, empresa de inteligência de mercado de cannabis.

Há anos, o professor Paulo José dos Reis Pereira, coordenador do Núcleo de Estudos sobre Drogas e Relações Internacionais (Nedri) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), acompanha os processos de regulação da cannabis em diferentes países, especialmente o papel desempenhado por associações de pacientes e grupos historicamente ligados à luta pela regulamentação da planta. Agora, afirma, uma nova preocupação ganha centralidade: “A grande questão hoje é que o mercado está sendo cada vez mais dominado pelas corporações farmacêuticas e empresas internacionais de cannabis”.

Pereira investiga como empresas, sobretudo dos Estados Unidos e Canadá, influenciam regulações e avançam sobre os mercados de cannabis na América Latina. A pesquisa que coordena, financiada pela FAPESP, também analisa os impactos sociais desse processo sobre comunidades pobres, rurais e marginalizadas que tradicionalmente participavam do mercado clandestino da planta.

A produção brasileira de fármacos à base da planta cresceu rapidamente na última década. Hoje, há 52 produtos autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pertencentes a 25 empresas. Entre elas estão laboratórios nacionais, como Eurofarma, Teuto e Biolab, além de companhias estrangeiras, como a israelense Cann10 e a canadense Verdemed. Nenhuma associação de pacientes possui autorização da Anvisa para fabricar medicamentos, já que esse tipo de registro é restrito à indústria farmacêutica.

As empresas disputam um mercado que movimentou R$ 971 milhões somente no Brasil em 2025, segundo o Anuário da Cannabis Medicinal 2025, produzido pela consultoria Kaya Mind com base em dados oficiais e levantamentos próprios. O número de pacientes chegou a 873 mil no país, crescimento de 30% em relação ao ano anterior. 

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Captura do mercado

Segundo Pereira, a captura corporativa acontece de diferentes formas. Uma delas é o alto custo regulatório: exigências sanitárias, certificações internacionais e necessidade de grandes quantidades de capital tendem a favorecer grandes empresas. Além disso, companhias de países que legalizaram antes passaram a dominar cadeias internacionais de produção, financiamento e tecnologia. 

Isso cria uma vantagem estrutural para corporações estrangeiras, enquanto países do Sul Global muitas vezes entram apenas como mercados consumidores ou fornecedores de matéria-prima – no caso, a planta de cannabis. Outro ponto central, segundo o pesquisador, é o controle sobre importação, distribuição, pesquisa clínica, propriedade intelectual e registro de medicamentos – etapas das quais as associações de pacientes normalmente ficam excluídas.

Um caso que ilustra essas disputas envolveu a farmacêutica brasileira Prati-Donaduzzi. Em 2020, a empresa obteve do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) a aprovação de patente para um fitoterápico à base de canabidiol (CBD) — composto químico não psicoativo extraído da planta Cannabis sativa — com concentração entre 20 mg/ml e 250 mg/ml. Em relatório publicado em 2022 pelo Transnational Institute, organização holandesa com programa voltado à análise da política de drogas, Pereira argumenta que a patente poderia gerar um monopólio na comercialização desse tipo de produto até 2036, dificultando a entrada de concorrentes no mercado. 

Para o pesquisador, o episódio exemplifica como decisões sobre propriedade intelectual podem acabar influenciando quem participa — ou fica de fora — do mercado legal da cannabis. 

Associações e ativismo

O avanço da cannabis medicinal no Brasil foi impulsionado pela mobilização de pacientes, familiares e associações que passaram a pressionar autoridades sanitárias por acesso ao tratamento, de acordo com Pereira. Hoje, médicos e dentistas prescritores de cannabis já somam mais de 57 mil no Brasil, segundo o anuário da Kaya. Não há uma habilitação específica para isso: a prescrição segue as mesmas regras aplicáveis aos demais medicamentos de controle especial. Ainda é um número pequeno diante dos cerca de 635 mil médicos e 440 mil dentistas registrados no país, mas muito diante da realidade de dez anos atrás, quando praticamente nenhum profissional se arriscava a prescrever canabidiol.

A advogada carioca Margarete Santos de Brito lembra das dificuldades enfrentadas nos anos 2010 para tratar a filha Sofia, hoje com 17 anos, afetada pela síndrome de CDKL5, doença genética rara que provoca crises epilépticas graves e atraso no desenvolvimento neuropsicomotor.

Depois de pesquisar alternativas dentro e fora do Brasil, Margarete encontrou no CBD o único medicamento capaz de reduzir as convulsões da filha. Na época, porém, o produto era proibido no país, o que deu início a outra batalha: conseguir importá-lo legalmente.

