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Normal view

Britain Will Not Dictate Ireland’s Future

When a British Prime Minister arrives in Belfast to announce that an Irish unity referendum is ‘off the table’, the language comes dressed in the soft corporate clichés of modern Westminster politics.Yet beneath the ‘professional’ veneer lies something older and far more malignant: the paternal reflex of a state that still imagines it has the authority to decide the democratic future of a nation it once persecuted, partitioned, and governed by force.Here’s the constitutional reality. The pathway to Irish unity is not a matter of British discretion. It is an obligation bound in an international treaty and rooted in the fundamental right of the Irish people to national self‑determination.It is not an imperial favour to be granted, delayed, or withheld according to the anxieties of ministers who continue to behave as though sovereignty flows outward from Whitehall. This truth cuts through the fog of Westminster posturing.For more than a century, successive British governments have treated Ireland’s constitutional future not as a question of democratic decolonisation, but as an internal administrative inconvenience – something to be managed, deferred, or indefinitely postponed.Declaring a reunification referendum ‘off the table’ betrays an archaic mindset, grounded in an assumption that Irish nationhood is to be arbitrated in London, and that democracy on this island exists only thanks to British benevolence.The justification offered up by the Prime Minister – that referendums create ‘rifts’, that Brexit has made constitutional questions too ‘divisive’, that ‘stability’ requires shelving democratic choice – is as disingenuous as it is insulting. Partition itself is the deepest rift on this island, engineered by British imperial statecraft to manufacture an artificial sectarian majority and entrench division.To invoke the chaos of Britain’s own Brexit misadventure to block Irish democracy is a breathtaking display of colonial arrogance. The Good Friday Agreement is not a domestic guideline to be suspended when politically inconvenient. It is an internationally recognised peace accord lodged with the United Nations. Under its terms, the sovereign decision on Irish unity belongs exclusively to the people of this island, North and South. It was designed precisely to dismantle the unilateral British veto that sustained decades of discrimination, conflict, and state violence.What London refuses to acknowledge is that its Union is fracturing at its foundations. Across these islands, the demand for self‑determination has become the political mainstream.Pro‑independence leaders now simultaneously hold the office of First Minister in the north of Ireland, Scotland, and Wales. This is not a fringe sentiment. It is the democratic consequence of a constitutional order that has concentrated power in London while imposing austerity, degrading public services, and ignoring the democratic will of entire nations.In the north of Ireland, the ground has shifted irreversibly. The demographic architecture upon which the six‑county state was constructed has dissolved, and the electorate now returns a majority of nationalist MPs to Westminster.Civic behaviour mirrors this transformation: whereas around 7,000 Irish passports were issued annually before the Good Friday Agreement, some 85,000 are now issued each year. Tens of thousands of people are quietly dismantling partition in practice, asserting their European citizenship, and slipping the orbit of the British state. The conversation on reunification is not theoretical. It is organically unfolding in town halls, community centres, trade union branches, and universities across Ireland. It is a democratic movement rooted in lived experience, social justice, and the desire for a society free from the distortions of partition.Britain’s progressive left must take heed. The struggle for Irish self‑determination is not a distant debate. It is part of the same democratic reckoning confronting Britain itself – the same crisis of legitimacy that fuels demands for Scottish independence, Welsh autonomy, and radical constitutional reform. It is the same rejection of a political order built on hierarchy, centralisation, and the residues of empire.James Connolly understood this clearly when he outlined: ‘Two currents of revolutionary thought in Ireland, the socialist and the national, [are] not antagonistic but complementary.’ For him, the fight for Irish freedom was inseparable from the fight for working‑class liberation across these islands.Today, the lesson endures: democracy cannot flourish where imperial habits persist. No government committed to equality, solidarity, and social justice can claim the right to deny another nation its democratic future.Charles Stewart Parnell put it simply: ‘no man has the right to fix the boundary to the march of a nation.’ No British Prime Minister has the moral authority, legal mandate, or political power to lock the door against Irish democracy.The era of London deciding the limits of Irish nationhood is over. The future will be shaped not by imperial reflexes, but by the democratic will of the people of Ireland alone. Sin é.

A cadeia alimentar das revistas predatórias

Na hora de submeter para publicação um artigo que fazia parte do seu mestrado, o engenheiro de computação Fábio Lobato foi atraído por um convite de um periódico científico de suposta relevância (era classificado como B4 pelo sistema Qualis). No final de 2017, seu trabalho foi publicado. Mas, depois de cerca de um ano, veio o alerta de um colega de fora do país: aquela era uma revista predatória. Foi seu primeiro contato com esse termo, conforme me contou por telefone. “Conversando com colegas sobre o assunto, surgiu uma curiosidade científica de compreender as vulnerabilidades dos pesquisadores brasileiros”, conta.

Desse interesse nasceu, possivelmente, o mais amplo estudo nacional sobre percepções dos cientistas a respeito das revistas predatórias. Foram mais de 3 mil entrevistados, dos quais 1.065 possuíam artigos publicados e, portanto, tiveram suas respostas incluídas em um paper que saiu em abril no periódico Scientometrics — esse, claro, legítimo.

A partir da análise de 36 questões, ficou estabelecido que Lobato não foi o único acadêmico a não enxergar o predador. Entre os fatores associados a publicações predatórias, um dos mais mencionados é a falta de conhecimento. “Para não cairmos em um golpe, precisamos reconhecê-lo”, resumiu o professor, recém chegado ao Instituto de Ciências Matemáticas e Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo, em São Carlos. E-mails e convites insistentes e valores abaixo da média para publicação também estavam entre os pontos mais destacados pelos participantes.

Se esses resultados eram esperados, outros surpreenderam em um primeiro momento. Por exemplo: acadêmicos experientes demonstraram maior preocupação com os custos de publicação em comparação com os em início de carreira, o que poderia torná-los especialmente suscetíveis aos preços atraentes das revistas predatórias. O artigo destaca que “isso possivelmente reflete a estrutura de financiamento de pesquisa no Brasil, onde pesquisadores sêniores são tipicamente responsáveis por gerenciar os orçamentos e pagar as taxas de processamento de artigos”.

Por trás de tudo isso, a pesquisa confirmou uma associação entre a pressão por publicar e a experiência prévia com um periódico predatório. Do seu lado, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) tem adotado métricas que priorizam a qualidade dos estudos, em detrimento da quantidade, e o impacto na sociedade. Já o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que concede bolsas e financia pesquisas, criou em março deste ano a Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq. Entre as diretrizes, temos: “abster-se de submeter trabalhos a periódicos, eventos ou editais reconhecidamente predatórios, ou participar de práticas editoriais fraudulentas”.

Ainda assim, essas publicações estão longe da extinção. Ao perguntar a Lobato sobre os destaques de sua pesquisa recente, ouvi que ele se surpreendeu com a sinceridade dos entrevistados. “Recebemos respostas detalhadas com um teor de ‘eu escolho um periódico porque meu orientador mandou’”, exemplifica. Nesses casos, além da confiança, é importante valorizar o pensamento crítico.

Cardápio de tramoias
Talvez você queira ser creditado como o criador de um “biorreator de membrana baseado em inteligência artificial para tratamento de esgoto”. Ou, quem sabe, de um “robô humanoide com aplicações industriais”. Pois se de um lado temos revistas predatórias que aceitam artigos sem muitos critérios, do outro há fábricas de artigos científicos (as paper mills) prolíficas e com um portfólio de falcatruas cada vez mais extenso. Uma reportagem do jornal The Guardian publicada em agosto divulgou o trabalho do matemático Reese Richardson, que localizou, entre 2020 e 2026, mais de 18 mil anúncios em redes como WhatsApp, Telegram e Facebook com propostas para inflar o currículo de cientistas.

Foram identificadas 14 diferentes categorias de produtos, que vão das conhecidas ofertas para inserir artificialmente nomes em estudos falsos até a possibilidade de entrar como detentor de uma patente — a propósito, os exemplos acima são verdadeiros. A IP Australia, órgão do governo australiano onde essas patentes foram depositadas, afirmou que está aberta a analisar suspeitas de desvios, mas que não existem evidências de que a organização vem sendo usada em larga escala para esse tipo de fraude.

O caso, no entanto, indica como as paper mills adotam um modelo de negócios ao mesmo tempo obscuro e agressivo, inclusive manipulando estruturas públicas vinculadas à ciência para abrir atalhos na carreira acadêmica. Uma estimativa de Richardson reportada na mesma matéria do Guardian sugere que a quantidade de “produtos” desse mercado vem dobrando a cada 18 meses. Em seus estudos, ele abriu o bueiro do esgoto digital e entrou em dezenas de grupos nos quais as paper mills disponibilizam seus serviços a cientistas pressionados pela lógica do publicar ou perecer. Seu celular, pelo visto, não para de apitar: “Posso simplesmente olhar minhas notificações e ver que recebi 20 mensagens de WhatsApp de paper mills nas últimas 24 horas”.

Um escândalo anacrônico
Quem viu a clássica série Plantão Médico (ER na versão original) sabe: pagers faziam parte do cotidiano dos profissionais de saúde. Popular nas décadas de 1980 e 1990, esse equipamento recebia — só recebia — mensagens curtas, o que, para um médico ou enfermeiro que atuou na Era Pré-Popularização do Celular, funcionava como um alerta ou chamado para atender um caso urgente, por exemplo. Eis que os pagers, ou bips, como os apelidamos por aqui, estão de volta. Uma investigação da BBC mostrou que o NHS Blood and Transplant, órgão do Reino Unido responsável por serviços de transplante, enviou informações confidenciais, como nomes completos de pacientes e tipos de órgãos necessários, de forma não encriptada para pagers de equipes de hospitais. Detalhe: esses dispositivos operam por radiofrequência, então qualquer um poderia receber as mensagens se estivesse “no canal” correto.

Havia um pedido para que os pagers fossem aposentados até 2021 no sistema de saúde de lá, porém alguns elos da cadeia de transplantes não incorporaram a recomendação. O NHS Blood and Transplant, que é obrigado a proteger dados dos pacientes, confirmou a falha e afirmou que a prática foi interrompida. Será que, depois de um atentado na primeira temporada e um ataque hacker na segunda, a série The Pitt prestará homenagem à sua musa inspiradora com um escândalo envolvendo um aparelhinho arqueológico?

AI is Destroying the Job Market

The UK employment market is sending out a message that neither job applicants nor, for different reasons, politicians want to hear. New figures from Adzuna released earlier this week point to an extraordinary collapse in graduate vacancies, with only around half as many jobs available today as there were a year ago; just 8,383 graduate roles were listed on the site in July.This poses an obvious question: where exactly are new graduates supposed to go to find work? The political response thus far has largely consisted of hand-wringing about skills, about whether the education system is sufficiently subservient to the demands of employers, and supposed overdiagnosis of mental illness. But it is one thing chivvying young people onto the ladder; quite another when that ladder is suddenly yanked up out of their reach.Economic weakness and uncertainty undoubtedly play a role, but the widespread adoption of AI is clearly the big, hulking elephant in the room. Inevitably, when the chance arises, employers look to boost profit margins and cut labour costs where they can, whether through automation, outsourcing or offshoring. The advent of AI must be like all their Christmases come at once. They find themselves presented with a once-in-a-lifetime opportunity to slash their largest single cost: wages.For decades, employers increasingly demanded that applicants be served up to them ‘job ready’, and so the costs of training them increasingly passed from themselves and on to the state, and to students themselves in the form of loans. Hence the huge expansion of higher education in the 2000s and 2010s; young people were assured that the way to progress in life was to take on ever-increasing levels of student debt (which they could worry about paying back later) on the understanding that this would provide them with a stable white-collar career and a solid foothold in the middle class.Now we see that bargain breaking down. Employers know that large language models can handle many of the tasks previously allotted to entry-level employees at a mere fraction of the cost; after all, LLMs don’t require salaries, pensions, sick pay or promotions, nor do they take holidays, or go on maternity or paternity leave.Graduates are by no means the only ones affected by this. People with decades of experience now report submitting dozens or even hundreds of job applications before securing an interview, let alone an offer. Many roles once considered relatively secure are now easily automated, either in part or out of existence altogether: marketing, copywriting, admin, accounting, basic coding, and numerous others.Optimists, of course, insist that just as earlier technologies replaced obsolete jobs with new ones, so will AI. But this is not a law of nature and such assurances ring hollow when AI companies openly brag about how many people they’re going to throw on the scrap heap.The Luddites get a bad press from bourgeois historians, but far from being purblind primitivists, they were correct that the factory system posed a mortal threat to their livelihoods and that any new jobs it provided would likely not be on offer to them. At least their children and grandchildren had cotton mills to work in. What happens now, with no obvious source of alternative employment waiting to absorb displaced workers?Politicians, flattered by a phalanx of tech industry lobbyists, refuse to face up to this because it would force them to address questions around who controls the technology and whose interests it serves. After so many years of economic stagnation, they are also desperate to have some growth to brag about and hope that AI can deliver it, but they remain evasive, at best, about how the proceeds of its much-vaunted productivity gains (primarily a euphemism for sacking people) will be distributed.So what we get instead is another media moral panic about alleged shirkers on benefits, with right-wing columnists fulminating about the rising social security bill and centrists wringing their hands, but reluctantly reaching similar conclusions. Some tech oligarchs talk airily about bringing in some form of universal basic income as a salve, but decades of scapegoating have created a political climate in which entrenched anti-welfare attitudes mean the prospect of others receiving ‘something for nothing’ is anathema to many.In any case, a UBI introduced as an afterthought, or sticking plaster, for mass AI-induced unemployment would probably end up as a miserly stipend for those workers who find themselves discarded, their skills no longer valued and their bargaining power destroyed, or as just one more subsidy enabling businesses to get away with paying low wages. Needless to say, a few work experience placements at Sainsbury’s won’t cut it as a response either.AI is exacerbating existing inequalities of wealth and power, but the genie is already out of the bottle. Rearguard actions by organised labour to resist or regulate its adoption might slow its advance – which is not insignificant – but are unlikely to reverse it. The political debate, however, is miles behind what is already playing out in the real world. It is surreal and insulting to see politicians, and equally cosseted pundits, pontificating about the importance of acquiring skills and experience just as their market value is being gutted.For socialists, the core demand must ultimately be that AI, as with other technologies, is deployed in the service of the many, not the few, and that its proceeds and capabilities are socialised, rather than being captured by the oligarchs who currently control it. AI, built as it is on industrial-scale theft by big tech, is the product of humanity’s collective intellectual endeavours, accumulated over countless generations; any benefits it offers therefore ought to be the rightful, common property of humanity as a whole.