No mesmo período, em João Pessoa, Cassiano Gomes enfrentava problema semelhante para tratar as crises convulsivas da mãe. Além da burocracia, havia a dependência do dólar. “Quando subia, a medicação encarecia”, lembra.

Gomes decidiu então fundar a Abrace Esperança, associação que mantém cultivo de cannabis e produz CBD para os associados. Segundo ele, mais de 60 mil pacientes já foram atendidos. “Assumi a responsabilidade de criar uma solução”, afirma.

Margarete Brito e o marido, Marcos Langenbach, seguiram caminho semelhante ao criar a Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal (Apepi), que hoje cultiva cannabis no interior do Rio de Janeiro para atender cerca de 1.400 associados. 

A mobilização dessas associações ajudou a pressionar as autoridades sanitárias. Em março de 2019, a Anvisa publicou a Resolução 327, que regulamentou a fabricação, importação e venda de produtos de cannabis medicinal para uso humano no Brasil.

Cultivo de Cannabis no interior do Rio de Janeiro para atender associados. Foto: Apepi / Divulgação

Apesar do avanço, a situação das associações ainda é considerada precária. Muitas operam amparadas por decisões judiciais: entidades que receberam autorização da Justiça cultivam a planta e fornecem produtos de cannabis medicinal exclusivamente para seus associados, não podendo comercializá-los no mercado como fazem as empresas farmacêuticas. Segundo a consultoria Kaya, havia 315 associações de pacientes com CNPJ ativo em 2025, um aumento de 22% em relação ao ano anterior. 

Como funcionam por autorização judicial, as associações não são fiscalizadas pela Anvisa. O acompanhamento é feito no âmbito da Justiça, que pode exigir relatórios e prestar contas sobre as atividades autorizadas.

Modelo fragmentado

Em artigo publicado em 2025 na revista Contemporary Drug Problems, Pereira analisou o papel dessas associações na transformação do cenário regulatório brasileiro. O estudo conclui que essa “governança de baixo para cima” — isto é, impulsionada por pacientes e movimentos sociais — foi decisiva para ampliar o acesso à cannabis medicinal no país.

“O Brasil não é o país mais atrasado, mas está longe de ser vanguarda na regulação da cannabis”, afirma o pesquisador. Segundo ele, o modelo brasileiro é fragmentado: permite a comercialização de cannabis medicinal, mas o cultivo da planta continua restrito. Associações de pacientes só conseguem plantar mediante ações judiciais, enquanto a Resolução 1.012 aprovada em 2026 pela Anvisa autorizou o cultivo para fins de pesquisa, mediante cadastro prévio, por universidades, instituições científicas e empresas farmacêuticas. A regulamentação entra em vigor em 4 de agosto.

Pereira comenta que o proibicionismo também prejudicou a pesquisa científica sobre a cannabis. “Havia uma série de restrições para estudar a planta. Nas últimas décadas ocorreu um boom dessa produção acadêmica mundialmente”, afirma.

O grupo liderado por Pereira integra o Centro Transnacional de Pesquisa Sobre Mercados Emergentes de Drogas (TRC-EDM), sediado na Universidade de Loughborough, no Reino Unido, que  conta com financiamento da Fundação Open Society para pesquisar os impactos sociais, econômicos e políticos da regulamentação dos mercados de drogas em diferentes países. 

Kojo Koram, pesquisador ganês que coordena o centro, conta que o objetivo é “influenciar processos de legalização da cannabis no Sul Global, para priorizar igualdade econômica, justiça racial e sustentabilidade ambiental em detrimento do lucro corporativo”. 

Representantes do setor empresarial discordam do temor de concentração de mercado. Denise Queiroz, diretora de Relações Institucionais da farmacêutica Biolab, afirma que a complexidade regulatória no Brasil dificulta investimentos externos nos produtos. “É uma barreira de entrada para competidores internacionais”, diz.

A Biolab mantém acordo com a companhia suíça Promediol para importação de extratos e CBD purificados para envase e comercialização no Brasil. A empresa também investe na capacitação de médicos e farmacêuticos para atuação na área.

“Não vejo risco de concentração [de mercado]”, afirma Caio Santos Abreu, empreendedor que representa no Brasil a empresa americana Entourage Cannabis. Segundo ele, os grandes laboratórios brasileiros ainda investem pouco em pesquisa e desenvolvimento, o que abriria espaço para startups e associações. 

A Entourage desenvolve uma plataforma de produtos emulsificantes que buscam reduzir efeitos colaterais no fígado comuns nos tratamentos à base de CBD, embora ainda não estejam disponíveis comercialmente.

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