¿Quién decide qué es realmente un vino ‘natural’?

Alexdov/Shutterstock

En plena vendimia, la expresión “vino natural” vuelve a aparecer en ferias, tiendas especializadas, cartas de restaurantes y conversaciones entre aficionados. Parece una categoría fácil de entender, pero no lo es. Dos botellas pueden presentarse como naturales y haberse elaborado con criterios bastante distintos.

A diferencia del vino ecológico, el vino natural no cuenta con una definición legal aceptada internacionalmente. Suele asociarse con uvas ecológicas o biodinámicas, fermentaciones espontáneas, poca intervención en bodega y un uso muy limitado de aditivos.


Leer más: Orgánico, ecológico, biodinámico, vegano… ¿cómo es un vino natural?


La dificultad de nombrarlo

El problema empieza cuando se intenta concretar qué significa todo eso: cuántos sulfitos pueden añadirse, si el vino puede filtrarse, qué levaduras son aceptables o qué tratamientos siguen siendo compatibles con la idea de mínima intervención.

Los sulfitos son un buen ejemplo. Se utilizan para conservar el vino, pero también se producen de forma natural durante la fermentación. Por eso, “sin sulfitos” y “sin sulfitos añadidos” no quieren decir lo mismo, aunque para muchos compradores la diferencia no sea evidente.

Desde diciembre de 2023, la Unión Europea exige que los vinos informen de sus ingredientes y valores nutricionales, aunque parte de esa información pueda consultarse mediante un código QR. La norma ha aumentado la transparencia, pero no ha resuelto la cuestión de fondo: sigue sin existir una definición común de vino natural, y expresiones como ecológico, biodinámico, sin sulfitos añadidos o mínima intervención siguen remitiendo a cosas distintas.

Una certificación específica podría ayudar a ordenar ese terreno. También podría, sin embargo, transformar un movimiento que surgió en buena medida como reacción frente a la estandarización de la industria convencional.

Qué piensan quienes consumen y quienes producen

En nuestro estudio, publicado en Journal of Consumer Culture, encuestamos presencialmente a 415 asistentes a las ediciones de 2023 y 2024 de la feria de vino natural más veterana de España, celebrada en Barcelona desde 2005. El 58,3 % eran consumidores y el 41,7 % trabajaban en producción, distribución, hostelería o comunicación especializada.

No se trata de una muestra representativa del consumidor español. Quienes acuden a una feria de este tipo conocen mejor el producto y muestran un interés por el vino bastante superior al habitual. Precisamente por eso resultan útiles para observar las diferencias dentro del propio mundo del vino natural.

La distancia entre ambos grupos era clara. El 90,2 % de los profesionales consumía vino natural con frecuencia, frente al 42,6 % de los consumidores. Esa diferencia de experiencia importa, porque no todos necesitan las mismas señales para confiar en una botella.

Cuando les pedimos que dijeran las tres primeras palabras que asociaban con “vino natural”, los consumidores tendieron a mencionar rasgos fáciles de reconocer: “ecológico”, “sin sulfitos” o “sin aditivos”. Entre los profesionales las respuestas estuvieron más repartidas y apareció con más fuerza la idea de “mínima intervención”.

No se trata de dos concepciones opuestas. Ambos grupos comparten buena parte del mismo vocabulario: ecología, naturaleza, autenticidad, sulfitos. La diferencia está más bien en qué consideran importante y en cómo creen que debe demostrarse.

Para un comprador que no conoce al productor, una etiqueta o un sello pueden servir como garantía. Para alguien que trabaja habitualmente con estos vinos, la confianza puede basarse en otras cosas: conocer la bodega, saber cómo se trabaja una parcela, haber probado otras añadas o moverse dentro de redes profesionales donde circula información que difícilmente cabe en una etiqueta.

En la certificación está la verdadera diferencia

El contraste más claro surgió cuando preguntamos por la posibilidad de crear una certificación específica para el vino natural. En una escala de uno a cinco, el apoyo medio entre los consumidores fue de 4,14. Entre los profesionales bajó a 3,37 y, entre los productores, a 2,74.

La diferencia entre consumidores y productores alcanza así 1,4 puntos en una escala de cinco. Y tampoco todos los profesionales piensan igual: quienes trabajan en comunicación y opinión se situaron mucho más cerca de los consumidores que los propios productores.

El desacuerdo tiene además una dimensión económica. La mitad de los consumidores estaría dispuesta a pagar un 10 % más por un vino natural certificado. Entre los profesionales, en cambio, el 44,5 % no pagaría ningún sobreprecio.

Eso ayuda a entender qué valor tiene una certificación para cada grupo. Para quien compra, puede reducir dudas y facilitar una elección sin necesidad de conocer personalmente a quien hizo el vino. Para muchos productores y distribuidores, que ya cuentan con experiencia y redes propias de confianza, un sello aporta menos y puede incluso plantear nuevos problemas.

Entre esos problemas aparece uno recurrente: que una certificación termine favoreciendo a las bodegas con más recursos, mejor preparadas para asumir costes administrativos y adaptarse a una lista cerrada de requisitos. También existe el temor de que una práctica flexible y basada en decisiones concretas de viña y bodega acabe convertida en una receta.

Más que una preferencia por un tipo de vino

El vino natural tampoco aparece aislado de otras formas de consumo. El 83,2 % de los profesionales y el 64,5 % de los consumidores declararon comprar productos ecológicos siempre o con frecuencia. En el caso de los alimentos locales, los porcentajes alcanzaron el 91,9 % y el 82,2 %.

Estos datos no describen un estilo de vida único, pero sí sugieren que el vino natural suele formar parte de preferencias más amplias por los productos locales, la producción ecológica y formas de elaboración percibidas como menos industriales.

Esto ayuda a explicar por qué la discusión sobre su definición genera tanto interés. No se trata solo de decidir qué debe poner una etiqueta, sino también de fijar qué prácticas se consideran legítimas y quién tiene autoridad para establecer esas reglas.

¿Quién puede decidir qué es un vino natural?

Ahí está, probablemente, la cuestión central. Una certificación tendría que ofrecer al consumidor criterios claros y controles fiables. Pero, al mismo tiempo, tendría que evitar costes y exigencias que excluyan a los pequeños productores o reduzcan a una definición única un movimiento que siempre ha sido diverso.

El debate, por tanto, no consiste únicamente en decidir qué técnicas pueden utilizarse o cuántos sulfitos son aceptables. También está en juego quién tiene capacidad para definir la categoría: las administraciones, las asociaciones de productores, los organismos certificadores, los especialistas, el mercado o los propios consumidores.

Nuestros resultados muestran que esa respuesta cambia según la posición que se ocupa. Quien compra reclama garantías que le permitan orientarse en un mercado poco definido. Quien produce teme que esas mismas garantías terminen trasladando a otros la capacidad de decidir qué cuenta como vino natural.

El futuro de esta categoría dependerá, en buena medida, de cómo se resuelva esa tensión: cómo ofrecer confianza a quien compra sin vaciar de autonomía a quienes han construido el movimiento.

The Conversation

Eva Parga Dans recibió financiación del Ministerio de Ciencia e Innovación y de la Agencia Estatal de Investigación mediante el proyecto «El reto de la certificación del vino natural: controversias culturales, asimetrías de información y patrones de consumo» (NAWICERT, PID2021-126272OA-I00); y de «Radical Urban Cultures: Exploring the political ecologies of urban-food-soil entanglements in the Anthropocene through Natural Wine», financiado por la Fundação para a Ciência e a Tecnologia de Portugal (2024.15482.PEX).

recibió financiación del Ministerio de Ciencia e Innovación y de la Agencia Estatal de Investigación mediante el proyecto «El reto de la certificación del vino natural: controversias culturales, asimetrías de información y patrones de consumo» (NAWICERT, PID2021-126272OA-I00); y de «Radical Urban Cultures: Exploring the political ecologies of urban-food-soil entanglements in the Anthropocene through Natural Wine», financiado por la Fundação para a Ciência e a Tecnologia de Portugal (2024.15482.PEX).

Contra el realismo maquínico. Un experimento rosarino: Traducción inversa de Andrea Ostera y Beatriz Vignoli

Un frenesí de las imágenes recorre Europa entre 1860 y 1880. De la cámara al caballete, de la tela a la placa, del artefacto al papel, la libertad inédita con que las imágenes se desplazan, se acercan, se distancian y se transforman alienta la expansión del realismo en el arte del siglo XIX, de pronto empeñado en una nueva fidelidad a las cosas. Un siglo más tarde, así describía Foucault la “relación aguda y austera con lo real” del diálogo de la fotografía recién nacida con la pintura, en un breve ensayo dedicado a un pintor amigo, Gérard Fromanger, y, no sin cierta nostalgia, se preguntaba: “¿Cómo recuperar esa locura, esa libertad insolente que acompañó el nacimiento de la fotografía?”. Poco antes, en su Ensayo sobre Magritte, obstinado todavía en descifrar la relación sinuosa entre las palabras y las cosas, había intentado desentrañar la proverbial paradoja del “Esto no es una pipa” para concluir que, lejos de resolver el entredicho, el entrecruzamiento de imagen y texto es una batalla, con “ataques lanzados de una a otro”, “lanzazos y heridas”, “cataratas de imágenes en medio de las palabras, relámpagos verbales que jalonan las figuras…”.

Con toda su penetración poética para sondear ese entre dos de imágenes y palabras, Foucault no alcanzó a imaginar que, medio siglo más tarde, más precisamente desde fines de 2022, un nuevo frenesí de las imágenes recorrería el mundo, esta vez con “la locura”, “la libertad insolente” de los algoritmos, gestores de una relación inédita de la imagen con otras imágenes, de la imagen con las palabras, y de la imagen y las palabras con el mundo. Los desplazamientos y las metamorfosis sucederían ahora en una dimensión inconcebible en el siglo XIX, el “espacio latente”, un ámbito abstracto poblado por estructuras de datos muy complejas, imágenes, textos y sonidos traducidos al formato digital para ser procesados con operaciones matemáticas. Más difícil todavía imaginar su inconmensurable contenido. Alimentado por sets de aprendizaje automático nutridos con un acopio fenomenal de datos durante los últimos treinta años, el espacio latente aloja una especie de “meta-archivo” de la cultura, heterogéneo, opaco, en gran medida oculto, imposible de cartografiar completamente y, sin embargo, limitado. Y si la fotografía azuzó a la pintura con un realismo indicial capaz de conservar un rastro físico del referente en la emulsión de la película y acercar el arte a las cosas, un nuevo realismo maquínico (así lo llama el artista estadounidense Trevor Paglen), por el contrario, aleja las palabras y las imágenes del mundo. Se funda en la presunción engañosa de que estas nuevas imágenes —y las clasificaciones y las categorías que las contienen— corresponden a las cosas y no a aproximaciones estadísticas sin ningún rastro indicial ni conciencia alguna de la representación. Si la pipa de Magritte no es una pipa, en los archivos del espacio latente, con un determinismo ajeno al arte, la estética y la filosofía, una pipa es una pipa. 

Conviene detenerse en los alcances de este giro inédito de la tecnología. Porque no se trata ya de un avatar de la imagen digital ni de simulaciones 3D hiperrealistas, sino de una verdadera ruptura epistemológica que transformó las relaciones entre lo que se ve y lo que se nombra. Si la IA analítica emprendió un mapeo masivo de objetos que resulta de reunir sistemáticamente imágenes y nombres (un proceso de máquinas que miran a otras máquinas y prescinden de la visión humana para activar mecanismos de detección, reconocimiento y clasificación funcionales a la vigilancia y el control), la IA generativa ha creado una serie de modelos de conversión de texto a imagen que pueden producir imágenes y videos a partir de un texto en lenguaje natural —un prompt—, o crear un texto a partir de una imagen. Por primera vez en la historia de la cultura es posible traducir dos categorías simbólicas radicalmente distintas —lo verbal y lo icónico— en un proceso que antes que a los “hábiles, divertidos e inescrupulosos robos de imágenes” entre la fotografía y la pintura de los que hablaba Foucault, se acerca a los actos de habla de los filósofos del lenguaje Austin y Searle. El lenguaje ya no solo puede describir el mundo al modo de la écfrasis clásica, sino que se vuelve operativo. Hace cosas con palabras. Por primera vez (la fórmula sintética es de Antonio Somaini), lo decible y lo visible están algorítmicamente conectados. 

Mirado en perspectiva, el “giro creativo” de la IA ha operado una transformación capital de nuestra relación con el mundo y el lenguaje (un “promptismo generalizado” lo llama el filósofo Éric Sadin), que lleva ya no a una simulación de la realidad, ni a una realidad aumentada, sino a una “refabricación de lo real”. Y no se trata solamente de la crisis de los regímenes de verdad, el imperio de los hechos alternativos y las noticias falsas cuya no conformidad con lo real puede ser verificada, sino de un franco divorcio de lo real de textos y sobre todo de imágenes, que no responden al paradigma indicial sino al paradigma estadístico y probabilístico, con una “perfección fantasmática” libre de asperezas. ¿Cómo recuperar entonces el lazo con lo real? ¿Puede el arte desafiar y oponer resistencia al realismo maquínico? 

Un siglo atrás, en su ya clásico ensayo sobre la fotografía, Walter Benjamin advertía el riesgo de la imagen fotográfica “creativa” que banalizaba la representación del mundo, embelleciéndolo en imágenes “reales” pero divorciadas de su contexto. Lejos de cualquier concepción ingenua del realismo como espejo de lo real, citaba a Brecht para proponer en cambio “construir algo, algo artificial, fabricado” y celebraba los experimentos del surrealismo y el cine ruso que con sus “construcciones fotográficas” estimulaban el pensamiento. Anticipaba sin saberlo un riesgo futuro mayor: la exacerbación de ese divorcio de lo real en la era de la IA slop, imágenes basura creadas por los algoritmos con la media edulcorada de los saqueos informáticos, sin ninguna fricción entre el texto y la imagen, sin “lanzazos ni heridas”, sino más bien fruto del promedio normativo y sumiso de lo que invocan las palabras. Alumbraba también, si se quiere, la eficacia perdurable del camino brechtiano.

De ahí que, una vez que los algoritmos nos engañan con meras inferencias estadísticas, una vez que lo real está parcial o totalmente bloqueado a la visión cuando no deliberadamente oculto, mucho arte de hoy intente ya no develar lo real sino reconstruirlo. Es lo que advierte el historiador del arte Hal Foster después de recorrer más de un siglo de pensamiento teórico en torno al realismo, tratando de detectar nuevos usos del registro documental, nuevos artificios puestos al servicio de lo real mediante procesos de materialización y mediatización. Son las ficciones reales de la literatura y el arte contemporáneo que, extendiendo el argumento, podríamos leer como una forma de antídoto no solo contra las noticias falsas sino también y sobre todo contra el realismo algorítmico. 

Pero el arte puede incluso desafiar a las máquinas con obras que activan el pensamiento crítico desde dentro de los propios modelos o protocolos de la IA, adoptando las imágenes algorítmicas como obras en sí mismas. Y puede también darnos a ver lo que los algoritmos ocultan o lo que las máquinas, producto del loop de iteraciones de datos que los transforman, alucinan. Ese es, de hecho, el término técnico: “alucinaciones”, momentos en que un modelo de IA generativa produce información plausible pero falsa. En su serie Adversarially Evolved Hallucinations (2017), por caso, Trevor Paglen se propuso invitar al espectador a observar las imágenes producidas por esos modelos maquínicos de visión. Con una crítica implícita al “realismo” de las máquinas, produjo así insólitas imágenes surreales, alimentando los sistemas con taxonomías excéntricas de seres inexistentes tomados de la literatura, la filosofía, el arte y el folclore —monstruos, sueños, portentos—, enseñándoles a las máquinas a ver a través de la imaginación de Dante, Freud, Marx o Lovecraft, e invitándolas a crear nuevas imágenes “alucinadas” de reconocimiento. “Cada época tiene sus surrealistas”, dijo alguna vez Man Ray, pero seguramente nunca imaginó un surrealismo algorítmico. Tampoco Goya podría haber imaginado que los algoritmos producirían sus propios Caprichos, y sin embargo advirtió sobre los excesos destructivos de la imaginación humana en El sueño de la razón produce monstruos. 

 

Traducción inversa (2024), una obra reciente de la fotógrafa Andrea Ostera y la poeta, traductora y crítica de arte Beatriz Vignoli, bien podría hermanarse con el surrealismo algorítmico de Paglen. Artista conceptual, Ostera ya había experimentado con las mediaciones con que las máquinas creaban o traducían imágenes en los albores de la IA en al menos dos series curiosas, Scrolls (2016-2017) y AAT (2018-2019). Hijas del buffering que se agrava en las geografías pobres de la conectividad, las dos series nacieron de fallos de los buscadores que, anestesiados por las conexiones lentas en el medio del campo del Sur global, retardaban la aparición de las imágenes. En la primera, Ostera buscaba en Google imágenes de obras de artistas como ella rosarinos y, antes de que llegaran a la pantalla, un algoritmo las anticipaba en cuadrados y rectángulos de colores plenos, como si en un rapto minimalista tradujera la rica gama cromática de cada imagen en un solo tono. Antes de que la inesperada conversión de la obra de los artistas a la abstracción geométrica se desvaneciera, Ostera congelaba la grilla multicolor en una captura de pantalla y después la imprimía, con el mismo formato alargado del scroll de imágenes. Ya entonces la correspondencia enigmática con los “originales” disparaba preguntas nuevas sobre la naturaleza, la autoridad y el “realismo documental” de esas imágenes fantasmales de las pantallas. En AAT (siglas en inglés de Texto Alternativo Automático), Ostera tomaba nota de la “enumeración caótica” del texto con que la incipiente IA anticipaba el contenido de la imagen de Facebook que tardaba en llegar, y lo transcribía con grafito en papel cuadriculado. El “robot poeta, objetivista tardío” (la ironía es de Beatriz Vignoli) comenzaba invariablemente con: “Esta fotografía puede contener…” y, con un dechado de realismo idiota que haría las delicias del filósofo Clément Rosset, podía seguir con: “2 personas, / personas sonriendo, / personas de pie, / cielo, niños, playa, / pantalones cortos, /exterior, / naturaleza” (Sin título, n° 19).

Pero en menos de una década, la IA generativa hizo grandes avances. En 2024, el modelo de conversión de textos a imágenes DALL-E ya ha perfeccionado sus herramientas y, para desafiar su realismo maquínico, Ostera y Vignoli decidieron proponerle un juego loco de traducciones, en la dirección contraria a la de AAT. Y es que, en principio, para resistir su vertiginoso promptismo por default, el resultado final del ejercicio no es una imagen, sino otro texto, fruto de un vértigo de versiones que habrá alucinado literalmente a DALL-E. Con un doble, triple reto a su realismo, Ostera le ofreció al programa piezas del diario de sueños que Vignoli lleva desde hace años, especulando con la posibilidad de que, a cambio del relato de esas visiones surreales traducidas a un prompt, el programa creara “la foto” de un sueño. Era solo el comienzo de un paciente juego de ensayo y error (Vignoli lo describe y analiza en un breve ensayo que acompaña la obra), una puesta a prueba del programa para comprobar si, con todas las limitaciones de su “imaginación artificial”, era capaz de acercarse a la imagen recordada del sueño original. Pero para contrariar al DALL-E aún más, faltaba un último paso. Junto con la imagen, el programa entregaba un texto en inglés que la describía y hasta se atrevía por momentos a interpretarla. Rizando el rizo del ir y venir entre texto e imagen hasta desconcertar a las máquinas, Ostera le propuso a Vignoli que tradujera esos textos al castellano. Los siete elegidos componen la obra en colaboración Traducción inversa, que las artistas, irónicamente, sugieren usar como prompts y comprobar los resultados. 

De los restos diurnos al inconsciente, del sueño al recuerdo del sueño y al texto que lo recrea, de allí al prompt y a la imagen, y enseguida a un nuevo prompt y una nueva imagen, hasta que DALL-E consiguiera acercarse a la “foto del sueño” luego descripta en un texto en inglés traducido por fin al español, la serie alocada de mediaciones resume bien el frenesí de las imágenes algorítmicas, al tiempo que revela la tramoya de su engañoso realismo y, con humor y chispa conceptual, lo contraría. Porque por más que intente acercarse a la visión original, la serie desatinada de traducciones solo produce el relato de un sueño que, a fin de cuentas, no es más que la “ficción real” de un prompt. Desconcertada frente la naturaleza esquiva de las imágenes de la IA generativa, Ostera les reconoce al menos “un deseo de ser fotos” que las acerca al universo de la fotografía, pero hay algo definitivamente perdido que la denodada cadena de versiones convoca y con la que fatalmente fracasa. Sin ningún vestigio de la naturaleza indicial con que nació el medio, las imágenes promedio de la IA han perdido toda veracidad, y la correlación con su referente es tan inverificable como la correspondencia de Traducción inversa con la materia impalpable de los sueños.  

No sorprende que AAT y Traducción inversa se reúnan reproducidas en papel, en un libro pequeño de una editorial independiente, otro modesto bastión de resistencia. La imagen de colores vibrantes que cierra el libro como una especie de colofón —un gato atigrado del que nace una planta de taco de reina— coincide sospechosamente con uno de los sueños-prompts. Que en el remolino de traducciones no se sepa a ciencia cierta si efectivamente es así, y que la imagen surreal no tenga en el libro ninguna referencia al pie —ni origen, ni fecha, ni autor— habla sin palabras de la condición de las imágenes en la era de la IA.

 

Andrea Ostera y Beatriz Vignoli, Traducción inversa, Goma Editora, 2026, 92 págs.

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Cambios

A finales de los sesenta, cuando todavía era un adolescente, Mo Yan se enteró de que un autor chino muy encumbrado comía jiaozi tres veces al día. Los jiaozi son una pasta rellena con carne de cerdo y la revelación fue instantánea. Nacido en la ruralidad extrema del condado de Gaomi, provincia de Shandong, Mo Yan supo que sería escritor. “No necesité saber más”, dijo años después. “Los escritores comen jiaozi de carne tres veces al día. La vida no puede ser mejor que eso”.

Si por un segundo ignoramos la mitificación que los narradores famosos suelen aplicar a sus orígenes, algo en la anécdota explica la materialidad inmediata y profunda que identifica a la prosa del autor de Sorgo rojo. Sin dejar de contener una mirada de mundo, la idea se eclipsa ante la decisión con la que sus personajes ejercitan su lugar en el universo circundante. Decimos “ejercitan”, pero “resuelven” es más exacto. Mo Yan resuelve también con la palabra: la distancia entre el pensamiento y el acto es corta porque exponerla sería caer en una morosidad residual. El resultado pesa mucho más que el croquis, el borrador directo o indirecto que lo posibilitó, y Cambios refuerza desde el mismo título esa postura.

Libro marginal a la médula de una obra amplia —comparada a menudo con la de Faulkner y premiada en 2012 por la Fundación Nobel—, comprime en un centenar de páginas una ristra de hechos curiosos que empiezan en la infancia de su elenco principal y tienen rebote hasta su madurez. Los elementos son escasos: un accidentado partido de ping-pong, un traqueteante camión soviético, un triángulo atravesado por la practicidad más que por la entelequia amorosa. Quien cuenta es Mo, electrón secundario, suelto en los dobleces de una historia con el corazón siempre en otra parte, mientras la vida transcurre entre el hambre, la poquedad y los sacrificios. La China de la segunda mitad del siglo XX es el último momento iniciático de un reino que lleva milenios agitándose desde adentro para empujar sus confines tanto físicos como simbólicos. A la zaga del horizonte celeste, el horizonte individual de Mo crece mientras los adelantos se vuelven accesibles, los recursos brotan, los viajes irisan las sensibilidades y al mismo tiempo la vieja concepción emerge para consolidar la metamorfosis. Al transformarse, China se parece cada vez más a la imagen profética de sí misma, un imperio del todo. Mo advierte las convulsiones y se limita a relevar sus hitos visibles, los instantes en que la serpentina vibra y lo nuevo se emplaza.

Mo Yan en realidad no se llama Mo Yan. El seudónimo significa “no hables”, la reconvención que Guan Moye escuchaba de labios de su madre cuando su verborragia la entorpecía en medio de los quehaceres. Si escribir es una manera de hablar callado, alimentarse sin hartura, devorar el exterior y retornarlo a su sitio en una versión apenas modificada, Mo Yan viene haciendo estrictamente eso desde los comienzos de su producción. Y cada uno de sus libros es una estación en el recorrido, el instante único en el que su obra consiente en vibrar.

 

Mo Yan, Cambios, traducción de Anne-Hélène Suárez Girard, Seix Barral, 2026, 128 págs. 

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Sorda

Ángela (Miriam Garlo) es alfarera, vive en Murcia. También es sorda, y tiene con Héctor (Álvaro Cervantes) —su pareja oyente— una relación que funciona porque ambos vienen construyendo, con esfuerzo, un espacio propio de amor, comprensión y comunicación. La maternidad viene a resquebrajar ese espacio hasta límites insospechados e insostenibles. El guion no se detiene en las anécdotas de las dificultades “logísticas” —cómo oír al bebé llorar, cómo saber si algo anda mal— sino que perfora hasta una angustia existencial lacerante: Ángela teme, literalmente, perder a su hija en un mundo sonoro que no le pertenece, un miedo que se confirma cuando la niña resulta oyente, momento en que la madre comienza a sentirse una extraña dentro de su propia casa.

La directora Eva Libertad podría haber optado por el recurso fácil de meternos en el silencio absoluto para que “oigamos” como Ángela. En cambio, pone al espectador en la experiencia de un “sonido sordo”: la mayor parte del metraje se encuentra del lado de los oyentes, para que seamos testigos, y no partícipes, de cómo ella queda cada vez más al margen de conversaciones que se superponen y ruidos que la vuelven crecientemente invisible. 

Por su parte, la fotografía privilegia la profundidad de campo —Ángela capta su entorno de manera totalizante, no selectiva— y renuncia deliberadamente a los filtros, en una decisión que Libertad dice haber tomado tras estudiar la obra de pintores sordos, cuya paleta tiende a la pureza cromática. El encuadre, a su vez, queda subordinado a tomas de las manos, las cuales deben permanecer siempre dentro del plano, porque —claro— ahí vive la lengua de signos. Es una gramática visual que invierte la jerarquía sensorial del cine oyente: mientras que la boca y el oído suelen ser los centros de la expresión humana, aquí son la mano y la mirada las que cargan con el peso simbólico. El oficio de Ángela —la alfarería, con su arraigo en la tradición murciana— no es color local sino que está construido como una extensión narrativa en ese sentido: el barro como lenguaje sin malentendidos, el taller como territorio de soberanía, ese que existía antes de que la maternidad lo asedie.

La actriz protagonista —Miriam Garlo, hermana de Libertad— perdió la audición después de haber adquirido el lenguaje oral, pero interpreta a una persona sorda de nacimiento. Así, su relación con el sonido y el habla es de naturaleza distinta a la del personaje que encarna. No es que se interprete a sí misma: construye una gran composición y desarma el prejuicio de que un actor con discapacidad simplemente “es” su personaje. 

Es en este contexto en donde anida el gesto más incómodo, y también el más saliente y valioso del filme: Ángela es antipática, puede mostrarse egoísta en su crisis de pareja, puede actuar de forma cuestionable frente a su hija, puede sentir vergüenza de sus audífonos y elegir el repliegue silencioso antes que la comprensión incondicional que el espectador —entrenado en el cine mainstream de “superación” — estaría esperando. Libertad rechaza la épica de la integración forzada y con ella la figura de la “sorda ejemplar”, ese estándar de perfección moral que se les viene exigiendo desde hace décadas a los sujetos históricamente invisibilizados como condición de entrada a la pantalla —como si solo pudieran ser vistos si antes demuestran ser mejores personas que el resto de nosotros—. Aquí la sordera es una circunstancia entre varias y no una supuesta esencia que agota la identidad de Ángela.

Una de las escenas más importantes del filme es la escena del parto, construida a partir de meses de entrevistas de Garlo con madres sordas reales: la mayoría describió su propio parto como un episodio traumático. La mascarilla quirúrgica del personal médico —imprescindible por asepsia, pero que aquí opera también como barrera de censura involuntaria— le impide a Ángela la lectura labial, su principal vía de acceso al lenguaje hablado; por otro lado, el sistema hospitalario expulsa a Héctor de la cabecera de la cama justo cuando surgen complicaciones, eliminando de golpe el único puente de comunicación de Ángela. Cuando la parturienta le arranca la mascarilla al médico no es un exceso melodramático: es la reclamación física de una autonomía que el protocolo hospitalario le negó. Libertad reconoce que esta secuencia toma mucho de Fragmentos de una mujer (Kornél Mundruczó, 2020), aunque con una diferencia importante: allí donde el húngaro filma una tragedia íntima, la española filma una denuncia al sistema, y esa distinción (tragedia versus estructura) es, al fin y al cabo, lo que separa un drama emotivo de una película políticamente lúcida.

También se observa una diferencia sustancial entre Sorda y sus referentes comerciales más obvios, La familia Bélier (Éric Lartigau, 2014) y su remake estadounidense, CODA (Siân Heder, 2021, ganadora del Oscar): ambas desplazan el centro emocional hacia el hijo oyente atrapado entre dos mundos, una fórmula de coming-of-age que resulta, en definitiva, mucho más digerible para un público mayoritariamente oyente porque le devuelve un protagonista con el que identificarse sin fricción. Sorda hace lo contrario: se instala en la subjetividad de la mujer sorda y se niega a suavizar el conflicto para hacerlo agradable.

A raíz de la enorme repercusión que tuvo la película (Berlinale, Málaga, Goya, Platino, entre otros festivales), Murcia —la región donde se rodó— creó un protocolo hospitalario específico para la atención de mujeres sordas durante el parto, algo que la propia directora señala como el logro que más le importa. Así, Sorda demuestra que el amor, la paciencia y la buena voluntad no bastan para derribar un mundo construido exclusivamente para oyentes, y que hace falta algo más estructural (protocolos, subtítulos, intérpretes, ¡presupuesto!) para que ese mundo empiece, apenas, a ampliarse de verdad para las minorías.

 

Sorda (España, 2025), guion y dirección de Eva Libertad, 99 minutos, disponible en MUBI.

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El nombre y la voz

En el libro IV de su Metafísica, Aristóteles sostiene que el verbo ser se dice de muchas maneras, y de esa posibilidad deriva sus célebres categorías. Algo puede ser al modo de la sustancia o del accidente, como potencia o en acto, como verdad o falsedad. Sin embargo, entre todos esos usos, uno es el principal y permite que los demás, precisamente, sean: cuando refiere la sustancia y la esencia de las cosas. Se diría que esa indagación apasionada por circunscribir el hecho ontológico, así como la persistente búsqueda de un fundamento sobre el que edificar un conocimiento verdadero, son las grandes herencias que ha legado el pensamiento griego al mundo occidental.

En El nombre y la voz. Para una filosofía del himno, la filósofa e investigadora italiana Nicoletta Di Vita se adentra en una profunda y erudita arqueología del himno, el antiguo canto en honor a los dioses. Desde los estudios literarios, el himno ha sido considerado como la forma poética cuya característica central es elevar una alabanza al dios. Pero esa categorización, señala Di Vita, parte de un punto de vista sesgado: es consecuencia de haber observado el himno por lo que ha llegado a ser en lugar de interrogarse por lo que lo ha originado. El himno no es una forma lírica más (un género entre otros, como lo sería también el lamento elegíaco). Como forma cristalizada, es la última fase de un proceso originario mucho mayor ligado, por su naturaleza, al nacimiento de la filosofía. El verbo “himnodiar” habría significado, en sus inicios, el acto de nominar las cosas, de modo que se ubicaría para la tradición griega a medio camino entre la poesía y la filosofía. 

Lo que el poeta lleva a cabo al enunciar un himno no es un mero proceder retórico. Concebirlo de ese modo sería malentenderlo. El encomio a los dioses, que es el contenido característico del himno, habría expresado originalmente la celebración por la posibilidad de darle nombre al aparecer del fenómeno, por percatarse quien lo enuncia de que el mundo puede decirse como lenguaje. Es la forma poética, pero no en tanto esta o aquella forma genérica, sino en tanto forma lingüística que puede nombrar y volver inteligible el mundo, captar lo divino para permanecer en relación con ello a través del discurso. “Himno es el nombre con que los antiguos designan el genérico, en sí mismo inasible, darse del lenguaje poético; y, al mismo tiempo, es el nombre de una configuración precisa que ese lenguaje adopta, hasta el punto de volverse convencional”. El himno está, por lo tanto, “más allá de los géneros y es su fundamento”, señala Di Vita, para quien en esa forma debe verse el acontecimiento, en el mundo griego, de “una primera apertura al decir”. 

Volver sobre la cuestión de la voz humana, sobre el logos que se vehiculiza en ella (a través del mero nombrar en el canto hímnico y del discurso argumentativo en el saber filosófico), es para la autora restablecer el problema original de la metafísica: “el hecho de que el ser se diga y de que el decir se refiera al ser”. No podemos definir de modo apodíctico por qué los discursos están emparentados con aquellas cosas que refieren y explican. Se trataría, en todo caso, no ya de superar la metafísica sino su crítica, sostenida en gran medida en el presupuesto equívoco de asignarle a la voz el lugar de una presencia plena sin poder explicar antes su relación con lo que nombra, que es su razón de ser como discurso. En la cuestión de la voz, sugiere di Vita, es donde ha permanecido irresoluble el problema fundamental de la metafísica: ¿por qué hay logos? El hecho primigenio del lenguaje no sería tanto que la voz pueda sustantivar las cosas (darles un nombre que indique lo que ellas son en su esencia), sino su posibilidad de manifestarse como invocación: una nominación sin nombre, un llamado al ser que, sin embargo, no lo sustancializa: “lo que ese nombre nombra no es más, en verdad, que lo ‘sin nombre’ de la cosa”. La posibilidad de la filosofía no debe ser buscada entonces en los casos nominativos de las palabras (la Idea); habita el lenguaje en su función vocativa: “Al llamar a un dios en vocativo, ‘Oh, Zeus’, el tema en cuestión no es una res, sino su ser llamado por un nombre, su venir a la lengua llamado por un nombre”.

El nombre y la voz. Para una filosofía del himno se inscribe en esa riquísima tradición de la filosofía italiana contemporánea que recurre a una honda erudición sobre los textos (Giorgio Agamben, Massimo Cacciari, por citar los nombres más notables), pero para expresarla no desde la aridez sino mediante la exposición de una sensibilidad o tonalidad del pensamiento. Así como los compositores italianos del siglo XX, incluso cuando abordan la música en toda su problematicidad histórica, no llegan casi nunca a excluir del todo la herencia del bel canto (pienso, por ejemplo, en la música de Giacinto Scelsi), la tradición itálica de la filosofía hace del pensamiento una especie de geografía: traza complejos mapas en los que la cuestión estética se hace del todo indiscernible de la ontología.

 

Nicoletta Di Vita, El nombre y la voz. Para una filosofía del himno, traducción de María Teresa D’Meza Pérez, Adriana Hidalgo editora, 322 págs.

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Max Garita

Todas las épocas tienen un trabajo que define el límite inferior del escalafón social. El Rappi de hoy hace años era el telemarketer y, antes de eso, en los noventa, cuando el neoliberalismo partía el mundo en countries y villas (todavía lo hace), ese rol fue el del guardia de seguridad. Se levantaron rejas, torres, portones y puestos de control. El sistema se comió las antiguas garitas de conscriptos y las regurgitó como garitas de vigilancia privada. Y en esas garitas se colocó al trabajador sin mucha experiencia, secundario completo pero currículum corto, a hacer el trabajo más alienante posible. El trabajador-máquina del cambio de siglo. El obrero de los tiempos posmodernos. El vigilante sin poder. 

Max Garita es una obra en un solo acto que comienza cuando esa historia ya está contada y elige mostrar la última hora. Todo pasado, todo exterior, queda siempre fuera de la escena (una puesta minimalista pero efectiva) y los únicos vasos comunicantes son tecnologías de variable complejidad: una puerta, un panel, un televisor, una computadora, un intercomunicador, un escritorio, una silla. No hace falta más porque el mundo que se va a explorar no es el que está afuera, sino el mundo interior de Max, un hombre roto que muy eficazmente ejerce el rol de guardia de seguridad en esa garita, tecleando patentes de autos y autorizando el paso de vehículos a lo que, suponemos, es un barrio privado. Max es un gatekeeper, es decir, no el monstruo al que Internet le dio glamour en los últimos años, sino el guardián kafkiano, el que ni siquiera tiene poder de decir algo distinto de lo que el sistema espera que diga (Max nunca niega el paso a los autos, a lo sumo deriva por el ingreso de proveedores). 

Por supuesto, la escena construye tensión y la tensión eventualmente produce un quiebre. En este caso, toma la forma del fantasma de su hermano muerto ―un recurso a mitad de camino entre Hamlet y la lógica de la amenaza externa de Harold Pinter, pero de nuevo: siempre acá, siempre local, con ansiedad sudamericana―. El pasado de Max se presenta y lo envuelve, lo enrosca y lo desenrosca, y lo lleva hacia el clímax de la locura. Ocurren eventos terribles, porque no puede ser de otra manera: al fin y al cabo, es un hombre solo, en una garita, comunicándose a través de máquinas con personas que no sabe si están ahí. La opresión hipertecnificada del siglo XXI se convierte en terror decimonónico: el terror de ver a una persona caer en una justificadísima locura. El terror cósmico de saber que esas garitas quizá existirán para siempre. El terror trágico de entender que las garitas son artefactos de nuestra propia hechura. Nuestro destino en ellas es inescapable. Las diseñamos con ese fin.  

 

Max Garita, dramaturgia y dirección de Nicole Popper, Teatro El Grito, Buenos Aires. 

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É hoje. SUMAÚMA Debate: Repovoar o Congresso

A liderança indígena Vanda Witoto e a cientista Luciana Gatti se encontram no programa de estreia às 8 da noite. A mediação é de Eliane Brum. Participe ao vivo no Instagram ou no YouTube

Impa premia reportagem de Pesquisa FAPESP sobre terras-raras

O Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) anunciou nesta terça-feira (25) os vencedores da 9ª edição do Prêmio Impa de Jornalismo, que reconhece reportagens sobre matemática e ciência publicadas no país. A revista Pesquisa FAPESP ficou em 3o lugar na categoria Divulgação Científica, com a matéria Brasil investe em pesquisa para dominar o ciclo produtivo das terras-raras e dos superímãs, escrita por Frances Jones e Yuri Vasconcelos.

A reportagem premiada mostra o esforço de pesquisadores, universidades e empresas para dominar o ciclo completo de exploração e processamento desses elementos, essenciais para a transição energética. O texto também destaca o potencial brasileiro, que tem uma das maiores reservas conhecidas do mundo.

Ainda na categoria Divulgação Científica, o primeiro lugar ficou com Maria Clara Rossini, da Superinteressante, por “A vida através do espelho”, sobre quiralidade — característica de objetos que não podem ser sobrepostos à sua imagem no espelho, e suas manifestações na física, na química e na biologia — e o que a assimetria da natureza pode revelar sobre as origens da vida. O segundo lugar ficou com Ed Wanderley, da Agência Pública, pela série documental em áudio “A Última Bolacha”.

Na categoria Matemática, a vencedora foi Catalina Leite, do jornal O Povo (CE), com “Além dos números: como a matemática constrói a gramática do Universo”.

Ao todo, nove mulheres inscritas como autoras foram premiadas nesta edição, incluindo a repórter Frances Jones, por Pesquisa FAPESP — pela primeira vez, elas foram maioria entre os vencedores. “A matemática só tem a ganhar quando as histórias são contadas por vozes diversas”, afirmou Marcelo Viana, diretor-geral do Impa e presidente da comissão julgadora.

A cerimônia de premiação acontece no sábado (29), às 17h30, durante o Festival Nacional da Matemática, na Marina da Glória, no Rio de Janeiro, e reunirá os jornalistas premiados em uma mesa-redonda sobre os desafios de transformar matemática e ciência em histórias acessíveis ao público.

Thatcher’s Ghost

In his 1909 essay ‘Family Romances’, psychoanalyst Sigmund Freud describes a fantasy familiar to almost every child: ordinary, disappointing parents are temporary stand-ins for more extraordinary ones — aristocrats, monarchs, even gods. Despite her attacks on the maternalistic welfare state, Margaret Thatcher has, somehow, endured as the choice fantasy parent of neoliberal Britain. For one, Nigel Farage claimed that he was the only politician ‘keeping the flame of Thatcherism alive’, and war criminal Tony Blair claimed that his job as Prime Minister had been to ‘build on some [of her] policies’.Harder, stricter, and more punitive than most of her predecessors, Thatcher’s political project replaced the state’s promise of collective provision with the supposedly liberating discipline of the market, dressing austerity up as a kind of tough love coming-of-age. But just as children eventually grow up, politics do too. That Andy Burnham, in the first week of his premiership, both announced a historic break with Thatcherism and oversaw Labour’s rapid ascension in the polls, overtaking Reform for the first time since March 2025, suggests that, at long last, the British public has finally realised that we deserve better.Sarah Kane’s Cleansed (1998), now revived at the Almeida Theatre, returns us to the psychic wreckage of post-Thatcher Britain. Set in a ‘university’ that more closely resembles a concentration camp or a psychiatric facility, the play follows the sadistic exploits of Tinker (Leo Bill), who presides over the institution’s inmates. After Graham (Jack Riddiford) dies of an overdose, his sister Grace arrives there seeking him, only to be admitted herself. Lovers Carl (Luke Cinque-White) and Rod (Parth Thakerar) are subjected to Tinker’s escalating trials of devotion, their love punished by rape and gradual dismemberment. Meanwhile Robin (Stuart Thompson) is taught to read by Grace, only to take his own life once he understands the true length of his sentence.A fair warning, if the content guide — referencing the torture, mutilation, incest, forced eating, and needles to come — isn’t clear enough: Cleansed is incredibly difficult to sit through. At my performance, a few audience members left after watching Tinker inject a lethal dose of heroin into the eye of Graham in the play’s opening scene. Those who remained continued watching through our fingers. Carl loses his tongue, hands, feet; Rod’s genitals are cut off and grafted onto Grace; and Robin’s suicide is so lifelike that I still don’t understand how director Rebecca Frecknall and her team managed to pull it off. By the end, the stage looks like an abattoir.During her lifetime, and still today, many critics have mistaken Kane’s cruelty for senseless sadism. Her first play, Blasted (1995), an attempt to yoke together the mass ethnic cleansing of the Bosnian civil war and the more domesticated racism and sexual violence of nineties Britain, insisted on treating both as symptoms of the same social ills. But the theatre critic Jack Tinker — widely suspected to be the nominative inspiration for Cleansed’s ‘doctor’ — slammed it in The Daily Mail as little more than ‘a play which appears to know no bounds of decency’ and a ‘disgusting feast of filth’. In my own introduction to Kane, courtesy of a first-year English lecture at the University of Sussex, I felt the same way: I was put off by her totalising bleakness, and unable to imagine her stage directions realised beyond the page. Watching a Kane play live, though, is a very different experience. Vacillating between agony and ecstasy, beauty, and terror, the abject and sublime, Cleansed is less torture porn and more a return to the theatrical violence of Greek tragedians and Jacobean dramatists. In fact, Kane borrows rather liberally from the latter, with Carl’s amputations recalling Lavinia’s in Titus Andronicus, leaving him unable to touch or talk to his lover.Despite this, Rod continues loving him. Kane once claimed that Cleansed was inspired in part by her reading Roland Barthes’ A Lover’s Discourse (1977), likening the situation of a rejected lover to ‘a prisoner in Dachau.’ Frecknall certainly seems to understand this connection, going Guantánamo-lite with a looping tape of The Kinks’ ‘Days’ and shackling her characters to radiators and walls. But Kane’s greater interest here concerns the prevailing power of love. When Graham and Grace make love (though it’s ambiguous whether this literal family romance is real or hallucinatory), a giant sunflower blooms up through the floor; later, a field of daffodils bursts out from under the stage, and Carl performs a ‘dance of love’ for Rod. Robin also earnestly declares his love for Grace while wearing her dress.According to Kane, the university setting was conceived as a place where society sought to rid itself of ‘undesirables’. Given that Thatcher’s Section 28 — prohibiting local authorities from ‘promoting the teaching of the acceptability of homosexuality as a pretended family relationship’ — was still law when Cleansed first premiered, the few moments of queer (and possibly genderqueer) tenderness are all the more heartwrenching. But read more broadly, the play also feels like a sort of rallying cry against Thatcher’s dogmatic individualism, especially her claim that there is ‘no such thing as a society’. For Kane’s characters to keep fighting for each other amidst Tinker’s relentless torment is to insist, sometimes brutally so, upon our irreducible capacity for loving.The university’s resemblance to a psychiatric facility feels particularly poignant, too. Kane’s final play 4.48 Psychosis (2000) — following an unnamed speaker’s experience of psychiatric treatment, and suicidal despair — is widely understood as her cri de coeur; she took her life shortly after its completion. Under the 1990 NHS and Community Care Act, accelerated deinstitutionalisation and closure of psychiatric facilities left many people living with severe mental health issues increasingly at the mercy of the police, prisons, and a patchwork of inadequate care services. Watching any Kane play, it’s difficult — almost impossible — to abstract her revelatory depictions of mental anguish from Thatcherism’s abandonment of those most in need of psychiatric support. While she didn’t exactly intend to be a political commentator, Kane and her in-yer-face contemporaries — Philip Ridley, Patrick Marber, Mark Ravenhill, and Martin McDonagh — have been often claimed by critics as ‘Thatcher’s Children’ and, perhaps more fittingly, as ‘Mrs Thatcher’s disenchanted children’. These were playwrights angered by the inequality and social fragmentation left over from Thatcher, unimpressed by John Major’s efforts to reverse them, and sceptical that Blair’s Cool Britannia would offer any meaningful alternative. The same may well be said about Burnham’s shiny new approach to politics. After all, his cabinet is largely a reshuffle of Keir Starmer’s own: a government that presided over two years of assaults on the trans community, the disabled, and migrants and refugees.Kane was no didactic, though we can still glean something important from her work. Her willingness to depict the extremities of human cruelty was not to argue for its inevitability, but against our indifference to it in everyday life. While I’m sceptical that Burnham will finally rid us of the ‘wrong turns’ wrought by Thatcher, I’m still holding out hope that we may rid ourselves of her ghost once and for all.

O dilema de Belo Monte: mudanças climáticas tendem a agravar conflito por água do rio Xingu

Passados dez anos desde a sua inauguração, a usina hidrelétrica de Belo Monte, no norte do Pará, continua sendo um dos projetos de infraestrutura mais contestados da Amazônia. Comunidades tradicionais afetadas pelo empreendimento relatam impactos severos aos ecossistemas e à qualidade de vida na região da Volta Grande do rio Xingu, enquanto cientistas alertam que as mudanças climáticas deverão agravar ainda mais esse quadro nas próximas décadas.

Inaugurada em 2016, Belo Monte é a segunda maior usina hidrelétrica em operação no Brasil, responsável pela produção de 5 a 10% da energia elétrica consumida no país, dependendo da época do ano e das condições climáticas. Para fazer isso, ela desvia cerca de 80% da água do rio Xingu por meio de um sistema de barragens e canais artificiais na região de Altamira (PA), direcionando-a para a geração de eletricidade. A consequência disso é que um trecho de 100 quilômetros do rio teve sua vazão drasticamente reduzida nos últimos anos, com impactos diretos sobre os ecossistemas locais e as comunidades indígenas e ribeirinhas que dependem desses recursos para a sua sobrevivência.

O que é a Volta Grande do Xingu
Trecho de 100 km do rio Xingu, na região de Altamira (PA), onde a vazão é controlada por Belo Monte desde 2016. Abriga comunidades indígenas e ribeirinhas e ecossistemas únicos de floresta alagada.

“Essa redução da vazão gera uma infinidade de problemas”, diz o geólogo André Sawakuchi, professor do Instituto de Geociências (IGC), da Universidade de São Paulo (USP), e coordenador de um projeto de pesquisa sobre o tema, apoiado pela FAPESP e pelas Fundações de Amparo à Pesquisa dos Estados do Pará e do Amazonas (Fapespa e Fapeam). Segundo ele, os efeitos da usina sobre a Volta Grande do Xingu “são muito piores do que os previstos” no processo de licenciamento, tanto do ponto de vista social quanto ambiental.

A Norte Energia, empresa responsável pelo empreendimento, por outro lado, diz que os impactos estão dentro do esperado e que não há justificativa técnica para alterar os padrões de funcionamento da usina, que produz energia elétrica para milhões de famílias em todo o país. Belo Monte foi oficialmente inaugurada em 5 de maio de 2016, com duas de suas 24 turbinas em operação. A operação completa, com todas as turbinas em funcionamento, começou três anos e meio mais tarde, em novembro de 2019.

“Parece que é um debate de narrativas, mas não é. É um debate de dados”, argumenta Sawakuchi, que também é integrante do Monitoramento Ambiental Territorial Independente (Mati), uma iniciativa de pesquisadores indígenas, ribeirinhos e acadêmicos, que há anos monitora os impactos da usina na região (leia mais em Belo Monte e estiagem secam Volta Grande do Xingu).

A licença operacional de Belo Monte venceu em novembro de 2021, mas a usina permanece em funcionamento graças a um mecanismo de renovação automática. Desde então há uma batalha jurídica e administrativa em curso, associada à renovação definitiva da licença, em que o Ministério Público Federal (MPF) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) tentam obrigar a Norte Energia a implementar um novo plano de repartição da água (hidrograma), que garanta mais recursos hídricos para as comunidades e os ecossistemas da Volta Grande.

Em dezembro de 2025, a Justiça Federal em Altamira condenou a Norte Energia e o Ibama a revisar o atual hidrograma e a estabelecer um novo regime de vazões para Belo Monte, mas o cumprimento da sentença só deve ser efetivado após o trânsito em julgado do processo — ou seja, quando não houver mais possibilidade de recurso.

Paralelamente, o Ibama já havia dado um prazo para que a empresa apresentasse um novo hidrograma até 12 de janeiro deste ano, mas a Norte Energia contestou a demanda em caráter administrativo. Em fevereiro, o prazo foi prorrogado até 13 de abril. A empresa, novamente, não apresentou um novo plano de partilha da água, argumentando que os impactos estão dentro do previsto e que a revisão do hidrograma precisaria partir de uma decisão colegiada, envolvendo o Ministério de Minas e Energia (MME), o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

Desde então, o hidrograma já adotado pela usina permanece em vigor. O MME defende a manutenção desse regime em 2026, sob o argumento de que Belo Monte tem um papel estratégico para a segurança do sistema elétrico nacional, enquanto prossegue a discussão com os órgãos ambientais sobre uma eventual revisão das vazões.

Glauco Lara

Vazão reduzida, impactos ampliados
A nota técnica mais recente do Mati, divulgada em novembro de 2025, faz uma comparação mês a mês da quantidade de água que passou pelo chamado Trecho de Vazão Reduzida (TVR) do rio Xingu — trecho de 100 km em que o fluxo do rio é controlado pela usina — antes (de 1972 a 2014) e depois (de 2016 a 2024) da inauguração de Belo Monte, com base em dados oficiais de monitoramento da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). As análises revelam alterações radicais nos padrões hidrológicos da região, não só em relação à quantidade de água disponível no rio, mas também ao momento de ocorrência (timing) e à duração das fases de enchente e vazante, que são fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas locais.

Segundo o Mati, houve meses em que a vazão média do rio chegou a ser reduzida em quase 90%, em comparação com a série histórica do período pré-barragem. A duração média dos períodos de cheia, que era de aproximadamente 80 dias por ano, caiu para apenas nove dias, enquanto os períodos de seca extrema aumentaram, em média, de 45 para 104 dias. O ano mais crítico foi 2024, com seis meses seguidos de seca extrema, em função da ocorrência de um forte El Niño — fenômeno climático global que reduz a quantidade de chuvas na Amazônia.

“Com base nesses indicadores, é notável a diminuição do período da cheia e o prolongamento da seca, que tem causado efeitos deletérios e preocupantes, e que podem continuar e até se agravar sob as condições decorrentes das mudanças climáticas em curso no planeta”, diz o relatório do Mati. O documento é assinado por mais de 40 pesquisadores e monitores, vinculados a instituições públicas de pesquisa e comunidades tradicionais da Volta Grande do Xingu, incluindo Sawakuchi. Parte dos dados que subsidiam os relatórios do grupo foi publicada em 2025 nas revistas Conservation Biology e Perspectives in Ecology and Conservation.

Carlos Mazoca/GeoHereditasLeito do rio Xingu fica naturalmente exposto durante os períodos de seca na Volta Grande. O problema é o prolongamento e o agravamento desses períodos de escassez hídrica nos trechos impactados pela usina de Belo MonteCarlos Mazoca/GeoHereditas

As projeções climáticas para as próximas décadas desenham um cenário ainda mais complicado. Estudos preveem reduções significativas de precipitação em diversas regiões da América do Sul, incluindo o sul e o leste da Amazônia, onde fica a bacia do rio Xingu, o que deverá reduzir ainda mais a quantidade de água disponível na região de Belo Monte, tanto para a produção de energia quanto para as comunidades e os ecossistemas da Volta Grande. As pesquisas levam em consideração tanto os efeitos da mudança climática quanto do desmatamento na Amazônia, que também contribui para o aumento da temperatura e a redução da precipitação nas áreas afetadas.

A redução da precipitação sobre a bacia do rio Xingu, especificamente, poderá chegar a 500 milímetros de chuva por ano até o final deste século, a depender do grau de aquecimento global, segundo projeções feitas pelo professor Nicolás Stríkis, do Instituto de Geociências da USP, com base em modelos acoplados de previsão climática. Isso reduziria a precipitação média da bacia dos atuais 1.800 mm/ano para algo entre 1.500 e 1.300 mm/ano em diversas áreas, incluindo anos de seca extrema, em que a precipitação cairia para a faixa de 800 a 900 mm/ano. “Isso é clima de Cerrado”, destaca Stríkis.

O rio Xingu nasce no leste de Mato Grosso e percorre cerca de 2 mil quilômetros até desaguar no rio Amazonas, no Pará. Sua bacia, abrangendo todos os seus afluentes, tem cerca de 530 mil quilômetros quadrados (uma área maior do que a da Espanha).

Desde a operação de Belo Monte, a duração média das cheias no rio Xingu caiu de 80 para apenas nove dias por ano, enquanto os períodos de seca extrema mais que dobraram, de 45 para 104 dias

Stríkis explica que o balanço hídrico de uma bacia hidrográfica depende essencialmente de dois fatores: precipitação e evapotranspiração — em outras palavras, a quantidade de água que entra no sistema por meio da chuva e a quantidade de água que sai do sistema por meio da evaporação e da transpiração das plantas. Se entra mais água do que sai, o balanço é positivo. Se sai mais água do que entra, é negativo. A temperatura é outro fator importante: quanto mais quente o clima, maior é a evapotranspiração.

Na bacia do rio Xingu, a tendência já é de queda há alguns anos. “O resumo da ópera é que a partir dos anos 2000 a gente começa a ter balanços hídricos negativos, e a tendência é que eles se tornem cada vez mais negativos daqui para a frente. Ou seja, o rio está secando”, afirma o professor da USP. Os dados dessa modelagem ainda não foram publicados em revista científica, mas são condizentes com os achados de diversos estudos publicados em periódicos de prestígio recentemente.

Um estudo publicado em março deste ano no International Journal of Climatology, por exemplo, projeta um aumento significativo na duração e na intensidade das estações secas da Amazônia nas próximas décadas, com impactos negativos sobre a disponibilidade hídrica e a capacidade da floresta de resistir a incêndios e estocar carbono. A pesquisa foi liderada por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos (SP), com apoio da FAPESP (leia mais em notícia da Agência FAPESP).

André Sawakuchi/Mati-VGXRaimundo da Cruz e Silva, morador da Volta Grande do Xingu, mostra um canal do rio Xingu que leva água para áreas que funcionam como bercários naturais para peixes na comunidade Goianinho, cujos ciclos de inundação foram prejudicados desde a inauguração da usinaAndré Sawakuchi/Mati-VGX

Procurada pela reportagem, a empresa responsável pela usina contestou as análises do Mati. “A Norte Energia, após detida análise técnica dos estudos apresentados, identificou lacunas metodológicas, ausência de detalhamento do delineamento amostral e indisponibilidade do banco de dados bruto, fatores que fragilizam as inferências apresentadas no estudo [e], logo, suas conclusões”, afirma a empresa. Em resposta a uma solicitação do Ibama, em abril deste ano, a Norte Energia também afirmou que o relatório do Mati possui “limitações relevantes de natureza científica, metodológica e regulatória.

“Empreendimento de morte”
Os dados do Mati foram apresentados na trigésima Conferência das Partes (COP 30) da Convenção sobre Mudanças Climáticas da ONU, realizada em Belém do Pará, em novembro de 2025, no âmbito de uma série de seminários sobre Belo Monte, organizada pelo MPF.

Além da menor disponibilidade de água, a barragem alterou sobremaneira a duração e o timing do chamado pulso de inundação sazonal, que é quando as águas do rio transbordam mata adentro, formando os chamados igapós (trechos de floresta alagada), que são cruciais para a reprodução de diversas espécies de peixes. Normalmente, a água começaria a subir em novembro, até atingir um pico de cheia em abril. Depois começaria a descer de novo, até atingir um pico de seca em outubro. Agora, nem as populações locais e as plantas nem os animais sabem quando esses pulsos vão acontecer ou quanto tempo vão durar, porque a vazão do rio no trecho da Volta Grande passou a ser regulada pela operação da usina, e não mais pela natureza.

Glauco Lara

O resultado, segundo os pesquisadores do Mati, é um cenário de escassez hídrica extrema, que compromete a sobrevivência dos ecossistemas, da biodiversidade e dos milhares de famílias de populações indígenas e ribeirinhas da Volta Grande do Xingu. Não há um dado oficial sobre o número de pessoas atingidas por Belo Monte no Trecho de Vazão Reduzida, mas as estimativas variam de 3 a 6 mil.

A quantidade de peixes diminuiu radicalmente, comprometendo o sustento e a segurança alimentar das comunidades locais. A locomoção, a disponibilidade de água potável e o acesso a serviços de saúde também foram seriamente prejudicados, segundo os moradores, já que muitos trechos do rio se tornaram quase intransponíveis durante vários meses do ano, por causa do prolongamento das secas. Trechos de floresta inundada que eram usados pelos peixes como áreas de reprodução e berçários naturais (“piracemas”, como se diz localmente) hoje estão inacessíveis aos animais, ou porque não alagam mais ou porque não ficam mais inundados pelo tempo suficiente para que esses ciclos reprodutivos se completem.

“Onde a gente saía para pescar antigamente, hoje em dia não consegue mais, porque o nível do rio baixou”, disse o líder indígena Adalto Arara, da Terra Indígena Arara da Volta Grande do Xingu, em um dos seminários promovidos pelo MPF na COP 30. A construção da usina hidrelétrica, segundo ele, “mudou completamente o modo de vida” das populações locais. “Hoje em dia a gente tem que desmatar para fazer roça, para plantar cacau, para tirar nossa renda; por falta de opção. De pescadores, nós viramos agricultores”, completou a jovem indígena Kãyure Juruna, da Terra Indígena Paquiçamba. “(Belo Monte) destruiu toda a nossa vida. Não foi só uma coisa nem outra, foi tudo; porque a gente dependia do rio para tudo.”

“Belo Monte só nos trouxe desastre, em todos os aspectos; a gente não sabe mais como sobreviver naquela localidade”, reforçou Orcylene Reis, moradora de uma comunidade ribeirinha do rio Bacajá, que deságua no Xingu. “Antes do barramento, era uma coisa muito fácil: você ia para o rio e pescava caixas e caixas de peixe. Hoje em dia, o pescador da Volta Grande do Xingu morre de fome.”

Carlos Mazoca/GeoHereditasRedução da vazão do rio Xingu causada pela usina de Belo Monte impactou a vida de diversas comunidades ribeirinhas da Volta GrandeCarlos Mazoca/GeoHereditas

A procuradora Thaís Santi, do MPF em Altamira, que conduziu os seminários sobre Belo Monte na COP 30, descreveu a usina como um “empreendimento de morte”. “A destruição dos meios de vida, a destruição dos ecossistemas, retira dessas populações as condições de existência. E não é (só) a condição econômica de existência, é a condição de existência enquanto povo”, disse a procuradora. “Portanto, não há como (…) separar os conceitos de ecocídio, genocídio, etnocídio. É morte.”

Josiel Juruna, coordenador do Mati e vice-liderança da aldeia Mïratu, na Terra Indígena Paquiçamba, disse que monitorar os impactos da usina equivale a “monitorar a morte de um rio”, e que a Volta Grande está se aproximando de um “ponto sem volta”. “Se a gente não tomar uma atitude […], a gente vai perder esse ecossistema. Se a gente perder esse ecossistema, a gente vai perder todo um povo que mora naquela região, toda uma tradição que tem naquela região, tanto indígena como ribeirinho, assim como algumas pessoas quilombolas, que dependem também do rio. Então, a gente vai perder tudo isso”, disse.

A Norte Energia rebate as críticas e questiona a credibilidade técnica dos dados do monitoramento local. “Ainda que os estudos do Mati possam oferecer percepções complementares, não possuem consistência metodológica e transparência para embasar, por si só, alterações no Hidrograma de Consenso”, argumenta a empresa, em uma nota técnica de dezembro de 2025.

A empresa nega que a usina esteja causando impactos significativos nos ecossistemas ou no modo de vida das comunidades locais, argumentando que os dados do monitoramento conduzido pela própria operadora mostram um cenário diferente. “Quando flora (plantas), ictiofauna (peixes), pesca e quelônios (cágados, tartarugas e jabutis) são avaliados de forma integrada […], os quatro componentes demonstram que não houve ruptura ecológica, perda irreversível de habitats, extinção local de espécies ou interrupção de ciclos reprodutivos”, diz a Norte Energia, em uma outra nota técnica, também elaborada em resposta aos questionamentos do Ibama. Segundo a empresa, o que se observa é “um sistema em reorganização, exatamente como previsto no EIA (Estudo de Impacto Ambiental) e coerente com o comportamento de grandes rios após regulação hidrológica.” Em nota enviada à reportagem, a Norte Energia disse que monitora as condições de vida das famílias do Trecho de Vazão Reduzida desde 2012 e desenvolve “um conjunto abrangente de programas e ações socioambientais” na região, com o objetivo de “prevenir, mitigar e compensar eventuais impactos decorrentes da operação do empreendimento”. (Leia a íntegra na nota da empresa aqui)

Hidrograma em xeque
A quantidade de água que Belo Monte pode desviar do rio Xingu para a produção de energia a cada mês é condicionada a um plano batizado de Hidrograma de Consenso, que estipula valores mínimos de vazão para o Trecho de Vazão Reduzida (TVR). Esse hidrograma tem duas versões (A e B), que deveriam ser alternadas anualmente para, supostamente, garantir a sobrevivência dos ecossistemas e das comunidades da Volta Grande.

Pelo Hidrograma A, a usina é obrigada a liberar uma média mínima de 4 mil metros cúbicos por segundo (m3/s) de água para o TVR no mês de abril, que representa o pico da cheia. Pelo Hidrograma B, essa média mínima obrigatória é de 8 mil m3/s. Os valores são diferentes para cada mês, chegando a 700 m3/s em outubro, no auge do período de seca.

Esses valores foram definidos no processo de licenciamento ambiental da usina, mas o volume previsto no Hidrograma A é tão baixo que nunca chegou a ser implementado, por determinação do Ibama. Desde novembro de 2019, quando todas as turbinas de Belo Monte entraram em operação, a usina trabalha apenas com o Hidrograma B, que permanece em vigor em 2026, enquanto prossegue a discussão sobre sua revisão. Ainda assim, estudos científicos e relatos de moradores indicam que as vazões previstas nesse hidrograma são insuficientes para manter vivos os ecossistemas da região.

Segundo o Mati, a média histórica da vazão natural do Xingu no TVR em abril, por exemplo, era de 19 mil m3/s — ou seja, mais que o dobro do mínimo previsto no Hidrograma B. A vazão média efetivamente liberada pela usina para aquele mês no período de 2016 a 2024, segundo o relatório do grupo, foi de 11.750 m3/s.

Glauco Lara

Além dos baixos volumes de água, segundo os pesquisadores, o hidrograma não respeita a temporalidade dos pulsos naturais de inundação do rio. “Fica evidente que a imposição de um regime hidrológico baseado em médias mensais, com enchente tardia e cheia limitada a 8.000 m³/s apenas durante o mês de abril, com vários meses de atraso em relação à enchente natural, que iniciava em novembro, compromete profundamente a reprodução dos peixes, as interações tróficas da fauna aquática e a integridade da floresta alagável”, aponta outra nota técnica do Mati, divulgada em junho de 2025, sobre os impactos ambientais da usina.

“Esses relatórios têm essa intenção, de contestar dados oficiais da Norte Energia, que tentam mascarar os impactos e dizer que está tudo bem”, diz a pesquisadora Renata Utsunomiya, integrante do Mati e doutora em ciência ambiental pelo Instituto de Energia e Ambiente (IEE), da USP.

“Além do nível de inundação da cheia, destaca-se a importância da temporalidade e da duração do pulso de inundação. Para que os ciclos ecológicos se completem é necessário que a cheia tenha início mais cedo e que o nível de cheia se mantenha elevado por pelo menos três meses consecutivos”, diz a nota do Mati. O documento propõe a adoção de um hidrograma alternativo, em que o volume de água liberado pela usina para o TVR aumentaria gradualmente a partir de novembro, chegando a 14 mil m³/s em abril, e caindo gradativamente para 850 m³/s em outubro.

Outra proposta, apresentada pelo grupo na nota de novembro, seria adotar um esquema de partilha da água baseado em porcentagens fixas, em vez de volumes específicos de água para cada mês. Nesse caso, segundo a proposta do Mati, 30% da água seria reservada para a produção de energia e 70%, para a Volta Grande do Xingu. Dessa forma, o volume de água efetivamente desviado para cada função variaria de acordo com a vazão natural do rio, e não com as necessidades da usina.

“Antes do barramento, você ia para o rio e pescava caixas e caixas de peixe. Hoje em dia, o pescador a Volta Grande morre de fome” – Orcylene Reis, moradora de uma comunidade ribeirinha do rio Bacajá

O problema, do ponto de vista energético, é que haveria menos água em determinados momentos para a geração de eletricidade, especialmente nos meses de seca. Isso poderia reduzir a produção da usina, que é uma peça fundamental do sistema elétrico nacional. Na virada do ano de 2025 para 2026, em meio a uma forte onda de calor no Sudeste, Belo Monte chegou a gerar mais de 9% da energia elétrica consumida no país, segundo a Norte Energia. E já houve momentos em que esse percentual passou de 10%.

O desafio, segundo Utsunomiya, é encontrar uma solução que contemple tanto a sobrevivência socioambiental da Volta Grande do Xingu quanto as necessidades energéticas do país. Uma discussão que, segundo ela, precisa contemplar outras fontes de energia limpa, como solar e eólica, além da hidreletricidade — que também pode gerar impactos sociais e ambientais expressivos, apesar de emitir menos carbono para a atmosfera, como mostra o caso de Belo Monte.

“Quando você coloca esses impactos socioambientais na balança, a hidrelétrica não vale a pena”, avalia Sawakuchi, do Instituto de Geociências da USP. “Esses efeitos negativos regionais são muito maiores do que qualquer ganho por redução de emissões de gases do efeito estufa para a atmosfera.” No caso de Belo Monte, segundo ele, até mesmo uma usina termoelétrica seria preferível ao que foi feito na Volta Grande. “Todas as grandes hidrelétricas do Brasil são dependentes da monção da América do Sul; e as projeções climáticas apontam para uma redução de vazão nas bacias de drenagem que abrigam essas grandes hidrelétricas. Então, não é só uma questão de conservar a biodiversidade aquática e as florestas alagáveis da Amazônia. É uma questão de segurança energética também.”

A Norte Energia disse que “acompanha com atenção os estudos científicos acerca do tema [das mudanças climáticas] e seus potenciais impactos sobre os regimes hidrológicos da Amazônia”, e que esses cenários são considerados no planejamento operacional de longo prazo e na gestão de riscos do empreendimento, “como ocorre em todo o setor elétrico”. O desafio de conciliar a geração de energia com a disponibilidade cada vez mais incerta de água no Xingu, portanto, deverá permanecer no centro das discussões sobre o futuro de Belo Monte.

India’s Cockroach Movement Is Just Getting Started

Since the Chief Justice of the Indian Supreme Court, Surya Kant, described the country’s unemployed youth as ‘parasites’ and ‘cockroaches’, state forces have shot, beaten, tear-gassed, hospitalised, imprisoned, doxed and harassed the school-age students who took to the streets to denounce the broken education system.

Yet this movement, which quickly adopted the name ‘Cockroach Janta Party’, has nevertheless gained strength, mobilising tens of thousands and giving voice to millions more. As it channeled widespread anger at the corruption and cruelty of the ruling BJP, it sent shockwaves through the establishment, toppling the notoriously venal education minister, Dharmendra Pradhan, earlier this month.

Now, following this crucial victory, the Cockroach movement has reached a transition point. Its cadre who feel that the central government is no longer listening have called for a march in Delhi on 5 September, and some are travelling across the country to support local student protests that have continued to rage since the minister resigned.

One of the activists at the centre of the movement is Danish Ali, a student leader and organiser in Delhi who went on hunger strike at the height of the revolt. Threats from the government levelled at her and her family have not weakened her resolve. While traveling on a solidarity tour through the state of Bihar, she spoke to Tribune about the rising anger and desperation in Modi’s India, the evolving tactics and objectives of the Cockroach Movement, and where it goes from here.


Evan Robins

Why did you get involved in the Cockroach movement?

Danish Ali

As a young person in India, you just feel very disheartened. You feel like your life will never improve. The BJP has deliberately destroyed the education system, and here the leaking of exam papers — which gave rise to this movement — is one of the key issues. Leaks mean that students are required to re-take their exams, which naturally causes outrage. Earlier this year, the National Eligibility cum Entrance Test (NEET) paper, which one has to take for entry to medical college, was leaked. That same paper was also leaked two years prior. I myself had to sit for a re-examination after a different paper was leaked in 2024. It’s become a tradition in this country.

This is happening not only at the national level but also at the state level, where many state jobs require an entrance exam. There are serious issues around these jobs. One is that vacancies are becoming increasingly scarce. Another is that there is already a long delay to find out if you passed the exam. If a government exam happens in 2026, then the result will come out years later, maybe by 2028. Between the leaks and the delays, many people who’ve been continuously preparing and betting their whole future on the exams are disappointed. You simply cannot trust the examination system of this country anymore. You cannot believe that if you are meritorious enough, if you work hard enough, that you will have a better life.

Beyond that, the country’s educational spaces are physically crumbling, especially in government schools. There aren’t enough classrooms or enough teachers. There are no laboratories, no libraries and no playgrounds. The BJP government has deliberately created this situation and uses it as an excuse to close government schools around the country. A new study shows that more than 90,000 government schools have been closed over the last decade, an average of around twenty-five a day. The students who go to these schools come from very marginalised backgrounds and cannot afford private school.

Colleges and universities are also in a very bad shape. Jawaharlal Nehru University (JNU), for example, is one of the top universities in the country. But if you go to JNU, you find that the hostels and classrooms are in disrepair. Ceiling fans fall on the heads of students. In one case, the ceiling itself fell down. That’s a top university, so just imagine the condition of the state level universities.

Funding cuts are one of the main causes of decline. Student organisations have been demanding that the central budget expenditure on education be increased to at least 10 percent. Right now, it’s not even near 3 percent. But instead of increasing this figure, the government is trying to force institutions to generate their own funding, and that leads to fee hikes. As a result the students who can’t afford the higher fees don’t go to higher education institutions at all.

The government is trying to destroy the very idea of public education; they want to privatise the system and sell education as a commodity. They are comfortable, to say the least, with all the corruption in the system. When we started this movement, we wanted to snatch that comfort away. We wanted to tell corrupt ministers that someone has to take responsibility for the paper leaks, which are so devastating that they cause some students to commit suicide. As the person sitting at the top of the education system, we believed the education minister himself needed to resign.

Evan Robins

What has been your role in the movement?

Danish Ali

I’m a doctoral student at JNU, where I’m the joint secretary of the students’ union. I’m also connected to a student organisation, the All India Students’ Association (AISA), which has been continuously raising these issues for decades. Back when the previous paper leak happened in 2024, we went to Jantar Mantar, organised a sit-in for ten days and were detained by the Delhi police.

There was initially a lot of doubt and scepticism among students, and among many people in general about the Cockroach movement, especially because of the narratives peddled by Godi media and the BJP IT cell. Many people questioned Abhijee Dipke, the thirty-year old founder of the Cockroach Janta Party, who left Boston University to return to India and lead the protests. ‘Who is he?’ ‘What are his motives?’ I also had those doubts, as did my organisation. But we knew we had to come together and fight.

Evan Robins

How has the movement developed over the last several months?

Danish Ali

Because the movement started as a kind of an internet phenomenon, as a meme, many people said that it wouldn’t translate into a genuine mobilisation. There were real concerns that people wouldn’t show up for the first big protest on 6 June. But thousands of people from around the country arrived in Jantar Matar in Delhi that day, and it was a big success. After that, we started seeing student protests across India: Uttar Pradesh, Bihar, Bangalore and Pune.

Despite this, the government still refused to open any lines of dialogue with us. On 20 June, protests again started at Jantar Mantar, and we decided to shift to a sit-in protest. When the government remained unresponsive, the activist Sonam Wangchuk went on a hunger strike and I decided to join him, along with five others in my organisation.

This was the peak of summer in India. There was so much heat and humidity during the day. At night, the rain would destroy our tents. The police were a constant threat. They declared the protest illegal and tried to get us to move out. But somehow we continued. On the seventh day of my hunger strike I had to be hospitalised because my body stopped retaining water and my blood sugar was dangerously low. Some of the others continued for twenty-three days.

In the early morning hours of the twenty-first day of the hunger strike, the Delhi police used white sheets to hide the main stage area and brutally dragged Wangchuk away. The image was haunting. After seeing how the government treated the hunger strikers, the movement gained a lot of support from across the country and internationally, including from politicians, actors and singers. So we called the Parliament march for 20 July. On that day, even Jantar Mantar became small, because so many people turned up. In my own estimation, it was more than 100,000, even though many people were not allowed to get to the protest site.

Evan Robins

What kind of repression did you face that day?

Danish Ali

On the night of the 19th, the police started barricading the gates to our campus. Students were stopped at their places of residence and prevented from going to the protest site. Then, when the march started, the police brutally cracked down and there was a lot of lathi-charge.

The protests, it should be said, have been peaceful from day one. Dipke has always focused on the non-violent character of the movement. At Jantar Mantar, it was the police, not the people, who were violent. They used water cannons, tear gas, and for the very first time, pellet guns in the centre of Delhi, which they’ve used on protestors in Kashmir for about a decade.

The next day, I visited many hospitals in Delhi where I met victims of this police violence. I met at least two students who were injured by the pellet guns, even though the Delhi police initially claimed they didn’t use them. There was pressure from the government to prevent the real number of casualties from coming out. The medical staff and the police both refused to tell us anything. They didn’t want the media to report that thousands of students were hurt and admitted to the hospitals around the city.

The government and the police might have thought that that kind of violence would intimidate us, and perhaps that it would prevent more students from joining. The opposite happened. People got even angrier with the government because of how they dealt with us.

After 20 July, the crowd swelled. Thousands and thousands of students came to Jantar Mantar each day and stayed there from morning until night. From that point on, the protestors were not only demanding the resignation of the education minister, but started demanding the resignation of Amit Shah, the minister of home affairs, and even Prime Minister Narendra Modi. The government understood that if they didn’t let the education minister go, the anger of the protestors would be turned against the government itself. That’s why the resignation happened.

Evan Robins

What’s happened since the education minister resigned?

Danish Ali

Now the focus has shifted away from Delhi and Jantar Mantar to the student-led movements happening across India. I’m currently in Bihar, in the capital city of Patna, where a movement against paper leaks has been going on for at least twenty days and there are students on hunger strike. In Jharkhand, there was a twenty-five day sit-in and also a hunger strike before the government had to relent to the students’ demands.

Protests are happening everywhere because this was never just about the NEET exam. This is about the corruption of this government in general, and particularly in the education system. This frustration is still there, and students are still fighting.

I should also say that there has since been intense targeting of the students who participated in the Jantar Mantar protest. The police went to my very small ancestral village and threatened my relatives. My father got a call from the police in which he was instructed to control me and to tell me that I better focus on my studies and not take part in politics. Otherwise, there would be serious consequences for my actions. My education would be ruined, my career ruined, my life ruined, they said.

This happened to so many of us, especially the women. We’ve faced online harassment by the BJP IT cell pages. Every other day we receive rape threats and death threats from BJP supporters. Our personal information, like our contact numbers and our social media, has been made public and we’ve been doxed. Modi even made a video in which he said that he got culture shock seeing women openly abuse him, mock him and critique him.

One of the beautiful things about this protest was that so many young women turned up and became the face of the movement. That’s something that the patriarchal attitude of the BJP and the RSS simply cannot tolerate.

Evan Robins

What are you hoping to achieve on this solidarity tour to Bihar?

Danish Ali

The idea of the tour is that we should listen to each other as students and come together to decide how we are going to continue this fight. We’ve named it the Student Youth Parliament.

We started our tour on 11 July in Bihar, which is a very poor state. Here, people have to migrate out of the state in order to find work, because the state government cannot provide them employment. The students here were frustrated about the leaks and scams, but also with the way the government was treating the students who went out into the streets to protest. When these students themselves began protesting, the repression was very intense. The police even used AK-47 guns on them in a small town called Siwan. I personally met three students who had bullet injuries. From there, we’ve been visiting different villages and cities of the state, trying to coordinate with the students who have their own particular demands, like those on hunger strike here in Patna.

This government is increasingly dictatorial. I would call it a fascist regime. It has captured all the democratic institutions in this country — the electoral commission, the justice system, the media, the army and the police. If we want to resist this kind of government, we have to come together, forget our small differences and collectively struggle against their policies. My organisation, AISA, has been planning the future of this movement since the protest at Jantar Mantar concluded. Our president, Neha Bora, is also on tour visiting different places like Hyderabad, Bangalore, Kerala and Mumbai.

When students in Bihar are protesting, students in other states must be in solidarity with them. When we were sitting at Jantar Mantar, students joined us from Bihar, Kashmir, the northeast, Tamil Nadu, Kerala, and more. We understand that only by coming together can we be a strong force against this government, and through our efforts, actually push the government out of power.

Evan Robins

The BJP lost by-elections earlier this month in Bankipur, Bihar and Datia, Madhya Pradesh. These are places where the party usually wins, and opposition figures have credited the protests with these results. What’s your read on the movement’s ability to dislodge the BJP electorally?

Danish Ali

When the Modi government came to power twelve years ago it claimed an overwhelming mandate. But in the last two or three years, and especially since the recent protests, it is no longer confident about its popular base. When we were on hunger strike, so many people came to tell us that they used to be supporters of BJP but they’ve now come to the conclusion that this government is not doing the country any good. One man came to us and said that he had voted for BJP, but that his child — a NEET aspirant — had committed suicide, and he believed the government’s corruption was to blame.

The popular frustration is not just about education. As the government stokes hatred against Muslims, mob lynchings are happening and other forms of arbitrary violence have become more common. There are few protections, and there is no justice. It’s much the same for dalits and lower caste people who are being killed and mistreated, and for women who are facing all manner of attacks. This is a government that is constantly rewarding ministers who have rape charges against them. Every other day, you hear ministers making grotesque misogynistic statements. Crime against women has significantly increased; we constantly hear about a rape that has happened in this town or in that town, in that city or in this city. We don’t feel safe in this country anymore. The government also passed an anti-transgender bill earlier this year which removed the right to gender self-identification. Workers, too, have been hit by the government’s regressive policies. The new labour codes were pushed through without even the most basic consultation with the people they will affect. The farmers are suffering after the government has rowed back on promises after the major protests that erupted in 2020.

So the reality of Modi’s India is very different to the image he projects. It won’t be easy to change this when so many people are suffering. But if we don’t challenge the government, we’ll all be suffering for years to come.

Monuments of the People

The patchwork is made up of sequins, leather, appliqued short shorts and rainbow thread. Each of its forty-two composite panels is distinctive, their colours jostling side by side in a pattern that immediately overwhelms the viewer, as deep magenta rolls into sunburst red and cobalt blue into funereal black. Together, they represent more than five hundred truncated lives. One of the personalised memorials, for a man named Andy, features defiantly unsentimental tributes from dozens of friends: ‘I’ll miss you always from a fellow BITCH!’; the one beside it is obscured by an austere notice which states that ‘The Parents do not want this panel shown anywhere’.The UK AIDS Memorial Quilt, now on display at the Wakefield Exchange, with some panels at neighbouring cultural venues, captures a complex form of communality. Lining the walls and floor of the 1,200 square-metre hall, it is a tribute to those who died — mostly in the UK, many at a very young age — from AIDS-related illnesses in the 1980s and 1990s. Put together by friends, relatives and community members, this polyphonic work spotlights the intimate details of some victims while preserving the anonymity of others, turning emblems of individual loss into a collective monument. Everyone is presented as equal, and as part of a devastating whole.It’s not easy to think of any piece of comparable political and aesthetic significance made by a disparate group of ordinary people. Some panels, like the rhinestone-clad memorial for dance artist Sylvester, are meticulously wrought; some are strung together from old bedsheets and collaged with souvenirs, printed photographs and scraps of clothing. Famous names like Bruce Chatwin, Mark Ashton and Freddie Mercury neighbour unknown ones, along with homages to the hospices and care centres that looked after them in their final months. The panels’ creators are rarely credited beyond occasional stitched signatures. As I move through the room, I wonder if some of them might be among those walking alongside me.When it was announced that Wakefield would be the exhibition’s first destination outside London, it seemed to reflect how much my hometown’s cultural life, and queer life, had improved over the past two decades. I left Wakefield in 2006. At the time it seemed impossible to set up a creative practice there or find a queer community outside my existing circle of friends. There were some arts foundation courses and music spaces in the city, and a small number of cultural institutions like Bretton College and the Yorkshire Sculpture Park formed a creative enclave on its rural periphery. But to sustain any kind of artistic aspirations one had to seek out the more populous world of studios and galleries in Leeds, Sheffield and Manchester — or further afield in Glasgow, where I went to art school.This began to change in the early 2010s with the opening of the Hepworth Wakefield, a new gallery named for the Wakefield-born sculptor, which now houses temporary exhibitions alongside the city’s municipal collection. Two years later, an accessible arts charity called The Art House got funding to create public exhibition space and studios for over fifty artists. Other initiatives began to take off, from a studio collective on the main nightlife street to a specialist neon art workshop, and eventually the council’s ‘Public Art Framework’ to build on the city’s reputation as an important destination for sculpture. A vibrant grassroots arts scene, spanning bimonthly open studio events and an LGBT community gallery in Kirkgate railway station, brings the city’s pockets of creative energy into the culture at large. With the rose-tinted view of an outsider looking back at their hometown, Wakefield suddenly seemed to be thriving, to a degree that would have been unimaginable when I was a teenager.Yet it was impossible to see the UK AIDS Memorial Quilt this summer without feeling that this progress was tainted. A month earlier, Reform UK were elected to run Wakefield Council after more than five decades of continuous Labour control. Wakefield handed the right-wing populist party the largest council majority in the UK, with fifty-eight Reform councillors to just five from other parties (although at time of writing two Reform councillors have since defected from the party).It felt like a parasite had been brought into this delicate ecosystem. The vote was a protest against the sitting Labour government, and against the incumbent council which had cut services — including the arts — in the wake of the pandemic. The multi-venue festival Long Division closed down after twelve years, as did the queer cultural centre Our House. It’s a pattern that has played out across Britain’s urban centres, as piecemeal attempts to rebuild creative civic life have come up against the juggernaut of austerity, ensuring that local cultural revivals are short-lived, especially in cities with pinched budgets and fragile infrastructure. The quilt was made at a time when the two intrinsically connected worlds of marginalised people and the arts were both suffering from a lack of public provision. Now Farageism promises to deepen this institutional neglect. The party that claims to defend ‘British culture’ has no plan for the industries that sustain it, which didn’t get a mention in any of Reform’s local elections literature, apart from the suggestion that museums should be forced to present its approved version of national history. It is waging a uniquely cultureless kind of culture war, via the hollowest forms of popular media: crankish podcasts, late-night comedy, rolling news broadcasts, social platforms. The recent decision by the Reform council in Kent to sell off over 700 publicly owned artworks epitomises its numbness to aesthetic life.It’s unclear whether places like Wakefield Exchange — a multi-use, council-operated arts venue on the site of a former market — can survive under a Reform-led council. In the foyer of the building, local HIV and AIDS groups set up stalls and conducted pop-up tests: the kind of services that are already endangered in a country where queer and specifically trans people are denied basic healthcare. Access is likely to be even more restricted under a Reform regime, which may well target the sites of solidarity where those on the wrong side of its cultural onslaught can seek out mutual support. The far right’s gambit is to present arts institutions and the communities that cluster around them as symbols of an ‘elite’ that is remote from the general public. But it has no clear image of mass British culture to offer up as an alternative. Reform’s so-called populism is a purely negative politics; an ideology that makes an enemy of learning, joy, connection, unfamiliar experiences: everything that exposure to properly funded culture can bring. The party’s assault on the supposed excesses of cultural progressivism damages the local spaces that are essential to people’s sense of place — undermining the very sense of belonging that it claims to representIt might seem strange to describe the UK AIDS Memorial Quilt as a great work of populist art, but that’s precisely what it is: an organic, collective project that elevates craft and folk skills over professionalism, and constructs a people in opposition to a queerphobic state. It makes for a telling contrast with the false populism of Reform, whose rhetorical anti-elitism is betrayed by its real record. Viewing the work is a curious experience. It feels at once like sombre introspection and collective celebration. The state failed all these people, but others came together — the creators of the panels, the culture workers who preserve them, the visitors who gathered in Wakefield — to build something in their honour. This is populism as communal creative expression, a force of expansion rather than insularity. Even in Reform’s supposed heartland, there are reminders of what a genuine movement of the people looks like.

Saving English

Andy Burnham is a Cambridge man. In 1991 he left Fitzwilliam College with a respectable 2.1 degree in English. Has he noticed that the subject he studied is now fighting for its life? Since Burnham graduated, it has gone from being the most popular choice at A levels to a discipline in existential crisis. This is not just a local academic issue but a major national problem — marking the decline of the humanities from which society as a whole is suffering.Universities and colleges are targeting English departments for severe cuts or closing them altogether. Even prestigious Russell Group institutions like Exeter are not safe; it has recently announced hundreds of job cuts that fall disproportionately on the humanities, with English set to lose 25 percent of its staff. Birkbeck drastically reduced its workforce while repurposing and renaming its department. Goldsmiths has placed key programmes in jeopardy. The same patterns have played out elsewhere, with English often merged into other disciplines for the sake of cost-cutting.Professional institutions aplenty have highlighted the scale of the crisis: the British Academy, the Institute for English Studies, the English Association, University English. Prominent writers have done the same. But there has been no concerted public campaign and politicians have not listened. It looks set to be more of the same with Burnham, who, despite his own academic background, wants to accelerate the transition to ‘vocational’ learning: allowing the humanities to die so that higher education can be reoriented towards the demands of the labour market. In Manchester, Burnham pushed through the MBACC qualification which forces children to make career choices at fourteen – setting them on a life trajectory before they have been exposed to so much of what culture has to offer, in a regression to Victorian norms of education. Now he is imposing this Gradgrind agenda across the country, pushing jobs-based syllabus that tries to draw a hard distinction between subjects that are ‘useful’ and those that aren’t (based, of course, on what employers want). It’s clear which category English falls into. So we are left with a strange paradox. English is a global language with 1.49 billion speakers. It has long been unquestioningly, maybe excessively revered as the mother tongue of Milton, Blake, Austen, Dickens and Woolf, and it has gradually become the world’s default way of communicating, in fields from diplomacy to aviation, business to tourism. Omnipresent across trade, science, law and international treaties, it has expanded even further thanks to the internet. This linguistic hegemony has acted as a readymade form of British softpower. And yet its country of origin is making strenuous efforts to eliminate it as a serious discipline. As it continues to spread abroad, English has atrophied at home. It helps to remember how this cultural vandalism started. First, Michael Gove’s 2014 reforms replaced a secondary school system based on continuous assessment, modular exams and course work with one solely focused on rote examination, while at the same time narrowing the curriculum. Open-ended reading was no longer a key part of literary education. Primary schools prepared for this new regime by shifting teaching towards spelling, punctuation, grammar and computer coding, in lieu of more creative approaches. While social media has often been blamed for the dearth of reading among children, it’s clear that the excruciating boredom of the syllabus bears much responsibility. Enjoyment, that spur to learning, has disappeared Second, a false dichotomy has been set up between the world of STEM (Science, Technology, Engineering, Mathematics) and that of SHAPE (Social Sciences, Humanities and Arts for the People and Economy). This has fuelled the perception of English as irrelevant in the contemporary world, when it is surely more important than ever. In the age of the polycrisis, when many of the old structures and certainties are crumbling, it is essential to cultivate one’s faculties for critical thought, lucid analysis, ethical judgement and imaginative expansion. To teach English, both at an early and at an advanced level, is to empower someone with a living language that opens up the expressive and analytical power of words: to give someone the training they need to turn their everyday means of communication into a creative medium. A society needs to have this kind of collective living language. You might be a Geordie, a Brummie, a speaker of so-called ‘standard’ English or a non-native one, but you will inevitably engage in various acts of linguistic recognition: in a process of dialogue between distinct communities of language users in which they respond to and learn from one another. Becoming aware of and attentive to one’s language strengthens this social process. It also sharpens the ability to recognise when language is abused: to defend against the inauthentic uses of language, whether it’s the propaganda of politicians, the subtle untruths of the media, or the alienation of AI.A shared language, moreover, allows all of us to become participants in our cultural traditions. Literature is a culture’s way of understanding itself over the shifting course of history. It is not our ‘cultural heritage’ in a static and remote sense, but a dynamic corpus of texts that is continually being revised and constantly finding new relevance. Every reader unfreezes literature’s history so that it can mean something for the present. It’s obvious that these areas of expertise carry over to the workplace, if that’s where one wants to take them. But there is also a third element that is supremely important for civil society. It is not possible to teach English without dialogue between the teacher and the student, and indeed between the students themselves. The core of the discipline is group discussion: collective analysis of the text and enquiry into it, a shared analysis of language, which recognises that knowledge emerges not through some purely private, inward-looking process but through praxis, usage, interchange. Students who understand this dialogism can then better understand how to negotiate with one another in a democratic society, how to use their intellectual resources and political imaginations to persuade, articulate, criticise and convince. This is a capacity that needs to be protected in light of a rising far right that wants to destroy our collective cultures, and an increasingly repressive state that wants to criminalise those it disagrees with. If politicians like Burnham refuse to understand the unique abilities that studying English can instil, then others will have to come to their defence.
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